Phantomhive
35 O Tempo Se Fecha
Notas iniciais
Capítulo 35: O Tempo Se Fecha
William T. Spears foi o primeiro a chegar. Quatro horas antes do amanhecer. Ele pousou sobre o telhado vermelho sem fazer barulho. Ajeitou os óculos no rosto e observou ao redor. Os outros três chegaram em seguida, enfileirando-se de cada lado de William. William puxou seu caderno de notas de dentro de seu paletó preto e o abriu para conferir as informações.
— Repassando as informações que recebemos: há alguns meses, Joshua L. Atkins, o shinigami responsável por Liverpool, foi dado como “Fora de Serviço”; algum tempo depois recebemos informações de que Atkins teria matado os outros dois shinigamis que atuavam nessa área. Suas foices não foram encontradas. Não sabemos o que realmente ouve com Atkins. Ele pode ser um desertor ou pode estar sendo manipulado, qualquer das duas hipóteses é um problema, no entanto. A cidade está sem supervisão e fervilhando de demônios.
— Eu posso sentir o cheiro repugnante. — Eric Slingby inflava as narinas. — Dá até arrepios. O ar aqui está pesado.
— Também posso sentir — Ronald Knox concordou.
— Aconteceram muitas mortes nessa área recentemente — William continuou ignorando a interrupção de Eric e Ronald. — Entretanto nenhuma alma foi devidamente coletada, é preocupante. Fomos enviados aqui para verificar o que está acontecendo. Muitos demônios estão se acumulando aqui e já perdemos três shinigamis, então fiquem atentos. Vamos nos dividir em...
— Eu fico com o Will! — Grell se pronunciou pela primeira vez, saltando para o braço de William antes mesmo que o shinigami terminasse a frase.
— ...pares. Por favor, Sr. Sutcliff, afaste-se. Está invadindo meu espaço pessoal.
— Ah, Will, não seja malvado.
William lançou um olhar fulminante para o ruivo. Grell sentiu-se estremecer olhando para aqueles olhos verdes.
— Afaste-se ou o afastarei a força.
Grell soltou o braço do moreno e deu um salto para o lado.
— Mas eu posso ir com você? —Grell falou de modo afetado, fazendo beicinho e usando sua expressão mais inocente para implorar. — Posso, não posso, Will?
William lançou apenas um olhar gelado para Grell antes de virar-se na outra direção e ajeitar os óculos.
— Certamente — ele concordou. Grell quase desmaia de alegria, mas se apressou para seguir o moreno; William já tinha avançado em grande velocidade sobre os telhados.
Ronald e Eric apenas se entreolharam e deram de ombros antes de seguir na direção contrária. Nem pensaram em protestar sobre a divisão das equipes. Nenhum dos dois queria agüentar o mal-humor de William ou a dramaticidade de Grell.
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Ciel foi acordando lentamente. Tentou se mover, mas algo o impedia. Só então, se deu conta da respiração quente em sua nuca, do corpo pressionado ao seu, dos braços de Sebastian prendendo seu corpo. Ciel ficou quieto por mais alguns minutos, apreciando a sensação familiar e gostosa de acordar com alguém ao seu lado. Ele percebeu a mudança na respiração atrás de seu corpo, e se virou para encarar Sebastian.
— Bom dia, meu lord —Sebastian falou num sussurro incrivelmente sedutor. — Sente-se melhor?
O rosto do jovem se iluminou em um sorriso.
— Sim. — Ciel inspirou profundamente o perfume que emanava do moreno. Ele se moveu sob os lençóis, esticando o corpo e roçando-se contra Sebastian. Colocou-se sobre o corpo do akuma e inclinou-se para um beijo lento.
Havia algo de muito excitante e confortável em compartilhar carinhos assim, no frio da manhã contrastando com o calor convidativo dos corpos sob os lençóis; dos movimentos preguiçosos e lentos; da vontade de ficar ali para sempre. Suas línguas roçavam sem pressa, às vezes ásperas, às vezes molhadas. Ora sugavam, ora mordiscavam os lábios um do outro. As mãos apertavam com força e possessividade, e depois deslizavam carinhosamente sob o tecido de suas roupas. Ciel quebrou o beijo, antes que ficasse excitado demais, e afundou-se no pescoço de Sebastian.
— Você precisa ir — Ciel se ergueu do corpo quente e sentando-se na cama, tentando ignorar ao máximo o desejo de voltar para o calor de Sebastian. — E eu tenho de ir para a escola.
Ciel levantou da cama, determinado a seguir sua rotina, mesmo que uma parte dele lhe dissesse que trocar Sebastian por um dia de aula não era uma escolha muito inteligente. Sebastian o seguiu, abraçando a cintura do jovem, por trás, e beijando-lhe a curva do pescoço, fazendo Ciel se arrepiar completamente.
— Sebastian — Ciel o advertiu. Ciel percebeu que seu próprio corpo começava a ficar entumecido, reagindo naturalmente aos toques e beijos de Sebastian. Eles não podiam ter sexo. Na verdade eles podiam, e a ideia era tentadora. Mas não ali, com seus pais e irmãs dormindo a algumas portas de distância, prestes a acordarem; não agora, que todos estavam irados com ele.
— Tem certeza que quer que eu pare?
— Sebastian! — Ciel não precisava ver os olhos do akuma, para saber que eles estavam vermelhos.
— Você venceu. Mas não hesite em me chamar, tudo bem?
— Certo.
Sebastian o soltou. Beijou os lábios de Ciel lentamente. E partiu.
Ciel ficou surpreso ao olhar seu reflexo no espelho do banheiro e perceber que ele ainda sorria. Ele ainda sorria, mesmo depois dos eventos desagradáveis do dia anterior. Ele não podia negar, estava completamente apaixonado por Sebastian, assim como fora duas vezes antes.
E Sebastian o amava.
Não conseguia evitar o sorriso, mesmo que tentasse.
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Roger Valentine olhou-se no espelho do banheiro pela manhã, estava com uma aparência péssima. Não dormira quase nada naquela noite.
Roger abriu a porta do quarto do filho. O quarto estava vazio, a cama estava feita. Desceu as escadas e encontrou apenas a esposa e a filha mais velha na mesa do café. O clima era diferente do costumeiro. Um silêncio incômodo tomava o lugar das manhãs quentes e cheias de risos de Angélica e Hortense. As duas tomavam seus cafés e mordiam suas torradas sem qualquer ânimo.
