Phantomhive
23 Os Pecados do Passado – Parte V
Notas iniciais
Capítulo 23: Os Pecados do Passado – Parte V
Londres, 1898
Estava perto do entardecer. As carruagens e as pessoas caminhavam nas ruas indo para casa, outros se preparavam para cair na noite. Ainda havia operários trabalhando nas fábricas e policiais rondando as ruas calçadas de paralelepípedos. As lâmpadas dos postes já estavam sendo acesas. E duas figuras curiosas andavam sobre os telhados sem que ninguém os notasse. Avançavam com rapidez até pararem mais adiante.
– É ali – Undertaker indicou uma enorme igreja. Ele e Sebastian estavam sobre o telhado de uma casa do outro lado da rua. – Pode ir até lá tirar a prova se quiser.
Não era necessário. A imagem da igreja pareceu turva aos olhos do akuma, depois foi ficando cada vez mais nítida. Mesmo naquela distância, ele podia sentir que não conseguiria entrar ali. Se o shinigami não tivesse apontado diretamente para ela, a construção lhe passaria despercebida. Lembrava-se de já ter passado por ali antes, a mando de Ciel, mas não tinha visto a igreja. Com certeza era o lugar certo.
– Está protegida contra demônios.
– Contra demônios não. Contra akumas. Devem saber sobre você, caro mordomo. Há também proteção contra anjos – falou com sua voz preguiçosa, dando sua tradicional risadinha. – Que tipo de igreja tem uma barreira que repele anjos?
– Como conseguiu encontrá-la?
– Há uma energia maligna emanando de lá. É fraca. Um demônio não perceberia. E também... a constante presença deles aqui me deu uma pista.
O shinigami apontou na outra direção. Sebastian virou-se e deu de cara com William T. Spears. O outro shinigami tinha seu Livro da Morte em uma mão e a foice na outra. Seu terno negro tão alinhando quanto o fraque do mordomo. Os olhos verdes e frios fuzilaram o akuma assim que o viu.
– O que faz aqui demônio? Veio aliar-se a seus colegas infernais?
– Hoje não. Vim na verdade para acabar com o divertimento deles. Ordens do meu Mestre – falou com orgulho.
– Ouvi boatos de que continua com o mesmo mestre. Então você foi realmente encoleirado – alfinetou destilando desdém. – Gostaria de saber o que aquele humano tem de tão especial para atrair sua atenção.
– Espero realmente que você nunca descubra. Mas fico lisonjeado em saber que os shinigamis em suas tão atarefadas existências encontram tempo para discutir sobre minha vida pessoal – sorriu maldosamente e mudou de assunto. – Undertaker estava acabando de me informar que vocês aparecem constantemente por aqui.
O shinigami encarou a expressão provocativa e irônica de Sebastian e falou muito a contragosto.
– Recebemos vários relatórios de almas, cujas mortes se dariam neste local. Mas as almas simplesmente desaparecem lá dentro. Não podemos pegá-las – Ele fitava uma lita de nomes em seu livro, fechou-o e o colocou sob o braço. Ajeitou os óculos e voltou-se para o akuma. – É claro que é obra de demônios. Isso gerou um incômodo sem tamanho no nosso trabalho de coleta.
– Que ruim pra você – Sebastian falou indiferente. – Todo esse tempo os shinigamis sabiam onde os possessores se escondiam e não disseram nada. Que deprimente. Por falta de cooperação o mundo vai para o inferno.
– Como se você estivesse realmente preocupado.
Undertaker permanecia abaixado observando os dois se encarar. Tirava biscoitos de dentro das mangas e apreciava a discussão.
– Tem razão. Não me importo. Esse possessor poderia matar a cidade inteira que eu não me importaria. Esse possessor poderia roubar quantas almas ele quisesse que eu não me importaria. No entanto ele ousou tentar atingir alguém que me pertence. E isso eu não posso permitir.
– Você me dá nojo. Vocês demônios, sempre olhando para o próprio umbigo.
– Chega. Deixemos de melodrama. As almas que vocês vieram coletar aqui. Eram todas mulheres?
William encarou o demônio com fúria. O desprezo que um sentia pelo outro era quase palpável. O shinigami sibilou a resposta entre dentes:
– Sim.
– Era tudo o que eu desejava saber.
Sebastian simulou uma reverência, com cara de deboche, e partiu saltando sobre os telhados com a destreza de um felino.
.
.
.
Charles Phipps encaminhava-se para o escritório de Gray. Ao chegar a porta notou que vinha muito barulho de dentro da sala. Pousou a mão sobre a maçaneta, esperou um pouco e então entrou. Charles Gray estava revirando as pastas de arquivos. O homem encarou o recém-chegado com surpresa.
– Está reformando sua sala? – Phipps ironizou com a cara mais séria do mundo. Olhou toda a bagunça ao redor.
– Estava vendo quais arquivos ainda são úteis – falou dando de ombros e começou a guardar os documentos. – Então... Como está o príncipe Eduardo?
– Não sei. Ele ainda não voltou da Índia – Phipps respondeu, estranhando a pergunta do companheiro. Será que ele tinha esquecido que o príncipe tinha ido numa viagem secreta até as Colônias? As coisas estavam complicadas por lá também, para variar.
– Espero que ele não demore muito. Estando o país como está, sabe? – falou desatento. Phipps continuou parado ao lado da porta. Repentinamente Gray soltou uma exclamação e ergueu no ar uma pasta de couro. – Achei! O Conde Phantomhive tinha me dado isso antes de ser preso, é para entregar a Rainha. É um relatório. Poderia entregar pra mim?
Gray estendeu a pasta para Phipps, que ficou encarando a pasta por alguns segundos.
– Por que não leva você mesmo? Você é melhor com as palavras do que eu.
Gray comprimiu os lábios minimamente, o que não passou despercebido a Phipps, depois sorriu largamente.
– Então vamos os dois.
– Tudo bem. Eu o levo até Devon – Phipps falou.
– Devon, sim.
Assim que Gray se dirigiu a saída, Phipps o parou apontando a espada para seu pescoço.
– Não sei quem é você. Mas não é Charles Gray.
Gray apenas riu e desviou a lâmina da espada com as próprias mãos. Acertou Phipps no peito o jogando para trás. Phipps jogou-se sobre o outro, agarrou-o pelo colarinho e o jogou sobre a mesa. Vários objetos caíram no chão juntamente com o corpo de Gray. Phipps trancou a porta impedindo a passagem. Gray levantou-se com um filete de sangue escorrendo do canto da boca, agarrou sua espada e começou a lutar contra Phipps. Sua lâmina quase acertou a cabeça do maior, mas apenas atingiu o dorso de vários livros da estante e arrancou a perna de uma cadeira.
