Phantomhive

34 Antes da Tempestade


Notas iniciais
Como vai todo mundo? ^-^/ Avisos de sempre, se encontrarem erros, me avisem. Nos vemos nas notas. Espero que gostem. Boa leitura :3

Capítulo 34: Antes da Tempestade

Verônica tentava manter o controle a todo custo. Os dedos enfiados na raiz do cabelo apertavam o couro cabeludo com força. Ela ficou alguns segundos olhando para os pés com uma enorme vontade de afundar no sofá e sumir. Ela conseguira ficar longe por tanto tempo, permanecer ilesa por tanto tempo, e agora, aqui estava ela, no olho do perigo. No fundo ela sabia que era uma questão de tempo. As engrenagens do seu destino começaram a girar naquela fatídica noite, e parece que finalmente a hora se aproximava.

Ciel suspirou alto, como se toda a situação fosse muito enfadonha, demonstrando sua súbita falta de empatia pela mulher. Talvez fosse pela insistência dela em insultá-lo sem nem mesmo conhecê-lo. É interessante como somos rápidos em adquirir despeito por alguém.

Ciel ficou pensando na imagem da mulher morta, enforcada e com grilhões. Fosse quem fosse, o assassino era obviamente alguém extremamente vingativo e tinha um certo prazer em demonstrar isso. Lembrou-se da exposição pública dos corpos das gêmeas Copperpot logo após a mídia sugerir que a polícia tinha conseguido tirar duas vítimas das mãos do assassino. E aqui estava Verônica, que conseguira escapar, mas logo o assassino oferece a ela uma escultura humana, um lembrete mórbido de que seu feito foi apenas uma sorte temporária.

– Enforcada como Judas, o traidor. Isso é obviamente uma acusação – Ciel comentou. – Me pergunto o que você teria feito para merecer ser caçada por tanto tempo, e para ter ganhado o privilégio de ser a última da lista.

Privilégio? Onde você está vendo privilégio, seu pequeno sádico?

Ela se levantou e pôs-se a andar de um lado para outro novamente. Ciel sentou-se na poltrona e chamou a atenção da mulher.

– Então... você pretende continuar insultando a mim e a minha equipe ou vai nos dar alguma informação que realmente valha a pena?

Verônica fuzilou Ciel com o olhar, mas depois abraçou a própria cintura e disse num sussurro:

– Alguns pecados jamais são esquecidos. E não importa o que você faça para compensar isso, às vezes... não há compensação.

Ela pareceu falar mais para si mesma do que para qualquer um ali. Retomando seu autocontrole, sentou-se no braço do sofá em que Richard, Elizabeth e Ruby estavam. Verônica continuou:

– As vítimas anteriores não sabiam que havia alguém caçando elas porque elas não lembravam da existência do assassino. Não como Sibyl e eu. Elas eram pequenas moscas distraídas que, por acaso, voavam exatamente no local em que a aranha construíra sua teia. Elas eram ignorantes inocentes, cujo único erro foi terem sobrevivido a uma tragédia em que todas nós devíamos ter morrido. Minto. Somente eu devia ter morrido naquela noite. Se eu tivesse aceitado minha morte, nada disso teria acontecido. Mas eu não quis morrer. Quando tudo o que lhe resta é a vida, você acaba fazendo qualquer coisa para mantê-la. Qualquer coisa. E muitas vezes nem pensa nas consequências... Eu fiz de tudo para escapar com vida. Eu não queria ser a próxima naquela parede. Ela morreu por minha causa...

– Quem morreu? – indagou Elizabeth.

– A filha daquele homem desprezível.

– Melissa Utterson – Ciel arriscou.

– Sim. Nós deveríamos salvá-la, mas não foi o que fizemos. Não foi o que eu fiz... Vocês precisam entender que eu não tinha outra escolha. Aquela época da minha vida foi como um pesadelo ruim, que volta todas as noites para me assombrar.

– Uma hora você tem que enfrentar os pesadelos, do contrário eles nunca desaparecem. Conte-nos o que aconteceu lá, no orfanato – Ciel pediu.

Verônica sentiu-se incomodada. Ela tinha consciência dos olhos do akuma a seguindo a todo o momento, mas eram os olhos azuis daquele adolescente que mais a perturbava. Eles pareciam querer enxergar dentro de sua cabeça. Verônica olhou para todos e respirou fundo antes de continuar.

– Como eu disse, eu estava no orfanato. Tudo ia bem... Até aquela manhã, quando tudo mudou. Lembro que estava frio...

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14 ANOS ANTES

O frio a acordou.

Antes mesmo de abrir os olhos, ela tomou a consciência terrível de que estava nua. Estava deitada sobre um chão frio de pedra; o braço esquerdo, sobre o qual dormira, estava dormente, fisgadas de dor se espalharam pelo braço quando o moveu. Tentou levantar, mas seus movimentos estavam limitados: correntes e grilhões prendiam seus tornozelos.

Encolheu-se e abraçou os joelhos numa tentativa falha de cobrir-se. Escutou choramingos, e percebeu que outras meninas também estavam ali, na mesma situação. Amontoadas num canto, tentando ficar aquecidas.

Estava parcialmente escuro. Não conseguia identificar que lugar era aquele. Estava dentro de uma grande jaula, disso ela tinha certeza. Por um momento, pensou estar sonhando, um estranho pesadelo, porque não se lembrava de como fora parar ali. Sua última lembrança era de ter ido dormir em sua cama quentinha no abrigo para menores. Agora ela estava no escuro, numa jaula fria, nua e acorrentada.

Uma porta se abriu no escuro, deixando uma fresta de luz entrar e iluminar o ambiente. Mais cinco jaulas podiam ser vistas. Reconheceu os olhos assustados e chorosos de sua prima, Sybil, na jaula diante da dela. Sybil tremia e olhava para ela como quem pergunta o que estava acontecendo. Naquele instante, gelo escorreu por toda a espinha de Glades. Ela soube.

Não estava sonhando.

