Phaeleh I

31 Capítulo 31 – Renúncia


Notas iniciais
Miky: Olá meus amores *-* Finalmente conseguindo postar aqui kkk esses dias o nyah num queria deixar eu postar capítulos D: foi frustrante kkk Bem, espero muito que gostem do capítulo e que apreciem... Preparem seus corações. Boa leitura!

Naquela manhã, o céu estava coberto por nuvens plúmbeas, tão escuras que parecia noite. As aves não cantavam e o vento uivava em torno dos destroços da aldeia, ululando por entre as árvores, que se agitavam suavemente sob o mau tempo, com seus galhos e folhas farfalhando. Era frio, mesmo para um Berserker como Svan. Dentre todos dos Berserkers já nascidos, ele era o maior.

Anos atrás, acreditaram que seu pai era a maior besta existente. Corpulento e voraz, possuía o corpo mais forte e mais alto, de forma que apenas sua vista era o bastante para causar temor descomedido em seus inimigos – e mesmo nos aliados. Porém, quando Svan atingiu a maioridade, os Anciões notaram que ele seria ainda maior e mais tenebroso que seu pai. A mão de Odin, de fato, estava em sua criação, em cada pedaço de pele e cada fibra de músculo, tornando-o a mais bestial das criaturas. Ele havia nascido grande para um bebê e se desenvolveu exalando virilidade.

Sob esta linha de pensamento, surpreendia-o que Meine, seu diminuto escravo elfo, não o temesse.

Meine dormia abraçado a Wray, os lábios entreabertos e a expressão suave. Estava exausto por estar constantemente correndo em busca de água fria e trocando os panos para amenizar a febre – o que levou Svan a pensar em algo que o havia intrigado: noite passada, enquanto sentia a força súbita de seu amor pelo pequeno homem, ele jurou ter visto algo negro sair de Wray ao tempo em que Meine era envolto em uma capa de luz. Desde então, a febre de Wray diminuiu drasticamente e ele, inclusive, já dormia com maior tranquilidade, suspirando vez ou outra.

Svan estava sentado ao lado da cama, dormitando espasmodicamente. Não cochilara não porque estava desconfortável, pois desde menino havia sido treinado para suportar lugares inóspitos e pouca comida. Era um guerreiro, afinal. Mas sua preocupação por Meine e por Wray tiraram seu sono. Temia que Wray piorasse e a fé na recuperação de seu amigo não fosse o suficiente para salva-lo. Então, também temia que alguém invadisse a habitação e levasse seu Meine dali.

Como viveria sem Meine?

Nunca realmente parara para ponderar sobre isso. Ele estava disposto a entrar em uma guerra para mantê-lo. Sempre atribuiu isso ao fato de que o que era dele, era dele, e ninguém tirava. Mas, agora, permitindo-se vasculhar dentro de si mesmo, revendo desde o momento em que pôs os olhos na criatura apavorada e pálida amarrada a Niels até o exato segundo em que Meine dormitava a poucos metros de si...

Ele sabia com uma convicção inexplicável qual era a resposta.

Antes de o sol se levantar, Svan se colocou de pé, incapaz de lutar pelo sono por mais tempo. Cuidou rapidamente de sua higiene pessoal, um tanto quanto alheio ao que fazia, e se dirigiu para fora do quarto, fechando a porta suavemente. Caminhou silenciosamente para a sala e se deparou com Skoll em sua forma de lobo, dormindo ao lado do grosso tapete de pele no qual colocaram Aricin, próximo a lareira, cujo fogo já minguava em débeis fagulhas. As orelhas do lobo cinza se moveram e apenas um olho dourado se abriu preguiçosamente, encarando-o.

Skoll em sua forma de lobo era gigantesco, tão corpulento quanto era em forma de homem – mas ainda não superava Svan em tamanho. Seu amigo e irmão de armas bocejou, abrindo a bocarra cheia de presas para logo lamber os lábios. Svan sentia como se estivesse abrigando um titã na sala de seu amigo.

O grande lobo se ergueu e seus pelos da cor da tempestade se eriçaram enquanto se espreguiçava, escavando as garras no piso, arranhando a madeira.

