Phaeleh I

7 Capítulo 7 – Dúvida


Capítulo 7 – Dúvida

Quando Meine voltou para casa, ele já não se sentia o mesmo.

Svan não estava à vista, ou qualquer dos que ele conhecia, por isso resolveu que somente se trancaria no quarto e ficaria quieto até que seu peito aliviasse a dor do conhecimento de que Wray era doente.

Ele sentiu o olhar quente das empregadas, todas que eram escravas, caindo sobre ele. Elas pareciam invejá-lo, como se quisessem estar em sua pele, e a sensação que lhe dava, era por demais ameaçadora. Queria que todos gostassem dele, que todos fossem seus amigos, até mesmo essas mulheres.

Quando Meine entrou no quarto, ele se recostou contra a porta e escorregou para o chão, abraçando seus joelhos. Talvez agora… Ele pudesse chorar um pouquinho, porque as lágrimas lavam a alma. Era isso o que sua avó Mona costumava dizer quando ele se sentia deprimido.

Meine não tinha exatamente sido parte daquele vilarejo à beira mar como pensou que fosse. Ele não pode participar do ritual de iniciação para jovens como os de sua idade haviam feito, porque ele era diferente. Isso lhe poupou um monte de informações que ele estava de fora. Ele não sabia nem como dois homens poderiam funcionar juntos, embora o momento íntimo que tivera ontem tinha sido muito gratificante.

Porém ainda se encontrava amedrontado com os novos sentimentos que lhe afloravam em questão disso. Ele tinha sentido coisas que nunca antes havia descoberto sozinho. Com alguém… Seria possível fazer consigo só? Não sabia… Mas não lhe custava tentar se estava sozinho.

Meine decidiu que iria tentar mais tarde, porque não tinha sequer qualquer animo para essas coisas agora.

Wray…

Seu melhor amigo agora era o único que dentro de muitas pessoas, havia lhe tratado com dignidade. Tinha lhe sido fiel e cuidado dele nos momentos em que se encontrava mais fraco e oprimido pelos novos acontecimentos em sua vida.

Ser um escravo não era boa coisa, sua avó dizia que ser um escravo significa não ter liberdade para si, não ser dono de sua própria vida ou espírito. Era ser controlado por seu amo e ter qualquer direito seu confiscado.

Imaginava como viviam as pessoas que trabalhavam na aldeia. Wray não parecia muito a favor de vê-los como animais, assim como Niels fazia.

Meine pulou quando ouviu a porta se abrir. Ele tinha certeza que a havia trancado, mas eram duas das empregas. Hilda e uma outra que ele não conhecia. Sentou-se na cama, olhando cuidadosamente pelas mulheres de nariz empinado que entraram com espanadores e flanelas para livrar os móveis de poeira.

– Onde está o líder? — Perguntou Hilda em um olhar fulminante para Meine.

– Eu não sei… — Admitiu confuso. — Trabalhando?

– É claro, pequeno escravo inútil. — Disse ela com desdém. A outra moça permaneceu quieta, mas seu olhar não desmentia o ódio por Meine. — Você é um escravo, mas que acaba por ser o privilegiado. Vá saber qual hierarquia pode haver entre nós?

Meine franziu as sobrancelhas. Ele não estava entendendo o que ela dizia, mas não gostou de ser chamado de inútil.

– Você não vai durar muito… Ninguém dura muito tempo em sua posição. Nosso líder enjoa muito fácil das pessoas, ainda mais aqueles que são inúteis. — Hilda derramou seu veneno. Meine apertou seus lábios a fim de não respondê-la. Ele nunca pensou que mulheres poderiam intimidá-lo, mas ele tinha medo do que dizer e então ter seus sentimentos machucados.

Porém, de alguma forma, ele estava se sentindo mesmo inútil. Ele não podia julgar-se a principio porque estava se sentindo fora do lugar, estando em um ambiente, um clã de pessoas que ele não conhecia, de lugares que nunca imaginou que existissem. E ele apenas queria voltar a sua vida de antes. Mas, seria mesmo que um dia conseguiria tal objetivo? Não seria plausível ter ele de acatar as condições que vivia agora?

– O que estão fazendo aqui? — Niels entrou no quarto com uma carranca. As duas mulheres se desculparam silenciosamente e correram para fora do cômodo. — Argh, escravas! Eu as odeio. — Disse ele fechando a porta atrás de si. Niels então olhou para Meine com desconfiança. — Elas estavam mexendo com você?

