Phantomhive
20 Os Pecados do Passado – Parte II
Notas iniciais
Capítulo 20: Os Pecados do Passado – Parte II: de 1892 a 1897
Londres, Inglaterra. 1892
Depois da pausa em seu noivado com Elizabeth (a moça não deixara claro se tinha terminado ou não), Ciel pode desfrutar um bom tempo da companhia de Sebastian sem a intromissão da noiva. Não que eles de fato ficassem livres de todos, na mansão do campo eram aqueles três atrapalhados causando problemas o dia todo; sem mencionar que Finnian e Maylene eram por demais curiosos. Na mansão da cidade, havia as visitas surpresas e totalmente inconvenientes de Soma e Agni que duravam até mesmo semana. Todos esses empecilhos fizeram com que a aproximação íntima entre mestre e seu servo acontecesse de forma sutil e lenta.
Isso se devia também ao fato de Ciel e, até certo ponto, Sebastian não serem muito dados a libertinagem.
Sebastian era muito profissional; durante o dia ocupava-se com todas as tarefas dadas por Ciel e somente à noite, quando teoricamente estaria livre das obrigações, era que se dedicava a sua mais nova e favorita tarefa: o seu relacionamento amoroso com Ciel.
Ciel não lhe permitia qualquer tipo de intimidade durante o dia, a não ser que o próprio rapaz quisesse algo assim, afinal o jovem gostava de se sentir no comando. Não faziam grandes coisas, demorou algum tempo até que Ciel convidasse Sebastian para dormir com ele em sua cama pela primeira vez, e quando o fez, pareceu mais um sermão do que um pedido. Sebastian não dormia no quarto do Conde todos os dias, mas a frequência foi aumentando e a intimidade também. No início, eram apenas beijos, depois abraços, depois carícias. Mas nunca chegavam a ir além; Ciel era receoso quanto a isso. Porém, quanto mais íntima a relação se tornava, mais Sebastian sentia seus instintos atiçarem. Queria mais daquele humano, e a relutância de Ciel só servia para provocar ainda mais a sua luxúria.
Certa vez, Sebastian tentou algo mais ousado para ver o que aconteceria, mas a reação do rapaz não foi das melhores.
Em uma noite fria de outono, os dois estavam bem confortáveis na cama. Enquanto se beijavam, o akuma deslizou a mão sobre a pele macia do abdômen de Ciel e foi descendo até tocar o púbis, teria chegado ao seu destino final, se o conde não tivesse se afastado repentinamente e acertado seu rosto com um sonoro tapa.
– Não toque em mim! O que pensa que está fazendo? – o rapaz perguntou alterado, saindo da cama com um salto e se afastando de costa até chegar à cortina da janela.
– Jov...
– Saia.
Sebastian encarou Ciel, que tremia e tinha os olhos estranhamente nublados.
– Você está bem?
– Eu mandei sair. AGORA!
Sebastian permaneceu por alguns segundos na cama, observando preocupado Ciel abraçar o próprio corpo. Depois se levantou, pegou o fraque e a gravata sobre uma cadeira, calçou os sapatos e saiu.
Resultado: Ciel ficou umas três semanas sem chamá-lo para dormir em seu quarto.
Depois daquela noite, ficou claro para Sebastian que Ciel não estava pronto para ir além; e talvez nunca estivesse; não depois de tudo o que ele tinha passado. Apesar de uma parte sua achar que seria prazeroso forçá-lo e ver o desespero romper mais essa parede dentro do jovem, uma outra parte, não queria fazer isso. Essa outra parte queria respeitá-lo, afinal, Sebastian não precisava realmente disso. E foi esse segundo lado que o akuma resolveu ouvir.
Mas ninguém pode culpar um demônio por ter a mente maliciosa. Mesmo respeitando a distância de Ciel, o mordomo não conseguia evitar pensar em como seria estar com ele daquela forma.
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Sebastian soube bem aproveitar um pequeno defeito de Ciel: o ciúme.
Ciel era egoísta e o egoísmo é de certa maneira uma forma de ciúme. O conde nunca gostara de ter Sebastian tão longe de si, odiava ainda mais deixá-lo com outras pessoas. Seus olhos mais maduros começaram a notar coisas que antes lhe passavam despercebidas, como a sutil insinuação de algumas damas. Some-se a isso o recém-descoberto sentimento pelo mordomo. Qualquer atenção que o mordomo dispensava a uma dama já atraía o olhar reprovador de Ciel. Imagine então a reação do conde ao encontrarem-se os dois em um bordel.
Por que estavam ali?
Para capturar um comerciante de armas que se reuniria com outros criminosos numa sala especial daquele bordel ou Casa do Prazer como chamavam. Sebastian e Ciel, disfarçados, estariam nos quartos à direita e a esquerda da sala, vigiando e esperando o momento certo para agir. Para tal, precisaram pagar duas prostitutas para acompanhá-los até os quartos e estando lá, pagaram novamente para que elas ficassem quietas e não fizessem nada. No entanto, mesmo Ciel tendo pagado uma fortuna para que a mulher apenas o fizesse companhia, esta, uma ruiva de sotaque francês, tendo ficado encantada pelo rapaz, insistiu em tentar seduzi-lo.
– Por favor, senhorita. Eu já disse que não quero que faça nada. Apenas me deixe trabalhar, sim? – o jovem dizia completamente vermelho.
– “Senhorrita”? Você é bem gentil, mon cher. Tem cerrteza que non querr que eu faça um carrinhô no ...
A mulher se movia sinuosamente, ajoelhava-se e já pousava as mãos nas caças de Ciel, que a interrompeu e a guiou até a cama.
– Sim; tenho certa. Não quero nada. Agora fique quietinha aqui.
Enquanto espiava pela abertura oculta da parede, Ciel ouviu a mulher suspirar desapontada, dizendo que sua amiga devia estar se divertindo mais. Isso gerou uma profusão de pensamentos na cabeça do jovem conde. Não devia ter deixado Sebastian sozinho com uma prostituta.
Depois que fizeram a armadilha e capturaram o bando, os dois partiram do bordel. Mas quando estavam já na saída, a “acompanhante” do Sebastian veio despedir-se dele.
– Obrigada por tudo. Venha me visitar para conversarmos mais – falava com uma voz fininha, talvez o espartilho que apertava seus seios para cima não a deixasse respirar direito.
Ciel ficou possesso de raiva e como esperado, ficou em silêncio todo o caminho. Entraram em casa discutindo, o que não era tão fora do comum. Pelas reclamações do conde, Sebastian pode perceber que Ciel acreditava que ele tinha fornicado, foi a palavra que Ciel usou, com a moça do bordel.
Sebastian achou graça.
– Eu não aceito esse tipo de comportamento. Quero que você seja fiel a mim. Em tudo.
Ciel odiava a sensação de não poder confiar nele.
– Como espera que eu seja fiel a você se não sacia a minha fome?
