Phaeleh I
24 Capítulo 24 - Ameaça
Notas iniciais
Yusuf não era capaz de parar quieto. Andava de lado a outro em seu quarto há tanto tempo que era muito provável que em breve houvesse um buraco no piso de ônix demarcando sua inquietante e irrefreável trajetória. Passou a mão por seu longo cabelo e franziu tanto o cenho que poderia ter fundido ambas as sobrancelhas no ato.
Não podia ser verdade. A notícia que recebera não podia ser verdade. Era um absurdo além dos absurdos e ele ainda estava tenso pela ausência de Dain, um de seus mais fortes guerreiros. Dain, muitas vezes, poderia mostrar-se imprudente, mas, jamais em seus rompantes de impetuosidade, ele errou sobre algo tão minuciosamente investigado – o Phaeleh estava com Svan dos Berserkers. Skoll dos Ulfhednar e Darius já estavam se movendo, fechando o cerco, caçando a criaturinha divina que representava a salvação para quem o possuísse.
O maldito urso havia mentido!
Yusuf conhecia o fedelho desde antes de seu nascimento e sempre o vira como honesto e bravo homem, não como uma criatura sorrateira e asquerosa. Estava monopolizando algo que não era seu para pertencer – algo exclusivo dos elfos!
Há muito tempo, antes de o mundo ser mundo, quando os fae ainda eram as únicas criaturas existentes, muito antes de Berserkers, elfos, gigantes, kelpies e todas as variedades de criaturas místicas nascerem, uma sacerdotisa – A Sacerdotisa do Deus Dragão – previu a instabilidade do mundo. Ela havia visto um estranho cenário caótico onde o mágico fora subjugado por algo chamado tecnologia, quando tudo que compunha o sobrenatural seria extinguido até a inexistência.
O Phaeleh, talvez, devesse ter nascido séculos há frente, quando o mundo, de fato, precisasse da sua força para se reerguer – quando as criaturas místicas necessitassem de um herói. Todavia, talvez pela instabilidade ter chegado de outro modo – disputas ininterruptas, guerras, traições, a necessidade de se esconderem atrás de barreiras mágicas para não serem caçados pelos humanos – ele havia surgido muito antes.
Yusuf já havia decidido possuir o Phaeleh. Não lhe importava uma uva a situação dos outros reinos – ele precisava do Phaeleh.
Parou de andar abruptamente quando ouviu o tilintar musical de sinos. Ele esperou, até que um feixe de luz se acendeu no centro do cômodo, serpenteando e borbulhando, formando prateadas espirais, que se esticavam como tentáculos, costurando-se rapidamente diante dele, até tomar uma longilínea forma ovalada, como um espelho. A luz piscou por um momento antes de se reduzir, adquirindo uma superfície vítrea. Logo Yusuf esteve diante do Rei da Corte Unseelie – a corte das trevas das fadas celtas.
Yusuf não esboçou uma reação, mas não se encontrava satisfeito por ter de falar com o homem. Não era aliado do outro, mas lhe fazia bem manter esporádicos contatos – podiam precisar trocar algum favor um dia.
–- Saudações.
O Rei não havia mudado desde o século no qual se viram – permanecia com os cabelos louro-alaranjados arrepiados, espetando para todos os lados, com uma mecha grossa na nuca que lhe descia pelas costas, presa por uma tira de couro. Os olhos ametistas reluziam da cor das urzes e a pele pálida era recoberta por delicadas sardas. Seu peito estava nu e um arco de ouro envolvia o bíceps musculoso, assim como outro arco circundava sua cabeça.
Yusuf sempre o achou bonito, e isso não mudara. O Rei possuía uma beleza do velho mundo que o tornava irresistível. Não acreditava já tê-lo visto sorrir ou brincar alguma vez – era austero e circunspeto, e a frieza lhe chegava aos olhos violetas.
Yusuf o cumprimentou com um aceno de cabeça.
–- Ao que devo sua mensagem? – perguntou, receoso. Estava muitíssimo convicto de que o homem não lhe contatara para discutir alguma temática supérflua. Ele possuía uma natureza misantrópica demais para tal.
O Rei não respondeu de imediato. Parecia simplesmente estar olhando para Yusuf, quase como se não possuísse interesse algum em nada. Então, inalou fundo e soltou o ar em um suspiro por entre os lábios.