O menino afirmou com a cabeça.

– Não dê ouvidos para o que essas mulheres dizem. Eu ainda não sei por que Svan as mantêm aqui… Elas são como cobras espalhando seu veneno por onde passam. E por causa delas eu me fiz odiar tanto os escravos. — Niels caminhou pelo quarto com as mãos nos bolsos do casaco de pelugem que usava, por debaixo uma camisa branca gelo com gola V, calças de couro marrom e botas de cano alto com fivelas de bronze. — Não sei por que estou dizendo isso a um escravo também.

– Você e Van se parecem um pouco… — Pronunciou Meine depois de algum tempo de silêncio. Ele havia compreendido as palavras de Niels, e se soubesse melhor, diria que de alguma forma ele o quis proteger daquelas escravas. — Van está trabalhando?

– Van? — Perguntou ele com uma expressão engraçada. — Vocês já possuem esse nível de intimidade? Que eu saiba um escravo sexual serve apenas como uma boa foda todas as noites e deve dormir no chão. — Disse em uma careta. — Ele stá no treino ao ar livre, nos reunimos a cada três dias para um treino coletivo.

– E você não participará? — Meine perguntou. Ele não sabia por que, mas de alguma forma, tinha algo em Niels que não o fazia parecer um vilão ou algo assim. Ele era grande como Svan era, um pouco intimidante também, mas ele não parecia o tipo de homem que iria querer bater em Meine e espancá-lo.

– Hoje não. — Cruzou os braços sobre o peito. — Você não concordaria em vir brincar com a gente um dia desses? Os rapazes ficaram curiosos a seu respeito. Mas aposto que não tem qualquer experiência para nos entreter.

Meine agora compreendia o que “brincar” significava para estes homens. Ele franziu as sobrancelhas, sentindo-se irritado com Niels.

– Não, eu não tenho experiência… E eu não vou brincar com vocês. — Ele era um medroso, sabia, e por isso suas mãos tremeram em seu colo pela falsa coragem de suas palavras.

E logo em seguida foi à vez de Svan entrar no recinto, vestindo como sempre uma carranca demoníaca. Ele estava suado e um pouco ofegante quando entrou. Sua expressão tornou-se pior ao ver Niels ali jogando conversa fora com seu escravo.

– O que diabos faz aqui? Já não lhe disse para deixar Meine em paz?

Niels deu-lhe um sorriso de escárnio. — Eu o salvei das malditas empregadas, você não deveria deixar-lhe sozinho se pretende mantê-las na casa.

– Elas são apenas escravas sujas. Meine sabe muito bem para não sair do quarto quando eu não estiver aqui… A não ser que saia com Wray, isso eu não devo negar-lhe. — Svan retirou o punhal que guardava em suas calças e a jaqueta, tendo seu peito desnudo.

Niels por outro lado resmungou. Mas então com um olhar a Meine, ele acalmou e disse. — Como foi o treino?

– Como sempre. — Respondeu indiferente. — E como foi a patrulha?

Niels olhou para Meine de novo e o albino piscou sem entender.

– Como você esperava Svan? Eu vi rastros por toda parte, cheiro de lobos e elfos impregnado em nossas fronteiras. Eles estão usando a floresta de Saranmir para nos espionar.

Svan congelou, deixando de dar atenção ao seu guarda roupa para olhar nos olhos de seu irmão.

– Eles realmente desconfiam de mim… — Svan olhou então para Meine que parecia estar completamente fora do assunto que falavam. — Meine, você é um elfo, certo?

– Uh, acho que sim… — Respondeu confuso. — Eu nunca conheci alguém como eu. Foi Wray que disse que sou um elfo por conta das minhas orelhas. — Ele tocou suas orelhas pontudas.

Svan assentiu com cuidado assim como Niels repetiu seu mesmo gesto. Ambos olhando desconfiados sobre Meine. Niels já estava sabendo das dúvidas que Svan tinha, eles eram irmãos e compartilhavam o assunto, porém Niels tinha certeza de não contar a ninguém se não teria sua cabeça arrancada fora.

– E você é… Não é apenas pelas orelhas, Meine. Você é um albino, e albinos nascem principalmente em famílias de elfos. — Niels lhe garantiu. — Há algo em você… Algo como uma possessão demoníaca que nos faz acreditar que eres o escolhido. — Niels dramatizou e fez todo um gesto para Meine parecer do mau.