O ambiente era muito escuro, havia apenas duas portas, cada uma em uma extremidade da sala, a porta que acabara de ser aberta e outra grande e antiga, ainda fechada. Glades conseguiu ainda enxergar a parede ao lado da porta antiga, era decorada com pequenos quadros de moldura rústica, todos traziam o mesmo desenho, algum tipo de símbolo circular, desconhecido para Glades.

Ela viu um homem caminhar entre as jaulas e instintivamente tentou esconder sua nudez. “Não se escondam, não se escondam”, dizia o homem, e ela reconheceu aquela voz. “Somente os pecadores têm o que esconder e do quê se envergonhar. Mas a inocência é pura, a inocência é nua. Vocês ainda não são perfeitas, mas eu vou purificar vocês, torná-las sem manchas.”

Aquela era a voz do dono do abrigo, Jeremiah Utterson. Gentil como sempre. Mas agora ele soava um tanto assustador.

Ele continuava seu discurso estranho e era seguido por seu casal de filhos, que distribuíam pães para as meninas nas jaulas. O jovem Brian Utterson tinha olhos grandes e um sorriso sádico, espiava as meninas, mas não com luxúria; ele olhava para elas como se fossem cães vadios, assim como seu pai fazia. Melissa Utterson tinha um semblante triste e assustado, seu aspecto era de alguém continuamente doente.

— Eu quero sair daqui – Glades sussurrou quando a garota foi entregar um pedaço de pão para ela. Melissa parecia tão assustada quanto a própria Glades. Antes que qualquer uma das duas pudesse dizer mais alguma coisa, uma voz de trovão cortou o ar, fazendo todos os ombros desnudos caírem.

O Sr. Utterson começou a brigar com a filha, seu tom grosseiro e poderoso contrastando com sua habitual maneira gentil de falar. Pelo menos, Glades nunca o ouvira gritar antes. Ele apertava o queixo da menina com força, gritava tão próximo, que as palavras batiam no rosto da garota como bofetadas, gotículas de saliva caíam sobre a face.

– Quantas vezes eu já lhe disse, Mel? Não fale com elas. Não dê atenção a elas. Consegue fazer isso ou será que terei de puni-la novamente para você entender?

A garota não olhou mais para a jaula e continuou sua tarefa mecanicamente. Glades pensou em pedir desculpas, mas estava tão apavorada que sua voz não saiu.

Glades gostaria de respostas, mas ela não as teve. Não fazia idéia de porque estava ali, porque estavam fazendo aquilo com elas. Algumas vezes ela jogou perguntas no ar quando os Utterson entravam na sala, mas eles nunca respondiam. Dos quatro membros da família, Melissa era a mais acessível, mas ela era sempre castigada sempre que falava ou tentava ajudar as garotas enjauladas.

Sobreviver era a única opção, não havia mais o que se fazer ali. Glades ainda trocava algumas frases com Sybil, mas a prima chorava o tempo todo. Sybil podia ser a mais velha, mas certamente não a mais madura ou equilibrada. Com o tempo, todas as vozes silenciavam, estavam fracas demais para falar. As refeições eram as mesmas: pão e água, não necessariamente os dois juntos. A regularidade com que o alimento era fornecido diminuía a cada dia, até que nada fora dado a elas para comer e seguiu assim por duas semanas.

No primeiro dia, havia quatro meninas em cada jaula. Parte delas não resistira ao frio, à fome, aos dois. Era simplesmente assustador notar que uma das meninas não respirava mais. O corpo permanecia na jaula com as outras, como uma lembrança maciça de que esse poderia ser o futuro delas amanhã, até que o sr. Utterson vinha e o levava.

Para onde?

Não sabiam.

Essa rotina se repetia de tempos em tempos, parecia que era justamente o que o Utterson queria, saber quais eram as mais fortes, ou pelo menos as mais resistentes. Depois de oito meses, não havia mais do que duas menina em cada jaula. E elas estavam magras e anêmicas. Jeremiah veio e as amontoou em uma única cela.

Certo dia, Utterson veio com a esposa e outro homem, com rosto oculto por uma máscara, e examinaram as garotas restantes. O homem escolheu uma e eles a marcaram com ferro em brasa e a colocaram em uma cela separada. Mais tarde, a filha, Melissa, voltou com remédios, ataduras e ungüentos. Trouxe roupa e comida para a garota escolhida, comida de verdade. Durante o mês seguinte, a garota desfrutou de comida e água a vontade, roupa quentinha. Seu corpo ganhara alguma carne e seu rosto um pouco de cor. Glades e Sybil chegaram a invejá-la, não parecia tão ruim ser marcada se essa era a recompensa.

Um dia, houve muita movimentação por parte dos Utterson. Eles abriram a porta que nunca era aberta e passaram para lá com caixas, animados, como se preparassem uma festa. A filha parecia doente, levando em conta os hematomas em seu braço, devia ter sido “disciplinada” recentemente. Pela tarde, a esposa de Jerimiah veio e obrigou a garota marcada a despir-se e vestir uma camisola branca. Ao entardecer, seis pessoas desfilaram entre as jaulas rumo à sala misteriosa. Todas bem vestidas, e com máscaras. Sorriam e conversavam descontraidamente, como se fossem incapazes de enxergar a atrocidade que era cometida contra as meninas, nuas e esqueléticas, acorrentadas e presas em jaulas. Ou talvez eles só não se importassem. Elas eram apenas parte do cenário grotesco.

O som não escapava da sala misteriosa. Glades concluiu que devia estar acontecendo uma festa. Que tipo de pessoas festejam em situações assim? Até então, Glades achava que os Utterson eram uma família de monstros, mas todas aquelas pessoas, não era possível que nenhuma delas se apiedasse. Não era possível que todas olhassem para aquilo e achassem que estava tudo bem.

