Phaeleh I
25 Capítulo 25 - Resistência
Notas iniciais
Sky já não possuía ciência do mundo ao seu redor. A dor das torturas estava superando sua resistência e sua mente afundara para um vórtice de torpor no qual nada fazia sentido. Vez ou outra ainda captava vislumbres da realidade – seu algoz erguendo um látego para cavalos, ou aproximando a ponta de um ferro quente de alguma parte de se corpo. Suas unhas foram arrancadas, os dentes, todos quebrados. Esmagaram seu braço até que não pudesse mais movê-lo, tornando-o uma tira de pele e ossos. Ele não comia regularmente e sabia que perdera peso pela fraqueza que se instalara em si. Às vezes, ouvia o eco de seu grito retumbar pelas paredes e seus captores riam, ameaçando fazer pior caso ele não revelasse o que sabia sobre o Phaeleh.
Ele não soube quando as simples agressões de socos se tornaram agressivas a ponto de testar sua capacidade de regeneração. Eles esperavam que Skylar se recuperasse o bastante para sentir a próxima onda de tortura. Na maioria das ocasiões, sua mente se dividia entre implorar pela própria morte, trair Svan e revelar o pouco que sabia e se manter irredutível. Mas era impossível se manter insensível – sua garganta já estava rasgada demais por gritar tanto.
Quando voltou a si, totalmente desnorteado e sem a mais ínfima ciência de quanto tempo já se passara – horas, dias, semanas – desde que fora capturado, estava deitado novamente na familiar mesa de madeira das torturas. Ouviu o resfolegar de cavalos e sentiu um fraco cheiro de feno. Sua cabeça oscilou pesadamente de lado a outro, os olhos se revirando nas órbitas na tentativa falha de despertar – ou de dormir eternamente para que não sentisse mais o que lhe faziam.
O que era isso?
Queria voltar para a inconsciência. Queria se resguardar em si mesmo para nunca mais voltar para a realidade.
–- Está acordado – uma voz disse e bom humor.
–- Olá, amigo! – alguém cantarolou.
Skylar grunhiu do fundo do peito, expondo as presas que haviam crescido em meados de algum de seus desmaios. Seu corpo estava talhado por horrendas cicatrizes e feridas que ainda não haviam se curado e sangravam profusamente. Apenas o ato de rosnar lhe causou dor o bastante para que gemesse.
–- Ele está cheio de energia hoje! – um homem riu.
Não, não se tratava disso. Ele já não tinha esperanças de sobreviver. Depois de tanto tempo largado naquele calvário, já possuía a absoluta certeza de que sua vida acabaria ali. Ninguém sentira sua falta, ninguém iria busca-lo. Ele era inapto para salvar a si mesmo. Tudo que lhe restara era tentar ser forte o bastante para morrer com dignidade – sem revelar os segredos que a ele foram confiados por seu Chefe e grande amigo.
Começou a rezar aos deuses para morrer. Implorava com toda a energia que possuía para que alguém o matasse logo. Ele tinha de morrer.
Ouviu o tilintar musical e estridente de correntes.
–- Vamos, amigo – falou um dos homens, exibindo seu bom-humor – Conte-nos apenas se Svan está com o elfo maravilhoso.
–- Seja bonzinho e seremos bonzinhos com você também.
Skylar teria debochado daquilo se pudesse.
–- Se ele não quer falar, então, teremos de brincar um pouquinho, certo?
Oh, maldição. Não, não, não, não.
–- Eu... – sua voz saiu estranhamente arranhada e rouca, e ele não soube se era por tanto gritar ou por não falar normalmente há muito tempo. Ou os dois. – Eu não sei... Svan... Svan não me...
Uma mão se fechou com força em seu pênis, apertando até fazê-lo trincar os dentes pela dor.
–- Não adiante mentir, monstro.
Uma risada.
–- E se arrancarmos essa coisa dele?
–- Não deve fazer falta – alguém disse com indiferença – Ele não vai ser capaz de enfiar essa coisinha na bunda de ninguém mesmo.
–- Oh – risadas altas. Sky enrijeceu em uma mescla de dor e ódio – O Chefe dele não vai sentir falta de sentir isso na bunda?
Mais risadas.
