Phaeleh I

21 Capítulo 21 - Tempestade


Notas iniciais
Miky-san: Olá meus queridos *-* Perdão pela demora (vergonha), mas finalmente aqui está mais um capítulo recheado para vocês! Ficou maior do que esperava... Mas devido a situação, foi necessário. Espero muito que gostem! Boa leitura! ♥

Niels despertou com um sobressalto no meio da noite – seu coração trotou para a garganta e seus olhos se arregalaram ante o estrondo diabólico que fez a terra sob a cama tremer. Suas narinas dilataram instantaneamente e ele tentou apurar os sons que ouvia na tentativa de discerni-los, entretanto, tudo o que captou foi o ruído familiar da tempestade lá fora.

Seus olhos, então, pousaram na figura assustada de Rurik, que também se sentara na cama e esquadrinhava o quarto como se esperasse encontrar Satanás sobre o colchão.

A chuva açoitava o teto lá fora e o vento uivava alto e lamuriosamente. As janelas tremiam com violência e um gemido na madeira o deixou com os pelos da nuca eriçados.

–- Rurik – murmurou. O ruivo se voltou para ele com os olhos muito abertos e os lábios firmemente pressionados, como se tentasse expor uma imagem de fortaleza. Bom, ele não estava conseguindo. Niels podia sentir seu medo se espalhando pelo quarto em ondas amargas – Rurik, aproxime-se.

Ele assentiu com a cabeça e fez o que lhe era ordenado, arrastando o traseiro pela cama até estar muito próximo. Niels, por sua vez, engoliu o nó de nervosismo em sua garganta e jogou o braço por sobre os ombros do rapaz. Para os humanos, Rurik não era necessariamente pequeno – ele passaria, certamente, por um forte escudeiro. Todavia, para um Berserker, Rurik sempre pareceria uma coisinha diminuta e adorável. E Niels podia sentir os músculos sob a pele cheia de dentadas cicatrizes.

O calor da pele de Rurik em contato com a sua era quase abrasador e... Niels sentiu desejo. Desejo de beijar, tocar, lamber, morder aquela pele.

–- Não tenha medo – grunhiu – Estou aqui.

Outro estrondo colossal fez toda a estrutura da casa tremer e, dessa vez, ele ouviu gritos lá fora. Trovões rugiam no céu e, por entre as frestas da janela, viu as explosões de luz dos relâmpagos.

–- Acredito que Thor não está de bom humor hoje – murmurou Rurik, aconchegando-se debaixo de seu braço.

Ele estava certo. Thor devia estar muitíssimo irritado naquela noite para estar dispersando tantos de seus raios com insanidade – e Niels temia as consequências disso. Os raios de Thor podiam facilmente matá-los ou causar outra espécie de danos à aldeia.

Vozes se fizeram ouvir debaixo da chuva torrencial, assim como alaridos e lamúrias.

O que estava acontecendo?

–- Rurik – disse baixinho, enrijecendo em seu lugar ao se dar conta de que estivera acariciando o braço do humano ruivo. Fora um gesto tão natural e inconsciente que mal percebera que o estivera fazendo. Sua ânsia para tocar o garoto era tão descomedida assim? – Tenho de sair para verificar o que se passa.

–- Oh – o menino assentiu com a cabeça, afastando-se. Niels o puxou de volta de encontro ao seu corpo, estranhando o martelar de seu coração em resposta – Sim, Niels, eu entendo.

–- Fique aqui.

Niels o apertou uma última vez e se forçou a se afastar. Levantou-se da cama e iniciou o processo de vestir as roupas que estavam meticulosamente dobradas sobre a arca com seus pertences. Rurik sempre recolhia as peças que ele abandonava no chão quando se encaminhava para a cama e as dobrava.

Por que merda divina estava tão preocupado com isso?

Era o trabalho de Rurik fazer isso. Era seu escravo, tinha de cumprir todas as suas ordens.

Estava vestindo a túnica por sobre a cabeça quando a voz do humano ruivo atraiu sua atenção.

–- Posso ir com você? – ele disse baixinho.

Niels pegou seu cinto e se voltou para o garoto, olhando dentro daqueles profundos olhos brilhantes.

–- Tem certeza? – Niels indagou. Rurik apenas acenou com a cabeça – Então vista algo quente e venha.

Rurik saltou da cama e correu para uma diminuta pilha de roupas no chão da habitação. Pegou uma camisa gigantesca e a vestiu, desaparecendo dentro dela. Seus cabelos estavam tão revoltos que se assemelhavam a uma floresta após um furacão. Niels abriu sua arca e tirou de lá uma pesada manta. Estendeu-a a Rurik, que a pegou com o cenho franzido em confusão. Logo em seguida, pegou sua espada, prendendo-a ao cinto com mais duas adagas.

