Phaeleh I

6 Capítulo 6 - Conflagração


Notas iniciais
Ilustreeu: Olá, povinhos e povinhas que leem Phaeleh! Obrigada por acompanharem nossa história linda! Estamos muito felizes pelo retorno de vocês! Agora estou com uns probleminhas familiares, mas prometo que os reviews serão respondidos! Muito obrigada! Boa leitura!

Capítulo 6 — Conflagração

O único som presente era o dos passos de Darius no longo corredor, suas botas sobre as pedras brancas e lisas do palácio. Seus conterrâneos ali presentes abriam caminho para sua passagem e logo um burburinho aborrecedor se iniciou – todos possuíam ciência da previsão do Oráculo.

Ele também sabia que a guerra já fora longe demais, mas nada poderia fazer para impedir o rumo bélico que sua história tomava. Ele, que desde pequeno sonhou em ser reconhecido como aquele que reinou durante os tempos de paz, agora seria lembrado como o incapaz de parar uma guerra contra seus mais antigos inimigos.

Darius seguiu para a antecâmera ligada ao seu quarto, no andar mais alto do palácio, onde poderia ver cada extensão do seu reino – cada casa de pedra divina branca, cada árvore de folhas vítreas e cristalinas, até a fronteira que se chocava com as terras sem luz. Enquanto seu reino era banhado por uma eterna e inapagável luz do sol, pois Frey, o deus do astro-rei, abençoava-os, o de seu inimigo era um manto de profunda escuridão, onde feixe de luz algum tocava a terra e as noites eram infindáveis.

Darius não acreditava que o Phaeleh estivesse com Yusuf, ou toda aquela balbúrdia não estaria acontecendo.

Então, quem detinha a posse do Escolhido?

– Darius.

A voz que lhe era extremamente familiar o fez parar diante da porta da antecâmera. Voltou-se devagar em direção ao som, deparando-se com Hayliel, o mestre dos ferreiros. Hayliel era um elfo de cabelos longos e brancos como a neve, que emolduravam o rosto oval de traços delicados e pálidos. Os olhos ametistas que o fitavam de volta demonstravam uma enorme preocupação.

Assim como todos os elfos, vestia-se com um diáfano tecido transparente e branco, que compunha uma túnica de mangas boca de sino e calças justas. Um cinturão de cobre adornava seu quadril, onde havia uma adaga forjada por ele mesmo com metal celestial. Calçava botas brancas com detalhes prateados.

Hayliel era seu confidente desde o nascimento, quando fora previsto que Darius seria um rei de grandes feitos e que o amor lhe traria tanto muita sorte quanto muitas calamidades, dependendo de suas escolhas. Agora, acreditava que escolhera o caminho errado, pois apenas encontrava calamidades.

– Entre – Darius disse, empurrando a porta e entrando no espaçoso cômodo.

Havia uma mesa de cristais no centro, grande e redonda, cravada no piso liso. Adiante, havia apenas uma ampla varanda circular, de onde se podia ver todo o reino. As cortinas peroladas esvoaçavam pelo agradável vento que entrava no recinto.

Darius viu as terras de Skoll, assim como as de Yusuf e, por fim, pousou os olhos nas de Svan. Não queria acreditar que o jovem chefe tribal estivesse escondendo o Phaeleh e mentindo para eles. Estava confiando em sua palavra, mesmo que as informações que tivesse lhe indicassem que o jovem berserker lhe mentia.

Que providência tomar?

Pegou um cálice sobre a mesa e, com apenas um pensamento, o recipiente foi preenchido magicamente por ambrosia, o néctar dos deuses. Sorveu um gole do líquido púrpura, sentindo-o deslizar como uma pluma por sua garganta, deixando para trás uma leve ardência.

– Como foi a reunião? – indagou Hayliel, olhando-o nos olhos. Darius lhe ofereceu a taça, mas Hayliel declinou com um aceno de cabeça.

– Foi bastante tensa – admitiu, relembrando-se dos fatos ocorridos – Yusuf não está inclinado a uma oferta de paz, isto deixou bem claro.

– Então, a guerra perdurará?

Darius assentiu.

– Preciso que os artesãos façam mais armas e armaduras. Todos os guerreiros devem estar munidos – franziu o cenho, pensando a respeito – E para mim... Faça a maior e mais forte das espadas. Quero que use as cinzas da mais bestial das criaturas para fortalecer o aço divino.