Depois de algumas horas, a porta se abriu, homens vieram, abriram a jaula 4 e levaram a garota vestida de branco. Ela tremia, e murmurava que queria ir para casa. Eles alisaram o cabelo dela, e disseram que ela iria. Talvez a garota soubesse, porque Glades também sentiu, que eles estavam mentindo, que algo estava muito errado. A menina começou a chorar, e agarrou as barras de sua jaula com força. Mas que força tem uma menina de 13 anos contra três homens adultos? Glades e Sybil se esticaram entre as barras de ferro, tentando conseguir algum vislumbre da sala misteriosa quando a porta se abriu, mas não conseguiram ver além do umbral de entrada.

O som não escapava da sala misteriosa. Não qualquer som. No entanto, um grito agourento atravessou a porta. Um grito final. Um grito de morte.

Um grito de menina.

O silêncio, companheiro assíduo delas, parecia agora insustentável, e trazia consigo um gosto intragável de medo. Elas não viram nada, mas todas tinham chegado à mesma conclusão.

Uma das meninas que estava com elas, Sarah Ann, pequena e franzina, vomitou em seus próprios pés. Sybil caiu sobre os joelhos e ficou paralisada.

– Eles... mataram ela... – disse outra garota, Lucilla.

— Eles vão matar a gente – Sybil acrescentou; sua voz quase não saía.

As perguntas que todas se faziam eram: “Quem era aquela gente?” e “Por que estavam fazendo aquilo?”. Será que nenhuma das outras crianças do abrigo ouvira ou suspeitara de qualquer coisa? Será que nenhuma daquelas pessoas do governo responsável por fazer visitas e fiscalizações desconfiava do que se passava no subsolo daquele lugar?

Todos os visitantes se foram assim como vieram. No dia seguinte, Glades viu a senhora Utterson tirar de lá alguns tecidos sujos de sangue, mas não viu, nem no dia seguinte, nem no dia depois desse, nem depois, retirarem o corpo da menina de lá. Depois de a senhora Utterson e sua cada vez mais sorumbática filha terminaram a limpeza, o Sr. Utterson saiu da sala misteriosa trazendo um quadro pequeno em mão. Ele o pendurou na parede ao lado de seus semelhantes.

Glades não soube como não percebera antes. Sentiu um buraco se abrir em seu estômago. Os quadros com as mesmas formas circulares eram na verdade o pedaço de pele das meninas em que estava a cicatriz da queimadura. A julgar pela quantidade de quadros, Glades soube que elas não eram as primeiras, e provavelmente não seriam as últimas.

Dois meses depois, tudo se repetiu, e outra menina se foi. Quatro meses depois, outra. Tamanho foi o pânico que se apossou de Glades, quando os mascarados vieram e a marcaram. Ela tinha dois meses para descobrir um jeito de escapar, ou sua pele marcada estaria em exposição na parede para o próximo desafortunado grupo de garotas.

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ATUALMENTE

– O que você fez? – Ciel inquiriu quando Verônica interrompeu sua narrativa.

– Eu causei a morte de Melissa Utterson.

– Como? – Ciel insistiu.

– Isso não é importante.

– Claro que é.

– Eles praticavam magia negra, ofereciam crianças inocentes como sacrifício. Tiveram o que mereciam, ok? Por favor, eu não quero falar sobre isso. Acredito que o assassino possa ser o irmão da Melissa, Brian, ou o próprio Jeremiah Utterson, procurando se vingar de mim. Eu me arrependi muito pelo o que fiz, e Iridel me ajudou muito depois disso. Só vim porque ela pediu.

– Muito bem então – Ciel pôs-se de pé. – Você precisa ficar segura e a nossa vista de agora em diante. Nada de ficar sozinha por aí, vai ser morta e nem vamos saber.

– Ela pode ficar comigo e o Richard – Ruby sugeriu. Ciel aprovou a ideia.

– O que diz, Verônica? Nós queremos deter o assassino e você quer que ele morra, preferencialmente antes de você. Estamos do mesmo lado.

– Funcionalmente do mesmo lado – Verônica cruzou os braços.

– O que exatamente você tem contra mim? – Ciel enrugou a testa.

– Não contra você, contra demônios, e tem um do seu lado.

– Exatamente, do meu lado.

– Demônios não tomam lados, apenas o deles mesmos.

– Não estou ofendido – Sebastian comentou.

– Claro que não está. Enfim... – Verônica suspirou derrotada. – Se Iridel me mandou para cá, ela deve ter um bom motivo. Aceito a oferta de vocês.

Todos concordaram em ficar atentos a qualquer movimento suspeito, o assassino poderia atacar a qualquer momento e ele tinha a incrível habilidade de conseguir fazer o que queria e escapar. No entanto, não houve mais vítimas, tampouco ataques de kroboros, nem mesmo foram vistos. Richard, Ruby e Sebastian se revezavam patrulhando diferentes cantos da cidade, mas nenhum sinal de nada.

Tudo estava calmo e permaneceu assim pelas duas semanas seguintes.

– Não gosto disso. Eu definitivamente não gosto disso – Ciel se jogava no sofá da sala do Sebastian, eles estavam sozinhos naquela tarde. – Sei por experiência que quando tudo fica quieto demais é porque tem problema a caminho, problema dos grandes.

– A cidade está pacata como nunca. Isso é até um pouco irritante – Sebastian sentou-se ao lado de Ciel e passou o braço por trás do jovem. Ciel se aconchegou em seu peito – Ruby tem tentado sondar mais algumas informações da Verônica, mas não conseguiu nada até agora.

– Ela é esperta, não vai dizer mais do que quer. E eu sei que ela ainda está escondendo algo, afinal, como Iridel entra nessa história toda? – Ciel lembrou-se da cicatriz nas costas de Verônica, a mesma cicatriz que ele tivera duas vidas atrás. – Acha que a seita desse tal de Jeremiah Utterson tem a ver com as pessoas da Era Vitoriana que me...

– Não pense nisso, Ciel.

– Como não pensar, Sebastian? São tantas coincidências, tantas dúvidas e tão poucas respostas – Ciel virou-se para encarar o akuma. – Não está mais escondendo nada de mim, está?