Phipps ficou com medo de machucar Gray, mas logo percebeu que morreria se não se defendesse de verdade. A lâmina do outro fez um corte em seu braço esquerdo e feriu sua perna direita logo acima do joelho. Phipps apenas confirmou que aquele não era Gray. Embora manejasse a espada com ímpeto, não tinha a destreza que o colega sempre demonstrou. Phipps conseguiu desarmá-lo, mas Gray tinha uma força sobre humana, agarrou seu cabelo e bateu sua cabeça na parede com toda força. Uma. Duas. Três vezes. Phipps sentiu sua cabeça sangrar.
Gray fechou a mão em volta do pescoço de Phipps; mesmo sendo mais baixo, conseguiu erguer o corpo do outro com grande facilidade. Phipps começou a sufocar; com grande esforço conseguiu livrar-se com um chute e aproveitou para desferir vários socos contra o outro. Enquanto Gray estava cambaleante, Phipps o acertou com um pedaço da cadeira quebrada.
O mais baixo caiu inconsciente. Phipps estava ofegante. Os guardas, atraídos pelo barulho, finalmente chegaram. E arrombaram a porta.
– Senhor Phipps? – olhavam o redor, atônitos.
– Estou bem. Tragam cordas; rápido!
.
.
.
Durante algumas semanas não se falava em outra coisa que não fosse a prisão do conde Phantomhive e seu suposto envolvimento no caso. Elizabeth e Sebastian tiveram de segurar as coisas da melhor maneira possível. Mas logo a Scontland Yard foi obrigada a libertar Ciel e o jornal local teve de publicar uma retratação em primeira página.
Outro corpo fora encontrado em condições semelhantes aos primeiros. Como Ciel estava na prisão, isso não só lhe fornecia um álibi incontestável como também o inocentava do outro crime.
– Por que demorou tanto? Você fez isso de propósito, não foi? – reclamava Ciel assim que Sebastian veio buscá-lo.
Os dois entraram na carruagem. Elizabeth os esperava lá dentro.
– Achei que passar mais alguns dias na prisão faria as pessoas sentir mais compaixão pelo senhor quando descobrissem sua inocência. Além disso, não é tão fácil encontrar um corpo de uma indigente, morta recentemente por causas naturais, e forjar um assassinato. Faz ideia de como isso é praticamente improvável? Se tivesse me permitido matar qualquer...
– Nunca. Não iria cometer o crime pelo qual fui preso. É a regra número um da vingança. E como ficou a indigente?
– Não se preocupe – começou Elizabeth – , fiz uma doação anônima. Undertaker cuidará de tudo. Aquela indigente receberá o melhor enterro que indigente nenhuma jamais teve. Um excelente pagamento por nos emprestar seu corpo.
No caminho para a mansão, Sebastian e Elizabeth colocaram Ciel a par de tudo o que eles haviam descoberto sobre a igreja onde a seita estava escondida e sobre Weatherfileld.
– Qual o segundo passo? – indagou Sebastian.
– Weatherfield já deve estar intrigado com o falso crime e furioso com minha soltura. Não pretendo dar tempo para que ele encontre outro jeito de me tirar do jogo.
.
.
Quando chegaram à mansão, encontraram um Phipps todo arrebentado a espera deles.
– O que houve? – Ciel interpelou.
– Tenho um presente pra vocês.
Assim que chegaram ao saguão de entrada, avistaram Gray amarrado a uma cadeira bem no centro de um circulo. Os três servos estavam postados ao redor dele, cada um com uma arma apontada em sua direção. O homem se debatia e gritava ferozmente.
Sebastian analisou o desenho do círculo. Era um selo. Impediria Gray, ou melhor, o demônio que o possuía de fugir.
– Bom trabalho Maylene.
A mulher bateu continência, seu rosto completamente corado, e voltou a posição de antes, apontando um rifle para Gray.
– Acho que ele estava procurando informações sobre o paradeiro da Rainha. Percebi que não podia ser o Gray porque ele me mandou entregar um suposto relatório a ela. Isso foi estranho, pois somente Gray e o príncipe sabem a localização da rainha. Então por que me mandaria até ela?
– Possessores não são muito espertos. Principalmente os de classe inferior – Sebastian informou.
Gray começou a rir. Seus olhos estavam negros.
– Vocês akumas se acham melhores que todos nós. Mas são da mesma laia miserável. Pensa que eu não posso enxergá-lo por trás dessa mascara bonitinha? Traidor. Quando meu mestre...
Bard o acertou com um soco.
– Hey! – Phipps reclamou. – Não esqueça que é o corpo do Gray.
– Foi mau – Bard se desculpou. – Mas ele não calou a boca desde que chegou.
– Seus desgraçados, quando eu sair daqui...
– Ele deve saber algo sobre Weatherfield – Ciel comentou ignorando o falatório do demônio. – Sebastian, interrogue-o e faça devolver o corpo do parceiro de nosso amigo Phipps.
– Olha como esse desgraçado fala. Quem você pensa que é? – o demônio esbravejava.
– Eu sou Ciel Phantomhive, Cão de Guarda da Rainha.
– Vão fazer o quê? Me exorcizar e me mandar pro inferno? – zombou.
– Sinto muito, mas você nunca mais voltará para casa – Sebastian falou. Um sorriso malicioso surgia no canto de sua boca.
– Não vai machucar Gray, vai? – Phipps indagou preocupado.
– Não se preocupe. Meylene, Bard, Finnian providenciem um chá para nosso convidado enquanto Gray não volta. E deixem Sebastian trabalhar a sozinho.
– Sim mestre Ciel – disseram o três.
– Venha, senhor Phipps, eu o acompanho no chá. Não imagina a porcelana fofa que encomendei de Paris. Uma graça; vai ver. – Elizabeth deu o braço para o homem e deixaram o salão.
Ciel já subia as escadas quando falou:
– Sebastian, não demore, eu preciso de um banho.
– Sim, Meu Lord – o mordomo fez uma reverência. Todos saíram do saguão deixando Sebastian com o Gray possuído. – Agora é entre você e eu.
Sebastian começou a assumir sua verdadeira forma e a sala foi ficando escura e fria como uma caverna.
.
.
.
Quando Sebastian entrou no quarto, Ciel estava deitado de qualquer jeito na cama e dormia profundamente. O jovem devia estar mesmo muito cansado. Sebastian apoiou as mãos no colchão e inclinou-se lentamente sobre Ciel. Podia sentir a respiração quente e tranquila dele. O Jovem sussurrou seu nome num sopro fraco de voz. Sebastian beijou-o. Como não houve reação, o mordomo repetiu o gesto e sorriu ao sentir Ciel corresponder inconscientemente. Aos pouco o conde foi despertando, abriu os olhos e corou ao ver o rosto do outro tão próximo de si.
– Por que você fez isso?
– Estava sonhando comigo? – Sebastian perguntou afastando os fios de cabelo que cobriam os olhos de Ciel.
– Não – mentiu.
– Chamou meu nome enquanto dormia.
– Era um pesadelo.
– Você é um mentiroso cruel – ele se levantou e começou a tirar os sapatos do conde. – Por que não tirou essas roupas sujas antes de deitar-se na cama? Agora terei de trocar os cobertores.
