Phantomhive
17 O Despertar
Notas iniciais
Capitulo 17: O Despertar
8 Anos Antes
Hortense Valentine terminava de limpar a mesa do jantar quando viu o filho falando ao telefone no corredor.
– Boa noite. Até amanhã... Pra você também – dizia o menino com um sorriso meigo nos lábios.
– Com quem estava falando, filho?
– Com a Liza.
– Nossa! Que tanto assunto é esse? Não passou o dia na casa dela hoje? – Angélica gritou da cozinha enquanto lavava a louça do jantar.
– Gostou mesmo dela, não foi? – a Hortense falou sorrindo, seus olhos de céu cinzento quase se fechando. – Anda, já está passando da hora de dormir.
Hortense acompanhou o filho até o quarto e o colocou na cama; afofando bem o cobertor em volta do filho.
– Escuta, Ciel. Angélica e eu estivemos conversando com seu pai, e decidimos que poderíamos dar uma festa de aniversário decente pra você este ano; afinal, não é todo dia que se faz nove anos. Está ficando um rapazinho. Poderá chamar a Liza.
– Mesmo? – o menino abriu um sorriso – posso chamar quem eu quiser da escola também?
– Bom, contanto que não seja a escola toda.
– Tá – o menino falou gargalhando, depois ficou sério. Sério demais. – Mãe, o papai não vai vir pra casa hoje de novo?
– Ele recebeu uma chamada do Departamento, era urgente. Seu pai trabalha duro para pagar o curso da Angie, pagar esta casa e você finalmente poderá ter uma festa.
– E se eu desistir da festa? Podemos ser apenas a senhora, o papai, Angie, eu e um bolo; como das outras vezes. Não me importaria. E papai não precisaria trabalhar tanto.
– Oh, querido, ele não trabalha somente por nós, mas para manter a segurança de outras pessoas também. Ele gosta do que faz. Não fique se recriminando por nada, seu pai não gostaria. Agora vá dormir.
Disse a mulher, gentilmente. Seus cabelos compridos e laranjas tocaram os ombros do pequeno Ciel quando ela se curvou para beijar-lhe a testa. Apagou a luz do abajur e caminhou até a porta.
– Boa noite, querido.
– Boa noite, mãe.
A porta se fechou. O quarto mergulhou numa semiescuridão. Após alguns segundos, uma voz doce chamou a atenção de Ciel.
– Onde esteve o dia todo?
– Com a Liza – Ciel falou com a voz macia de quem está quase caindo no sono.
– Fica muito com ela agora, talvez não precise mais de mim. Não se importa mais comigo.
– Não diga isso – Ciel ergueu o corpo da cama para fitar a figura de cabelo curto escondida nas sombras – Gosto muito de você.
– Gosta mais de mim ou dela?
– Gosto das duas, mas sabe que você é minha favorita.
A menina se aproximou mais da cama e sorriu para ele.
– Só não me deixe sozinha.
– Nunca. Boa noite, Evie.
– Boa noite, Ciel.
Ciel recostou a cabeça no travesseiro e nem soube ao certo por quanto tempo a menina permaneceu velando seu sono, ou quando ele de fato adormeceu. O abismo negro e infinito do sono o tragava para mais fundo, cada vez mais fundo. Não soube se começou a sonhar, mas tomou consciência do frio. Sentia que estava ficando cada vez mais frio. Até seus joelhos tocarem um chão de pedra; frio como a morte. Parecia que havia chegado ao fundo de um poço. Olhou ao redor e não via nada além da escuridão. De repente, o chão de pedra se transformou em madeira fria e envernizada. Pontos de luz começaram a surgir na escuridão e um burburinho de vozes. As luzes eram tochas, essas carregadas por pessoas enfurecidas; não, por criaturas sem rosto, outras com faces retorcidas; figuras de identidades desconhecidas que avançavam para si como quem vai à guerra. Sem entender a razão daquilo, sentiu as mãos agarrá-lo e arrastá-lo. Espancavam-no e gritavam ofensas que ele não conseguia compreender. Ciel chorava; queria grita por socorro, mas não conseguia. O medo e a dor se alternavam à medida que seus olhos fitavam os rostos de seus agressores, que ora eram pessoas comuns ora eram criaturas horrendas. Sentiu alguém passar uma corda em volta de seu pescoço e começar a erguê-lo do chão. Ciel tentava se soltar. Por que estavam fazendo aquilo? O que ele tinha feito de errado. Sentiu um líquido frio ser jogado em sua cabeça e percorrer todo o seu corpo. Era um líquido negro e tinha um cheiro tão forte que ele mal conseguia respirar. Seu desespero aumentou quando viu alguém trazer uma das tochas para perto dele. Tentou fugir, mas puxaram a corda em seu pescoço.
Foi inevitável.
Logo as chamas engoliram seu corpo por completo. A dor era terrível. Ciel começou a gritar com todas as suas forças. Queria morrer logo. Queria que aquilo acabasse.
– Ciel! Ciel! CIEL!
Ciel acordou se debatendo e logo reconheceu o cheiro da mãe. Hortense abraçou o filho com toda a força. Angélica observava a cena assustada.
– Queriam me matar! Eles... Eles iam me matar! – dizia o garoto soluçando, com a voz rouca de tanto gritar.
– Calma, foi só um pesadelo, filho. Foi só um pesadelo.
O primeiro de muitos.
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Agora
Passava das onze da noite e, apesar da chuva, um grupo de pessoas trajadas de capas e guarda-chuvas permanecia em volta da livraria que ainda ardia em chamas. Os bombeiros agradeciam a chuva por impedir que o fogo se espalhasse para os prédios vizinhos, mas ainda tentavam cessar o fogo no interior do prédio da livraria. Curiosos e a equipe médica, repórteres de TV e policiais competiam por espaço. A polícia passava uma fita amarela ao redor do local para impedir que as pessoas se aproximassem mais.
– Estamos transmitindo ao vivo a tentativa dos bombeiros em conter o incêndio que está destruindo a Livraria Megabook. – dizia a repórter em frente a uma câmera – Três mortos foram confirmados e até agora não se sabe as causas do incêndio, o relato das vítimas é dos mais variados.
– Acho que foi obra de terroristas. Vi um cara tirar um monte de armas do casaco e começar a atirar em todo mundo... – dizia uma moça loira.
– ....Eu tô falando sério, mas ninguém acredita em mim. Tinha monstros lá dentro! Um deles arrancou um pedaço da minha orelha, tá vendo? – um homem apontava para um lugar na cabeça ensanguentada onde realmente deveria haver uma orelha.
– Suspeita-se que possa ter havido vazamento de gás, que poderia ter provocado alucinações nas vítimas. A possibilidade de ser um incêndio criminoso não é descartada pela polícia. – continuava a repórter. – Até o presente momento a escritora Akasha Ratchett continua desaparecida. Esta era a noite do lançamento do... Espere um minuto... O chefe de polícia Roger Valentine acaba de chegar – a repórter correu para o oficial – Chefe Valentine, eu sou Shelly Sandoval, poderia dar uma rápida entrevista para o Liverpool Daily News?
– Por favor, senhorita Sandoval, permaneça afastada para sua segurança. No momento a polícia não fará nenhum comentário. Com licença. – disse Roger afastando-se das câmeras – HARRIS!
– Sim, Chefe!
– Tire esses repórteres daqui pelo amor de Deus, como podemos trabalhar assim?
– Sim, Chefe.