— Onde está o Ciel?— Roger se aproximou e puxou sua cadeira.
— Não se preocupe, pai, ele não fugiu. Acabou de sair para a escola. — Angie não disfarçou o despeito em seu tom de voz. Sua mãe lhe lançou um olhar repreensivo.
— Veja como fala comigo, Angélica. Sou o seu pai. E você também está encrencada, mocinha. Foi até a escola do Ciel, fingiu ser a responsável por ele, soube que ele quase foi suspenso por mau comportamento e mesmo assim não pensou em nos informar nada. Onde você estava com a cabeça?
— Bem... Mamãe estava muito ocupada com a escola de música e o bebê. Você quase nem fica em casa. Alguém tinha que se preocupar com o Ciel.
— E você acha que eu não me preocupo? — Roger deixou as mãos cair sobre a mesa, não pretendia ser grosseiro ou intimidador, estava apenas aborrecido e cansado da repentina rebeldia de todos os seus filhos.
— Não foi o que pareceu.
— Escute aqui, Angélica, eu o repreendi e o deixei de castigo porque ele mentiu para nós e se portou mal na escola, não porque ele... ele é...
— Porque ele é o quê? — Foi a vez de Angie bater na mesa com os punhos fechados. Sua face vermelha de irritação. —Não tenho certeza se foi isso que o Ciel entendeu. O senhor disse coisas horríveis pra ele ontem. Isso-É-Tão-Injusto. O senhor sabe como ele te admira. Deve ter sido horrível pra ele ouvir aquelas coisas de você. Tudo bem, ele mentiu e cabulou algumas aulas, mas que adolescente não faz isso? Além disso, ele provavelmente estava com medo da sua reação, por isso não tinha contado sobre o Sebastian.
A menção do nome do homem que vira beijar seu filho, Roger sentiu a raiva borbulhar novamente.
— Aquele sujeito — Roger praticamente cuspiu as palavras com desgosto. — É tudo culpa dele. Se eu o vir perto de Ciel novamente, mando prendê-lo.
— Não. Eu conheço o Ciel e eu conheci o Sebastian e sei que tem alguma coisa errada. Eu não acredito em uma palavra do que aquela conselheira disse ao senhor. — Angie se levantou atrapalhando-se com a cadeira e pegou sua bolsa. — Eu estou indo. Perdi a fome.
Roger ainda tentou chamar a filha, mas a garota o ignorou. Roger olhou para sua xícara de café e se lembrou dos eventos do dia anterior. A raiva voltou a crescer em seu peito. Mordeu a sua torrada com uma voracidade exagerada, engolindo sem mastigar direito, a massa desceu rasgando sua garganta; nem a comida tinha o mesmo sabor. Ela afastou o resto da torrada e tomou um gole de café para limpar a garganta.
— Aquela mulher desagradável. Ela praticamente sugeriu que eu não sou um bom pai. Que não sei cuidar do meu próprio filho. — Roger resmungou.
— Está falando da conselheira? — Hortense indagou. Roger a olhou confuso, ele tinha esquecido, por um segundo, que a esposa estava ali.
— Quem mais?
Hortense esperou um momento em silêncio.
—Roger, Sebastian esteve aqui antes e eu conversei com ele. Ele não me pareceu o tipo de pessoa que se aproveita de jovens.
— Esse tipo de gente nunca parece suspeita.
— Roger... Ele foi muito educado e atencioso. Na verdade, não me lembro de conhecer outra pessoa tão jovem e tão cortês. Ele me pareceu muito sério e respeitável. Havia algo de misterioso nele, mas nada como... pervertido. Ele me falou sobre o trabalho dele. Ele ajudou nosso filho, trouxe-o para casa quando se machucou. Ele estava preocupado com o bem estar de Ciel, era uma preocupação genuína, pude perceber — ela suspirou. —Angie saiu algumas vezes com ele e Ciel, ela acredita que tudo é mentira. Ele é mais velho que o Ciel sim, mas não vejo nada além disso que o desabone.
— Confia num completo estranho? — Roger olhou para a esposa,abismado.
— Não. Confio em nosso filho. Seja racional, homem, você realmente acredita que nosso Ciel se envolveria em algo impróprio? Que se enfiaria em um motel com um completo estranho, que tentaria convencer outros colegas de turma a...
— Talvez não, mas eu já vi esse tipo de coisa, Hortense. Esses tipos pervertidos manipulam e enganam jovens confusos. Além disso, Ciel parecia muito bem com a filha dos Wilson antes de conhecer esse tal sujeito. Quem garante que Ciel é mesmo gay? E se foi esse sujeito que colocou isso na cabeça dele?
— Pelo amor de deus! Roger! Como pode dizer algo assim? Como pode sequer acreditar em algo assim? — foi a vez de Hortense se levantar. Ela passou as mãos pelos cabelos ruivos acinzentados, colocou as mãos no quadril e tentou manter a calma. — Tudo o que essa conselheira lhe disse se baseou na denúncia de um aluno. Um aluno. Quem é esse aluno? Quem garante que esse garoto não inventou tudo isso? Como pode todo mundo sair tomando conclusões com base nas declarações de um único aluno? Essas acusações são sérias.
— Acha que não sei disso?! Mas por que o garoto mentiria? O que ele ganharia com isso?
— Não seja tão ingênuo. Por quê? Adolescentes não precisam de um por quê. Adolescentes são cruéis com quem é diferente. Você já foi jovem, esqueceu-se disso? Não lhe passou pela cabeça que podem ter feito isso para prejudicar Ciel? Porque ele é quieto, porque ele é estudioso, porque ele não joga bem, porque ele não é tão forte, porque ele é gay... por que, porque, sei lá, ele é filho do maldito chefe de polícia da cidade? Pode ter sido por qualquer razão estúpida.
— Mas e se for verdade, Hortense? E se for verdade? Vai deixar que nosso filho seja... usado?
—Claro que não. Deus, não! — Hortense respirou fundo e colocou a mão sobre o peito, tentando se acalmar e prosseguiu com a voz mais baixa e tranqüila. — Tudo o que sei é que Ciel realmente gosta deste Sebastian. E Ciel parece muito mais feliz ultimamente, você notaria se tivesse passado mais tempo com ele. E sei que Ciel pretendia contar a você sobre Sebastian e sobre sua homossexualidade. Contar da maneira certa. Se Ciel não estivesse tão certo sobre si mesmo e sobre seu... namorado, acha que ele faria um esforço para te contar pessoalmente?