A expressão de Hayliel foi tomada pelo choque.

– Eu não faço mais esse tipo de coisa, meu senhor...

Darius o olhou pelo canto do olho enquanto bebia mais da ambrosia.

– Você fez o martelo de Thor. Confio em suas habilidades.

Hayliel curvou a cabeça, subserviente, mas Darius viu em seus olhos que não lhe agradou a ordem.

– Como desejar.

– As barreiras mágicas devem ser fortalecidas e quero que os incapacitados de lutar sejam evacuados para as ruínas do nosso povo, junto com os animais que estão sob minha proteção. Nossos ancestrais os protegerão.

Hayliel assentia com a cabeça, lívido de terror e tensão pelo acirramento da guerra que durava há milênios.

– Sim, meu senhor.

– Alguém está com o Phaeleh – ouviu o ofego ultrajado do ferreiro – E eu vou descobrir quem é.

– Acha que o rei dos elfos da noite...?

Darius negou com a cabeça.

– Ele parecia muito preocupado para alguém que tem tanto poder em mãos.

– Então, o que será feito?

Darius ponderou por um longo momento de silêncio.

– Fale com seus irmãos. Quero-os aqui.

Aske, Thrym e Oleg. Mandaria os três para investigar seus inimigos e confirmar com qual deles o Phaeleh estava. Darius não perderia a guerra, não permitiria que Yusuf saísse vitorioso jamais.

– Como desejar, meu senhor.

–*-*-

Meine tentava acompanhar os passos rápidos de Wray. Seu amigo, apesar de bastante gentil, estava tão nervoso que a emoção era palpável no ar. Em momento algum Wray explodiu nele seu descontentamento com a discussão que tivera momentos atrás, entretanto, conter seus sentimentos parecia deixá-lo dolorosamente retraído em si mesmo, soterrado em uma casca de autopreservação.

Meine desejava fazê-lo se sentir melhor, mas não sabia o que dizer. As palavras lhe fugiram do vocabulário e agora, apenas era capaz de fitar as costas do arqueiro.

Wray o levou por um caminho entre as árvores de densa folhagem, que se fechavam em torno deles com gigantes. As folhas farfalhavam, o vento ululando, passarinhos chilreando ao longe... A natureza compunha uma adorável melodia. Os pés descalços de Meine pareciam uma ligação entre ele e as boas energias da terra, que fluíam diretamente para o seu coração, embalsamando-o em uma deliciosa sensação de paz e liberdade.

Sempre se sentiu bastante conectado às propriedades curativas da terra, mas, ultimamente, estava mais sensível a elas. Sentia a suave vibração no chão, indicando o fluxo de movimentos sobre o piso. O vento suave que os acariciava. Os aromas frescos. Tudo era prazeroso para ele.

Menos o estado de espírito de Wray. Ah, não, Wray estava péssimo. Meine, mesmo que não o conhecesse há muito tempo, jamais o tinha visto em tão terrível estado, em uma mescla de raiva e mágoa. Sem saber o que dizer, Meine correu, tomando cuidado para não tropeçar, e abraçou Wray pelas costas, enlaçando sua cintura com os braços e enterrando o rosto em sua camisa. Wray tinha um cheiro bom, amadeirado. Era bastante reconfortante respirá-lo.

– Sinto muito, Wray – disse baixinho. Sabia que parte da discussão fora por sua proximidade com o outro, mas não podia evitar: Wray era seu melhor amigo. Doía-lhe lhe causar dor – Me desculpe mesmo.

E não desejava vê-lo tão triste.

Pela primeira vez, deu-se conta de que Wray, apesar de musculoso, era verdadeiramente magro. Os exercícios lhe deram força e possuía músculos e uma compleição alta, todavia, não era tão encorpado como os outros que Meine já vira.

Sentiu as mãos de Wray cobrindo as suas e acariciando distraidamente os nódulos dos dedos.

– Não se desculpe pela estupidez de outros – disse Wray baixinho, sempre no tom calmo e controlado que Meine estava acostumado a ouvir. Mesmo tenso como estava, Wray era carinhoso e gentil – Não estou chateado com você.

– Eu sei – Meine murmurou, notando que os dedos de Wray tremiam suavemente, como se até mesmo isso ele tentasse esconder.

– Você é um bom menino – murmurou – Logo todos notarão o presente que você é.