Os dois saíram juntos do quarto, caminhando lado a lado, com Rurik um pouco mais atrás, como se desejasse se esconder em suas costas. Os corredores estavam escuros por conta das tochas que já se apagavam, fornecendo uma penumbra densa. Eles rumaram silenciosamente para a sala e Niels se retesou quando outro estrondo fez a terra tremer.

O que estava acontecendo?

Um corno soou alto como alarme – alguém na torre de vigia da floresta estava soando um alerta para toda a aldeia. Niels agarrou Rurik por um cotovelo e o arrastou bruscamente para a sala grande da casa de Svan. O menino saltava ao seu lado para acompanhar seus largos e rápidos passos. Niels tentava reconhecer o som – duas sopradas longas e estridentes, com uma pausa de cinco segundos antes de se repetir.

Não era um ataque, mas exigia a convocação de todos os membros aptos do clã a trabalhos pesados – urgentemente.

Quando chegaram à sala, todas as escravas estavam ali reunidas, divididas entre as que se encolhiam e rezavam aos deuses para que a paz se estabelecesse logo e as que se empoleiravam nas janelas para ver o que era, mesmo que para isso tivessem de se molhar e congelar pelo frio da noite.

–- Vocês – Niels rosnou. Elas pularam com gritinhos surpresos e rapidamente trataram de fechar as janelas, encolhendo-se de encontro às paredes pelo medo – Não vão sair daqui ou bisbilhotar. Quem me desobedecer, terá sua mão decepada – incontáveis pares de olhos se esbugalharam para ele – Estejam preparadas para agir se houver feridos. Fervam água e selecionem panos limpos.

–- Sim, meu senhor – elas responderam em coro.

Ele olhou por sobre o ombro para Rurik, satisfeito ao encontrá-lo régio e firme ante todas as outras.

–- Venha comigo – disse em um tom levemente mais suave.

Assim que saíram da casa, Hilda fechou a porta. As botas de Niels afundaram em um mar de lama e chapinharam a cada passo bruto dado adiante. Sentiu seu coração falhar três batidas enquanto olhava ao redor e um nó começou a e formar em sua garganta, enchendo-o de apreensão.

Ele não sabia como resolver aquilo. Na verdade, ele não era capaz. Svan sempre foi mais apto a liderar – não apenas por sua força, mas por sua rápida reação a situações inesperadas. Niels era um bom estrategista e, acima de tudo, um perito em batalhas. Mas, nenhuma de suas experiências o preparara para aquele caos que se estabeleceu na aldeia – árvores queimavam na floresta pelos raios que rasgavam os céus em rugidos bestiais. O fogo e a fumaça se erguiam como garras para as nuvens escuras, recusando-se a ceder pela chuva. A água não era o bastante para aplacar as chamas que se alastravam pelas árvores e muitas delas desabaram pela agressividade do mau tempo, esmagando casas e levando-as ao estado triste de um amontoado irreconhecível de pedras e madeira.

Fogo. Fogo. Muito fogo o cercava.

Pessoas gritavam, pessoas choravam. Os homens se reuniam para tentar salvar os feridos. Crianças arrolhavam desesperadamente, como se sentissem que algo muito ruim estava acontecendo. O corno voltou a soar, dando-lhe o alerta de que tudo ia muito mal.

Niels nunca se sentiu tão impotente em sua vida. Ele não era capaz de curar os atingidos pela catástrofe. Não era capaz de apagar o fogo monstruoso. Não era capaz, mesmo com toda a sua força, de levantar uma árvore. Não importava o quão imbatível se mostrasse, ele era cheio de limites e fraquezas e ali estava o atestado de sua inutilidade – estava paralisado, enterrado na lama, apenas observando o que se passava.

Desespero permeava o ar como a fumaça que os cercava.

O que ele podia fazer?

Como poderia salvar sua gente?

Ele não fora preparado para aquilo e ninguém nunca lhe disse o quão inútil se sentiria ante aquele tipo de situação.

Uma mão tocou seu braço com gentileza e, ainda assim, ele rosnou – quem poderia criticá-lo por não saber o que fazer?

–- Niels – Rurik disse gentilmente, olhando-o como quem desejava lhe infundir forças. – Vamos ajudar.

Como?

Ele não sabia o que fazer.

Outro estrondo soou, fazendo a terra tremer, quando outra árvore gigantesca desabou sobre uma casa – a casa do ferreiro. Gritos soaram e um par de homens correu na direção do acidente. O fogo consumiu a casa de Syn como um demônio devorando ferro, madeira e pedras e, ganhou exponencialmente força pelo reservatório de carvão que o homem possuía pela fornalha que usava em seu trabalho.

