Phaeleh I
17 Capítulo 17 – Desalentado
Notas iniciais
A chuva caía intensamente lá fora. Os trovões pareciam fazer as paredes da casa tremerem e, mesmo sendo o meio da tarde, estava terrivelmente escuro lá fora. Meine sentia o frio se instalando em seus ossos e mesmo o cobertor de pele que tinha envolto dos ombros não parecia ser o suficiente para esquentá-lo.
Rurik estava sentado aos seus pés, repousando a cabeça em seu joelho. Suas pálpebras pesavam pelo sono que o abatia – ele acordava cedo todos os dias e trabalhava incessantemente para suprir todas as necessidades de Niels. Ele suspirou quando Meine começou a mexer em seus cabelos, brincando com as mechas arrepiadas.
Svan, Niels e Skylar estavam patrulhando lá fora, sob o temporal, cuidando do clã. Meine não conseguia não se preocupar com eles, em especial com Svan, mesmo sabendo que estavam bem. Eles eram fortes, mas os inimigos também eram.
Wray, por sua vez, não largara o arco, como se aguardasse um ataque súbito. Já havia bebido um chá preparado por Aricin, pois tivera uma crise quase imparável de tosse momentos atrás. Vez ou outra estremecia e ocasionalmente tossia. Meine não conseguia não reparar no quanto Wray parecia vulnerável quando não estava tentando parecer inabalável.
Wray o chamara para conversar, mas nada dissera desde que pisaram em sua casa. Logo em seguida, Rurik apareceu sob ordens de Niels, e minutos após, a chuva começou a cair, ganhando intensidade, até se tornar uma tempestade. O vento rugia lá fora, fazendo a porta de madeira tremer. Meine se sentia em um cenário apocalíptico.
–- Niels... – Rurik murmurou levemente adormecido.
Wray caminhou até eles, ajoelhando-se diante de Rurik e lhe afagando os cabelos.
–- Como pode uma criatura tão frágil quanto um humano ser o portador das profecias divinas? – sussurrou. Parecia uma pergunta retórica, portanto, Meine não disse nada, apenas observou o quanto Wray era gentil sem qualquer discriminação. Ninguém era mais bondoso que Wray, ao menos não com escravos. – Os rapazes chegarão tarde – e seus olhos cor de mel se ergueram para Meine – Por que não vão para o meu quarto? Podem dormir até Svan e Niels vierem buscá-los.
Meine o olhou com o cenho franzido.
–- Mas, e você? Não descansa o bastante, Wray.
Wray negou com a cabeça com sutilidade. Meine não conseguia não admirar seus movimentos – cada gesto de Wray era dotado de tamanha elegância que Meine não se surpreenderia se seu amigo outrora houvesse sido um príncipe.
–- Eu vou cuidar de vocês – ele disse com um lento repuxar de lábios – Não é isso que os guerreiros do clã devem fazer?
–- Mas...
–- Shh – Wray o interrompeu gentilmente. Eles falavam baixinho para não incomodar Rurik em seu sono. O ruivo realmente precisava dormir um pouco – Svan me pediu para protegê-los.
–- Wray...
–- Eu tenho que estar preparado para todas as situações, Meine. Velarei por vocês, é minha obrigação.
Meine queria discutir. Não lhe agradava ter seu amigo doente se esforçando tanto por eles, mas ele via no olhar de Wray que havia muito mais do que sentido de dever em jogo – havia honra. Wray queria cuidar deles por amá-los e por amar a si mesmo. Ele não queria simplesmente se deixar morrer em uma cama, queria morrer lutando, dando o máximo de si com determinação. Toda essa força se espelhava na dureza de seu olhar, que contradizia com a fraqueza de seu corpo.
Meine não queria ver Wray machucado. Mas sabia que não havia nada que pudesse fazer para que ele mudasse de ideia – Wray lutaria até seu último segundo de vida.
–- Sua honra vale tudo isso? – Meine mal possuía voz.
Wray estendeu a mão e lhe tocou os cabelos com doçura.
–- Por favor, não me trate como um doente. É um dos motivos para eu não dizer nada a ninguém. Eu não quero esse olhar como se eu fosse quebrar a qualquer momento em minhas costas.