– Até parece que eu perderia a oportunidade de te dar algum trabalho – um sorriso brincava no canto de seus lábios. – E o meu banho?
– Está pronto. Venha.
Ciel mergulhou o corpo na banheira e gemeu de alívio quando a água tocou sua pele, fazendo os pelos de sua nuca se arrepiarem. Sebastian despiu-se do fraque e dobrou as mangas da camisa até os cotovelos.
– Não via a hora de sair daquela prisão e tomar um bom banho – Ciel declarou de olhos fechados. Apoiou os braços na borda da banheira.
– Sentiu a minha falta enquanto estava lá? – o mordomo ousou perguntar.
Ciel espiou o mordomo, que pegava o xampu e escolhia uma essência de banho.
– Senti falta da minha cama, isso sim.
– O Mestre é cruel – Sebastian sorriu para si mesmo. Era a típica resposta de Ciel. Abaixou-se ao lado da banheira e começou a lavar o cabelo do jovem. Enquanto massageava o couro cabeludo, ele se aproximou da orelha de Ciel e falou num sussurro. – Sentiu falta da cama ou do que fazíamos nela?
Ciel sentiu seu corpo arrepiar e seu rosto arder.
– Será que você só pensa em besteiras? – repreendeu.
– Quando tenho o privilégio de ter uma visão dessas é difícil não pensar em besteiras – nem tentou disfarçar o olhar que percorreu o corpo do jovem. Ciel encolheu as pernas e jogou água com espuma no mordomo.
– Pare com isso!
Ciel ficou irritado, mas só conseguiu fazer o akuma rir. Ainda de cenho fechado, decidiu fazer a única coisa que calaria o mordomo ou que lhe daria mais fogo para provocações. Girou o corpo na banheira e ergueu-se da água para beijá-lo. Puxou o outro para mais perto de si.
– Você está... molhando... toda... minha roupa – Sebastian falou entre o beijo.
– Depois... seca – Ciel respondeu. Suas mãos tentavam desabotoar o colete do akuma. – Isso não desabotoa?
– Paciência é uma virtude, Jovem Conde – ironizou. Desabotoou ele mesmo o colete e a camisa. Tirou a calça e os sapatos. Entrou na banheira. Deslizou a mão pela cintura do conde, trazendo-o para si. Beijando seu pescoço, sentindo as mãos dele em sua pele. – O Jovem Mestre cresceu mais um pouco esses dias.
– Sério?
– Sim. Mais um pouco e não poderei mais chamá-lo de Jovem Mestre.
– Sempre serei seu Jovem Mestre – Ciel falou baixinho. O rosto escondido no ombro do outro.
Sebastian o encarou.
– Meu Jovem Mestre Ciel – falou numa voz sensual.
Voltaram a se beijar. Os beijos se alternavam entre ternos e sedentos. Vez ou outra o movimento deles fazia a água respingar no chão.
.
.
.
Pouco antes do sol se pôr, Sebastian e Ciel, de banho tomado, se juntaram aos outros na sala de visitas. Undertaker havia chegado a pedido de Ciel e se balançava ao lado da lareira. O mordomo informou a todos que Charles Gray estava bem e só precisaria de algumas horas de descanso para se recuperar. O demônio que o estava possuindo, bem... Esse não incomodaria mais ninguém. Sebastian servia chá aos convidados.
– Também consegui informações importantes – o mordomo informou muito contente.
– O senhor Sebastian ficou muito feliz por conseguir pistas, não é? – Finnian comentou inocentemente no meio de todos.
– Oh, sim. É exatamente por isso que estou feliz – Sebastian respondeu com um sorriso cínico e Ciel o olhou feio. – Bem... O que descobri foi...
Em poucos dias haveria uma reunião no Parlamento com os representantes políticos dos países aliados. Tal reunião foi convocada pelo embaixador alemão, mas essa era apenas mais uma das manipulações de Dhalion. Agora eles sabiam o nome do demônio e quem ele possuía, mas já não fazia tanta diferença.
O demônio que estava no corpo de Gray não sabia qual a intenção de Dhalion com a reunião, mas Weatherfield estaria presente. O príncipe inglês não poderia deixar de comparecer; diante da situação atual, sua ausência seria claramente interpretada como uma afronta; poderia parecer que a Inglaterra não estava interessada em resolver os recentes problemas entre as nações. Concluindo, o príncipe Eduardo teria que se colocar a mercê de Weatherfield e Dhalion.
Ciel não queria nem imaginar o problema que Weatherfield poderia causar tendo os embaixadores em um único local ao alcance de suas mãos.
Por outro lado, essa poderia ser uma ótima oportunidade de apanhá-lo. Agora Ciel tinha uma vantagem, Weathherfield ainda não sabia que sua identidade já havia sido descoberta, nem que eles já haviam encontrado o local de sua seita. Era também a oportunidade perfeita para resgatar as mulheres, se ainda estivessem vivas.
Ciel tinha duas oportunidades perfeitas e um problema. Como estar em dois lugares ao mesmo tempo?
– Droga. Duas Equipes seriam mais eficientes. Mas não posso confiar a vida do príncipe à outra pessoa e precisaria do Sebastian por perto se Dhalion estiver mesmo por lá. No entanto essa talvez seja a melhor e única oportunidade para resgatar as mulheres.
O que escolher? Mulheres grávidas ou um punhado de velhos políticos?
– Eu vou até a igreja.
Ciel e Sebastian olharam para Elizabeth.
– Se Dhalion e Weatherfield estiverem mesmo planejando algo grande contra o príncipe e os embaixadores, a segurança de lá estará mais reforçada que a da igreja. Duvido que esse possessor vá tentar atacar sozinho, certo? Então terão muitos demônios por lá. Você e Sebastian precisam estar lá. Enquanto isso, eu poderia ir até a igreja onde a seita está e salvar as mulheres.
– É uma péssima ideia.
– É uma ótima ideia, Mestre. Se agirmos nos dois locais ao mesmo tempo conseguiremos capturar Dhalion; sem ele, Weatherfield não passa de uma formiga.
– Eu sei disso. Eu sei disso. Mas não é tão simples assim.
– O que não é simples, Ciel? – Lizzy perguntou impaciente.
– A seita fica na igreja, é o local onde Dhalion tem libertado outros demônios. Precisamos fechar essa passagem lá. Pode ser perigoso. Não vou deixar que você se meta num covil de demônios. Então... precisamos decidir quem vai até a igreja.
– Eu disse que vou.
– Não, Lizzy, é muito perigoso.
– Não me trate como uma criança , Ciel. Eu sei que é perigoso. Sei disso desde o dia em que me disseram que você é Cão de Guarda da Rainha, desde o dia em que Sebastian me contou a verdade sobre você. Mas eu não quero e nem serei um peso morto. Eu sei me defender.
– O que você quer é vingança. Vingança por Phillip.