Syn saiu por entre a cortina de fumaça, arrastando uma perna ensanguentada e com metade da face manchada de vermelho. Tossia, carregando seu filho em um ombro como se fosse um saco de grãos. O menino chorava, mas não emitia ruídos escandalosos como metade das irritantes crianças da aldeia.

Os homens ajudaram Syn a se afastar da casa antes que algo pior lhe acontecesse – um pegou o menino nos braços e outro o sustentou, passando seu braço por sobre o ombro para ajudá-lo a se locomover.

–- Rurik – Niels voltou sua atenção ao seu escravo – Eu... Prefiro que volte para nossas dependências. Estará mais seguro...

Rurik negou com a cabeça efusivamente e seus olhos escureceram pela força de sua determinação.

–- Precisamos ajudar, Niels.

–- Mas você é humano!

E humanos se feriam e morriam com muita, muita facilidade. Ele... Ele não queria que Rurik se machucasse.

–- Eu sei – Rurik disse calmamente – Mas eu não sou inútil.

Niels cerrou os punhos.

As chamas estalavam em um crepitar violento, lançando uma dança macabra de sombras em torno deles.

–- Não quero você aqui.

Rurik mordeu o lábio inferior. Parecia debater internamente sobre como prosseguir, como se estivesse inseguro de suas decisões. Então, com um suspiro desistente, aproximou-se de Niels.

–- Me desculpe, Niels.

Antes que Niels pudesse entender por que recebera um pedido de desculpas, Rurik se lançou a correr para longe dele, em direção ao caos da aldeia. Niels viu com assombro quando seu escravo – seu escravo humano – pediu a um senhor que erguia um pilar de madeira para retirar uma moça e seu bebê dos escombros para que se afastasse. Rurik tomou o lugar do homem, apoiando a tora em um ombro e agarrando com ambas as mãos. Sua camisa grudava no corpo esguio e musculoso, tornando-se transparente e exibindo o tórax pálido e sardento. Niels viu a tensão em seu maxilar e o frio que o fez estremecer quando a manta caiu de seus ombros para a lama. Junto de outro Berserker, Rurik iniciou o processo de erguer o pilar. O choro da criança sobrepujou os barulhos da noite.

O homem que fora liberado do serviço se ajoelhou sobre os escombros, estendendo a mão para pegar o bebê assim que o caminhou foi revelado.

Como se um estalo ecoasse em sua mente, Niels despertou para a realidade e rapidamente se dirigiu para onde todos se reuniam. Ele viu pelo canto do olho que estavam reunindo as crianças e os incapazes de lutar no centro da aldeia, onde as árvores não alcançariam quando caíssem. Os feridos estavam sendo colocados junto a elas e as mulheres mais sadias lutavam por trata-los com panos e água quente. Dois pares de homens fincavam hastes de madeira na terra para que sustentasse o pesado material que formaria a cabana que os protegeriam da chuva. A quantidade de desabrigados era incontável.

As escravas de Svan saíram correndo de sua habitação, carregando pesados baldes com água quente e panos limpos apertados contra o peito para protegê-los da chuva. Elas se refugiaram sob a cabana improvisada, que ainda oscilava pelo vento forte. Começaram a prestar assistência às mulheres do clã que cuidavam dos feridos e serenavam as crianças assustadas.

Contente pelo trabalho em equipe de todos, Niels rapidamente chegou a Rurik, tomando sua frente e erguendo o largo pilar com as mãos. A madeira gemeu e os olhos de Rurik se arregalaram em surpresa.

–- Por favor, salvem meu bebê! – a moça pedia.

Knox, um dos carpinteiros da aldeia e o homem que Rurik ajudara, conseguiu pegar a criança. A menininha choramingou pelo frio da chuva que a açoitava por sobre a manta. Uma das moças da aldeia pegou a menina nos braços e correu para a proteção da tenda. Knox, então, voltou para sua tarefa de tentar salvar a mulher antes de o fogo alcança-la.

Niels olhou nos olhos de Rurik – a cada vez que inspiravam, seus peitos chegavam muito perto de se tocar e, se descesse o rosto, poderia beija-lo...

Um momento! Desde quando nutria desejos sexuais por seu escravo?

Desde que passou a admirá-lo, talvez?

Não, não, não! Rurik era um escravo. Não merecia sequer sua simpatia.

Então, por que todo esse infeliz rubor em sua face por estar ajudando o humano a salvar uma Berserker ferida?