Meine não entendeu por que aquelas palavras, ao invés de deixá-lo feliz, trouxeram-lhe uma sensação de tristeza ao coração. Estava abrindo a boca para dizer o quanto admirava Wray por seu coração forte e bondoso, quando foi interrompido:

– Vamos ao riacho. Você vai adorar.

Wray se desvencilhou de seus braços e eles se separam, retornando a caminhada calma. Meine observou a floresta densa se abrir em uma relva verdejante coberta por orvalho, cercando a periferia de uma piscina de águas cristalinas. O riacho cascateava por sobre um paredão de pedras cinzentas, caindo pesadamente e respingando gotículas para todos os lados. As árvores formavam uma proteção natural ao ambiente e uma rocha alta e cinza desfrutava da sombra de um olmeiro. Algumas pedras circundavam a piscina natural.

Meine sentiu a maciez da relva sob seus pés e a escavou com os dedos, sorrindo pelo prazer do ato.

Uma névoa suave cobria o lugar, conferindo-lhe uma aparência mítica, como uma dimensão à parte.

– Wray...

Wray estava tirando a camisa quando o olhou.

– Lindo, não é? – Wray sorriu, dobrando meticulosamente a peça e a colocando sobre a rocha. – Mesmo que fique atrás da minha casa, só descobri tudo isso quando estava brincando com Sky há muitos anos.

Meine olhou ao redor, hipnotizado pela beleza surreal da paisagem. Estava tão imerso em sua inspeção, que mal se ateve às palavras de Wray.

– Vocês são muito próximos, não é?

Voltou-se para ver Wray dobrando as próprias calças. Ele era extremamente zeloso com tudo. Meine decidiu que não era um problema se banhar ao ar livre, uma vez que não o constrangia ficar despido perto de Wray – não como quando ficava perto de Svan.

Começou a se desfazer de sua já suja calça, que antes era branca, e agora era quase marrom. Talvez devesse aproveitar a água para lavá-la e deixá-la secar enquanto se divertiam.

– Nós somos um grupo desde que posso me lembrar – Wray murmurou – Eu, Svan, Niels e Sky. A criação de Svan e de Niels foi bastante rígida, por suas posições. Svan deveria ser direcionado para a liderança, enquanto Niels foi treinado para ser, hmm... – ele parecia buscar mentalmente uma palavra – Algo como um mestre de armas. Svan cuida do clã e nos lidera nas batalhas. Niels nos torna guerreiros hábeis e sagazes. Entendeu?

Meine assentiu com a cabeça e se aproximou da água, ajoelhando-se na relva úmida e tocando com as pontas dos dedos a superfície fria.

– Sim – disse, saboreando a sensação de calmaria que se instalou em seu peito. Fazia algum tempo que não se sentia tão relaxado. Suspirando prazenteiramente, mergulhou a calça suja na água.

– Então, eles não tinham o mesmo tempo disponível que eu e Sky tínhamos. Aos sete anos fomos para o acampamento de guerra para sermos iniciados como soldados. Eu... Sempre fui muito protegido por não ser... – as bochechas de Wray coraram e havia um misto de tristeza e frustração em seu olhar que não se refletia em sua expressão suave. Ele andou para dentro da água como se a baixa temperatura não o incomodasse. Cobriu-se até a metade do peito e mostrou um braço como se exibisse os bíceps bem trabalhados – Bom, como pode ver, eu não consegui desenvolver um físico aterrorizante – e sorriu, o que fez Meine rir.

– Seu rosto não combina com um corpo como o de Svan – riu.

– Provavelmente – Wray submergiu por um momento, desaparecendo sob o espelho d’água antes de ressurgir momentos depois mais distante de Meine, que terminava de lavar a calça. – Sky foi meu melhor amigo por muitos anos.

– Você gosta muito dele, verdade?

O rosto, costumeiramente pálido de Wray, adquiriu uma adorável tonalidade enrubescida. Seus olhos cresceram de tamanho, as sobrancelhas se arqueando... Então, toda a sua surpresa se esvaiu para uma palidez ainda mais acentuada que a habitual e ele negou fervorosamente com a cabeça.