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Os quatro chegaram à casa do Sebastian e não demorou muito até que o demônio voltasse para lá também.
– De quem foi a brilhante ideia de explodir o local? – Sebastian entrou na sala lançando um olhar acusador para Richard.
– Nem olhe pra mim assim, a culpa foi do Dimas.
– MINHA!? Quem é que guarda uma granada no bolso?
– De onde veio toda aquela força? – Ciel perguntou a Dimas.
– Herança de família, ou genética, como preferir. Eu...
Dimas continuou a falar, mas Ciel parou de ouvir. Percebeu quando Ruby chamou Sebastian num canto e cochichou algo no ouvido dele. Seja lá o que Ruby disse, Ciel teve certeza que ele era o tema da conversa, pois Sebastian o olhou de uma forma que nunca olhara antes. Um olhar de desconfiança.
Automaticamente, Ciel desviou o olhar e fingiu prestar atenção em Dimas e Richard que tinham voltado a discutir. Os dois se calaram quando Sebastian falou:
– Chega! A criatura que eu segui era realmente um demônio, mas não sei dizer com certeza de que raça. Só consigo supor que é um akuma muito forte ou uma raça superior, pois conseguiu fazer sua presença aparecer e desaparecer em milésimos de segundos, sem deixar rastros. Seu objetivo obviamente era me afastar do local. A princípio, achei que fosse para... No entanto, os kroboros atacaram todos os presentes na livraria e, pelo visto, só atacaram vocês porque revidaram.
– Sim. O caos facilitou a captura da escritora e a fuga do assassino. – Comentou Richard com os braços cruzados. – É provável que eles nem soubessem que estaríamos lá.
– Eles sabiam sim. – afirmou Ruby – Do contrário, não teriam afastado Sebastian. Devem ter nos julgados menos perigosos. Ah! Sebastian, vimos uma insígnia de sangue. Se não estou enganada, os símbolos são os mesmos usados num ritual de aprisionamento de shinigami.
– Mas esse tipo de magia nunca funciona, não é? Quero dizer... não temos registros de algo assim já ter sido feito ou funcionado. – falou Dimas.
– Diga isso ao shinigami que tentou me matar. Ele parecia estar em outro planeta.
– Uma insígnia de sangue... – Sebastian ficou pensativo – quando alguém faz uso de Magia Negra, não deixa registrado nos livros de história, Dimas.
– Quer dizer que é possível, controlar um shinigami? – Dimas perguntou apreensivo.
– Essa noite foi uma armadilha, como imaginei desde o início. Mas não era uma armadilha para... – Sebastian olhou para Ciel por um instante – Não era para nós, era para aquele shinigami. Não podemos ter certeza, ainda. Precisamos falar com alguém que possa nos esclarecer algumas dúvidas. Mas deixemos isso para amanhã, já está tarde e Ciel está cansado.
– Não estou não! – Ciel saltou do sofá sem entender a repentina preocupação de Sebastian, pareceu até sua mãe falando. Mas foi completamente ignorado pelo mais velho que continuou dando instruções aos outros três e guiando-os até a porta.
– Não que eu ligue pra vocês, mas tomem cuidado. Nosso inimigo tem em suas mãos um shinigami que poderá usar quando quiser. – depois de fechar a porta, Sebastian voltou para a sala e deu de cara com um Ciel emburrado. – Você está sujo, precisa de um banho.
– Se você não fala, eu nem repararia. – Ciel ironizava enquanto seguia o mais velho até o quarto. – Dimas e eu temos a mesma idade, sabia?
– E daí?
– Daí que você dá tarefas a ele e manda-o fazer sei lá o que depois das aulas, mas quanto a mim, você me trata como se eu fosse um pirralho que pode tropeçar nos próprios pés e quebrar a cabeça. Não basta eles saberem sobre nós, você fica me tratando assim, pareço um idiota na frente deles.
– Você é hilário Ciel. Tenho certeza de que eles não pensam isso a seu respeito. – Sebastian virou-se para o jovem, segurou-lhe a mão e beijou-a. – Não me importo se Dimas vive ou morre, mas você por outro lado...
Sebastian inclinou-se para beijar o pescoço do menor, mas este desviou.
– Estou sujo.
– Não me importo. Pode continuar sujo, contanto que não esteja vestindo nada.
– Ora... – Ciel corou, mas não respondeu nada. Caminhou até o banheiro e bateu a porta com força. Dentro do banheiro de Sebastian, Ciel encarou seu reflexo: cabelos bagunçados, um arranhão na testa (cobriria com o cabelo, ninguém ia ver), um olho de íris opaca (isso não passaria despercebido). Nem percebeu que sua visão voltara ao normal. Durante todo o trajeto até a casa do Sebastian, Ciel estranhamente estava vendo tudo em tons avermelhados, mas agora, enxergava perfeitamente dos dois olhos. Só se perguntava como iria para o colégio com um olho azul e outro branco, uma vez que não fazia ideia de onde sua lente fora parar. Despiu-se e entrou no box, ligou o chuveiro e sentiu seu corpo relaxar. – Não me parece justo. – a voz de Ciel ecoou nas paredes do banheiro. – Você disse que os Cães da Rainha devem ser cinco, essa foi uma das regras impostas pelo Conde Phantomhive, se Dimas ou qualquer membro do Clã Phantomhive morrer, você terá muito trabalho até achar um substituto, não?
– De fato.
Após alguns minutos, Ciel saiu do banheiro enrolado numa toalha.
– Quer ajuda?
– Não. Vire-se, preciso me trocar e não olhe, estou mandando. – Sebastian ficou de costas para Ciel apenas escutando o som do movimento da toalha e de tecido, o cheiro de sabonete que emanava do corpo do jovem. – Pronto, pode olhar.
Ciel vestia uma camisa branca que cobria até suas coxas.
– O que você está vestindo?
– Uma camisa sua. – Ciel respondeu inocentemente, olhando a roupa em seu corpo.
– Humm. Não me lembro de ter uma camisa tão grande ou pode ser que você seja muito baixinho.
– Cala a boca. – Ciel falou inflando as bochechas e se virando em direção à cama.
– É brincadeira. – Sebastian abraçou o jovem pela cintura e beijou-lhe o pescoço, fazendo todos os pelos da nuca do menor se arrepiar.
Embora gostasse da sensação de ter o corpo de Sebastian tão perto, a proximidade o deixava constrangido. Mas as carícias de Sebastian eram mais poderosas que seu constrangimento. Antes que percebesse, suas costas já encontravam o colchão da cama. Sebastian tomou seus lábios num beijo.
– Sebastian...
– Hum?
– Podemos ficar só nos beijos hoje?
– Como desejar. – Sebastian deu um selinho em Ciel, puxou o cobertor para cobri-los melhor e apagou a luz do abajur. Os dois trocaram beijos e carícias cumplices de amantes até Ciel ser vencido pelo sono.
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Ciel acordou com a sensação de não ter dormido nada. Esfregou os olhos com o dorso das mãos e bocejou. Notou que Sebastian estava sentado naquela poltrona novamente, mas, desta vez, o encarava com seriedade e algo a mais; Ciel não sabia dizer se preocupação ou desconfiança. Talvez fosse apenas paranoia sua.
– O que houve? – o jovem perguntou sem transparecer emoção nenhuma.
– Tem algo que gostaria de me contar?
– O quê, por exemplo?
– Com o quê você sonha?
– Com nada. – Ciel respondeu bruscamente, visivelmente desconfortável com o assunto.