Meine engoliu a necessidade de chorar em respeito a seu amigo e forçou um sorriso.
–- Então, venha conosco. Não estou com sono e... Você pode conversar comigo.
Wray se ergueu. O manto de peles em seus ombros ondulou com seus movimentos. Ele olhou para a cozinha.
–- Aricin – chamou.
O escravo rapidamente apareceu na entrada da cozinha como se tivesse surgido do ambiente magicamente, olhando com olhos imensos para Wray, aguardando suas ordens.
–- Prepare algo para comermos.
Mesmo as ordens de Wray eram suaves. O escravo anuiu com a cabeça e desapareceu no interior da cozinha. Wray pendurou seu arco nas costas e se abaixou, pegando Rurik em seus braços. O ruivo se aninhou contra ele, suspirando prazenteiramente. Wray se dirigiu para o corredor de portas e Meine se levantou da cadeira na qual estivera sentado desde que chegara ali. Seguiu Wray como uma sombra, até entrarem o quarto que já lhe era familiar.
Delicadamente, Wray depositou Rurik sobre a cama e o acomodou, cobrindo-o com as peles. O menino gemeu pelo súbito conforto e pelo calor que o abraçou. Meine sabia que Rurik dormia no tapete todas as noites e que a cama deveria lhe parecer um paraíso.
–- Quer se banhar, Meine?
Meine arregalou os olhos.
–- Eu posso?
Wray sorriu.
–- Claro. Posso pedir a Aricin que prepare a banheira.
–- Mas... Eu também sou um escravo como ele.
Wray piscou para ele.
–- Os escravos em minha casa ganham algumas regalias – disse em tom confidente.
Meine abriu a boca para aceitar a proposta, entretanto, em sua mente desejou guardar esse banho para tomar com Svan. Queria estar dentro da tina com o Berserker e toca-lo por inteiro, cada pedacinho dele. Desde a primeira vez na qual Svan lhe cedera o controle de seus jogos, ele vinha ganhando mais confiança e já não tremia tanto quando Svan se mexia subitamente, levado por alguma reação de seu corpo ante a excitação do momento. Meine gostava de saber que aquilo era por ele – toda aquela gentileza e paciência, tudo por e para ele.
Se Svan não chegasse exausto do trabalho, Meine queria conhecer mais de seu corpo. Sua última descoberta era a de que Svan era extremamente sensível nos mamilos e Meine descobriu que também gostava de brincar com eles.
Ele negou suavemente com a cabeça.
–- Obrigado, Wray.
–- Não precisa agradecer. Você sabe que somos amigos, não sabe?
Meine assentiu.
–- Claro. Eu só... – ele sentiu o calor subir por seu pescoço até seu couro cabeludo quando corou – Vou esperar por Suvan.
Wray o olhou com ternura.
–- Vocês estão se dando muito bem, não é?
–- Sim! – Meine não conseguiu conter o sorriso amplo que eclodiu em sua face com a felicidade que o alagou – Suvan é muito gentil.
–- Ele está tentando te conquistar de novo.
Meine também sentiu uma pontada de tristeza quando se lembrou de que não podia dizer a Svan o que sentia por ele, não enquanto Svan não estivesse pronto para ouvir.
–- Sim – murmurou, já sem a animação anterior.
–- Está triste, Meine. Por quê?
Ele não tinha certeza se deveria verbalizar seus sentimentos mais profundos para Wray, e estar trancando aquilo dentro de si mesmo parecia estar estrangulando-o. Ele tinha... Que dizer a alguém, mesmo se não fosse à pessoa a qual seu amor era direcionado.
–- Eu o amo, Wray.
–*-*-
Skylar paralisou na entrada do quarto de Wray. Ele simplesmente não conseguia se mover, pensar, respirar ou mesmo... Ele não conseguia fazer nada. Seu coração se acelerou tanto no peito que ele teve de agarrar a camisa por sobre aquele maldito órgão pulsante, sentindo uma dor tão crua que trincou os dentes para não gemer.
Ele havia sido liberado de seu turno antes dos outros por não conseguir se concentrar no que fazia – desde que Niels dissera que Wray parecia doente e fraco, nada mais passara por sua cabeça. A ânsia de ver seu amigo cresceu até se tornar insuportável e ele estava sempre olhando na direção da aldeia, contando os segundos para a noite para que pudesse ir falar com Wray.
