Phaeleh I

32 Capítulo 32 - Despertar


Notas iniciais
Miky: Oláaa o/ Não esperava que mais um capítulo fosse sair tão cedo, não é? Pois bem kkkk os últimos comentários me deixaram muito inspirada em continuar que não resisti em postar logo ♥ Obrigado a todos pelo carinho! Apreciem a leitura!

O alvoroço da manhã fez Meine acordar em um solavanco, olhando para todos os lados tentando entender do que se tratava. Bem, não era em seu quarto — mais específico, no quarto de Wray. Ao que parecia, algo grande estava acontecendo lá fora, o que deixou Meine muito curioso e com certeza, preocupado.

Wray parecia ter ganhado alguma cor pelo que examinou rapidamente. Sua respiração era tranquila, como se não fosse realmente um coma e ele estivesse apenas repousando levemente. Meine se contentou com isso, na esperança de que logo seu amigo pudesse acordar e falar com ele, como antes.

Mais importante agora, ele se vestiu o mais rápido que podia — visto que suas roupas anteriores estavam postas, com exceção do agasalho, porque fazia frio desde a tempestade de neve que ocorreu à noite.

Deixou o quarto e se encontrou com Skoll em sua forma canina, sentado obedientemente ao lado de Aricin que estava adormecido no tapete de peles. Meine não sentiu medo do lobo monstruoso, embora hesitou porque sabia que na verdade se tratava de um bravo guerreiro de outra tribo amiga. Ele sabia da consideração de Svan por este homem, e era muito grande, como um grande aliado que lhe devia alguma de sua ajuda.

– Uh... Líder, eu vou... Uh, ver o que está havendo lá fora, tudo bem? — Meine perguntou ao animal que entortou a cabeça, o encarando. O lobo se levantou em suas patas traseiras e se esticou para frente e em seguida cada uma das patas de trás, soltando um bufo monstruoso. Ele se aproximou de Meine e seu focinho tocou o seu peito, para depois encarar o seu rosto.

Skoll deu-lhe uma longa lambida em sua bochecha esquerda.

Meine se derreteu com o carinho do lobo, afinal ele era apaixonado por animais.

– Isso faz cócegas! — Ele riu e então abraçou o pescoço do lobo. Skoll soltou um grunhido feliz e se sentou novamente sobre as patas traseiras. Ele parecia satisfeito de certo modo.

Olhe, Svan me pediu para manter um olho em você. Não posso deixar que saia. A voz do lobo ecoou poderosamente em sua mente, o que surpreendeu Meine.

– Mas quero saber o que está acontecendo lá fora... Não está ouvindo o alvoroço? — Ele perguntou no mesmo tempo em que se aproximou da janela e empurrou as cortinas de lado. Havia uma quantidade significativa de pessoas cochichando, e claro, ele ouviu urros e estava tentando identificar do que era. — Será que estamos sendo atacados?

Skoll rapidamente se transformou em guerreiro e se virou de costas, assim Meine virou a face para não ter que vê-lo nu.

– Eu prometi a Svan que não deixaria você sair de casa. — Skoll comentou enquanto se vestia com as roupas que estavam fáceis sobre uma das poltronas. No momento em que se virou, a porta estava aberta e Meine já tinha saído. — Droga!

–*-*-

Niels não conseguia compreender exatamente o que havia acabado de ouvir de seu irmão. Parecia fora da realidade, mas o que certamente ele soube, foi que Svan estava dizendo isso com o coração e não com a inteligência. Parecia tão profundamente ferido até o ponto de desistir daquilo que ele nasceu para fazer.

Não era como uma disputa, onde Niels ficaria feliz em ver o seu irmão abdicar da liderança de seu clã, quando a mesma seria passada para ele e então Niels teria todo o trabalho em suas costas. Ao contrário, Niels não tinha qualquer interesse em tomar o lugar que Svan trabalhou tanto para manter. Ele não queria liderar um clã inteiro porque sabia que embora ele fosse um líder de armas, onde definia todo um exército e capacitava seus guerreiros para a batalha, não saberia liderar todo um clã onde teria de ajudar as famílias, lidar com todas as pessoas da aldeia e resolver problemas.