– Você ficou muito inquieto durante a noite. E hoje não foi a primeira vez, já tinha acontecido naquela noite em que o kroboro tinha mordido sua perna, mas achei que tivesse sido pela experiência ruim...
– E daí? Muitas pessoas se mechem durante o sono. Completamente normal.
– ... entretanto, hoje foi mais... Intenso.
– Foi só um pesadelo. – respondeu impassível.
– Depende de que tipo de pesadelo nós estamos falando. Ruby disse-me que você passou mal quando voltavam para cá.
– Ruby é uma exagerada; eu só tropecei...
– Não foi o que ela me disse. – Sebastian continuava a falar num tom frio.
– Não quero falar sobre isso. – levantou-se da cama ignorando o outro. – Que horas são?
– Dez da manhã.
– Dez?! Eu tenho aula hoje, porque não me acordou? – Ciel pegou a mochila que tinha trago no dia anterior e começou a procurar seu uniforme.
– Como conseguiu a cicatriz no seu pulso? – Ciel estacou. Puxou a manga da camisa para cobrir o pulso, como se isso fosse capaz de apagar a memória do outro.
– Foi só um acidente. – sua voz saiu quase num sussurro.
– Tem certeza d....
– Chega! Tenho que ir pra escola, você já me atrapalhou o suficiente por hoje.
Sebastian achou melhor não insistir, Ciel era muito teimoso e por alguma razão evitava até pensar no assunto. Ele não diria nada.
– Eu tenho que substituir Angie na Little Mozart às 15 horas – Ciel começou, tentando restabelecer um diálogo pacifico –, estarei aqui as 17.
– Avisarei aos outros. Use isto. – Sebastian entregou uns óculos escuros para o garoto. – Para esconder seu olho.
– Vai ser difícil me deixarem entrar a essa hora, ainda mais usando óculos escuros. – falou experimentado o acessório.
– Diga que está com conjuntivite. – Sebastian falou dando de ombros. – Você sabe mentir com perfeição quando quer.
– Humpf!
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Ciel conseguiu entrar na escola e assistir ao restante das aulas, mas nem é preciso dizer as piadinhas e fuxicos que seu atraso extrapolado e seu visual inusitado geraram entre os colegas. O pior foi a bronca que levou da mãe por chegar atrasado a Little Mozart e por ser desastrado o suficiente para quebrar a própria lente de contato. Suas explicações não foram suficientemente convincentes. Ciel percebeu que a mãe ficou desconfiada e não era pra menos. Mas a pequena Evangeline chorava tanto que ela preferiu deixar o filho com as duas turmas seguintes e voltar para casa com o bebê.
– Onde está a Srtª Angie? – perguntou uma garotinha oriental segurando um violino.
– Ela tem outro compromisso, por isso darei a aula hoje. Agora, peguem suas partituras. – disse Ciel iniciando o acompanhamento ao piano.
Alguns alunos fizeram um muxoxo. Ciel odiava ter que dar aulas para os alunos pequenos; não tinha muita paciência e era óbvio que as crianças preferiam a Angie. Pelo menos era melhor que ficar em casa e trocar fralda da Evangeline.
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Angie saía da faculdade à noite com alguns colegas quando uma garota lhe deu um recado.
– Você é Angélica Valentine?
– Sim, por quê?
– Aquele cara alí quer falar com você.
Era Sebastian.
– Wow! Que gato, amiga! Quem é o galã?
– Tire o olhinho, fofa. – dizia segurando o queixo da garota. – É o namorado do meu mano.
– Na-mo-ra-do? – surpreendeu-se um dos garotos. – Seu irmão é...
– Olha só.. – avisou Angie – é melhor você escolher bem suas próximas palavras, porque se disser alguma gracinha do meu irmão, eu não respondo por mim.
– ...é um garoto de sorte. Era o que eu ia dizer.
– Sei.
Angie foi até Sebastian.
– Podemos conversar em particular? É sobre o Ciel.
– Eu imaginei. Aconteceu algo?
– Espero que não. Senhorita...
– Angie, por favor.
– Angie, alguma vez Ciel apresentou algum comportamento fora do comum?
– Por que a pergunta? – a fisionomia de Angie ficou mais pesada.
– Ciel tem tido pesadelos. E durante eles, diz coisas preocupantes, e visivelmente, esses pesadelos o afetam fisicamente também.
Angie suspirou.
– Você não vai se afastar dele agora, vai?
– Não. Só estou preocupado com ele. Ele tem uma cicatriz no pulso, quando perguntei como a conseguiu, ele se alterou e não disse nada. Só quero ajudá-lo, mas para isso preciso saber o tamanho do problema.
– Tá, senta aí – Angie apontou um banco. – Sabe, Ciel, quando criança, era muito extrovertido; uma criança extremamente amável, doce e atenciosa com todos. O riso dele enchia a casa. Um menino normal. De uma hora pra outra tudo mudou. Quando faltavam alguns dias para ele completar nove anos, ele teve o primeiro pesadelo, foi horrível. Na noite seguinte veio outro, e depois outro e mais outro. Ele foi ficando instável e irritadiço. Não se concentrava; teve que sair da escola, mamãe lhe dava aulas em casa. Abandonou as aulas na Little Mozart. Ele tinha medo de dormir e achava que todos queriam lhe ferir. Com o tempo, os pesadelos viraram alucinações. Mamãe o levou em vários médicos, pediatras, psicólogos e até num padre, mas ninguém sabia ao certo o que ele tinha ou como curá-lo. Ciel só dormia por meio de sedativo. E foi ficando pior, ele começou a se flagelar. Ele dizia que não, mas sempre aparecia machucado. Outras horas era dizia estar machucado sem realmente estar. Isso durou um ano inteiro, estávamos todos esgotados e...
Angie fez uma pausa. Sebastian percebeu que ela tentava segurar o choro, mas ainda assim as lágrimas teimavam em descer.
– Papai e mamãe tinham que pagar o tratamento, os médicos e os remédios, os dois não podiam parar de trabalhar. Era eu quem ficava mais tempo com ele. Eu só tinha 17 anos e estava cansada. Tenho vergonha de dizer que eu queria que aquilo acabasse. – Angie fez outra pausa – Depois de fazer terapia por um mês, Ciel parecia estar melhor. Por duas semanas ele estivera bem. Naquele dia ele estava bem; eu devia vigiá-lo, mas o deixei sozinho vendo televisão. Quando voltei pra sala, ele não estava mais lá. Procurei-o pelo quintal, procurei-o pela casa, até chegar ao banheiro do andar de cima. Quando abri a porta... Quando abri a porta, ele estava caído ao lado da pia e havia sangue por toda a parte. Eu não sabia o que fazer. Corri pra chamar o nosso vizinho, Daniel, que é médico. Ciel havia cortado o pulso. Daniel estancou o sangue e o levou pra emergência o mais rápido possível. Se não fosse Daniel ter agido tão rápido... Eu nem gosto de pensar. Ciel tinha dez anos. Ele ficou duas semanas internado com muita febre. Quando saiu, estava “curado”. Tão repentino como começou, parou, embora de forma desastrosa. Ciel jura não ter feito o que fez. E todos nós evitamos tocar no assunto para não perturbá-lo. Mas ele mudou depois daquilo tudo.
Angélica enxugou o rosto.
– Saber que algo assim pode acontecer novamente...