– E você não? Não me venha dar lição de moral, Ciel. Não você. Além disso, a igreja tem barreiras de restrição, o Sebastian não conseguiria nem colocar o pé no atente de entrada. E se houver guardas, você não conseguiria abater todos sozinhos, eu por outro lado sou muito rápida com as espadas. Iria com Meylene.
– Ela tem razão – Sebastian comentou displicente. – Bard, Meylene e Finnian poderiam ir com ela. Além disso, ela é melhor espadachim que você. Vai se virar bem.
– De que lado você está afinal, mordomo?
– Do lado dos Phantomhive.
– Não sei Lizzy...
– Será que o mordomo tem mais confiança em mim que você? Eu me preparei para defender você e a mim. Por culpa daquele homem e daquele demônio meu filho morreu. Mereço minha vingança também. Vai precisar estar no Parlamento e vai precisar de mim na igreja. Mesmo que Os três servos fossem até lá e encontrassem as mulheres, eles precisariam saber latim para fechar a passagem dos possessores. Você mesmo disse?
– E-eu ainda estou no básico – Meylene falou ajeitando os óculos. – Não aprendi tudo que estava no livro. É muito complicado.
Ciel suspirou. Sentou-se na poltrona e passou a mão pelo cabelo. Olhou para Bardroy e Finnian.
– Bard, Finny, posso confiar a vocês a segurança de Lizzy e Meylene?
Os dois homens se postaram em frente ao Ciel rapidamente e bateram continência. – Senhor, sim senhor!
– Muito bem. Eu tenho um plano. Mas dependerá do sucesso das duas equipes. Teremos de estar bem sincronizados. Sebastian, você tem certeza de que todos os selos presentes nesse livro realmente funcionam?
– Absoluta.
– Ótimo, precisamos testar e praticar alguns especificamente. Senhor Phipps, precisarei da sua ajuda para garantir a segurança dos embaixadores e do príncipe; Weatherfield deverá colocar guardas possuídos por lá, então saiba escolher seus guardas corretamente.
– Certo. Mas o que impedirá que os demônios possuam até mesmo a mim?
– Não se preocupe com isso. Já tenho a resposta aqui – o conde falou erguendo o livro que Sebastian lhe entregara. E Undertaker...
– Achei que tivesse esquecido de mim – falou com um sorriso largo, tamborilando os dedos um nos outros.
– Vou precisar de um grande favor seu.
– Grandes favores exigem grandes pagamentos. De igual valor – seus olhos verdes cintilavam atrás da franja cinza.
.
.
O príncipe saiu do quarto da rainha. Fora informar os recentes acontecimentos. Ela ainda estava muito debilitada. Eduardo caminhava pelos corredores apertados e frios do esconderijo subterrâneo. Havia uma única porta no final de um longo corredor da parte mais funda daquele lugar. Eduardo abriu a porta lentamente e as encarou.
– Você diz que é para nossa proteção, mas nós estamos atrás das grades – disse uma.
Eduardo se aproximou da grade que separava a porta de entrada do amplo quarto onde elas estavam.
– No fim, não passamos de aberrações de circo dentro de uma jaula – disse a outra.
– Quero fazer uma pergunta – Eduardo informou.
– É a única razão pela qual as pessoas nos procuram – disse uma.
– Haverá uma reunião amanhã. Provavelmente é uma armadilha. Se eu for, irei morrer?
As duas sorriram ao mesmo tempo, seus rostos viraram-se para encarar o homem de cabelo grisalho. Elas tinham olhos completamente brancos. Eram ruivas e belas. As duas eram exatamente iguais. Tinham um arco dourado com inscrições em volta dos pescoços. Estavam sentadas sobre um banco forrado de veludo, uma ao lado da outra.
– Você irá morrer – disse a outra –, se não morrer amanhã, morrerá mais adiante.
– Isso é algum tipo de profecia?
– Nós apenas vemos o que irá acontecer, mas não sabemos como, nem quando – disse uma.
– Vemos apenas as probabilidades, o futuro muda constantemente – disse a outra.
– Sempre que alguém pensa em ir para a direita e encaminha-se para a esquerda, o futuro se transforma.
– Vocês disseram que a casa Hanôver cairia quando a rainha e o Phantomhive morressem. Eles ainda estão vivos. Interferimos muito nos acontecimentos, então esse futuro mudou?
– Os caminhos do destino são muitos, mas sempre nos levam aonde devemos ir – disseram as duas.
– Mas vocês tinham dito que...
– O destino nem sempre se cumpre da forma que imaginamos.
– Apenas vemos o que irá acontecer ou que aconteceu.
– Mas não sabemos como ou quando.
– Nem porque ou por quem.
– Até que seja feito.
– Não vemos respostas ou explicações.
– Até que se realize.
– No futuro.
– Sim, no futuro, irmã.
– Não sei se é realmente como vocês dizem ser ou se apenas não querem me dizer.
– O futuro não pertence aos humanos.
– Não. Nem a governantes ou países.
– Vocês são duas ingratas. Nós acolhemos vocês, protegemos vocês.
As duas se levantaram, e só assim era possível perceber que elas eram unidas pelo quadril e pela cintura. Dois corpos em um só. Elas caminharam claudicantes até o príncipe. As quatro pernas se atrapalhando com as passadas.
– Então nos entregue aos Serafins – disseram juntas.
Eduardo não faria isso. Deu meia volta e deixou as gêmeas sozinhas. Elas ficaram escutando as passadas do príncipe se distanciar, até que o quarto mergulhou no silêncio.
– Vejo outros de nós no futuro, irmã.
– Sim, outros. Como nós, mas diferentes.
– Depois da guerra.
– Sim, durante a guerra.
– Uma em especial...
– Sim, uma especial, irmã.
.
.
– Oh, isso é realmente muito bom! – Weatherfield falou por ele e Dhalion. Estava sentado num sofá enquanto a mulher fazia uma massagem em seus ombros. Ela tinha mãos macias e firmes. Depois olhou para o homem sentado no sofá a sua frente e indagou. – Então?
– Exatamente como o senhor suspeitava. O conde Phantomhive vai tentar entrar na reunião do Parlamento hoje – falou tranquilamente, dando uma tragada no cigarro.
– Aquele jovem é realmente insuportável. Mas ele não me causará problemas hoje. Ele perderá tempo tentando garantir a segurança de todos, inclusive a minha. Que divertido! Chegarei ao príncipe Eduardo antes que ele perceba. E quando eu chegar, até o Phantomhive terá de se curvar para mim.
A mulher deu três beijos em sua nuca e voltou a massagear o ombro.
– Não se esqueça de que ele tem servos habilidosos, principalmente o mordomo – e soltou uma baforada de fumaça.
– Também tenho servos habilidosos esperando por eles. Sua cooperação foi mais uma vez muito valiosa. Ainda não o agradeci por ter dado aquela informação falsa ao conde. Graças a você consegui prendê-lo. Só não esperava que ele fosse arranjar um jeito tão inesperado de sair de lá.