Ele estava vendo Svan se tornar louco e não queria a mesma responsabilidade em suas costas. Mas ele queria ajudar, isso ele sabia que tinha de fazer por consideração, embora sentiu-se profundamente magoado com o fato de seu irmão estar protegendo um mero escravo que tinha algum significado para os elfos.

Não queria pensar na única solução que estava vendo ser plausível para acalmar a besta de Svan. Certamente ele havia se arrependido de ter levantado a mão para Meine e desferido um soco no rapaz. No dia seguinte em que havia visto como ficou ferido e a forma como Meine tentou esconder a verdade de Svan, de alguma forma o tocou. E Niels não era o tipo de homem que se arrependia de seus atos. Apenas até hoje, arrependeu-se de ter comprado o escravo albino naquele leilão nas terras próximas do oceano.

Mas sem dúvida, fora inevitável a compra, porque aquilo fora escrito pelos deuses, que para Niels, parecia mais um jogo entre eles.

Não pode responder Svan de imediato. Os olhos outrora esverdeados, agora brilhavam em ouro e fitavam Niels com um ódio mortal, um sentimento que nunca antes fora direcionado para si. E embora lhe machucasse, porque amava o seu irmão sobre todas as coisas, lhe fez entender de que aquele sentimento era sério. Que era realmente importante para o coração de Svan.

Era como se não quisesse compreender, mas de certa forma ele também se descontrolou no momento em que Svan falou de Rurik, o que lhe confundiu.

Niels apartou o olhar por um segundo, percebendo que Rurik ainda estava à porta, e muitas pessoas estavam lhes assistindo ao longe, porém, haviam compreendido das falas do líder. Apenas surpreendeu-se quando aquele escravo albino corria na direção deles, se esquivando das pessoas.

Svan desengatou um suspiro longo e torceu o seu focinho quando cheirou alguém. Niels notou que provavelmente ele tinha farejado Meine se aproximando. E quando ninguém mais chegava próximo deles, o elfo albino fez, porém hesitante.

– O que está fazendo aqui?! — Ele gritou para Meine. — Não se meta em nossos assuntos!

O garoto se encolheu em suas palavras. Ele olhou em Niels e o mesmo cheirou medo no elfo, mas ainda sim, ele não se afastou, aproximando-se de Svan.

– Van... Eu nunca pensei que você pudesse se transformar em urso. — Ele sussurrou, porém era óbvio para Niels ouvir, com sua audição avançada. — Você é lindo... E tão grande!

Niels arregalou os olhos. Ele notou bem como Svan olhou-o de soslaio, mas aquietou-se de sua fúria descomedida, imediatamente abrandando o ódio que sentia com a presença de Meine. Assistiu com horror quando o elfo se aproximou o suficiente para que suas mãos pequenas acariciassem atrás das orelhas de Svan quando o mesmo ficou mais perto a fim de seu contato.

Foi o fim para Niels. Desistiu naquele momento por qualquer luta. Seria inútil tentar abrir os olhos de seu irmão, quando o mesmo estava sob o feitiço daquele elfo desgraçado.

Estava ponderando se ao invés de ter o seu ódio por escravos, agora adotaria o ódio por elfos albinos.

Svan agarrou Meine com uma pata e o jogou sobre suas costas, caminhando de lá para a floresta e ignorando a presença de Niels, como se eles não tivessem acabado de lutar entre si. Sentiu-se um lixo.

A inquietação fora o que lhe tirou de seus devaneios, pois todos pareciam horrorizados com a recusa precipitada de Svan contra o seu próprio cargo na aldeia. Niels sabia que tinha que dar alguma resposta ao povo, ou todos iriam se tornar loucos.

– Escutem todos! — Ele chamou suas atenções, e fora de imediato que todos ali perto olharam para ele assustados. — Svan não sairá do poder até encontrarmos uma solução plausível para tudo o que está acontecendo. Fiquem tranquilos e voltem para suas casas. — E o povo o obedeceu de imediato, porém continuavam inquietos e permaneciam preocupados, com certeza.

O Berserker jogou para o alto a sua raiva e simplesmente se virou para entrar em casa. Rurik deu-lhe espaço, mas fora o centro de sua atenção.

– Venha comigo para o quarto. Nós precisamos conversar. — Lhe ordenou e fora imediato que a expressão de seu escravo ruivo tornou-se dolorosa e relutante.