– Não se preocupe; se eu perceber algo, lhe informarei. – Claro que ele não diria nada. Pelo visto, a situação estava além do alcance de qualquer médico, o que era mais preocupante ainda.
– Sebastian, não sei quais são as suas intenções com o Ciel. Só peço que não o magoe. Você é a primeira pessoa que ele gosta de verdade.
– Ciel tem sorte de tê-la como irmã.
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O Clã Phantomhive, Claus Midford e Mark Callaway estavam reunidos na sala de visitas da casa de Sebastian. Os Cães relatando o que haviam descoberto e Midford contando como andava o trabalho da polícia.
– Então você realmente é um shinigami? – Ciel perguntava a Callaway.
– Shinigami, ceifeiro, deus da morte, como preferir. – fez uma mesura cheia de floreios – Pode me chamar de Undertaker; acho até melhor... hihihi.
– Senhor Callaway – Ciel prosseguiu ignorando o pedido do mais velho –, é possível controlar um Shinigami?
– Você quer dizer, ter controle total sobre ele, fazê-lo obedecer a sua vontade, como um akuma faria? Bem, ceifeiros obedecem somente aqueles que estão acima deles na hierarquia, anjos e arcanjos, por exemplo; mesmo assim, podemos, se quisermos, escolher não fazer o que eles pedem, ou fazer o que nos der vontade. Claro que eles te considerarão um desertor e... – Callaway começou a resmungar pra ele mesmo, como se falasse sozinho, depois voltou-se para Ciel de repente – Mas nunca nos sujeitamos a demônios. Mas existe uma forma de obter controle sobre um Shinigami e deixá-lo mais submisso que qualquer akuma se disporia a ser. Entretanto... Não sei se devo espalhar por aí métodos que poderão ser usados contra mim, não me parece sensato.
– Você esteve no local do crime com o Detetive Midford, viu a insígnia de sangue, conte o que descobriu.
– Mas assim, sem nenhum agrado, sem nada em troca?
– Olha só, seu esquisito, ou você começa a falar ou eu vou trocar umas balas com a sua cabeça. – Richard falava apagando o cigarro na manga do casaco e carregando uma pistola. Callaway lançou um sorriso sinistro pra ele, seus olhos amarelados escondidos pela franja cinzenta correram de Richard para Ciel.
– Sim, a senhorita Rubystein estava certa. A insígnia encontrada no andar superior da livraria era de um ritual de aprisionamento de um ceifeiro. A polícia ficou em chocada. No passado, muitos tentavam realizar esse tipo de ritual, para conseguir causar mortes ou impedi-las, mas eram poucos os que conseguiam. O ritual exige sacrifícios que nem todos tem sangue frio suficiente para realizar.
– Como assim?
– Veja! – Callaway pegou um pedaço de papel, pousou-o sobre uma mesa e começou a desenhar; os outros, em volta, olhavam. – Esta é a insígnia usada no ritual, é composta por cinquenta símbolos diferentes e deve ser desenhada com sangue sacrificial. E aqui... heheheh... está o segredo: dois símbolos não podem ser feitos com o sangue de uma mesma vítima. – falava com a empolgação de quem revela o segredo de uma receita de bolo.
– Então... – começou Ruby – se eu tenho cinquenta símbolos diferentes, isso significa dizer...
– Cinquenta assassinatos. – Ciel completou.
– Pela Coroa da Rainha! – exclamou Claus.
– Como já deve saber – Ciel sobressaltou-se ao ouvir a voz de Callaway em seu ouvido, e as palavras seguintes fizeram seu sangue gelar – todo grande feitiço, exige um graaande sacrifício.
– Então é por isso que estavam matando as mulheres? – perguntou Dimas – Quantas morreram mesmo?
– Foram menos de quinze– respondeu Richard –, mas lembrem de que há muitas pessoas desaparecidas.
– É necessário que as cinquenta vítimas tenham alguma característica em comum ou que cumpram algum requisito para que o ritual funcione? – Ciel perguntou.
– Não. Basta que sejam mortas pela mesma pessoa que realizará o ritual. Tanto faz se for homem ou mulher, criança ou velho, justo ou injusto. Além desses cinquentas, é necessário mais um sacrifício, e para este há um requisito: a alma de um traidor sem língua.
– Isso expli-plica a língua q-que encontramos. – Ruby comentou fazendo um cara de nojo.
– Por que sem língua? – perguntou Richard.
– Não faço ideia. – confessou Callaway.
– Explica também o bilhete que acusava Akasha Ratchatt de traição. – Ciel disse. – Como acontece?
– Depois que a insígnia é desenhada com o sangue das cinquenta vítimas, coloca-se o traidor ainda vivo perto da insígnia e com um punhal o fere mortalmente, isso atrairá um shinigami. Quando ele aparece para colher a alma do moribundo, essa mesma alma se tornará uma corrente arrastando o shinigami para a insígnia e, estando o shinigami dentro dela, você pode se declarar senhor sobre o ceifeiro e ele o obedecerá cegamente. Muitos tentavam realizar o ritual com sangue de uma mesma pessoa ou de animais, ou de pessoas mortas por outros, tipo substituir um ingrediente por outro...heheheehe... Mas nunca funcionava.
– Alguém queria capturar aquele shinigami, é óbvio, mas as vítimas parecem ter sido escolhidas a dedo, por alguma razão... O Bilhete também mencionava uma mulher... “Isso é um desrespeito à memória dela”. Ela quem?
Todos ficaram em silêncio por um momento, cada um formulando possibilidades em suas cabeças.
– Bom... a vantagem de se controlar um shinigami é poder escolher quem e quantos matar. – Richard comentou.
– Mas onde está a lógica nisso? Arriscar-se em cinquenta assassinatos para conseguir um assassino pessoal não me parece muito esperto nem muito lógico.
– Como eu disse – Callaway continuou –, esse tipo de ritual era muito realizado no passado. Veja por esse lado, se você está em guerra e possui um exército pequeno ou fraco, matar cinquenta e uma pessoas e poder usar um shinigami a seu favor é vantajoso. É vitória garantida.
– Mas não estamos em guerra e seja lá quem for esse assassino, ele já provou que pode matar quem ele quiser sozinho. Até agora nenhuma morte aconteceu. Para que outra razão alguém pode querer um shinigami? A única pessoa que poderia nos dar alguma pista era a Ratchett; tenho certeza que ela pretendia dizer algo, mas infelizmente já está morta.
– Bem... – começou Callaway – Posso fazer com que ela lhes dê alguma informação, mas terão que ir a minha humilde casa amanhã.
Quando saíam, Claus pediu para falar com Sebastian a sós.
– Minha mãe ligou, está vindo para Liverpool.
– Ah! Será um enorme prazer rever Agatha. – Sebastian fingiu entusiasmo.
– Não seja hipócrita. Você sabe por que ela está vindo.
– Senhorita Elizabeth.
– Precisamos apresar as coisas, ela já tem dezoito anos.
– Não se preocupe.
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O endereço dado por Callaway não levava a uma casa comum. Ciel tinha até se dado ao trabalho de imaginar em que tipo de casa o estranho legista moraria, mas nem sequer uma de suas hipóteses foi tão excêntrica quanto a realidade o era. Estavam todos parados em frente a uma funerária em péssimas condições, mas parecia abandonada. O antigo dono do lugar parecia não pisar ali há muito tempo. Ciel reparou numa placa de madeira com um letreiro improvisado escrito “UNDERTAKER” pregado de qualquer jeito sobre o letreiro original. O capacho estava mais empoeirado do que uma rua de terra e os umbrais da entrada cheios de teias de aranha.