Rurik era mais baixo que ele, não tão forte quanto ele, totalmente humano e um maldito Oráculo. E era a merda de um escravo. Era tudo o que Niels detestava. Mas, mesmo molhados, seus cabelos ainda eram uma bagunça e as pestanas ruivas estavam incrivelmente escuras e acumulando gotas. Os olhos do garoto brilhavam em admiração para ele, o que fez uma estranha onda de orgulho e satisfação enchê-lo.

–- Conversaremos mais tarde – tentou imprimir um tom rígido e bravo em sua voz, mas a ouviu mais com uma nota de sensualidade e rouquidão do que com repreensão. – Deve me obedecer, Rurik.

Rurik sorriu – é que não tinha medo de ser castigado?

–- Sim, Niels – disse quase com ternura.

O coração de Niels galopou no peito em resposta.

Mas que merda se passava com ele?

–- Estou falando sério.

–- Sim, Niels.

Niels franziu o cenho em uma carranca bastante similar a de Svan.

–- Não me tem medo, Rurik?

–- Claro, Niels – disse, pressionando os lábios para não rir.

Uma merda que ele o temia! Se Rurik tinha medo dele, Niels era uma fada.

–- Está zombando de mim?

Ele negou com a cabeça e seus ombros tremeram por uma risada baixa.

–- De forma alguma, Niels.

–- Rurik – disse com dissimulada firmeza – Não zombe de mim. Estou falando sério. Vou te castigar por insubordinação.

–- Certo, Niels.

Eles ergueram a tora mais um pouco. Niels viu com certo alívio quando Knox conseguiu segurar a mulher pelos braços e puxa-la para fora dos escombros devagar. Niels notou, então, o quanto Rurik era forte – sustentar a maior parte do peso do pilar não era uma tarefa fácil para um Berserker. Foi quando estreitou os olhos para a palidez acentuada do menino – Rurik não fora aceito em muitas atribulações da aldeia por sua falta de força física, então, como era capaz de fazer tantos trabalhos pesados na casa do Chefe e ainda erguer aquele pilar com os outros?

–- Rurik – disse mais seriamente, e viu o escravo ficar rígido ante seu tom – Nós realmente precisamos conversar.

–*-*-

Meine acordou abruptamente quando deu de cara com o chão. O baque surdo contra o tapete, ainda sim fez acordar Svan.

– Uh... Eu caí... — O garoto resmungou massageando seu nariz e se sentando. Isso nunca tinha ocorrido antes, de "cair da cama" como fez hoje, e pensou que talvez fosse consequência do que acontecia lá fora, parecia haver uma batalha ao invés de uma tempestade.

Svan, por sua vez, olhou para Meine no chão. — O que diabos foi isso? Você está bem?

– Estou... — Meine se forçou nos joelhos e voltou para cama, sentando-se sobre o manto felpudo. — O que está acontecendo lá fora?

Pela expressão preocupada de Svan, com certeza não era coisa boa. Não era apenas ele a sentir o cheiro de tragédia, além dos gritos e uivos de uma noite atormentada lá fora. Embora eles estivessem um pouco longe da aldeia, por permanecerem temporariamente na cabana de Alasd, ainda era possível ouvir todo o caos.

– Fique aqui Meine, e mantenha-se seguro. — Disse Svan ao se levantar rapidamente da cama, vestindo as calças de ontem.

– Mas... — Meine começou a resmungar.

– Nada de mas. — Svan apontou o dedo para ele, fazendo-o encolher de ombros. — Você vai ficar aqui e aquietar-se nesta cama até que eu volte. Por nada desde mundo invente de sair. É perigoso lá fora, posso sentir.

Meine queria muito retrucar contra as palavras de Svan, porém não tinha quaisquer argumentos para defender uma saída, desde que ele próprio estava temeroso com o que ocorria lá fora. A tempestade estava no auge de sua fúria, e a todo momento trovões estremeciam a terra e tudo o que estava sobre ela.

– É para o seu próprio bem, Meine. — Disse Svan ao sair, sem antes colocar um pesado casaco sobre seus ombros nus.

Meine correu até a porta, percebendo que não fora trancada. Svan não teve tempo para isso, mas bobo Meine não seria de querer fugir quando ao menos podia proteger-se de qualquer coisa. Embora ele quisesse tornar-se um garoto corajoso ao ponto de proteger seu Svan um dia, ele sabia que não tinha qualquer chance agora, tendo seu corpo tão pálido e magricela.

Apenas atrapalharia as coisas, apenas seria um estorvo.

– Volte bem, Svan...

Certificando-se de deixar a porta fechada, mas não trancada caso precisasse fugir, Meine correu para cama como um gato assustado. Seus olhos eram esbugalhados e seu cabelo uma bagunça. Ele pouco se importou. Seu pijama consistia em calças de linho e camisa branco gelo, tão velhas e emprestadas de seu novo amigo Rurik.