Sky lutou por se rebelar, e foi quando notou que seus pulsos foram erguidos e separados acima de sua cabeça, presos por correntes, assim como seus tornozelos, cada um apontando para uma extremidade na mesa. Quanto mais se mexia, mais as correntes tilintavam e mais os cavalos resfolegavam, tornando-se irrequietos.
–- Ele se incomodou! – gargalhou alguém – Não podemos falar do Chefe da tribo de pulguentos sem ofender o pulguento garanhão – tapinhas em sua coxa o fizeram rosnar guturalmente – O quê? Está magoado? Desculpe, amigo.
–- Podemos fazer as pazes se nos contar umas coisinhas.
–- Onde está o Phaeleh?
–- Porra, eu não sei! – rugiu.
–- Então, vamos brincar até você se lembrar.
Quando instigaram os cavalos a avançarem a passos lentos, Skylar sentiu as aguilhoadas infernais de dor em suas articulações à medida em que seus braços e pernas eram puxados, esticados além dos limites. Cotovelos, joelhos, tornozelos e pulsos foram atravessados por uma queimação desesperadora e Sky ouviu um grito – ah, era seu grito. O sofrimento ascendia em uma escala colossal, puxando seus membros, enchendo-o de tensão. Um estalo alto ecoou pelo local e Skylar arqueou as costas em um urro agonizante de cru sofrimento. Ele se contorceu, lutando por puxar-se de volta e se enrolar em si mesmo, mas as correntes que lhe rasgavam a carne forçavam seus ossos a se separarem brutalmente. Ouvir os cacos dos cavalos de encontro ao chão se tornou um som medonho e atemorizante e ele sabia que gritar não aliviaria aquilo que o destruía.
Os homens riram, divertindo-se, enquanto puxavam seus braços e pernas para longe do corpo. A dor em seu cotovelo quebrado aumentava exponencialmente por ainda ter o braço sendo forçado para longe de seu corpo. E ele gritou e gritou com todas as forças que possuía, até desabar sobre a mesa, arquejando, os olhos tão abertos e secos que poderiam cair das órbitas.
–- Já está se lembrando de algo, amigo?
Suor frio empapou seu corpo nu e ele fechou os olhos com força quando as odiosas lágrimas involuntárias começaram a escorrer por suas bochechas. Skylar chorava e rogava silenciosamente aos deuses para que o matassem antes de sofrer mais. Mesmo que morresse em desonra e não fosse levado pelas valquírias aos portões de Valhala por não ter morrido bravamente em batalha como um guerreiro digno deveria fazer, ele queria morrer.
Queria que o suplício findasse.
Sua cabeça oscila violentamente de lado a outro enquanto gritava. Em sua mente, formou a imagem que mais lhe dava forças e desejo de viver – Wray. Seu lindo Wray.
Perdoe-me, Wray. Não quis te magoar. Eu só... Eu só estava com medo. Tinha muito medo. Você ama outro e me dói acumular tanto amor por você, tanto carinho... E tudo não é recíproco. Nunca te disse nada porque você nunca olhou para mim como algo além de um amigo e eu não desejava perder isso... Essa... Preciosidade. Eu queria tanto te abraçar como Svan faz com Meine. Queria fazer você sorrir. E te beijar sempre que desejasse. Se eu pudesse fazer diferente...
Ele gritou, contorcendo-se de dor. A cada estalo ouvido, um inferno explodia em seu interior, enchendo-o de náusea e sofrimento. Ele só queria que acabasse, que...
Se eu pudesse mudar o que eu fiz, eu tentaria de novo. Eu tentaria conquistar o seu amor.
Mais um estalo. Ele se convulsionou e a cabeça bateu com força na mesa. Os homens riram.
–- Agora já não é tão feroz, não é, monstro?
Wray...
–*-*-
Meine acordou naquela noite com o peito dolorido. Seu coração pesava tanto que ele não soube o que fazer e, assim que abriu os olhos, sentiu lágrimas pesadas e abundantes escorrendo por seu queixo. Seus ombros tremeram enquanto chorava e soluçava compulsiva e irrefreavelmente. Ele não entendia que lamúria era aquela que se instalara em seu ser, mas fora tão forte que o fizera despertar aos prantos, como se alguém precioso estivesse morrendo.
Ele se sentou, cobrindo o rosto com as mãos, tentando engolir aquela dor, aquela falta... Não entendia o que se passava e, em sua mente, as perguntas pulavam energicamente, deixando-o confuso e intrigado a respeito de sua reação.