–- Ouvi dizer que o Phaeleh renasceu em suas terras – disse em um tom de voz sereno e suave. Yusuf não gostou daquela atitude gélida. Não era um bom sinal.
Yusuf franziu o cenho.
–- Não ouvi nada sobre isso – retorquiu com sequidão – O que quer dizer?
O Rei sequer se alterou.
–- Sabe, Yusuf... Estou há muito tempo nas Cuillin Hills. E, apesar de não sair do meu palácio, não significa que sou cego ou surdo – o Rei dizia sem qualquer emoção em sua expressão ou olhar e essa carência de sentimentos se refletia em seu tom de voz. Yusuf endureceu os ombros, preparado para discutir. Jamais se daria por vencido e odiava se sentir acuado, como se o outro o estivesse esmagando sob a pressão de seu olhar.
As Cuillin Hills compunham um conjunto de montanhas nas ilhas Hébridas perto da Escócia. As criaturas que habitavam a ilha de Skye eram selvagens e grotescas e as lendas que cercavam aquelas terras escarpadas e verdejantes eram inúmeras. Milhares de criaturas habitavam seus domínios e se espalhavam pelas terras escocesas e irlandesas. Mesmo os seus humanos eram ferozes e indômitos, como se mesmo eles possuíssem uma fera descontrolada em seu âmago.
As Cortes Seelie e Unseelie eram respeitadas ao invés de temidas. Era um ótimo lugar para as criaturas mágicas se estabelecerem, pois não haveria problemas por parte dos humanos de lá – entretanto, as invasões vikings eram bastante comuns.
Yusuf visitara apenas uma vez Skye, quando ainda era menino e seu pai era rei. Naquela época, o Rei Unseelie já existia e Yusuf poderia dizer que os fae eram como uma raça suprema, apenas inferior aos deuses.
E ao Phaeleh.
Ah, não, ele não poderia estar atrás do Phaeleh também!
–- Eu não sei nada sobre o aparecimento do Phaeleh – rosnou entre dentes.
–- Não importa – ele deu de ombros com indiferença – O Phaeleh está em sua forma física e será muito simples encontrá-lo.
–- Por que o deseja tanto?
–- Vocês não são dignos do Phaeleh. Ouça bem, Yusuf... – uma faísca diabólica fez os olhos de urze do Rei escurecerem até se assemelharam a um roxo intenso – Se eu comprovar que o Phaeleh está aí e foi deflorado por alguma de suas tribos ridículas... Eu vou interferir.
Yusuf odiava o rumo que a conversa estava tomando.
Tudo naquele mundo era sobre o Phaeleh agora?
Quem mais apareceria em sua busca, os vampiros da Rússia?
Ele sufocou um rosnado e inalou fundo para se acalmar e não demonstrar seu descontento.
–- Então, não está declarando guerra sem motivo?
–- Nada do que eu faço é despropositado, inferior – disse, soberbo – Eu não me envolverei em momento algum em suas disputas tolas por motivos irrelevantes, a não ser que o Phaeleh esteja envolvido e seja deflorado por alguma de suas bestas.
–- Mas ele não está aqui!
–- Isto veremos, meu caro.
O espelho de luz se desfez em uma explosão de partículas luminosas, deixando Yusuf fuzilando o nada com o olhar. Se o Rei já sabia que o Phaeleh se encontrava naquelas terras... Darius também o saberia. E se o maldito filho de uma cadela já possuísse tal conhecimento, também chegara a hora de os elfos das trevas se moverem. Apenas Dain não seria capaz de lidar com tudo o que estava acontecendo.
Os Berserkers. Os Ulfhednar. Os elfos de luz. Todos eram seus inimigos.
Ele cerrou os punhos com força, a ponto de as garras perfurarem a carne macia de suas pálidas palmas, fazendo filetes carmesins escorrerem por entre os dedos. A raiva que o corroía fez os ombros tremerem e ele soube que seus olhos se tornaram completamente negros como o chão sob seus pés.
O Phaeleh não podia cair nas mãos de ninguém além dele. Era muito perigoso. Dar vida eterna, sorte e prosperidade a um inimigo? Se Darius fosse ainda mais forte do que o que já era... Sem dúvida alguma, todos os outros reinos ruiriam. Yusuf podia não ser bom, mas Darius, mesmo sendo um elfo de luz, também não era o símbolo da pureza e magnificência. Oh, não, o maldito destruíra muito em seu caminho para ascender ao trono.