– Possessão demoníaca? — Perguntou o menino ainda mais confuso. — Do que está falando?! Não há nada de demônio em mim.

Svan quase — ele quase — quis rir.

– As pessoas chamam de possessão demoníaca, tudo aquilo que não é bom e não sabem o que é. Como doenças que desconhecemos ou magia negra quando não sabemos sua fonte. — Explicou pela primeira vez pacientemente. — Niels quer dizer que há algo estranho em você que ninguém entende, que provavelmente seja pelo fato de você ser um elfo.

Meine assentiu lentamente, então olhando para suas mãos e pensando.

Ele sabia que era estranho certo? Agora, do que diabos eles estavam falando?

– Nós vamos ter que reforçar a segurança em torno de nossa fronteira. Nenhum estranho vai atravessar meu território sem a minha autorização. — Svan ordenou. — Peça aos ferreiros para se prepararem… E convoque todos os sentinelas para uma reunião que será efetuada esta noite. E você... — Ele apontou agora para Meine. — Pequena coisa, você irá ficar neste quarto e não sairá por nada, nem hoje, nem amanhã, até quando eu intervier por você e disser o que pode fazer.

Meine cruzou os braços, completamente indignado, porém sabia que não poderia dizer não ao líder. — Eu posso ser um escravo, mas não sou um prisioneiro para me manter trancado! — Ele usou de toda a sua coragem para dizer, e pelo jeito suas palavras tiveram um efeito negativo em Svan que ficou vermelho de raiva, tanto quanto para Niels foi divertido, pois ele passou a rir entre os dedos, tentando o seu máximo para parar a crise.

– Você não ousa a negar o que eu digo! — Svan vociferou. — Eu sou o seu dono e você tem o dever de me obedecer, não importe o que você ache sobre isso.

O albino sabia que Wray tinha lhe advertido sobre negar seu dono, mas ele não conseguia simplesmente ser o bom cãozinho e aceitar ser trancafiado como um criminoso. Ele não aceitaria essa vida de escravo, sem a sua liberdade, sem os seus direitos, sem poder ao menos respirar sem a autorização do chefe.

– Eu não quero estar trancado! — Ele rolou para o outro lado da cama quando Svan se aproximou perigosamente, e caiu no chão com um baque e um resmungo de dor. — Eu não quero ser um escravo! Estou farto de tudo isso!

E ele nem mesmo tinha começado a ser um.

Ou bem, na verdade ele não havia sido exatamente um escravo até agora.

Svan tinha quase entrado em uma crise de raiva, mas ele se segurou, ele não tinha porque ficar com raiva de Meine, quando o menino não entendia sua situação. Enfim suspirou, e deu um olhar de compreensão a Niels, que com um manear de cabeça, foi em direção à porta e saiu, fechando-a atrás de si.

– Meine… — Ele tinha aprendido a dizer o seu nome, mas agora parecia brando, quase delicado. — Não estou querendo te aprisionar… Apenas te proteger.

A cabeça loura apareceu do outro lado da cama, e Meine — ainda sentado aonde caiu — espiou com certa surpresa.

– Me proteger…? Por que Van?

Svan engoliu, de repente tendo cada grama de seu ser livre de raiva ou desentendimento. Ele sentou-se sobre sua cama e se inclinou para trás, apoiando em seus cotovelos.

– Você ouviu o que Niels me disse… Há pessoas invadindo nosso território… Espiões das matilhas vizinhas… Eles querem provocar uma guerra contra nós. E em breve eles estarão atacando… Se você estiver fácil, eles podem querer raptá-lo por ser um elfo e eles podem ser mesmo… Muito ruins para você.

Meine estava tremendo quando Svan terminou de dizer. Como um gatinho manhoso, ele se ergueu e subiu na cama, aproximando-se do Berserker com cautela.

– Você não vai ser tão ruim para mim Van?

Svan olhou para ele e então se deixou cair deitado sobre a cama, cansado demais para qualquer coisa. Ele queria poder tomar um banho, mas estava com tanto sono que sabia que seria melhor um cochilo antes.

– Eu não vou ser mau para você, Meine. — Disse-lhe sentindo-se tão calmo de repente. — Eu não sou ao todo ruim, eu apenas… Eu não sei o que quero… Mas eu quero proteger aqueles que eu gosto.

