Phantomhive
19 Os Pecados do Passado – Parte I
Notas iniciais
Capítulo 19: Os Pecados do Passado – Parte I: de 1888 a 1892
Amar alguém incondicionalmente é não nos preocuparmos com o que essa pessoa é ou faz.
Richard Bach
LONDRES, 1888
Perdida no meio do mar. Proibida aos navegantes e aventureiros humanos. Inabitada. Assim era a ilha de aspecto sombrio e sedutor. A ilha dos Mortos. O vento frio fazia o tronco das árvores estalarem, era possível ouvir as ondas quebrando nas rochas ao longe. Um pequeno barco a remo parado nas margens, deixado entre a areia e as rochas. No centro da ilha havia as ruínas de um antigo templo, onde restara de pé apenas um banco de pedra. Ali estavam duas criaturas: um demônio devorador de almas e um menino a beira da morte.
Sebastian sentia seu corpo estremecer de êxtase e sua boca salivar só de pensar no sabor que aquela alma teria. O deleite que seria finalmente poder prová-la. Finalmente, após tanto tempo de trabalho e dedicada servidão, receberia sua tão desejada recompensa.
Submetendo-se por completo ao destino que sempre soube que teria, Ciel fechou os olhos assim que viu o akuma se aproximar e retirar-lhe o tapa-olho. Sim, tinha conseguido no último momento realizar seu último desejo, morrer como uma alma que Sebastian desejasse. Era uma boa morte, pensava Ciel. O toque de Sebastian lhe pareceu tão agradável, tão acolhedor, que o garoto sentiu-se adormecer. Talvez fosse o cansaço de uma vida curta, mas atribulada, ou talvez fosse a morte finalmente o abraçando.
Sebastian estava prestes a tomar aquela alma para si, nada o impediria agora, exceto...
Ciel desfaleceu.
Ciel sempre fora um garoto forte. Corpo frágil, mas espírito forte. Ali estava o Conde Phantomhive, não mais que um garoto. Preste a ser morto. Mas ainda se agarrava a um fio de vida, tão frágil que a menor brisa poderia parti-lo. Ciel devia estar mais que esgotado. Voltara para Londres escondido em um navio, sem comer, sem beber, sem um descanso adequado. Retomara seu posto de direito como mestre de um akuma. Fora baleado, e perdera muito sangue, muito mesmo. Enfrentara um anjo caído e sobrevivera a mais um grande incêndio. Quase se afogara.
Ciel era um sobrevivente. Depois de tudo, embora tenha dormido um pouco, fizera questão de fazer toda a viagem acordado, num esforço de manter-se vivo para Sebastian. Apreciando o mar solitário e negro, ignorando suas lembranças e admirando os sentimentos que tanto renunciara. Sebastian observara Ciel atentamente durante todo o caminho até a Ilha dos Mortos, sabia que Ciel não hesitaria e nem tentaria barganhar, como alguns faziam quando viam que o momento do fim havia chegado. Não, Ciel não estava implorando pela vida, embora estivesse rumando para a própria morte, ele parecia finalmente ter encontrado a paz que tanto procurava.
Ali, naquele barco. Sozinho com Sebastian num oceano sem fim.
Ciel estava ali, inconsciente, a um sopro da morte, bastava Sebastian fazer um movimento apenas.
Queria tanto devorar aquela alma, e agora que o momento havia chegado, estava gastando tempo ao observar o jovem. Que mal fazia? Afinal, a alma já lhe pertencia mesmo.
– Se dormir agora, Jovem Mestre, acordará de madrugada, ficará sonolento amanhã.
Sebastian alfinetou, mas Ciel não lhe ouvira, tampouco respondera. Que coisa engraçada e sem propósito a se dizer, o akuma pensou. Não haveria um anoitecer para Ciel, muito menos um novo dia para ele ficar sonolento.
Então, Sebastian tirou a mão do rosto do jovem, ficou de pé e pôs-se a observá-lo do alto. Depois, vendo que estava novamente perdendo tempo, direcionou-se para o garoto; não podia se dar ao luxo de ficar procrastinando, havia tanto a ser feito amanhã.
Foi quando se deu conta.
Não haveria nada para fazer no dia seguinte.
Não precisaria acordar aqueles quatro preguiçosos para cuidarem de suas tarefas cedo. Não precisaria preparar um desjejum melhor e mais saboroso que o do dia anterior. Não precisaria acordar Ciel, nem recitar sua lista de tarefas. Nem fazer milhares de tarefas domésticas enfadonhas; estava livre. Finalmente livre. E sua alma estava ali. Era só estender a mão e pegá-la. E seria adeus, Ciel.
Para sempre.
Não o ouviria bocejar ao acordar. Nem seu olhar curioso a fitar-lhe. Nem o veria virar o rosto sempre que Sebastian o despia ou o vestia. Nem suas provocações maldosas, nem suas ordens impossíveis, nem sua cara emburrada sempre que Sebastian conseguia cumpri-las, sem mais missões secretas, sem tarefas para a Rainha, sem aventuras. Sem alguém novo para caçar e capturar. Sem ordens dadas com ímpeto. Sem o brilho azul celeste do seu olhar de aprovação. Depois daquele dia, nunca mais sentiria a doce fragrância daquela alma, nunca mais ouviria aquela voz ordenar-lhe nada. Nunca mais ouviria aquela voz pronunciar o nome Sebastian.
Nunca mais haverá Sebastian Michaelis.
Voltaria a ser o akuma de antes, que só existia para comer; almas fracas, mestres tolos e contratos rápidos. Sem desafios, sem obstáculos, sem emoção, sem razão para existir. Quando encontraria outro mestre como Ciel?
Sebastian nem percebeu, mas, antes de conhecer aquele garoto, provavelmente teria se perguntado quando encontraria outra alma como a de Ciel. Mas naquele momento, não era na alma que ele pensava, pois ela estava bem ali para ele se servir. Aquele akuma começou a pensar que gostava de ser Sebastian, que aquela vida lhe era agradável e divertida. Se Ciel morresse, sua existência voltaria a ser o tédio que o fizera aceitar uma criança como mestra. Que boa surpresa foi descobrir que Ciel não era uma criança comum, muito menos um humano comum. Não que se importasse com o garoto verdadeiramente ou que não quisesse que ele morresse, mas, verdade seja dita, a vida ao lado de Ciel era mais emocionante; quantos mestres tinham um trabalho como o de Cão da Rainha? Quantas pessoas adultas teriam a mesma capacidade sádica e inteligente de provocar Sebastian?
Tinha aprendido muitas coisas novas por causa de Ciel, a começar pela função de mordomo. No início, por inúmeras vezes amaldiçoou-se por ter escolhido tal forma, dada a exigência do garoto em querer que ele fosse perfeito em tudo. Mas acabou criando gosto pela ideia e se tornou o mordomo perfeito. E quantas outras coisas ele teve de aprender para cumprir suas ordens? Embora algumas tenham sido estudadas por vontade própria, para garantir a saúde, o bem estar e o contentamento de Ciel; quanto esforço!
Claro, Sebastian não abriria mão da alma que tanto lutou para conseguir, mas começou a achar que Ciel fora um mestre muito digno, e merecia uma morte a altura de um Conde. E naquele momento, o jovem não era mais que uma criança ferida.
Concordando com seus próprios pensamentos e vendo que eles lhe agradavam, Sebastian deitou o corpo de Ciel no banco de pedra. Não fazia isso pelo garoto, mas por si mesmo. Mordeu o próprio pulso e deixou que uma única gota de seu sangue caísse nos lábios tenros, os quais se tingiram de vermelho vivo. O sangue penetrou a boca devagar e, tão logo tocou a língua do menino, devolveu-lhe o rubor a face pálida. Isso manteria Ciel vivo durante a viagem de volta para casa, onde Sebastian ofereceria um tratamento adequando para que o garoto se recuperasse, e quando este último tivesse recuperado toda sua altivez, então Sebastian lhe ofereceria a morte novamente.
Enquanto abandonavam a Ilha, Ciel, perdido num sono profundo, nem sabia que fora o único contratante a sair de lá vivo; e Sebastian nem estranhara o fato de chamar a mansão Phantomhive de casa.