– O q...? Isso não tem nada com... Não seja hipócrita, Sebastian. Foi você que escolheu me deixar vivo.
– Não me referia a esse tipo de fome, Jovem Mestre.
Ciel o encarou perplexo. Alguns segundos depois, suas bochechas adquiriram um tom avermelhado mostrando que havia compreendido o que o mordomo quisera dizer. O conde inflou as bochechas e foi para seu escritório batendo a porta com força.
Sebastian dissera aquelas palavras só por maldade. Para ver a reação dele. Ele, na realidade, não havia feito nada com a prostituta. A verdade é que a mulher era amante de gatos, então os dois ficaram o tempo todo falando sobre isso. Sebastian deu alguns conselhos sobre como cuidar deles; e a mulher mostrou-lhe um álbum com fotos de todos os seus bichanos. Mas Ciel acreditou que eles tinham feito algo e Sebastian preferiu deixar o jovem acreditar nisso. Não forçaria Ciel, mas esperava que o próprio desejo do jovem o colocasse em ebulição.
No final das três semanas, Sebastian se surpreendeu ao ouvir o jovem conde entrar em seu quarto, na ala dos empregados. Ciel enfiou-se sob as cobertas e deitou-se ao lado do mordomo na cama.
– Que grande surpresa o Jovem Mestre aqui. Espero que amanhã não venha dizer que é sonâmbulo.
– Quieto!
– Como quiser.
– ............................... Seu colchão é duro.
– Eu sou mais macio; se quiser chegar mais perto...
– Humph!
Foi de fato uma ótima surpresa. Maravilhosa na hora, mas resultou num grande problema pela manhã. Foi uma grande dor de cabeça tirá-lo do quarto sem que os outros empregados percebessem que o conde passara a noite ali.
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Demônios conseguem ler muito bem todos os sinais que um humano consegue passar com o corpo. É dessa forma que eles sabem o que se passa em suas mentes, é dessa maneira que os manipulam. Depois de algum tempo, Sebastian percebeu, muito satisfeito, que seu mestre o desejava de forma carnal, era por isso que vinha flagrando seu mestre a observá-lo sempre com o rosto corado. Ciel jamais assumiria isso e também não possuía a coragem para consumar o ato. O mordomo achou que já estava na hora de ele interferir um pouco, ou Ciel jamais superaria esse medo.
– Para amanhã, quero que prepare a carruagem, vamos até a cidade; tenho assuntos a tratar com Lord Randall, parece que a Scotland Yard...
Ciel estava sentado na cama com vários papéis nas mãos, mas parou o que dizia ao ver Sebastian muito tranquilo tirar a blusa, os sapatos e o cinto da calça. E veio em sua direção, ignorando-o completamente, e tirando-lhe os papéis das mãos.
Ciel estava sentado na cama com as pernas para fora. Seu coração batia acelerado, sentia as mãos suadas. Sebastian se aproximou dele e beijou-lhe o pescoço.
– Relaxe. – Sebastian sussurrou com a voz rouca. Aproximando-se do corpo do garoto. – feche os olhos. Permita-me apenas mostrar-lhe isso. E apenas sinta.
Ciel fechou os olhos. Sentia o homem se aproximando cada vez mais e com ele o ritmo em seu coração. Sentiu-o segurar-lhe o queixo e levantar seu rosto gentilmente. E finalmente... O toque. Pode sentir o toque dos lábios dele nos seus. A maciez da pele. Uma mão segurava seu rosto e a outra deslizava por sua cintura. Suas próprias mãos levantaram-se em busca do outro. Seu corpo foi aos poucos se inclinando, até que suas costas repousassem na cama.
– O que acha de fazermos algo especial esta noite?
– Algo especial, você diz...
– Sim. Algo que nos una completamente – o akuma foi abrindo botão por botão da camisa do rapaz e beijando delicadamente a pele exposta.
– Algo assim é... Não sei, Sebastian...
– Não precisa ter medo, Jovem Mestre. É realmente bom e prazeroso se feito com alguém que você gosta; se feito com desejo, paixão e amor – Sebastian já abrira toda a camisa do jovem e fez o caminho de volta até o rosto corado dele, sentindo o doce aroma de sua pele.
– Amor? – Ciel olhava para cima, sentindo os carinhos do akuma. – Amor é uma palavra muito forte. Eu não sei o que é esse sentimento de fato.
– Nem eu posso entendê-lo. Mas podemos nos amar da maneira que sabemos. Se o Mestre quiser.
Sebastian deslizou a mão pelo antebraço de Ciel até que seus dedos se entrelaçaram.
– O que você queria fazer naquele dia?
– Queria lhe fazer um agrado. Apenas isso. Pense nisso como uma massagem; sei que você iria gostar, é até relaxante. Não é algo ruim, se fosse as pessoas não o fariam.
– Eu não queria ter reagido daquela forma. Eu fiquei... Só me avise quando for tentar algo assim novamente.
– Certo. Vamos fazer assim: você me guia, assim não se sentirá tão inseguro.
– Como assim?
– Me diga o que quer que eu faça. Por exemplo, onde você gostaria que eu o beijasse?
– Na boca? – Ciel falou como se o outro tivesse feito uma pergunta idiota.
Sebastian ri.
– O que foi?
– Existem muitos lugares no seu corpo para serem beijados, Jovem Mestre. Seja mais criativo.
– Você é um pervertido, Sebastian! – Ciel exclamou completamente vermelho.
– Oh! Vejo que pensou em um lugar bem interessante, não foi? Se me disser onde, eu posso fazer agora.
– Quieto! Eu não disse nada.
– Mas é essa a intenção, Mestre. Tem que ser uma experiência divertida e prazerosa. O que não vai acontecer se permanecer frio e retraído desse jeito – vendo que o jovem permanecia imóvel e emburrado, Sebastian suspirou. – Certo, então. Fique tranquilo. É melhor deixarmos para outro dia.
– Não. Eu quero que faça. É que sempre que eu começo... as lembranças...
– Esqueça tudo e concentre-se em mim. Pense apenas em nós dois.
Sebastian livrou o rapaz das calças, deixando-o apenas com as meias e voltou a beijá-lo ternamente.
Ciel estava com as costas apoiadas sobre o colchão macio, o toque do mordomo fez toda sua pele arrepiar. Sebastian deslizou a mão sobre sua coxa, flexionando seu joelho, seguiu pelo quadril do jovem, afagou seu baixo ventre e, finalmente, Ciel sentiu seu membro ser tocado. No início era uma experiência estranha, mas aos poucos, uma sensação prazerosa foi surgindo dentro de si.
Sebastian tentou não quebrar o beijo, para manter Ciel distraído. Não demorou muito até sentir o corpo do jovem emanar calor; e Ciel, antes estático, começou a arfar e a se mover, desconfortável com a sensação.
– Espere; Sebastian. Pare.
