Phantomhive
36 A Tempestade – Parte I
Notas iniciais
Capítulo 36: A Tempestade – Parte I
— Não sou um monstro — a voz de Evie saiu trêmula, não de medo, mas de irritação. Ela olhava para o demônio a sua frente com profundo ódio.
— Como queira — disse o demônio. — Desobedeça e o corvo morre. Agora... encontre Glades.
Evie estreitou os olhos, mas não fez nada. Ele observou o grilhão que prendia seu pé. Estava preso ao chão, no centro de um circulo de aprisionamento. Ela não teria como sair dali, infelizmente.
— Você não pode me obrigar. Tente fazer algum mal ao corvo e não descansarei até que você vire cinzas. Não vai me manter aqui por muito tempo.
Evie apontou as mãos para o chão sob seus pés, e as fechou em punhos. Ela ergueu os braços lentamente, com esforço, como se arrancasse o solo com os próprios dedos e força. O piso de madeira velha começou a tremer e a soltar pequenas lascas, desfazendo o desenho do feitiço.
— Pare com isso — disse o demônio.
O tremor se espalhou pelas paredes, fazendo as partes já ruídas se despedaçarem e se desprenderem; os krokoros começaram a se movimentar, atordoados, temendo serem atingidos pelos pedaços de concreto que se soltavam. Frestas se abriram no teto podre, deixando a chuva se infiltrar ainda mais.
— Pare com isso!
O demônio agarrou a menina pelo pescoço apenas para soltá-la em seguida, segurando sua mão novamente negra e deformada, como se tivesse sido carbonizada.
O demônio ficou surpreso, mas depois sorriu.
— Tem razão. Eu nem mesmo posso tocá-la. Mas ele pode.
O demônio deu um sinal, e o shinigami Atkins, que estivera até então imóvel, se aproximou e jogou a mão a frente. De dentro de suas mangas saíram correntes que se enrolaram em volta dos braços e pernas de Evie. O metal a queimou, para surpresa da menina. O shinigami a puxou, fazendo-a cair contra o piso empoeirado e destruído. Ele começou a puxá-la. Quanto mais Evie tentava se soltar, mais as correntes envolviam seu corpo.
O demônio começou a rir.
— Você vê. Dizem que as foices de um shinigami são as únicas coisas capazes de matar um demônio ou um anjo. Nós fizemos esse e outros presentes como esse especialmente para você, infelizmente, alguns shinigamis tiveram que morrer. Mas quem vai sentir falta? — disse dando de ombros. — Não me tente a ordenar o nosso amigo aqui a te machucar mais — dizia com voz doce e forçadamente infantil, depois gritou em fúria:
— Agora, encontre Glades!
— Não consigo localizá-la, demônio estúpido! — Evie esbravejou.
— Está tentando me enganar, sua víborazinha mestiça!
— Acredite no que você quiser.
— Aperte — o demônio ordenou. O shinigami apertou mais ainda as correntes, fazendo a pele de Evie queimar. Ela trincou os dentes, recusando-se a gritar. Ela não demonstraria fraqueza na frente daquelas criaturas.
Evie viu quando o corvo, que observava do alto da janela, começou a se mover. Ele ia tentar protegê-la.
Não, Poe. Não! Evie disse em sua mente, quando viu o corvo abriu as asas.
A ave parou, ainda indecisa se devia avançar ou não. Evie parecia estar sofrendo, aquelas correntes estavam ferindo ela. Ele não podia permitir que a machucassem.
Vai embora, Poe.
O corvo meneou a cabeça negativamente.
Se você continuar aqui, você será mais a minha fraqueza do que a minha segurança. Não me olhe assim, eu não poderei me defender deles se tiver que me preocupar com a sua vida. Vá atrás dele. Eu ficarei bem.
O shinigami continuava a apertar as correntes. O demônio tomava o silencio da menina como rebeldia.
Por favor, Poe. Ela pediu mais uma vez.
O corvo fechou os olhos por um instante, assentiu e alçou voo para longe do prédio.
— Pode continuar me apertando até me sufocar— disse Evie em voz alta. — Mas eu digo a verdade. Ela é uma bruxa e colocou um feitiço de sigilo sobre si mesma, assim como você colocou em mim. Não posso ajudar você, sinto muito.
O demônio avaliou a menina por um momento, e finalmente deu um sinal para que Atkins afrouxasse as correntes, mas sem libertar Evie. A pele completamente queimada em carne viva, começou a se curar lentamente, até voltar a seu aspecto leitoso e intacto.
— Não podemos encontra-la, mas temos como fazer com que ela venha até nós. Eu só preciso dela para concluir meu pacto. Então, você será minha. E o todo o resto.