Estava preocupado. Era tanta preocupação, que o sentimento parecia não caber em seu corpo, e isso o enlouquecia. Desejou ver Wray com todas as forças, abraçá-lo e lhe perguntar o que tinha. Se Wray estava com algum problema, ele queria saber. Ele queria ajudá-lo.
E ouvir Meine se declarando para Wray o destruiu. Ele estava apavorado ante a ideia de Wray poder amar Meine. E também confuso, pois acreditara que Meine gostava de Svan.
Mas que engodo amoroso era aquele?
Skylar se recostou na parede, sentindo que o mundo girava, o chão serpenteando abaixo de si e lhe tirando o sustento.
–- Eu o amo tanto, que parece que o sentimento vai me consumir se eu não falar – prosseguiu Meine, e sua voz soou embargada, como se engolisse as lágrimas.
Rejeite-o. Por favor, rejeite-o. Wray, por favor, por favor...
–- Eu entendo – Wray disse em seu habitual tom suave. Skylar sentiu que seu coração estava sendo estraçalhado naquele instante, como se algo o matasse a fogo lento – Eu... entendo.
Silêncio.
–- Entende? – Meine parecia surpreso.
Não, Wray... Não o entenda, por favor.
Porque aquilo o estava destruindo.
–- Eu sinto o mesmo, Meine.
Não!
Ele, por muito pouco, não gritou.
Há quantos anos guardava seus sentimentos por Wray? Há quantos anos fingia apenas ser seu amigo porque Wray não parecia estar interessado nele?
E agora... E agora tudo ia por água abaixo. Ele estava perdendo... Não. Ele havia perdido Wray completamente. Skylar não tinha mais forças para ser apenas seu melhor amigo – ele queria ser seu companheiro. Queria ser além de um irmão de armas. Queria poder tocá-lo. Segurar sua mão. Beijá-lo. Abraçá-lo. Só os deuses sabiam quantos sonhos já tivera com Wray.
Ele se sentia destruído.
Recuou no corredor, distanciando-se do quarto. Não tinha forças para encarar Wray e, de repente, o frio que sentia não se devia mais unicamente a suas roupas encharcadas pela chuva. Era um frio interior e destrutivo, tão agonizante, tão insuportável...!
Ele não tinha mais ciência de que respirava. Sentia-se caminhando em uma corda-bamba sobre um abismo.
Quando chegou à sala, respirou fundo. O escravo de Wray já havia se escondido, mesmo que já estivesse acostumado com ele. Skylar respirou fundo incontáveis vezes.
Seu amor... Seu amor não era mais seu. Era apenas um amor que lhe fora arrancado por entre os dedos sem que pudesse fazer nada.
Eu não fiz nada.
E isso o estava corroendo por dentro. Ele não tivera tempo para fazer nada por Wray, porque ele fora arrancado de si sem que, de fato, pertencesse-lhe.
Ah, como doía! Como doía, como doía, como doía!
Nunca passara pela cabeça de Skylar que um dia Wray ficaria com outra pessoa. Em sua mente, haveria o momento oportuno para lhe dizer seus sentimentos, e ele esperara... E esperara...
E perdera esse momento.
Ele queria sumir. Queria... Não sabia o que queria. Desejava gritar e explodir sua raiva e sua mágoa. A fera dentro dele ansiava por libertação, por... por seu companheiro. Ele nunca pensou que sofreria duplamente, pois seu lado mais agressivo ansiava pela serenidade que Wray transmitia. Ele queria Wray – desesperadamente.
–- Sky?
Ele enrijeceu. Atrás dele, estava Wray. Reconheceria sua voz mesmo se estivesse em um frenesi de loucura que poderia acometer os Berserker no passar dos anos.
Ele sabia que não tinha forças ou disposição para enfrentar Wray, não quando seu coração estava tão ferido e tudo o que desejava era se esconder para lamber suas feridas e recolher seus pedaços. Respirou fundo, notando o quão marejados estavam seus olhos ante o som daquela voz.
Virou-se para Wray, encerando na face um amplo sorriso.
–- Wray! – disse alegremente – Eu encerrei meu turno antes para vir te vir, mas – você estava ocupado com outra pessoa – você está protegendo os meninos, então...