A princípio, estivera tendo um sono tranquilo e não se recordava de ter sonhado nada. Então, fora puxado abruptamente da zona de conforto para um caos sôfrego e agonizante e tudo o que podia fazer era chorar enquanto seu coração era espremido por um punho de aço.
O que estava acontecendo com ele?
Meine não era uma garotinha ou uma criança para se debulhar em lágrimas tão dramáticas.
–- Meine? – a voz rouca e baixa de Svan se assemelhava a um grunhido. Ele sentiu o colchão se movendo quando Svan mudou de posição para se sentar ao seu lado. A mão grande e calejada era áspera, porém terna, quando pousou em suas costas. Meine afundou em si mesmo, chorando ainda mais desenfreadamente quando o nó em sua garganta pareceu sufocá-lo. Em geral, era muito bom que Svan possuísse um sono tão suave, mas, naquele momento, Meine não gostou. Além de estar se desfazendo em um choro inexplicável, não encontrava sua própria voz para falar. Tampouco sabia o que poderia dizer quando nem mesmo ele compreendia o que se passava – Ei, Meine, o que houve?
Svan passou um braço por sobre as costas de Meine, puxando-o para si em um abraço cálido e confortador. Esfregava seu braço carinhosamente na esperança de serena-lo. Meine negou com a cabeça, soluçando nos braços de Svan, tremendo e se permitindo ser embalado cuidadosamente.
–- Vai ficar tudo bem – ele murmurou para os cabelos de Meine, pousando um beijo suave no topo de sua cabeça – Vou cuidar de você.
Uma estranha urgência se instalou em seu peito – algo terrível estava acontecendo, mas o que era?
A angústia crescia, fortalecendo-se como um monstro, preparando-se para asfixia-lo. Mesmo o carinho de Svan não era o bastante para sanar a dor em seu coração – teria algo a ver com sua avó?
Assim que pensou sobre isso, o pensamento desapareceu e sentiu que não se tratava disso. Não era uma premonição abstrata sobre sua avó. Era... Algo melancólico. Desesperador. Depressivo. Cruel. Era como se... Era como se uma alma atormentada estivesse enlouquecendo e clamando por alívio para o seu calvário. Meine queria sair daquele poço de maldição e desgraça, mas, quanto mais tentava se desvencilhar das sensações ruins, mais e mais afundava nas emoções mais obscuras que destruíam as pessoas.
E aquilo o estava destruindo.
–- Van – ele gemeu, a voz trêmula entrecortando as palavras enquanto soluçava. Svan o apertou, puxando-o para sentar entre suas pernas e se recostando em uma pilha de travesseiros. Meine se apoiou em seu peito, sendo abraçado e afagado como um gatinho assustado – Van.
–- Shh – Svan o acalentou – Estou aqui.
Meine negou com a cabeça.
Por que a coisa ruim não vai embora?
Meine se ajoelhou entre as pernas de Svan, passando efusivamente as mãos nos olhos para se desvencilhar da torrente de lágrimas, o que se provou ser uma ação inútil. Svan apenas o olhou, franzindo profundamente o cenho em preocupação, semicerrando os olhos em sua característica carranca raivosa.
–- Dói – Meine gemeu, chorando mais e mais.
Svan ficou tenso e um rosnado borbulhou em sua garganta quando expôs as presas. Em outra época, Meine teria se assustado, mas, agora, estava tão habituado aos resmungos e rosnados que já não o atemorizavam.
–- Onde? – grunhiu.
Meine segurou sua mão com dedos trêmulos, erguendo-a devagar para pousa-la sobre seu peito, sobre o coração. A palma de Svan era simplesmente enorme – grande como um monstro, áspera e cheia de cicatrizes e calos.
–- Aqui – Meine gemeu, inalando fundo ao estremecer quando uma nova onda de dor o assolou – Algo está errado.
Svan segurou seu rosto entre as mãos, usando os polegares para lhe enxugar as lágrimas, mesmo quando o fluxo não se deteve.
–- Diga-me o que sente – Svan rosnou entre dentes. Aquela fúria contida nada mais era do que proteção e preocupação.