O demônio se virou para um dos kroboros e disse:
— Você, traga o Refaim.
O kroboro, e o outro que estivera lutando para amordaçar as gêmeas videntes, arrastaram um dos outros quatro caixões, o maior de todos, até o demônio. Eles abriram a tampa e revelaram uma criatura muito semelhante a um homem, enorme. De pele acinzentada e grossa, e cabelo ralo. Os braços dele eram musculosos, pareciam capazes de partir um homem comum ao meio.
— Um grande potencial, mas inacabado. Uma pena. Mas você pode fazê-lo perfeito, não pode? — o demônio sorriu para Evie.
O shinigami puxou as correntes novamente, fazendo Evie cair ajoelhada. Ele pegou o braço da menina com violência e fez um corte na mão dela. O sangue começou a pingar, fazendo os demais demônios se aproximarem inconscientemente, cegos pelo aroma. O demônio rosnou, fazendo com que os kroboros permanecessem em seus lugares. As pupilas de todos pareciam rubis brilhantes, flutuando em meio ao quarto mal iluminado.
As gêmeas, presas em sua própria caixa, começaram a se debater e a murmurar algo incessantemente. As palavras saíam incompreensíveis por causa das mordaças e do barulho incessante da chuva no telhado.
O demônio abriu a boca quimera, e o shinigami puxou a mão gotejante da menina para lá.
O sangue pingou dentro da boca da quimera, gota a gota. Depois de alguns minutos, as veias da quimera começaram a se destacar sob sua pele, como teias de aranha em vermelho vivo, por todo seu corpo. A criatura começou a se debater, violentamente. Seu corpo começou a aumentar de tamanho até partir o caixão em que repousava. Os outros se afastaram, por cautela, saindo do alcance dos braços e pernas inquietos.
A criatura continuou a se debater e agonizar por vários minutos e então sessou.
— O que houve? Ele não resistiu? — o demônio indagou, e se aproximou da enorme quimera imóvel no chão. Ele levantou os olhos para a menina. — O que mais você tem que fazer? Faça! ele acordou.
O demônio viu a menina mestiça o encarar com olhos frios, ela olhou para a outra quimera no chão, obviamente considerando algo, a víborazinha. Por fim, a menina se soltou das mãos do shinigami, bruscamente, e caminhou de cabeça erguida. O demônio manteve sua atenção nela, só no caso de a criaturinha tentar alguma coisa.
Ela não poderia escapar, as correntes do shinigami ainda a prendia.
A menina parou diante da quimera, pousou sua mão sobre o enorme peito. Os braceletes em seus punhos e o arco em seu pescoço brilharam, as correntes do shinigami incandesceram. De olhos fechado, ela respirou fundo e disse:
— Respirare. Parere, Refaim, filius meus.
A quimera tragou o ar com toda força, seu peito inflando como um balão. Os olhos amarelos piscando, encarando todos a sua volta com curiosidade.
O demônio aplaudiu, sorrindo.
— É hora de causarmos alguma distração na cidade — e voltando-se para os kroboros, disse: — Tragam as outras, rápido! Nossos convidados estão quase chegando.
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— Onde está o detetive Midford? — Roger Valentine indagou para os demais policiais em volta. Ele estava ficando irritado e preocupado. Midford não estava atendendo a nenhuma de suas ligações.
— Senhor, acho que gostaria de ver isso. — Disse Harris, assistente de Roger.
Eles entraram na sala que estava sendo usada por Claus Midford e encontraram vários arquivos sobre a mesa. O jovem Harris entregou a ele um saco plástico usado para proteger provas, dentro dele havia um pedaço de jornal velho.
— “Incêndio destrói Orfanato Prudence Dalton”. O que é isto, é uma prova?
— Acho que sim. Ele fez uma anotação sobre o bilhete deixado pelo assassino. “Aqui, ela morreu”. O bilhete estava na rua Prudence Lane.
— Uma referência ao orfanato?
— Provavelmente. Podemos estar perto da motivação aqui. A maioria das primeiras vítimas eram órfãs e/ou tinham sido adotadas. Já tínhamos investigado essa linha, mas não achamos ligação entre elas, havia muita informação faltando. Orfanatos e casas de abrigos não são realmente muito bons em manter registros sobre as crianças. Mas e se todas elas estiveram nesse orfanato, em Prudence Dalton? Acho que o detetive Midford foi até lá para verificar o local.
Roger via a lógica na linha de raciocínio de Harris, mas ele ainda olhava descontente para a pequena e medíocre matéria de jornal. Uma vergonhosa e fria nota informando que umas setenta e duas crianças aproximadamente tinham morrido em um incêndio.