– Não precisa agradecer. Também não sou um grande fã da rainha Vitória e do seu Cão.
Dhalion e Weatherfield sorriram com gosto, contentes com a resposta do outro. Assim que a mulher terminou a massagem, ele pegou as mãos dela entre as suas e depositou um beijo nelas. A mulher caminhou sensualmente até o outro e sentou-se sobre suas pernas.
– Depois desta noite – disse Dhalion – , a Inglaterra será minha e o comercio estará livre para você.
– Isso é uma boa notícia para nós, não é mesmo, Ranmao?
Lau passou o braço em volta da cintura da irmã. Ela, inexpressiva, apenas o encarou com seus olhos âmbar e puxados. O chinês soltando mais uma baforada de fumaça.
– Sim, irmão.
.
.
.
A reunião havia começado. O príncipe Eduardo dialogava com os embaixadores, mas sempre atento a tudo e a todos ao seu redor, como Ciel havia advertido. Estavam presentes também alguns Lordes e comerciantes que tinham algum envolvimento político, o que incluía Weatherfield, Lau e outros.
Dhalion sabia que Phantomhive tentaria interromper e que seu akuma miserável viria junto, mas havia se preparado para recebê-los quando chegassem. Havia policiais vigiando as entradas, sobre o comando de Weatherfield, embora os pobres coitados não soubessem desse pequeno detalhe.
A reunião já havia transcorrido mais de uma hora. Quando parecia que finalmente Eduardo havia chegado a um acordo com os embaixadores, ouviu-se uma explosão no lado norte do prédio. Os parlamentares ficaram alvoroçados e um enxame de vozes foi enchendo o grande salão.
– Acalmem-se, senhores. Está tudo...
E uma segunda explosão. Essa mais próxima do salão. Fumaça começou a invadir o local. Logo o pânico se espalhou, quando os presentes ali notaram que havia fogo. Os guardas e a polícia tiraram os embaixadores e o príncipe do local, seguiram pelos corredores apressados. Uma terceira explosão aconteceu no corredor. A parede ao lado desmoronou separando o príncipe dos embaixadores, não havia como passar, teriam que seguir cada um por um lado.
– Por aqui, senhores. Rápido! – Lau apareceu no fim do corredor e guiou os embaixadores na outra direção. No caminho eles ouviam barulho de mais explosões e grito. – Aqui.
O chinês apontou uma porta e os homens entraram desesperados. Na sala não havia outra porta de saída nem janelas. Apenas uma mulher chinesa com roupas muito provocantes. Lau trancou a porta a chave e passou pelo meio dos homens.
– Que tipo de ardil é esse? – indagou um alemão velho e alto.
Lau apenas abriu a porta de um enorme armário para casacos. Ranmao fez um gesto amplo com as mãos para que eles entrassem.
– Ardil nenhum. Apenas sua passagem para a segurança. Entrem! –insistiu Lau.
Os homens se entreolharam duvidosos. O chinês tinha um sorriso faceiro e os olhos tranquilamente fechados. Outra explosão aconteceu bem próxima da sala onde eles estavam. E todos adentraram o armário um atrás do outro.
.
.
.
Elizabeth não se sentia nada confortável com o vestido provocante que Sebastian a obrigara a usar; apertava demais seu busto e era muito decotado, usava maquiagem forte e um perfume barato. Mas pelo visto, naquela área, uma prostituta chamaria menos atenção que uma dama da nobreza. Maylene a acompanhava; a empregada estava disfarçada de grávida. Quando elas entraram na igreja, não havia mais ninguém lá além de um padre.
– Por favor, senhor. Minha amiga está grávida e não temos onde passar a noite. Poderia nos conceder a bondade de um abrigo? Só por uma noite.
O padre olhou para as duas mulheres com interesse. Sorriu amigavelmente e pediu para que entrassem. O religioso tocou uma sineta e pediu para que algumas pessoas vestidas como monges franciscanos, que entraram ao ouvir o chamado, levassem a moça grávida para outro aposento. Assim que se afastaram, as mulheres se entreolharam por um instante.
– Você, minha cara, venha até meu escritório – falou apertando o braço de Lizzy e guiando-a até uma sala atrás do altar. – Falaremos de como você pagará o abrigo.
– Pagar? Mas eu não tenho dinheiro... – Lizzy falou sentindo-se incomodada com o rumo da conversa.
– Podemos pensar em outras formas de pagamento. Deixe-me ajudá-la com o capote.
Assim que desprendeu a capa do pescoço da mulher, deu uma olhadela em seu busto e reparou no objeto dourado escondido ali, preso por uma correntinha. Ele puxou a corrente, de modo que a pequena flauta saísse de seu abrigo entre os seios da mulher.
– Que joia singular e delicada...
– Não roubei se é o que está pensando – falou inocentemente.
– Claro que não. Bem... você aceita um chá? Sabe, é excelente para aquecer...
Enquanto falava, o homem tentava pegar uma pistola disfarçadamente. Estava quase alcançando a arma quando uma pequena adaga atravessou sua mão, pregando-a na mesa. Lizzy pegou uma cruz grande de ferro e o acertou na cabeça. O homem caiu sobre os joelhos com sangue escorrendo de sua testa. Elizabeth agarrou a adaga e arrancou-a da mão do padre.
– Hora de pagar por seus pecados, padre.
E o acertou mais uma vez na cabeça, com mais força. O homem caiu desacordado. Perguntou-se se teria batido com força demais, se o teria matado. Então percebeu que não se importava.
Elizabeth prendeu a borda do vestido na cintura e pegou as duas espadas de lâminas finas e flexíveis, que estavam escondidas entre a armação da anquinha de sua saia. Seguiu cautelosamente pelo corredor. Encontrou Maylene três salas a frente, desfazendo-se do disfarce de grávida e com vários monges caídos aos seus pés.
– M-me desculpe, senhora Elizabeth. Eles pediram para ver minha barriga, eu entrei em pânico.
– Tudo bem. Chame Bard e Finny – Lizzy pediu. Meylene voltou até a entrada da igreja e deu sinal para que os dois homens entrassem; todos dois bem armados. – As mulheres devem estar em algum lugar por aqui. Vamos!
.
.
O príncipe Eduardo tinha seguido pelo outro lado juntamente com dois parlamentares e três guardas. Viraram a esquerda no fim do corredor e esbarraram em Weatherield acompanhado de quatro guardas.
– Tem uma saída por aqui, Majestade – Weatherfield falou.
Todos seguiram o falso visconde até uma sala bem mais ampla. Os guardas que acompanhavam Weatherfield viraram-se rapidamente, atiraram nos guardas do príncipe e quebraram o pescoço dos dois parlamentares. Weatherfiel chutou as pernas do príncipe, fazendo o velho cair sobre os joelhos. Agarrou-lhe o pescoço e com grande satisfação disse:
– Corpus transmutor.