– Mas... Mas, por favor, eu... — Ele tentou lhe dizer algo, mas não conseguiu. Niels não esperou por mais, e ele não iria lidar mais uma vez com sua impaciência. Simplesmente envolveu Rurik e o jogou sobre seu ombro como um saco de batatas. — Você irá me esclarecer tudo conforme é devido.

–*-*-

Meine choramingou com a sensação de pelo quente de urso debaixo dele. As costas de Svan. E ele pensou puxa vida, isso é muito incrível. Svan rodou a floresta por vários minutos, o que pareceu muito pouco tempo para Meine, desde que estava tão divertido montar em um urso e sair balançando por ai.

Svan rosnava, grunhia profundamente e suspirava um montão de vezes. Meine queria entender o que tanto o urso estava resmungando, porque ele não compreendia nada da linguagem dele. Mas foi então que pensou que talvez Svan poderia falar em sua mente, como Skoll fazia.

– Van...?

O urso parou sua caminhada e se abaixou para Meine descer e o encarar.

Svan virou o focinho e soltou outro suspiro.

– Por que você estava tão bravo? Foi por isso que se transformou, não foi? — Perguntou gentilmente, suas mãos subiram para as orelhas de Svan, enquanto o mesmo se manteve em suas patas. — Wray me contou sobre isso uma vez. Que a besta no interior dos Berserkers eram ursos tremendamente grandes, mas que não eram todos os que tinham o poder de uma transformação como a sua.

Svan piscou seus olhos dourados para Meine.

– Você não quer falar? — Mordeu seu lábio inferior, mas suas mãos continuavam a acariciá-lo. — Sabe... Eu gosto de como você se parece agora. — Suas mãos não o deixavam e Svan estava quase rolando os olhos. — Por que tanto vocês estavam brigando...? Foi pelo o que eu te contei? Eu te disse que não era para brigar com seu irmão! Ele só quer o seu bem!

E dessa vez Svan rosnou baixinho.

Você pensa que eu poderia deixar o que aconteceu em branco? Não importa se ele estivesse certo ou errado. Ele jamais deveria ter te batido. A voz de Svan retumbou na mente de Meine.

Olhando para aqueles olhos dourados, Meine se aproximou e abraçou o seu pescoço. Era como abraçar uma pelúcia gigante. E Svan não fez qualquer movimento contra ele, mas sentiu o mesmo relaxar, de modo em que metarmofoseou em seu lado guerreiro nos braços de Meine, e só assim ele retribuiu o abraço.

– Eu me descontrolei... Mas ainda continuo com raiva de Niels. — O abraçava tão apertado.

Meine sorriu contra o peito de Svan, notou que o mesmo estava nu.

– Esqueça, seu bobo... Eu já estou bem, vê o meu olho? — Apontou para o seu olho esquerdo que nem mais tinha sombra de ter sido ferido. — Niels tinha perdido a mente naquele dia... Ele não fez por mal, apenas queria o seu bem.

Svan empurrou Meine gentilmente até um tronco e segurou os seus ombros delicadamente.

– Eu renunciei minha liderança.

Os olhos de Meine se arregalaram como pratos.

– O quê?! Mas por que fez isso?!

Svan parecia não ter uma resposta certa para a sua pergunta. — Eu estou cansado Meine... Cansado de fazer tanto por nada... Eu tenho abdicado de minha própria vida pessoal pela aldeia, em resolver os problemas das pessoas. Em garantir o bem estar de todos e cuidar de assuntos que nunca foram meus. Eu sei que deveria encontrar uma mulher e casar-me com ela, para ter herdeiros, como um líder é preciso fazer...

Meine abaixou seus olhos.

– Mas eu não posso, porque o que eu quero não é uma família falsa. Não quero me aproveitar de uma mulher apenas para alugar o seu ventre... O que eu quero e necessito é ter você... Se eu tiver você, Meine... Eu sinto que posso seguir em frente, que posso ser feliz, mesmo com todo o caos na minha vida, você é tudo que eu preciso.

E Svan tinha dito isso tão seriamente que Meine se sentiu profundamente tocado. Seu coração batia com tanta força com aquele olhar bonito de Svan sobre ele, como se fosse um deus de adoração... Não, o amor de sua vida.