Roger lembrou-se que Ciel o chamara para tomar café, dissera que precisavam conversar. Eles até tinham tocado no assunto de namoro. Na verdade Ciel realmente dissera que estava namorando outra pessoal. Eles não puderam terminar a conversa.
Os dois ficaram em silêncio. Hortense contornou a mesa e se aproximou do marido, colocando a mão sobre o ombro dele.
— Roger, tem certeza de que está apenas preocupado com Ciel e de que toda essa raiva não é também porque você descobriu que nosso filho está namorando alguém do mesmo sexo?
O homem encolheu os ombros. E olhou para a esposa, indignado.
— Eu não sou homofóbico, se é isso que você....
— Não estou dizendo que é. Eu realmente espero que não seja. Mas, é a impressão que você está passando, querido. Também não foi fácil para mim. Ainda não é... A gente sempre acha que lida bem com essas coisas, que vai saber o que fazer e o dizer, mas... É diferente quando é nosso próprio filho. — Hortense deixou seus ombros caírem. — Angélica tem razão, você foi horrível com Ciel. Imagine como ele está se sentindo? Ele é nosso filho Roger. Nosso filho. Estivemos do lado dele em tantos momentos difíceis. Ele precisa do nosso apoio novamente.
O assunto morreu por vários minutos de silêncio, até que Roger falou novamente.
—Eu estava zangado com o andamento das investigações no trabalho. E eu simplesmente não podia acreditar em tudo o que aquela mulher me disse. E quando eu saí da escola e vi os dois... Aquilo me subiu a cabeça. Eu... Ciel é meu filho. Eu achava que o conhecia e de repente... eu descubro que ele está fazendo todas essas coisas que nunca fez antes. Ele nunca mentiu pra nós. Nunca cabulou uma aula. Nunca...
—Você agiu mal. Deveria ter o chamado para conversar. Dar uma chance de se explicar.
—Acho que tenho que conhecer esse Sebastian melhor. Se ele for o que dizem, tenho que tomar medidas legais. Se não...
— Se não for, você vai pedir desculpas ao nosso filho e ao Sebastian. Se não o fizer, é melhor se acostumar a dormir no sofá. Com licença, vou pegar Evangeline.
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O trovão foi repentino. Cortando o ar, chacoalhando as janelas e fazendo o corpo de cada aluno tremer involuntariamente. O horizonte se enegrecia, as nuvens começavam a se acumular rapidamente. Outro estrondo estremecedor, seguido por relâmpagos e raios que se espalhavam como teias de aranha pelo céu.
Uma tempestade se aproximava.
Ciel desviou os olhos das janelas e voltou a prestar atenção a aula.
Três dias tinham se passado. Ciel e seu pai estavam se saindo muito bem em ignorar um ao outro. Na verdade, todos na família Valentine pareciam estar se ignorando um pouco. Ultimamente a única integrante da família que insistia em fazer algum barulho era a pequena Evangeline.
Ciel e Roger pareciam competir sobre quem parecia mais sisudo. Os dois não tinham trocado uma frase decente desde o dia da briga, o que era surpreendente, pois nunca passara tanto tempo com o pai.
Era sufocante. Roger insistira em levar e buscar Ciel para a escola todos os dias. Foi um tanto apavorante, naquele primeiro dia, quando saiu da escola, e encontrou seu pai o esperando no lugar de Sebastian. Ciel não sabia o que o irritava mais, ser tratado como criança, seu pai não confiar nele ou o fato dos dois terem de fazer a viagem de ida e de volta todos os dias em um maldito silêncio. Roger parecia não estar disposto a falar sobre o assunto, então Ciel também não queria.
Ciel nem mesmo entendia porque seu pai estava tão aborrecido, ninguém podia dizer que ele não estava sendo um bom filho de castigo. Ciel nem fora à casa de Sebastian nem ligara para ele em todos esses dias. Claro, Sebastian dormia com Ciel em sua cama todas as noites, mas seu pai não tinha dito nada sobre Sebastian aparecer magicamente em seu quarto no meio da noite; então, tecnicamente, ele não tinha desobedecido. Além disso, Sebastian e ele apenas dormiam e trocavam alguns beijos, não fizeram nada de realmente quente que pudesse ser de alguma forma reprovado.
Às vezes, Ciel desejava que o pai pegasse Sebastian em seu quarto, pelo menos o homem teria uma razão realmente justa para ainda não estar falando com o próprio filho. Logo Ciel tirava isso da mente, era uma ideia realmente estúpida.
Naquele dia, Ciel e o pai voltavam para casa novamente em silêncio. Ciel até sentia raiva do assassino por não estar matando ninguém e dos demônios por não estarem estraçalhando alguém por aí, talvez isso mantivesse seu pai ocupado e Ciel teria seu tempo livre novamente. Ciel sacudiu a cabeça para espantar o pensamento egoísta.
Preferiu fingir não notar que seu pai fingia que não estava o observando. Ciel continuou com os olhos fixos no céu nublado. O tempo estava realmente terrível, mas a chuva ainda não tinha começado.
Naquela tarde, Angélica contou ao irmão tudo o que finalmente tinha conseguido arrancar dos pais.
— Como é?! — Ciel indagou incrédulo.
— Isso mesmo que você ouviu — Angélica continuou. — Alguém da sua escola disse para a Conselheira Keener que Sebastian costumava aliciar jovens gays e que você foi visto com ele entrando em um motel. Claro, a conselheira ficou alarmada, e papai também. Esse aluno ainda te acusou de tentar convencê-lo a ir com vocês, que supostamente ele seria recompensado. Financeiramente. Entende o que esse garoto sugeriu?
— Esse... filho da mãe!— Ciel apertou os punhos.
— Não me admira que papai tenha fica enlouquecido. Mas, pensando assim, é até compreensível a reação dele. Se uma conselheira da escola lhe diz algo assim, você tem que considerar que...
— Fada-se o que a conselheira disse!
Angie arregalou os olhos para o irmão. — Você falou outro palavrão!