– Não, eu juro. Nesse caso estou tão perdido quanto você – Sebastian beijou-lhe a testa.

– Você costumava saber de tudo.

– Eu só parecia saber de tudo. Pra te impressionar.

Ao ficarem em silêncio, Ciel distinguiu a letra da música que tocava baixinho na sala.

“Love me tender, (Me ame com ternura,)

Love me sweet, (Me ame com doçura,)

Never let me go. (Nunca me deixe partir.)

You have made my life complete, (Você tornou minha vida completa,)

And i love you so… (E eu te amo tanto.)”

– Que relíquia é essa que você colocou pra tocar, Sebastian?

– É o Rei. Elvis. Love Me Tender.

Ciel sorriu.

– Você gosta disso?

Sebastian deu de ombros. – Não é tão ruim.

– Você é um velho – Ciel brincou. – Está tentando criar algum tipo de clima aqui?

– Talvez. Está funcionando? – Sebastian indagou sorrindo.

– Humm... Não.

Sebastian beijou-lhe os lábios delicadamente. – E agora?

– Nada ainda – Ciel meneou a cabeça.

Sebastian distribuiu beijos pela pele quente do pescoço do jovem e deu uma leve mordida na orelha de Ciel, provocando um arrepio em ambos. Sussurrou: – E agora?

– Agora me beije novamente.

Ciel vê um sorriso sensual se formar nos lábios do akuma, e fecha os olhos ao sentir os lábios dele tocar os seus, o deslizar tranquilo de uma língua sobre a outra. Não soube como, mas a iluminação da sala diminuiu, e eles eram apenas carícias cálidas, alentos doces e gemidos agradáveis.

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Sebastian passou pelo corredor em direção à cozinha, notou que havia uma presença na sala. Ele parou e deu alguns passos para trás. Encarou, surpreso, a menina.

– Você disse que eu poderia vir sempre que eu quisesse. Então, eu quis – Evie explicou.

– Ah! Sim, eu disse. E não era mentira. Eu só... – Sebastian tentou pensar em algo para dizer, mas não lhe veio nada à mente, o que era meio constrangedor, ele não era o tipo de ficar sem palavras. Adotou o comportamento costumeiro e que sempre funcionava: – Posso fazer alguma coisa por você?

– Oh, não se preocupe. Pode continuar com sua rotina, seja lá qual for – Evelyn deslizava os olho pela estante de livros e demais móveis com curiosidade. – Eu fico aqui conversando com o Poe. Só quero ficar aqui.

Sebastian olhou para o corvo, e o pássaro para ele.

– Tudo bem, então. Eu só tenho que terminar de ler alguns documentos e assiná-los. Fique a vontade. – Sebastian se afastou e dois minutos depois voltou para a sala. – Quer que eu lhe prepare algo?

– Para comer, você diz? Se meu corpo realmente estivesse aqui, eu ficaria agradecida – ela falou sorrindo. – Mas na minha situação atual, é meio inviável

– Tem razão, tolice a minha. Esqueci – Sebastian sorriu sem jeito.

– Obrigada mesmo assim.

– Acredito que seu pai tenha sentido um pouco de ciúmes por você não ter ido vê-lo novamente. Agora que ele lembra. Ele falou comigo sobre isso outro dia.

– Ele falou?! Acho que ele ainda não está recuperado o suficiente para minha presença. Não quero desencadear outra reação extrema.

– Acredito que esse risco não existe mais, todas as memórias voltaram e ele sobreviveu a elas.

– Não é só isso. Ciel tem contrato com um demônio. Sua marca está gravada na alma dele. Assim como esses arcos de proteção repelem os demônios, também afetam o Ciel. Além disso, parte da essência dele foi usada para forjar esses arcos, acho que isso também conta.

Ficaram ambos em silencio. Ouvia-se apenas o farfalhar das penas de Poe, que se movia de um ponto a outro seguindo a ilusão da menina. Evie parou diante de uma mesinha de canto, que tinha um jarro com flores azuis e um porta-retratos com uma foto de Sebastian e Ciel juntos, isso não estava ali da última vez que o visitou. Ela sorriu.

– Acha que ele está pronto?

– Para...? – Sebastian observava a menina atentamente.

– Ser pai. Quero dizer, ele é só um adolescente. Tem seus próprios problemas, muito para aprender ainda. E eu... acho que tenho atrapalhado mais que ajudado.

– Nas vidas de Ciel, ele se viu cara a cara com muitas coisas para as quais ele não estava preparado, mas eu diria que ele se saiu muito bem em todas elas. Ciel é mais forte do que você imagina. E quando ele se sente responsável por algo, não mede esforços para defender. Ele sempre foi assim. Ele se sente responsável por você. Porque ele ama você. Eu sei que sim. Pode ser que ele ainda não esteja pronto para um punhado de coisas, mas ele está buscando estar. Ele não é do tipo que desiste.

– Você está se saindo bem – ela falou com um sorriso tímido.

– Ah... Obrigado.

O silêncio novamente. Aparentemente, Evie não se importava com esses espaços entre as conversas. Ela evitava ficar encarando Sebastian e evitava ficar forçando conversas. Sebastian fazia o mesmo. Era um conhecimento mútuo, mas não declarado, de que eles tentavam conhecer melhor o outro sem causar desconforto. Pequenas doses de companhia e conversação.

– Evelyn...

– Sim?

– Sabe onde me achar... sempre que quiser.

A menina olhou para ele, séria, e abriu um enorme sorriso. Um sorriso que se assemelhava muito ao de Ciel. Sebastian sentiu uma sensação nova, alguma coisa agradável e cálida no peito. Não soube explicar o que era.

Depois de um tempo, Evie disse que precisava ir, e simplesmente desapareceu. O corvo levantou voo e saiu pela janela. Sebastian tentou seguir a ave, mas depois de percorrer uma certa distância, Poe, literalmente, virou fumaça. Claro, não seria tão fácil assim achar a localização da menina.