E quem sabia a verdade sobre ele? Apenas Yusuf.
–- O Phaeleh é meu – rosnou entre dentes.
Ele mandaria seus servos mais ferozes para obterem a criaturinha sagrada. Suas bestas devoradas pela mácula, sedentas por caos e carnificina.
Oh, sim, agora as coisas ficariam mais animadas. Logo, logo o Phaeleh seria seu.
–*-*-
Quando Niels entrou no quarto horas antes do amanhecer, sentia-se preparado para desabar na cama sem um banho. Cada músculo de seu corpo estava retesado e dolorido pelas ininterruptas horas de trabalho duro – uma choupana de madeira estava sendo rapidamente construída para abrigar os mais feridos e necessitados e as mulheres do clã se reuniram para preparar refeições comunitárias, servidas em mesas de madeira improvisadas no centro da aldeia. Aqueles cujas casas sobreviveram ao ataque brutal da tempestade estavam oferecendo espaço aos que já não possuíam onde morar.
Svan ordenara que as sentinelas reforçassem a segurança nas fronteiras – o clã estava fragilizado demais para suportar um ataque. As reservas para o inverno haviam sido quase completamente destruídas e o pouco que sobrara estava servindo para o replantio nas terras incólumes aos pés da montanha, o que era bastante longe de onde eles moravam.
Os homens acordavam cedo para trabalhar nas plantações e com o pastoreio – o gado estava praticamente totalmente morto e Niels sugerira vendê-los ou troca-los por algo que os beneficiasse naquele momento. Como a ferraria também fora destruída, poucas armas sobraram. Eles mal estavam se mantendo vivos.
A terra ainda estava alagada, o que tornava inviável plantar algo nas imediações da igreja.
Niels passara a tarde e quase toda a noite trabalhando na choupana para os desabrigados e ingerira tão rapidamente a refeição oferecida por Freya, que sequer se lembrava do gosto do caldo. Ele estava exaurido, carente de energia ou de pensamento racional. Arrastava os pés, sentindo dores por todo o corpo.
Amanhã, continuaria trabalhando na choupana com os homens. Ele tinha muito trabalho duro a fazer – as atribulações pareciam infindáveis.
Assim que abriu a porta do quarto, notou que a lareira já estava acesa, com tocos de madeira queimando e crepitando na habitação silenciosa. Ele fechou a porta com o pé enquanto se despia e não pode esconder sua consternação ao ver Rurik de volta ao tapete no chão.
Niels passou a mão pelo cabelo, observando a figura de seu escravo enquanto espalhava pelo cômodo as peças de suas vestimentas. Rurik estava de frente para o fogo em posição fetal, os ombros encolhidos. O cabelo revolto nunca deixaria de possuir seu charme indomável.
Niels se aproximou o mais silenciosamente possível do rapaz. Não queria acorda-lo, mas queria desperta-lo para fazê-lo lhe dizer que merda fazia largado no piso ao mesmo tempo. Já lhe havia ordenado para dormir na cama com ele, então por que estava sendo desobedecido?
Ultimamente, Rurik vinha demonstrando um temperamento irascível e voluntarioso. Em geral, seu escravo era meigo e subserviente – Niels gostava da forma como Rurik o olhava, como se fosse a única entidade no mundo que lhe fosse preciosa. Ele nunca havia se sentido tão importante e necessário para alguém, mesmo que, normalmente, Rurik fosse quem estava sempre cuidando dele, tratando-o com um zelo inestimável, como se Niels fosse... amado.
Claro que não havia amor. Seria ridículo pensar que havia um sentimento tão importante no peito de um escravo.
Afeição? Desejo? Sim, isso ele podia entender.
Niels se ajoelhou ao lado do corpo adormecido e pousou a mão suavemente no ombro magro e nu de Rurik – sentiu a firmeza dos músculos delgados sob seus dedos e se deleitou com a sensação.
Rurik costumava usava roupas três vezes o seu tamanho, o que fazia com que seu corpo se perdesse dentro de quilos de panos, ocultando suas formas de qualquer olhar. Niels apenas sabia que ele era bem formado por já tê-lo visto apenas de calça.
Por que ele se escondia dentro de tantas roupas folgadas?
Curioso, Niels afagou o braço alvo. Sobressaltou-se ao ouvir um sonolento e arrastado gemido.