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Maylene, Tanaka, Bard e Finny tinham voltado para a mansão, ou melhor, para as ruínas dela. Toda Londres estava sendo reconstruída do incêndio, que só os quatro sabiam quem tinha provocado. Pluto, o cão demônio que cuspia fogo, perdera o total controle sobre si, havia começado o incêndio na mansão e seguido pra Londres. No fim, Ciel estava certo, não havia mais salvação para Pluto. Foi duro ter que dar fim a vida de alguém que passara tanto tempo com eles, mas Pluto não gostaria de terminar como aquela criatura destruidora. Todos eles, principalmente Finny, preferiam lembrar-se dele como aquele cão brincalhão que sempre fora. Os quatro não tinham encontrado Ciel desde então, estavam realmente preocupados com o garoto, mas se Ciel estivesse com Sebastian, então ele estaria seguro. E se os dois ainda estivessem vivos, voltariam para a mansão, com certeza.
Se Sebastian e Ciel não voltassem, os quatro não saberiam o que fazer, pois não havia outro lugar para voltar, nem para quem voltar. Tudo o que eles tinham era aquela mansão e as pessoas que viviam nela.
Abrigaram-se no estábulo, o único lugar no terreno que restara em pé. Revezavam-se para voltar até a cidade à procura de alguma notícia de Ciel. Era o terceiro dia que estavam ali, quase perdendo a esperança de que o garoto estivesse vivo. No final do terceiro dia, quando a lua já ia alto, Maylene assustou-se ao ver a mansão erguer-se imponente diante de seus olhos, como num passe de mágica. Chamou os outros três, para ter certeza de que não estava alucinando. Os homens ficaram estupefatos.
Como era possível?!
Ao entrarem na mansão, deram de cara com Sebastian carregando Ciel; ficaram tão felizes por verem os dois sãos e salvos que saíram apressados a cumprir as tarefas dadas pelo mordomo. Só depois, eles viriam a estranhar o ocorrido e começariam a ligar alguns pontos, e depois de muito desconfiarem e muito observarem, chegariam à conclusão de que Sebastian não poderia ser um humano normal. Mas havia três verdades importantes: Sebastian tinha dado um objetivo de vida para cada um deles; Sebastian protegia Ciel; Ciel gostava de Sebastian. Então, tanto fazia quem ou o que Sebastian era ou deixava de ser.
O mordomo também fazia parte do que eles gostavam de pensar como família.
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Ciel acordou com o som da voz de Sebastian. Tentou abrir os olhos, mas fechou-os imediatamente, pois a luz do sol adentrou o quarto no momento em que o mordomo abriu as cortinas. Ciel bocejou devagar, sentindo como se tivesse dormido por um mês. Seus olhos seguiam os movimentos do homem que anunciava o que tinha preparado para seu café. O garoto o observava atentamente, mas sem prestar muita atenção no que ele dizia. Havia algo de diferente.
– ... qual o Mestre prefere?
– A segunda opção.
Ciel respondeu, tentando disfarçar que não escutara as opções. O mordomo deixou a mesa preparada para que o jovem se servisse e depois foi até a cama para ajudá-lo a se trocar. Estava tudo exatamente como sempre fora, mas o que estava errado? Foi quando Sebastian despiu lhe o pijama do corpo, revelando sua nudez. Inconscientemente, o garoto levou sua mão ao lado de sua barriga e sentiu um curativo ali. Sim, o tiro. Fitou o homem a sua frente com surpresa. Sebastian trazia-lhe as vestes. Ciel lembrou-se, não havia sido um sonho.
– Você cumpriu o contrato.
– De fato. Quanto a isso não há dúvidas.
– Por que ainda estou vivo?
– Digamos que eu ache que ainda não é o momento.
– Perdeu o interesse...
– De forma alguma. Sua alma ainda é a coisa mais desejável para mim, no entanto, creio que será divertido adiar um pouco o meu jantar. Até lá, continuarei servindo o Jovem Mestre como sempre.
Sebastian continuou vestindo o garoto e Ciel ficou em silêncio, sua mente analisando aquela nova situação.
– Você é quem sabe.
Ciel não questionou mais o akuma, e se ele queria continuar trabalhando como um mordomo o problema ela dele. Mas o garoto, embora tenha conseguido esconder bem, sentiu-se desconfortável. Estar vivo não era algo ruim, mas todos os seus planos estavam traçados para acabar com o fim do contrato, com o fim de sua vingança. Antes seu futuro era certo, a morte nas mãos de Sebastian. Agora, seu futuro era o desconhecido, como a vida de todos os humanos.
Aquele dia foi tranquilo e embora Ciel tenha sentido certa estranheza ao dar ordens a Sebastian, agora que sabia que ele não era obrigado a cumpri-las, acabou por esquecer seu desconforto e voltou a agir como sempre agira. Por sorte, as fábricas e as lojas pertencentes à Funtom Company não tinham sofrido grandes danos e tudo foi logo posto no lugar. Dois dias depois de Ciel ter acordado e se recuperado completamente, tanto ele quanto Sebastian foram surpreendidos por uma carta da rainha.
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Quando estavam apenas o conde e seu mordomo e a rainha e seus mordomos, a Dupla Charles, sozinhos na sala, a mulher começou a falar.
– Estou surpresa ao saber que o famoso Conde Phantomhive é tão jovem. Bem, como já deve saber, pela carta que lhe enviei, não sou a verdadeira rainha Vitória.
A semelhança entre aquela senhora sentada ali e a verdadeira regente do Reino Unido era assustadora. A verdadeira rainha Vitória tinha morrido; isso antes de ajudar um anjo caído a tentar por fim aos Phantomhive e destruir meia Londres num incêndio. Ciel tinha sido baleado justamente por pensarem que ele tinha sido o assassino.
– Deve saber minha senhora, que não tenho mais nenhuma ligação com a realeza...
– É justamente sobre isso que quero falar, meu jovem. Entendo que tenha suas razões para odiar o Império, mas peço que mantenha o seu cargo como Cão de Guarda da Rainha. Pense que sua família vem desempenhando esse papel há anos, e que a rainha foi induzida a tramar contra sua casa e contra seu próprio reinado. Os Anjos Serafins não interferem mais no plano terreno há muitos anos, por culpa nossa mesmo, agora temos de arcar com as consequências de nossos próprios erros. Mas eles deram a sua família a função de manter as coisas em ordem. Embora nem eles, nem demônios mais perigosos possam vir para este plano, outros demônios e até mesmo anjos corrompidos como aquele, podem causar grandes problemas, sem mencionar os problemas criados pelos humanos mesmo. Entenda, ainda precisamos da sua família e de seus serviços.
– Acredito que não sou a única pessoa que a rainha possui para eliminar os inimigos abjetos. – Ciel olhou para o conde Charles Gray, um dos mordomos da rainha.
– De fato. Mas manter a aliança com sua família é estritamente importante. Não pode recusar, está tão preso a essa função quanto eu. Estou aqui apenas para evitar um conflito político, mas quando eu morrer, o príncipe Eduardo assumirá, e a linhagem real permanecerá intacta. Se fizer meu trabalho, eu vivo, se não, morro. Mas enquanto estou aqui, poderei ao menos conseguir isso de bom para o país.
– Há momentos em que o melhor é mandar o país para o inferno.
– Isso não é algo muito patriótico para um inglês dizer.
– Sinto, mas tenho minhas razões para ser rude.
– Quero apenas que me garanta que a Inglaterra poderá contar com sua ajuda, pois sei que esse não foi o último problema a surgir. Tenho certeza de que este era o verdadeiro desejo da rainha Vitória e desta pobre velha que vos implora.
– Acontece, minha senhora, que minha família se reduz apenas a mim, e eu logo morrerei, não poderei levar esse cargo por muito tempo.
– O que dizes? Tu és apenas um garoto e tens uma noiva de família nobre, que eu sei, e certamente teus filhos serão fortes e espertos como tu, e se ensinar-lhes bem, serão pessoas a altura do título de Cão da Rainha ou Cão do Rei.
Ciel se empertigou um pouco na cadeira e Sebastian riu, pois sabia que aquela ideia de casamento e filhos não pareceu agradável ao garoto.