E Meine quis chorar, ele mal segurou as lágrimas quando elas vieram, sendo que ao mesmo tempo ele sorria de alegria. Ele se sentiu corajoso e então segurou o rosto do Berserker em suas mãos, acariciando sobre a barba de alguns dias, e aproximou de sua face — tendo Svan se dobrando para chegar à sua altura. Meine beijou os seus lábios com saudade e envolveu seus braços em torno de seu pescoço. Consequentemente, Svan o ergueu e segurou em seu traseiro.

– Meine... — Ele o beijou mais vezes, apertou suas nádegas cobertas pelas calças de veludo, e levou os seus lábios para a orelha pontuda de Meine. — Eu não vou deixar que levem você de mim... Não permitirei que lhe façam mal. Eu apenas irei protegê-lo, te terei em meus braços e o levarei para onde é seguro. Que apenas é comigo.

– Você não pode, Van... Você não pode deixar o seu povo por minha causa. Eu vou estar ao seu lado sempre, mas o Suvan que eu conheço, é o melhor líder de todos, e o melhor em cuidar das pessoas. Por favor não as abandone, você não é assim. — Meine o implorou, olhando em seus olhos e acariciando um lado de sua face.

Svan ficou sério, mas não conseguiu por muito tempo, suspirando de contentação. Ele colocou uma mão sobre a de Meine em seu rosto.

– Eu vou tentar... Por você.

Meine sorriu timidamente e beijou Svan novamente, algo doce e singelo.

–*-*-

Skoll estava preocupado, mas imediatamente sua aflição se extinguiu quando sentira em seu faro, que Meine e Svan estavam juntos. De alguma forma ele aceitou isso. Por agora.

O fato era que mesmo que estivesse interessado naquele elfo albino e adorável, estava mais preocupado em voltar logo e manter seus olhos em Aricin.

Fechou a porta atrás de si quando entrou, olhando para a situação do escravo. Ele não tinha febre e parecia dormir tranquilamente sobre o tapete felpudo.

Sentou-se em suas pernas cruzadas e se inclinou para frente olhando as feições do humano. Como se seu olhar pudesse queimar, as feições de Aricin se contorceram em uma primeira reação.

Skoll manteve-se alerta, e se estivesse em forma de lobo, provavelmente suas orelhas felpudas se erguiriam no alto da cabeça. Mas ele apenas manteve seu olhar firme e curioso sobre o escravo.

Aricin piscou lentamente algumas vezes, sua visão não parecia tão boa, mas ele não parecia tão ruim, apenas cansado. Provavelmente deveria estar faminto por estar há dias sem comer ou beber qualquer coisa, além de medicação.

– Está acordado?

Aricin virou a face para ele, e o analisou com incerteza, até sua expressão ser tomada por terror. Como se pensasse cuidadosamente, ele assentiu lentamente.

– Aricin, permita-me que me apresente. Sou Skoll, líder do clã de Ulfhednar. Sou um conhecido de Svan, o seu líder. — Apresentou-se formalmente, então inclinou-se novamente, hipnotizado pelos olhos bonitos e brilhantes de Aricin. — Por favor evite mover o quadril, o ancião curandeiro deste vilarejo o examinou e identificou que está com uma pequena fratura, mas nada preocupante. Apenas que deve permanecer por algum tempo em repouso até que melhore.

A boca de Aricin se abriu para dizer algo, mas nada saiu. Apenas que Skoll tentou ler os seus lábios, e foi como se o escravo tivesse dito "Wray".

– Wray está inconsciente desde a primeira noite de chuva, quando o vilarejo sofreu grandes perdas por causa do desastre. Mas não se preocupe, o escravo de Svan tem se encarregado de cuidar dele.

Os cantos dos lábios de Aricin se moveram em um quase-sorriso, e ele desviou o olhar com suas bochechas corando. Skoll tentou compreender aquela reação, mas não o fez.

– Aricin, por favor, fale comigo.

O escravo humano olhou para ele e piscou algumas vezes. Suas expressões lhe diziam que ele estava ponderando, quem sabe encontrando as palavras certas do que lhe dizer exatamente.

Skoll esperou por um tempo, mas Aricin não disse nada. No entanto, ele abriu a boca algumas vezes para tentar, mas pareceu arrepender-se.