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– Eu já decidi, vou contar para o papai sobre mim, sobre o Sebastian, tudo.

Ciel e Angélica tomavam conta da pequena Evangeline naquela tarde. A mãe deles estava dando aulas na Little Mozart.

– Quando? – Indagou Angie, checando se o leite da mamadeira não estava muito quente.

– Amanhã – Ciel tinha o bebê nos braços. Recebeu a mamadeira das mãos de Angie e colocou o bico próximo a boca de Evangeline, que começou a sugar o líquido.

– Você leva jeito – Angie colocou uma mecha de cabelo laranja atrás da orelha. Sorria para o rostinho da irmã.

– Experiência – Ciel deu de ombros.

– Não sei com o quê, fui eu que cuidei de você – Angie sorriu, julgando ser uma piada do irmão. – Então... Amanhã? Tem certeza?

– Quero aproveitar que ele está de cabeça mais fria agora que o assassino parece ter dado uma trégua à polícia. Eu não quero esperar mais. Adiar as coisas só me trouxe problemas. Conversar com a mãe foi bom, apesar de tudo, ela reagiu bem. Embora eu tenha a impressão de que ela esteja mais ignorando o fato do que aceitando.

– Dê tempo a ela.

– Estou dando. Acho que conversar com o pai é a melhor opção também. Não posso pra sempre. Mais cedo ou mais tarde ele vai descobrir. Melhor que seja por mim.

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Ciel tinha escolhido o Darjeling Chá porque se sentia confortável ali, e achou que seria um ótimo lugar para tratar de assuntos sérios. Mas agora que estava ali com o pai, se perguntava se um local público fora realmente a melhor escolha. Ele não fazia idéia de qual seria a reação de seu pai; se fosse uma reação boa, tudo bem, eles terminariam o café e seguiam suas rotinas; se fosse uma reação ruim, talvez a presença de outras pessoas levasse seu pai a ter mais controle... ou não, e seria a maior vergonha.

Ciel chacoalhou a cabeça e tentou colocar aquelas preocupações de lado. Seu pai já estava curioso sobre qual o motivo daquele encontro, Ciel nunca antes exigira que os dois fossem tomar café da manhã sozinhos. Ciel já estava as voltas há alguns minutos com assuntos desimportantes, ele teria aula depois e seu pai tinha que trabalhar, não dava para adiar.

– Pai, lembra que eu disse que estava namorando outra pessoa?

– Você disse? Sim, sim, você disse. As coisas não foram muito bem com a filha dos Wilson?

– É, não. Eu gosto da Elizabeth, mas apenas como amiga.

– Vocês demoraram um tempo para descobrir isso, não acha? – Roger adoçava seu chá distraidamente.

– Acho que eu sempre soube. Nosso namoro nunca foi um namoro de verdade, sabe? A gente nem chegou a se beijar, bem...uma vez, mas foi meio que unilateral.

– Sério? E eu achando que os jovens de hoje em dia já partiam para as relações sexuais. No meu tempo não era assim. A gente namorava um bom tempo e casava antes de qualquer coisa mais íntima.

– Não é bem disso que eu quero falar... Eu descobri muita coisa sobre mim nos últimos meses, e algumas coisas mudaram. Eu conheci outra pessoa. E eu realmente gosto muito dessa pessoa. Só que... eu vou precisar muito da sua compreensão nesse momento, porque...

– Ela não está grávida, está?

– O quê?! Não. Não é isso.

– Que bom. Eu ficaria decepcionado se descobrisse que você foi irresponsável a esse ponto. Filho é coisa séria. Você não pode engravidar uma garota e depois deixar tudo nas costas dela. Namoro é coisa séria. Por isso eu sempre digo...

– Pai? Pai! Não tem ninguém grávida, ok? – Ciel ofegava, as bochechas vermelhas. Estava ficando nervoso, e ele tinha começado tão bem.

– Menos mal. Então... Qual é o mistério com essa garota nova?

– Não é uma... – Ciel se refreou. Não era por aí que ele pretendia começar. Engoliu em seco e retomou a fala. – Pai, eu sou g...

Um telefone tocou.

Roger fez sinal para Ciel aguardar enquanto ele atendia ao telefone. Ciel engoliu sua declaração. Seu coração palpitava. Não imaginou que fosse tão difícil.

– Pode falar, Harris – Roger disse ao telefone, e ao desligar, disse que precisava sair com urgência.

– É o Serial Killer? – Ciel se alarmou.

– Não. Assaltantes de loja. Parece que pegaram o dono e dois funcionários de reféns – Roger se levantou e vestiu seu casaco. Ele estava praticamente agradecendo aos céus por ser um chamado comum. – Depois continuamos nossa conversa sobre sua namorada misteriosa.

– É namorado – Ciel disse para ninguém, seu pai já saíra do estabelecimento.

Bom, o jeito era esperar até a noite.

Ciel estava confiante, mal sabia ele que inimigos já tinham posto em andamento, um dia antes, um plano vil.

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– Não! Você tem que ser mais convincente. Tem que parecer realmente preocupado, ou ela não vai acreditar.

Ivan Mason repreendia Ben Wallace, que tentava repetir de forma natural o pequeno texto escrito por Mason. Carl Clarke assistia toda a cena rindo. Ora zombando da terrível atuação de Wallace, ora achando graça da irritação de Mason.

– Dê um desconto, Mason. Você está falando com o cara que não conseguiu nem o papel de árvore na peça do quarto ano – Clarke zombou. Mason também teria rido, se não estivesse tão irritado.

– Muito engraçado, rapazes. Muito engraçado! – Wallace reclamou. Ele já tinha repetido aquilo umas seis vezes, mas continuava falando como um robô, um robô de filme trash dos anos 80. – Se está achando ruim, porque não vai você mesmo?

– Porque eu fui suspenso, gênio! – Mason batia na própria testa com a mão fechada. – Minha imagem está suja, ninguém dará crédito ao que eu disser. Além disso, já fui repreendido uma vez por brigar com o Valentine, eles não vão acreditar em mim. Mas você, eles nem vão saber se você é amigo ou inimigo dele.