Deu um largo sorriso de vitória, o qual logo se desfez. Nada aconteceu. Os olhos de Weatherield se moveram de um lado para o outro sem entender o que dera errado. A medida que seu sorriso minguava, um sorriso deliciosamente maldoso surgiu nos lábios de Eduardo.
– O quê?!
– Você não pode possuir o corpo de outro demônio, meu caro amigo.
O homem de meia idade se transformou num homem jovem de cabelos pretos e olhos vermelhos. O akuma do Cão da Rainha.
Os guardas demônios avançaram sobre Sebastian, mas balas certeiras atravessaram seus crânios numa velocidade impressionante. Ciel entrou na sala, usava chapéu coco e casaco marrons, e um bigode falso. Tinha entrado disfarçado de Abberline. Ciel sabia que Weatherfield iria superestimar a incompetência da polícia e usou isso a seu favor.
– Como você...?
– Sebastian me contou que alguns demônios e magistas usam um tipo de selo para impedir a entrada de demônios ou anjos em um lugar. Quatro são necessários para manter um perímetro fechado. Não teria como proteger toda a área do Parlamento, então você fechou apenas a sala da reunião. Sebastian não poderia entrar apenas lá. Felizmente alguém de confiança me relatou exatamente onde os selos de restrição tinham sido colocados, e o senhor Phipps pôde ir até lá e apagá-los. Você tinha guardas que barrariam a entrada do Sebastian e a minha, mas que não se importariam com a entrada do príncipe e do simplório inspetor Abberline. Devo confessar que até pouco tempo atrás eu não sabia qual era sua real intenção. Mas agora sei. Você não pretendia matar o príncipe, você queria passar para o corpo dele. Como príncipe, você poderia iniciar uma guerra e governar como rei. Estou certo? Agora, Weatherfield, pense o que Dhalion faria com você depois de estar num corpo mais útil.
A fisionomia de Weatherfield mudou momentaneamente, ele tinha entendido o que Ciel quis dizer.
– Você iria me matar, não iria? Ora, cale-se! Não temos tempo para essas bobagens. Não acredito que planejava me descartar, eu te dei o meu corpo. Sem mim você jamais teria conseguido nada. Eu ajudei você. Eu que fiz tudo, seu tolo!
O homem começou a discutir consigo. Ciel tirou o tapa-olho e dirigiu-se ao akuma.
– Sebastian, isto é uma ordem: capture o demônio!
– Sim, Meu Lord.
Sebastian tirou várias facas do seu fraque e as lançou contra Weatherfield. O outro conseguiu desviar a tempo. As lâminas passando a milímetros de seu corpo.
.
.
Bard, Finny, Maylene e Lizzy desceram pelos corredores até o soterrâneo da igreja. As duas estavam certas. Encontraram o local. A última mulher desaparecida estava presa por correntes sobre uma mesa de pedra, que estava no centro de dois pentagramas intercalados. Havia outros monges postados em círculo em volta da mesa e recitavam um tipo de verso, talvez algum encantamento, numa língua que Elizabeth não reconhecia. A mulher gritava de dor e desespero. Os quatro não esperavam chegar no meio de uma cerimônia. Isso com certeza complicava as coisas.
Os quatro ficaram observando em silêncio, mas quando um dos monges se aproximou da mulher grávida com um punhal, preparando-se para desferir o golpe, Lizzy ouviu um grito escapar de sua boca.
Todas as cabeças encapuzadas viraram em sua direção. Aqueles monges não eram como os primeiros. Estes tinham olhos negros como um poço sem fundo e feições um tanto assustadoras. Todos eles soltaram urros monstruosos e avançaram sobre os quatro como lobos vorazes.
Meylene engatilhou suas pistolas e começou a atirar. Elizabeth abriu caminho com as espadas até a mulher, que ainda gritava.
– Qual o seu nome?
– Lídia.
– Calma Lídia. Vamos ajudá-la. Sabe onde estão as outras?
A mulher ainda estava em trabalho de parto e contorcia-se febrilmente. Enquanto Lizzy a ajudava a dar a Luz, os outros atiravam, batiam, chutavam e socavam ao seu redor. Mas os demônios não paravam de vir.
Quando a criança nasceu, por alguns instantes foi como se todo o cenário caótico desaparecesse. Elizabeth sentiu uma lágrima rolar por seu rosto. Lembrou-se de seu Phillip.
– Seu filho...
– NÃO!! Afaste-o de mim! Afaste-o de mim! Por favor....
A mulher se engasgava em choro e pânico. Lizzy nem teve tempo de questionar tão inesperada reação de Lídia. A criança em seus braços aumentou duas vezes de tamanho, adquiriu dentes e garras de uma hora para a outra. Cravou os dentes no braço da loira. Instintivamente Lizzy jogou a criança para longe. A criatura caiu sobre a mãe e aumentou mais uma vez de tamanho, sua aparência ficava cada vez mais bizarra. Não era humana, parecia mais um animal ou uma mistura dos dois. Lídia gritava de pavor. Irritada com o barulho que a mulher fazia, a criatura mordeu o pescoço da própria mãe com violência. Lizzy tentou tirar a criatura de cima da mulher, mas foi arremessada para longe. Os outros correram e pararam em volta dela.
– Estamos cercados – Bard falou. Sangue escorria do canto de sua testa. – O que faremos Lady Elizabeth?
.
.
.
A blusa de Weatherfield estava molhada de sangue e seu braço completamente esfolado. Então ele olhou para a esquerda e viu Ciel atirando nos guardas possuídos.
– Vamos ver o que você fará, akuma, quando eu estiver no corpo de seu mestre.
Dhalion tentou abandonar o corpo de Weatherfield, mas notou que não conseguia. Sebastian olhou para ele fingindo estar penalizado.
– Tsc, tsc. Você também não pode abandonar esse corpo. Você foi preso aí.
Dhalion se deu conta de que um selo o aprisionava. Passou o olho pelo corpo e sentiu a marca em sua nuca. Mas quando? Quem...
– A chinesa – ele sibilou entre dentes.
– Deveria escolher melhor em quem confiar – Ciel falou com um sorriso no canto da boca. – como eu disse, não sabia qual sua intenção até Lau me contar que você tinha o plano de tomar o país para si.
“Fiz exatamente como mandou, conde Phantomhive. Weatherfield realmente acredita que eu trai você.”
“E Ranmao, conseguiu colocar o selo de impedimento nele?”
“Sim. Ranmao deu um jeitinho de fazê-lo sem que ele notasse. Você tem uma planta do Parlamento? Mostrarei onde os selos foram colocados.”
Weatherfield rosnou de raiva e voltou a lutar contra Sebastian. Outros guardas demônios entraram na sala, eles eram seguidos pela Dupla Charles, Gray e Phipps. Os dois se uniram a Ciel contra os demônios.
.
.
Depois que todos os embaixadores entraram no armário, Lau fechou a porta, empurrando para que os cinco homens se espremessem lá.