O menino albino assistiu Svan adormecer. Foi tão rápido, mas ele gostou de vê-lo dormir. Mesmo enquanto ele dormia, ainda franzia o cenho, e Meine sorriu, em seguida fazendo algo que ele nunca antes pensou ter a vontade de fazer. Ele se inclinou sobre Svan e beijou suavemente justo o ponto em que suas sobrancelhas se encontravam quando ele as torcia juntas.

Imediatamente a expressão de Svan se mudou para algo tranquilo e normal.

–*-*-

Os olhos verde-água fitaram esperançosamente ao redor, e mesmo assim cautelosos. Rurik havia sido recentemente recrutado para trabalhar na cozinha principal, que era responsável por alimentar os principais guerreiros Berserkers.

Antes ele havia sido um simples ajudante em uma horta, e agora, bem... Ele nunca tinha exatamente gostado de cozinhar, porém depois que conhecera o líder das armas, Rurik se apaixonou e fez o melhor para cozinhar a melhor comida a fim de agradá-lo.

Ele ainda não estava em tal grau — como um cozinheiro — mas estudava a cada dia, cada vez mais para que pudesse um dia cozinhar algo que fizesse Niels se apaixonar por ele, ou talvez se apaixonar somente pelo que ele cozinhava.

– Preste atenção nas cebolas ou então irá perder um dedo ou mais. — Repreendeu Sava enquanto descascava as batatas ao seu lado. Ela era uma mulher realmente alta comparada com Rurik, era encorpada tanto quanto um violão.

Ele tinha certa amizade com ela, Sava costumava lhe dar uma porção de broncas, mas fora ela quem o aceitou em ensinar-lhe cozinhar.

– Oh... Desculpe. — Disse ele ao corar um pouco o alto das bochechas. Ele tinha irresistivelmente olhado através das janelas para o vilarejo com a esperança de ver Niels passar.

– Eu gostaria de saber quem você tanto procura... Desculpe, mas você sabe que olhando assim para você, de alguma forma eu não consigo imaginá-lo com uma garota.

Era claro, as mulheres da aldeia eram realmente altas, encorpadas, ruivas e tinham uma mão pesada para tudo, dividindo tanto o trabalho em uma cozinha como na lavoura. E Rurik, bem, ele era baixinho, esquio, seus cabelos acobreados eram uma rebeldia, suas sardas eram um pouco exageradas pelo rosto e corpo, e talvez a única coisa que as pessoas realmente gostassem em sua aparência, fosse seus olhos de uma mistura de mar e algas, grandes e expressivos.

Rurik não tinha força para criar músculos, por isso ele havia sido rejeitado na lavoura, e se não se saísse bem na cozinha, sabe-se lá onde o encaixariam... Ou talvez lhe vendessem para uma fazenda ou outro vilarejo.

Ele estava cansado da rejeição, cansado principalmente de ser um escravo e ser explorado, mas aqui, de alguma forma, ele tinha se sentido bem. Ele nunca tinha sido violentado ou abusado. Quando ele errou, ninguém disse mais do que palavras para colocá-lo no lugar, mas nunca sequer relaram as mãos nele.

Ele ainda sentia as marcas quentes por todo o corpo dos abusos que sofreu antes de chegar à aldeia dos Berserkers. Ele nunca seria tão grato aos deuses como agora.

Deve ser por isso que havia tantos escravos trabalhando naquele lugar e nenhum deles necessariamente reclamavam do lugar onde estavam. Eles tinham seus horários para trabalhar e eram bem alimentados. Eles não eram bem tratados, muito menos maltratados.

Rurik terminou com as cebolas, depois de ter picado cerca de vinte delas, e no fim ele estava com uma careta enorme e lágrimas escorrendo pelo rosto. Sava afastou a faca de suas mãos e o arrastou até um balde com água próxima a uma saída de água, e com um caneco, passou a lavar o rosto de Rurik e aliviá-lo.

– As cebolas são terríveis. — Ela riu tão alto que as outras mulheres riram junto com ela. — Mas elas são necessárias. — Sava recebeu uma pequena toalha de uma das moças e deu ao garoto para enxugar-se.

– Obrigado, Sava.

– Não há de que. — Disse ela voltando aos seus afazeres.

Ele voltou para seu posto e quando seus olhos procuraram afora, o dia estava escurecendo, a luz já era pouca e um dos sacerdotes já iniciavam o ritual de acender as chamas que iluminavam todo o vilarejo. Metade delas seriam apagadas à meia noite.