– Por que não me diz algo? Eu preciso ouví-lo, Aricin. — Ele próprio não entendia porque estava sendo tão educado e considerado com o escravo. Ele nunca antes tinha se importado com um deles, mas dessa vez, com este humano, algo lhe fez ter cuidado o suficiente para falar com ele.

Aricin balançou a cabeça e tentou sentar-se, no entanto apenas fez uma careta e voltou a se deitar. Skoll se preocupou, e teve um certo pensar a seu respeito.

– Você não fala?

O escravo assentiu e enrubesceu em seguida, envergonhado.

Skoll assentiu lentamente e passou seu indicador pela barba de alguns dias em seu queixo. Estava um pouco perplexo com o garoto, certamente a beleza dele era cativante. Ele tinha que admitir, nunca antes encontrara alguém com uma beleza tão distinta. Ele tinha se apaixonado pela aparência do Phaeleh, mas a beleza de Aricin era exótica, de uma forma que nunca antes o cativou.

Deuses, ele não sabia o que estava acontecendo consigo, apenas que queria estar perto desse humano frágil e que estava em um lento processo de recuperação.

– Você deve ter caído um tombo feio, tem uma baita mancha roxa em seu quadril.

Aricin quase sorriu novamente, e isto o fez pensar que ele tinha seus motivos para não querer sorrir totalmente. Não sabia por que, mas queria apenas permanecer ali e curtir da presença de Aricin. Também, transmitir-lhe algo de segurança, desde que ele era tão grande e tão forte.

Decidiu que ficaria conversando com ele, mesmo que Aricin não pudesse respondê-lo. Mas seus olhos atenciosos sempre estiveram nele enquanto ele falou. Isso foi reconfortante.

– Tinha uma grande árvore barrando o caminho de saída, por isso não conseguiu escapar do porão... Você está com fome? — Perguntou a Aricin que assentiu com certa cautela. — O que você gostaria de comer? Eu não sei cozinhar, mas posso conseguir qualquer coisa que queira.

Novamente, Aricin quase sorriu.

– Que tal biscoitos? — Aricin balançou a cabeça. — Maçãs? — Ele balançou novamente. — Talvez um ensopado de alguma coisa? — E pela primeira vez ele deu-lhe um curto sorriso.

Skoll chegou mais próximo de seu rosto, analisando-o bem. Certamente aquele pequenino sorriso fez-lhe doer o peito por algum motivo. Os olhos de Aricin brilharam e pareceram assustados por chegar tão perto.

Afastou-se então e se levantou. — Conseguirei uma sopa quente. — Ele colocou algo mais de lenha na lareira, para manter o garoto aquecido, enquanto fora para a cozinha a fim de tentar algo comestível para o escravo. E enquanto ele parecia alegre, estava confuso. Sua mente não parava de se perguntar porque diabos ele estava fazendo aquilo tudo por um humano?

–*-*-

Pareceu-se que se passaram anos, talvez dezenas deles, para que novamente sua mente emergisse das profundezas de seu ser. Seu corpo fora muito lentamente angariando de volta o funcionamento, cada movimento que antes parecia congelado. Fora revigorante este sentimento quente de quem estava imerso em um profundo poço frio onde a dor era somente aquilo que existia, e de repente emergia para a superfície, como se voltasse a respirar depois de um longo tempo tendo seus pulmões amarrados.

Suas pálpebras se ergueram lentamente. Wray sentia tudo novo... Ele sabia que não tinha sido curado, mas parte daquilo que tinha sim, havia enfim, melhorado.

Não se perguntava o que o tinha feito melhorar, porque de alguma forma sabia... Era Phaeleh. Em alguma parte de seu sonho doloroso, bem ao final dele, uma luz reluziu sobre todo o seu corpo, e Wray sentiu que era cálida e como o revigorou, como uma força divina expandindo por cada célula de seu corpo, fortificando o que estava fraco, trazendo a tona aquilo que estava praticamente morto dentro dele.

Neste momento, Wray sentia como se pudesse se curar, finalmente. Sem ser a morte, mas sim aquela luz ao fim do tunel, que garantia a ele a ajuda que precisava, a cura estava lá, esperando por ele.

Quando enfim seus olhos se desprenderam, sua visão demorou em acostumar-se, até que ao tomar foco de seu quarto, notou que algo estava diferente dentro dele, como se algo que nunca antes fora parte dele, agora estivesse se manifestando em seu interior.