– Somos bons amigos. Ou éramos. Não sei – e deu de ombros com forçada indiferença – Não vamos falar disso. Conte-me – ele abriu um sorriso que não lhe chegou aos olhos. Meine se levantou, triste pela barricada de gelo que se interpôs entre ele e seu amigo. Estava estendendo a calça em um galho para secar quando um estranho calafrio o fez estremecer – Você e Svan...?

Agora foi Meine quem corou.

Imagens da noite com Svan encheram sua mente – os gemidos, os grunhidos, as alterações nas respirações, a aceleração dos batimentos cardíacos, o prazer irrefreável que o acometeu quando a mão de Svan cobriu seu membro, acariciando-o...

Sentiu uma estranha, porém familiar, pressão no ventre. Respirou fundo pelo nariz antes de expirar muito devagar. Quando sentira aquela inquietação, pouco depois estava ficando ereto aos olhos de seu dono. Se pensasse mais sobre o que houve entre ele e Svan, temia ficar excitado diante de Wray e a vergonha aterradora o faria desejar se enterrar e desaparecer.

Tratando de não pensar sobre o assunto, dirigiu-se para a água, correndo e se lançando ao ar. Em uma fração de segundo viu Wray erguer os braços para se proteger e logo em seguida foi tragado para o interior da piscina, afundando com as bolhas formigando por sobre sua pele em um caminho ascendente. Seus pés tocaram as pedras no fundo e ele se impulsionou para cima, emergindo abruptamente. Ele e Wray riram, divertidos, enquanto tentava tirar as gotas dos olhos.

– Meine! – Wray ria – Vou matar você!

Meine acreditava que jamais seria capaz de imaginar Wray tomando uma atitude violenta, com a exceção da discussão daquela manhã.

– Não! – Meine gritou, empurrando o corpo para trás e batendo as pernas e os braços para se esquivar da mão de Wray, que quase o capturara – Não vai me dar uma sova!

Wray, entretanto, agarrou seu pé esquerdo e o puxou, trazendo-o para perto de si. Os dois riam alto, mesmo quando Wray o forçou a afundar como castigo por sua travessura. Quando nadou para cima, porém, toda a diversão se esvaiu de seu semblante ao ver Wray de costas para si, estremecendo por uma onda convulsiva de tosse.

O coração de Meine se apertou dolorosamente em preocupação. Wray tremia intensamente, acometido por uma tosse estalada e molhada que parecia capaz de expelir seus pulmões pela intensidade. Ele tentava tossir e respirar ao mesmo tempo, o que fazia sua inalação soar como um assobio fraco e entrecortado.

– Wray?

Fez menção de se aproximar, mas, sem se voltar para vê-lo, Wray ergueu uma mão em um gesto para que esperasse e não se movesse. Meine sentiu seu mundo ruir e um pavor terrível lhe gelou o sangue. Quanto mais Wray tossia, mais impotente se sentia e engoliu as lágrimas que ameaçavam se derramar.

O que havia com Wray?

Estava doente?

Wray arquejava nos intervalos entre uma tosse outra. Respirar parecia lhe exigir muito esforço.

Meine nunca viu seu amigo tão frágil, tão vulnerável. Pela primeira vez, ele lhe pareceu quebradiço. A palidez de sua pele não era mais tão bonita, assim como o corpo magro já não era mais admirável. Meine viu aquilo tudo como uma doença e a beleza que fazia Wray se destacar entre os seus, de repente, mostrou-se algo similar a um atestado de sua condição.

Meine, por um momento, não conseguiu se mover. Wray não queria que fizesse nada, mas ficar quieto observando-o convulsionar e se quebrar em tosse...

Em um rompante, Meine nadou para mais perto de Wray, contornando-o até se colocar diante dele. Seus olhos se arregalaram e o ar lhe faltou quando viu sangue escorrendo por entre os dedos magros e elegantes da mão que cobria a própria boca em uma vã tentativa de deter a crise. Ele estava com os olhos tão fortemente fechados que as pálpebras estavam quase translúcidas.

– Wray...

– Vai passar – gemeu em um fio de voz. Ele se convulsionou outra vez e uma única lágrima escorreu por sua bochecha.

Meine, sem saber o que fazer, agarrou delicadamente o braço de Wray e o puxou na direção das pedras. Ele não ofereceu resistência e se permitiu ser guiado pelo menor, até que saíram da água. Wray caiu sentado na relva, fraco e trêmulo. O vento que acariciou seu corpo o fez gemer.