Ciel, completamente corado, sentia seu corpo queimar. Embora tivesse mandado o outro parar, percebeu, no exato momento em que Sebastian parou, que queria que aquilo continuasse. O jovem olhou para o próprio corpo.
– Mas o que foi que você fez? Ele está maior.
Sebastian começou a rir.
– Do que é que você está achando graça, seu bastardo?
– O Mestre parece tão crescido, mas nesses assuntos continua ingênuo como nunca. Isso é perfeitamente normal; é o que acontece quando o Mestre fica muito excitado – Sebastian coloca a mão nas costas de Ciel puxando-o para um beijo mais urgente, que deixou Ciel completamente sem ar. – Vê? – Sebastian apontou para o membro do rapaz, que havia reagido ao beijo. – Comigo acontece o mesmo, quer ver?
– Agora não! – o jovem respondeu completamente constrangido. – Continue.
Sebastian sorriu e continuou a beijá-lo e a tocá-lo. Estava tão absorto em todas aquelas sensações que nem percebeu em que momento o mordomo ficara nu também. Tudo parecia embriagante. A dança lenta dos corpos, pele indo de encontro à pele. Sentia todos os pelos de seu corpo se eriçar. Gotículas de suor se formavam em toda a extensão de seu corpo. Era uma sensação dolorosa, porém prazerosa.
Sebastian estava indo bem devagar e da maneira mais sensual possível. Queria que o conde tivesse uma experiência agradável, queria lhe proporcionar prazer. Nem se lembrava de qual fora a última vez que fora tão gentil durante uma relação sexual, se é que essa vez existiu, nem se alguma outra vez ficou preocupado em proporcionar prazer a outra pessoa em vez de apenas querer sentir.
Ciel só queria apreciar mais daquele momento e descobrir tudo o que aquele akuma poderia lhe proporcionar. Estavam os dois nus não apenas de suas vestimentas, mas de todas as máscaras e desculpas que usavam no dia a dia. Naquele momento não havia mestre e servo, nem demônio e humano, havia apenas dois amantes.
Sentiu seu membro ser envolvido pela boca úmida e quente, a língua sugando-o com força. Em êxtase, Ciel puxou o rosto de Sebastian para si.
– Me beije.
Ciel falou com a voz arrastada. Sebastian o beijou lentamente. Sentiu um sabor diferente naquele beijo, o seu próprio gosto.
Sebastian continuou a masturbá-lo com a mão, e vendo que o jovem estava quase no seu limite, aumentou os movimentos e a pressão. Sentiu o corpo de Ciel arquear de encontro ao seu, e interrompeu o beijo para olhar naqueles olhos azuis o brilho de prazer ao ejacular pela primeira vez. Os dois se olharam intensamente. Sebastian não sorria, apenas admirava o rosto suado do jovem ofegante sob si. Os cabelos grudados em sua testa e a marca do contrato brilhando intensamente no olho do jovem.
– Não existe nada como você no meu mundo. Seja meu, Ciel.
Sebastian nunca fora tão sincero e não se referia apenas aquele momento, mas a tudo. Ciel nunca ouvira o mordomo pronunciar seu nome.
O jovem respondeu com um beijo suave, que o mordomo entendeu como uma autorização para continuar.
Depois da totalmente constrangedora experiência de ser preparado, Ciel viu Sebastian se encaixar entre suas penas e colocar estas em volta da cintura. Sentiu o membro do outro pressionar-lhe o ponto mais íntimo e escorregar pra dentro de si lentamente. O conde deixou escapar um arquejo alto e seus olhos se apertaram com a dor. O outro esperou seu sinal para prosseguir. As primeiras estocadas foram igualmente dolorosas, mas não demorou pra que a dor se transformasse em prazer.
Sebastian podia ouvir o coração do jovem batendo como um tambor, um som inebriante. Ciel era silencioso. Sensualmente silencioso. Ele gemia baixinho, e prendia os gemidos mais altos na garganta, produzindo um som que Sebastian comparou com um ronronar. Tão gracioso. De fato, ele conseguira o melhor mestre.
Depois de algum tempo naquele movimento de vai e vem, Ciel sentiu uma onda de prazer avassalador invadir todo o seu corpo e um líquido quente preencher seu interior. Ofegante, Sebastian encaixou a cabeça na curva do pescoço do jovem, que o abraçou. Quando já estavam mais calmos, o maior se levantou, desconectando os dois. Ciel sorriu constrangido ao ver o mordomo completamente nu ir apagar as velas, que já estavam pela metade, e voltar para os seus braços na cama.
Ciel estava exausto, dormiu rapidamente. E não houve pesadelos.
Era visível na manhã seguinte, que Sebastian acordara de bom humor. Não reclamou quando Maylene quebrou o jogo de porcelana que ainda nem havia sido usado, nem quando Finnian matou todas as magnólias do jardim com inseticida, nem quando Bardroy incendiou meia cozinha.
– Que estranho o senhor Sebastian está hoje – comentava Finny.
– Vai ver ele está pensando em se vingar quando menos esperarmos – cochichava Bard com os outros três.
– Hohohoho! – dizia o velho Tanaka.
– Ainda não vi o Jovem Mestre hoje – Maylene constatou. E quando foram perguntar a Sebastian a resposta foi:
– O Jovem Mestre estava muito cansado, então resolvi deixá-lo dormir até mais tarde hoje.
– Cansado de quê? Ele não faz nada – Bard deixou escapar, mas recebeu um beliscão de Maylene como castigo.
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Embora a grande maioria dos crimes ocorresse nos becos mais escuros e nos estabelecimentos mais ocultos do submundo, tudo sempre era custeado por alguém e sempre havia alguém lucrando de alguma forma; esses alguéns só poderiam estar em um único lugar, o melhor disfarce, o esconderijo supostamente inalcançável.
A alta sociedade.
A rainha queria que o conde Phantomhive se tornasse mais próximo dessas pessoas para vigiá-las de perto, descobrir suas intenções e seus segredos. Sua Majestade sofrera inúmeros atentados, por essa razão, temia que houvesse inimigos internos. Isso não era exagero dela, nem estava fora de lógicas. Mas para que o conde conseguisse isso, era preciso tornar-se um membro constante das atividades sociais. E esse era o maior problema.
– Isso é um absurdo! Como ela espera que eu faça isso? – Ciel jogava a carta da rainha sobre a mesa do escritório.
– Não é uma tarefa tão difícil assim, Mestre. Já fizemos coisas parecidas antes; naquela escola, no circo, no...
– Eu sei – Ciel falou com voz desanimada, revirando a gaveta da mesa.
– Além do mais, a rainha tem toda razão, a melhor maneira de vigiar seus inimigos é mantê-los ao alcance de seus olhos.
– Disso eu sei. Não me trate como se eu fosse um idiota.
– Então onde está o problema?
– Não suporto o estilo de vida dessa gente. Eles só vivem de festas, eventos, almoços, jantares, conversas fúteis. Eu não suportaria isso por muito tempo.