– Temo que isso não seja poss...
– Com licença, Jovem Mestre, eu acredito que poderá muito bem desempenhar suas antigas funções com grande maestria, como sempre fez. Caso fique impossibilitado de levar seu trabalho adiante, poderá apenas solicitar sua retirada a rainha, creio que vossa majestade entenderá.
– Muito bem, então. Acredito que precisamos estabelecer um novo contrato, minha Rainha.
Assim um novo acordo foi feito entre o Império Britânico e a família Phantomhive, no qual Ciel serviria como Cão da Rainha e seus herdeiros depois dele. Claro que Ciel não pretendia durar muito tempo nisso, sabia que Sebastian não seria tão paciente, ainda mais depois de ter cumprido sua parte no acordo. Não sabia o que o demônio pretendia com o adiamento de sua morte, mas não se importava; a vida não lhe pertencia mais.
– Ela mencionou Corte dos Serafins. Sabe o que é isso?
– Há muitos anos esses anjos guerreiros protegiam os humanos dos demônios, diretamente. Embate corpo a corpo. No entanto, sua presença nesse plano dava margem para que demônios pudessem vir para cá também. Eles criaram um tipo de barreira para impedir que criaturas negras pudessem tentar dominar a terra, mas isso impediria qualquer criatura muito poderosa de vir para cá, o que incluía os próprios Serafins. Era um sacrifício necessário, tiveram que deixar os humanos por conta própria para protegê-los. Que ironia. Mas não sei o que isso tem a ver com sua família.
– Então quer dizer que existem outros mais poderosos do que você?
– Infelizmente. Mas eles não podem vir se divertir aqui como eu. Então estou no lucro.
Não demorou muito tempo para que uma nova carta chegasse e logo começaram uma nova investigação. Ciel não achava ruim, afinal, amava quebra-cabeças. Depois veio um segundo caso, um terceiro, um quarto, um... Eram sempre casos demorados, que levavam tempo e muito esforço, às vezes exigia trabalho disfarçado. Entretanto, o que intrigava Ciel era a paciência de Sebastian. O akuma continuava a servi-lo como sempre e a cumprir suas ordens como sempre. Ciel o desafiava ao extremo, para provocá-lo, para contrariá-lo, mas Sebastian continuava a seu lado e não fazia qualquer menção de devorar sua alma.
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Sebastian viu Ciel crescer e se transformar. A criança fraca e moribunda se tornou um garoto vingativo e maduro. O garoto se transformou em um jovem astuto e malicioso. Ciel sempre fora essa ambiguidade de sentimentos e qualidades, dois estremos em um só. A beleza e o horror, a crueldade e a condescendência, a ingenuidade e a malícia, o bem e o mal. Esse era Ciel Phantomhive. Talvez por isso Sebastian o achasse uma criatura tão fascinante.
Quanto mais crescia, mais aumentava o desejo de independência natural da adolescência. Aos catorze anos, começou a realizar algumas tarefas sem a ajuda de Sebastian. Em parte porque não queria ter de chamá-lo a todo o momento. Não que quisesse dar uma folga ao mordomo, mas ultimamente sentia um estranho desconforto sempre que ficavam a sós, exceto quando tratavam de negócios. Sebastian ainda preparava seu banho e o vestia, mas ele preferia tomar banho sozinho. Mas tarde, aos quinze anos, passou a se vestir só também; tinha orgulho de jogar na cara do mordomo que podia muito bem fazer aquilo sem a ajuda dele.
Onde estava a graça em fazer isso? Depois de algum tempo, Ciel percebeu que Sebastian gostava especialmente de executar tarefas que estivessem intimamente relacionadas a ele, como banhá-lo, vesti-lo, pentear seu cabelo, por uma razão, nesses momentos o mais velho tinha ótimas oportunidades de alfinetá-lo, provocá-lo e aborrecê-lo. Ciel não daria mais esse gostinho a ele. Embora uma vez ou outra, quando não estava muito a fim de trabalho extra, deixava o mordomo seguir a velha rotina. Claro, Sebastian tinha um estoque de provocações para usar em momentos assim. Mas esses momentos foram ficando cada vez mais raros. Principalmente quando as transformações em seu corpo começaram a lhe causar rubor.
Ciel também achava um pouco ilógico o fato de ele saber atirar, caçar e até matar e não conseguir abotoar um colete. Não era por menos que Sebastian zombava dele. Mas agora ele já conseguia se vestir só. No entanto, por mais que tentasse, nunca acertava fazer o nó da gravata. Sempre saía algo torto e malfeito. Até que em um belo dia, de tanto ver Sebastian fazê-lo, Ciel acertou. Estava em frente ao espelho e ao ver que a gravata de tecido azul celeste estava perfeita, deixou escapar um sorriso de contentamento.
– Sebastian! – chamou. Queria mostrar o feito ao mordomo, provar que conseguira. Era tão simples, tão fácil. Agora o outro não o importunaria mais com isso.
– Só um momento, Jovem Mestre.
A resposta veio do quarto, Sebastian arrumava a mesa com o desjejum. Enquanto o mordomo não vinha, Ciel fitou a gravata no espelho. Agora poderia se arrumar todos os dias sem Sebastian. Pelo menos durante a manhã, a ajuda do mordomo para se vestir não seria mais necessária. Sebastian poderia servir seu café e fazer as outras tarefas da casa, sem perturbá-lo.
O mordomo colocou o guardanapo elegantemente dobrado ao lado da xícara de porcelana chinesa e seguiu para o quarto de vestir para ver o que o garoto queria.
– Pois não... – Ciel estava com sua habitual expressão de descontentamento; apontava para a gravata por fazer. – Oh, Mestre, um rapazinho de quinze anos já deveria saber dar um nó na própria gravata.
– Não me chame de rapazinho, faz-me parecer infantil. E não preciso aprender nada, tenho você pra quê?
– Tens razão, Mestre, perdoe minha indiscrição. – terminou o laço e fez uma reverência. Em seguida, levou o jovem até a mesa de café e serviu o chá.
No último instante, antes de Sebastian entrar, Ciel desfez o nó que fizera. Por quê? Porque ele não tinha mais coragem de permitir que o outro o banhasse, nem o trocasse, mas aquilo era a única coisa que poderia deixá-lo fazer sem sentir-se profundamente envergonhado. Quando o mordomo arrumava sua gravata, Ciel o sentia bem perto de si, sentia o seu perfume, não sabia se ele usava esse tipo de coisa, mas Sebastian tinha um aroma característico apenas dele, muito agradável ao seu olfato. Enquanto mantinha a cabeça erguida, podia arriscar uma olhada bem de perto dos olhos do maior e via que aqueles olhos castanhos tinham matizes vermelhas e laranja, como duas bolas de fogo esperando para queimar. Por isso, todas as manhãs que se seguiram, Ciel fazia o laço apenas para ter certeza de que o sabia fazer só e o desfazia para que Sebastian o refizesse. Tinha apenas que fingir aborrecer-se com as provocações do mordomo, para ver o sorriso cínico surgir em seus lábios.
Um mês depois, Sebastian descobriu a farsa do rapaz. Primeiro achou hilário o fato de ter sido enganado de forma tão boba. Segundo, achou a atitude de Ciel muito... Meiga. Seu mestre era tão imprevisível. Decidiu continuar com a farsa, porque Sebastian gostava de estar próximo de Ciel, pela alma é claro, podia sentir sua essência. Mas no fundo, queria descobrir até quando os dois usariam aquele artifício bobo para estarem perto um do outro.
Mas nem só de calmaria se deu o crescimento de Ciel. Queria evitar se apegar a quem quer que fosse, visto o seu trágico destino. E quanto mais mantinha afastados Sebastian e os outros, mais instável se sentia. E aliado a isso veio o estresse provocado por um caso de resolução problemática. Aos dezesseis anos Ciel estava uma confusão de atitudes, sentimentos e pensamentos. E sua impaciência com a demora de Sebastian em dar um fim ao contrato ou pelo menos dar uma explicação sobre porque não o fazia, fez o garoto direcionar todo seu descontentamento para o mordomo.