– Há algo que eu possa fazer? – perguntou, desesperado, oscilando o olhar entre o amigo e os arredores, buscando algo, qualquer coisa... Alguma solução. – Wray, há alguém que eu possa chamar? Algo que precise?

Ele apenas negou com a cabeça, ofegando como se tivesse corrido quilômetros, gemendo quase inaudível.

– Vai passar – repetiu em um silvo.

Meine se ajoelhou ao seu lado, esfregando suas costas e avaliando suas reações. Por um momento, a tensão nos ombros de Wray diminuiu e ele respirou com mais tranquilidade, muito embora não se parecesse nem de longe bem. Meine o abraçou de lado, sem parar de lhe esfregar as costas, buscando lhe oferecer calor e paz. Wray tossiu mais uma vez, mas já não estava convulsionando incontrolavelmente.

– Você é muito forte – Meine sussurrava, deitando a cabeça no ombro de Wray. Os cabelos longos estavam encharcados, grudando nas costas e molhando ainda mais seu corpo, que possuía uma frieza cadavérica. – Estou com você, Wray, não tenha medo. Vai ficar tudo bem.

Meine beijou o alto da cabeça de Wray e correu para a rocha onde deixou suas vestes. Pegou a camisa e a calça e correu de volta para onde estava seu amigo. Wray estava tão lânguido que Meine o vestiu como se fosse um dos bonecos de retalhos de tecido de sua avó. Primeiro colocou sua camisa para esquenta-lo e lhe torceu os cabelos para tirar um pouco da água. Então, deitou suavemente Wray na relva e iniciou o processo de lhe colocar a calça, até que o teve totalmente vestido. Meine via o tecido se molhando e colando ao corpo de Wray, tornando-se transparente como se estivesse novamente nu. O peito subia e descia rapidamente e ele inspirava desesperadamente pela boca.

O que podia fazer por seu amigo?

Não importava o que se passava, em sua mente e em seu coração, só lhe importava ver Wray bem outra vez.

Uma mão tocou sua bochecha. Ele ergueu os olhos do peito pálido e se deparou com olhos que o fitavam com carinho e dor.

– Está tudo bem – a voz dele soava fatigada, rouca, sem forças – Vai passar.

Meine se recusou a chorar, pois não queria preocupa-lo ainda mais. Aprumou os ombros, a expressão determinada.

– Vou buscar um cobertor para você – disse com firmeza – Quando melhorar, irei levá-lo para casa.

Wray sorriu.

– Eu disse que você era um presente, Meine.

Meine se levantou antes que pudesse se desfazer em lágrimas. Ele era um rapaz, não uma menina! Wray precisava dele, não podia ser fraco e sensível agora.

– Eu já volto, Wray.

Meine disparou a correr na direção da qual se lembrava de ser a casa do amigo. Por todo o panteão divino, eles não percorreram aquele trajeto não fazia nem três horas!

Correu por entre as árvores, ignorando os galhos que arranhavam a pele nua de suas pernas, de seus braços, do rosto. Seus pés estavam sendo cortados por pequenas pedras e o que mais houvesse no chão que ele ignorou. Não lhe importava aquela pequena quantidade de dor, não quando a pessoa mais importante para ele no momento estava tão terrivelmente mal. Odin poderia aparecer diante dele e Meine o faria de inexistente.

Deuses, por favor, cuidem de Wray. Por favor, por favor, por favor. Não o levem, não o façam sofrer mais.

Por que o caminho parecia tão longo? Por que a casa não aparecia?

Agora não era hora para se perder! Agora não era hora para ser lento!

Meine se amaldiçoou por não poder voar. Não importava o quanto corresse, a casa não aparecia no limite de sua visão e se sentiu ainda mais desesperado que antes. Pensou que o maior medo de sua vida foi quando fora separado de sua avó e feito de escravo.

Agora? Tinha certeza de que era o medo de Wray piorar.

Então, como se os deuses escutassem suas preces, viu a casa muito além do limiar das árvores. Desesperado, lançou-se não mais descontrolada corrida de sua vida. Os músculos das coxas queimavam e as pernas pesavam, seus infindáveis arranhões queimavam e sangravam, mas ele mal os sentia. Saiu como um raio para o jardim de Wray e se lançou para o interior da casa, não se importando pelo barulho que fazia. Seus pés pareciam agredir o piso. Ele rumou apressadamente para o quarto de Wray, ofegante, exaurido. Abriu a arca aos pés da cama, revirando todo o seu conteúdo, jogando tudo que não era um grosso cobertor no chão. Por fim, seus dedos encontraram uma manta de pele de urso que, a seu ver, mostrava-se capaz de esquentar até os Gigantes de Gelo das lendas.