— Como o papai pôde acreditar nisso? Ele deveria ter perguntado a mim. Deveria ter conversado comigo. Comigo. Não sair tomando conclusões. E isso não justifica os absurdos que ele me disse. Não justifica nada.
— Você disse um palavrão —Angie repetiu completamente distraída.
— Você está me escutando? — Ciel estreitou os olhos para ela. — Estou tentando ficar furioso aqui.
— Sim. Você tem razão, não justifica o que ele disse.—Angie mordeu o lábio, pensativa.— Mas ponha-se um pouquinho no lugar dele. Se alguém lhe diz que tem um cara se aproveitando do seu filho, que seu filho ta se comportando como uma prostituta, e você vê seu filho e o tal cara se pegando na porta da escola, o que você pensaria?
— Nós só estávamos nos beijando. Não era motivo pra tanto.
— O que você pensaria?— ela insistiu.
— Está do lado dele?
— Não estou do lado de ninguém. Estou do lado da nossa família e não gosto quando as pessoas brigam. E você não respondeu a minha pergunta.
— Eu não pensaria — Ciel jogou os braços para o ar em derrota. — Quem é que pensaria numa hora dessas?
— Exato. Você tomaria tudo como verdade e faria a primeira merda que lhe viesse à mente. Assim como papai fez.
Ciel entendia o ponto de vista. Ciel concordava com a lógica do ponto de vista. Mas isso não significava que ele estava menos magoado com o resultado de toda a situação.
—Mas cá entre nós, Ciel—Angie continuou. — Quem teria armado isso pra você?
— Eu sei exatamente quem fez isso. Ivan Mason.
— Tem certeza?— Não era como se Angie não conhecesse o garoto e sua fama podre, nem que ela realmente duvidasse que Mason fosse capaz de algo tão baixo, era apenas questão de saber quem era realmente o culpado. Se havia alguém mais chateado do que Ciel com essas mentiras, era ela. Ninguém aprontava esse tipo de merda para seu irmãozinho e saia impune.
— Quem mais?
— Ele é um nojo de pessoa, eu sei, mas...
— Eu sei que foi ele. Ele me ameaçou antes disso tudo acontecer. Queria se vingar por algo que ele acredita que eu fiz. Ele me ameaçou por isso — de repente, Ciel se sentiu irritado consigo mesmo por não perceber algo do tipo vindo do Mason. — E esses dias, os amigos dele tinham aqueles risinhos idiotas para mim. Sei que foi armação do Mason.
— Certo. Mas, pelo amor de deus, não vai se meter em briga por causa disso. Não quero que você se machuque.
— Brigar? Não. Mason sabe lidar com a violência. Violência e armações, é como ele está acostumado a atuar. Não farei nada disso.
—Ciel, em que você está pensando?— a ruiva olhou intrigada para o irmão.
— Em nada. Esqueça. Não vou fazer nada.
Ciel gesticulou para Angie deixar o assunto para lá e largou-se no sofá.
— De qualquer forma, é melhor que tenha sido um inimigo do que um amigo. Seria horrível descobrir que foi, sei lá, a Liza. Porque você terminou com ela, sabe?
—Lizzy nunca faria isso.
Angie ficou surpresa com a convicção do irmão e a rapidez com que ele defendeu a ex-namorada. Talvez os dois fossem realmente amigos.
— Menos mal. Não há nada pior do que seu amigo virar um inimigo, porque, tipo, ele sabe todos os seus podres. Você deu um novo apelido a ela? Até gostei. Lizzy é mais fofinho?
Ciel virou-se para a irmã, com as mãos na cintura e piscando muito rápido.
— Espere, o que você disse?
— Que “Lizzy” é um apelido fofinho.
— Não; antes disso.
— Ah, é sobre algo que eu li uma vez em algum lugar. Dizia que a única pessoa que tem potencial para ser seu pior inimigo é seu melhor amigo, porque ele conhece todos os seus pontos fracos e todos os seus segredos.—Ciel já tinha ouvido isso antes, tinha certeza. Onde? Quando? — Isso é verdade. Lembro quando eu estava na terceira série e Jessica Riley e eu brigamos; a vaca contou pra professora que eu não tinha lido o livro obrigatório, apenas um resumo, e depois espalhou pra todo mundo que eu tinha uma queda pelo Billy Johnson, ele era uma gracinha...
Enquanto Angie continuava a falar, Ciel continuava a examinar suas memórias, até que finalmente lembrou. Foi durante o enterro de Amanda Midford. Evie tinha aparecido para ele no cemitério, ela estava sentada sobre a lápide de Melissa Utterson na época. Ciel tinha perguntado se ela tinha e podia fornecer alguma informação sobre o assassino. Evie fora muito misteriosa sobre o assunto e disse algumas coisas que mais pareciam enigmas. Na época, felizmente, ele conseguira descobrir, graças a Evie, onde o assassino atacaria: a Livraria Megabook. Lá, a escritora Akasha Ratchett foi morta.
Ciel lembrou-se também de outra coisa que Evie tinha dito na época.
“Você só conta seus maiores segredos para seu amigo mais confiável. Mas se esse amigo passa a ser um inimigo. Então, ele deve morrer.”
Imediatamente, Ciel lembrou-se também das palavras que o assassino tinha deixado para Ratchett antes de pegá-la.
“Eu confiei em você, e em troca tenta me trair?
Isso é um desrespeito a memória dela.
Você merece morrer... como todas as outras.”
—Hey! Aonde você vai? —Angie gritou, quando viu o irmão saltar do sofá, girar nos calcanhares e sair correndo para a porta.
— Lembrei que tenho de fazer algo importante. Talvez eu volte tarde.
— Não abuse da sorte, garoto. Você ainda está sob observação.
— Eu sei.
— E eu digo o quê pro pai e pra mãe?
— Que eu fui investigar algo.
Angie não poderia ter entendido menos.
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Claus Midford estava em sua sala no Departamento de Polícia Investigativa de Liverpool. Ele tinha espalhados sobre a mesa os arquivos de todas as vítimas do assassino. Ele olhava fixamente para o bilhete manchado de sangue dentro do envelope plástico de proteção, deixado no local em que Isabella Enfield tinha sido assassinada.
“Aqui, ela morreu.”
Abriu a pasta de Enfield e verificou o nome da rua em que o bilhete tinha sido encontrado. Entrou no banco de arquivos, digitou o nome da rua, Prudence Lane, e tentou cruzar com todos os crimes ou queixas registradas. Nada.