A cada dia Ciel sentia-se mais angustiado, aflito, sem saber por que exatamente. Num dia, se estressava e se divertia com as trapalhadas de seus empregados, relaxava e se envergonhava com as visitas de Elizabeth, no outro dia sentia-se profundamente triste. Demorou um bom tempo até perceber o que o deixava assim. Jamais admitiria, mas começava a se apegar a todos, a apreciar suas companhias, começava a gostar da vida; mas ele sabia que isso não duraria, pois Sebastian poderia a qualquer momento reivindicar o que lhe era de direito. Essa constante incerteza o mortificava. Mas o pior de tudo era sentir que, de alguma forma, estava se afeiçoando ao mordomo mais do que devia, mas do que seria aconselhado, isso era um risco. Que tipo de tolo faz de seu assassino um amigo? Ciel não queria confundir as coisas, os sentimentos, por isso tentava manter-se distante e frio, mas como Sebastian era quem estava sempre mais próximo, terminava por ofendê-lo e tratá-lo rudemente. Numa tentativa de fazer Sebastian por um fim a tudo, Ciel começou com um plano de aborrecer o demônio. Faria o que fosse preciso para que Sebastian colocasse um fim definitivo a sua vida, antes que ele se apegasse tanto a ela a ponto de não querer mais morrer. Esse era o maior medo de Ciel: não desejar mais a morte.
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Certa vez, durante o chá da tarde, Elizabeth começou falar sobre o futuro casamento e Sebastian começou a dar margem para que a jovem se empolgasse mais ainda, dizendo que ela ficaria linda num vestido de noiva. O mordomo sabia que aquele assunto incomodava Ciel. Cresceu sabendo que casaria com a prima, tão certo disso, quanto saber que o sol nasce toda manhã. Zelava por seu noivado com a prima como se esse fosse mais uma tarefa a cumprir, mas um jogo a ganhar, mais um desafio a conquistar. E esse era o problema. Nunca imaginou que esse dia chegaria, nunca parou pra pensar como seria se realmente tivesse que fazer isso. Gastava da Elizabeth, até podia imaginar os dois casando, mas não conseguia conceber a ideia dos dois como marido e mulher. A prima parecia sempre muito empolgada, e ficava mais a cada dia, provavelmente por que já tinham dezesseis anos, e logo Ciel deveria oficializar o compromisso e marcar a data do casamento. Quanto mais velhos ficavam, mas convicta da ideia Lizzy ficava. Mas Ciel apenas sentia que não era isso que ele queria, não era o que desejava. Não era o momento certo.
Seus sentimentos estavam um caos. Ver Elizabeth tão alegre com Sebastian o irritou. Qualquer coisa que o mordomo fazia o irritava. Desde quando Sebastian conversa com Lizzy? Odiou-o ao vê-lo aumentar as esperanças de Lizzy, mesmo sabendo que Ciel morreria, odiou-o por aumentar suas esperanças. Por que Sebastian brincava dessa forma com os sentimentos dos outros? De certo, o demônio ria internamente da ingenuidade da jovem que mais provavelmente seria viúva e não mulher casada. Odiava-o por ignorar sua vontade.
Ciel colocou a xícara sobre o pires com força. O barulho da louça chamou a atenção dos outros dois, fazendo-os encerrarem a conversa.
– Quando foi que lhe dei liberdade para se intrometer nos assuntos dos patrões, Sebastian? – Ciel falou de modo tão rude que até Elizabeth se sentiu constrangida pelo mordomo.
– Perdão, Mestre. Fiz algo de errado? – Sebastian indagou após alguns segundos de silêncio entre todos. Tentava entender a razão do rompante de grosseria do jovem. Não era seu habitual e zombeteiro tom de provocação, fora rude de verdade.
– Sim, sua presença me incomoda. Retire-se! E leve esse chá com você está intragável.
– Eu achei o chá ótimo. – Elizabeth falou, tentando apaziguar a situação.
– Não, Lizzy. Você merece o melhor. Como ousa Sebastian, oferecer tal chá a minha noiva?
– Não é necessário, Sebastian. Tudo bem, Ciel. Este está bom. – desviava a tensão torcendo o guardanapo entre as mãos com luvas de renda.
– Não, não está sua tola. Nada está bem. Por que ainda o defende?
Ciel levantou-se jogando o guardanapo sobre a mesa. Percebeu que todos o olhavam atônitos. Maylene e Paula seguravam as mãos apreensivas. Até Bard e Finny, que estavam mais afastados cuidando do jardim, estavam o encarando. Ciel percebeu o quanto fora rude. Mas não se desculpou, apenas se afastou e entrou na mansão.
Depois que o jovem havia saído, Elizabeth começou a chorar. Paula, sua dama de companhia, correu para ela.
– Eu fiz algo errado? Tenho certeza de que o irritei de alguma forma.
– Oh, não, senhorita. – Paula tentava consolá-la.
– Não se preocupe Lady Elizabeth, o Jovem Mestre não estava bravo com você. Eu é que me portei inadequadamente. Esses dias têm sido estressantes e esgotantes para o Mestre. Tenho certeza que ele não pretendia ofendê-la.
Sebastian tentava justificar a atitude de Ciel, mas Elizabeth sabia que ele fora o mais ofendido ali.
A loira sempre fizera de tudo para agradar ao Ciel. Seu maior medo sempre fora não ser uma esposa adequada, que ele acabasse a odiando, que ele não quisesse casar-se com ela. Depois daquele dia, esse medo passou a assombrá-la como nunca.
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A revolta de Ciel se tornou constante. Para fugir de seus fantasmas internos, o jovem atirava-se nos casos mandados pela rainha com a mesma gana que buscava sua vingança. Não demorou muito para Sebastian perceber que o rapaz tinha feito do seu trabalho de Cão de Guarda da Rainha uma válvula de escape. E por mais que Ciel o tirasse do sério e muitas vezes o levasse ao limite da paciência, o akuma se agarrava a decisão de não matá-lo. Sabia por que o jovem estava agindo daquela forma. Sebastian só não tinha mais tanta certeza de porque ainda se submetia. Porque suportar tudo?
Quando estavam resolvendo um caso, as coisas se apaziguavam. E eles se relacionavam como sempre. Mas quando tinham que ficar por longos períodos enfurnados em casa, as coisas ficavam mais tensas.
Em novembro de 1891, Ciel e Sebastian estavam investigando um caso de tráfico humano. Nativos indianos estavam sendo contrabandeados para a Inglaterra para trabalharem nos bordéis, o dinheiro era utilizado para comprar e introduzir outras drogas piores que o ópio no país. Não seria um assunto tão sério, se o nome do Príncipe Soma não estivesse envolvido no caso, o herdeiro indiano fora acusado de facilitar o comércio ilegal. Cabia ao Cão da Rainha provar a inocência de Soma e capturar os verdadeiros responsáveis por degradar a moral do país, por mais que esta não fosse lá tão pura. No decorrer das investigações, mestre e servo tiveram outro desentendimento. Ciel chegou a ordenar a Sebastian que ele fosse embora. E foi exatamente o que o mordomo fez.
Ciel achou que Sebastian voltaria para casa à noite, mas isso não aconteceu; nem naquela noite nem nas cinco noites seguintes. Teve que se virar sozinho com as investigações.
Algumas vezes os servos perguntavam para onde Sebastian tinha ido e se demoraria a voltar e Ciel dizia não saber, e não sabia mesmo. Outro dia, perguntaram se ele de fato retornaria. “Mas é claro que sim!” Ciel respondeu com uma certeza que não tinha, era mais um desejo. Aquele tolo não podia ser tão sentimental assim. Duas semanas se foram e nada do mordomo. Os outros empregados se viravam como podiam, afinal se Sebastian chegasse de surpresa não teria do que reclamar. E Ciel... Ciel começava a pensar que, se isso era algum tipo de castigo, Sebastian poderia voltar, pois ele já havia entendido. Era o que o jovem pensava, embora ele preferisse morrer a admitir.