Levantando tão cedo? Sua voz penetrou a mente de Svan, ressoando como um grunhido mal-humorado. Skoll sacudiu seu corpo lupino, balançando a cabeça de lado a outro, caminhando languidamente para perto do fogo morto, como se buscasse um pouco de calor. Suas narinas dilataram ao farejar Aricin e sua língua comprida se esticou para lamber o pescoço do rapaz. Svan franziu o cenho, estranhando aquele gesto íntimo de seu amigo.

–- Skoll – grunhiu em advertência.

Relaxe. Estava vendo sua temperatura. Ele não está com febre.

Svan se esforçou por ignorar isso.

–- Estou saindo para resolver uns assuntos. Você pode cuidar de Meine?

Por cuidar, você diz não permitir que ninguém o leve e também não sequestra-lo enquanto você não está aqui?

Svan franziu os lábios, expondo seus dentes em um rosnado que fez vibrar seu peito.

–- Exato.

Skoll rosnou em resposta, exibindo suas fileiras de presas pontiagudas e brancas.

Ainda conversaremos sobre isso, meu amigo.

–- Então, não faça qualquer movimento até lá.

Svan se virou e saiu da casa, batendo a porta com força atrás de si. Seu mau-humor estava cada vez mais perigoso, pondo-o em um profundo estado de irritação. Ele nunca permitiria que levassem Meine para longe. Confiava em Skoll para protegê-lo, pois o Ulfhednar não faria nada sorrateiramente. Skoll era aberto e preferia fazer negociações ou declarar guerra do que agir sem qualquer código de honra, o que era o oposto dos elfos. Enquanto podia acreditar que Skoll protegeria Meine até que chegassem a um acordo, não podia esperar a mesma cortesia por parte de Darius ou Yusuf. Os elfos não seriam honrosos, não quando significava a hipótese de que poderiam perder o Phaeleh.

Ah, maldição! No que merda foi se meter?

Estava escuro enquanto caminhava pela aldeia. Svan ergueu a face para o céu cinzento e mórbido e inspirou fundo enquanto o vento gélido agitava seus cabelos para trás. O ar tinha cheiro de chuva e floresta e ele não duvidou de que em breve uma tempestade retornaria.

Alguns aldeões já estavam despertos, iniciando seus trabalhos. Uma casa de pedra estava quase terminada e em breve poderia ser usada como abrigo para os que ficaram sem moradias. Primeiramente, Svan queria arranjar um lugar para todos ficarem. Posteriormente, preocupar-se-ia com as moradias individuais. As colheitas perdidas não seriam recuperadas e, com a chegada do inverno, não haveria tempo para cuidar de plantações. Ele estava usando o dinheiro que acumulara por muitos anos para comprar provisões para o frio mortal que cairia sobre eles muito em breve e, por falta do que trocar nos comércios, estava perdendo moedas. Seu clã estava ruindo rapidamente e ele se sentia desnorteado, sem saber o que fazer. Levantar casas custava muito pela quantidade exorbitante de materiais. Comprar comidas e peles, tanto para o dia a dia quanto para o inverno também estava sendo bastante desgastante para a economia, pois custavam caro.

Ele planejara caçar, mas mesmo isso possuía limites intransponíveis. Os cervos não eram o bastante para todo um clã por mais de dois dias, por mais que as mulheres regulassem a quantidade dividida entre cada membro. As crianças comiam pouco, apenas o bastante para se manterem, e Svan já notava que estavam emagrecendo, apesar de não perderem a vivacidade.

Não ainda.

Os idosos necessitavam de mais nutrientes, pois eram mais frágeis. As mulheres comiam tão pouco quanto as crianças e tentavam colocar uma parte infimamente mais farta aos guerreiros, pois todos sabiam da guerra iminente. Muitos aldeões haviam debandado pela escassez de provisões e pelas condições difíceis, alegando que o tempo era melhor quando o pai de Svan governava com punho de ferro. Isso o deprimia e enfurecia ao mesmo tempo – não era ele quem sacrificara toda a vida pessoal em prol do povo? Pensou seriamente em casar com uma mulher, filha do Jarl ou alguma rainha estrangeira, qualquer que fosse, apenas para reerguer e proteger sua gente. Abriria mão de sua inclinação por homens para ter herdeiros. Estressava-se a cada dia resolvendo problemas mundanos e outros mais complicados. Ele não se reunia com os outros para beber e transar, pois não gostava da suavidade das mulheres. E não queria que seu clã fosse visto como inferior apenas pelo fato de seu líder querer um pênis.

