Phaeleh I
20 Capítulo 20 - Súplica
Notas iniciais
Naquela manhã, Wray acordou com uma sensação de morte.
Era como se seus pulmões estivessem apodrecendo cada vez mais. E foi exatamente como Meine havia dito, isso parecia pior cada vez mais.
Wray tentou inutilmente levantar a parte superior do corpo a fim de deixar-se sentar na cama macia, porém fora impossível, sentia-se fraco demais para se mover de onde estava. Qualquer músculo, até mesmo o respirar era doloroso.
– Como você está? — Wray se assustou com a pergunta, tremendo quando forçou sua voz a sair em resposta.
– Eu estou bem, Svan. — Mentiu.
Svan olhou para ele, porém Wray tentou ignorar o seu olhar, olhando fixamente algum ponto na parede á sua frente.
– Você está mentindo… Eu conheço bem você Wray.
Não, você não me conhece. Você não sabe nem ao menos metade sobre mim.
– Eu ficarei bem, pare de se preocupar. Deve ser alguma gripe comum. — Teimou.
Svan franziu as sobrancelhas em sua pior carranca, grunhindo em resposta. Até então tinha estado sentado à beira da cama, e agora havia se inclinado próximo de Wray.
– Vamos, diga-me o que raios está acontecendo contigo? Todos estão percebendo o quão estranho tem estado… Primeiro suas tosses contínuas, pensei então que de alguma forma estivesse fumando algo em casa, mas tem piorado ultimamente, e você parece pálido, tem até mesmo evitado as reuniões em grupo…
Wray não esperava que fosse se irritar tanto com a suspeita de Svan. Mordia seu lábio inferior na ânsia de maltratar o líder com a verdade, de dizer a ele o quão grande estava sendo o seu sofrimento, mas ele não podia… Simplesmente não podia entregar-se assim. Um segredo que ele guardou durante toda sua vida, que ninguém mais cuja sua família que já estava ha tempos bem fundo debaixo da terra, um dia soube.
O único em que confiou tudo isso, foi a Meine. Seu amigo elfo tinha algo para ser confiável, para ser como um consolo, uma ajuda. Meine era um calmante que sempre ajudava Wray a suprimir a dor, e encontrar ao menos um pouco de paz em vida.
Svan rosnou entre os dentes, completamente insatisfeito com o silêncio de Wray.
Não era como se ele quisesse realmente esconder as coisas, mas ele tinha essa necessidade. Ele precisava esconder essa parte de sua vida que era inútil, que era como um encosto que não o deixava. Tinha essa tremenda necessidade de mostrar aos outros, como se fosse um rapaz normal, capaz de viver a mesma vida saudável que eles tinham.
Ele ainda queria viver. Ele ainda queria mais lembranças felizes. Queria mais de Skylar, mais de Meine, de Svan… Dos outros amigos que tinha… Até mesmo dos detestáveis, daqueles que acham graça no jeito de Wray, que o esnobavam por ser diferente em aparência dos outros homens fortes e brutos, enquanto ele era mais esquio e suave.
Quando se deu conta, lágrimas já escorriam por sua face, e ele virou o rosto para evitar de Svan ter de presenciar seu momento de fraqueza.
– Wray…
Não! Não era esse tom de voz que Wray queria. Isso era o que mais temia, que Svan tivesse pena dele, que o estivesse vendo como um doente.
Não queria essa realidade, queria acordar desse pesadelo.
Svan não poderia saber isso… Se soubesse, Skylar saberia em seguida, e então toda a vila o iria evitar por achar que sua peste demoníaca era contagiosa.
– Wray… Olhe para mim, meu amigo. — Svan pediu mais uma vez sem forçá-lo.
O arqueiro, porém, enxugou seus olhos bruscamente nas costas da mão, e virou sua face para fitar Svan. Ele não conseguiu dizer-lhe qualquer coisa, mas se arrastou dificultosamente para sentar-se na cama macia. Era a cama de Alasd, ainda na cabana dele.
– Não vou forçá-lo a me dizer… Mas Meine fará! — Svan se levantou com um suspiro resignado. — Me sinto traído por estar me escondendo algo e não querer me contar. Eu que fui seu amigo desde a infância… Como pode Wray? Você contou a Meine, mas não a mim! O que há de errado em você?!