O tremor de terra veio uma e outra vez quando trovões tão altos como para estourar os tímpanos soaram. Meine se enrolou em uma bola contra o centro da cama e próximo a cabeceira de madeira. As peles que serviam de cobertor foram enroladas todas em torno de si quando o frio naquele quarto se tornou quase insuportável.

Por que a lareira estava apagada? Meine não iria correr o risco de levantar de sua pequena zona de segurança para acender as chamas sobre a lenha.

Na verdade, ele precisava ocupar sua mente com algo.

Ele tinha medo, muito medo de trovões.

Não estava sendo como os trovões comuns e ocasionais de uma chuva torrencial, mas a tempestade parecia tão devastadora que não lhe surpreenderia haver furacões para terminar todo o estrago.

Seria assim tão ruim as coisas lá fora? Ele queria olhar pela janela, tentar avistar além dos arbustos se conseguia visualizar algo da aldeia.

Ele queria verificar que Svan estivesse bem... Ele queria ir até ele e enlaçá-lo pela cintura impedindo-o de ir. Seu lugar era para ser aqui, em seu quarto, ao seu lado, apenas protegendo-o, apenas cuidando dele, mesmo que algumas vezes, de certa forma sentia-se um tanto inútil por ser um fraco. Rurik desmentia-o, dizendo que ele não era um fraco, mas sim que cada pessoa tinha suas especificações. Ou seja, alguns nasciam para serem bravos guerreiros como os berserkers eram, outros para serem escravos como Rurik, e outros para serem aqueles a serem protegidos.

Meine rangeu os dentes. Ele não queria ser assim de tão simples a ponto de depender de outros para protegê-lo. Também queria ser forte. Ou ao menos, se não pudesse ir contra o que ele era, pelo menos ter algo em que ele fosse bom. Afinal, por que diabos ele existia se não possuía sequer um propósito de vida?

Sobressaltou quando algo bateu a janela. De novo e de novo. E mais uma vez até que a mesma se abrisse, e o vento da noite soprasse para dentro do quarto junto com a chuva. Meine quase se fundiu com a cabeceira da cama pelo medo de quem seria. Mas nada apareceu na janela, apenas a noite escura misturada com chuva tremenda e o vento chicoteando o ar.

– Deve ser apenas o vento... — Suspirou um pouco mais tranquilo, porém ainda hesitante ele se levantou da cama e caminhou passo por passo cauteloso até a janela. Olhou para fora com olhos enormes tentando encontrar algo em meio a escuridão, mas nada estava lá. Ele ainda quis verificar mais e colocou as mãos para fora.

Imediatamente a chuva cessou e o vento diminuiu.

Meine ficou chocado. Quando ele voltou as mãos para dentro, a chuva voltou e o vento também ainda mais violento e chicoteando as árvores em torno da cabana.

– Acho que os deuses não querem que eu me molhe... — Meine sorriu, ao que fechou as janelas e o trinco para evitar que o vento as abrisse novamente. Tal qual foi seu susto quando ouviu sons dentro da casa, ponderava se eram os sons da chuva lá fora, era bem provável que fosse.

Ele tomou o folego e resolveu verificar, afinal Wray estava repousando em outro quarto e era o dever de Meine ficar protegendo-o e não se encolhendo em uma cama.

Meine andou nas pontinhas dos pés, encolhido apesar de sua coragem ínfima. Atravessando a porta, Meine olhou para a sala de estar. A cabana era pequena, porém tinha seus quatro comodos básicos e um banheiro em conjunto com o quarto de Alasd.

Identificou o ruído como sendo a porta da sala aberta, abrindo e fechando com a força do vento. Meine estranhou, pois se lembrava de te-la trancado, ele chegou até o hall de entrada e tomou a maçaneta pesada de ferro e fechou a porta, notando que a corrente com cadeado usada para trancar a porta estava destruída. Seus olhos se arregalaram ao ver aquilo.

Olhando ao redor da sala, não havia absolutamente nada de estranho, a não ser que todas aquelas máscaras indígenas e cabeças de animais dependuradas fossem um inferno de muito assustador. Engolindo em seco, ele correu — ainda nas pontas dos pés — para o quarto de Wray, lutando para abrir a porta e entrando com desespero.

Seu amigo querido ainda permanecia dormindo, provavelmente do chá de ervas calmante que o curandeiro tinha oferecido a Svan mais cedo quando o mesmo fora procurar por ajuda médica. Meine tinha preparado e oferecido ao berserker, que o ajudou a cessar as tosses constantes e melhorou a febre.