Com o passar dos dias, a cada barulho a cada voz, Ciel se virava para ver se não era o mordomo. Nas refeições tinha sempre o olhar perdido e por três vezes chamou Bard e Maylene de Sebastian. Se estivesse no escritório sempre fitava a janela. Se estivesse na cidade a trabalho seus olhos sempre percorriam a multidão. Quando estava no jardim tomando chá com Lizzy, Ciel sempre espiava disfarçadamente a entrada da propriedade. O jovem parecia cada dia mais solitário e perdido. Depois de um mês, até Elizabeth percebera que ele sentia a falta do mordomo. E no final de um mês, Sebastian retornou, justamente durante o chá da tarde.
Todos soltaram exclamações de alegria ao ver o mordomo com seu uniforme negro como sempre, até Elizabeth felicitou o seu retorno. Depois todos olharam para o jovem conde. Assim que vira Sebastian aparecer, servindo chá como se nada tivesse acontecido, Ciel pôs-se de pé num salto. O semblante do jovem mudou minimamente, como se fosse sorrir, mas não o fez. Ciel apenas saiu da mesa sem nada dizer. E ignorou o homem pelos dois dias seguintes. Mesmo durante o caso que ainda não tinha sido concluído, Ciel evitar falar com ele.
Três dias depois, os ânimos já estavam exasperados novamente.
– Eu não entendo porque você está tão aborrecido. – Dizia Sebastian seguindo o jovem até o escritório. – Fiz exatamente o que me ordenou. Resolvemos o caso, não resolvemos?
– É claro que resolvemos, mas podíamos ter terminado muito antes disso. E com menos perdas. – jogou o casaco sobre a poltrona e começou a remexer nas papeladas sobre a sua mesa. – Terei que fazer relatórios e mais relatórios pra explicar isso.
– Está bravo por isso?
– Não. – falava sem lhe olhar nos olhos, Sebastian já estava se aborrecendo com as infantilidades dele.
– Então me diga por quê. O que eu fiz de errado?
– Nada, Sebastian. Você não fez nada. Você é o mordomo perfeito, o que poderia fazer de errado?
– Se não tem mais ordens para mim, vou me retirar. – colocou a mão na maçaneta, mas o jovem o interrompeu.
– Vai se retirar por essa noite ou por dois dias ou por uma semana... ?
Bard, Maylene e Finny, no andar de baixo, escutavam a discursão sem saber por que eles realmente brigavam, queriam chegar mais perto para tentar entender o que eles diziam, mas Tanaka, o velho mordomo, puxou-lhes as orelhas.
– É por isso que está zangado? – Sebastian indagou.
– Você me abandonou! Por um mês. UM MÊS! Eu tive que ir atrás do cretino do Lau para conseguir homens o suficiente para a emboscada. Quase perdi um informante importante de Hertfordshire. E tudo por culpa sua. Quase que o plano vai por água a baixo. Que explicações eu daria a rainha?
– A verdade. Que o Cão da Rainha não passa de um pirralho mimado e arrogante. – Que se danasse tudo, não precisava aturar aquilo calado. Se era pra ofender, ele também o faria.
– Como ousa! – Ciel, enfurecido, bateu a mão sobre a mesa com tanta força que quebrou um pires de porcelana e jogou uma xícara que estava sobre a mesa em Sebastian, que desviou facilmente.
– Você está descontrolado.
– Eu. Ainda. Sou. O. Seu. Mestre. Não admito que me trate dessa forma. – Ciel tentou catar os pedaços do pires partido, mas acabou cortando a mão nos cacos da louça.
– Você me mandou embora. Você ordenou que eu desaparecesse da sua frente. Esqueceu-se disso? Mestre. – a última palavra fora dita debochadamente.
– Mas não era pra me obedecer, seu tolo! É a segunda vez que faz isso, me deixa sozinho sem uma explicação. É assim que um mordomo perfeito age?
– O QUE VOCÊ QUER DE MIM?
– QUE CUMPRA O CONTRATO! Que cumpra com o que foi acordado.
– Quer que eu coma sua alma.
– Sim. Não foi o que você pediu em troca? Ou será que minha alma se tornou tão repulsiva que você perdeu o desejo por ela? Que agora me trata como um qualquer sem valor.
– De modo algum, ainda a desejo imensamente.
– Então a pegue!
– Por quê? Por que deseja a morte? Estou dando a você o que milhares de mestres e mestras imploraram para conseguir. Quando suas vinganças acabavam, quando conseguiam o que tanto desejavam e o momento chegava, eles se ajoelhavam aos meus pés implorando por mais tempo, por piedade, por uma forma de desfazer o que fora feito. Ofereciam-me riquezas, prazeres e promessas, como se eu quisesse alguma dessas coisas, como se isso fosse capaz de me fazer mudar de ideia. Na hora da morte, todos imploram pela vida. Que tolos medíocres! A alma deles nem era tão valiosa assim. Não como a sua. E eu, deliberadamente, te dei mais tempo.
– Não sobrevivi a tudo aquilo para alcançar a felicidade, Sebastian, mas para conseguir minha vingança. E depois viria a morte. Já me vinguei, não tenho mais objetivo.
– Por que quer morrer?
– Porque eu não aguento mais isso... Essa... Sensação é insuportável!
– Que sensação?
– Essa... – Ciel fez um gesto com as mãos, como se segurasse uma bola invisível em frente ao peito e depois deixou os braços caírem derrotados. – Eu não sei! Não sei.
Ciel jogou-se na poltrona e ficou um bom tempo parado ali. Imóvel. Sebastian também ficou em silêncio, tentando manter a calma com o garoto ou acabaria o matando mesmo.
– Por mais quanto tempo pretende ficar me ignorando, Mestre?
– Mestre. Humph! Que piada. Acha que pode desaparecer assim sem explicações e voltar do nada e tudo vai ficar bem? – falou quase sussurrando.
Sebastian suspirou, caminhou até a poltrona e ajoelhou-se aos pés do jovem. Tomou-lhe a mão ensanguentada e passou a limpá-la com um lenço que tirou do bolso. O cheiro do sangue de Ciel era tentador, como tudo nele.
Ciel devia estar exausto mesmo, pois nada mais disse. Limitou-se a observar o mordomo fazendo um curativo sobre o corte.
– Devia ser mais cuidadoso, Mestre. Não quero que se machuque.
– Até parece que se importa. – falou sem força.
– Talvez não o tanto que deveria, nem da forma que você queira, mas eu me importo. Não acredita em mim?
– ...
Sebastian começou a enfaixar a mão do menor com uma atadura.
– Por que você não me matou naquela noite na ilha?
Sebastian o encarou, depois começou a dar uma explicação.
– Eu sabia que não precisava cumprir aquela ordem, de ir embora, mas eu estava com fome. Então parti e fiz um contrato e assim que estava alimentado voltei para você, Mestre.
– Conseguiu um novo contrato e o concluiu em apenas um mês?
– É fácil conseguir almas medíocres. Basta não ser criterioso. Muitos humanos trocam suas almas por coisas tão tolas. Sem valor, sem sabor, mas alimentam. Se não tivesse feito isso, eu não teria sido de grande utilidade. Acredite.
Sebastian olhou profundamente nos olhos do jovem. E aqueles olhos azuis pareciam clamar por ele, mesmo que Ciel nada dissesse; aquele olhar o atraia com uma intensidade sem igual. Como não percebera antes? Como não se dera conta disso?
– Entretanto, uma alma rara é como uma moeda de ouro que encontramos na rua. Ficamos felizes por encontrar algo tão belo e valioso em lugar tão inusitado. E tudo o que pensamos é em como gastá-la. Mas quando estamos perto de fazer isso, olhamos para ela e percebemos que aquele brilho dourado nos encanta. E a guardamos apenas para continuar admirando-a. Porque, mesmo querendo gastá-la, fizemos dela nosso bem mais valioso.
Sebastian tocou o rosto de Ciel levemente. O tecido de sua luva branca acariciando a pele clara do jovem, que em nenhum momento quebrou aquele olhar. O mordomo empertigou o corpo, ainda ajoelhado perante Ciel, e se aproximou lentamente dele.
Seu rosto estava tão próximo do garoto que podia sentir sua respiração quente. Fez menção de beijá-lo e Ciel não se opôs. Pelo contrário, Sebastian sentiu todo o corpo do adolescente pedir por aquilo. E selou os lábios.