– Como era mesmo a palavra que o conde disse Ranmao? – a mulher apenas o encarou. – Oh, é mesmo. Translatione corpore.
Os homens sentiram o armário sacolejar. Depois começaram a cair um por cima do outro, como se Lau tivesse aberto a porta repentinamente.
– Que diabos!
– Que ideia foi essa?
Ao levantarem os olhos se deram conta de que não estavam mais na sala do parlamento, mas numa residência com janelas que mostravam um céu limpo e estrelado e colinas que se estendiam a perder de vista. Não estavam mais em Londres? Como teriam ido parar tão longe? Na parede atrás deles havia um retângulo adornado de inscrições estranhas e desenhado com giz.
– Sejam bem vindos, senhores! Eu sou o inspetor Abberline, sob as ordens do Cão da Rainha – falou com orgulho. – Aqui estarão seguros. Sigam-me, sua alteza real, o príncipe Eduardo aguarda vocês para a ceia. E para dar as devidas explicações.
.
.
.
Elizabeth se levantou com apenas uma das espadas em mão. Sentia gosto de sangue na boca. Os demônios ameaçavam ir para cima deles novamente. Elizabeth podia ver a criatura devorar a própria mãe. Sentiu vontade de chorar.
– Deus. O que eles estavam fazendo aqui? – ela engoliu as lágrimas. Não iria morrer ali. Ciel contava com ela. Olhou para o topo da pilastra de sustentação do teto e viu um dos símbolos de restrição sobre os quais Sebastian falara. Vasculhou o bolso do avental e achou um batom vermelho. Que bom que ela era vaidosa! – Eu tive uma ideia. Vocês ainda tem munição?
– Um pouco – responderam Bard e Meylene.
– Mantenham eles longe de mim o máximo que puderem. Finny, venha comigo.
– Certo.
– Vamos!
Lizzy saiu correndo com Finnian em seu encalço. Bard e Meylene tentavam manter longe os demônios que se aproximavam dos jovens e deles mesmos.
– Preciso que me jogue lá em cima – Lizzy informou ao jardineiro. Ela rasgou duas tiras de seu avental e enfaixou as mãos rapidamente.
– O quê?! Péssima ideia, Lady Elizabeth.
– Anda logo, Finny!
– Ciel vai me matar. Ciel vai me matar.
Finnian fechou os olhos. Flexionou os joelhos e entrelaçou os dedos da mão para que Lizzy apoiasse o pé ali e a impulsionou para o alto. Torceu para não jogar a mulher direto no teto. A loira foi arremessada até o topo da pilastra. Com muita dificuldade se agarrou no concreto, sentindo sua caixa torácica arder com a força do impacto. Pegou o batom e riscou sobre o símbolo desenhado na pilastra. Sentiu que estava escorregando e caiu. Felizmente Finnian a segurou.
– Obrigada, Finn – falou ofegante.
– De nad...
Os dois foram atingidos por um Bardroy voador.
– Vocês estão bem? – Meylene se aproximou. E os três caídos responderam não.
A munição havia acabado. Agora só tinham a mão para se defender. Elizabeth levou a mão ao pescoço a procura da Flauta Celeste, mas o objeto havia caído. A loira, para espanto dos três servos, embrenhou-se entre os demônios, desvencilhando-se dos braços que tentavam agarra-la. Jogou-se entre as pernas dos demônios e esticou a mão para pegar a Flauta. Antes que tocasse no objeto, sua perna foi agarrada pela criatura meio monstro meio criança que começou a arrastá-la para o centro do pentagrama.
Bard apareceu segurando uma espada de Elizabeth e cortou o braço da criatura, libertando a moça. A criatura soltou um guincho ensurdecedor. Lizzy arrastou-se até a Flauta Celeste, agarrou o instrumento e soprou-o com toda a força que seus pulmões lhe permitiram.
Os demônios taparam os ouvidos incomodados com o som. As paredes do enorme salão de cerimonia começaram a tremer e, repentinamente, o lugar encheu-se de luz. No lugar de uma Elizabeth ferida e machucada surgiu uma mulher alta de pele luminosa, cabelos brancos e olhos prateados. E desta vez trazia consigo um arco e flecha.
– Iridel!
– Iridel!
Os demônios começaram a exclamar. Pronunciavam o nome como se proferissem um xingamento. Tentavam fugir passando por cima de Bard e dos outros.
– Que diabos! – Bardroy reclamou.
Iridel tirou flechas de sua aljava e começou a dispará-las contra os demônios numa velocidade impressionante. Assim que as flechas atingiam os corpos, os demônios começavam a tremer como se estivessem em compulsão e uma fumaça negra saía de suas bocas, dissipando-se no ar. Depois de atingir o último demônio, Iridel se virou para os três servos e disse:
– Rápido. A fenda do Domo fica numa câmara atrás dessa parede.
A voz dela era uma mistura da voz do anjo e de Elizabeth. Como se falassem ao mesmo tempo.
– Deve ter algum tipo de trava que abre... – Maylene tateava a parede, seus óculos terrivelmente embaçados.
Finnian tirou os restos de Lídia de sobre a mesa de pedra, arrancou esta do chão e lançou-a na parede. – Sai da frente!
A parede veio ao chão, revelando uma sala escura e com cheiro de podridão.
– Ficou maluco! Quase acerta a May – Bard repreendeu o jardineiro.
– Mas eu avisei.
– Lá – a voz dupla de Iridel falou. Ela apontava para um enorme circulo na parede. Dentro do circulo havia dois pentagramas cruzados e três linhas de inscrições o circunscrevendo. Era possível olhar através do selo, como se tivesse uma tela ali. Mas tudo o que se via do outro lado era escuridão. – Foi por ali que os possessores escaparam. Eu irei fechar.
O anjo começou a falar numa língua que os três não conseguiam entender. O primeiro arco de inscrições brilhou e começou a girar em sentido horário. O segundo também brilhou e girou em sentido anti-horário e o terceiro em sentido horário. Enquanto o anjo cuidava do portal, Meylene apalpou a roupa em busca de um giz, ao achá-lo, começou a desenhar outro selo na parede contrária. Um retângulo.
.
.
Guardas da rainha lutavam contra os guardas possuídos. Ciel, os Charles e os que estavam com eles tinham desenhado na pele do peito um símbolo angélico que os mantinham protegido dos possessores. Eles defendiam-se com espadas em uma mão e pistolas na outra.
Com Dhalion em seu corpo, Weatherield tinha uma força imensa. Ele arremessou Sebastian contra a parede, o akuma desapareceu entre os escombros. Sebastian levantou irritado. Seus dentes se tornaram mais proeminentes e suas unhas se alongaram. Saltou sobre Weatherfiled. Vendo que não conseguiria escapar do akuma, tentou distraí-lo. Ordenou que os possuídos mirassem em Ciel. Sebastian encaminhou-se para o conde, colocando-se entre o jovem e os atiradores. Abraçou Ciel e recebeu todos os tiros. Ciel sentia as balas passarem zunindo ao lado dos dois e a força do impacto dos tiros que atingiam o mordomo.