–- Eu sinto que... – Meine juntou as sobrancelhas, pensando a respeito. O que estava sentindo além da dor? Ele imergiu em si mesmo, buscando apurar as sensações, o que aumentou sua angústia – Dói. Sinto que há algo errado e ruim, que... Van, alguém...
–- Alguém está mal?
A rigidez nas mãos de Svan espremia as bochechas de Meine, que assentiu com a cabeça.
–- Algo terrível está se passando.
–- Com quem?
Os olhos de Meine se abriram pela surpresa.
–- Acredita em mim?
Os olhos de Svan se estreitaram ainda mais e ele franziu os lábios para mostrar as presas ameaçadoras quando um rosnado ribombou em sua garganta, fazendo seu peito tremer.
–- Com quem, Meine?
A intensidade de suas palavras o pegou desprevenido e o acalentou. Não esperava que Svan fosse confiar nele tão facilmente e isso pareceu arrefecer infimamente a sua dor.
–- Eu... Eu não sei – admitiu tristemente, deixando cair os ombros.
Svan agitou a cabeça em concordância, como se absorvesse as informações e mentalmente as analisasse.
–- Niels?
Meine pensou a respeito. Assim como foi quando suspeitou de sua avó, ao pensar em Niels, sentiu apenas um... nada. Não era Niels. Então, negou com a cabeça.
–- Rurik?
–- Não.
Quem era?
–- Wray?
A ponta de dor ao ouvir o nome de Wray o fez pular da cama com um ofego e um gemido – seu peito queimou e o dolorido coração galopou velozmente em cruel expectativa. Meine se lançou para fora da cama, buscando ao menos sua calça, sentindo Svan reagir prontamente, já em seus talões.
–- Wray! – Meine choramingou. Seus dedos enrolaram enquanto lutava com os cordões da peça e ele desistiu com um bufo, encaminhando-se descalço para a porta – Wray... Wray...
–- Meine! – Svan rosnou – Suas botas! Vista-se direito!
Meine olhou por sobre o ombro, esfregando o coração com a palma como se assim pudesse afastar a dor.
–- Não há tempo, Svan.
Ele disparou a correr para fora da casa e logo foi recebido pela lama, que cobriu totalmente seus pés e sujou sua calça. Svan não veio logo em seguida, o que lhe deu espaço para se focar unicamente no trajeto até a casa de Wray, que permanecera incólume após a tempestade, talvez por ser mais abastada da aldeia. Meine se esforçava ainda mais para avançar do que normalmente, pois o chão parecia desejar traga-lo par suas entranhas, grudando os pés na lama e fazendo pesar suas pernas. Ainda assim, ele correu com toda a força que possuía, mesmo quando estava ofegando pelo cansaço.
Não lhe importava realmente. Tudo o que sabia era que algo ruim estava acontecendo com Wray e que precisava urgentemente chegar a ele.
E se Wray estivesse em uma de suas crises?
E se Wray estivesse com muita dor?
E se Wray estivesse com febre?
E se Wray tivesse desmaiado?
E se algum dos elfos ruins estivessem lhe fazendo mal?
Meine podia não ser forte, mas planejava compensar ausência de força física com determinação e estava obstinado a salvar seu amigo. Wray era a pessoa mais importante em sua vida, rivalizando com Svan – apesar de Svan vencer um pouco pelo fato de possuir seu amor de forma romântica. Wray possuía seu amor fraternal, como um irmão. Meine não podia perdê-lo, não podia permitir que desistisse de lutar.
Ele correu e tentou. Ah, ele tentou muito ser veloz. E não conseguia não chorar.
Quando, depois de muito tempo, avistou a casa de Wray, o caminho pareceu se postergar, alongando-se e se tornando ainda mais longínquo do que realmente era. Isso instalou em seu peito uma espécie de desespero, de ânsia inexplicável.
–- Você é muito lento.
Um braço se enrolou em torno de sua cintura e Meine foi erguido do chão, salpicando lama para todos os lados, enquanto era depositado sobre um largo ombro. Svan corria, os pés chapinhando audivelmente. A cada pernada sua, eles pareciam avançar cem metros. Era incrível como o tamanho e a velocidade de Svan trabalhavam em conjunto e, daquela vez, ele não se incomodou em estar olhando para o traseiro firme de seu Berserker. Se não fosse por sua dor, certamente teria adorado segurar suas nádegas como Svan fazia com ele.