Wray olhou-o dessa vez em seus olhos, mas continuou a morder seus lábios. Não tinha chance de contar a Svan sobre isso. Mas poderia ele confiar em Meine, para não dizer ao líder?
Meine amava Svan, e provavelmente se fosse pressionado pelo líder, cederia e contaria a verdade sobre Wray.
– Por favor Svan… Não… — Wray tomou impulso em seus membros e fez o melhor e o impossível para equibibrar o seu corpo fora da cama. Tudo estava dolorido, e seus pulmões doíam tão terrivelmente para deixar-lhe encurvado. — Eu já me sinto melhor… Apenas chame Meine para mim.
Svan se levantou e mostrava-se tenso. Seu olhar analisava Wray de cima a baixo, e não parecia acreditar no que seu amigo tinha dito. Enfim, indignado, Svan se dirigiu a porta e olhou uma ultima vez ao seu amigo, que permanecia em pé dificultosamente, e imóvel. Então saiu e bateu a porta em um estrondo.
Wray se auto-abraçou, sentindo-se quase tão frágil como sempre havia sido em seus momentos de fraqueza. Ele estava prestes a ser descoberto, e sabia muito bem que Svan apenas tinha sido paciente dessa vez, o que provavelmente teria um retorno em outro momento, atormentando-lhe até saber de seu segredo.
Apenas se Meine não lhe contasse antes. Wray queria confiar de que seu amigo não faria isso.
Só então Wray se lembrou que não havia dito nada a respeito da missiva que Niels recebera de Darius, convocando uma reunião em breve. Wray queria se mover para fora do quarto, puxar Svan e contá-lo em segredo, mas não. Ele não conseguiria ao menos mover um passo longe de onde estava, e então voltou para o conforto da cama, para um pouco mais de descanso. Apenas orava aos deuses para que quando acordasse, estivesse sentindo-se melhor para fazer suas tarefas como guerreiro e defender a sua honra.
–*-*-
Meine estava nervoso quando Svan voltou ao seu encontro depois de deixar o quarto de Wray. Ele mesmo havia se mantido fora por questões de sigilo, não queria ser um intrometido nas conversas do líder, embora ficasse curioso para saber agora como o seu amigo estava se sentindo.
– Van...
– Eu já sei o que irá me perguntar. — Svan olhou-o com um meio sorriso, um tanto triste. — Wray aparenta um pouco melhor, mas vai precisar de repouso. Eu chamarei o curandeiro da aldeia para vir verificá-lo. — E se virou prestes a caminhar para fora quando Meine se ergueu em desespero e se jogou a sua frente, o impedindo. — O quê?
– Não! Você não pode ir... Você... Er... — Como ele diria que não queria que Svan chamasse um curandeiro porque provavelmente descobririam do problema de Wray? Como ele poderia negar a ajuda ao seu amigo? Sua mente virou toda uma bagunça.
Svan suspirou novamente, colocando suas grandes mãos sobre os ombros de Meine e suavemente massageando.
– Olhe, pequeno... Não é como se Wray pudesse esconder mais que não está bem. E você sabe bem que isso não pode continuar assim? Como podemos negar ao menos que um curandeiro possa examiná-lo e saber o que é? Ele ficará bom em seguida quando descobrirmos o remédio ideal. Não se preocupe.
Meine queria muito acreditar nisso, ele queria retribuir as palavras gentis de Svan com um sorriso, com a esperança criada a partir do que lhe foi dito e então acreditar que Wray tinha boas chances de ficar bem.
Que era apenas uma simples doença curável.
Mas tal "possessão demoníaca" como eram chamadas as doenças incuráveis pelos aldeões, realmente não tinha como haver qualquer tipo de esperança.
– Van...
– Hum? — Perguntou Svan um tanto curioso pela expressão de Meine ter se tornado ainda mais preocupada.
– Wray comentou comigo ontem sobre... Uh... — Como era mesmo a palavra? — Missuva...
– Mis... — Svan ergueu uma sobrancelha quando se deu conta. — Uma missiva? — Agora ele se preocupou quando Meine assentiu. — O que mais ele te disse?
Meine estava apreensivo e preocupado. — Disse também que um tal de Darius quer se reunir com você em breve.