Ciel fechou os olhos devagar. Não fez movimento nenhum, permaneceu imóvel sentido seus lábios serem pressionados. Nem respirava. Sebastian separou os lábios por um instante para tocá-los novamente, dessa vez, aprisionando o lábio inferior do jovem. Ciel ficou nervoso e ofegante, acabou abrindo um pouco a boca e sentiu a língua de Sebastian tocar-lhe. Respirou fundo e afastou-se, surpreendendo-se com o par de olhos vermelhos que o fitavam.
Sim. Ao beijar o jovem mais intimamente, mesmo naquele breve segundo, Sebastian sentiu o sabor daquela alma, o gosto de Ciel. E era maravilhoso.
Apesar de tudo, Ciel era um humano. Um humano incompleto, na visão de Sebastian. Ciel fora uma criança incompleta, era um jovem incompleto e seria um adulto incompleto. Pois precisou amadurecer cedo demais, de modo que sabia e havia presenciado coisas que muitos adultos não sabiam ou tinham visto; situações que criança alguma deveria presenciar. Mas ainda assim, nunca passara por experiências naturais da infância, nem da juventude. Embora fosse muito inteligente e sagaz, em muitos aspectos, Ciel era inocente e ingênuo, havia muitos assuntos que ele desconhecia ou ignorava, assuntos que ainda lhe causavam constrangimento ou vergonha. Talvez fosse por esse amadurecimento forçado que Ciel, apesar de todo o horror que sofrera, presenciara e até mesmo causara, ainda conservava sua inocência.
Ciel não deixava de ser um humano, um jovem humano. E como tal necessitava de atenção, de um toque ou abraço, de carinho e de carícias. Estava na fase em que, apesar de muito ignorar e não admitir, seu corpo ansiava por isso, desejava isso. Ele podia não saber, não perceber, mas seu corpo sabia, ele sentia, desejava ser tocado e ser beijado. Era isso que tanto o angustiava era isso que lhe causava a sensação de que lhe faltava algo. Ignorar esses desejos naturais, fingir que não os sentia só fizeram piorar tudo, só os fizeram aumentar. E por mais que julgasse inconcebível tê-los, ele era um humano. E precisava disso.
Os dois apoiaram-se na testa um do outro; ofegantes pelas sensações novas sentidas. Ciel sentia uma mistura de sentimentos estranhos. Sentia uma angustia reprimida, a sensação de que não devia fazer aquilo, de que era errado, mas ao mesmo tempo, seu corpo implorava para fazer novamente. Sebastian aproximou os lábios novamente e Ciel apenas retribuiu. A confusão no interior do jovem era tanta, que seu corpo estremeceu com o beijo e uma lágrima silenciosa escorreu por seu rosto. Ele que jamais chorara desde a morte dos pais, desde o contrato.
– Tudo bem, Jovem Mestre – Sebastian sussurrou com a voz rouca, Ciel ainda estava com os olhos fechados – Você precisa disso. Vai ficar tudo bem.
O mordomo voltou a beijá-lo e a acariciar sua nuca. Quanto mais beijava Sebastian, mas Ciel sentia seu peito se acalmar, todo o resto desaparecer como fumaça. Sentia-se leve como uma nuvem, e nunca o cheiro daquele homem lhe pareceu tão agradável. E tudo que o incomodava recentemente, tudo que lhe afligia foi esquecido. Existiam apenas os dois. Era como se toda a confusão alcançasse um equilíbrio.
Ouviram uma batida na porta.
– J-jovem Mestre Ciel, está tudo bem?
Era a voz de Maylene. Como tudo ficara silencioso de repente, eles resolveram conferir se os dois ainda estavam vivos. Não podiam ter chegado em hora mais inconveniente.
– Está tudo bem, Maylene. Eu e Sebastian estávamos apenas... nos entendendo.
Depois nada disseram sobre o ocorrido. Ciel apenas disse que ia se deitar e se retirou para o quarto.
No dia seguinte, agiram como se nada tivesse acontecido, nem Sebastian nem Ciel tocaram no assunto. E continuaram com todos os afazeres habituais, embora em alguns momentos Ciel ficasse corado quando Sebastian o olhava, e o mordomo sorria maldosamente, pois sabia que o jovem estava recordando aquela noite.
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Duas semanas depois, Bard terminava de preparar os cavalos. Era um dia de sol fraco e Ciel gostava de fazer um piquenique na colina em dias assim.
– Pegue o outro cavalo, Sebastian. Vamos apostar uma corrida até o topo. – Ciel já montado no cavalo falava sorrindo, com seu habitual tom de desafio. Era impressionante como seu humor havia mudado nos últimos dias. – Não vou deixá-lo ir correndo, seria trapaça.
Bard, entregando as rédeas do outro cavalo a Sebastian, olhou para Maylene, que trazia a cesta de comidas, sem entenderem como um homem a pé poderia trapacear um cavalo veloz.
– Vocês têm certeza de que não querem vir conosco? – Ciel perguntou aos servos.
– Já que tocou no assunto... – Bard começou a falar ao sentir o cheirinho de torta de maçã que vinha da cesta, mas Maylene o interrompeu.
– T-temos sim, Jovem Mestre Ciel. Nós precisamos ir até a cidade para comprar algumas coisas. – a ruiva dizia envergonhada por alguma razão, tentando manter a cesta longe de Finny, que tentava ver o que tinha dentro. – T-tome a-aqui sr. S-sebastian.
– Vamos, Sebastian.
Os dois partiram em disparada, subindo a colina coberta por um manto verde. Os cavalos trotavam depressa. Sentia o vento cálido tocar seu rosto e seus pulmões encher-se de ar. Em poucos minutos a mansão já estava distante e os dois avançavam pelo descampado, chegando ao terreno plano onde fariam o piquenique.
– Eu ganhei! – Ciel anunciou sorrindo.
– Claro, meu cavalo é mais lento.
– Não culpe o cavalo, Sebastian. Você perdeu, admita.
Sebastian estendeu a toalha sobre a grama e preparou o lanche. Ciel aproveitou para ler um pouco, já que aqueles barulhentos tinham resolvido não vir de última hora, iria aproveitar o silêncio. Depois apreciou uma deliciosa fatia de torta de maçã com cobertura de creme. Quando terminou, Sebastian começou a rir.
– O que ouve? – perguntou irritado.
– Com sua licença, Mestre. – Sebastian pegou um lenço e limpou um restinho de creme que tinha ficado no canto da boca de Ciel, deixando o garoto constrangido.
– Isso foi desnecessário. – falou fingindo aborrecimento para disfarçar seu constrangimento. Ciel sentiu o tempo ficar um pouco mais quente e reparou na roupa que o mordomo usava. – não está com calor, usando isso? Se quiser pode tirá-lo.
– Quer que eu tire meu fraque? – usou de um tom bem sugestivo.
– Eu disse “se” você quiser, mas se prefere cozinhar na sua fantasia de corvo o problema é seu.
Sebastian sorriu achando gracioso a maneira como o jovem ficava facilmente envergonhado. Aproveitando-se de sua distração, inclinou-se sobre ele, mas Ciel o afastou.
– Alguém pode nos ver.
– Me diga quem, Mestre? Não há ninguém por perto.
Ciel olhou ao redor e tudo o que via era grama, colinas e árvores. E o sorriso cínico de Sebastian.
– Tudo bem. – falou emburrado, como se aquilo fosse enfadonho. Mas Sebastian sabia que era puro orgulho do jovem, orgulho facilmente quebrado.
Enquanto se beijavam nada mais importava. Era a primeira vez desde aquela noite. Porém, nem mesmo ali, quiseram realmente conversar sobre as razões dessa nova relação, talvez temessem encontrar a resposta. Para Ciel era simplesmente agradável. Para Sebastian era uma nova forma de desfrutar da companhia do Conde.