Svan avançava com uma força destruidora e Meine tentou olhar por sobre o ombro, mas o mundo parecia tremular e vibrar ao seu redor.
–- Estamos perto?
–- Estamos chegando.
Svan correu como um possesso, deixando uma trilha funda de pegadas atrás de si. Por fim, ele parou bruscamente e Meine gemeu quando chocou a cabeça em suas costas. Delicadamente, Svan o desceu, pondo-o em seus pés sobre o chão mais firme. Meine se sentia nauseado e tonto pela viagem violenta que empreendera. Svan estendeu uma manta sobre seus ombros para esquenta-lo – o cuidado o aqueceu por dentro e ele pressionou os lábios para não sorrir, o rubor lhe colorindo as bochechas. Não queria que Svan notasse seu contentamento por algo tão singelo e não havia tempo para se agradar – a angústia estava mais dolorosa do que antes.
Meine beijou o peito desnudo de Svan como agradecimento, sentindo o quão bom era a pele quente em contato com seus lábios. Então, girando nos calcanhares, rumou para a porta de Wray. A casa estava escura e silenciosa e os pelos no corpo de Meine se arrepiaram.
–*-*-
Meine aproximou-se lentamente e entrou facilmente na residência de Wray. A porta estava entreaberta — sendo que recentemente eles substituiram as cortinas de peles por portas de madeira de Saranmir. Não era grande coisa esquecer a porta aberta visto que fora tão recentemente essa mudança.
A sala de estar da pequena casa estava vazia, a lareira apagada e haviam grandes poças de água, vestígios da chuva na noite passada. Estava escuro, tanto por ser noite, como não havia sequer uma lamparina acesa. Meine olhou ao redor, assim como Svan fazia.
– Não saia de perto de mim. — Svan murmurou. Meine sabia que ele também sentia algo que o fazia temer. Nenhum deles sabia exatamente o que era, porém sentiam que certamente algo não estava bem e provavelmente com Wray.
Era óbvio o rastro de lama dentro da casa que se misturava com a água das enormes goteiras. Meine inclusive reparou que havia uma abertura no forro de madeira, o colmo que cobria a casa parecia um pouco espalhado e um buraco foi o suficiente para inundar o tapete e a frente da lareira.
A casa estava uma bagunça, parecia que vento e chuva encharcaram tudo e derrubaram todas as coisas possíveis. Uma estante, onde Wray costumava depositar seus livros prediletos, estava inclinada sobre uma das poltronas, os livros espalhados e molhados. Uma centena de pergaminhos e documentos que Wray guardava, estavam todos imersos nas poças de água.
Já no corredor, eles encontraram vestígios de sangue, inclusive nas paredes aonde provavelmente Wray se recostou em uma crise de tosse. Meine se desesperou, seus olhos foram como pratos e o sangue drenou de sua face. Svan fraziu o cenho para todo aquele sangue. A escada que levava para o sotão estava aos destroços e a parede daquele lado estava destruída para onde a copa de uma árvore havia caído justo naquele local dificultando a passagem deles para o quarto de Wray. O único quarto do chalé.
A porta estava emperrada, e Svan não teve opção senão arrancá-la fora para entrar. Foi como Meine pensou, Wray não estava na cama, ele estava caído no outro lado do quarto, de bruços em uma poça de sangue.
Hesitou quando o viu, sentindo um desespero tão grande que não sabia exatamente o que fazer, completamente sem reação. Svan, por sua vez tomou a frente de Meine, se agachou e virou Wray de costas para o chão de madeira.
– Wray... Wray?! — Svan deu-lhe tapinhas no rosto, mas o que não lhe fora suficiente para fazê-lo acordar.
– Wray... — Meine ainda estava parado, seu peito doía e doía, não parecia melhorar mesmo estando próximo de Wray. Ele estava... Morrendo? — Ele está morto, Van?
– Não. No entanto ele está congelando, traga-me algo para esquentá-lo. Deuses, onde diabos está Aricin quando se precisa dele! Um escravo deveria estar disponível a todo momento! — Rugiu.
Meine olhou-o por um momento, mas decidiu não levar em consideração suas palavras, sabia que elas não se referiam exatamente a ele. Mesmo que fosse um escravo. Por outro lado, se perguntou também onde Aricin estava... Ainda se lembrava do escravo que vivia se escondendo. Bem, ele poderia estar se escondendo agora, o que era estranho, visto que seu mestre estava tão doente.