Aquele bilhete não fazia sentido. Talvez não fosse para ter um significado oculto. Talvez fosse apenas parte da brincadeira sádica do assassino.
— Talvez seja isto o que você procura. — Mark Callaway, Undertaker, apareceu ao seu lado sem dar qualquer sinal de sua aproximação. Claus nem mesmo ouviu a porta abrir ou fechar. Claus pegou o envelope plástico das mãos do shinigami. Era um pedaço de folha de jornal amassado e desbotado.
Claus aproximou o papel do rosto para ver melhor. Seus olhos se alargaram no momento em que viu o que era.
— Onde encontrou isso?
— Acredite ou não, dentro do estômago de Sibyl Ashton.
Claus olhou para o shinigami com desconfiança. — Posso saber porque você não nos mostrou isso antes?
— Não sabemos com certeza o que há lá. Pode estar abandonado há anos, pode não estar. Quer realmente levar um monte de policiais para um possível local de sacrifício humano?
Claus voltou a examinar o recorte. Era uma pequena notícia de canto de página, do tipo que os leitores costumam não dar muita atenção, pois geralmente são informações sem grande importância. Havia uma foto pequena de um prédio queimado e parcialmente destruído, uma placa dizia Orfanato Prudence Dalton; nada incomum, não fosse o símbolo esculpido em pedra sobre a placa com o nome do orfanato. Claus conhecia aquele símbolo e sabia o que significava, e recentemente tinha sido informado de que o mesmo símbolo estava na pele da mulher que o assassino procurava.
— Certo. Vamos verificar se é seguro. Depois informaremos a polícia e aos Phantomhive.
— Como desejar, meu amigo.—Callaway fez um gesto ambíguo, Claus não soube se era um tipo de reverência ou um tipo de zombaria.
— Não sou seu amigo.
Claus pegou seu casaco e saiu. Callaway o seguiu. Tiveram o cuidado de sair sem serem notados pelos outros policiais. Claus entrou no carro, deu a partida, mas viu que o shinigami ainda estava do lado de fora, olhando para as nuvens carregadas.
— Vamos logo. Não temos muito tempo. — Claus viu o shinigami girar a cabeça para ele lentamente, tinha um sorriso sinistro.
— Parece que vem uma tempestade aí — falou como se não fosse óbvio.
— E qual o problema, tem medo de água?
Callaway deu a volta e entrou no carro. — Não. De água não.
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Ciel tinha aparecido na porta de Sebastian sem qualquer aviso dizendo que ele tinha uma ideia e que precisavam ser rápidos.
— Precisamos de um disfarce e de distintivos falsos. Você pode conseguir isso?
— Mestre, você me subestima — Sebastian sorriu. Podia sentir a empolgação de Ciel, era excitante e nostálgico. Nem se preocupou em pensar que nostalgia, era um sentimento bem incomum para um demônio. Mas ele estava tendo tantos sentimentos incomuns desde o dia em que realizara um contrato com esse humano de alma desejável, que nem se importava mais com o que era e o que não era natural para sua natureza.
Sebastian bateu na porta de uma das vizinhas de Akasha Ratchett. Ele e Ciel resolveram fazer as perguntas por conta própria. Ciel estava determinado a saber mais sobre a mulher. O jovem tinha se convencido de que se cavassem mais a fundo descobririam algo que a polícia deixou passar. No entanto, eles já tinham conversado com quase todos que moravam no mesmo andar em que ficava o apartamento de Ratchett e não conseguiram nada de realmente relevante. Por último, eles bateram em uma porta no fim do corredor. Uma senhora veio atender, ela usava muita maquiagem no rosto e cílios postiços. Ela tinha também um cachorro da raça basset no colo.
O cachorro avançou sobre Sebastian, latindo sem parar. A velha tentava fazê-lo ficar quieto, inutilmente. Sebastian olhou para o animal com seus olhos de fogo. O cachorro soltou um tipo de gemido agudo, escapuliu dos braços da dona e sumiu para dentro do apartamento.
— Churchill, volte aqui seu menino malcriado! — a velha gritou. — Desculpem, não sei o que deu nele.
Ciel e Sebastian se identificaram como sendo investigadores da polícia.
— Você não é muito novo para ser da polícia? — a velha olhou para Ciel desconfiada.Ciel usava um terno azul marinho que Sebastian lhe arranjara, mas por alguma razão, a roupa que deveria lhe dar um ar mais maduro o deixava mais jovem.
Quando se olhou no espelho, Ciel não se importou muito, porque Sebastian disse que ele parecia muito profissional e sexy. Mas agora, em todas as portas que eles batiam, as pessoas olhavam desconfiadas para ele, mesmo depois de mostrarem os distintivos falsos que Sebastian conseguira sabe-se lá como. Talvez tivesse sido melhor mandar Sebastian investigar sozinho. Mas de jeito nenhum que ele aguentaria ficar enfurnado em casa por mais uma hora enquanto Sebastian tinha toda a diversão. Em todo o caso, as pessoas pareciam não acreditar que Ciel tinha idade para estar na polícia e não que eles eram de fato da polícia. Era um problema a menos.
— Nem tanto. Minha aparência engana. Tenho vinte e cinco. —Ciel mentiu. A velha o olhou de cima a baixo, incrédula.
— Mesmo? Não te daria nem vinte.
Ciel não sabia se ficava irritado ou lisonjeado.
— Ele faz parte do Programa Para Jovens Investigadores do Departamento Policial de Liverpool, o PPJIDPL. A senhora já deve ter ouvido falar. — Sebastian falou naturalmente, com um sorriso no rosto. Ciel levantou a sobrancelha para a mentira deslavada. Quem acreditaria numa besteira dessa?
— Claro, claro. Já ouvi falar — mentiu a velha, não querendo parecer desinformada, sem saber que o tal programa não existia. — Os outros policiais não vieram me fazer perguntas.
— Um lapso deles, certamente. — Sebastian sorriu e foi puxando um caderninho e caneta. —Mas gostaríamos de saber qualquer informação que a senhora possa nos dar sobre a senhorita Ratchett.
— Não sei muito, na verdade. Ela não costumava sair ou conversar com os outros moradores. Você não querem entrar e tomar uma xícara de chá? — a velha avaliava Sebastian com mais interesse.