– Será que estamos no lugar certo? – Ciel fazia uma careta para o desleixo do local.
– Oh, sim – dizia Sebastian – com certeza estamos no endereço certo.
Ciel procurou uma campainha, sineta o que fosse, mas acabou dando três batidas na porta com a mão mesmo. Não demorou muito para Callaway aparecer na porta e pedir que todos entrassem. Além do habitual cardigã cinza, usava também uma capa preta e um chapéu esquisito.
– Sejam bem vindos! É uma honra ter o Clã Phantomhive novamente em minha casa. Fiquem a vontade, sentem-se, sentem-se.
Todos olharam em volta e só viram um monte de caixas e móveis irreconhecíveis sob o manto de poeira.
– Preferimos ficar em pé, mesmo. – Ruby sorriu constrangida.
– Fala sério, esse doido acabou de arrombar esse lugar, aposta quanto? – Richard sussurrou para Dimas que riu baixinho em concordância.
– Então você e Sebastian já se conheciam? – perguntou Ciel.
– Há muito tempo, não é mesmo, demônio? Heheheehe! Os Cães da Rainha sempre recorrem a mim para obter pistas.
– Nem sempre tão úteis, Undertaker. – alfinetou Sebastian, seu olhar era fuzilante.
– Então, encontrou alguma pista relevante com o corpo? – Ciel perguntou.
– Isso vai depender do que você irá perguntar a ela. Espere um momento; irei buscá-la.
– O q...?
Ciel demonstrou não entender o que Callaway queria dizer, mas Sebastian fez sinal para que ele apenas observasse. Para espanto de Ciel, Akasha Ratchett entrou na sala empoeirada caminhando, amparada pelos braços de Callaway. Embora ela parecesse perfeitamente bem olhando de longe, ao se aproximar do grupo, Ciel pode notar que não era esse o caso.
Mesmo auxiliada pelos braços de Callaway, Akasha tinha um caminhar decadente, passos irregulares. Sua pele negra não tinha aquele brilho exótico que Ciel vira na livraria, mas um tom opaco e sem vida. Havia manchas escuras em sua pele, talvez hematomas. Seus olhos apagados, embora encarassem os presentes ali, pareciam fitar o nada. Ciel começou a sentir um cheiro nauseante e desconhecido, só pôde concluir que vinha dela. Não havia nenhum cabelo, apenas uma horrenda cicatriz recentemente costurada que fazia toda a circunferência da cabeça nua.
– Veja Aki, este é o Cão da Rainha sobre o qual eu te falei. – Callaway sentou a mulher numa cadeira em frente à Ciel, que horrorizado viu a mulher girar os olhos para ele. – Diga olá para ele.
Os lábios secos e rachados se abriram pesadamente e produziram um gemido em resposta:
– Oooooaaá...
– É...vai ser um pouquinho difícil de entendê-la, afinal ela perdeu a língua e eu tive que lhe arranjar outra que era consideravelmente maior.
– Você.... Ressuscitou ela? – indagou o jovem ainda com incredulidade. Sebastian olhava para Akasha como se ela fosse uma serpente pronta para dar o bote, Ruby e Richard não demostravam reação, Dimas foi o único além de Ciel a ficar surpreso.
– Não. Ressurreição envolve devolver a vida a alguém, fazendo ele ser exatamente como era, como se nunca tivesse morrido. Minhas habilidades ainda não alcançaram esse nível, hehehehe. Embora possamos ver claramente a senhorita Ratchett aqui, não é de fato ela. Isto, meu jovem, é uma quimera. Quimera artificial pra ser exato. Já fiz melhores, é verdade, mas foi o que pude fazer em tão pouco tempo, com tão poucos recursos, com um corpo em estado tão lastimável.
– Como?
– É um processo relativamente simples, é só dar um pedaço de vida extra a uma vida concluída, mas no caso dela, não faço ideia de onde sua alma fora parar, e nesses tempos é muito difícil conseguir uma alma viva que pudesse ligar a dela, de modo que usei a de um cachorro... pobrezinho... O que não é muito convencional, hehehhehehe.... Resumindo, o que vemos na nossa frente nada mais é que um corpo reanimado, não por muito tempo, claro. Mas que conserva apenas pensamentos instintivos, noções de necessidades básicas e alguma memória no cérebro. Terá que fazer as perguntas certas.
– Fooommmiiiii.... – o gemido ecoou no silêncio sepulcral da sala.
– Você é louco! Transformou-a num zumbi. – exclamou Ciel e, só então, se dando conta do absurdo que aquilo soava. – Ela realmente vai responder algo?
– Como eu disse, ela conserva apenas algumas memórias que ficaram registradas antes da morte, pode perguntar o que quiser, mas ela não irá responder exatamente como a verdadeira Akasha Ratchett responderia.
Ciel bufou impaciente e incomodado com a situação. Sebastian o encorajou.
– Tente fazer um pergunta certeira.
– Akasha, quem matou Você?
– Mooonstlos... mordi...am.
– Os kroboros a levaram – falou Ruby –, é provável que nem tenha visto quem a acertou e só se lembre dos demônios.
– Quem queria se vingar de você? – Ciel tentou novamente.
– Lii...vo........... Foooommme.
Ciel afundou o rosto nas mãos.
– Ciel... – Sebastian começou, mas Ciel levantou a mão pedindo silêncio. O jovem pensou por um instante. Encarou a mulher, a quimera, o zumbi, o que quer que ela fosse naquele momento; podia ver a cicatriz que atravessava sua testa bem de perto, olhou no fundo dos olhos dela e a própria Akasha pareceu estar hipnotizada.
– Muitos assassinatos ocorreram e você sabe quem é o assassino, sabe por que ele faz isso, por isso ele quer matar você também – akasha assentiu sem desviar os olhos de Ciel – você queria que isso parasse. Você diria a todos no lançamento do livro por que as mortes estavam acontecendo. Agora, me diga... Como ele escolhe as vítimas?
Akasha inclinou a cabeça para traz como se tentasse recordar de algo. Ela olhou novamente para Ciel e disse lentamente, movimentando com esforço a língua costurada.
– Me-li-ssa U-tter-son.
– Esse nome me é familiar… Ciel nem teve tempo de terminar seu raciocínio; a fisionomia de Akasha mudou inesperadamente e avançou sobre Ciel como um leão faminto. Ruby rapidamente puxou o garoto para trás, caindo os dois no chão empoeirado. Antes que Akasha pudesse alcançar Ciel, Sebastian segurou e girou a cabeça da mulher bruscamente, o barulho alto do pescoço se quebrando foi ouvido por todos, assim como o barulho do corpo caindo no chão.
– É por isso que detesto essas criaturas. – disse o akuma.
– E agora, como vou explicar isso aos policiais da perícia? – lamentou Callaway.
Ciel sentia seu coração acelerado. Fitou o rosto de Sebastian, e este tinha os olhos vermelhos como chama ardente. Sentiu um aperto em seu pescoço. Achou que Ruby estivesse lhe enforcando, mas a moça o segurava pelos ombros. O aperto ficava mais forte e a sensação de sufocamento também. A última coisa que viu foi Dimas ajoelhar-se ao seu lado.
Depois tudo era escuro.
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Estava deitado num sofá de estofado velho e puído. Ao longe, vozes discutiam, essas ficavam cada vez mais altas e claras. Permaneceu deitado com os olhos fechados, apenas escutando.