E Niels estava lá, reunindo grande parte dos guerreiros e falando com eles. Svan, o líder da aldeia também estava lá e ambos pareciam muito sérios e centrados por algum motivo. Os guerreiros ficaram todos ao redor do líder e este deu inicio a uma reunião. Eles sempre faziam aquilo, mas de alguma forma Rurik sentiu que hoje fosse diferente.

– Do que será a reunião desta vez? — Perguntou Sava discretamente a Rurik.

– Eu não posso nem imaginar.

– Bem, de qualquer forma ficaremos sabendo amanhã. — Ela suspirou voltando a ralar cenouras.

Embora Rurik soubesse disso, ele estava curioso e seu coração apertado. Esperava que não fosse nada grave.

Ele apenas trabalhou lentamente em descascar os ovos cozidos enquanto seus olhos brilhavam na mínima visão de Niels, e em algum momento ele sentiu que o homem voltou seu olhar a ele, entortando a cabeça e tendo uma expressão encabulada. Rurik apenas corou tão ruim e olhou fixo para o ovo em suas mãos que havia acabado de amassar entre os dedos.

Sava tinha pego sua reação provavelmente, ela inclusive olhou para fora e torceu as sobrancelhas. Então perguntou baixinho perto dele.

– Num creio, um homem?

Rurik ficou tão envergonhado que nada pode responder, sua voz, ela desapareceu enquanto seu rosto ardia em vermelho.

Ele olhou para mim... Pensava. Ele realmente olhou para mim...

–*-*-

Svan havia reunido parte de seus homens para uma reunião. Eram os principais responsáveis sentinelas que guardavam os portões de entrada e o redor da fronteira com as outras tribos. Eles estariam encarregados de informar os demais guerreiros assim que voltassem ao trabalho.

– Desde hoje Niels estará trabalhando em reforçar a patrulha todos os dias. Temos relatado que houveram invasões recentemente que não foram identificadas. Nós suspeitamos que elfos tenham entrado em nossa parte da floresta de Saranmir... Quais tipos de elfos não fazemos ideia. — Svan explicou altivo para os homens, todos de braços cruzados sobre o peito e atentos as suas ordens. — Daqui três dias quero que apenas metade de vocês esteja presente nos treinos, e a outra metade na próxima vez. Niels estará encarregado da divisão e irá me relatar tudo. — Svan explicou também os seus planos para a segurança dentro do vilarejo e de futuramente encontrar pessoas dispostas a serem informantes para Svan se comunicar sem implicações com os outros líderes das tribos vizinhas.

Ele inclusive os deixou preparado que se recebessem um único ataque, eles deveriam estar prontos para guerrear, porque dariam todo o sangue que tinham em prol de suas famílias e proteção da fortaleza dos Berserkers.

Quando liberou todos os homens, apenas Niels permeneceu ali com ele, ambos na escada que dava para a varanda da casa principal, sob a luz pouca que provinha de tochas.

– O que pretende fazer Svan? — Niels comentou preocupado, seu semblante sério. — Eu o dei a você, mas você sabe... Não precisa mantê-lo por minha causa já que representa uma ameaça ao nosso clã. Embora seja uma pena jogá-lo fora.

Svan tinha os olhos perdidos, ele realmente estava ponderando sobre isso.

– Eu não posso Niels. — Suas mãos se fecharam em punhos. — Eu não posso mais mandá-lo embora. Eu juro, já pensei sobre todas as possibilidades... Talvez também seja apenas uma suspeita boba. Mas já pensou, por que Phaeleh é tão importante para eles? Qual é o significado disso?

Niels ergueu as sobrancelhas, surpreso com a pergunta.

– Você sabe, Svan. Phaeleh é uma lenda... Um mito que nunca foi comprovado.

– Mas foi um oráculo quem revelou... Oráculos nunca mentem!

– Deuses... — Niels suspirou resignado. — Só há uma forma de descobrirmos a verdade!

Svan olhou fixamente para o seu irmão e amigo. — Não está dizendo que iremos perguntar aos nossos antepassados...? Você sabe o quão cruéis eles foram, que há o risco de perdermos nossas próprias almas se participarmos de um ritual desses.

– Não vai acontecer Svan, se acalme. — Niels tocou o ombro dele e o apertou. — Só existe um tipo de pessoa capaz de acalmar os espíritos, e quem você acha?