– Isso é verdade. Mas o Mestre é um ótimo fingidor. Tenho certeza que conseguiria enganar e manipular muito bem esses nobres inferiores. E o Mestre não estaria sozinho, eu estaria ao seu lado. Além disso, não precisaria ficar o tempo todo com eles, basta oferecer boa música, boa comida e boa bebida e todos logo estariam comentando o quão excelente anfitrião o Mestre é.
– Posso me virar muito bem com os contatos que tenho. Não preciso bancar o Druitt.
– Seu antecessor era conhecido como um ótimo anfitrião. Muitos o admiravam e ele era muito querido pela sociedade.
– Sim. E veja só como ele terminou. – Ciel falou sem interesse; polia um pequeno revolver na maior displicência.
Sebastian suspirou. Que jovem teimoso.
– Sabe, Mestre, muitas pessoas ao ouvirem falar de conde Phantomhive lembram-se primeiramente de Vincent, e quando ouvem falar de Ciel Phantomhive ainda pensam em você como, com o perdão da palavra, um pirralho órfão. Os mais jovens nem fazem ideia de quem é o dono da Companhia Funtom. Falando sinceramente, se tirarmos os Midford, Lau, o príncipe Soma e a polícia, quantos membros da sociedade londrina de fato sabem quem é o líder da casa Phantomhive?
– ...
– Não acha que já está mais do que na hora de todos saberem quem é o Conde Ciel Phantomhive? Não acha que todos deveriam logo se lembrar de seu rosto ao escutarem seu sobrenome? Como espera superar seu antecessor em todos os aspectos se insiste em permanecer oculto de todos? Pense nisso como um novo jogo.
– Um jogo? – Ciel ergueu um pouco a cabeça, Sebastian parecia estar conseguindo prender sua atenção.
– Sim. Você atuará como um bom anfitrião, e o objetivo é enganar o máximo de pessoas possível sem deixar que elas percebam a sua máscara. O Mestre é bom nisso – Sebastian contornou a mesa do conde e pousou as mãos sobre seus ombros e passou a sussurrar as palavras em seu ouvido. – A melhor maneira de controlar as pessoas e conseguir delas o que se quer é fazendo com que elas confiem em você, que se afeiçoem a você. Elas se sentirão a vontade para revelar seus segredos.
– Disso nós entendemos bem, não é? – Ciel deu um sorriso malicioso, o qual foi retribuído pelo mordomo.
– De fato.
– Mas e os jantares tediosos e as conversas fúteis... – Ciel começou a reclamar, mas Sebastian girou a poltrona, mantendo o conde de frente para si.
– É nos jantares tediosos e nas conversas fúteis que eles costumam cometer deslizes. Faça com que eles o admirem, o respeitem, o desejem e até mesmo o invejem.
Sebastian deslizou os dedos enluvados pelo rosto do menor e brincou com o cordão de seu tapa-olho. Ciel, constrangido, levantou-se e fingiu ir pegar um livro na estante.
– Às vezes, para se chegar ao xeque-mate é preciso perder tempo com os peões. – Sebastian completou ao olhar para o jogo de xadrez na mesa de canto.
– Muito bem, você venceu. Comecemos a operação Me Tornando Um Nobre Anfitrião Fútil. – Ciel falou ainda folheando um livro qualquer, não adiantava discutir mesmo. – Mas esse plano tem seus riscos. Ao me tornar mais próximo dos membros da sociedade terei que ter o dobro de cuidado para que não descubram meu trabalho como Cão de Guarda da Rainha.
– Ora, todo jogo perde a graça se não tiver um pouco de risco. Não concorda? – Sebastian aproximou-se silenciosamente por traz e depositou um beijo na bochecha do jovem.
– Ora, seu... Como ousa?! Já disse que durante o dia não. Ponha-se no seu lugar.
Atrapalhava-se com as palavras, completamente vermelho; saiu do escritório bufando de indignação.
Sebastian adorava irritá-lo. Era imensamente gracioso vê-lo perder o controle.
E assim eles começaram a se preparar para entrar no meio do círculo social da nata de Londres. Não que Ciel precisasse de convite, afinal ele recebia muitos e recusava todos; e qualquer um ficaria feliz em receber um conde em uma festa ou dificilmente recusaria o convite de um conde para um jantar. Mas Ciel nunca foi uma pessoa sociável. Ele tinha boa aparência e era inegavelmente bem abastado; apesar da arrogância, o jovem tinha uma doçura natural que conseguia cativar as pessoas logo de cara. O difícil era fazê-lo revelar essa doçura, pois nem todos eram tão ingênuos quanto o príncipe Soma. Era impressionante como todas as ofensas e reprimendas que Ciel fazia ao indiano simplesmente batiam nele e caíam no chão sem efeito algum.
Sebastian podia até fazer com que Ciel fosse gentil e amigável, e o jovem tinha uma habilidade incrível de simular um sorriso que desarmaria qualquer um, mas Ciel jamais seria carismático e jovial, embora fosse jovem, o que era irônico. Mesmo que tentasse disfarçar, mais cedo ou mais tarde Ciel se cansaria e acabaria sendo grosseiro com alguém; Sebastian conhecia seu mestre melhor que ninguém e sabia que o jovem conde não conseguiria manter por muito tempo a pose de bon vivant diante de pessoas como Druitt. Pelo menos não sozinho. E Sebastian não poderia fazer muita coisa para ajudar nesse ponto; sendo um mordomo, sua intromissão seria considerada uma falta de decoro.
Logo ficou claro que eles precisariam de um apoio específico. Algo que fizesse Ciel parecer alguém bem sucedido não só nos negócios, mas na vida social também. Um apoio para todo e qualquer evento social. Uma pessoa que estivesse a par de tudo e que fosse encantadoramente expansiva. Alguém que tornasse Ciel invejado pelos homens e desejado pelas mulheres. E Sebastian já sabia exatamente do que Ciel precisava, embora não se agradasse muito da ideia.
Uma bela e bem nascida noiva.
Estava na hora de fazer uma visita a casa dos Midford.
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Depois daquela estranha noite, na qual o mordomo Sebastian viera lhe fazer uma visita, Elizabeth acordou cedo e de bom humor. Pediu que Paula lhe preparasse um belo vestido e que a ajudasse com o penteado.
– Que bom que acordou disposta hoje, querida – a marquesa Frances foi falando ao ver a filha adentrar a sala de visitas com um enorme sorriso. – Você receberá uma visita hoje à tarde.
– Que repentino! Bom dia, papai!
– Bom dia! – o marquês retribuiu o sorriso da filha.
– E quem será? – sentou-se no sofá e pegou uma xícara de chá que estava sobre a mesa de centro.
– Lord Tindall virá vê-la.
– Com que propósito? – perguntou sem dar muita importância, deu mais atenção ao delicado glacê que decorava um bolinho. Seu pai automaticamente ocultou o rosto com o jornal.