— Um orfanato incendiado? Alguém se lembra disso? — e erguendo mais a voz para ser ouvido por todos dentro e fora da sala: — Alguém se lembra de um incêndio em um orfanato há uns catorze ou quinze anos? — Roger ergueu os olhos para os outros policiais que o seguiram. Todos balançaram a cabeça negativamente.
Roger sentiu um gosto amargo na boca. Não era possível que ninguém sequer tivesse uma lembrança sobre um caso assim. Como ele mesmo não se lembrava sobre um caso assim? Ele, que também estivera em um orfanato uma vez, como este caso nunca veio a seu conhecimento?
— O que sabemos sobre o incêndio desse orfanato? Temos algum arquivo? Eu quero todos checando nossos arquivos sobre isso e quero agora. Eu disse todos! — Roger gritou quando percebeu que apenas alguns policiais tinham se colocado em movimento. Ele se virou para Harris e disse: — E quero saber qual jornal publicou essa matéria.
Harris assentiu e saiu apressadamente.
Nos minutos seguintes, todos no Departamento de Polícia de Liverpool estavam pesquisando nos arquivos digitais, nos arquivos em papéis, nas caixas de arquivo morto, fazendo ligações para todos os lugares, órgãos e pessoas que podiam. Eles estavam há umas três horas de pesquisa sem resultados quando alguém gritou:
— Encontrei algo!
Praticamente todos foram atraídos para dar uma olhada na pasta velha e amarelada. Era um arquivo sobre o incêndio do orfanato. Mas qualquer esperança que o achado daquela pasta pudesse ter dado a qualquer um, logo caiu por terra.
— Esse arquivo é uma vergonha! — exclamou Roger com decepção e irritação. — Não há praticamente nada aqui.
A pasta continha apenas um relatório assinado pelo chefe dos bombeiros. E um relatório do antigo chefe de polícia do DP de Liverpool, o homem que Roger Vilentine substituíra; e uma única foto do orfanato incendiado.
— Há um incêndio em um orfanato, várias crianças morrem e a polícia não fez uma investigação decente sobre a causa? — Harris também estava decepcionado com o arquivo.
— O incêndio foi simplesmente considerado acidental — disse o policial que trouxera a pasta.
Harris pegou o relatório do antigo chefe do departamento e começou a ler em voz alta. O relatório só reforçava o laudo do Chefe do Corpo de Bombeiros, foi um incêndio acidental, provocado por vazamento de gás, por causa da encanação antiga e desgastada. O relatório não mencionava com precisão o número de crianças mortas, nem mesmo seus nomes, apenas um vago “aproximadamente setenta e duas crianças”. Dizia que as 15 crianças sobreviventes tinham sido encaminhadas para outros orfanatos, mas sem mencionar seus nomes ou para quais orfanatos elas tinham ido. O dono do orfanato, Jeremiah Utterson, e o filho, Brian Utterson, também tinham sobrevivido, e foram inocentados de qualquer possível acusação. Sem mais informações sobre eles.
— Quando pesquisamos sobre os orfanatos a que algumas das vítimas tinham estado, eles não tinham qualquer registro — disse Harris. — É provável que elas tenham sobrevivido ao incêndio em Prudence Dalton.
— Senhor, esses nomes, não lhe parecem familiar? — uma policial indagou, ela checava pela quarta vez os nomes dos oficiais responsáveis pelos relatórios e os nomes das testemunhas. Roger olhou para ela esperando a mulher concluir seu pensamento. — Eles estão na nossa lista de pessoas desaparecidas.
— Tem certeza, Katz?
— Absoluta, senhor. Foram os primeiros a serem declarados como desaparecidos pela família. Eu checo essa lista todos os dias. Infelizmente, a lista só aumenta e ninguém foi encontrado até agora.
— Ok — Roger disse com um suspiro, ele se afastou um pouco, passando as mãos pelos cabelos. Os demais policiais observavam as costas dele em silêncio. Roger se virou para eles e disse calmamente:
— Isso está ficando cada vez mais estranho. Não sei com o que estamos lidando aqui, mas não creio que seja um simples psicopata assassino, não mais.
— Senhor? — esse foi Harris.
— Esse arquivo — Roger apontou para a pasta. — Isso não foi acidental. E essa investigação definitivamente não foi incompetência. Eles estavam escondendo alguma coisa e obviamente alguém voltou para cobrar.
Era óbvio. O ex-chefe do DP tinha encobrido o caso, era por isso que ninguém ali sabia do tal incêndio. Ele obviamente tentou tornar o fato um acidente, caso aparecesse alguém para perguntar.