– Não sei, não, Mason. – Wallace titubeou. – Não é um pouco... exagerado demais?

– Exagerado?! – Proferiu Mason com incredulidade.

– Qual é, cara. Você está amarelando? Tá com peninha do Valentine? – Clarke ficou dando tapinhas na cabeça de Wallace, e este tentava se desvencilhar do amigo.

– Não, cara. É que... Não tem outro jeito de nos vingarmos dele? Tipo zoação mesmo. Isso parece um assunto muito sério pra mim. É pegar pesado.

– Pegar pesado? PEGAR PESADO?! Não estou pedindo pra você dar uma surra nele, estou? O Valentine me ferrou com a escola, com meus pais e com meu fornecedor e com meus clientes. Ele ferrou com a minha vida. Eu vou ferrar com a dele também. É só uma brincadeira, ninguém vai se machucar.

– Não sei, cara. E se não tiver sido ele? Não consigo.

– Deixa, deixa, deixa... Eu faço isso – Clarke tomou a frente. – Nem preciso de papel, vocês já repetiram isso tantas vezes que eu já decorei tudinho. Nunca fui com a cara do Valentine mesmo. Vai ser divertido.

– Ótimo! Diga exatamente como eu falei – Mason reforçou.

No dia seguinte, durante o intervalo, Carl Clarke se dirigiu até a sala da conselheira do Instituto Nottingham. Bateu na porta duas vezes, esperou ouvir a permissão e entrou. Entrou de ombros caídos, olhos grandes e brilhantes, e sua melhor expressão de adolescente perdido. A conselheira olhou para ele e esperou que o rapaz tomasse a iniciativa de falar. Nunca é bom pressionar jovens a falar.

– Com licença, srª Keener, posso conversar com a senhora um instante?

– Mas é claro, senhor...

– Clarke. É sobre um amigo.

Sempre é um amigo, ou um primo, ou um garoto que conhecem. Nunca sobre si mesmos, pensou Keener.

– E como se chama esse amigo?

– Valentine. Ciel Valentine. Ele é aluno daqui também e por isso estou preocupado. Ele precisa de orientação, sabe? Acho que ele pode se meter em encrenca, se é que já não está encrencado. E pode não ser bom pra ele, ou pra imagem da escola, sabe? Mas... eu estou mesmo é preocupado com ele.

– Que tipo de ajuda seu amigo precisa?

– Bem... É que tem esse cara que ele conheceu e...

Clarke foi tão convincente em sua preocupação com seu amigo, que, nem por um instante, Amélia Keener pensou que fossem mentiras, ou que ela estava sendo usada como parte de um cruel plano de vingança.

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Não importava se o dia tinha sido bom ou ruim, a melhor parte se encontrava do outro lado da rua, encostado em um jaguar preto, a sua espera. Mesmo de longe, Ciel conseguia ver o sorriso sinuoso do Sebastian.

A distância diminuía a cada passo e quando estavam bem próximos, não foi preciso palavras ou cumprimentos, eles naturalmente receberam um ao outro entre os braços, e seus lábios se tocaram com uma languidez sedutora. Eles não tinham pressa, só queria aproveitar e saborear cada movimento, cada milésimo de segundo daquele momento. Não existia mais ninguém no mundo deles, e tudo o que eles possuíam era aquele beijo. Era uma sensação boa, aquela de calor surgindo aos poucos. As mãos de Sebastian apertavam a cintura do Ciel, trazendo-o para mais perto quanto possível. A mão esquerda de Ciel apertava a camisa do Sebastian, e a direita acariciava a nuca do akuma e, às vezes, apertava os cabelos dele.

Eles já estavam ofegantes, mas não pensavam em parar.

– Devíamos ir para dentro do carro – Sebastian falou entre o beijo.

Ciel sorriu e murmurou um sim, mas não interrompeu o beijo, e o único movimento que fez foi pressionar o corpo de Sebastian contra o carro. Eles estavam felizes, estavam apaixonados e estavam excitados. Tudo o que lhes importava naquele momento era ter um ao outro.

Eles estavam distraídos.

Tão absortos na paixão, tão envolvidos na doçura do beijo, que não perceberam a aproximação.

Ciel foi arrancado dos braços que lhe envolviam ao mesmo tempo que o punho de Roger arrancava sangue do nariz do Sebastian. O golpe fora desferido com tanta força, que a cabeça do akuma bateu no carro. Sebastian parecia mais surpreso com o fato do homem ter conseguido arrancar-lhe sangue com um só golpe do que com seu aparecimento repentino.

– Vamos para o carro, Ciel. Agora! – Roger estava furioso, seus olhos azuis se destacavam de uma forma assustadora em seu rosto vermelho de raiva.

Sebastian viu a mão do homem apertando o pulso do jovem, ele tentou reagir, mas Ciel o impediu.

– Está tudo bem Sebastian. Eu vou com o meu pai, depois eu te ligo.

– Não, ele não vai ligar – Roger respondeu de imediato.

– Senhor Valentine... – Sebastian deu um passo à frente, Roger se voltou para ele ameaçadoramente, mantendo Ciel atrás de si.

– Se eu o encontrar perto do meu filho novamente, eu acabo com você. Você me entendeu?

Sebastian serrou os punhos e se seus olhos se estreitaram perigosamente, mas Ciel o repreendeu com o olhar, meneando a cabeça negativamente, e o ordenou que fosse para casa. Sebastian não pôde fazer nada além de ver Ciel ser puxado para dentro do carro do pai e partir. Enfurecido, amassou a porta esquerda do carro com um soco. Só depois ele percebeu que havia alguns alunos observando a confusão.

Malditos humanos intrometidos.

– Eu posso explicar, pai – Ciel falou depois de alguns minutos de silencio dentro do carro.