– Você está bem? – Ciel perguntou, mas o outro não respondeu.
– O Mestre fica encantador lutando contra demônios. Já disse isso?
– Tsc! Se concentre, Sebastian!
– Como queira – Sebastian materializou as balas em sua mão e as lançou de volta nos atiradores, acertando seus crânios.
– Weatherfield está fugindo!
Nesse momento o relógio da torre de Westminster soou 11 da noite. O som ecoando por todos os cantos daquele prédio.
– Está preparado?
– Sim.
Os dois se separaram. Sebastian seguiu Weatherfield. Os dois voltaram a lutar. Dhalion ainda tentava se libertar do corpo do humano. Sebastian o jogou num corredor comprido com imensas janelas enfileiradas. O possuído levantou cambaleante. Seu braço estava deslocado e o lado esquerdo do seu rosto estava roxo e inchado.
– Ele vai nos matar. Tenho que sair desse corpo. E me deixar sozinho? Cale a boca! –Dhalion pegou um punhal e levou a nuca. – O que você está fazendo?! Vou cortar esse selo fora, preciso sair daqui. Ficou maluco! Você não vai cortar a minha pele.
Ciel aproveitou a distração do outro e jogou-se sobre ele com toda a força e segurou bem o outro pelas roupas. Os dois atravessaram a janela e começaram a cair. Ao perceber que estavam em queda livre, Weatherfield assumiu o controle do corpo.
– Nós vamos morrer!
– Esse é o plano – Ciel falou sorrindo. O possuído gritava desesperado. No pátio logo abaixo deles, havia um enorme retângulo desenhado com giz, rodeado por inscrições. Sebastian apareceu ao lado do selo e assim que os dois se aproximaram do chão, o mordomo pronunciou “ Translatione corpore”. O selo brilhou, Ciel e Weatherfield atravessaram o chão como se ele fosse feito de vento. Com um movimento da mão, o akuma desfez o desenho do chão. E correu o mais rápido que podia.
.
.
– A fenda está fechada – informou Iridel.
Mal Meylene terminou as inscrições em volta da forma geométrica, o selo se iluminou. E Ciel, Weatheriel e pedaços de vidro da janela saíram da parede. Bard e Finnian ajudaram Ciel a se levantar. Weatherfield tinha o rosto transfigurado de fúria, seus olhos vermelhos como fogo. Não era mais o humano, mas Dhalion quem agia. Viu onde estava e o anjo ali presente. Ele começou a rir descontrolado.
– Traição. O que acham que vão fazer? Ãh? Banimento. Eu digo que não – Dhalion cravou as unhas na nuca de Weatherfield e arrancou a pele que tinha o selo gravado. Ele começou a gritar, sua voz misturada a do humano. Por um instante, pareceu que Weatherfield estava se incendiando de dentro para fora. Chamas começaram a sair de sua boca. O corpo caiu no chão se contorcendo de dor.
O fogo foi ganhando forma ao poucos. Dhalion era grande. Sua pele parecia feita de brasas. Tinha três compridos chifres na cabeça e garras no lugar de pés. Ele emitiu um rosnado que espalhou fogo por toda a sala. E se dirigiu ao Ciel.
– Seus ancestrais me baniram, conde, mas, hoje, eu matarei você.
– Não! – com um aceno, Iridel lançou Dhalion contra a parede. Ergueu os humanos no ar, juntando-os em um só lugar, ao passo que um círculo surgia ao redor deles. – O que está fora não pode entrar. O que está dentro não pode s...
Dhalion a agarrou pelo pescoço.
– Você será a primeira, vadia Iridel. Omni potentas dei potestatum invoco. Omni potentas dei potestatum invoco... – os olhos de Iridel ficaram luminescentes e ela não podia se mover. – Domine expoet. Domine expoet...
– Pare! Solte-a – Ciel gritou saindo do círculo.
– Jovem Metre, não! – os servos tentaram pará-lo.
– Você quer a mim, não a ela.
Dhalion soltou o anjo, que ao cair no chão voltou a ser Elizabeth. O circulo que protegia os servos se desfez e eles correram para apanhar a loira. Dhalion agarrou o braço de Ciel com tanta força, que suas unhas penetraram a pele do garoto, o sangue escorrendo em demasia. Atrás deles, Weatherfield ainda gritava de dor, tentando estancar o sangue que escorria de seu pescoço.
– Depois que eu te matar, vou matar todos os seus amigos e aquele traidor que o serve. Depois tomarei o reino da Inglaterra. E nada do que você fez terá sido útil. Esses seus olhos, vou arrancá-los com prazer – ele ergueu a outra mão para desferir o golpe. – Serei bonzinho com você e deixarei você dizer suas últimas palavras. Diga que vai implorar por piedade. Quero ouvir sua voz implorar.
– Atrás de você.
– O quê?!
Ele indagou sem entender. Sebastian surgiu atrás dele com uma enorme foice e decepou sua cabeça fora. E com um segundo golpe dividiu o tronco no meio. O corpo mutilado do demônio explodiu em inúmeras fitas de memória que encheram a câmara de gritos lamuriosos de mil almas e imagens tenebrosas.
Quando tudo cessou, os três servos puderam ver nitidamente como Sebastian era diferente. Olhos vermelhos como sangue, dentes pontiagudos, unhas negras e um pentagrama na mão. Na mão direita uma foice feita de ossos, adornada pelo que parecia ser um esqueleto humano. Sebastian olhou para eles.
– Vocês estão bem? – o mordomo indagou adquirindo suas características normais. Os servos suspiraram aliviados. E responderam que sim.
Weatherfiled levantou e vendo que estava sozinho começou a implorar.
– E-eu não fiz nada daquilo. Juro. Juro. Foi o demônio. Ele me obrigou a tudo. Juro. Eu não queria machucar ninguém. Conde acredite – ele começou a rastejar em direção a Ciel. – Eu não mandei matar seu filho ou sua esposa. Mandei só que a capturassem. Não foi culpa minha. Eu não queria machucar ninguém. Conde? Tenha piedad...
Ciel disparou três vezes.
Um na cabeça. Dois no peito.
E Weatherfield morreu.
Um silêncio mórbido preencheu o lugar. O ar era opressivo e sufocante. Ciel deixou a arma cair no chão e soltou o ar lentamente.
– Está tudo bem, Mestre – o mordomo falou abraçando o conde. Ciel assentiu, fechou os olhos e o abraçou de volta. Gesto que não passou despercebido pelos outros.
Finnian pegou Lizzy no colo e Meylene encarava chorosa seus óculos completamente rachados.
– Sabe... – Bard começou. – Acho que vou me aposentar. Essa vida de cozinheiro é muito perigosa.
Todos riram.
Fale com o autor