Tratou os escravos da melhor forma que pode, ensinando-os qual era seu lugar, entretanto, não demonstrando crueldade – inclusive, deu-lhes o direito da escolha de ficar ou partir, e quase todos optaram por ficar. Ele protegia o que estava sob sua mão e cuidava como se cada um fosse um irmão querido. Svan viveu uma vida de reclusão e lutas, voltando tudo pelo e para o povo, como se houvesse nascido para servi-los, enquanto seu pai pensava que o povo era quem deveria servi-lo.

Ainda assim, os aldeões eram mais felizes sob o punho de ferro?

Ele tentava não pensar nisso. Tentava não se abater. Ser líder era uma tarefa desgastante, que envelhecia tanto quanto a guerra, e ele já se sentia um ancião. Queria um dia para descansar, para sentir a energia pacífica da natureza, para falar com os deuses, para... Estar com Meine.

Por Odin, ele queria voltar para a casa de Wray naquele exato segundo apenas para ver o albino. Meine era muito esforçado e determinado – para não dizer teimoso. Svan gostava de admira-lo trabalhando, de vê-lo se levar ao limite para cuidar de alguém que lhe era querido. Era lindo, e fazia Svan desejar cuidar dele após todo o seu esforço.

Estivera tão imerso em pensamentos, que sobressaltou-se quando algo se chocou contra ele, como um inseto esbarrando em uma árvore. Com o cenho profundamente franzido e um rosnado rasgando sua garganta, olhou para a figura diminuta que gemia, sentado no chão após o impacto. Os cabelos desarrumados brilhavam como chamas em sua cabeça, eternamente apontando para mil direções diferentes.

–- Desculpe, desculpe – Rurik murmurava, pestanejando – Eu não vi... Chefe! – o garoto pulou, levantando-se rapidamente e espalmando o traseiro para tirar a areia da calça. Estava sem blusa, expondo um peito definido por músculos delgados e firmes e uma pálida pele salpicada por claras sardas e rasgada por antigas cicatrizes, que se elevavam em sua carne. Apenas fitar Rurik já era o bastante para qualquer um compreender o quão sofrida fora sua vida anteriormente – Chefe, perdão!

Svan balançou a cabeça.

–- Estava indo para a casa grande? – grunhiu.

Rurik assentiu enfaticamente com a cabeça e Svan só soube o quão triste o rapaz estava porque seus olhos, geralmente brilhantes e transmissores de uma alegria contagiante, estavam mais escuros e menos enérgicos. Ao que parecia, o humor do escravo ruivo estava igual ao tempo ruim que se preparava para desabar em chuva.

–- Preciso limpar o quarto de Niels e acender o fogo.

Svan não soube que merda do destino o fez reagir daquela forma, mas, antes que se desse conta, estava colocando a pesada e grande mão no alto da cabeça do humano e lhe revolvendo os cabelos já rebeldes.

–- Vamos tomar o desjejum primeiro, rapaz.

Eles caminharam lado a lado e, quanto mais se aproximavam da casa do Chefe, mais Rurik parecia nervoso. Svan notou a tensão em seus ombros e isso o fez se perguntar internamente que merda estourara entre Niels e Rurik para estarem naquele tipo de relação tão subitamente. Até pouco tempo, Niels não estava envolvendo Rurik em um manto de pureza divina?

Ele, definitivamente, não entendia nada disso.

Quando entraram na casa, as mulheres já estavam despertas e trabalhando e alguns poucos homens carregavam toras de madeira para abastecer as lareiras. A movimentação já começava desde o nascer do sol, às vezes, um pouco antes. Quando entrou com Rurik, Hilda se apressou para a cozinha para trazer o desjejum e Rurik seguiu para a escada. Svan se sentou à mesa, já exausto antes mesmo de trabalhar.