— O que alguém ganharia assassinando órfãos? — disse a policial Katz. — Ok, eu entendo porque viriam atrás dos ex-chefe do departamento e dos outros que ajudaram a encobrir a coisa toda, mas porque ir atrás das mulheres? Porque a violência contra elas?
— Não sei. E não sei o que diabos acontecia naquele orfanato. Mas sei que vamos descobrir, o detetive Midford foi até lá para investigar. Enquanto isso, quero saber o paradeiro desse sujeito, Jeremiah Utterson e do filho dele também. Se alguém poderá ter alguma resposta serão eles. Não descansem até conseguir.
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O barulho estrondoso do trovão veio apenas cinco segundos depois do relâmpago que iluminou o céu, e foi seguido por mais três trovões similares, tão poderosos, que fizeram Claus se perguntar se não seria a Terra inteira tremendo, prestes a partir ao meio.
A chuva fina ganhou força rapidamente. Os sinais que o clima vinha dando não eram enganosos. Logo se tornaria uma tempestade.
Mas não era a chuva que estava incomodando Claus Midford, mas o comportamento incomumente quieto de Callaway.
— Acha que encontraremos alguém quando chegarmos lá? — Claus indagou, não porque queria quebrar o silêncio, mas porque queria saber o que se passava na cabeça do shinigami.
— Provavelmente sim, se minhas suspeitas estiverem certas.
Claus observou Callaway pelo canto dos olhos, depois voltou a olhar para a estrada. Ele disse:
— Se o assassino estiver lá, nós o matamos. Depois lidamos com a polícia. Mas se as quimeras estiverem lá, voltamos e avisamos aos Cães da Rainha.
— Pensei que o plano original era manter a menina longe de Sebastian Michaelis — Callaway disse num tom divertido.
Claus franziu a testa.
— O plano original era manter a menina longe de influencia demoníaca, incluindo o pai dela. — Claus bufou de irritação. — Era pra você proteger ela e não deixá-la cair nas mãos de demônios piores que o akuma. Pergunto-me agora se ela não estaria mais segura com Michaelis. Pelo menos ele é um demônio sob o domínio do garoto Phantomhive, se é que isso significa alguma vantagem.
— Nunca foi meu plano que a levassem, ou as outras quimeras. Foram mais espertos que eu, admito. Ninguém é perfeito — Callaway deu de ombros e sorriu. A risada traindo sua verdadeira identidade, pelo menos para aqueles que o conhecia como Undertaker.
Claus não conseguia ver o motivo para o riso.
— Se você tiver alguma coisa a ver com isso, Callaway — disse Claus —, eu juro que eu mesmo mato você.
Callaway ergueu os olhos para encarar Claus, os olhos verdes de shinigami brilhando sob a franja acinzentada. Ele deu um largo sorriso de gato.
— Meu velho, você não tem mais tanto vigor assim. Além do mais, o que eu ganharia com isso?
Claus não respondeu, porque ele não sabia que resposta dar ou mesmo o que pensar sobre aquela questão.
Claus continuou dirigindo pela rua estreita e mal pavimentada. Eles estavam entrando em Sheffield Lamb Park, uma área escassamente habitada. Ficava quase fora dos Limites de Liverpool.
Quanto mais se entrava no interior de Sheffield Lamb Park, mais fechada e escura a floresta se tornava. A floresta ali permanecia quase que completamente intacta, pois o terreno, excetuando poucas faixas de terra aqui e acolá, não era o dos melhores para se estabelecer o alicerce de uma construção ou mesmo para plantação. Por essa razão, havia no máximo umas três ou quatro casas habitadas naquela região, seus moradores eram típicos ermitões, que não se importavam de ficar isolados ou de ter a floresta praticamente entrando pelas janelas.
No passado houve várias tentativas de tornar o lugar habitável e de viabilizá-lo para receber moradores e empresas. Não deu muito certo. Mas Sheffield Lamb Park estava cheio de marcas dessas tentativas. Construções vazias, acabadas e semi-acabadas, tomadas pelo musgo e trepadeiras eram o que mais havia por ali. Pontos de alvenaria aqui e acolá, como ruínas antigas; um lembrete de que pelo menos ali, o homem não conseguira vencer a floresta.
Curiosamente, a única construção que conseguiu se manter de pé ali e que funcionou perfeitamente bem por muitos anos, foi o velho Orfanato Prudence Dalton.
A floresta e o terreno nunca foram um problema para Prudence Dalton. Na época em que funcionava, todas as estradas que levavam até lá eram boas e movimentadas. O orfanato era praticamente a única construção que prosperava por aquelas bandas. Todas aquelas crianças escondidas no meio da floresta, vivendo em paz e tranquilidade. Então, veio o incêndio.