As bochechas de Wray coraram.
Ah, deuses, não... Sky não queria aquele rubor para Meine. Queria que fosse para ele. As lágrimas estavam se agrupando em seus olhos e sua voz ameaçava tremer. Inalou com força, engolindo a tristeza esmagadora, congelando o sorriso.
–- Fique conosco – Wray disse baixinho – Rurik está dormindo e...
–- Eu não posso – Sky o interrompeu bruscamente, logo forçou uma risada para que não parecesse tão ríspido. Ele achava Wray tão lindo em seus trajes de guerreiro... Ele parecia etéreo, mesmo magro como estava. Era a coisa mais bela que já vira – Eu... Eu tenho umas coisas a fazer, mas...
–- Sky – suas sobrancelhas se franziram muito levemente e Skylar soube imediatamente que ele estava preocupado – O que há?
Skylar riu, meneando o cabelo.
–- Não há nada. Estou cansado, só queria ver você...
Porque esse era sempre seu maior desejo.
Ele não suportava mais a proximidade de Wray e o queria, ao mesmo tempo, sempre por perto. Mas, agora, quando estava sofrendo tanto, tão perto de chorar como uma criança...
Tinha que ir embora o quanto antes.
–- Você está chorando.
Aquelas três palavras de Wray o atingiram como um aríete. Skylar perdeu a força nas pernas e o ar. Hesitante, ergueu as mãos que suavam como um riacho e tocou as próprias bochechas, notando a umidade nas pontas dos dedos. Ele tentou rir para esconder sua dor, mas saiu um som estrangulado e sôfrego, tão digno de pena que fez com que se odiasse ainda mais.
–- E se eu estiver chorando para chamar sua atenção? – forçou-se a brincar.
Ele queria ir embora. Queria se esconder.
–- Skylar – Wray disse duramente em repreensão. Ele estendeu a mão e tocou a bochecha de Sky, tomando seu rosto na palma e usando o polegar para lhe colher as lágrimas. Aquilo o atravessou como uma saraivada de flechas, aumentando a sua dor. Não queria que Wray fosse tão terno. Não podia ser, não quando amava outro. Não quando, inconscientemente, esmagara seu coração. – Sky, não minta para mim – disse gentilmente – Você está sofrendo.
Claro que ele estava.
Sky cobriu a mão de Wray com a sua, embebendo o carinho daquele toque.
Um carinho de irmão.
Ele olhou dentro daqueles olhos cor de mel, vendo seu reflexo deprimente, memorizando cada traço de Wray. Sempre o achou bonito, mas depois que amadurecera... Ele se tornara além de especial. Agora era um homem – o homem que Sky queria com todas as forças da sua alma.
–- Está tudo bem, Wray – mentiu com a voz rouca e fraca.
Wray parecia estar absorvendo sua dor, sofrendo com ele como se o problema fosse seu.
–- Mentiu outra vez. – ele afagou seu rosto. Cada gesto afetuoso quebrava ainda mais cruelmente seu coração – Se não quiser me contar, ao menos fique.
Ele não aguentaria.
–- Não posso Wray. Eu... – as lágrimas começaram a rolar e Sky tentou com todas as forças detê-las. Ele não conseguia se impedir de chorar. – Eu tenho que ir.
Wray, a contragosto, assentiu com a cabeça. Quando sua mão deslizou para baixo e o contato entre eles se rompeu, Wray deixou seus dedos irem, sentindo que perdia muito mais do que seu toque.
–- Eu entendo – ele disse, e havia muita dor em sua voz. Wray era tão sensível ao que os outros sentiam... – Amanhã nos falamos então.
Não, eles não iam se falar. Skylar faria todo o possível para que não se encontrassem e, quando a guerra acabasse, pediria a Svan para manda-lo para outro clã – um bem distante, onde não houvesse oportunidade para encontrar Wray novamente.
Antes de perder a coragem, ele segurou a nuca de Wray, sentindo a suavidade macia de seu longo cabelo, olhando naqueles olhos tão incrivelmente expressivos. Skylar puxou Wray para si, pressionando seus lábios nos dele. Sentiu seu amigo enrijecer em seus braços, principalmente quando usou o outro braço para lhe enlaçar a cintura, colando seus corpos. Os lábios de Wray eram surpreendentemente macios e quentes. Skylar, por um momento, esqueceu-se de toda a dor que o destroçava e se perdeu, inebriado, com o sabor de seu amigo.