Olhou em Svan que estava dando duro para acordar Wray, ele tinha erguido o corpo do arqueiro e o depositado sobre a cama. Meine ainda sentia o aperto em seu peito, um pouco menor, mas não havia tido qualquer alivio.
Ele encontrou cobertores secos dentro do guarda roupa. O quarto de Wray parecia ser o único que não fora atingido pela chuva ou qualquer outro desastre. Encontrou também roupas limpas — uma camisola de linho — e toalhas para enxugar o sangue.
Quando retornou a cama, Svan tinha praticamente estourado todos os botões da camisa de Wray e retirava a mesma. Meine ajudou com as calças e eles trabalharam juntos em secá-lo, vestí-lo e aquecê-lo com as mantas.
– Não tem lareira no quarto... — Svan olhou ao redor. — Temos de fazer um jeito de aquecê-lo mais rápido!
– Um banho quente? — Meine deu seu palpite.
– Não sei se é uma boa ideia... Não o fará tossir mais?
Meine balançou a cabeça.
– Eu não sei... Mas vai aquecê-lo se o problema é o frio. Ele está gelado e ficando azul!
– Fique com ele, tente acordá-lo. Eu vou ver o que faço. — Svan se levantou e deixou o quarto.
Meine ficou ao lado de Wray, ele até arriscou a deitar-se ao seu lado para ver se o esquentava. As janelas estavam fechadas, mas o quarto continuava gélido.
– Wray... Acorde Wray... Por favor. — Pediu observando a face dele por alguma mínima reação, porém nada. A respiração de Wray estava suave e notando seu pulso, fraco. — Oh céus... Você não pode... Não pode! Não agora Wray! Você enfrentou essa enfermidade desde pequeno, você não pode simplesmente desistir de lutar agora... Seja forte Wray!
– De que enfermidade está falando?
Meine olhou para a porta, Svan estava lá fitando-o intensamente, mas não tinha mais como recorrer a qualquer desculpa. Wray estava ali definhando em sua doença e ele precisava de cuidados, ele precisava que as pessoas cuidassem dele como se era devido e torcer para que os deuses lhe dessem mais chances.
Svan devia ser o primeiro a saber. Bem, ele já sabia que Wray não estava bem, porém não tinha noção da gravidade daquela doença.
Os olhos de Meine, arregalados, imediatamente se encheram de lágrimas e ele olhou em Wray, não conseguindo conter a tristeza que o infligia naquele momento. Svan apenas se aproximou da cama.
– Ele... Ele me fez prometer não dizer a ninguém sobre sua doença.
A expressão de Svan era séria, suas mãos em punhos.
– Eu prometi a ele que não diria a ninguém... Mas... Não posso deixá-lo morrer! Eu não sei mais quanto tempo ele vai aguentar, Van! — A fúria em que Meine havia dito aquelas palavras, pareciam de outra personalidade e não a que normalmente era calma e dócil. — Eu o estarei traindo se te contar?
Svan se sentou próximo a eles na cama, segurou os ombros de Meine e olhou fundo em seus olhos.
– Eu entendo que ele te fez prometer um segredo que provavelmente escondeu de todos nós. Mas não será uma traição se me contar... Eu sou o Líder dos Berserkers, sou aquele responsável por cada guerreiro neste vilarejo, assim como mulheres e crianças, até mesmo os escravos. Se algo está mal com eles, eu devo interseder por ajuda. É um dos deveres de um líder. — E então ele olhou para Wray. — E este é meu grande amigo, senão o melhor que já tive. Conheço Wray desde garoto... Convivi com ele todos os dias e ainda sim ele cuidou de mim quando ninguém mais fez. Ele me ouvia e me aconselhava. Sempre foi tão sábio e tão querido por mim...
Meine levou suas mãos sobre os braços de Svan, ele ainda lhe apertava os ombros. Então diminuiu o aperto e apenas deslizou suas mãos para o colo de Meine.
– Van. — O albino chamou-lhe a atenção. — Eu não sei como chama a doença de Wray... Ele comentou algo sobre ser uma peste demoníaca, mas nunca me disse o nome. Porém... Posso sentir, Van, Wray não tem muito tempo, ele está... Ele... — Meine fungou, as lágrimas borbulhando de seus olhos outra vez.