Foi após o incêndio que Sheffield Lamb Park perdeu completamente seu valor comercial e passou a ter uma fama verdadeiramente ruim. O terreno barato até atraía alguns entusiastas vez ou outra, mas que logo se mudavam pelas mais diversas e curiosas razões.
“É um terreno amaldiçoado: as plantas morrem, a construção rui”, diziam uns. “As vibrações não são as melhores” diziam outros. “Juro que ouvi vozes à noite. Gritos”, disse um jovem escocês antes de abandonar a casa e voltar correndo para sua amada Escócia. “Vozes de quem?”, perguntava o próximo morador, cético, convicto de que poderia dar um jeito no terreno pantanoso. “Das almas perdidas no grande incêndio”, respondem os ermitões, que já estavam ali há tanto tempo, que nem se importavam mais com os estranhos ruídos da região abandonada.
E assim, Sheffield Lamb Park e o velho orfanato em seu coração, ao longo dos anos, passaram a ser ignorados pelas demais pessoas na cidade.
Claus e Callaway dirigiram por três horas na estrada de terra arruinada, quase engolida pela vegetação. A chuva também não estava ajudando muito. Quanto mais adentravam, mais sentiam o frio em suas peles e uma sensação crescente de pressão atmosférica, como se estivessem afundando cada fez mais em um oceano negro. Até que finalmente chegaram.
Callaway pediu para parar o carro quando estavam a cinco metros do grande umbral de pedra, onde se lia, com algumas letras faltando, “Orfanato Prudence Dalton”. Claus não conseguia ler ou mesmo enxergar direito àquela distãncia, principalmente com toda a chuva e praticamente nenhuma luz além da dos faróis do carro, mas Claus sabia que eles tinham encontrado o lugar certo. Claus olhou para Callaway com alguma apreensão. Aqueles olhos verdes do shinigami brilharam com a intensidade de quem entra em estado de alerta.
— Acho melhor voltarmos daqui. Agora.
— O que foi? Você viu alguma coisa? – Claus olhou para o prédio do antigo orfanato a frente. Mesmo não podendo ver com precisão, era possível notar que apesar de parcialmente destruído, o lugar não estava tomado pela floresta.
— O lugar não está vazio. — Callaway falou num sussurro. — Não consegue sentir? O ar está impregnado com o cheiro de demônios. Vê as marcas na entrada? — Callaway apontou na direção do umbral de pedra, mas Claus não conseguia ver nada. — Proteção contra anjos.
Callaway franziu a testa.
— E contra demônios também. É por isso que o akuma do conde Phantomhive não encontrou este lugar.
— Imagino que apenas convidados VIPs possam entrar — disse Claus. Callaway assentiu. Poucas vezes Claus viu Callaway deixar sua verdadeira natureza fluir através de seu disfarce, mas agora ele podia sentir toda a presença de Undertaker. O shinigami estava completamente atento ao seu redor.
Repentinamente, eles escutaram um barulho vindo do orfanato, como se o lugar estivesse prestes a ruim. Eles até mesmo sentiram o carro vibrar com o tremor. O que estaria acontecendo lá dentro?
— Vamos sair antes que percebam nossa presença.
Eles se afastaram lentamente até ganhar distância e aumentar a velocidade na volta. Um pouco mais a frente, os faróis do carro revelaram uma árvore caída no meio da estrada. Essa árvore não estava ali a alguns minutos atrás quando eles tinham passado, também seria muita ingenuidade acreditar que ela tinha caído por causa da chuva. Era uma armadilha.
Não havia como contornar ou para onde ir, pelo menos não com o carro. Os dois homens se entreolharam.
— Está com sua arma? — Callaway perguntou.
Claus assentiu, já foi tirando a arma do coldre, conferiu se estava completamente carregada. Os dois saíram do carro e foram em direção a árvore. Claus com a pistola em posição.
O barulho da chuva tornava difícil identificar qualquer movimentação suspeita, e a luz dos faróis servia mais para torna-los alvos fáceis do que para identificar inimigos na proximidade.
— Ora, ora, ora. O que temos aqui? — um demônio entrou no alcance da luz, ele tinha um cabelo roxo e parecia bem jovem. Claus apontou a arma para ele. O demônio riu. Logo atrás dele, surgiram mais dois idênticos ao primeiro.
— Que imprudência. — Disse o segundo gêmeo a chegar. — Vocês são apenas dois.
Olhos vermelhos começaram a surgir um a um entre as árvores. Os corpos tomando forma conforme se aproximavam.
— Nós somos muitos — disse o terceiro gêmeo.
Claus e Callaway estavam cercados. Claus sabia que suas chances eram nulas, mas ele estava pronto para lutar com aqueles demônios até a morte.