– Ele ouviu dizer que você estava descompromissada e ficou deveras interessado em conhecê-la melhor, com o intuito de desposá-la. Devo pedir que se porte bem, ele é um grande partido.
– Ele é um grande velhote, isso sim! Ora, vejam só! Tem idade pra ser meu avô.
– Elizabeth! Alexis, diga alguma coisa.
– Mas ela tem razão, Frances, querida.
– Pois não poderei ficar. Sairei logo a pouco e só retornarei à tardinha.
– Posso saber onde pensa que vai? – Frances falou autoritária, com as mãos na cintura, seu rosto vermelho de raiva pelo comportamento da filha.
– Vou visitar meu noivo.
– Mas onde já se viu, eu tentando arranjar seu futuro e você de passeio... Quem?
– Ciel.
A mulher piscou duas vezes para ter certeza de que estava acordada. O Marquês abriu um enorme sorriso.
– Que maluquice é essa? Não disseste que não queria mais casar com ele. Faltas-te me por louca.
– Eu disse que ainda não estava pronta para casar com ele. Mas agora estou. E eu jamais casaria com outra pessoa que não fosse Ciel. Que ideia mamãe; já imaginou, Elizabeth Tindall? Que horror! Não. Eu nasci para ser Elizabeth Phantomhive. E tenho dito!
A jovem colocou as luvas e um chapéu, pegou uma sombrinha com adornos de bordados e disparou pelo corredor com passos firmes.
– E o que direi ao Lord Tindall?
– Que vá procurar uma noiva na esquina.
– Homessa! Mas o que há com esta menina?
Naquela mesma tarde, Elizabeth reencontrou Ciel, que já a esperava. Ciel se mostrara bem relutante em relação à ideia de manter um casamento fajuto com a prima. Não que a repudiasse, mas porque queria que ela tivesse um casamento real, com um marido que a amasse. Ela merecia isso. O conde ficara irritado com o fato de Sebastian ter agido sem lhe consultar e por ter contado tudo a Lizzy.
– Que inconsequente! E se ela não tivesse concordado?
– Nesse caso eu teria de matá-la, mas eu tinha plena certeza de que não seria preciso.
Sebastian respondeu sinceramente.
Era deveras vantajoso casar-se, visto que um homem de família era muito mais respeitável que um homem solteiro; as pessoas costumavam falar mal dos homens solteiros com mais de vinte e cinco anos. Ciel estava mais preocupado com a prima, mas ela parecia decidida a aceitar o acordo proposto por Sebastian com todas as desvantagens que isso pudesse lhe oferecer. Eles seriam legalmente casados, agiriam como casados perante todos, mas não seriam realmente um casal.
– Por favor, Ciel – Elizabeth falou segurando a mão do primo. – Não permita que eu seja a esposa de outro homem. Não me importo de ser sua eterna noiva, contanto que eu possa ficar ao seu lado. Pra mim já é o bastante.
– Sabe que eu não poderei retribuir o seu amor da mesma forma.
– Apenas deixe-me ajudá-lo. Deixe-me fazer parte da sua vida. Eu estudei e treinei a vida inteira para proteger você, para amar você. Esse é meu objetivo. Permita que eu lhe seja útil de alguma forma.
Diante dos argumentos de Sebastian e do pedido sincero de Lizzy, Ciel concordou. Mas aquela decisão mexeu muito com seus sentimentos. Principalmente em relação à Sebastian. Seguir com o casamento fora ideia do akuma, e se o próprio Sebastian não tivesse ajudado Lizzy a convencê-lo, Ciel jamais teria concordado.
Mesmo Lizzy tendo dito que apenas estar ao seu lado seria o suficiente, Ciel tinha plena certeza de que mais cedo ou mais tarde ela perceberia que apenas isto não bastaria. Sabia por experiência própria, afinal, vivera tanto tempo dizendo a si mesmo que precisava de Sebastian apenas para conseguir sua vingança, e veja só o que aconteceu. Não podia simplesmente negar seus sentimentos por Sebastian e também não queria ver a prima casada a força com qualquer desconhecido, mas aceitar seguir com o casamento, apesar de evitar falatórios da sociedade, resultaria no sofrimento da prima.
– Sebastian; está acordando?
Estavam os dois deitados na cama e Ciel observava os olhos fechados do mordomo por algum tempo. Sebastian apenas fingia dormir, como era de costume, mas mesmo que estivesse de fato dormindo, jamais deixaria de escutar um chamado de seu mestre. Abriu os olhos e olhou para o lado direito da cama.
– Sim. Algum problema?
– Não é nada.... – Ciel fez uma longa pausa. Sebastian voltou a fechar os olhos. – Hum; você realmente não se importa se eu me casar com a Lizzy?
– Não vejo grande problema nisso.
– Ah... Então tudo bem.
Ciel respondeu num tom frio e girou o corpo para o outro lado. Sebastian conhecia aquele tom e aquela reação, ele tinha falado algo errado. Quando o irritava propositalmente era divertido, mas quando o fazia sem querer, era um problema. Isso acontecia com mais frequência do que o mordomo queria. Quando ele sabia o que tinha feito de errado era fácil reparar o erro, mas quando não fazia ideia, tinha que se virar para descobrir como e pelo quê pedir desculpas; Ciel era capaz de passar uma semana inteira de cara fechada sem dizer a razão.
Não havia como a vida ao lado de Ciel se tornar monótona, apesar de toda a rotina a cumprir, quanto mais crescia, mas complexo o garoto se tornava. Por mais que achasse conhecer todas as facetas de seu mestre, vez ou outra, o mordomo se via as voltas para tentar entendê-lo.
– Não é um grande problema pelas vantagens que nos oferece. O Mestre já a conhece e sabe como ela é; Elizabeth sabe sobre seu trabalho como Cão de Guarda da Rainha e sabe sobre nós; ela concordou em realizar o casamento sem precisar consumá-lo. Então não vejo porque não. Mas concordar com isso não significa que me agrade, preferia mil vezes não ter que dividir meu mestre com ninguém. É egoísta, eu sei, mas fazer o quê? Sou um demônio.
Ciel, ainda de costas para o mordomo, se mexeu um pouco, puxou o cobertor sobre os ombros.
– Se eu fizer de Elizabeth a minha esposa, consequentemente você será meu amante.
– É com isso que está preocupado? – o maior curvou os lábios num sorriso. – De mordomo a amante, já é um progresso. A ideia me parece até mais divertida.
– Tsc!
Depois de uns cinco minutos em silêncio, Ciel virou-se para Sebastian e aconchegou-se no peito do mesmo.
– O Mestre sempre dorme mais tranquilo nessa posição, não é?
– Cala a boca e dorme!
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Sebastian deu graças por Elizabeth ter amadurecido consideravelmente. Tinha que admitir que a moça não era mais irritante como fora na infância e parecia ter herdado a altivez da mãe. Precisou dar orientações tanto a ela como a Ciel, para que não cometessem erros em público. No primeiro grande baile que Ciel ofereceu, no qual os dois se apresentariam como anfitriões, Elizabeth provou estar à altura do conde.