O que ele não esperava era que Wray fosse abraça-lo apertado pela cintura, aferrando-se a sua roupa como se não quisesse deixa-lo ir. Isso o confundiu, pois tinha total ciência de que ele e Meine estavam apaixonados. Ainda assim, foi involuntário que não beijasse Wray com toda a paixão reprimida de anos. Os lábios se moviam com desenfreio, com gula, como se expressassem mais do que as palavras poderiam.
Sky penetrou a língua na boca de Wray, ouvindo-o suspirar e gemer. Ele apertou Wray contra si, lambendo sua língua, explorando sua boca, conhecendo cada canto, e se deleitando com a ávida resposta que recebeu. Ele não esperava que Wray possuísse tanto fogo para ele – e isso fez se sentir mais miserável, porque aquele beijo não poderia ser para ele.
Era seu primeiro beijo com Wray. Esperava que fosse sentir uma euforia colossal – em seus sonhos, foi assim que ocorreu. Entretanto, seu único sentimento presente era um de despedida.
Ele saboreou os lábios de Wray, lambendo-os e sugando-os, para então voltar a beija-los. Wray mordeu seu lábio inferior e Sky sentiu que estava se excitando – ele sentia o sangue fervendo, clamando por Wray.
Chupou a língua de Wray entre os lábios.
Eles estavam ofegando quando encerraram o beijo. Apoiou a testa na de Wray, saboreando aquele momento no qual podia tocá-lo, abraçá-lo, senti-lo. Suas respirações estavam aceleradas, descompassadas, e seu coração galopava no peito.
–- Sky – ele ofegou seu nome.
Skylar se recompôs, guardando dentro do coração aquele momento para lembrar depois, quando estivesse só. Respirando fundo, forçou-se a largar Wray, afastando-se dele. Encerou na face uma máscara de descaso para que ninguém notasse seu coração quebrado.
–- Isso não vai se repetir – murmurou, recuando um passo em direção da porta.
Por um momento, Wray pareceu desnorteado, como se suas palavras não o tivessem alcançado. Então, ele pestanejou, lambendo os lábios inchados e vermelhos pelo beijo.
–- O que disse? – falou em uma calma que Sky conhecia como sendo um prelúdio para uma batalha feroz.
–- Exatamente o que ouviu – ele passou a mão pela boca – Eu não vou te beijar outra vez. Foi o primeiro homem que beijei e será o último.
Wray inalou fundo.
–- Você realmente não conhece limites, não é? – Wray disse com serenidade.
Ele estava puto. Sky o conhecia bem para saber. Ele queria se impedir de ser cruel, mas estava tão magoado, que a única forma de dar vazão a sua dor era sendo um canalha.
–- Já tivemos o suficiente. – Sky replicou – Você foi muito fácil.
Wray semicerrou os olhos. Skylar o olhou uma última vez antes de sair de casa.
–*-*-
Aricin assistiu de longe o momento em que Skylar foi embora de casa.
Nunca antes havia se sentido tão devastado em apenas ter tido a insatisfação de assistir seu mestre ser esmurrado por palavras. Cada uma delas chegou aos seus ouvidos, e o feriram como se fossem elas destinadas a si mesmo.
Queria poder consolar Wray, dar-lhe algum abraço, algum carinho, poderia até mesmo ir à cama com ele, se fosse para fazê-lo se sentir melhor, mas seus complexos, seus traumas, simplesmente não lhe permitiam fazer qualquer coisa a outra pessoa, que fosse além de garantir o bem estar, sem qualquer toque ou troca de palavras.
Aricin se recostou contra a parede, sua cabeça tombando para frente no momento em que ele escutou os soluços de Wray. Ele sabia que não duraria muito tempo, pois seu mestre sabia muito bem como mascarar seus sentimentos, e assim como Aricin vivia as escondidas, ele era apenas como um fantasma que sabia tudo sobre o seu amo, sem que o mesmo tivesse qualquer medo ou receio que ele saísse por ai lhe contando os segredos dele.