Sebastian nunca fora dado a esse tipo de coisa, por mais que alguns mestres pedissem. Mas com Ciel era diferente, a começar pelo fato do rapaz não ter pedido, foi mais um acontecimento inevitável. Via tudo como mais um desafio. Era divertido lidar com a inexperiência do menor e ver como ele aprendia rápido. Era curioso como apesar de ainda conservar muitos preconceitos e muitos conceitos de moral, Ciel ainda se prestava a isso. Sebastian preferia pensar naquilo como um novo jogo, achando que uma simples necessidade biológica fosse a única resposta para o jovem concordar com aquilo, que se Lady Elizabeth estivesse ao lado dele naquela noite Ciel a teria beijado da mesma forma. Na melhor das hipóteses, pensava que era uma ótima forma de tornar aquela alma ainda mais desesperada. Sebastian terminou ignorando que Ciel era um humano e como tal, acabaria se afeiçoando a quem estivesse mais próximo a ele. Ignorou a possibilidade de que o rapaz pudesse realmente acabar se apaixonando por ele. Mas isso era impossível, uma vez que Ciel amava Elizabeth.
Era o que Sebastian pensava. E talvez fosse o que Ciel pensava. Mas acabaram ficando presos naquele relacionamento. Quando se deram conta, não era mais possível voltar atrás.
Sebastian sentia-se cada vez mais preso àquele humano. O que começou como um simples divertimento para ele ganhou nuances cada vez mais atraentes, mas complexas e traiçoeiras. Julgava-se imune a tais fraquezas humanas como sentimentos. Foi orgulhoso o suficiente a ponto de achar que não seria afetando após tantos anos de convivência com o humano, assim como esse fora afetado por ele. Não dava valor a essas tolices efêmeras e fúteis. Superestimou demais sua própria natureza e subestimou os seus desejos. O akuma não soube exatamente quando, como ou onde, mas em algum momento, entre ordens e chás da tarde, aquele garoto tinha o aprisionado com um laço mais forte que o próprio contrato. Pois ele tinha virado seu vício, sua obsessão, pois não se atrevia a classificar de outra forma. Antes tivesse devorado a alma dele naquele dia.
Sebastian tinha cometido o pior erro que qualquer predador pode cometer. Seu maior erro foi brincar com a comida.
Se antes não o matou porque lhe convinha, agora não o fazia porque simplesmente o desejava vivo.
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Enquanto o relacionamento de Ciel e Sebastian se tornava mais amigável e íntimo, o relacionamento do jovem com Elizabeth ficava cada vez mais frágil.
Elizabeth mudara um pouco. O pouco de maturidade que ganhou a fazia se comportar de maneira mais recatada. Evitava abraçar o primo a todo o momento e sorrir histericamente. Sua mãe lhe ensinara que uma boa esposa tem de ser discreta e educada. Era o que Elizabeth tentava fazer. Seus olhos adolescentes viam Ciel agora de outra forma, não apenas como um garoto fofo, mas como um rapaz belo de olhar intenso e voz firme. Achava adoravelmente fofo quando ele corava perto dela e gaguejava sempre que ela chegava mais perto. Quando caminhavam pelo jardim, um dos raros momentos em que ficavam fora da vista de Paula e Sebastian, Lizzy implorava para que Ciel tentasse algo; não era um pensamento de moça decente. Mas em sua inocente e romântica imaginação sonhava com o noivo tentando roubar-lhe um beijo. Mas isso nunca acontecia. E quanto mais o tempo passava, mais distante Ciel se tornava.
Depois que aquele período tenso com o mordomo havia passado, Ciel parecia mais calmo. Ele e Sebastian estavam mais conectados do que nunca, qualquer um percebia. De tanto observá-los, Elizabeth começou a notar aqui e ali alguns sinais, gestos e atitudes, olhares que remetiam seus pensamentos aos romances que tanto lia. Uma ideia estranha começou a nascer em sua cabeça.
– Mãe... – comentou certa vez enquanto Frances a ajudava a manter o penteado bem alinhado – é possível um rapaz gostar muito de outro rapaz?
– Claro. – Respondeu a marquesa, pegando a escova sobre a penteadeira, Elizabeth estava de frente para o espelho. – Quando a amizade é realmente forte podem se considerar como irmãos.
– Não. Não falo de sentimentos como amizade ou amor fraternal. Refiro-me a paixão. É possível um homem amar outro assim como um homem ama uma mulher?
A marquesa encarou o próprio reflexo no espelho ainda segurando os cachos dourados da filha.
– Possível é. Mas não é algo correto, nem aceitável. É contra a lei e contra a moral. Nunca vi tamanha falta de vergonha! Por que a pergunta? Não está falando do seu irmão, está? Porque se Edward estiver me aprontando alg....
– Não, não! Não pensava em ninguém em particular, é apenas curiosidade minha. Bobagem, minha mãe.
A ideia não saiu de sua cabeça. Começou com uma pequena sementinha de desconfiança, mas seus olhos mais experientes e observadores deram força aquela desconfiança. Não sabia muito bem o que pensar daquilo. Não queria por Ciel em problemas, nem queria perdê-lo, mas verdade seja dita, ele não parecia nem um pouco animado com a ideia de se casar com ela. A dúvida a machucava mais do que a certeza, mas não havia outra explicação, Ciel não a amava porque já amava outra pessoa. Em seus passeios, como quem não quer nada, ela comentou de propósito:
– Estive pensando, quando nos casarmos, não poderei trazer Paula comigo. Paula é uma ótima pessoa, muito prendada, mas já passou e muito da idade de casar. Sebastian também é um homem bem apanhado, e solteiro. Se Sebastian e Paula se casassem, poderíamos nós dois termos nossos servos sempre por perto. Seria perfeito, não acha?
– Sebastian tem suas obrigações, não tem tempo pra ficar de namorico por aí.
– Não pode controlar a vida dele assim Ciel. Ele precisa viver a própria vida, afinal, ele não pertence a você.
– Quem foi que disse que não?
Os dois pararam de andar. Elizabeth encarou o noivo em silêncio.
– Você me ama Ciel?
– Por que esse assunto assim de repente?
– Ama?
– Mas é claro, você é minha prima. – falou voltando a caminhar sem esperar a loira.
Era sempre assim, Elizabeth percebera há algum tempo. Ele nunca se referia a ela como noiva, era sempre prima. “Essa é minha prima, Elizabeth” ele dizia, “Prazer, sou Elizabeth, a noiva do Ciel” ela sempre enfatizava.
– Você ama o Sebastian?
A pergunta atingiu as costas do jovem que parou e voltou-se para ela com o rosto corado.
– Que absurdo é esse agora?!
Não era necessária resposta. Ela via a resposta a sua frente.
– “Você me ama Ciel?” Só havia uma resposta certa, “Sim, eu te amo” ou simplesmente “Amo”, no entanto você não o fez. Não conseguiria mentir pra mim, não é? Não sobre isso, o que você realmente sente. Não precisa casar comigo se pretende fazer isso forçado.
Naquele dia Elizabeth chegou em casa com uma notícia que foi mal recebida pelos pais.
– VOCÊ FEZ O QUÊ?! – gritava Frances. – Sabes quantos anos você tem? Dezessete! A maioria das moças da sua idade já está casada e com filhos. Sabe como é difícil arranjar um noivo a essa altura? Que maluquice foi essa de desfazer o noivado com o Ciel?
Elizabeth dissera a família que ela tinha desfeito o noivado, o que não deixava de ser verdade, sob a alegação de não estar preparada para a vida de casada. Por mais que estivesse sofrendo, não queria causar problemas a Ciel, pois poderiam começar a perguntar porque ele não casara com a jovem. A loira descobriu-se incrivelmente forte, pois conseguiu segurar o choro até que estivesse sozinha. Se começasse a chorar na frente de todos, sua farsa iria por água a baixo.
O marquês e a marquesa viam como a filha parecia definhar, mas não conseguiam a fazer mudar de ideia. Edward fora até a mansão tirar satisfações com Ciel, o qual chegara a ir visitar a prima, mas esta se recusara a recebê-lo. Passar-se-iam cinco meses até que Elizabeth tornasse a ver Ciel.
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Elizabeth dormia tranquilamente em seu quarto quando ouviu um barulho estranho. Acordou assustada e pôs-se a ouvir, parecia haver alguém em frente a sua porta. Ela desceu da cama e caminhou silenciosamente até a porta, não havia mais som. A garota olhou pelo buraco da fechadura. A princípio, não viu nada, mas um vulto negro passou diante de seus olhos, tão repentino foi que a moça caiu para trás. A porta abriu sozinha, lenta e ruidosamente.