Meine enrolou o pesado cobertor, abraçando-o contra o peito. Mesmo cansado, arrastou-se para fora do quarto.

Wray precisaria de mais alguma coisa? Comida, água?

Meine não sabia o que mais fazer. Pegou roupas secas, enfiando-as no novelo que fizera da manta. Satisfeito com o que pegara, correu para fora da casa. Seu corpo exigia que descansasse, mas ele se recusava a atender a qualquer necessidade pessoal antes de se certificar de que Wray estava bem.

A volta foi ainda mais longa, pois estava sem energias. Seus músculos travavam, retesados, como se se recusassem a qualquer atividade que não fosse relaxar. Bom, ele não relaxaria. Tropeçando em tudo que havia em seu caminho, caiu inúmeras vezes, rasgando os cotovelos e joelhos nus. Seu cabelo estava emaranhado, cheio de gravetos e folhas. Meine arfava, esforçando-se, rogando aos deuses para ver o quanto antes o riacho.

Quando ouviu o barulho da água, redobrou seus esforços, arrastando as pernas para frente. Por fim, irrompeu por entre as árvores, caindo de joelhos ao lado de um berserker de olhos fechados. Estava tão sereno que Meine quase gritou pelo medo de que estivesse morto. Deitou a cabeça sobre o peito de Wray, suspirando ao ouvir os batimentos cardíacos ainda ativos.

– Graças a Frey – retrucou, deixando cair os ombros. O peito tremeu com uma risada suave e baixa. Meine ergueu a cabeça para ver um sorriso estampado tanto nos lábios quanto no olhar de Wray.

– Ainda estou vivo, se é o que quer saber.

Meine rapidamente jogou a manta por sobre o corpo deitado na relva. Ajudou Wray a se sentar para passar a pele por debaixo de suas costas, enrolando-o e isolando-o do frio terrível. Quando voltou a deitá-lo, repousou a cabeça molhada em suas coxas nuas e feridas. Wray, então, soltou o ar por entre os lábios sem cor e fechou os olhos.

– Como se sente?

Inconscientemente, passou os dedos pelo cabelo macio e muito claro do Berserker, tirando umas mechas de seu rosto bonito.

– Sinceramente?

– Sim.

A voz de Wray ainda estava muito fraca. Muito, muito fraca.

– Tudo dói, Meine. Respirar queima, falar queima, e por dentro... Estou destruído. O mínimo movimento dói.

– Há quanto tempo isso acontece?

Doía-lhe saber que seu amigo passava por aquilo milhares de vezes por muito tempo.

– Muitos anos. Desde que eu era criança – sussurrou a um fio de voz. Meine lhe acariciava os cabelos e o ato parecia deixar Wray em paz – Não conte a ninguém, por favor. Sei como as pessoas reagem a isso, e realmente não quero me expor dessa forma.

Meine assentiu com a cabeça, mais por hábito, uma vez que Wray tinha os olhos fechados.

– Não direi. Mas...

– Por favor.

– Wray, não há nada que eu possa fazer?

– Não, Meine. É algo que está comigo há muito tempo e...

– Você vai morrer?

Os olhos de Wray se abriram e, ao invés de medo da morte, havia conformidade e ternura.

– Um dia, com certeza. Antes de vocês, provavelmente. Mas – ele sorriu – Ainda vou ver você e Svan felizes.

– Você não vai morrer.

Pelos deuses, como queria chorar!

– Ei – Wray estendeu uma mão, tirando-a de debaixo da pele, para tocar a bochecha de Meine, que se esforçava por não chorar – Veja só, estou bem, já passou. E, mesmo assim, minha alegria é saber que estou vivendo por muito mais tempo do que o que os meus pais esperavam que eu vivesse. – apertou a bochecha de Meine – Sorria, garoto. Esse seu rosto não foi feito para mostrar tristeza.

Continua...

Notas finais
Miky-san: Olá queridos *-* Espero que tenham gostado do capítulo (euchoreicomele)! Obrigada por ler e acompanhar essa história! Até o próximo domingo ♥ Beijinhos