Com um suspiro incontrolável, e a dor gigantesca em seu peito, ele caminhou pela cozinha escura, com apenas uma lamparina acesa, presa no alto do forno à lenha. As panelas de ferro estavam já ariadas e secas no armário pesado de madeira cor de mógno, enquanto a pequena mesa de duas cadeiras, tinha uma toalha branca e um jarro simples com algumas flores a murchar.
Suas mãos pentearam os seus cabelos para trás, enquanto ele segurava incontrolavelmente o choro. Ele sempre iria chorar pelos cantos, havia se tornado alguma espécie de rotina. Era fácil lhe fazer chorar, cada momento em que aquelas terríveis lembranças lhe vinham à mente, as lágrimas simplesmente brotavam e escorriam pela face sem o seu consentimento.
Aricin abriu a comporta que havia no corredor e era acobertado por um tapete indiano. Desceu então as escadas de madeira que rangiam a cada passo, e ali estava ele, no mundinho onde ele poderia estar sob o escuro e tranquilo, onde poderia deixar as emoções levá-lo por quanto tempo quisesse, até ouvir a calma e suave voz de Wray lhe chamando.
Era um porão. E dentro dele havia prateleiras pelas quatro paredes de rocha, uma mesa velha ao centro, com algumas cadeiras velhas e quebradas ao canto, uma centena de jarros de barro vazios em outro. Vários caixotes compunham outro canto. Aricin odiava todas essas coisas velhas, mas ele sabia que por Wray, todas elas já haveriam sido jogadas no lixo. Ele mesmo não havia feito isso por medo de haver algo precioso, alguma lembrança importante nessas coisas para o seu amo.
Aricin não se atreveria a dizer nada a respeito daquilo, ele fazia o que Wray mandava, mas não dizia qualquer palavra. Sabia que sua garganta estava ferida, e que talvez ele nunca conseguisse dizer algo normalmente de novo.
Sua voz havia se tornado tão rouca e baixa, que para ele era um verdadeiro motivo de vergonha, um castigo por ele não ter sido um bom escravo. E realmente não entendia em qual parte ele havia sido ruim. Sua própria mente era uma bagunça quando as lembranças vinham. Mas no final ele sempre sorria.
Ele tinha um dono amável agora. Alguém cujo próprio jamais lhe faria qualquer mal. Alguém do qual Aricin não iria recusar um toque agora, como fazia no começo, quando foi comprado. Wray nunca lhe fez qualquer mal, nunca levantou a mão para ele ou tentou qualquer maldade. Ele apenas pedia para ele fazer certas coisas ocasionalmente, como preparar aperitivos quando alguém vinha lhe visitar, fazer o almoço e jantar, além de manter a casa limpa. Mas ele sempre que possível, se mantinha fora do caminho.
Aricin não se sentou à única cadeira descente daquele porão, mas sim, no chão ao lado dela. Abraçando seus joelhos, ele deixou que as lágrimas escorressem livremente por seu rosto. Agradecendo aos deuses pela boa oportunidade de vida que tinha, mas ao mesmo tempo triste que não podia simplesmente esquecer suas lembranças, substituí-las por coisas melhores, e não podia ainda, dormir tranquilo sem que pesadelos o fizessem acordar assustado.
Quando ouviu passos no corredor, vozes mais graves, percebera então que era seu momento de subir e dar os seus serviços ao seu amo, caso ele desejasse algum favor.
Os passos cederam à direita, e as vozes se tornaram mais abafadas por eles terem mudado de cômodo, assim, Aricin teve sua vez para sair sem ser visto, e sua vida tinha voltado a ser às escondidas, fundindo-se com a escuridão e mantendo-se como sempre calado.
Sabia que seus olhos provavelmente estavam vermelhos, mas ele evitou qualquer lembrança que o fizesse ter uma recaída novamente. Voltaria a ser a concha vazia de todos os dias, até que pudesse se trancar em seu mundo mórbido de novo.
O único motivo para ele não ter findado seu sofrimento ainda, era o seu comodismo com Wray. A forma como seu mestre era bondoso com ele. Queria assim, que ele pudesse ter mais um tempo para cuidar de Wray, porque já havia se apegado a ele, embora não admitisse tal coisa.
Continua...
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