Svan não se surpreendeu, na verdade ele já imaginava que isso aconteceria. Primeiro ele já sabia que o clã dos elfos das trevas já estava espionando a área, procurando por Phaeleh e de olho em Meine... Depois a missiva de Skoll que muito em breve o líder de Ulfhednar estaria lhe visitando, e agora o líder dos elfos de luz também.
Não tinha o que fazer senão esconder Meine e fingir que nada aconteceu.
– Ele te disse como essa missiva chegou?
– Não... Não disse.
Svan apertou os ombros de Meine mais uma vez e então o puxou para os seus braços, embalando-o com cuidado em um abraço quente e terno — algo que nunca antes havia tido qualquer simples vontade de praticar.
– Tente ficar seguro, cuide de Wray, e por nada deixe esta cabana.
– Hum... Tudo bem. — Meine aceitou. Ele assistiu Svan ir com um aceno, e trancou as portas com pesadas correntes de bronze. Ainda assistiu um pouco de Svan pela janela, até o mesmo desaparecer em meio à selva.
Seu coração se sentia apertado e suas mãos foram para alisar seu próprio peito no mau pressentimento do que estava por vir. Meine fechou os olhos com força, sussurrando vigorosas orações aos deuses, para que esses pudessem proteger tanto Wray da morte, como a todos os outros berserkers e seu Svan de uma guerra entre clãs.
Ainda não compreendia quais eram os motivos para alguém querer guerrear contra os berserkers. Meine esperava que não acontecesse.
–*-*-
Darius se levantou de sua poltrona quando um de seus conselheiros de menos importância entrou pelo recinto, antes se anunciando.
– Minha mensagem já foi enviada?
– Sim, meu senhor. — O homem ajoelhou-se e inclinou a cabeça em submissão quando Darius se aproximou. O homem, apesar de elegante e tendo seus traços belíssimos como elfo, demonstrava força em músculos definidos, além de seus longos cabelos loiros penteados para trás, e suas roupas brancas e douradas.
– Bom. — A verdade era que ele estava tão preocupado que seu coração parecia que iria sofrer uma recaída. — Apenas vá.
O rapaz se despediu e fechou a pesada porta de carvalho, deixando assim Darius a sós.
Enfim tendo sua paz, pôde assim se desmontar de volta em sua poltrona, inclinando-se para frente e massageando suas têmporas. Sua preocupação era tão grande por Hayliel... Seu fiel amigo e conselheiro havia sido capturado pelos berserkers.
– Espero que ele esteja bem... — Não, ele não estava bem. E Darius sabia muito bem disso, desde que fazia dias que Hayliel era para ter voltado, senão enviado ao menos outro sinal. Conhecia seu amigo de longa data, sabia quão fácil seria para ele escapar dos berserkers que não utilizavam da mesma magia que eles, ou mesmo eram tão espertos quanto elfos.
Além disso, Hayliel não era um elfo qualquer, ele possuia seu dom divino, sua mão de aço. Não haveria espada capaz de vencê-lo quando seu próprio corpo poderia ser uma arma. Hayliel devia estar muito ferido para não conseguir voltar.
Novamente bateram a porta e Darius soltou um longo e tenso suspiro nervoso.
– Entre.
A pesada porta fora aberta por uma fresta.
– Senhor Darius, suas coisas já estão prontas para a viagem. O senhor precisará da guarda real completa para escolta?
Darius se virou para a porta, onde apenas encontrou o olhar de um de seus subordinados que ganiu ao vê-lo.
– Apenas tragam-me os três primos de Hayliel. Eles me serão de suficiente escolta.
O rapaz apenas assentiu ainda meio hesitante quanto as ordens do chefe, porém zarpou fora depois de aceitá-las. Darius iria se reunir com os três bons elfos guerreiros para visitar Svan, então além de tomar Hayliel de volta, ainda teria a oportunidade ideal para descobrir quem era o Phaeleh. Seu oráculo nunca mentia, e enquanto a paz reinava sobre seu clã, Darius não seria bobo ao esperar pelos desastres acontecerem, para então encontrar Phaeleh.
Ele teria a criatura surpresa dos elfos e traria a prosperidade ao clã para sempre. Este era o seu objetivo, haja o que houver, ele poderia mesmo ter uma guerra entre dois clãs, porém Svan não conseguiria esconder nada de um elfo esperto como ele.