Wray olhou em seu peito para notar que sua visão captava algo como uma nuvem estranha e negra se esvaindo de sua pele nua. Era como se suas impurezas, sua doença, estivesse sendo expulsa de seu corpo, mais especificadamente, de seus pulmões.

Custou para que seus braços apartassem as peles de cima dele, e com uma concentração que não sabia que tinha, Wray se sentou. Por um simples movimento como este, ele ficou ofegante, então recostou-se contra a cama.

– Quero minhas roupas... — Sua voz saiu rouca e enferrujada, mas estava satisfeito que não tinha perdido isso. Olhou bem em seus braços e sentiu seus dedos dos pés, feliz que nada fora amputado, mesmo que não tivesse entrado em qualquer batalha, sabe-se lá o que se faziam para as pessoas sobreviverem de uma doença como a sua.

Suas roupas não estavam lá. Portanto, Wray resolveu que apenas um cobertor serviria para cobrir sua nudez. Embora os Berserkers não tivessem um certo nível de vergonha em estarem nus, o máximo que Wray fez foi ficar sem camisa. Ele sabia que metade de si era elfo, o que refletia em parte de sua aparência, tendo o seu interior como um Berserker e sua força também. No entanto, seu lado elfo que estava mais do que bem guardado agora parecia estar completamente desperto.

Se assustou com um alto soar de panelas caindo e parecia que o mundo estava acabando em sua casa. Wray não se importou com suas limitaçãos, mas pensou que alguém tinha se ferido. Ele rapidamente se sentou à beira e arrastou-se para se colocar de pé, no entanto caiu de volta para a cama, porque ainda sim estava fraco demais para levantar-se e seu estômago se rebelou, grunhindo alto em fome.

Wray abriu a boca para dizer algo, mas começou a tossir, e imaginando que sangraria como sempre fez em mais uma crise, para sua surpresa, nada saiu. Suas mãos estavam limpas.

– Bela visão.

Wray se debateu na cama para se colocar em uma melhor posição por que ele havia caído de bruços e seu traseiro estava nu e à mostra para quem quer que entrasse no quarto. Sobressaltou-se quando notou de quem se tratava.

– Skoll?

– Oh você lembra de mim então. — Ele entrou, mas não fechou a porta, como se estivesse esperando algo ou alguém. — Eu estou com algo fervendo, pensei que não acordaria nunca mais.

Pensou em dizer-lhe algo, mas realmente estava sem palavras.

– Eu estive... Tanto tempo desacordado?

Skoll assentiu austero.

– Foram dias, Wray. Assim que eu cheguei neste vilarejo, vocês foram atingidos por uma grande chuva, foram muitos estragos e Svan está enlouquecendo. O líder dos elfos de Luz está no território por um elfo que foi apanhado nessas bandas... Os elfos das trevas têm atacado silenciosamente também.

Wray arregalou os olhos. — E Meine? Onde ele está?

– Neste momento, com Svan.

– Oh que alívio... — Wray permaneceu sentado com a colcha sobre ele. — E Aricin? Ele está bem?

Skoll hesitou, parecia ponderar sobre como respondê-lo, e isso intrigou Wray quase o levando ao desespero.

– Diga-me logo! Onde ele está?

– Neste momento estou cozinhando para ele, Wray. Aricin teve uma situação um tanto chocante, mas se encontra bem neste momento. Ele realmente é mudo?

Wray sorriu aliviado e assentiu. — Ele não pode vir aqui?

– Ele fraturou o quadril. É algo simples, mas o curandeiro pediu que permanecesse em repouso até que se curasse.

– Oh... — Uma pequena decepção, mas ele iria cuidar de Aricin com tanto carinho. — Você está cuidando dele? Por quê? — Realmente se sentiu curioso sobre isso.

O rosto de Skoll se tornou vermelho escarlate.

De alguma forma isso foi uma resposta para Wray que sorriu malicioso para o líder de Ulfhednar.

– Apenas estou cumprindo um pedido de Svan. Nada além disso.

– Entendo. Melhor ir, sua sopa está fervendo. — Piscou para ele.

Skoll saiu do quarto com uma baita carranca, e Wray caiu para trás rindo, o que desencadeou uma baita crise de tosse novamente. No entando, ele não sangrou e comemorou por isso.