–*-*-

Rurik bateu na porta tão suavemente com os nódulos dos dedos que sequer emitiu algum ruído. Abriu-a devagar, o coração martelando dolorosamente no peito e um nó em sua garganta ameaçando engasgá-lo e sufocá-lo. Ele, naturalmente, gostaria de não olhar para Niels até ter lambido todas as suas feridas e recolhido os pedaços de seu coração que se quebraram noite passada. Mas não havia escolha – ele era um escravo e era sua obrigação servir Niels até que ele desejasse se desfazer dele.

Rurik não sabia o que doeria mais – Niels se desfazendo dele por achá-lo insuficiente ou Niels dormindo com qualquer um. Ele não podia culpar Niels por não cumprir com seus estereótipos de amante perfeito ou por ele não corresponder ao seu amor, sabia disso, mas isso não o impedia de sofrer, de querer evitar ao máximo a dor por sua autopreservação.

Seu sono nos estábulos fora o inferno. Não por falta de conforto, pois dormiria em qualquer lugar, mas porque pesadelos de seu antigo amo o mantiveram desperto e apavorado, tremendo e pulando a cada ruído exterior. Mesmo o frio que adormeceu sua pele não foi tão terrível quanto a dor em seu coração – a dor do amor rechaçado, a dor do passado que não o libertava. Isso fez com que começasse a se perguntar se não merecia algo de bom em sua vida, por mais singelo que fosse. Ele se sentiu mais sujo do que nunca – seu corpo retalhado por cicatrizes recordando-o da merda que ele era.

Então, quando o sol subiu, ele tomou uma decisão – ele faria o possível para esquecer Niels, para afogar seu amor platônico e seguir em frente. Ele enfrentaria a vida como ela era como sempre fez desde muito jovem e rezou para que, se Freya não o abençoasse com um novo amor, ao menos lhe tirasse aquele do peito.

Ele entrou devagar na habitação, esforçando-se para não fazer barulho. Fechou a porta atrás de si e arrastou os pés descalços pelo quarto, caminhando para o tapete no qual costumava dormir. O ar estava abafado, o que aumentou o nó em sua garganta. Rurik se forçou a não olhar para a cama. Ele se ajoelhou sobre o tapete, encarando as cinzas na lareira. Limpou-as com o material que deixara ali tarde passada, até que o cubículo estivesse pronto para receber mais lenha. Ele pegou as toras pesadas nos braços, sentindo as farpas rasgando sua pele e se encravando na carne. Colocou-as no espaço fornecido e tratou de acendê-las, pois assim Niels não sentiria frio.

Deveria matá-lo de frio. Deveria não me importar. Quando vou crescer?

Quando acendeu um fogo suave, apenas o bastante para esquentar a habitação, ele se levantou. Com o coração parecendo bater na garganta, virou-se para a cama. A cama estava vazia, mas nela havia rasgos de roupas que não pertenciam a Niels. Ele queimou seus olhos com aquela cena, forçando-se a se dar conta de que Niels não era seu para amar.

Inalou fundo e se afastou da cama, rumando para fora do quarto e fechando a porta. As lágrimas que queimaram em seus olhos foram engolidas e ele enterrou a dor no recôndito mais profundo de seu ser. Agarrou a camisa com força por sobre o peito, odiando seu coração por trair seu cérebro.

Por que a força de vontade não era o bastante para superar um amor destruído?

Cobriu metade do rosto com a mão livre, trincando os dentes e respirando duramente pelo nariz, controlando a dor que teimava em querer escapar por lágrimas.

Droga, ele era um homem! Não choraria!

Não podia chorar...

Por que o peito doía tão terrivelmente, como se uma avalanche de pedras esmagasse seu coração, fazendo-o pesar tanto?

Era porque Niels dormira com um escravo qualquer, mesmo odiando escravos? Se ele não queria Rurik por desprezar sua espécie subserviente, mas aceitava qualquer um outro... Então, seu problema não era por Rurik ser escravo. Era por Rurik ser... Rurik. Com toda a sua fodida carga. Com as cicatrizes que cortavam seu corpo, com seus pesadelos, com seus traumas, com sua palidez e sardas. Mais uma vez, ele se sentiu sujo. Sentiu-se inferior a todos que o cercavam. Não era virgem – era tão usado, que uma risada amarga saiu antes que pudesse detê-la. Ele não era puro e adorável como Meine ou sábio e incrivelmente belo como Wray. Oh, não. Ele era defeituoso e imundo.