Quando Sebastian foi ajudá-la a descer da carruagem, reparou que a jovem viera com um elegante vestido verde feito pela senhorita Hopkins. Ela estava encantadora, logo se via que seus traços de menina haviam ficado para trás.
– Está encantadora, srtª Elizabeth – Elizabeth encarou o mordomo sem saber se ele estava sendo sincero ou se debochava. – Lembre-se: não importa o que digam, você é a rainha dessa festa, se você cair, Ciel cai.
A loira apenas assentiu e adentrou o salão com um enorme sorriso. Atraiu a atenção de todos quando entrou e postou-se ao lado de Ciel, que ficou um tanto surpreso ao ver a prima naquele vestido de baile. Elizabeth sempre se vestira como uma boneca. Mas ali estava uma linda mulher.
– É falta de educação ficar encarando uma dama, Mestre. Mesmo que esta dama seja sua noiva. – Ciel ouviu Sebastian sussurrar a suas costas.
– Quer beber algo? – Ciel perguntou a prima. – Vou lhe buscar algo para beber.
Ciel se afastou e Elizabeth sussurrou disfarçadamente para Sebastian.
– Veja, ele até foi buscar-me algo para beber. Poderia ter pedido que você o fizesse.
– Sim, mas quis buscar ele mesmo. Meu mestre é um cavalheiro.
– Não está com ciúmes?
– Oh, não. Aproveite-o durante o dia. Mas a noite ele é meu.
A loira olhou surpresa para o mordomo.
– Estou só brincando. – ele completou com um sorriso cínico.
Estranhamente, Elizabeth e Sebastian adquiriram o costume de se alfinetarem de alguma forma. Elizabeth o fazia porque era sua forma de vingança, pois sabia que já tinha perdido pra ele; e Sebastian o fazia porque simplesmente gostava de provocar as pessoas.
– Ora. – Uma mulher oportunista, chamada Lenora aproximou-se. – Ouvi dizer que o seu noivado com o conde estava desfeito.
– De certo foi um boato equivocado, pois, como vê, estamos muito bem. Não costumo acreditar em boatos, Lady Lenora, normalmente não passam de fofocas maldosas. – Elizabeth respondeu sem abandonar o sorriso.
O plano de Sebastian dera certo. Em pouco tempo, o jovem casal era bem conhecido e bem quisto. Os homens invejavam e admiravam Ciel por ser tão jovem e já possuir tudo o que possuía e por sua noiva; as mulheres invejavam Elizabeth e, mesmo as casadas, disputavam pela atenção do jovem conde. O engraçado é que todas chegaram ao consenso de que Ciel era o rapaz perfeito, pois nunca dava demasiada atenção à outra dama que não fosse sua noiva; isso porque elas não sabiam que vez ou outra durante os baile e jantares, Ciel se retirava para o escritório para ficar sozinho com o mordomo, não que eles fizessem algo lá, era apenas o tempo de descanso do conde, mas já queria dizer alguma coisa.
E claro que a aproximação surtira efeito. Ciel nunca imaginou que as pessoas pudessem ser tão descuidadas com seus comentários. Em pouco tempo conseguiu descobrir quem estava envolvido com negócios ilegais e até quem gastava a fortuna da família nos bordéis e nas casas de ópio.
Ao começar a fazer parte desse mundo, Elizabeth pode ver como tudo não passava de uma ilusão. As pessoas viviam de aparências. Achou até que tinha sorte por saber a verdade oculta naquele mundo de fantasias.
Em maio de 1894, foi realizado o casamento dos dois. O mais belo já visto naquela época. O período em que Elizabeth mais se divertira. Edward, seu irmão, chorou o tempo todo. Sua mãe estava orgulhosa e seu pai deu uma enorme caixa de charutos de presente para Ciel, depois de quase o esmagar num abraço.
– O que eu vou fazer com isso? – Ciel perguntou a Sebastian, sacudindo a caixa de charutos.
– O Mestre pode usá-los para acender a lareira.
Maylene pegara o buquê.
À volta para a Mansão Phantomhive, agora sua casa, também foi animada. Mas toda a fantasia acabou assim que subiram as escadas.
Ciel parou diante da esposa, sem saber o que fazer. Girou a cartola nas mãos, olhando para a barra do vestido branco de Lizzy.
– Bom, er... Boa noite.
– Boa noite.
– Seu quarto. Este, quero dizer, nesta porta. Espero que fique confortável e durma bem.
– Obrigada.
Ciel deu-lhe um beijo no rosto e saiu.
Elizabeth respondeu com um singelo sorriso. Adentrou o espaçoso quarto, seus paços ecoando no silêncio. Retirou os adornos em seus cabelos e despiu-se do vestido de noiva. Colocou sua roupa de dormir e deitou no colchão macio da enorme cama de érable. Deixou escapar um suspiro minguante e dormiu.
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Ciel sentia um pouco de culpa em relação à esposa, por isso tentava retribuir tudo de alguma forma. Nunca se deu muito bem com palavras afetuosas, então buscava agradar-lhe de outras maneiras. Ciel nunca deixava faltar nada a Elizabeth e praticamente nunca negava-lhe qualquer pedido.
Elizabeth tinha os enfeites mais fofos. As joias mais bonitas. Vestidos belos e únicos, pois nenhuma outra modista era tão criativa e moderna quanto Nina Hopkins. Tinha até mesmo ganhado seu próprio cavalo, um sangue-puro branco. Entretanto, mesmo desfrutando de todos os mimos possíveis e tendo uma liberdade que nenhuma outra dama possuía, nada era capaz de preencher o vazio em seu peito.
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Um acontecimento triste abalou todos na mansão. Depois de anos de servidão, o velho mordomo da casa, o senhor Tanaka, veio a falecer. Foi um choque para todos, que nunca sequer tinham pensado na possibilidade de perder o velho japonês para a morte. Embora não fizesse muita coisa na mansão, Tanaka sempre parecera muito bem. Ciel quis prestar todas as homenagens devidas ao antigo mordomo de seus pais.
– Que coisa mais absurda; enterrar um empregado no cemitério da família. Daqui a pouco ele vai querer enterrar aqui o Sebastian também e os outros.
– Ora, mamãe, não seja cruel. O terreno é dele, os empregados são dele e pode fazer o que bem entender com todos.
– E isso lá é jeito de falar com sua mãe?
– Só estou dizendo que o senhor Tanaka está nessa família há mais tempo que qualquer um dos presentes aqui e nada mais justo do que deixar que ele descanse em paz ao lado da família a quem ele serviu fielmente.
Elizabeth dirigiu os seus passos por entre os túmulos memoriais, caminhando calmamente até as lápides de seus tios. Fitou os nomes Vincent e Rachel Phantomhive gravados no mármore frio. As lembranças daqueles dias fizeram seu coração apertar. Elizabeth sabia que a tristeza que sentiu durante aquele período nem se comparava a tudo pelo qual Ciel passou.