Svan o puxou para um abraço. Meine não tinha visto qual fora a reação de Svan, mas sabia que suas palavras o haviam afetado muito.
– Vamos levá-lo a banheira.
–*-*-
Aquele certamente seria o seu fim.
Certamente dessa vez os deuses o ouviram e resolveram que ele morreria, mas não da forma como pensou que seria. Eles simplesmente o prenderam ali para que ele ficasse até não mais aguentar. Sabe se lá dias, semanas, até que a fome, a desidratação e a solidão o comessem vivo.
Estava preocupado. Tão preocupado com seu mestre.
Aricin olhou ao redor do porão escuro.
Na noite anterior ele tinha acordado naquele mesmo porão ao ouvir os barulhos provindos da tempestade. Tinha verificado a casa, e não encontrando o seu dono — pois o mesmo estivera fora por dois dias — fechou as janelas, mas manteve a porta destrancada na esperança de Wray voltar. Então, retornou ao seu esconderijo, a sua morada secreta, onde ninguém, exceto Wray conhecia. O porão.
Apenas tinha permanecido ali, no fim da escada, desejando a volta de seu mestre. Desejando que o mesmo estivesse bem, que não tomasse tanta chuva para não piorar suas condições, que não lhe desse uma crise longe de casa e que não chorasse quando estivesse solitário. Mas Wray não retornou por um longo tempo, até que de madrugada, ele apareceu. Ele entrou em sua casa derrubando coisas, tossindo desenfreadamente e de forma violenta.
Aricin correu para o topo da escada a fim de socorrer o seu amo, mas ao abrir a porta, algo caiu sobre ela tão violentamente, que com o baque ele fora arremessado do alto da escada até o último degrau e fraturou seu quadril.
Doía horrivelmente, mas não era nada quebrado. Sabia que mais tarde iria inchar e ficar roxo, mas isso não o assustou tanto quanto o fato de agora ele realmente estava preso naquele porão escuro.
A única lamparina que tivera, caiu e apagou-se, não sendo possível mais reacendê-la. Wray, porém, permaneceu tossindo tanto, e Aricin ali sem poder fazer nada para ajudá-lo. Ouviu passos, ouviu-o cair duas vezes no corredor, até que desapareceu no quarto. Ele apenas pode ouvir os sons da casa, porque ele não podia produzir os seus próprios. Aquele porão era revestido de pedra, os sons de lá de dentro não seriam possíveis de serem escutados na parte de fora, sequer o fato de que ele não tinha mais voz, apenas o baixo timbre rouco que lhe fora impossível pronunciar qualquer coisa num tom mais alto para que alguém lhe ajudasse.
Socorro!
Ele queria gritar quando agora ouvira pessoas entrarem na casa de Wray. Ele ouviu as vozes, pressionou seu ouvido contra a portinha do porão, reconhecendo que era o Líder dos Berserker e seu escravo albino. Eles chamaram por Wray e se aventuraram na casa.
Graças aos deuses!
Pelo menos alguém apareceu... O dia inteiro se passou e metade daquela noite sem ninguém vir ao socorro de Wray. Estava começando a achar que seu dono morreria. Amaldiçoou a si mesmo por ser tão tolo e se esconder, este era o seu castigo por ser tão medroso.
Aricin ouviu murmúrios, mas em momento algum escutou a voz de Wray. Ele esperou por tanto tempo, e tentou por diversas vezes que o ouvissem bater contra a portinha do porão. Mas ele permaneceu ali, apenas definhando na escuridão.
Voltou ao seu canto, onde havia um pequeno colchão de palha e cobertores, e se sentou abraçando as pernas. Não precisava também de tanto drama, embora fosse horrível se sentir inútil e talvez, claustrofóbico. Em breve alguém viria por ele... Em breve eles iriam cuidar da casa de Wray e iriam retirar, sabe lá o que, estava sobre a porta do porão e ele poderia sair.
Aricin esperou, ele dormiu também, mas nada veio lhe socorrer pelo tempo em que esteve ali, até que vencido pelo desespero e sua tristeza por estar tão solitário e silencioso, ele se deixou levar pelas trevas, e desmaiou.
Continua...
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