Arrependeu-se por não ter perguntado sobre suas roupas para Skoll. Wray caiu contra a cama novamente quando tentou se levantar, suas pernas ainda estavam muito fracas. O cheiro da cozinha estava estranho, mas ainda sim fizera o seu estômago grasnar com fome.

Sentando-se apenas e observando ao redor do quarto, a lareira estava acesa e tudo parecia no lugar. Ele se perguntou de quem era o trabalho. Havia bastante do cheiro de Meine, mas de Svan também.

Ouvira vozes, e de repente uma alegria brotou no peito como se há saudade de tempos estivesse acumulada. Wray queria tanto poder se levantar e correr até seus amigos e abraçá-los. Ele tentou mais uma vez, levantando-se, no mesmo momento a porta se abriu em um estrondo e Wray caiu exatamente nos braços de Svan sem qualquer força para manter-se em pé.

Seus ouvidos doeram com o gritinho de Meine e ele fora surpreendido por ser empurrado de volta para a cama, caindo todo desengonçado e de bruços. Wray gritou quando Meine praticamente se jogou sobre ele com seu peso de pena. Ele teve que rir, e riu muito, até tossir novamente.

– Wray! Não acredito! — Meine estava tão empolgado que seu rosto inteiro estava vermelho e ele chorava sem notar as lágrimas de felicidade. Wray viu aquilo extasiado, sorrindo muito até suas bochechas doerem. — Pensei que iria perder você... — Ele o abraçou tão forte em suas costas. Wray sentiu as lágrimas quentes de Meine em sua nuca e isso de certo modo mexeu consigo. Ele amava muito Meine, como um irmãozinho, mas nunca pensou que Meine sentiria esse mesmo amor. Ele era grato aos deuses que em sua vida tão lamentável, lhe deram um presente que era este garoto tão sensível, tão amável. Seria impossível que quem estivesse em torno dele pudesse odiá-lo, a pureza que rodeava Meine não se comparava com de nenhuma outra criatura.

De alguma forma seu laço com Meine parecia muito mais profundo agora do que antes. Seu lado elfo era chamado por Meine, seu coração estava sendo revigorado pela luz do Phaeleh.

– Venha aqui. — Svan se sentou à beira da cama e puxou Meine com delicadeza das costas de Wray para que ele pudesse se sentar. Wray sentiu suas próprias lágrimas ao ver o rosto choroso do menino, a alegria em seus olhos inundados de lágrimas, seu rosto completamente vermelho por ser um albino, e fungando terrivelmente.

Wray se aproximou dele e tomou seu rostinho em mãos. — Você sentiu minha falta?

Meine chorou mais e gemeu em resposta, balançando a cabeça como uma criança.

O coração de Wray nunca antes fora tocado tão profundamente. Ele puxou Meine para os seus braços e o abraçou ternamente contra o peito. Pouco se importou que houvesse apenas um cobertor que cobria sua intimidade.

Olhou em Svan e sorriu para ele, era também a primeira vez que ele vira os olhos do líder brilharem como se ele fosse chorar.

Svan se levantou e saiu do quarto.

Sério?

– Neh, Wray... — Meine se afastou um pouco e beijou sua bochecha. — Nós pensamos que você não voltaria mais... Você está se sentindo bem?

– Melhor do que nunca.

– Mas você tossiu agora mesmo... — Meine apontou para o seu peito e corou notando que estava nu. — E-Eu vou encontrar suas roupas!

Wray sorriu quando o elfo saiu de perto dele cambaleando, até que retirou algumas roupas do armário, que serviria como uma camisola para ele usar, até que pudesse se levantar.

Continua...

Notas finais
Miky: Obrigada por ler ♥ Próximo capítulo pede muito mais, espero que gostem! E antes que eu me esqueça, gostaria de pedir um favorzinho singelo para vocês que leem minhas histórias e que curtem o que eu escrevo... Se puderem favoritar minhas fics, ou mesmo recomendar (não apenas Phaeleh, mas outras também), me faria incrivelmente feliz e incentivaria muito mais *O* Eu normalmente não gosto de pedir, é só dessa vez hehe Obrigada mais uma vez! Uma ótima semana e até a próxima! ♥