– ...a alma deste menino está fraca e enfraquece cada vez mais. Acaso fizeste alguma coisa que possa ter aumentado sua ligação com ele?
– Não.
– Está mentindo.
– Está insinuando que ele está assim por minha causa?
– Alguma coisa ou alguém está provocando essa reação extrema. Estou presumindo que seja você.
– Isso é absurdo. Tomei todos os cuidados necessários, assim como fiz com aqueles três, fiz com Ciel.
– Você sabe que foi além.
– Isso é absurdo! Você não mencionou que isso pudesse ser tão prejudicial. Algo não está certo. Isso não deveria estar acontecendo e tenho a impressão de que você sabe de algo, mas não quer falar.
– A única coisa que sei é que o jovem Ciel não sobreviverá a um Despertar. Sugiro que o mande de volta pra casa e procure outra pessoa que possa ser um Cão da Rainha.
– Nunca!
– Não está pensando nele, só está pensando em você e no seu desejo pela alma dele. Deixe-o morrer, então. Assim como fez com Lílian.
– Como ousa. Eu não tive nada a haver com a morte dela.
– Mas teve com as outras mortes.
– E daí?
– Não importa. Tentarei descobrir o que pode estar causando essa reação. Por hora, é melhor que ele não saiba sobre Lílian, pode ser...
– Sim eu sei.
– Ciel acordou!
Dimas o delatou, Ciel sentiu vontade de esganá-lo. Logicamente ninguém mais tocou no assunto e fingiram estar tudo bem. Ciel protestaria, mas não queria que os questionamentos inconvenientes se voltassem contra ele.
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– isso é tudo culpa sua. Não deveria ter confiado em você. – dizia Claus a Undertaker. – nada disso estaria acontecendo. Se algo der errado Sebastian vai acabar descobrindo.
– Se não tivesse confiado em mim ele já teria descoberto, meu caro. Salvei a pele da sua família.
– Não sei se foi realmente isso o que você fez.
– Ora ora. Quanta desconfiança. Como eu poderia adivinhar que aquilo aconteceria. Confie em mim, darei um jeito de manter o akuma no escuro.
– Como?
– Apenas garanta que sua sobrinha não dê com a língua nos dentes.
– Talvez fosse melhor contar logo tudo.
– Eles têm segredos. Nós temos segredos. Eles não contam pra nós. Nós não contamos pra eles. Estamos todos quites, somos todos um bando de mentirosos. – Undertaker sorriu.
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Ciel sentia-se cada vez pior. Os pesadelos ficaram mais frequentes e piores, além disso, estava tendo algumas alucinações. Por vezes sentia-se doente. Agradeceu por estar usando os óculos escuros (sua mãe não conseguira marcar uma visita no oculista), assim conseguia esconder seu aspecto doentio. E quando a mãe ou Angie perguntavam se ele tinha dormido bem, colocava a culpa no choro noturno de Evangeline, depois, achando que não era justo culpar a irmãzinha por tudo, disse que poderia ser um resfriado (foi uma boa desculpa, já que a mãe deixou de questioná-lo, preocupada com sua saúde).
Além da sensação de estar realmente ficando doente, as implicâncias na escola o deixavam irritado. Na aula de matemática, quando o professor deixou a turma sozinha, Ciel percebeu um burburinho da turma e risinhos irônicos que ele sabia serem por sua causa. Um papel passava de mão em mão, alguns riam outros só passavam a diante se recusando a olhar. Ciel os ignorava.
– Ei Ciel, olha essa mensagem que me mandaram. – disse Dimas olhando para o celular – “O pai de John tem cinco filhos. O primeiro se chama Segundo, o segundo se chama Terceiro, o terceiro se chama Quarto, o quarto se chama Quinto e o quinto, como se chama?”.
– John.
– Que droga! Você olhou a resposta.
– Não. Agora guarda essa droga e faça o seu exercício, pois eu não vou te dar cola.
– Que cruel.
Alguém jogou o tal papel sobre a mesa de Ciel e Dimas e ficaram esperando. Ciel respirou fundo e desdobrou a folha. Um desenho tosco e obsceno de sodomia. Ciel amassou a folha devagar, contou até dez pra não dizer umas poucas e boas. A julgar pela risada que se sobressaiu, pode concluir que o autor da piada tinha sido Mason. Não perderia a cabeça, era isso que ele queria.
Embora conseguisse manter o autocontrole, lhe aborrecia mais ainda saber que Liza também era acossada por sua causa.
– ... As características de um ser humano, cujo conjunto chamado sexo, são, na reprodução, transmitidas geneticamente pelo resultado da combinação do par de cromossomos que determina o sexo. Toda mulher tem um par de cromossomos X, e todo homem tem um cromossomo X e um Y. Assim, se nas combinações de cromossomos do feto resultar um par XX, este será do sexo feminino; se resultar um par XY, será do sexo masculino. E blá blá blá... Os órgãos do sistema reprodutor da mulher são o ovário, as trompas e o útero (e a vagina como receptáculo do pênis e do sêmen na relação sexual); os do homem são os testículos e a próstata (e o pênis como penetrador e portador do sêmen na relação sexual) e blá blá blá.... Gente, que livro é esse? Só de ler estou ficando excitada. Ou o conselho escolar não reparou nisso quando escolheu esse livro de biologia ou eu sou muito doente mesmo. Então, achou a resposta da questão nove?
As duas estavam no jardim da escola durante o intervalo. Pauline esperando Elizabeth responder, mas essa olhava para longe; para Ciel.
Fazia um bom tempo que Liza observava Ciel sentado sob a árvore; sozinho. Ultimamente sua única companhia era Dimas, mas este andava muito ocupado com o treino do time. Tinha algo de diferente nele, parecia impaciente com algo, mas do que o normal. Ciel tirou os óculos escuros que estava usando; esfregou os olhos e continuou olhando para o livro em suas mãos. Quando uma brisa soprou as folhas caídas no chão, os olhos de Ciel cruzaram com os olhos esmeraldinos de Liza. A garota sentiu uma sensação inexplicável, quando se entreolharam, foi como se não se vissem há muito tempo. Sim, era como se ela o visse pela primeira vez. O coração apertou em seu peito.
– Liza, a questão nove. LIIIIIIIIIIIIIIIIIZAAAAAAAAAAAAAAA! – falou cantarolando.
– Foi a rainha Elizabeth I! – respondeu assustada.
– Tem razão, mas estávamos estudando História ontem. – falou sorrindo. – Você está bem?
– Sim... Tem alguma coisa errada com o Ciel, você não acha?
– Liza, supera isso...
– Não, não é isso. Eu sinto que ele... Não sei explicar.
– Você parece doente. Tem certeza de que está bem?
– Sim, eu só dormi mal.
– Ficou chorando até tarde?
– Não. Tenho tido sonhos estranhos. Sempre com a mesma menina de olhos bicolores.
– Ainda iludida com seu ex-namoradinho biba? – a voz repentina de Mason assustou as garotas.
– Sai fora, Mason – disse Pauline – estamos ocupadas.
– Não estou falando com você, estou? – respondeu bruscamente. O rapaz sentou-se ao lado de Liza passando o braço pelo pescoço da garota. – Então, Beth...
– Não me chame de Beth. Não lhe dei permissão para se referir a mim por apelidos. – Liza desvencilhou-se dos braços de Ivan.