Elizabeth levantou e foi andando de costas até alcançar sua espada de esgrima deixada sobre a mesa de canto, não tirava os olhos da porta. Permaneceu parada fitando a escuridão do corredor. Por mais que achasse muita imprudência, sua curiosidade a levou para fora do aposento. Antes de sair completamente, deu uma espiadela no corredor e começou a explorá-lo lentamente com a espada em punho. Talvez fosse apenas Edward indo fazer um lanche na cozinha, ela pensava, mesmo sentindo que algo dentro de si a alertava.
Seus pelos arrepiaram-se, estava ficando mais frio. Com o braço livre abraçou o próprio corpo numa tentativa inútil de se esquentar. Seus pés descalços tocavam o carpete vagarosamente. Os trajes brancos que usava davam a ela, naquele corredor mal iluminado, um aspecto fantasmagórico. Sentia que alguém a observava e que estava perto; tão perto que poderia tocá-la.
– Quem está aí?
A pergunta ecoou no escuro. A jovem sentiu uma corrente gélida de ar em seu rosto, e, subitamente, e todo o caminho que estava a sua frente desapareceu, seus pés quase tocando o nada. Girou sobre os calcanhares e tentou voltar para seu quarto, mas tudo atrás de si também tinha sumido. O carpete diminuía pouco a pouco, como que devorado pelas trevas até que ela caiu no vazio.
Gritou. A queda fazia seu estômago girar e ir para trás desconfortavelmente. Sentiu alguém segurar-lhe pela cintura e a levar até uma rocha. Era alto, como o topo de uma montanha. Foi largada ali. O terreno irregular e áspero fazia seus pés doerem. O frio fazia os pelos de seu corpo eriçar; a camisola de tecido fino e branco, que mal escondiam suas formas feminina, em nada lhe aquecia. Ficou de pé e viu que se encontrava agora a um passo do abismo. Não entendia o que estava acontecendo nem se aquilo era real. Parou na borda do precipício, apertando a guarda da espada com força, fitou a escuridão abissal. Aquela profundeza fria parecia lhe chamar.
– A morte parece realmente tentadora quando achamos não haver mais nada para nós nesse mundo, não é mesmo?
Elizabeth sobressaltou-se ao ouvir a voz atrás de si. Fincou os pés com força no chão para não perder o equilíbrio, algumas pedrinhas despencaram no vazio.
Encarou com perplexidade a figura alta e negra a sua frente. Tinha o sorriso de sempre. Trajava as roupas preto piche de sempre. Mas seus olhos brilhavam como duas bolas de fogo. Sua forma esguia e elegante parecia desvanecer entre a neblina.
– Sebastian?!
– O próprio. – fez uma mesura, sorrindo da indecisão da garota em apontar ou não a espada para ele. – Sugiro que não baixe a guarda, Milady, pois sou de fato uma ameaça.
A garota não colocou a espada em riste, mas apertou a guarda com mais força e empertigou o corpo como quem diz “Não tenho medo!” Sebastian gostou da atitude da jovem e aproximou-se dela. Elizabeth, sem ter para onde fugir, escorregou. Sua queda para a morte foi impedida por Sebastian, que a segurou pelo pulso e a puxou para cima.
– Por que a pressa?
– O que pretende, Mordomo? Não basta ter me roubado Ciel, veio pra me importunar também? – esbravejou a moça ainda sem ter certeza se aquilo era ou não um sonho.
– Os humanos são deveras interessantes. Você sabe que está vivendo uma experiência sobrenatural, mas ainda insiste num assunto tão banal.
– Do que está falando?
– Você sabe. No fundo os mais espertos sempre sabem, mas humanos só veem o que querem ver. Só acreditam no que querem acreditar. Pulemos as explicações longas e cansativas, vamos direto ao ponto. Eu sou um demônio e Ciel é meu mestre.
– Isso é algum tipo de brincadeira? Porque não estou vendo graça.
– Ora, vamos, Milady. Não há como um simples mordomo fazer isso tudo. – Sebastian fez um gesto com os braços para que Elizabeth olhasse em volta, e a moça o fez. Pareciam estar em um mundo de escuridão, onde não havia nada além daquela rocha, eles dois, névoa e o abismo. E aqueles olhos. Desde a primeira vez que viu Sebastian, sentiu nele algo ruim, mas aquela sensação tinha ido embora há muito tempo, no entanto, voltara naquele exato momento. Percebendo que a moça finalmente se convencera, Sebastian continuou. – Depois da morte dos pais, Ciel selou um contrato comigo em troca de sua alma.
– Mentiroso! Ciel jamais faria tal coisa.
– Jamais? Logo se vê que você não conhece o verdadeiro Ciel.
– É claro que eu o conheço. Ele é meu noivo, meu primo, crescemos juntos. Ciel é gentil, amável, bondoso, generoso e... E... e fofo. Jamais faria pactos com demônios.
– Ciel é rude, sádico, cruel, arrogante e vingativo, quanto a fofo, ele não possui nenhum antônimo para isso, isso de fato ele é. Mas, essas facetas, você ignora. Diga-me se estou mentindo, se você já não o viu, pelo menos uma única vez, demonstrar qualquer um desses adjetivos.
– ...
– Ciel é na verdade a pessoa descrita por mim e por você. Os dois em um só. A diferença é que eu conheço muito bem esses dois lados; e você conhece apenas um. – Fez questão de esnobar-se por isso.
– Não consigo acreditar que Ciel fosse capaz de tanto.
– Disso e de muito mais, como esperado do meu mestre.
– Por que está me contando tudo isso? Vai me matar?
Sebastian desapareceu de seu campo de visão. Tinha ido para trás dela. Sentiu cinco dedos fechar-se em seu pescoço. A pele da loira ficou tão branca quanto sua camisola, seu peito pulava de pânico. A voz do demônio saiu ao lado de seu ouvido.
– Confesso que a ideia é tentadora. Ah! Quantas vezes desejei fazer isso. Principalmente quando você era menor. Como era irritante e mimada. Sempre mudando tudo, sempre querendo tudo a seu modo, atrapalhando meu trabalho e o do Jovem Mestre. Sempre no meu caminho. E seria tão fácil. – falou apertando mais o pescoço jovem. – Mas...
Sebastian soltou Elizabeth, que caiu sobre os joelhos, tossindo e massageando o pescoço, seus olhos estavam cheios de lágrimas. O homem tinha tirado a espada de sua mão e torceu a lâmina fina como quem dá um nó numa fita.
– Se eu fizesse isso, Ciel jamais me perdoaria. Ele também a ama. E pensando bem, você teve sua serventia. Ciel tem novos planos. E eu tenho novos planos para ele também. Mas isso não será possível sem a sua cooperação. Mas você não há mais de querer ter tratos com o Jovem Mestre, agora que sabe o que ele ocultava. – deu as costas para a moça caída no chão e caminhou até a outra borda.
– Nada disso muda o que eu sinto. – Sebastian sorriu maliciosamente, depois, recompôs sua expressão de desinteresse e voltou-se para ela.
– Então você ainda o ama?
– Profundamente. – Os olhos verdes brilharam de convicção.
– Então me responda: o que você seria capaz de fazer por ele? – Falou sedutoramente, estendendo a mão para ela.
– Qualquer coisa.
Elizabeth segurou a mão do homem e ele a ajudou a levantar.
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– Elizabeth! Elizabeth!
Edward e seu pai gritavam e por fim arrombaram a porta do quarto da garota. A jovem estava em pé de frente para a janela aberta. Edward correu para a irmã e abraçou-a.
– Ouvimos você gritar. E você não respondia. – Falou o rapaz.
– Estou bem. Pensei ter visto alguém, mas foi só um pesadelo.
Alexis e Frances olharam para a filha, preocupados. Sabiam como ela tinha ficado abatida com o término do noivado com Ciel, tinham até imaginado o pior.
Enquanto era abraçada pelo irmão, Elizabeth fitava a espada retorcida ao lado da sacada.
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