— Não, obrigado. — Ciel recusou rapidamente, depois forçou um sorriso. — A senhora sabe se ela tinha algum inimigo, já a viu discutir com alguém ou qualquer coisa do tipo?
— Não. Se bem que... — a velha pareceu pensar. —Não sei se devo comentar. Dizem que não se deve falar mal dos mortos.
— Oh, por favor, fale.—Sebastian estava usando seu sorriso sedutor, e Ciel teve vontade de chutá-lo para que ele parasse. — Qualquer informação é de suma importância.
— Bem... Ela realmente não saía muito, só para o trabalho. Todo mundo dizia que era coisa de artista; que escritores ficavam enfurnados em casa com o nariz em papel e tinta até terminarem um livro. Pra falar a verdade, eu sempre a achei muito metida. E acho que não falava com os vizinhos porque se achava melhor do que todo mundo, só porque vendeu alguns livros. Os livros nem eram tão bons assim, na minha opinião, e...
— A senhora deu a entender que sabia algo interessante sobre a escritora.—Ciel a interrompeu, impaciente. A velha olhou para ele confusa e Ciel forçou outro sorriso para encorajá-la a continuar.
—Acho que ela estava tendo um caso com um homem casado. — a velha continuou, e vendo a surpresa dos dois supostos investigadores, ela se empolgou com a fofoca. —É sim. E todo mundo sabe que mulher que se mete com homem casado não pode ser boa coisa. Não me admira que terminou como terminou.
— A senhora pode descrever esse homem?—Ciel se animou com a possibilidade de que todo o esforço deles ali não seria infrutífero.
— Na verdade, não. —Ciel sentiu-se murchar com a resposta. —Não que eu estivesse espionando, mas, o apartamento dela fica lá no começo do corredor, o cara saía da escada e entrava direto no apartamento dela.
— A escada? —Ciel e Sebastian perguntaram ao mesmo tempo. Eles se entreolharam e Ciel continuou. —Ele não usava o elevador?
—Não. Ele sempre vinha pela escada e usava sempre o mesmo casacão preto com capuz. E só vinha depois das onze da noite. Era óbvio que era homem casado. Conheço o tipo. Não queria ser visto ou reconhecido. Ele vinha uma vez por semana, toda sexta-feira. Mas nunca consegui ver o rosto. Mas, claro, não que eu estivesse prestando muita atenção. Sou muito atarefada.
— Imagino. A senhora viu ou ouviu eles discutirem alguma vez?
— Ver, ver, não. Não aqui. Mas a ouvi discutir no celular uma vez. Acho que era com ele, porque depois disso o sujeito não apareceu mais por aqui.
— Isso foi quanto tempo antes de ela ser assassinada?
— Umas três semanas antes. Acho que o amante queria terminar e ela estava ameaçando contar pra esposa dele. Não que eu estivesse espiando, mas a ouvi dizer alguma coisa sobre contar para todo mundo e falou numa tal de Melissa. Com certeza é a esposa do amante.
Eles deixaram a velha depois de mais algumas perguntas e checaram as escadas e o elevador.
— Ele foi esperto — Sebastian comentou. — Os elevadores têm câmeras de segurança, as escadas não.
— Tem alguém que quero interrogar também, antes de voltarmos.
— Quem?
— O editor de Ratchett.
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O editor de Akasha Ratchett os recebera com grande relutância, dissera que estava muito ocupado. Ele também foi o único a não questionar a idade de Ciel, e só por isso Ciel simpatizou mais com o homem. Ele os recebeu em seu escritório, que tinha pilhas e mais pilhas de manuscritos espalhados pela mesa e pelos cantos. Havia um cinzeiro entulhado de restos de cigarros sobre a mesa. O homem falava muito rápido, talvez pela nicotina ou pelo café; ele tinha uma xícara enorme em mãos.
Como Akasha não costumava sair, segundo seus vizinhos, a pessoa com quem ela passava mais tempo, fora o amante misterioso, era seu editor.
— Estávamos ocupados com os preparativos para o lançamento do novo livro, O Cavaleiro da Morte, quando ela chegou com esse novo manuscrito. Eu até fiquei surpreso, ela nunca apareceu com uma nova ideia tão rápido. Digo, ela mal tinha terminado o anterior. Ela foi bem insistente para que eu lesse; bem, a mulher já tinha escrito uns cinco livros que venderam bem. Fiquei até excitado com a ideia de já ter um novo livro em andamento. Que nada! A coisa era medonha. Terrível! Devo dizer. Estava completamente mal escrito, o que era bem incomum; Akasha sempre escrevia muito bem, nem dava trabalho aos revisores, mas pareceu que ela tinha digitado a coisa toda na noite anterior ou tomou alguma coisa muito forte antes de escrevê-lo, se vocês me entendem.
“Não era só a forma como estava escrito, mas o enredo em si, ou a falta dele. Ela sempre escreveu essas histórias de mistério, terror e sobrenatural, mas aquilo... aquilo era diferente, perturbador. Uma coisa bizarra e cruel e sem sentido. Eu não podia sequer pensar em publicar uma coisa daquelas, nosso público é predominantemente jovem. Eu teria uma turba de pais irados e religiosos conservadores na minha porta querendo minha cabeça no dia seguinte. Além disso, o texto era impublicável, a não ser que ela colocasse uma ordem, preenchesse as lacunas ou desse um pouco mais de harmonia; eu disse isso a ela, mas ela não ligou muito. E pra ser sincero, eu não queria mesmo publicar aquela história, aquela coisa me assustou. Eu até perguntei de onde ela tinha tirado aquilo. Ela disse que a ideia veio de uma amigo. Vejam só.”
— Lembra do que se tratava a história?—Ciel perguntou quando o homem parou para respirar.
— Era um emaranhado de coisas estranhas. Falava de um orfanato e de uma seita que seqüestrava e assassinava menininhas virgens para invocar demônios. Bem louco, eu sei. —Ciel e Sebastian se entreolharam. —A coisa era descrita com detalhes muito vívidos e perturbadores. Poderia ser um material e tanto, poderia vender, eu admito, mas iria precisar de muitos cortes. Mas... não sei, tive uma sensação muito ruim enquanto eu lia aquilo. Senti nas entranhas, e quando sinto isso, pode apostar, o livro não vai vender.