Meine aproximou-se da cama e carinhosamente tocou o rosto de Wray. O mesmo ainda permanecia pálido e não se movia. Estava quente, porém não febril. Isso foi suficiente para Meine se tranquilizar um pouco. Ele quase achou que perderia Wray esta noite.

Verificou o trinco das janelas e manteve Wray aquecido sobre um monte de peles, para então deixar o quarto e fechar a porta. Resolveu que voltaria ao quarto em que estava ficando, mas antes mesmo que desse um passo em direção ao mesmo, seus pés escorregaram em uma poça d'água e a queda fora inevitável. Meine ainda tentou segurar-se em uma das poltronas da sala de estar, no armário, mas este estava longe, tentou sobre a pequena mesinha, mas o que conseguiu foi apenas derrubar uma das esculturas de madeira frágil de Alasd, que caiu sobre o chão e despedaçou. Meine caiu de cara sobre o assoalho, mas teve sorte que seu nariz foi de encontro a um tapete. No entanto ainda sim doeu.

Ele gemeu e ainda permaneceu ali, absorvendo a queda que tivera. Engoliu a súbta vontade de chorar porque ele não era um bebêzão. Meine só não esperava ter uma pequena intuição naquele momento, virando o rosto para baixo da poltrona, ele tinha certeza que viu algo se mover.

Com horror pensou ser um rato. Era bem capaz de haver criaturas assim nessa cabana velha, mas forçando os olhos, a criaturinha era branca. E maior do que um ratinho seria. A mesma olhou com olhos enormes e assustados para Meine, como se medindo se deveria fugir ou não do elfo.

Meine sorriu! Sentiu-se louco para arrancar a critura debaixo daquela poltrona e abraçá-la contra o peito. Sabe se lá o que era aquilo, mas ainda sim sentiu esse desejo.

Amava animais, e eles reagiam muito bem a si quando se aproximavam dele.

– Ei... — Sussurrou, ainda deitado de peito para o chão e aproximando-se lentamente da poltrona. — Venha cá animalzinho... — Estendeu sua mão.

A criaturinha ainda permanecia assustada, porém menos trêmula. Seu focinho foi para frente curioso, farejando o aroma reconfortante do elfo. Meine permaneceu quieto, apenas esperando, e foi como pensou que aconteceria. O bichinho se aproximou de sua mão e a farejou, o tempo todo hesitante, até que Meine a pegou. Era uma doninha e a mesma chiou medrosa quando Meine a apertou contra o peito e beijou sobre a cabeça da mesma.

– Que fofinha! É uma doninha! — Ele repetia, suas mãos alisando suavemente sobre a criatura, que já não estava tão medrosa, apenas se deixou ser acariciado pelo elfo.

Havia isto sobre Meine, uma paz que não se encontrava em qualquer outro ser, era quase divino. Bem, era isto o que sua avó Mona vivia lhe dizendo. Que Meine era especial, e por isso as pessoas que o conheciam, sempre o amariam.

Ele queria muito isso, é claro. Queria ter Svan amando ele tanto quanto ele o amava. Sabia até que os sentimentos do grande berserker eram bons, sentia em seu coração que Svan gostava dele. Mas não tinha tanta certeza se algum dia isto se tornaria algo mais.

Até onde seus pensamentos estavam indo? Até agora Meine estava concentrado na doninha e de repente estava pensando em Svan?

Já sentia tanta falta dele.

– De onde você veio? Está se escondendo da tempestade? — Meine perguntou com um sorriso leve e caloroso ao se sentar no assoalho de madeira sobre a poça de água. De alguma forma a bolinha de pelos branca confortou seu coração com aquele chiadinho bonito e seus olhos grandes cor de rosa. — Eu vou protegê-lo!

– Olhe só se não é Gefiona!

Meine quase caiu para trás com o susto. Era por isso que aquela grande poça de água estava em todo o caminho da sala! Não era pela doninha, era por... Quem eram essas pessoas?!

Ele encolheu quando três homens estavam em torno dele, todos altos e elegantes que de alguma forma lembrou-o de Wray.

– O-O que... Quem são vocês...? — Perguntou assustado. Meine soltou um gritinho quando um deles, com cabelo cor de fogo todo penteado para cima, agarrou Meine pela gola da camisa e o puxou para se por de pé.

Eles ignoraram completamente sua pergunta.

– O que a criatura de Hayliel faz aqui? — O rapaz com cabelo que parecia uma chama, falou. — Será que Hayliel está aqui?

– Não seu inconsequente, Darius está indo ao seu encontro neste momento e... — O maior deles e mais forte começou a dizer quando parou, e o silêncio permaneceu entre os três, o trio visualizando Meine e seus olhos estreitando. — Não posso crer nisso... Apenas pensamos que esta cabana estaria desocupada para nos abrigar da tempestade e... Oh santo Odin!