Sebastian jamais lhe contou o que realmente ocorrera com Ciel quando este estivera nas mãos de seus sequestradores; a loira nunca soube o que ou o quanto Ciel sofrera, só conseguia imaginar que fora algo horrível o suficiente para transformar uma criança doce e tímida em alguém capaz de invocar um demônio.
A jovem dama olhou para Sebastian e não conseguia ver naquela figura esguia e elegante a imagem de um ser extremamente cruel e perversamente libertina de um demônio, principalmente quando ele estava com Ciel; era como se um tivesse vindo a existir exclusivamente para o outro. Talvez Sebastian fosse um demônio diferente, talvez Ciel tivesse o corrompido com humanidade, assim como ele corrompera Ciel com vileza. Isso seria possível? Corromper um demônio com humanidade. Ou, talvez, essa fosse a maior arma dele, nunca demonstrar ser como é. Enlaçando a todos com suas gentilezas e, depois, os enforcando com suas mentiras.
A jovem engoliu em seco. Ao se afastar das lápides, reparou em uma terceira ali ao lado que, até então, não havia notado. Nessa estava gravado o nome Ciel Phantomhive. Elizabeth sentiu seu sangue congelar numa assustadora sensação de mau agouro. Deu um pulo ao sentir uma mão tocar-lhe o ombro.
– Por que a demora Lizzy? – Ciel viera buscá-la.
– Ciel, o que isto ainda está fazendo aqui?
Os olhos azuis desviaram da mulher para as três lápides, pousando sobre a gravação do próprio nome na terceira. O semblante de Ciel era frio e distante, como se vislumbrasse um monstro há muito esquecido.
– Aquele Ciel Phantomhive que todos conheciam realmente morreu naquela noite, nada mais lógico do que manter a memória dele ao lado dos pais.
– Então com quem estou falando agora?
– Com a personificação do ódio e do sofrimento dele. Aquele enterrado ali continua puro, pois tudo o que o maculava permaneceu comigo.
– Mas você já se vingou, certo?
– A vingança não traz contentamento, tampouco apaga as lembranças ou faz esquecer a dor. Mas não quero abandonar isso. Já morri há muito tempo, Lizzy, só ainda não fui sepultado. É esse sentimento corrosivo, o qual leva tantos à ruína, que me mantém de pé..., que o trouxe pra mim.
– Por que não enterrar tudo isso também e seguir em frente?
– ...
– O que você teme, Ciel? A felicidade ou a possibilidade de ele o abandonar caso fizesse isso?
– Talvez os dois...
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No primeiro momento, a vida a três fora até pacífica, mas não demorou a ocorrerem atritos aqui e acolá, sempre por causa de ciúmes. Não eram brigas horríveis, nem chegava a abalar o convívio entre todos na mansão, mas alguém sempre saía magoado; na maioria das vezes Elizabeth.
– Já leu o jornal desta manhã? – Elizabeth perguntou a Ciel ao entrar no escritório.
– Ainda não tive tempo. Por quê? Alguma notícia interessante?
– Sim; aquele escritor que esteve aqui num jantar do verão passado, o Senhor Wilde, lembra-se dele?
– Oscar Wilde. Sim, o que tem ele? – perguntou sem tirar os olhos dos livros contábeis da Companhia Funtom.
– Foi preso. Parece-me que foi enviado para a Prisão de Pentonville.
– Sob qual acusação?
– Sodomia.
Ciel levantou os olhos para encarar a mulher.
– A culpa é dele mesmo; quem manda levar uma vida tão desregrada e ser tão descuidado.
– Não creio que ele mereça todo o crédito por sua prisão, afinal, foi o Marquês de Queensberry que fez questão de vê-lo condenado. Acho que o sr. Wilde não podia imaginar que o pai do Lord Alfred Douglas fosse tão vingativo.
– O que realmente pretende com essa conversa enfadonha, Elizabeth?
– Nada. Só estava aqui pensando que nem todos têm a sua sorte.
– O que está insinuando?
– Exatamente o que sua consciência diz. Tenha cuidado, Ciel; a rainha não hesita em condenar pessoas como tu.
– Como assim pessoas como eu?
– Sabe exatamente do que estou falando. Odiaria ver o que aconteceria se alguém fizesse tal acusação contra ti. Acha que a rainha abandonaria seu precioso conceito de moral para livrar-lhe? Não. Ela não faria isso, mesmo sendo você o Cão de Guarda da Rainha. Ela não arriscaria sujar seu nome e você sabe disso.
– Não tenho tempo pra ficar ouvindo...
– Não me trate como se eu fosse uma idiota, Ciel! Sei muito bem o que estava implicado em aceitar manter esse casamento de mentira. Mas sou a sua esposa e a única coisa que exijo é que zele pela minha honra e que zele pela sua também, pelo menos enquanto estivermos na mansão da cidade. Acaso acha que ninguém vai desconfiar do fato de você nunca dormir com sua esposa, mas o mordomo o visita todas as noites. Céus! Eu não sei o que vocês fazem, nem me interessa saber, nem me importa. Mas tenha cuidado. As línguas maldosas da sociedade já espalham mentiras pelo simples desejo de agredir e caluniar, não dê margens para elas.
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Frances Midford era uma mulher controladora, forte e decidida. Sabia controlar as coisas e chegava a ser mais rigorosa que o marido. No entanto, apesar dessa faceta independente, Frances era uma mulher agarrada às convenções sociais e prezava muito por todas as regras que uma mulher deveria seguir. Consequentemente, mesmo incentivando a filha a ser forte e habilidosa em atividades não próprias do delicado requinte feminino, ela exigia da filha essa submissão às regras. E ultimamente, sempre que fazia uma visita à filha, acabava por importunar a jovem.
– A esposa de seu irmão está grávida, novamente; Edward foi nos dar a notícia no último domingo.
– Estou feliz por ele.
– Ele está mais agitado que uma lebre. Jocelyn está bem, face corada, creio que será um menino, como deve ser.
– Espero que Deus a abençoe com um.
– E você?
– O que tem eu?
– Seu irmão casou-se com Jocelyn muito tempo depois de você e ela já está prenha pela segunda vez. Não acha que já estava na hora de me dar um neto?
– Não estou preparada para ter filhos.
– Que história é essa? Toda mulher já nasce preparada para ter filhos. É nossa função magistral.
– Pois não concordo com isso. Ainda tenho muito que fazer antes de ser mãe, além disso, não há vestidos capazes de deixar a mulher fofa com esses barrigões.
– Tolice! Se ainda não engravidou é porque não está cumprindo corretamente seu papel como esposa. Vocês não têm tentado muito?
– MAMÃE! Não quero manter esse tipo de conversa. A minha vida íntima com meu marido não é coisa a ser discutida com a mãe.