– Não seja tão arisca. Venho em paz. Como deve saber, você se tornou a piada do momento; culpa do Valentine...
– Se veio pra jogar na minha cara....
– ....Escute... Há uma maneira de acabar com isso. – Falava todo garboso, sorrindo pros seus colegas que observavam a cena. – Dê o troco, faça a fila andar. Se você saísse com alguém importante, logo deixariam você em paz. Alguém tipo... Eu. Eu faria isso por você. Pra você ver como não sou tão ruim quanto você pensa.
Elisabeth encarou Ivan Mason por alguns instantes.
– Eu preferiria a morte! – tanto Mason, como Pauline e os observadores se assustaram com o ímpeto da resposta de Liza – Como você é prepotente e arrogante. Quando você vai entender que Eu-Amo-O-Ciel. Não importa o que ele fez ou o que ele fará; ainda que ele dissesse que me odeia, meus sentimentos por ele continuariam os mesmos. Seria uma grande hipocrisia minha, que sempre afirmei meu amor por ele, me juntasse a você numa vingança contra ele. Logo se vê que você não entende nada de sentimentos. Não passa de um idiota que acha que pode ter tudo o que quer só porque seu pai tem dinheiro. Ou pensa que não sei que você atormenta o Ciel porque tem inveja dele?
– Invej..
– Sim, inveja! Porque ele é o único que não se curva pros seus caprichos nem aceita as suas chantagens tolas. Que não está nem aí pra quem você é. O único, que mesmo sem querer, tem a garota que você JAMAIS terá!
O jardim pareceu parar num silêncio constrangedor. Percebendo que as pessoas começavam a rir do fora que havia levado, Mason, com as bochechas completamente vermelhas, tentou contornar a situação:
– Vim aqui fazer caridade, mas logo se vê que só mesmo aquela bicha poderia suportar você.
Elizabeth ficou tão furiosa e indignada com a maneira com a qual Ivan se referia a Ciel, que nem se deu conta de quando sua mão estalou um tapa tão forte no rosto de Mason que se formou o desenho perfeito de uma mão na face pálida do rapaz.
Com o orgulho ferido, Mason se voltou contra ela.
– Vai se fuder, sua vadia! – e empurrou Elizabeth com toda a força, a garota caiu sobre Pauline. Alguns alunos se revoltaram, outros apoiavam a confusão, mas antes que Mason pensasse no que faria depois, um soco o acertou com tanta força que o fez cair de cara no chão, sua boca se encheu de grama e terra. Desnorteado sem saber de onde aquilo tinha vindo; não precisou levantar para ver quem foi, aliás, não conseguiu, mas a voz lhe deu uma resposta.
Ciel pisou sobre as costas de Mason e empurrou a cabeça dele contra o chão impedindo que ele levantasse.
– Se você encostar um dedo nela novamente, nem que seja num fio de cabelo, eu acabo com você. Você me entendeu?
Ciel soltou Mason e foi em direção a Liza e Pauline. Não querendo passar por fraco, Mason pulou sobre Ciel e os dois começaram a distribuir socos. Ivan ia acertar o rosto de Ciel, entretanto, os óculos que este usava caíram; Ivan se refreou espantado, ao ver que Ciel tinha um olho azul, e o outro brilhava; um brilho de cor púrpura.
– CHEGA! TODOS PRA DIRETORIA, AGORA! – a voz de um adulto foi ouvida.
Ciel, Mason e até Elizabeth foram parar na diretoria; ficaram em detenção, cada um em uma sala diferente, só saíram acompanhados de um responsável. Ciel deu graças aos céus por Angélica ter atendido ao telefone, e não seus pais. Angie até mesmo compareceu vestindo um tailleur vermelho, os cabelos presos, um ar muito sério.
– Não se preocupe senhor Diretor, meus pais ficarão sabendo de todos os pormenores desse evento abominável e garanto-lhe que ele será severamente disciplinado. – dizia ela.
O diretor ficou muito satisfeito.
Claro, Angie deu uma bronca em Ciel, mas não diria nada aos pais.
Como a irmã tinha que ir pra faculdade e já estava atrasada, não pode acompanhá-lo até em casa. Deixou-o na metade do caminho e mandou-o pegar um taxi. Ciel já estava dentro do veículo quando recebeu uma mensagem de Callaway. Mudou seu destino.
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– Alguma novidade na polícia?
– Não.
– Algum recado pro Sebastian ou para os outros?
– Não.
– Então por que estou aqui?
– Queria apenas esclarecer algumas dúvidas. Por que aceitar fazer parte de tudo isso? Tem uma família admirável e que gosta de você, amigos, uma casa confortável. Não é milionário, mas nunca lhe faltou nada. Você tem tudo o que um jovem de sua idade poderia querer. Não faz ideia de onde está se metendo ao aceitar ser um Cão da Rainha, o nome Phantomhive é amaldiçoado. Se seguir em frente, sua realidade tranquila poderá mudar completamente. – Ciel parecia pesar as palavras do shinigami numa balança; Callaway continuou – Desista de tudo isso e volte para a vida feliz que lhe foi dada. Garanto-lhe que os pesadelos que lhe atormentam e mortificam desaparecerão.
– Não entendo sua preocupação comigo. Mas devo dizer que amaldiçoado já estou desde o dia do meu nascimento. Não nasci para levar uma vida normal, disso tenho certeza, nem para desistir de coisa alguma. O que me pedes na realidade é que eu feche os olhos e finja esquecer tudo o que vi, finja não saber de tudo o que agora sei. Não sou o tipo de pessoa que escolhe viver na ilusão só porque é mais agradável.
– Espero que não esteja baseando suas decisões em sentimentos afetivos por um determinado akuma. Não acha estranho essa aproximação tão rápida de vocês? Demônios sabem ser bem sedutores quando querem. Não se engane. Conheci uma moça que confiou nele, Lílian, e veja que fim trágico ela teve.
– Não me interessa nada disso. Tenho certeza de que não sou como essa tal Lílian.
– Aí é que você se engana. Ela também foi um Cão da Rainha... ou seria Cadela?
– Então não foi das melhores.
– Não sabe o destino que lhe aguarda se escolher este caminho.
– Todo mundo morre um dia. Vou fazer o que quero, não importa as consequências. Já fiz minha escolha, não me importa se é a certa ou a errada, com ou sem Sebastian, recebi um problema e não pararei até resolvê-lo. E se Sebastian tem o poder necessário para me ajudar, então sua presença me é vantajosa. Duplamente vantajosa. Mas quanto a você, se não pretende ajudar, não fique no caminho. Até mais ver, Sr. Callaway.
Ciel virou-se para sair, mas algo chamou sua atenção. Mais que isso, o atraiu. Uma pintura, colocada ali recentemente, não haveria como não a ter notado antes. Uma paisagem lúgubre e misteriosa. Uma ilha rochosa no meio do mar, um pequeno bote chegava à ilha, transportando em seu interior duas figuras misteriosas e um pequeno ataúde branco. A imagem parecia puxá-lo de alguma forma.
– Como se chama esse quadro? – perguntou esquecendo-se que estava de saída.
– A Ilha dos Mortos de Arnold Bocklin. – respondeu olhando não para o quadro, mas para o garoto.
– Acho... Acho que já vi esse quadro antes...
– É provável. É uma pintura relativamente famosa.
Ciel continuou olhando para a pintura, quanto mais olhava, mas intrigado ficava e uma sensação de torpor invadiu sua mente. Se estivesse atento, teria notado que Callaway pegara uma pá e vinha em sua direção. O golpe fez Ciel apagar.