– O que foi Oleg? — O mais baixo deles, entre estatura, porque o trio era incrivelmente mais alto que Meine e elegantes como Wray era. Seus cabelos eram loiros e espetados para cima, além de sua voz soar muito engraçada para a opinião de Meine.

Entretanto era impossível ter qualquer incidencia de qualquer coisa que fosse engraçada, quando o que mais tinha era medo e horror. Meine sentiu que poderia desmaiar, mas tentou a todo custo manter-se firme sobre suas pernas trêmulas. A criatura encolheu nos braços dele, como se sentisse o seu medo, mas incrívelmente não teve qualquer tremor por aqueles caras. Por que ela estava tão tranquila?

– Diga logo Oleg! — O de cabelo cor de fogo disse impaciente.

Aquele nomeado Oleg, o mais alto e mais forte entre os três, aproximou-se de Meine. — Eu conheço você... — Ele apontou para o rosto do garoto.

O albino arregalou os olhos e piscou várias vezes enquanto observava o rosto do homem. Aliás, os três pareciam familiares.

– Ei Aske... — Disse aquele com cabelos arrepiados e voz engraçada. — Não é um daqueles garotos que encontramos outro dia no fim da fronteira entre os quatro clãs? Era aquele de touca! — Ele gesticulou uma touca sobre a cabeça.

– Vocês... — Meine apontou para eles. — São os elfos da floresta! — Dessa vez ele sorriu, parte de seu medo indo embora, por que estes homens não eram maus!

Eles não machucariam Meine. E por que diabos ele sabia disso? Onde estava a sua desconfiança?

Algo dentro do coração de Meine gritava certeza. E ele percebeu que aquilo era parte dele e sempre foi, mas raramente sentia aquela sensação de descobrir sobre as pessoas.

Ele tinha sentido isso assim que descobriu Svan, tendo a certeza que o homem seria bom com ele.

– Somos elfos, você tem algo contra nós? — Thrym, aquele da voz engraçada, qual Meine se lembrava, perguntou.

O albino negou com a cabeça, sorrindo como um bobo para a presença dos três. Oleg também sorriu para ele, e Aske, o de cabelos cor de fogo, parecia um tanto intrigado pela aparência de Meine.

– É um albino. — Ele disse. — Ele é um de nós mesmo, Oleg.

– Sim, é um elfo, e muito mais do que isso. — O grandalhão loiro cruzou os braços sobre o peito. Sua expressão era de muito bom humor, embora o trio estivesse encharcado.

– Como assim?

– Darius deveria ter vindo conosco... Nós encontramos o que ele tanto procura. — Ele parecia convencido disso.

Thrym e Aske se entreolharam, confusos. De repente os olhos de ambos de esbugalharam.

– Não pode ser! — Eles exclamaram juntos.

– Isso mesmo. — Oleg assentiu, ao que se aproximou de Meine e envolveu um braço sobre os ombros estreitos do albino. — Darius ficará mais do que satisfeito quando souber que encontramos Phaeleh.

O nome martelou na mente de Meine.

Phaeleh.

Ele já tinha ouvido isto antes em algum lugar, mas não se lembrava quando. O que Oleg estava dizendo parecia inacreditável para Meine. Até mesmo a doninha em seus braços chiou em contentamento depois de ouvir aquela palavra. O que eles queriam dizer com isso? O que diabos era ser um Phaeleh?

Meine levou um susto, assim como todos os outros se colocaram em posição de defesa quando a porta atrás deles se abriu com um estrondo e Wray apareceu com seu arco e flecha apontado para eles.

– O que vocês querem com Meine? Deixem-no em paz! — Ele gritou no alto de seus pulmões, colocando-se pronto para atacá-los na primeira oportunidade. Meine ficou a frente deles acenando para Wray que ergueu as sobrancelhas e abaixou o arco.

– Não os machuque, Wray! Eles são bons!

– Mas eles são elfos! — Wray replicou.

– Eu também sou um elfo, esqueceu? — Meine respondeu-o, ferido.

Wray deixou os ombros cair, se arrependendo do que tinha dito.

– Eu sei... Eu só... — Ele olhou para os três homens em torno de Meine, e notou como os mesmos arregalaram os olhos para a sua presença.

Havia horror em suas expressões, como se Wray fosse alguma espécie de monstro.

– É um mestiço... — Oleg murmurou.

– Um bastardo. — Thrym virou a face, como se fosse doloroso ter de olhar para Wray.

Aske apenas ficou de boca aberta.