Uma onda de raiva e tristeza o percorreu.

A porta gemeu quando foi aberta, despertando-o de seu pesadelo acordado e não pode mascarar o ódio de sua vida quando olhou para o lado para se deparar com Niels, trajando unicamente calças de pele pendendo nos quadris. Seus olhares se encontraram e se prenderam, como se correntes os afixassem ali. O que antes fora encoberto por sorrisos e por sua desesperada vontade por viver, ser aceito e ser amado, agora estava tão exposto que se sentiu nu. Vulnerável.

–- Rurik...

Rurik empurrou suas emoções para baixo e forçou um sorriso que lhe doeu até a alma.

–- Bom dia, meu senhor – disse, dando as costas a Niels e rumando pelo corredor para longe. Ele precisava recuar e se reagrupar. Precisava erguer suas barreiras para suportar todo o peso que ameaçava esmagá-lo e sufocá-lo. Sua garganta, de repente, parecia tão fechada que ele levou a mão ao pescoço, sentindo dificuldade para respirar.

–- Rurik, espere!

Não, ele não esperaria. Ele não podia esperar.

Seus passos se tornaram mais velozes, mas Niels era um Berserker e suas pernas eram mais longas e mais rápidas. Ele logo o alcançou e uma mão se fechou em torno de seu braço, virando-o para encarar a preocupação estampada no rosto de Niels.

Como pode se preocupar comigo depois de me chutar daquela forma?

Ah, ele não era culpado. Aquele era o tratamento usual para os escravos. Uau, o quão mimado ele havia se tornado pela generosidade de Svan?

–- Precisamos conversar – Niels disse.

Rurik se desvencilhou de seu aperto, erguendo os olhos para fitar Niels diretamente.

–- Sou seu escravo, amo. É meu dever e obrigação ouvi-lo e servi-lo – as palavras saiam por seus lábios como facas cortando seu interior – E, na minha humilde posição, eu lhe imploro... – ele cerrou os punhos ao lado do corpo, mordendo o lábio inferior com força – Sabendo dos meus sentimentos e não correspondendo a eles, por favor... Por favor... Por favor, tente me poupar do que é desnecessário ver ou ouvir.

Niels franziu o cenho, e Rurik não saberia dizer se ele estava irritado, triste ou... Qual fosse a emoção que ele escondeu naquele instante. Também não deveria lhe importar.

–- Quais são seus sentimentos?

Rurik virou o rosto como se tivesse sido estapeado e, ao volta-lo para Niels, sentiu o súbito desejo de socá-lo por tanto cinismo.

–- O que você acha que eu sinto? – rebateu, o sangue fervendo pela fúria contida. Ele não era um Berserker, tampouco um notável guerreiro. Era apenas um humano e um escravo. – Ah, não importa! – esbravejou, passando as mãos pelos cabelos – Vou trazer seu desjejum.

Ele se voltou novamente para se afastar, mas Niels o seguiu.

–- Diga, Rurik. Eu quero ouvir o que você sente.

Use a sua cabeça de merda.

Ele estava com as lágrimas muito próximas, mas se recusava a chorar. De repente, sua carga se tornou pesada demais para carregar. Ele estava cansado e aborrecido, e uma decisão martelava em sua mente, dizendo-lhe que era o correto a fazer antes de sua sanidade ir foder com seu coração.

Quando saiu para a sala, entretanto, Svan se levantou, sua expressão sendo tomada por uma fúria irascível e descontrolada. Ele empurrou a cadeira para trás, encarando Niels fixamente. O medo atingiu Rurik e ele rapidamente se esquivou para longe dos irmãos, confuso sobre o que se passava.

–- Rurik... – a voz de Niels findou ao se deparar com Svan, que semicerrava os olhos como uma besta ao estar diante de seu mais odiado inimigo – Svan? O que há?

–- Precisamos conversar – Svan rosnou entre dentes.