De repente, Callaway deu três passos à frente.
— Tudo bem, tudo bem amigos. Não vamos nos apressar, sim? Eu só preciso saber de uma coisa. — Callaway tinha um dedo erguido no ar, para dar ênfase a sua questão. Claus não fazia ideia do que o shinigami pretendia. — Vocês estão com a quimera meio akuma, no orfanato lá atrás?
— A menina? — o demônio mais próximo perguntou. — Sim.
— Ótimo — respondeu Callaway, imediatamente voltando a sua forma shinigami, voltando a ser Undertaker. Revelando o comprido cabelo cinza, as compridas vestes negras.
Em um movimento de mão, Undertaker materializou sua foice e fez um rápido giro de 360 graus.
Claus tem apenas dois segundos para expressar surpresa antes que sua cabeça se desprenda do restante do corpo. A cabeça girando no chão, sob a luz dos faróis.
— Sinto muito amigo. Os fins justificam os meios. — Undertaker diz com uma expressão de lamento. Ele se vira para encarar os demônios, que estavam perplexos e confusos. — Podemos conversar?
A cima deles, um corvo atravessa o céu, observando a cena embaixo. Lutando com o peso da chuva em suas penas, em segue em direção a cidade.
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Angie estava indo buscar a mãe quando viu o carro parado no acostamento. A mulher lutava para segurar o guarda-chuva ao mesmo tempo em que tentava checar o capô do carro, que pela fumaça que subia do motor, provavelmente não saíria do lugar tão cedo.
Angie reconheceu a mulher imediatamente, era Violet. Violet Qualquer-Coisa. Ela realmente não lembrava o sobrenome. Mas como não lembrar do rosto da mulher que roubara seu futuro marido? Tudo bem, tudo bem, Daniel nunca foi seu para ser roubado, mas isso eram detalhes pequenos.
Uma parte malvada de sua mente ficou tentada a seguir o caminho e fingir que não tinha visto Violet. Mas, inferno, sua parte legal sempre acabava ganhando. Então, Angie parou e ofereceu carona; um guincho viria depois para buscar o carro da Violet.
— Obrigada, Angélica. Você é mesmo um anjo.
Violet enxugava o rosto com um lencinho de ceda bordado. A mulher tinha lencinhos de seda com as iniciais bordadas; sério? Como ela poderia competir com isso? Pensava Angie. Ela passou a vida achando que Daniel Morrison gostava de garotas descoladas e divertidas, assim como ela (afinal, eles sempre se deram tão bem), mas Daniel tinha uma queda pelas perfeitinhas delicadas. Aparentemente.
— Ah, por favor, você pode me chamar de Angie — ela disse com sincera simpatia. E odiando-se por isso. Ela tinha que ser malvada com Violet, mas algo na expressão tranquila e gentil daquela mulher a fazia mudar de ideia. Não dá para bancar a megera enciumada com alguém que cuida de criancinhas com câncer.
Quando Angie parou no sinal vermelho, algo chamou sua atenção. Um tecido carmesim, como sangue, se destacava no céu negro. Ela apertou os olhos para tentar ver melhor a figura em meio a chuva. Na beirada de um prédio de dez andares estava uma mulher com um vestido vermelho sangue. De repente, sem qualquer hesitação, ela pulou.
Angie soltou um grito, assustando Violet, as mãos indo em direção a boca por reflexo. Ela se livrou do cinto de segurança e saiu correndo no meio da chuva, deixando a porta do motorista aberta.
— Angélica?! Angie? — Violet grita para ela. — O que está acontecendo?
— Ela pulou. — Angie gritou do meio da pista.
— O quê?
Violet ficou atordoada por um momento, mas resolveu seguir Angie. O sinal abriu e os demais carros buzinaram furiosos por elas estarem no meio do caminho e por largarem o carro impedindo a passagem dos que estavam atrás.
— Angie, o que houve? — Violet voltou a perguntar quando alcançou a ruiva.
— A mulher se jogou do prédio.
Violet podia ver que Angélica estava realmente preocupada e assustada, mas assim que elas entraram na rua ao lado do prédio de dez andares, Angie ficou andando de um lado para outro, procurando, visivelmente confusa.
— Eu não entendo. Ela devia estar aqui. Eu a vi lá em cima. — Angélica apontou para o topo do prédio.
Este lado do prédio, excetuando as janelas, era completamente liso; não havia varandas nem mesmo escadas de incêndio, apenas tijolos e janelas fechadas. Não havia como alguém ter se segurado ou ficado preso no meio do caminho se tivesse pulado. Mas também, muito obviamente, não havia nenhum corpo no chão.
— Você tem certeza? — Violet voltou a perguntar.