– O que estão dizendo? — Meine se virou para eles com punhos apertados. — Ele não é um bastardo! — Defendeu.

Oleg olhou ternamente para o albino. — Ele é um mestiço, Meine... Um elfo pode sentir as origens de um semelhante. E este rapaz não é apenas um elfo, ele é um berserker também. Possui sangue de ambos, e isso não é permitido em nosso Reino. É uma abominação.

Os olhos de Meine brilharam com lágrimas não derramadas, e de alguma forma ele se sentiu traído quando olhou para Wray e viu em seus olhos o reconhecimento de uma falha. A dor em seu olhar e o fato de ele ter desviado o mesmo, envergonhado, foi a gota d'agua para Meine.

Wray era um elfo como ele... Não importa se seu sangue era uma mistura. Mas ele nunca quis dizer-lhe sobre isto. Quantos segredos ele possuía ainda que não lhe contou?

Meine franziu as sobrancelhas e fez uma careta quando as lágrimas deixaram os seus olhos.

– Como você pode Wray...?

– Eu... — Wray engoliu duramente, e algo quebrou dentro dele quando olhou para os olhos de Meine cheios das lágrimas e sua expressão de raiva. — Eu não queria que ninguém soubesse.

– Você guardou isso de mim... E eu fui tão tolo. — Meine empurrou os punhos em seus olhos, esfregando-os. — Eu sempre quis conhecer alguém como eu... E você nunca me disse que era igual a mim!

– Não sou igual a você! — Wray tentou inutilmente se explicar. — Você é o único Phaeleh que existe... E eu sou apenas uma mistura, por isso sou doente.

A expressão de Meine se contorceu ainda pior. Seu coração doía tanto no peito como se tivesse sido acertado por uma das flechas de Wray. E toda a paz que rodeava Meine se transformou num sentimento negativo, e todos foram baqueados por isso. A sala se tornou graus abaixo de zero, a doninha em seus braços fugiu, e os elfos de luz se afastaram de Meine.

– Como você pôde... Me trair... — Os olhos de Meine tornaram-se tão escuros quanto a noite, enquanto a cor de seu rosto fora drenada para algo tão pálido, até mesmo seus lábios.

A janela da sala se quebrou em pedaços quando um corvo enorme se jogou dentro da sala. Suas grandes asas bateram sobre os móveis, derrubando todos os enfeites de Alasd e fazendo uma grande bagunça. Rapidamente ele se transformou em Dain.

Meine teve seus olhos arregalados e seu coração travou diante do sorriso perverso do elfo das trevas.

Toda a tensão que provinha de Meine se extingiu e ele caiu desmaiado. Seria um baque duro sobre o assoalho de madeira se Wray não o tivesse segurado.

Imediatamente os elfos de luz se impusionaram em uma batalha de três contra um. Mas Dain parecia vitorioso desde o início... Foi o que Oleg e os outros elfos perceberam com horror. Este era um dos guerreiros mais forte de Ulsuf.

Os olhos de Meine se abriram minimamente e visualizaram Wray. O mesmo segurando-o em um abraço caloroso, trêmulo, porque ele não se sentia bem, e então fraco, mas... ainda sim, o albino não compreendeu aqueles sentimentos.

Wray tinha escondido algo tão importante dele, mas ainda sim não era motivo para ele ter tanto ódio de um segundo para o outro.

Foi a presença de Dain que mudou algo dentro dele de repente.

– Temos que sair daqui... — Ele murmurou para Wray, que assentiu um pouco vacilante.

Wray o arrastou para o quarto e trancou a porta.

– Pela janela. Temos que chegar a Svan... — Começou Meine.

– A guerra... — Os olhos de Wray estavam arregalados. — Eles te descobriram Meine! Isso significa que seremos atacados.

O albino piscou. Era a primeira vez que ele viu Wray entrar em pânico.

– O que você quer dizer com isso? Por que eles irão entrar em guerra se me viram?

Ele não entendia... Como isso era possível?

Wray suspirou cansado.

– Isso é uma longa história. Eu te contarei tudo, mas temos que sair agora, antes que seja tarde, e encontrarmos Svan.

Agora Meine estava vendo o seu amigo de sempre. Ele sorriu um pouco fraco e sentiu algo quente pousar em seus ombros, identificando ser a doninha "Gefiona", cujo os elfos a nomearam.

Embora o horror e o medo fossem grandes no peito de Meine, ele decidiu que seguiria Wray e confiaria nele. Algo não estava certo, nada ia bem.

Continua...

Notas finais
Miky-san: Gostaram? nhaah espero que sim kkkk Próximo capítulo promete muito mais - literalmente - preparem seus corações! Obrigada por ler ♥ Até a próxima! Beijinhos