Rurik não entendia nada. Por mais que estivesse furioso e magoado com Niels sentia como se Niels estivesse com os dias contados. Svan parecia estar prestes a mata-lo e isso assustou Rurik muito mais do que a perspectiva de se envolver, de alguma forma ilógica, naquela onda de ódio.

O que estava acontecendo, afinal?

–- O que aconteceu?

Niels instantaneamente ficou tenso. Ele não entendia o que estava acontecendo tanto quanto Rurik e o Berserker em Svan estava mostrando seus traços – as características marcantes daquelas bestas: a ira que os movia. Rurik viu com assombro quando os músculos de Svan pareceram se expandir, esticando sua pele, e aumentando ainda mais seu tamanho já amedrontador.

–- Você, bastardo – sua voz sempre possuíra uma potência colossal, mas agora... Agora era um rugido bestial, tão grave e cavernoso que as palavras eram de difícil compreensão. Rurik se encolheu contra a parede, os olhos quase saltando para fora da face de tão arregalados – Quem na merda te deu permissão para surrar Meine?

Rurik não imaginou que seus olhos pudessem se arregalar ainda mais.

Para seu terror, Niels, ao invés de tentar acalmar a fera de Svan, também franziu profundamente o cenho e seus olhos dourados brilharam como ouro líquido com matizes prateadas como raios em torno da pupila, que se esticou em uma fenda.

–- Está rosnando para o seu próprio irmão por causa de um escravo? – Niels rosnou de volta. Rurik viu seus dentes se alongando como adagas e isso fez seu coração falhar uma batida pelo medo. De alguma forma, o desprezo empregado para escravos atingiu o alvo sensível em Rurik e ele se esforçou para não se abalar.

–- Você não tinha o direito de tocá-lo!

–- E você entende a gravidade do que está acontecendo, Svan?

Os urros dos dois homens não só assustaram Rurik, mas se dispersou para os presentes na casa. Os escravos todos se refugiaram na cozinha, encolhidos e temendo que a fúria sempre descontrolada dos Berserkers recaísse neles também. Rurik viu Hilda acenando para que ele se aproximasse, para que corresse para a proteção da cozinha como todos fizeram, mas ele não conseguia se mover. Parecia ter criado raízes no chão e seus joelhos tremiam, ameaçando derrubá-lo. A parede o tragava, congelando-o o lugar.

O que ele deveria fazer? Fugir? Fingir que não existia? Tentar aplacar a raiva de ambos – de Svan, por Meine ter sido machucado, e de Niels, por seu irmão estar combativo por conta de um escravo?

Não, não. A última opção era inviável.

Ele sequer possuía a ciência de que ainda respirava ou se estava prendendo o ar nos pulmões. Tudo acontecera tão repentinamente que sua mente ainda dava voltas pela confusão.

–- Todo o clã está ruindo por essa sua obsessão por escravos! – Niels vociferou, seus músculos distendendo, aumentando seu tamanho, como se uma explosão de fermento o fizesse inchar – Não há comida o bastante, não há casas, não há porra nenhuma, e muitos já foram embora!

–- E onde isso é culpa de Meine?!

Ah, deuses...

–- Desde que ele chegou, a desgraça caiu sobre nós, maldito seja!

Niels gesticulava enfaticamente com os punhos cerrados, deixando surgir sua fúria. Seus cabelos se arrepiaram, elevando-se como um gato ao eriçar os pelos ameaçadoramente.

–- Meine é o Phaeleh, seu estúpido! – Svan o agarrou pela garganta, erguendo seus pés do ar e avançando sobre ele com tanta ferocidade que as mulheres gritaram, aterrorizadas, quando Svan chocou as costas do irmão contra a porta de carvalho com força, fazendo a madeira gemer, ameaçando quebrar – Ele nunca fez nada além de tentar ajudar!

Niels agarrou os braços de Svan, tentando evitar de ser estrangulado. Svan o largou, ignorando as marcas de seus dedos na pele de seu irmão.

–- Não disse que ele faz de propósito, mas você tem de se livrar dele antes que mate a todos nós!

Svan rosnou do fundo do peito, franzindo os lábios para expor as presas.

–- Você o trouxe até mim – o rosnado baixo em nada contribuiu para amenizar a situação. Tornou Svan ainda mais perigoso e bélico.