— Eu a vi pular. Era uma mulher ruiva e ela estava com um vestido, com, com um casaco, jaqueta, sei lá, vermelha. Eu a vi pular.
— Uma mulher ruiva?
As duas já estavam completamente encharcadas da chuva. Angie encarou Violet. A mulher olhava para ela com aquela expressão de quem acha que o outro estava agindo feito maluco. Angie não podia culpá-la. Ela sabia que parecia estranho. Mas ela tinha realmente visto a mulher lá em cima e ela definitivamente viu a mulher pular.
— Estou dizendo. Eu a vi. — Angélica disse quase num sussurro. Ela ainda olhava do topo do prédio para os paralelepípedos da rua, como se a misteriosa mulher ruiva fosse surgir de repente ali.
— Bem... ou foi só uma ilusão de ótica ou ela aterrissou e saiu correndo. Mas acho bem difícil alguém conseguir sair correndo depois de uma queda dessa altura. — Disse Violet. Sim, Angie sabia disso. Era por isso que ela estava tão intrigada. — Você não acha melhor voltarmos para seu carro? Você o deixou aberto, temo que possa ser roubado.
Angélica voltou a encarar Violet. A mulher estava tremendo de frio. A luz fraca dos postes de iluminação e a água da chuva escorrendo pelo rosto dela dava a estranha impressão de que ela estava chorando. Angie sentiu algo se revirar em seu estomago. Um desconforto estranho. De alguma forma, Violet lhe pareceu familiar, como não tinha parecido antes. Ou talvez não fosse a Violet em si, mas a situação, ou a sensação inexplicável que estava sentindo desde o momento em que vira a mulher de vermelho no topo do prédio.
Com um último olhar para o longo da rua ainda vazia, Angélica assentiu, para alívio de Violet. Relutante, Angie voltou para o carro. Ela também notou que, durante o caminho de volta, Violet ficou mais próximo dela.
— Não me entenda mal. Não estou desacreditando de você — Violet explicou quando elas alcançavam a rua principal. — Minha tia Pearl costumava dizer que via fantasmas. Isso sempre me assustou um pouco.
Fantasmas? Se Violet tivesse dito tal coisa alguns minutos atrás, Angie provavelmente teria rido. Mas como explicar o que ela tinha visto?
Alguns segundos depois das duas mulheres humanas darem as costas, William T. Spears pousou ao lado de Grell Sutcliffe. Que continuava imóvel no mesmo lugar, a três passos de onde Angie estivera.
— Ela viu você. — William disse como se toda a situação não tivesse sido óbvia. — Como é possível?
— Não sei. — Grell respondeu quando o carro com as duas mulheres saiu de seu campo de visão. — Mas gostei dela.
Os dois shinigamis se entreolharam. Grell tinha um enorme sorriso no rosto, os dentes afiados mais destacados pela boca vermelha. William limpou a garganta, como uma desculpa para desviar sua atenção.
— É claro que você gostou, Sr. Sutcliffe.
Grell franziu o senho, mostrando todo o seu descontentamento.
— Senhorita. Senhorita. Você faz isso só pra me irritar, Will.
— Vamos. — William ajeitou os óculos e voltou para o prédio ao lado, sem esperar por Grell. — Já perdemos muito tempo aqui.
Definitivamente, sair do carro no meio daquela chuva não foi uma decisão sábia. O ar estava tão gelado que fazia os pelos de suas peles eriçarem. Também, elas estavam com os cabelos e as roupas completamente molhadas. E o estofamento do lado do motorista estava bem úmido. Angie já imaginava a bronca sem fim que teria de ouvir dos pais.
Elas seguiram para a Little Mozart, para pegar a mãe de Angie. A água era tanta, que os limpadores de para-brisa mal conseguiam se mover. Ela diminuiu a velocidade, não conseguia enxergar direito o caminho.
Num momento a pista estava vazia, no outro, havia uma figura no meio dela. Angie chutou o freio com toda força, fazendo o carro derrapar por alguns metros. Ela olhou para Violet que estava com olhos arregalados, e ofegante do susto.
— Eu bati nele? — Angie perguntou. Violet balançou a cabeça negativamente, nenhuma das duas tinha sentido qualquer impacto que indicasse que o carro tinha atingido alguém. No entanto, a figura tinha sumido. — Pra onde ele foi?
Angie se moveu para sair do carro para checar, mas Violet agarrou seu braço com força e soltou um grito ensurdecedor ao olhar para a janela do motorista.
Angie não teve tempo de ver o que provocara o susto de Violet. Uma pancada forte fez o carro girar na pista molhada.
— O que foi isso?!