Ah, deuses... Ele devia estar há muito tempo sem sexo para sentir ânsias de tocar o homem ruivo no chão.
Forçou-se a se erguer, olhando-o de cima antes de se entregar ao ímpeto de toca-lo mais. Afinal, Rurik estava chateado com ele por ter esmurrado o fedelho de Svan. Ao que parecia, o maldito elfo se tornara tão importante para os seus amigos e seu irmão, que todos queriam mantê-lo e cuida-lo. Ninguém culpava Meine pela desgraça que caiu sobre os Berserkers.
Por que ninguém o entendia?
Por que ninguém via as coisas como ele via?
Não era como se odiasse Meine – ele já o havia aceitado como algo como parte da mobília da casa. Como se fosse a bota preferida de Svan ou seu travesseiro predileto. Agora, como uma pessoa? Nunca. Meine era escravo e era o culpado por toda aquela merda.
Niels se deixou cair sentado na beira da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos e segurando a cabeça entre as mãos.
Nunca deveria ter comprado Meine. Niels jamais pensou que fosse se arrepender tão amargamente de tomar uma decisão, mas ali estava – profundamente perdido em autoflagelação, dividindo a culpa por Meine ser uma maldição sobre eles e por ele ter sido estúpido o bastante para olhar para aquela porcaria pálida e decidir dá-la de presente ao seu irmão.
Como tudo pudera se tornar tão malditamente fodido?
Sua intenção fora presentear seu irmão. Queria lhe dar algum prazer, alguma válvula de escape para todo o estresse de sua função. E o que fizera? Trouxera mais problemas para Svan. Se Niels escutasse seu Chefe, já teria aprendido há muito tempo a não ser tão imbecil. Sua decisão tola enfiara Meine em suas vidas.
E isso destruíra seu clã e os lançara em uma guerra que não lhes pertencia.
Então, de quem era a culpa realmente? De Niels ou de Meine?
–- Niels? – a voz rouca e baixa de Rurik o fez erguer o rosto e deixar cair as mãos. Encarou o homem sentado sobre o tapete diante do fogo, esfregando um olho com uma mão pelo sono. Niels sentiu um doloroso aperto no peito pela culpa que o assolava e toda a sua dor parecia se refletir nos olhos de jade do rapaz. A luz do fogo parecia envolver Rurik em um halo de luz alaranjada, fazendo seu cabelo rebelde adquirir a aparência de um fogaréu.
Era estranho. Niels nunca vira Rurik como bonito, mas ali estava ele... Embebendo a imagem do escravo como se aquilo lhe fosse precioso.
O que havia de errado consigo?
–- Ei – forçou-se a dizer, e seus lábios tremeram quando obrigou-se a sorrir fracamente. – O que faz na merda do tapete, garoto?
Rurik bocejou, ignorando completamente o falso temperamento de Niels. Seria possível que soubesse quando ele realmente estava bravo de quando se fingia de irritado?
–- Dormindo, Niels.
–- E onde mandei que dormisse?
Rurik apoiou ambas as mãos nas coxas das pernas cruzadas encarando-o com as pálpebras semicerradas.
–- Na cama.
–- E então? – Niels retorquiu.
Rurik sequer se alterou.
–- E então o quê?
Ele bocejou preguiçosamente.
–- Venha para a cama!
–- Certo, Niels.
Devagar, Rurik se levantou, mostrando a ele que, apesar de sua obediência, também havia um pouco de insubordinação. Sem pressa alguma, arrastou os pés, até parar diante de Niels, olhando-o tão dentro dos olhos que Niels se sentiu não apenas nu fisicamente, mas emocional e psicologicamente também.
Era como se Rurik pudesse ler sua alma sem dificuldade.
–- Niels – ele disse baixinho – Eu gostaria de não dividir a cama com você.
Aquilo o perfurou como uma lança. Não entendeu por que se sentiu arrasado com aquela declaração e isso fez com que se fechasse em si mesmo, erguendo uma muralha invisível entre ele e o garoto.
–- Mas vai – grunhiu – Estou mandando.
Rurik enrijeceu. O momento pareceu se prolongar ininterruptamente – Rurik quieto, desgostoso, subjugado. Então, subitamente, foi para a cama, deitando-se e ficando de frente para Niels. Seus olhos estavam tão fixos e intensos que Niels se sentiu desconfortável.