– Pobre berserker... Que acha que não posso encontrá-lo. Os elfos podem sentir quando Pheleh estiver por perto...
Na verdade, qualquer um poderia sentir a presença de Phaeleh, basta ele admirar a sensibilidade que os elfos já tinham por nascença.
–*-*-
Niels acordou logo que as primeiras luzes surgiram por entre as cortinas, iluminando seu quarto simples, porém bem composto, como todo quarto de um guerreiro berserker.
Apenas não lhe agradou tanto ter de olhar para o chão e ver Rurik dormindo sobre o tapete. Há alguns dias ele tinha aceitado ser como os outros escravos pessoais masculinos, dentro da residência, vez ou outra permanecendo sem as roupas, embora ele apenas aceitou retirar a parte de cima.
Niels se inclinou sobre uma mão, observando seu escravo dormir de costas viradas para ele. Foi então que analisando bem a pele do rapaz, Niels notou as cicatrizes que ele tinha.
Antes já havia percebido, já que eram tão óbvias no corpo rosado de Rurik, mas nunca imaginou o quão horríveis elas pareciam. Não que fizessem o garoto se tornar feio, mas, elas pareciam um dia terem sido bem dolorosas.
Como um comandante de armas, ele havia enfrentado tantas batalhas quanto se era permitido em sua idade ainda tão jovem, e assim, a si mesmo e os guerreiros que cresceram juntos com ele, receberam suas cicatrizes. Dentro de uma luta, era impossível não adiquirí-las, embora ele sempre teve a vitória e levou a morte vários de seus inimigos, senão ferindo-os gravemente.
Sabia, pela pouca experiência que adiquiriu sobre a vida de Rurik, que o mesmo não era um guerreiro, e sim havia sido um escravo durante toda sua vida. Assim pensava.
Mas o que o assustava profundamente era olhar para aquele ângulo e ver as preocupantes cicatrizes já curadas, porém como marcas ainda recentes acima de tantas outras antigas. A pele de Rurik se tornava pior do meio de suas costas para o quadril, aonde ainda era coberto pelas roupas inferiores, como uma simples calça de linho branca.
Niels nunca antes havia se preocupado com alguém que não fosse o seu próprio irmão, ou talvez seus amigos guerreiros, mas… De alguma forma, sentia agora este sentimento de querer cuidar do bem estar de Rurik, assim como via o mesmo lutando para ter tudo bem feito de forma que Niels não tivesse exatamente do que reclamar.
Levantou-se preguiçosamente da cama, olhando entre pálpebras inchadas para o garoto que ainda dormia e que parecia meio trêmulo no chão frio. Niels se perguntou como seria dormir ali, seria realmente reconfortante?
Nunca.
E de alguma forma, sentiu-se culpado dessa vez, porque ainda em sua mente, permanecia a face iluminada de Rurik cada vez que o via, cada vez que lhe sorria. E ele sabia muito bem que todos estes sorrisos tão brilhantes eram sinceros, e de alguma forma especiais.
Isso doeu lhe ainda mais o coração. E não sabia o que fazer para parar este sentimento estranho.
Niels colocou-se em pé e então se ajoelhou próximo a Rurik a fim de tirá-lo do carpete indígena, que embora fosse felpudo por ter sido feito de pele de urso pardo, ainda sim não era um colchão feito de palha ou muito menos um como o de Niels, feito de espuma.
Tal fora sua surpresa que ao tocar a pele de Rurik e rolá-lo para estar de costas contra o chão, o encontrasse gélido, trêmulo, e um suave gemido surpreendeu-o.
Rurik não devia estar se sentindo bem… Algo parecia errado com ele.
– Não… — Ouviu o garoto murmurar e então seu corpo começou a suar frio. — Não Reno… Eu prometo… Eu prometo ser bom…
Niels não estava gostando disso. Os olhos de Rurik ainda permaneciam firmemente fechados, mas o mesmo delirava em meio aos pesadelos.
Quem era Reno?
– Ei, Rurik… — Niels o chacoalhou suavemente. — Acorde…
– Não me toque! — Rurik gritou no alto de seus pulmões e passou a se debater, seus olhos ainda não se abriram, era mais como se ele estivesse revivendo alguma cena que alguma vez aconteceu.