–- E me arrependo – Niels amenizou o tom, apesar de não retirar a raiva de sua expressão e de sua voz – Ele está nos destruindo. Pelos deuses, irmão, você está cogitando lançar nosso clã nesse estado deplorável em uma guerra! Nós mal temos condições de sobreviver aos dias comuns, como acha que ficaremos de pé em uma batalha? Não há comida, não há pele para o inverno, não há ferro para as armas, não há porra nenhuma!

–- E o que sugere que eu faça? Não é como se os outros líderes estivessem nos dando uma escolha.

Niels balançou a cabeça, passando uma mão pelo cabelo.

–- Nós sempre temos escolhas – seus olhos bestiais encontraram os de Svan, que luziam o mesmo tom demoníaco de dourado, com as pupilas em fendas bestiais – Eles te deram a opção de ceder o albino pela paz.

O rugido de Svan foi tão gutural que as paredes tremeram e o coração de Rurik deu um solavanco, seu sangue gelando nas veias.

–- Eu não vou abrir mão de Meine por nada nesse mundo.

Em um rompante, Niels avançou para Svan, empurrando-o com o cotovelo em sua garganta de encontro à mesa, batendo sua coluna e forçando-o a se curvar para trás. As mulheres gritaram e pularam novamente pelo terror do que estava acontecendo e Niels rosnou bem próximo ao rosto de Svan.

Não, Niels. Não atice a fúria dele. Pela lei, ele vai matá-lo.

Rurik mordeu o lábio inferior com força.

Como pudera estar discutindo com Niels momentos atrás, e agora os irmãos estavam se destruindo na sala como se matando um ao outro fosse resolver alguma coisa?

–- Não seja egoísta! Será suicídio! Você tem que entender, irmão, que não é apenas a merda da sua vida que será perdida, será a de todos nós, e tudo porque você quer foder um escravo albino!

Svan o empurrou de cima de si e, mesmo enquanto Niels cambaleava, ele ergueu a perna em um chute direto no peito de Niels. A força do golpe foi tão grande, que Niels desprendeu os pés do chão e se chocou contra a porta, estilhaçando a madeira e derrapando bruscamente na areia do exterior da casa. Subitamente, Rurik despertou de seu torpor causado pelo medo e aprumou os ombros, vendo o próprio diabo encarnado na pele de seu líder. Sempre soube que Svan era o maior e mais bestial dos homens, mas nunca esperou comprovar diante de seus olhos o quão tenebroso era o Chefe quando deixava a ira Berserker se apossar de seus instintos, cegando-o para a lucidez. Seu sangue clamava belicosamente por matança.

Svan caminhou com lentidão, dando tempo a Niels para se sentar e recuperar o fôlego. Seus passos eram calculados e comedidos, com os ombros se movendo a cada movimento em concordância, os olhos brilhando predatoriamente. O urro que vibrou em seu peito eclodiu por entre os dentes e ele expôs as presas em ameaça.

–- Em toda a minha vida, eu nunca pedi nada a ninguém – vociferou com ódio, abrindo e cerrando os punhos. As unhas se alongavam em garras – Vivi pelo clã. Abri mão da liberdade, de fazer o que eu gosto, apenas para cuidar de todos que são minha família. Centrei-me unicamente em trabalho e trabalho e trabalho.

–- Eu conheço o seu esforço, mas não justifica o que está fazendo! O escravo nublou seu julgamento e o tornou um néscio!

A esta altura, Niels estava começando a se levantar, sem desviar em momento algum o olhar de Svan. As pessoas se afastavam, apavoradas, mantendo a atenção fixa nos dois. Se aquela fosse uma disputa por poder, o que era bastante comum, deveria haver testemunhas.

Rurik forçou suas pernas trêmulas a se mover até a porta, encarando as costas musculosas de Svan e o olhar furioso de Niels por sobre seu ombro.

–- Eu fiz tudo o que podia! – Svan urrou e todo o corpo de Rurik tremeu pela potência de sua voz. – Eu fiz como me ensinaram e nunca saí do meu caminho! Agora, quando eu finalmente estou feliz, você quer que eu me livre de Meine? Pois aqui vai: eu amo Meine e vou enfrentar quantas batalhas forem necessárias se isto significar tê-lo comigo!