– Escute, filha, Ciel não tem família, a continuação do nome Phantomhive depende unicamente de você.
– Eu sei...
– Se não lhe der um filho, ele poderá achar que você é uma esposa inútil.
Elizabeth ignorou a mãe, assim como ignorou todas as outras vezes que ela voltava com a mesma conversa. Alguns meses depois, quando foi visitar o irmão, tentou disfarçar a tristeza que sentiu ao ver Jocelyn com a barriga já crescida. Elizabeth mentira; achava as mulheres grávidas muito fofas. E ao ver os olhos brilhantes da cunhada, sentiu uma pontinha de inveja. Não porque toda atenção estava centrada na esposa de Edward, mas porque Jocelyn tinha algo que era apenas seu e de seu marido, algo que unia os dois. Algo que parecia impossível a Elizabeth visto que nunca consumara seu casamento. Todos exigiam dela um herdeiro, quando o próprio Ciel não fazia questão disso. E como conseguiria um filho se seu marido jamais a tocara? E todos terminavam a culpando por isso. Quem foi que determinou que a mulher é a culpada quando um casal não tem filhos? Que desculpa ela poderia dar?
Quando soube que o filho de Edward e Jocelyn havia nascido, Elizabeth fez questão de visitá-los. Como Ciel tinha que levar o relatório do último caso à rainha, a loira fez a visita sozinha, acompanhada por Sebastian.
– Quando voltarem da casa de Edward, vocês deverão me encontrar no escritório da fábrica. Da rainha eu pegarei um coche de aluguel até lá.
– Sim, Mestre. – Sebastian respondeu e entrou na carruagem com Elizabeth. Os dois evitavam conversar, como sempre.
Ao chegarem à mansão de Edward, na cidade, não encontraram apenas a família, mas muitas mulheres que foram convidadas para um chá de boas vindas.
– Não sabia que estava em Londres, querida irmã, teríamos enviado um convite.
– Acabei de chegar, não precisa se justificar. Recebi seu postal anunciando o nascimento.
– E onde está o Conde Phantomhive? – perguntou Lady Lenora olhando para Sebastian parado à porta.
– Meu marido tinha negócios a resolver. Estamos só de passagem.
Elizabeth ficou encantada com o pequeno Herdeiro Midford. Sim, nascera homem. Elizabeth pretendia não se demorar, mas no fim, antes que conseguisse sair dali, a conversa se bandeou justamente para o ponto que ela tanto temia.
– E a condessa, quando terá o seu? – perguntou inocentemente Marie Worsley. Foi uma surpresa não ter sido Frances, talvez a mãe tenha cansado de questionar a filha.
Elizabeth abriu a boca para dizer qualquer desculpa, mas foi interrompida por Lady Lenora.
– Depois de tanto tempo, é estranho ainda não ter um filho.
– Talvez Elizabeth não queira perder o corpo que tem agora. – Lady Kent comentou sorrindo.
– Ora um filho vale o sacrifício. – Jocelyn declarou.
– E se vale. Amo meus dois meninos. – completou Marie.
– Oh! Depois de três meninas finalmente tive um filho homem – Lady Kent suspirou. Meu marido já estava preocupado. Sabe, ele já está com a idade bem avançada. Se morresse sem um herdeiro...
– O conde não se preocupa com isso Elizabeth? Todo homem deseja um herdeiro e se você não puder dar um? É realmente preocupante. Já foi ao médico? Pode ser que você seja estéril.
Todas olharam para Elizabeth com apreensão. Lady Lenora comentou não por preocupação, mas por malícia. Ser estéril era uma desgraça terrível para uma mulher. Uma esposa infrutífera era uma esposa sem valor. Diante de toda aquela pressão, Elizabeth se ouviu falando o que não pretendia, mas desejava que fosse verdade.
– Eu não pretendia contar ainda, mas acho que estou, finalmente – todas gritaram, até Frances. – Ciel e eu não viemos só a negócios, mas para visitar um médico também.
– Oh! Isso é maravilhoso, Elizabeth! – exclamou Jocelyn.
– Como é que é? Que história é essa de grávida? Como isso foi acontecer?! – Edward sobressaltou-se da cadeira, até então fingira não prestar atenção na conversa das mulheres.
– Homessa, Edward! Exatamente como aconteceu o seu. – falou Frances abraçando a filha. – estou tão feliz, Liz, querida. Terei netos dos meus dois filhos.
– Acalmem-se, não tenho certeza...
– Suas regras estão atrasadas há muito tempo?
– Seus seios estão doloridos?
– Tem se sentido inchada?
Elas foram jogando várias perguntas e Elizabeth foi apenas confirmando, sem saber se isso comprovava alguma coisa de fato, mas as mulheres já estavam convencidas.
Elizabeth retribuiu os sorrisos e agradeceu as parabenizações.
– Que bom, filha. Demorou tanto que estava achando haver algo de errado – Frances confessou a filha ao despedir-se dela no portão.
Quando saiu de lá, caminhou silenciosamente ao lado de Sebastian que a encarava sem dizer absolutamente nada. A carruagem começou a andar, levando um intrigado Sebastian e uma Elizabeth lívida.
– Peça para parar aqui. – Elizabeth ordenou, quando estavam já bem afastados da mansão.
A loira respirou profundamente e olhou pela janela. Algumas crianças, filhos de operários, corriam pela rua de paralelepípedos. Um jovem casal passeava com um carrinho de bebê. Elizabeth tentou segurar, mas toda aquela frustação foi crescendo em seu peito até se derramar por seus olhos. Não queria chorar na frente de Sebastian. Não na frente dele. Mas não conseguiu aguentar. Aquela dor terrível esmagava seu peito de tal forma, que chegava soluçar em seu pranto. Sentia vontade de arrancar seu coração fora. Era como se tudo que ignorara, tudo que tentara manter preso tivesse fugindo de dentro de si. Naquele momento ela percebeu que nunca seria uma esposa de verdade. Que nunca teria um marido de verdade, nem um filho a quem cuidar e amar. Morreria sozinha. E tinha plena consciência de que ela mesma se colocara naquela situação.
– Vai... Pode falar... – sua voz era entrecortada pelo choro.
– Milady?
– Pode dizer... Eu sei, essa foi a maior tolice que eu já fiz. Coloquei tudo a perder com essa mentira. O que eu direi depois... serei motivo de chacota. Pode rir se quiser.
– Não farei isso.
– Eu o amo tanto, tanto... Eu faria qualquer coisa pra ficar perto dele, mas não estou mais aguentando isso. Dói muito tê-lo tão perto e senti-lo tão longe. Eu só queria que ele me amasse. Eu odeio você, sabia?
Sebastian entregou um lenço à mulher deixou que ela chorasse até que se sentisse melhor.
– Sebastian, não deixe que ele perceba que eu chorei.
– Como desejar Milady.
– O que eu vou fazer agora?
– Para tudo dá-se um jeito.
E a carruagem seguiu para a Companhia Funtom.
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