– Acorde Rurik, é apenas um sonho! — Niels insististiu, mas não ousou tocá-lo mais. Entretanto Rurik continuou a se debater como se houvesse uma forma maior sobre ele impedindo-o de ser livre.
– Deixe-me! Pare! Eu odeio… Odeio! — Ele gritou uma e outra vez se tornando histérico, seu rosto vermelho, e mesmo de olhos fechados, as lágrimas escorriam por suas bochechas. — Deixe-me, por favor… Eu estou morrendo… — Ele chorou, tanto que soluçava.
Niels tinha desistido de tentar acordá-lo e apenas sentou-se na cama. Foram minutos que para ele serviram como uma tortura, pois Rurik continuava a implorar, dessa vez mais baixo, rouco, perdendo a sua voz.
Sabia ele, que ninguém da casa seria capaz de bater contra a porta, isso porque provavelmente todos achariam que seria Niels a estar violentando Rurik, sendo que ao invés disso, era apenas um pesadelo horripilante.
O tempo se passou até que finalmente Rurik se acalmou, seus olhos se abrindo em fendas, enquanto ele permaneceu parado e perdido olhando para o teto. Sua respiração ainda acelerada, ao que ele próprio massageou o seu peito, como se algo lhe doesse profundamente.
Niels percebeu bem quando o garoto se sentou dificultosamente e olhou para ele. Seus enormes olhos verdes fitaram Niels com apreensão e medo, então os desviou para suas mãos.
Nunca antes pensou que doeria o seu peito ver Rurik começar a tremer e soluçar pelo choro desenfreado que o atravessou. Foi um momento tão frágil que Niels nunca pensou em testemunhar antes do garoto.
– Venha cá.
Rurik fungou e esfregou seus olhos nas costas das mãos, como um bebê chorão. Mas ele obedeceu a ordem de Niels e se aproximou. O homem se ergueu em pé e puxou Rurik para o alto e o jogou contra a cama fofa. O garoto ganiu em surpresa e olhou-o com olhos enormes assustados e brilhantes de lágrimas.
– Fique na cama e se cubra com as peles. Eu vou lá… — Niels apontou sobre o ombro para a porta. — Buscar algo para comer, e não saia daí que não demoro.
– Sim, Niels! — Ele respondeu tendo sua voz rouca e forçada.
– Quando eu voltar… Nós vamos ter uma conversa. — Disse Niels ao sair pela porta. Assim que deixou o quarto, mantendo a porta trancada e suas chaves no bolso, não se surpreendeu que as escravas estivessem todas de olhos arregalados e obviamente medrosas, fugindo da presença de Niels.
Mas a verdade era que ele não sabia como reagir a Rurik, ou melhor dizendo, como confortar seu escravo em um momento como este. Ele tinha essa enorme vontade de estar lá para ele e cuidar dele assim como o mesmo tinha feito com ele... Mas era errado, ele não poderia estar se deixando levar pelo coração. Precisava agil racionalmente.
–*-*-
Na tarde que se seguiu, as chuvas voltaram a alagar toda a relva em torno do clã de berserkers. O vento continuava extremo, derrubando galhos e árvores pequenas, além do granizo que destruía as plantações de cereais e hortas que abasteciam o comercio local.
Alasd estava ensopado quando chegou à choupana do curandeiro.
O senhorzinho, muito além de sua velhice, estava sentado próximo a uma escrivaninha, onde trabalhava em fazer pequenas poções que posteriormente serviriam como remédio. Ele nem ao menos notou a presença do guerreiro em seu consultório porque era surdo e avoado.
O guerreiro, por sua vez, notou apenas como era o estado do elfo intruso, que se mantinha de cama. Hayliel, como ele diz ser chamado, permanecia dormindo com certa dificuldade de respirar, soltando resmungos e gemidos.
Alasd se aproximou e seu peso fez um baque duro na cadeira de balançar que havia ao lado da cama. Inclinando-se para frente, ele levou uma mão as têmporas do elfo e notou que estava febril e seu rosto estava em uma tonalidade carmim.
– Ei, meu jovem… — O ancião se aproximou do leito, arrastando-se com uma bengala, como sempre. Ele se sentou em sua poltrona de costume. — Ele está morrendo, cada vez mais. Acho que deve levá-lo deste lugar… Em breve haverá novos pacientes a serem tratados, e não posso deixar que fiquem em uma mera maca de atendimento. — O velho resmungou.