Outra pancada. Dessa vez forte suficiente para fazer o carro capotar duas vezes. Elas ficaram de cabeça para baixo, penduradas pelo cinto de segurança. Angie sentiu o sangue descer para sua cabeça e fazer pressão. Ela olhou para o lado e viu Violet desacordada, sangue escorrendo pela testa dela.
— Violet? Violet? — ela chamou.
Angie soltou o cinto e caiu em uma posição desconfortável. A água da chuva estava entrando dentro do carro, ela sentiu os vidros despedaçados machucarem suas mãos e pernas. Ela tentou alcançar o cinto da Violet, mas a mulher foi repentina e brutalmente arrancada para fora do carro. Angie grita e tenta sair do carro rapidamente.
Assim que ela está fora e começa a correr, ela olha para trás, para ver o que estava atacando-as, mas ela vê apenas o carro voando em sua direção. Ela se joga no chão para não ser atingida. O carro cai a centímetros dela. Antes que ela possa levantar, algo a atinge.
Ela desmaia.
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Hortense olha para o relógio pela vigésima nona vez. Angie deveria ter passado para pegá-la há duas horas. Ela liga novamente para o celular da filha, Angie não atende.
Evangeline começa a chorar em seus braços. Ela a acalenta.
— Tudo bem, Ev, querida, sua irmã está bem. Ela está bem.
Hortense chama um táxi e liga para o marido.
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Ciel acorda assustado. Sebastian coloca a mão sobre o peito dele, fazendo leves movimentos circulares e sussurrando em seu ouvido para ele ficar calmo.
Ciel olha para ele com olhos quentes de carinho e alívio. Sebastian desliza as mãos pelos ombros e braços de Ciel, beijando seu pescoço.
— Eu peguei no sono?
— Sim. Você parecia cansado, tivemos um dia agitado. — Sebastian disse com um sorriso malicioso. Eles tinham desfrutado de um sexo rápido algumas horas atrás. — Deixei você descansar. Você teve um pesadelo?
— Não. Não sei. Que horas são?
— Quase dez da noite?
— Meus pais ainda não chegaram? — Sebastian fez que não. — E Angie?
— Também não.
Ciel se levantou da cama e foi até a janela. Caía uma forte chuva agora. Ele começou a andar de um lado a outro, esfregando as cicatrizes em seus pulsos.
— Eles já deviam ter chegado.
Ciel abandonou os pulsos e começou a pressionar as têmporas. Sebastian se levantou e segurou o rosto do jovem.
— Você está bem? — ele perguntou e beijou a testa no jovem. Sebastian acariciou o rosto de Ciel e seu pescoço, disfarçadamente checando sua temperatura e a pulsação cardíaca. Estava mais acelerada que o normal.
Ciel meneou a cabeça e abraçou o akuma.
— Tem alguma coisa errada, Sebastian. Eu não sei o que é, mais sei. Posso sentir na minha pele.
Sebastian olhou para ele.
— Você pode checar se eles estão bem? Meus pais, Angie e o bebê?
— Não quero deixá-lo sozinho.
— Eu vou ficar bem. Eu te chamo se precisar.
Naquele mesmo momento o celular de Ciel toca, é a mãe dele. Ele atende. Cautelosamente, Ciel percebe, Hortense pergunta por Angie. Angie saiu há horas, ainda não voltou, nem apareceu para pegar a mãe.
— Está tudo bem filho, ela provavelmente só furou o pneu do carro no caminho ou teve que passar na faculdade. Eu já estou indo para casa. Me espere aí. Eu já liguei para o seu pai. Não saia até eu chegar, você me entendeu?
— Sim, mãe.
Ciel desliga o telefone e olha para Sebastian, alarmado. Sebastian segura as mãos de Ciel e lhe dá um beijo rápido.
— Fique seguro, eu vou procurá-la.
Ciel só consegue balançar a cabeça em resposta.
Sebastian sai para a chuva pela janela. Ciel sente o vento frio como um mau agouro.
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Roger desliga o celular. Sua filha, não. Ela deve estar bem. Tem que estar.
Mesmo assim ele pede para as viaturas que estão fazendo patrulha pela cidade para procurarem por ela. Ele pega seu casaco, pronto para sair em busca dela também, quando Harris e Katz o param na porta.
— Senhor? Chefe Valentine? Conseguimos localizar Jeremiah Utterson — disse Harris. — Infelizmente, ele morreu em 2004. Mas o filho dele, Brian Emerett Utterson, ainda está vivo.
— Demoramos um pouco para localizá-lo porque ele mudou de identidade — informou Katz. — Curiosamente, no mesmo ano em que o pai morreu.
— Como ele se chama agora?
—Johnatan Cranston.
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