– É bom mesmo que possa, Ciel. É bom mesmo que possa. Eu não acredito nisso... – Roger deu um tapa no volante e buzinou para que o utilitário da frente fosse mais rápido. – Era sobre esse sujeito que você queria contar hoje de manhã?

– Sim.

– Você é... Droga, Ciel! Escute, filho, não importa o que esse sujeito tenha dito pra você, ele estava apenas tentando manipular você, usar você... Esse tipo de gente...

– Pai. Não. Eu... ninguém...

– Você não vai mais encontrar aquele homem novamente – esbravejou.

– O quê?! Não pode me impedir de vê-lo.

– Eu não criei você pra isso, Ciel. Estou decepcionado com você.

Ciel se silenciou naquele momento, aquelas palavras pareceram rasgar seu coração.

“Estou decepcionado com você.”

Ciel queria dizer que não se importava, não ligava, que não dava a mínima para o que o pai pensava, mas aquelas palavras quebram alguma coisa dentro dele. Aquele homem que dizia aquelas coisas sem nem mesmo olhar em seus olhos não podia ser o mesmo homem que ele respeitava e admirava.

Aquilo era injusto, aquilo era muito injusto. Aquelas palavras magoaram Ciel de um jeito que Roger nem poderia imaginar.

Ciel olhou para fora da janela do carro, e tratou de enxugar disfarçadamente uma lágrima, antes mesmo que ela pudesse cair.

Quando o carro estacionou em frente a sua casa, Ciel saiu depressa, ignorando o pai que pedia para ele esperar. Entrou na casa sem fechar a porta e se deparou com a mãe e Angélica mimando a pequena Evangeline na sala. As duas mulheres estranharam a expressão de Ciel e perguntaram se estava tudo bem. Não foi preciso responder, Roger entrou fechando a porta com um enorme baque.

– Eu quero que me entregue o celular, Ciel.

– Vai me tratar como criança agora? – Ciel indagou incrédulo.

– Suas atitudes não têm sido as de um adulto inteligente, Ciel. Agora me entregue o celular. Você não vai ver, nem falar com aquele homem novamente. Nunca mais.

– Faça o que quiser – Ciel largou o celular sobre a mesinha da sala. – Não pode me impedir.

– Sim, eu posso. Sou o seu pai.

– O que houve? – Hortense estava apreensiva, mas Angie, parecia já ter noção do que estava acontecendo ali.

– O que houve? O que houve? Sabia que seu filho estava se encontrando com um homem? Um homem mais velho, um suposto amigo. Mas eu descobri que não eram apenas isso. Agora vá para o seu quarto, Ciel, está de castigo até segunda ordem.

– Por que está me pondo de castigo? O que eu fiz de errado? Por que o senhor não me deixa...

– Você sabe muito bem o que fez. Eu não quero falar sobre isso agora, não quero nem pensar nisso agora. Eu tenho até vergonha de... Vá para o seu quarto antes que eu diga alguma besteira.

– O senhor está sendo injusto. Não importa o que diga, não importa o que faça. Pode me trancar aqui se quiser, isso não vai mudar o que eu sinto por ele. Não vai mudar o que eu sou.

– VÁ PARA O SEU QUARTO! – Roger estava vermelho de raiva.

– EU VOU! Eu vou. Mas saiba que eu é que estou decepcionado, nunca pensei que o senhor fosse apenas mais um homofóbico estúpido.

– VOCÊ NÃO PODE FALAR ASSIM COMIGO RAPAZ! – Roger avançou sobre o filho, apontando o dedo, mas Hortense o segurou pelo braço. – Eu não sei mais quem é você. Meu filho não mataria aulas, meu filho não brigaria na escola, meu filho não seria suspenso, não mentiria pra mim, meu filho não era gay, nem dizia palavras grosseiras, nem... Você não tem se comportado como uma pessoa decente.

– PAI! – Angélica o repreendeu.

Todos ficaram em silêncio. Assustada pela gritaria, Evangeline começou a chorar.

Ciel abriu a boca indignado, mas a única coisa que disse foi: – Sinto que pense assim, pai.

Ciel subiu para o quarto com a garganta em chamas, mas estava decidido a não chorar por causa disso. Seus pais e Angie continuaram discutindo pelo que pareceram horas. Ciel podia distinguir as vozes, às vezes alteradas, e os choros, da mãe e da Evangeline perdida no meio da confusão. Ciel pensou em descer e buscar o bebê, mas desistiu. Não suportaria entrar naquela discussão novamente, ou ele acabaria chorando ou mandaria o pai para o inferno, nenhum dos resultados o agradava muito. Ciel ficou no quarto até que todos se silenciassem.

Algum tempo depois, Angie bateu na porta do Ciel, e disse que precisava perguntar algo muito importante a ele. Mas Ciel não estava pronto para conversar ainda, com ninguém. E Angie se foi.

Quando todos pareciam ter dormido, Sebastian apareceu no quarto do Ciel.

– O que está fazendo aqui, Sebastian? Eu disse para você não vir.

Ciel falou com voz baixa, temendo ser ouvido. Deu as costas para o akuma e tratou de fechar a porta do quarto à chave, para que não fossem pegos de surpresa.

– Você disse que ligaria. Você não ligou.

– Eu estou bem. Você já pode ir.

Ciel parou no meio do quarto, de braços cruzados e semblante fechado. Sebastian se aproximou dele, desprendendo-lhe os braços e conferindo se o jovem estava ileso.

– Ele machucou você?

– Não fisicamente – Ciel respondeu olhando para o bolso da jaqueta que Sebastian usava.

– Deixa eu te levar pra casa.

– Não, Sebastian. Eu estou bem. Você pode ir.

– Não, você não está. Por que não me deixa te tirar daqui?

– Ele me mandou ficar aqui. Se eu quisesse, acha que eu mesmo já não teria ido embora?

– Mas você não quer.