Alasd suspirou, sabendo qual seria o próximo passo. Na verdade, entendia o que o velho queria lhe dizer, mas com certeza parecia anos de chatice ter de obedecê-lo.
– O que Svan diz sobre isso?
– O quê? — O ancião coçou uma orelha. — O que você disse?!
– Perguntei o que Svan diz sobre isso! — Alasd elevou a voz.
– Ele apenas diz que faça o que for viável. E para mim, viável é tirá-lo daqui. Leve-o para qualquer lugar onde possa manter um olho nele. E mesmo que ele quisesse, não poderia fugir no estado em que está.
Alasd estava vendo bem isso. A aparência de Hayliel lhe dizia que o elfo não teria muitos dias de vida restantes.
– Eu vou levá-lo. Há algo que precise me passar?
– O que? Cuidados? — O velho respondeu indiferente. — Apenas faça o que sabe fazer.
Alasd elevou uma sobrancelha, mas não demonstrou quaisquer outras emoções.
Ele tinha um amplo conhecimento em ervas medicinais, algo que usava raramente para ajudar alguém. E normalmente em seu próprio benefício. Sendo que não costumava levar ninguém para sua velha cabana.
Estava muito incomodado com o fato de ter de levar o elfo infectado para sua residência — pensava sériamente sobre isso — sua vida era melhor quando estava sozinho, sem depender de ninguém, ou ter de depender de qualquer “amizade”. Ele apenas gostava de ser assim, sem dar quaisquer satisfações, ou contar sobre sua vida ou a vida alheia para os outros. Era melhor ser como era.
Sem muito cuidado, ele tomou Hayliel em seu ombro e o ouviu gemer longamente pela má posição em ser carregado. De alguma forma isso fez Alasd se sentir um pouco culpado por ser tão desajeitado, e o homem decidiu por carregá-lo em ambos os braços.
Antes que saísse, o velho ancião jogou sobre Hayliel um vasto cobertor de pele de onça, o que Alasd não creu ser melhor. Pelo menos usou como alguma espécie de abrigo enquanto levava o elfo consigo pela chuva. Não adiantou tanto, porque por tanta água que jorrava do céu, ambos foram bem encharcados no caminho.
Alasd entrou rapidamente em sua chamada "casa de fachada", um simples e pequeno chalé próximo a uma das torres de segurança. Antes tinha pensado em levá-lo até sua amada cabana, mas sem chance. Seria uma oportunidade perfeita para que ele fugisse. Alasd estava guardando sua responsabilidade sobre o elfo intruso, e se o deixasse escapar, seria uma enorme falha que lhe seria como motivo de vergonha frente ao líder.
Usando de suas artimanhas para fechar a porta, apenas assim, ele se preocupou em levar o elfo para o único quarto que ali tinha — de um chalé com dois minúsculos comodos — e foi em sua cama que o deixou.
Embora sua face não demonstrasse qualquer emoção, em ações demonstrava estar desesperado em garantir os cuidados do elfo. Como desfazer de suas roupas e torcer os lábios com os curativos molhados e sangrentos. Fez de colocar toalhas abaixo de Hayliel para que o sangue não manchasse o leito, e com o jovem nu sobre sua cama, ele fez aquilo que aprendeu sozinho, porém que nunca praticou antes, que era como cuidar de alguém.
– Não há formas de eu costurar isso... — Murmurou a si próprio, mas tal qual fora sua surpresa em o elfo respondê-lo baixinho.
– Isso não foi uma ferida comum, berserker... Estou manchado com trevas, vou sangrar até não sobrar mais do que uma casca vazia.
Alasd não gostou de ouvir isso, ainda mais pela amargura na voz do elfo. Notando que o mesmo estava com frio, ele levou as pesadas cobertas sobre o elfo para protegê-lo.
– Isso só pode ser curado com magia?
– Sim. — Respondeu com pesar.
Quando terminou um novo curativo, que sabia que em breve teria de trocar novamente. Simplesmente sentou-se à beira da cama de costas para o elfo. Ele precisava ao menos dar um jeito em si mesmo, começava a se sentir desagradável, todo molhado e seu chão estava com um rastro de lama por onde andou.