Aquele que detinha sangue élfico.

– Só porque Meine é um elfo eu não vou arriscá-lo. — Svan se afastou pronto para sair dali.

– É o seu povo que está em jogo, Svan. Não há escolha. — Niels correu por trás dele. — Mas diga-me, o que te faz pensar em não arriscar um mero escravo? — Ele soltou uma risadinha zombeteira. — Você gostou dele?

Svan o afastou de novo. — Eu já disse que não, apenas sou a favor de vidas e não de mortes por acaso. — Retrucou, andando a passos largos pelo corredor e ignorando todos que encontrava. Sua carranca era profunda, porém Niels tinha um olhar divertido.

– Você é tão possessivo com ele que nem mesmo pensa em dividi-lo. O que está acontecendo Svan?

Desta vez o líder olhou para ele. — Vamos dividir então. Não há nada que me prenda ao garoto senão o fato de que ele foi dado a mim como um presente do meu amado irmão. — Disse em cinismo. — Venha amanhã à noite, Meine estará preparado para alguma diversão.

O sorriso de Niels morreu. Ele balançou a cabeça e entrou em seu quarto.

Svan não entendeu essa reação dele, talvez não fosse isso o que seu irmão esperava que ele respondesse, mas seja lá o que fosse, provaria que não havia qualquer sentimento de possessão em relação ao garoto.

Quando enfim chegou ao seu quarto, Svan estava louco para relaxar em sua cama, e esperava que Meine houvesse aquecido para ele.

Era um pensamento bobo, mas que ele não poderia negar-lhe.

Foi como esperado, Meine estava deitado sobre a cama, com as peles sobre ele e lia um dos livros que Svan tinha em sua cômoda.

– O que está lendo? — Perguntou ele curioso de repente. — Você sabe ler?

Meine olhou-o com aqueles grandes olhos da noite emoldurados por longos cílios loiros e sobrancelhas bonitas.

– Minha avó Mona me ensinou a ler quando criança. Já li alguns de seus livros desde que cheguei aqui.

Svan sentiu a coceira em sua garganta para ter de implicar sobre Meine pegando seus preciosos livros de romance que ele leu em sua adolescência. Ele apenas decidiu ignorar isso e desafivelou o cinto, retirou o casaco de pele de urso que usava em dias mais frios como hoje, e enfim deixou suas calças de couro cinza cair. Ele não se preocupou em guardar qualquer das peças ou colocá-las no cesto de roupas sujas, apenas se deixou cair sobre a cama, nu, e afastando Meine para tomar o seu espaço. Svan era enorme, mas sua cama era muito grande também.

Meine resmungou por ter de mudar de seu lado quentinho, porém ele desistiu de continuar com o livro e pensou em entreter um pouco seu dono. Ele não tinha mesmo de fazer isso?

– Você está bem, Van? — Ele se colocou deitado de lado e com a cabeça sobre um braço. Svan olhou para ele muito, muito cansado.

– Cansado.

– Você trabalhou muito hoje Van? — Perguntou ele se aproximando um pouco mais de Svan.

– Eu sim... Você só ficou lendo...? — Svan também virou-se de lado, frente a frente com Meine. Seus olhos eram sonolentos, porém os do garoto eram sorridentes.

– Não... Eu passei algum tempo com meu amigo Wray. Ele é muito boa pessoa, você não acha?

Svan assentiu, o sono quase o pegando, ele podia sentir chegando. Seus olhos se fecharam um pouco mais demorados para o que seria um piscar, e quando se abriram novamente, Meine havia se recostado em seu corpo, como um lindo gatinho embolado. Ele apenas deitou muito próximo, foi isso... Tão próximo que os fios loiros de seus cabelos estavam fazendo cócegas no peito de Svan.

Foi um pequeno sorriso que ele deu. Algo que não havia feito há muito tempo... Ele sentiu do fundo de seu coração a doce vontade por este pequeno sorriso. Svan envolveu seus braços fortes ao redor de Meine, provocando dele um leve choramingo, e se deitou de costas com o albino sobre ele como um cobertor quente.

Seria bom dormir assim, finalmente um corpo macio para aquecê-lo nas noites frias da Escandinávia.

Continua...

Notas finais
Miky-san: Olá queridos *-* Espero que tenham gostado do capítulo! Em breve mais emoção! Obrigada por lerem! Até a próxima, beijinhos ♥