Por um momento, o ar em torno deles pareceu eletrizado por tensão e ninguém se moveu, ninguém falou, ninguém respirou. Todos pareciam apavorados ante a ideia de se envolver na briga entre os irmãos. Rurik sabia que, em momentos como aquele, apenas Wray era capaz de amansar ambos. Wray era o mais forte dos Berserkers quando empregava sua força e mesmo os guerreiros Ulfhednar eram inferiores ao seu poder. Wray era sábio o bastante para manipulá-los com as palavras e forçá-los a se sentar em seus traseiros. Ele sabia como lidar com eles, mas Wray não estava lá.

Como Rurik poderia impedir Svan de matar Niels? Mesmo que Niels o houvesse ferido a níveis incomensuráveis, ele não queria que ele fosse morto. Não queria que se machucasse.

Ele era um fodido masoquista, não era certo?

–- O quê? – Niels guinchou – Ama Meine? Que merda há com você, Svan?

–- Eu não vou permitir que ninguém o tire de mim – Svan grunhiu.

–- Você não pode nos mandar todos para a morte por causa dele. Por que não consegue ver que ele só nos traz calamidades?

–- Porque ele é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Você saberia disso se não fosse tão estúpido a respeito de Rurik.

Em um rompante, Niels se lançou para Svan, seu punho atingindo a lateral de seu rosto e fazendo sua cabeça virar. Um respingo de sangue atingiu o chão e Svan rugiu como mil bestas, reagindo em questão de um passar de segundo, lançando-se sobre Niels com ódio encarnado na pele.

–- Não fale de Rurik! – rosnou Niels, agarrando a garganta de Svan e, girando os pés, jogou o irmão bruscamente no chão, pressionando-o contra a terra. Svan rosnou e, com as costas do punho cerrado, atingiu a face de Niels, arremessando-o para a terra com violência. Ambos rosnaram como feras, expondo as presas.

Rurik abriu e fechou a boca, incapaz de articular as palavras.

–- Rurik – Hilda chamou baixinho – Saia daí, garoto.

Mas ele não podia. Ele sabia que era errado se envolver, mas precisava defender Niels.

E o que um humano poderia fazer contra dois Berserkers?

–- Rurik! – ela o chamou novamente.

Então ele viu – os músculos inchando, expandindo, a pele se esticando e escurecendo. Os olhos de Svan escureceram abruptamente e estalos ecoaram pelo espaço aberto. Ele se curvou em quatro no chão, o corpo crescendo, pelos brotando por todo a sua pele. Mesmo Niels ficou aterrorizado quando a fisionomia humana desapareceu, engolida para dentro do corpo do maior urso negro no qual já puseram seus olhos. Svan era tão grande que chegava a cobrir Niels em altura mesmo estando nas quatro patas. Era a criatura mais bestial e diabólica que Rurik já vira e o terror que o atingiu grudou seus pés na terra.

Svan abriu a bocarra, expondo o conjunto de dentes afiados enquanto urrava. Gritos eclodiram subitamente por toda parte – Berserkers não costumavam se transformar e poucos eram os que conseguiam uma mudança completa. Alguns como Niels, só conseguiram despertar metade daqueles dons combativos, transformando partes do corpo e ascendendo sua força e selvageria. Svan, provavelmente, era o único com uma transformação completa, e aquilo era tão aterrador que mesmo a forma de lobo de Skoll parecia fofa e meiga diante daquilo.

Ele viu a mágoa nos olhos de Niels.

–- Você está usando sua fera contra mim, irmão?

Aquelas palavras fizeram o coração de Rurik se comprimir no peito. Havia tanta dor na voz de Niels... Como se houvesse sido traído.

Você acha que sou um péssimo líder, rugiu Svan. Suas palavras ressoavam bestialmente as cabeças de todos do clã. Se liderar me impede de ter Meine, então eu lhe digo, irmão: aqui e agora, diante de tantas testemunhas... eu abdico da liderança.

Aquilo chocou não apenas Rurik, mas a todos. Svan estava completamente fora de si e seu Berserker afundara sua consciência para a bunda.

Continua...

Notas finais
Miky: Obrigada por ler ♥ Até breve!