Antes que levantasse, uma mão febril pousou em seu braço exposto. Alasd olhou e percebeu ser justo a mão de Hayliel que era amaldiçoada. Em seguida olhou para os olhos semicerrados do elfo, que estava ofegante como se estivesse feito uma corrida.
– Não está pensando em me desmembrar, não é? — Alasd perguntou sério, ainda mais do que costumava ser.
Ele viu surpresa nos olhos do elfo.
– Eu não seria um covarde!
– Por que um covarde? — Alasd franziu o cenho.
Hayliel ficou meio sem jeito.
– Eu nunca usaria meu braço em alguém que não está lutando contra mim.
A mão do elfo de luz ainda permanecia sobre o braço de Alasd. E o guerreiro berserker permaneceu quieto e não se moveu de onde estava, sabia que o outro tinha mais a lhe dizer, então simplesmente foi paciente.
– Eu não tenho muito tempo... — Disse Hayliel em pesar. — Conceda-me um desejo... Um último desejo, por favor.
Alasd não gostou disso, embora não era possível negar tal pedido sincero.
– O que é?
O elfo olhou para ele, tão pior quanto tinha estado há minutos atrás, não havia mais cor em seu rosto e ele voltava a suar frio, a dor parecia estar sendo tão horrível para ele que em momentos ele simplesmente o via fechar bruscamente a mandíbula para segurar as ondas dolorosas que atravessavam o seu corpo.
– Deixe-me ver... — Ele gemeu, seu peito subia e descia desenfreadamente como se fosse dificultoso respirar. — Deixe-me ver o Phaeleh...
– Phaeleh?!
– Por favor! — Ele agarrou mais forte o braço de Alasd, suas unhas de ferro não medindo conforme feriam a pele do berserker. — Eu te imploro! Deixe-me ver Phaeleh!
Alasd se afastou da mão de Hayliel e se levantou da cama, esfregando o lugar onde as unhas do elfo lhe arranharam. Ele estava ciente de que Phaeleh era possível estar no clã berserker, mas ele não tinha certeza de quem realmente seria. Sabia o quanto os líderes das aldeias vizinhas estavam suspeitando que Svan estivesse com o ser precioso das criaturas mágicas, embora Alasd nem soubesse detalhes de como este "ser" poderia ser.
– Quem ele é? Você tem certeza de que ele esteja em nossa aldeia?
Hayliel suspirou dificultoso, tremendo intensamente.
– O... O albino... O menino de Svan...
Os olhos de Alasd realmente se arregalaram com a resposta. Ele não tinha feito essa suspeita, na verdade ele imaginava que houvesse algo de estranho no albino, mas não que fosse de tamanha importância! O que seu líder estava planejando fazer com um ser tão especial como Phaeleh? Ele queria arruinar seu clã a proteger um garoto que os outros clãs vizinhos tanto cobiçavam? Isso apenas os levariam em uma guerra com apenas um fim.
O fim dos berserkers.
– Como sabe quem ele é? Como você o viu?! — Ele agarrou ambas as mãos de Hayliel.
– Eu... — O elfo arfou e seus olhos foram se fechando pouco a pouco. — Eu o espionei desde longe... Sei que é um elfo... Phaeleh é uma criatura elfica, Aslad.
O coração do guerreiro quase travou uma batida quando Hayliel desmaiou. Ele ainda tentou reanimá-lo de todas as formas, e pela primeira vez em tanto tempo demonstrou emoções em sua face. Ele estava desesperado para fazer o elfo viver.
O que diabos estava havendo com ele?
Ele levantou as pressas e sem importar com suas vestes molhadas, apenas acrescentou um casaco sobre os ombros e foi até a porta. Ele teria que tirar essa história a limpo com Svan, não podia acreditar como seu líder estava mantendo um segredo tão comprometedor como este. Porém antes de qualquer coisa, ele tinha que pensar seriamente no que fazer... Hayliel estava morrendo e não havia absolutamente nada que pudesse fazer desde que suas ordens eram apenas de mantê-lo aprisionado até que houvesse alguma decisão por parte de Svan.
Alasd olhou uma última vez para o elfo desacordado sobre o leito, ponderando se deveria ou não conceder seu desejo, embora fosse um enorme risco a correr.
Continua...
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