“Achei que ela poderia estar metida em alguma coisa estranha, sei lá. Porque ela andava realmente muito esquisita. Mas ela não voltou a comentar sobre o livro e, pensando bem, ela realmente não me disse para publicar a coisa, ela só pediu que eu lesse.Ela não insistiu sobre o manuscrito, nem sequer reclamou quando eu disse que precisava de muitos ajustes e que eu não poderia nem pensar em publicar algo assim. Depois eu esqueci da coisa toda. Ela continuou nervosa e inquieta nos dias seguintes,mas achei que fosse por causa do lançamento. Ela sempre ficava nervosa com o lançamento de um novo livro.”
— O senhor ainda tem esse manuscrito?
— Não! — o homem respondeu com uma careta, como se a resposta fosse óbvia. — Joguei-o fora. Como pode ver — ele lançou o braço no ar na direção das pilhas de papéis — lixos mal escritos chegam aos montes aqui, separamos os que tem algum potencial e nos livramos do resto. Do contrário, ficaríamos soterrados. Mas aqui entre nós, não quero parecer um espírito de porco egoísta, mas os livros da Akasha estão vendendo muito mais depois que ela morreu. Mas é claro, foi uma perda horrível. Que Deus a tenha.
— Fomos informados de que Akasha tinha um amante. Um homem que a visitava frequentemente. O senhor tem alguma ideia de quem poderia ser? — Sebastian perguntou.
— Akasha? Um amante? — o homem gargalhou, fazendo seu volumoso bigode balançar de um jeito estranho. — Impossível!
— Por que o senhor diz isso?
—Akasha era lésbica. Mas pensando bem, acho que a vi com um homem num carro uma vez. Mas não sei quem era o sujeito.
— Pode descrevê-lo?
— E eu lá tenho cara de quem fica reparando em macho, meu jovem? Era homem e tinha cabelo preto ou marrom, sei lá! Um desses tipos... como é que chamam hoje em dia?... Metrossexual. É tudo o que posso dizer.
Quando saíram da Editora, tinha começado a cair uma chuva fina, que aumentou consideravelmente depois. Ciel colocou os braços em volta dos ombros de Sebastian e pediu para levá-lo para casa o mais rápido possível.
Ciel não disse nada durante todo o caminho. Sua mente estava perdida, cruzando todas as informações com o que eles já sabiam.
Quando chegaram ao seu quarto, Ciel andou com cuidado até a porta, checou se o corredor estava vazio e tentou ouvir vozes vindas de algum lugar.
— Além de você — Sebastian falou ao seu ouvido —, não há mais nenhum humano na casa.
Já era noite, mas seus pais ainda não tinham chegado. Se perguntou aonde Angélica teria ido.
— Não sente-se na minha cama! — Ciel avisou. Sebastian só não reclamou da proibição, porque o rosto zangado de Ciel parecia muito adorável. — Você está todo molhado.
Os dois estavam encharcados. Ciel puxou a camisa molhada sobre o pescoço e a atirou no sexto de roupas sujas. Começou a desabotoar as calças quando percebeu que Sebastian estava parado o observando. O desejando para ser mais exato.
— Está esperando o quê aí parado? — o tom autoritário novamente, que fazia Sebastian se arrepiar. — Tire logo suas roupas. Temos alguns minutos antes deles voltarem.
Sebastian congelou ao perceber o que Ciel pretendia. Sorriu internamente e sentiu-se aquecer, mas não o aquecer luxurioso, algo mais suave, mas terno; ele não sabia explicar.
— Tem certeza disso? — Sebastian perguntou, mas sem seu costumeiro sorriso zombeteiro e discimulado.
— Você não quer? — Ciel parou com as mãos na braguilha. Começava a se sentir envergonhado.
— Eu estaria louco se não o quisesse — Sebastian sorriu e se aproximou de Ciel. Deslizou os dedos pelos cabelos úmidos do jovem e o puxou para um beijo.
Foi rápido, desesperado e quente.
Divertido até.
Alguns minutos depois, Ciel voltava do banho e Sebastian já estava em suas roupas secas.
— Seu pai veio falar comigo essa tarde.
— Sério? Espero que não tenha sido tão ruim.
— Na verdade não foi. Acho que sei lidar com policiais interrogadores e pais irados.
— Imagino. — Ciel livrou-se da toalha e começou a se vestir na frente do akuma, sem qualquer vergonha. — O que ele queria?
— Queria saber sobre nós. Mais precisamente sobre mim.
Ciel olhou para ele hesitante.
— Não se preocupe, Ciel. Eu fui um bom moço — Sebastian sorriu. — O que seria de mim se não soubesse causar uma boa impressão no pai do meu mestre?
— Convencido.
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SALVADOR, BRASIL
Eles chegaram ao lugar que os humanos chamavam de Pelourinho por volta do entardecer. Porém, o sol ainda ia alto e o calor os fazia suar horrores. Era sempre quente ali. Agora eles entendiam porque o país se chamava “Brasil”. O calor era até familiar, mas seus corpos tinham se acostumado com o clima frio da Europa.
Os três saíram do centro histórico e se enfiaram pelas ruelas pitorescas. Labirintos de construções antigas, edifícios de cores coloridas. As pessoas iam e vinham, sorridentes; alguns os ignoravam outros os tomavam como turistas. Mais adiante, havia um grupo de humanos, envolta de alguma apresentação de dança ou luta, eles não estavam certos. Alguns tocavam, mas os homens pareciam lutar. Humanos são interessantes.
Eles pararam para observar a luta dançada.
Uma garotinha vestida de branco os observava. Ela puxou a saia de uma mulher negra várias vezes, tentando conseguir atenção. A mulher também estava de branco, com uma saia volumosa e muitas miçangas em volta do pescoço. Quando a mulher finalmente se virou, a menina apontou para os três.
—Kiumbas? — ela perguntou com curiosidade e apreensão.
A mulher olhou para os três rapazes parados ali perto, assistindo uma apresentação de capoeira. Seus olhos se estreitaram quando um deles olhou para ela e sorriu.
— Não. Não kiumbas. Outra coisa — a mulher agarrou o braço da criança, puxando-a para si protetoramente e se afastou.