– Sinto muito por isso Sr. Valentine. Mas preciso garantir que você não se lembre de determinadas coisas. E é Undertaker, por favor.
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Depois da confusão na escola e de ficar até tarde na detenção, Liza ainda teve que correr para a aula de esgrima. No meio do treino, um professor disse que tinha falado com um tio seu pelo telefone, e que ele viria buscá-la. Perguntava-se o que seu tio queria.
Na entrada da escola, o carro do Claus Midford estava estacionado. Elizabeth aproximou-se do carro e entrou. Para sua surpresa, não era Claus o motorista, mas Sebastian.
– Boa noite, senhorita Midford, serei seu chofer esta noite. – disse o homem sorrindo.
– Meu nome é Elizabeth Wilson. – Liza respondeu, lembrando-se que ali estava a pessoa que lhe roubara Ciel.
– Não por muito tempo. Anime-se Srtª Elizabeth, verá que o melhor é que sejamos parceiros.
– Para onde está me levando? – viu o carro adentar ruas mais vazias e escuras.
– Para um compromisso importante.
– E porque tio Claus não pode vir?
– Ele estava ocupado.
– Não posso, estou de castigo. Quero ir pra casa. – disse insegura.
– Você irá... Depois.
Não soube dizer por que, mas um pavor repentino começou a crescer em seu peito, ficou tão apavorada, e os olhos castanhos que lhe fitavam pelo espelho pareciam tão ameaçadores, que temeu por sua segurança. Sentiu tanto medo que abriu a porta e saltou do carro em movimento. Caiu rolando e assim que viu que estava viva e conseguia ficar de pé, pôs-se a correr.
– Ora... – Sebastian suspirou – Isso foi inesperado.
Elizabeth corria sem saber pra onde. Chocou-se com algo sólido, mas, antes que caísse, mãos a seguraram.
– Ruby?! Ruby me ajude.
– Calma, senhorita Elizabeth, não há porque se preocupar. – Ruby a segurou com força e logo Sebastian apareceu. Liza não entendia o que estava acontecendo. O que eles queriam?
– Isso foi completamente desnecessário. Vamos voltar para o carro.
Elizabeth tentou resistir, mas Ruby garantiu que ninguém queria machucá-la. Convencida por Ruby, mas ainda desconfiada, Liza voltou para o carro.
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Ciel sentiu alguém segurar a sua mão direita e erguê-la alguns centímetros. Quando abriu os olhos, deparou-se com os cabelos brancos de Callaway. O homem tinha em mãos um anel prateado com uma pedra azul. Aproveitando que o jovem ainda estava meio desnorteado, Callaway colocou o anel no polegar do garoto e afastou-se em seguida.
Zonzo, Ciel percebeu que estava nos fundos da funerária abandonada. Estava sentado sobre os joelhos e apoiava-se nas mãos. Sua cabeça latejava. Ao levantar-se, percebeu que se encontrava no centro de um circulo branco com cinco velas dispostas sobre ele. Callaway começou a ler um livro em voz alta, Ciel não entendia nada; o outro falava em latim. Como mágica, as velas se acenderam do nada. Ciel tentou sair dali, mas uma força invisível o impedia; estava preso no círculo.
– O que está fazendo? Eu exijo que me solte!
– Isso não será possível. Espero que sua alma seja mais forte do que parece. – e voltou a ler o livro.
Ciel sentiu seu olho queimar.
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Sebastian dirigiu até sua casa. Midford já o esperava como o combinado, mas ele não estava com uma cara agradável. Assim que saíram do carro, Liza correu para Claus. Richard apareceu preocupado.
– O que houve? – Sebastian perguntou.
– Sebastian, alguém invadiu a casa. Levaram o anel.
Mal Richard termina sua notícia, Elizabeth cai sobre os joelhos, apertando as têmporas com força, lágrimas surgem no canto de seus olhos e deu início a um choro compulsivo. Claus e Ruby tentavam acudir a garota, sem saber o que estava acontecendo.
– Sebastian, ela está Despertando! – disse Ruby.
– Preparem a insígnia, rápido! – disse Claus.
Sebastian olhou para as próprias mãos. Suas unhas tinham voltado a ficar negras como piche.
– Aquele maldito Shinigami. – foi a última coisa que disse antes de partir o mais rápido que podia para o esconderijo de Undertaker.
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A cabeça de Ciel parecia que iria explodir de dor. Seu corpo ardia e doía ao mesmo tempo. Uma enxurrada de imagens começou a encher sua mente. Tentou abrir os olhos, viu Callaway parado mais adiante ainda lendo, mas no instante seguinte, sua visão se tornou avermelhada e pode ver Callaway completamente diferente. Os cabelos cinza estavam extremamente compridos, suas roupas se tornaram uma vestimenta negra e longa, usava uma estranha cartola, e Ciel pode ver no homem a sua frente as cicatrizes que Sebastian mencionara, no pescoço e atravessando o rosto. Era a verdadeira forma do Shinigami.
– EXPERGISCENDUM!
A insígnia sob seus pés começou a brilhar. Fitas de luz, brancas como neve, saíram do peito de Ciel e começaram a girar ao redor de seu corpo, numa velocidade tão grande que o deixou nauseado. As fitas se tornaram imagens, memórias que lhe davam alegria e que atormentavam; giravam em tono do garoto quase formando um casulo. Ciel sentia sua força se esvair. Seu nariz começou a sangrar, seus olhos derramaram lágrimas de sangue. Não via nada além de luz.
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Sebastian foi rápido o suficiente para conseguir segurar o corpo do jovem antes que este atingisse o chão. Sentado sobre os joelhos e segurando o garoto no colo, o akuma correu os olhos pelo corpo do menor procurando algum ferimento, e, embora não houvesse encontrado nenhum, a pele tenra estava fria como o gelo.
– Ciel, acorde!
Sebastian sacudiu Ciel tentando reanimá-lo. Ciel não regia. Sebastian foi ficando impaciente nervoso. Undertaker apenas observava.
– Está morto? – perguntou o shinigami como quem pergunta as horas.
Tomado pelo ódio, Sebastian deitou Ciel no chão e levantou Undertaker pelo colarinho.
– Seu...
Os dois sentiram uma presença poderosa. Sebastian viu os olhos cheios de êxtase.
– Eis que ela surge. – sussurrou Undertake.
Ao virar-se, Sebastian viu uma menina, linda como a noite, trajada de preto e vermelho, curvar-se sobre Ciel. A menina pousou a mão sobre o peito de Ciel e este puxou o ar com toda a força que seus pulmões conseguiam.
Estava vivo!
Sebastian tentou se aproximar da menina, mas no momento que o fez, os braceletes de ouro que a menina usava nos pulsos, assim o arco em seu pescoço, brilharam com uma intensidade absurda, revelando símbolos angélicos da Ordem dos Serafins. Os olhos dela, em contraste, brilharam rubros. A menina gerou uma explosão de energia para manter Sebastian longe. Tanto o akuma quando Undertaker e tudo o mais ao redor da insígnia foi arremessado para longe.
Quando a poeira baixou, o shinigami havia fugido, a menina havia sumido, restavam apenas Sebastian e Ciel.
Como sempre fora.
Sebastian pegou o adolescente no colo como se este não pesasse nada. Fitou-lhe a face manchada de sangue.
– Não se preocupe. Tudo ficará bem, Jovem Mestre.
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