–- O que foi? – perguntou, ríspido. – Esse olhar... É porque bati em Meine?
Rurik não respondeu de imediato e permaneceu fitando-o fixamente. Era enervante. Então, lentamente, ele negou com a cabeça.
–- Você não fez por mal – murmurou – Acredito que... Não o tenha feito.
As sobrancelhas de Niels se elevaram e, mesmo sujo e suado como estava, deitou-se na cama, aproximando-se de Rurik para olha-lo de perto, até que seus narizes estivessem muito próximos e ele pudesse ver o rubor que coloriu as bochechas do ruivo.
–- Por que tem essa fé em mim, Rurik?
Por que ele cuidava dele com tanto empenho?
Por que lhe dedicava tanto carinho, tanta atenção?
Por que, mesmo após sua grosseria, sua fé nele não titubeava uma vez sequer e permanecia defendendo-o e acreditando em sua inocência?
Rurik mordeu o lábio inferior com força e Niels viu como seu olhar se alterava, mudando para uma emoção que ele não soube nominar.
O que se passava ali?
–- Agrediu Mei e ainda acredita que ele seja mau?
Aquela pergunta o surpreendeu novamente. Não fazia sentido que Rurik pudesse ver tão profundamente nele, mesmo sendo um Oráculo. Não fazia sentido. Não era concebido em sua cabeça que o rapaz o lesse tão facilmente. Suas dúvidas de momentos atrás retornaram com a força de um aríete e a culpa o deprimiu e aborreceu mais uma vez. Não conseguia não pensar que toda aquela merda era mais culpa dele por ter escolhido aquele escravo do que de Meine por atrair tanta desgraça.
Niels jamais deveria presentear outra pessoa novamente.
Se fosse uma pessoa qualquer, teria, certamente, ficado quieto e mandado que partisse. Mas, sendo Rurik, tudo o que foi capaz de fazer foi deitar as costas no colchão e cobrir os olhos com um braço. Sentiu o homem se aproximar, até que ele podia sentir o calor do peito nu muito perto de seu braço.
–- Niels?
–- Você também acha que estou errado, não é?
–- Niels...
Dedos tocaram suavemente seu ombro e ele não pode evitar estremecer.
–- Por que merda está com esse olhar de mágoa se diz que não fiz por mal? – esbravejou.
Enrijeceu quando Rurik se aninhou ao seu lado, aconchegando-se contra seu braço.
–- Eu... Quero fazer uma pergunta.
–- Então faça!
Rurik hesitou.
O que ele queria lhe dizer?
Por que estava agindo daquele modo?
–- Tenho medo de ouvir a resposta, Niels.
Niels não soube o que dizer. Ele se sentia estranhamente perdido e fora de rumo – queria saber por que Rurik estava chateado com ele, se não era por culpa do albino. Ainda se culpava e culpava ao garoto por toda a desgraça que destruía o clã. E não conseguia pensar em nada que sanasse suas inseguranças. Ainda assim, também se sentia revoltado consigo mesmo por estar no meio de uma crise de carência pela atenção de alguém – não era por um escravo. Rurik apenas era a companhia mais oportuna do momento.
O que havia de errado com ele, afinal?
Não conseguia se reconhecer.
–- Diga, Rurik.
–- Você... Você tem nojo de escravos, não é?
–- Sim – respondeu sem pensar duas vezes. E arrependeu-se no mesmo instante em que as palavras saíram de sua boca, pois Rurik suspirou e tremeu como se o tivesse esbofeteado. Niels não mentira; realmente desprezava os escravos. Eram uns tipinhos asquerosos demais para existir, muito embora, por algum estranho motivo, Rurik não parecesse se enquadrar naquela categoria. Quando se deu conta do que acabara de fazer, desceu rapidamente o braço dos olhos e se apoiou em um cotovelo, voltando-se para o ruivo para se retratar... Mas Rurik deslizara para a extremidade da cama e lhe dera as costas, tão endurecido quanto uma pedra – Rurik, eu...
–- Eu já sabia – ele disse em uma voz calma, que destilava tensão. – Eu... Eu já sabia. Me desculpe, Niels.
Niels esteve tão inerte, tão paralisado por não saber o que fazer, o que falar... Que apenas viu o passar dos segundos enquanto perdia Rurik para suas palavras ditas incompletas.
Continua...
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