– Ele está errado, Sebastian. Eu sei que eu errei por mentir, por matar aula, por me meter em confusão, mas apenas por isso. Pelo resto não. Não há nada de errado além disso. Ele está errado sobre mim, sobre nós. Ele nem me deixou explicar, nem quis me ouvir. A atitude dele está errada. Não vou dar a ele razão para me repreender. Talvez não faça muito sentindo pra você, mas não se preocupe, não importa as proibições que ele possa me impor, nada vai mudar entre nós. Eu estou bem – sua voz saiu sem vida e sem forças. – Eu estou com sono. Pode me deixar sozinho, por favor?

Sebastian suspirou.

– Não é porque eu sou um demônio que eu não entenda o que você sente. Entristece-me saber que você ainda acha que precisa esconder suas fragilidades de mim. Acha que eu vou te repreender, respeitá-lo menos, ou admirá-lo menos, se você chorar na minha frente?

– Por favor, não briga comigo agora – Ciel pediu com olhos marejados. – Agora não.

– Não estou brigando. Eu sei que você acha que eu não entendo, mas os anos me ajudaram a aprender muito sobre os humanos, e sobre você. Por mais que eu queira ser a única pessoa na sua vida, por mais que eu queira que apenas eu bastasse, não é assim que as coisas são. Eu não basto, e está tudo bem. Você precisa de irmãos, filhos e primos, precisa de pais que te amem e te respeitem pelo que você é. É o que a maioria dos humanos deseja, é natural. Talvez isso não importasse tanto para Ciel Phantomhive, mas certamente importa para Ciel Valentine. Você está passando por um momento difícil e está machucado, eu vejo isso. Não quer falar sobre isso comigo, não fale. Mas, por favor, não me peça para deixá-lo sozinho agora.

Ciel sentou-se na cama e começou a chorar. Sebastian sentou-se ao lado dele e esperou. Ciel virou-se para Sebastian e o abraçou.

Ciel perdeu a noção de quanto tempo eles ficaram ali abraçados, mas a carícia de Sebastian em seus cabelos o acalmou. A sensação de ser querido, de ser compreendido, de ter alguém ao seu lado, o consolou. Eles se deitaram juntos e ficaram um bom tempo em silêncio no escuro, apenas ouvindo a respiração um do outro. Depois de um tempo, Ciel falou, sua voz era apenas um sussurro.

– Eu tinha esperança de que ele reagisse mais como minha mãe. Mas acho que eu devo ficar grato, ele poderia ter me agredido, ou me expulsado de casa. Eu li sobre essas coisas. Bom... ele ainda pode fazer isso.

– Não diga uma coisa dessas. Ele não pode te agredir por você ser homossexual, isso é crime hoje em dia, não é? Além disso, se ele tocar em você, bem... Eu não o mataria porque sei que você ficaria zangado, mas eu o levo embora daqui você concordando ou não.

Ciel deu apenas um riso sem ânimo e aconchegou-se mais em Sebastian.

– Como isso aconteceu? – Sebastian perguntou, ele gostava de sentir a respiração de Ciel no seu pescoço.

– Parece que chamaram ele na escola, contaram sobre as aulas que eu faltei, os atrasos e a briga com o Ivan Mason. Parece que disseram a ele que eu estava namorando você, ele nos viu e deu no que deu. Acho que ele concluiu que você é culpado por isso.

– De certa forma...

– Não começa. Ele não me contou direito o que disseram a ele. Ele nem quis conversar ou me explicar nada, só ficou repetindo que estava envergonhado. Eu sei que parece tolice, mas a opinião dele é importante pra mim, e eu nunca fiz nada que justificasse ele dizer que está decepcionado comigo.

– Eu não acho que seja tolice. Tenho certeza de que ele não quis dizer isso.

– Você só está dizendo isso pra me fazer sentir melhor.

– Funcionou?

– Humm... Não.

– Durma. Descansar vai te fazer bem.

Ciel fechou os olhos e tentou não pensar em nada além dos braços que o envolviam tão carinhosamente. Sebastian fitava o rosto de Ciel com carinho.

– Ciel... ainda está acordado?

Não houve resposta, apenas um pequeno e quase inaudível gemido.

– Você sabe, não é? – Sebastian sussurrou. – Mesmo que eu jamais tenha lhe dito, mas você sabe, não sabe? Que eu amo você?

A respiração de Ciel parou, ele abriu seus intensos olhos azuis e fitou o akuma por alguns segundos. Sebastian se perguntava se o jovem realmente o tinha ouvido.

– Eu sei – o jovem respondeu. Fechou os olhos e pousou a cabeça sobre o peito de Sebastian, abraçando-se a ele. – Eu também te amo.

Conseguiu dormir, enfim. Não fora de todo um sono tranquilo, acordou umas duas vezes, mas Sebastian ainda estava lá. Sebastian não dizia nada, apenas beijava-lhe a cabeça e acariciava-lhe os cabelos até ele pegar no sono outra vez.

Notas finais
Então, o que acharam? Esse capítulo, apesar de simples, me deu muito trabalho. Eu não conseguia gostar de como as cenas ficavam, perdi a conta de quantas vezes refiz, mudei e troquei, enfim...cheguei a isso aí em cima, espero que tenham gostado. Sim, depois vem a tempestade, mas não se preocupem com nosso amado Bocchan. Aviso: Para quem não viu, ou para quem acompanha apenas PHANTOMHIVE, eu postei as resposta as perguntas que vocês me enviaram, sobre a fic e os personagens. Segue o link abaixo: https://fanfiction.com.br/historia/582054/Hora_do_Cha/capitulo/18/ Quero pedir desculpa pela minha demora. Sim, eu sempre demoro, e sempre tenho que me desculpar. Eu tinha planejado a postagem para semana passada, mas tive alguns imprevistos. Quero agradecer a todos que leram, comentaram, os que me mandaram Mensagem e os que vieram conversar comigo no Facebook, não sei se vocês tem noção do quanto me animaram e me motivaram, principalmente depois de acontecer uma coisa chata, pra não dizer outra coisa. Obrigada pela paciência. Nos vemos nos comentários, se desejarem fazê-los. Beijos ^3^ Tai