Os três saíram e continuaram sua busca. Eles finalmente avistaram quem eles procurava, Hannah Annafellows estava sentada em uma mesinha posta em uma calçada, em um restaurante pequeno. Ela os viu de longe, se levantou e se afastou.
Ela usava um vestido azul claro e comprido, que se contrastava com sua pele morena. O vestido tinha estampas de flores brancas, e uma abertura na altura da coxa até embaixo. Ela se misturou com um grupo de turistas e se afastou quando teve a chance. Mesmo assim, eles a interceptaram.
— Finalmente encontramos a nossa adorada deusa.— disse Thompson fazendo uma reverência pomposa.
— Eu não sou deusa —Hannah falou com sua voz mansa e sedutora, sem se virar para encará-los. —Como me encontraram?
— Ela nos mandou a sua procura. — disse Timber.
— Mas não foi fácil te encontrar — disse Canterbury. —Parece até que não queria ser encontrada. Vindo para este lugar tão... longe.
— Era a minha intenção, mas vejo que falhei.
— Estava se escondendo até de nós? — Thompson se aproximou. —Sabe que adoramos servi-la, mais do que a ela.
— Então é ela quem está trazendo os kroboros para o Domínio Humano. Ela não tem sido muito discreta. Os humanos são cegos e tolos, mas do jeito que as coisas vão, não vai demorar muito para que eles percebam a verdade. Não precisamos desse tipo de exposição. Não é seguro para nenhum de nós.
— Dessa vez, parece que as coisas estão caminhando bem a nosso favor. — Canterbury explicou. — Ela conseguiu encontrar a criança dos Phantomhive. E não só ela. Mais quatro quimeras.
— Quimeras naturais?!— Hannah se virou para eles surpresa. Os trigêmeos assentiram. — Como?
— Com a ajuda de um aliado — disse Timber.
— Já temos um shinigami também. Mas vamos precisar da sua ajuda para dar o próximo passo —Thompson completou.
Hannah observou o sol se pondo, tingindo o bairro de dourado. Ela suspirou.
— E Claude?
— Precisamos de você para encontrá-lo — disse Canterbury.
— Precisamos ser rápidos. — Timber enfatizou. — Logo ela isolará Liverpool.
— Você vem ou não? — Thompson insistiu.
Hannah olhou mais uma vez para a paisagem. Ela gostava daquele lugar. Era animado e ao mesmo tempo, tranquilo. Ela tinha alimento de sobra e ninguém a incomodava. Ela queria ficar. Mas sabia que se ficasse, teria problemas.
Ela suspirou e os seguiu.
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LIVERPOOL, INGLATERRA
—Não a desperte. Não, não a desperte. A desgraça virá quando ela acordar.
—Sim, irmã. Não a desperte. Não, não a desperte. Deixe-a descansar.
As vozes saíam de um dos caixões grandes e se repetiam continuamente. O demônio se irritou e começou a desferir chutes no caixão.
— Calem a boca suas porcas tagarelas. Despertá-la é justamente o que eu quero. Quietas! Sua ladainha está me irritado. — e virando-se para alguns kroboros: — Amordacem essas duas. Não quero ouvi-las.
Os kroboros olharam hesitantes.
— Mas não podemos tocá-las. Aqueles arcos machucam.
— Então tenham cuidado para não tocar nelas. — Voltou-se para a menina adormecida. —Eu sei que você pode me ouvir, então, acorde!
Continuou a recitar seu feitiço até finalmente arrancar a menina de seu estado de adormecido. A menina acordou num susto, surpresa por ter sido trazida de volta a consciência. Levantou-se do caixão, mas grilhões a mantinha presa, sentiu-se como um cachorro encoleirado. Olhou para o demônio, irritada.
— Eu sei que você tem aprontado pelas minhas costas, mas agora que está acordada, podemos nos divertir. E você vai fazer o que eu disser.
— Eu não tenho que fazer nada. Você não tem poder sobre mim. — Evie falou numa voz calma e fria.
O demônio se aproximou dela lentamente, fazendo os arcos no pescoço e punhos de Evie brilharem em advertência.
— Você está me desafiando? Não posso feri-la, por enquanto; mas posso atingi-la de outras formas. O demônios estalou os dedos e um kroboro entrou com um corvo se debatendo em suas mãos. — O que acha de termos um caldo de corvo para o jantar?
— Deixe-o. — a menina disse entre dentes.
— Você acha que eu não percebi o seu bichinho perambulando por aqui e por aí?
— Deixe-o.
O kroboro apertou as garras na ave, fazendo-a gralhar.
— Deixe-o! — Evie gritou, enfurecida. Seus olhos ficaram vermelhos e o kroboro que segurava o corvo se desintegrou.
O céu estrondou e um clarão repentino penetrou pelos espaços abertos. A chuva começou a se transformar numa tempestade.
O corvo bateu as asas cambaleante e empoleirou-se nas barras de ferro de uma janela quebrada.
O demônio gargalhou.
— Você se acha melhor do que eu, não é? Mas você é apenas um monstrinho mestiço. Uma criança das trevas como todos nós. Um monstro.
Evie cruzou os olhos com o corvo a distância, rapidamente, e lembrou-se daquele dia há muitos anos.
— Monstro! Tirem esse monstro da minha casa. Não a quero perto dos meus filhos. Tire esse monstro daqui!
A mulher gritava aos prantos, abraçada ao corpo da criança morta.
— Foi um acidente. —Evie disse num fio de voz, espantada com o que tinha feito, com o que sentia naquele momento. Todos da família Midford a olhavam horrorizados. A pequena Agatha tremia de medo dela. Evie viu a vó Elizabeth se aproximar da confusão, atraída pelos gritos da mulher. Evie ficou com medo de Elizabeth a odiar também. — Me desculpem, foi um acidente.
— Não, não foi. —Evie ouviu Cyrus dizer. Ela olhou para ele relutante. Não havia horror nem surpresa nos olhos de Cyrus, apenas o mesmo olhar frio e indecifrável que ele sempre dirigira a ela. De alguma forma, aquilo foi pior.
Ela saiu correndo antes que qualquer um a mandasse embora. Antes que mais alguém a chamasse de monstro.
“Não sou um monstro.”
Evie fechou os olhos e se acalmou.
— Não sou um monstro. — ela disse em voz alta.
— Como queira — disse o demônio. — Desobedeça e o corvo morre. Agora... encontre Glades.
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