Phaeleh I
18 Capítulo 18 - Enrascada
Notas iniciais
Svan chegou encharcado àquela noite. A chuva torrencial não dava trégua, e ao que se percebia, duraria por toda a noite.
Teve grande surpresa ao chegar à casa de Wray e encontrar Meine ainda acordado, ou diríamos, meio dormido. Estava sentado em uma das poltronas, um pouco jogado, seus lábios entre abertos, olhos quase se fechando, mas ainda sim ele parecia lutar contra o sono. Svan não esperava que o garoto sonolento, virasse um raio de luz ao encontrá-lo. O sorriso que ele acendeu em seu rosto, fez os próprios lábios de Svan curvarem-se em um sorriso.
Meine quase tombou fora da poltrona e correu para os braços de seu Berserker.
Svan o recebeu em um abraço demorado e apertado. Ele não tinha até então notado, mas agora percebera a presença de Rurik dormindo confortavelmente sobre a cama de Wray.
Mais cedo, ele tinha visto seu amigo arqueiro. Wray estava ainda mais pálido do que de costume. Ele tinha tossido um pouco, talvez pelo ar que estava tão úmido. Contudo o que Svan não compreendeu fora aquele brilho estranho em seu olhar. Ele sabia que Wray tinha certa facilidade em mascarar seus sentimentos, ele mesmo já havia comprovado isso antes, mas hoje, ele sentiu realmente que Wray estivesse mentindo sobre estar bem.
Meine amoleceu em seus braços e Svan tentou endireitá-lo, todavia o garoto estava escorregando para o chão e suspirando em seu sono. Ele então, como costumava fazer, apenas jogou-o sobre o ombro.
– Svan... Isso não parece nada confortável. — Wray disse-lhe da porta.
Niels apareceu atrás dele, seu olhar curioso para dentro do recinto. Ele igualmente estava encharcado da chuva. Quando seus olhos pousaram no escravo ruivo sobre a cama, Svan notou bem um brilho diferente tomar os olhos de seu irmão. Algo o estava fazendo se tornar observador. Já que ele nunca antes sequer notou este tipo de sentimentos em seu irmão. Ele tinha feito isso muito com Meine. Ele queria ver todas as expressões de Meine, principalmente o instante em que seu escravo doce e albino sucumbisse ao prazer de ser penetrado por ele.
Svan grunhiu apenas com a imaginação fértil trabalhando.
– Você tem uma capa? Vou levá-lo para casa.
Wray assentiu, não exatamente olhando nos olhos de Svan. Notou o líder, que seu amigo estivesse desviando o olhar várias vezes.
– Vou providenciar. Quanto à patrulha?
– Outros guerreiros nos substituíram.
Wray anuiu enquanto correu de volta para o quarto a fim de trazer a capa para proteger Meine da chuva. Os Berserkers realmente usufruíam de sorte, pois raramente adoeciam, ainda mais por motivos naturais e produtivos como a chuva. A água abençoada que caía dos céus como uma cachoeira, era para estes homens como água divina que lavava seus corpos e almas.
Depois de ter Meine encoberto pela capa, Svan deu a Wray um olhar que dizia "fique bem, meu amigo", e esperando que recebesse um daqueles sorrisos preguiçosos de Wray, o mesmo apenas assentiu um pouco perdido. O que preocupou demais Svan.
Algo não ia bem. Realmente não estava bem. Ele perguntaria a Meine quando esse acordasse. Provavelmente o albino saberia sobre o que acontecia a Wray.
Svan atravessou a chuva, sentindo seus pés afundarem em longas poças até que lutando contra o vento que caía demasiada, ele chegou a casa. Várias empregadas vieram recebê-lo, e percebeu ele o olhar de todas elas no momento em que se deram conta de que Meine estava em seus braços — protegido da chuva, o que raramente acontecia. Normalmente um dono não teria essa preocupação de se molhar, mas evitar que seu escravo pessoal se encharcasse.
– Preparem algo quente. Niels também estará chegando logo em seguida. – Ele disse ignorando todas as perguntas preocupadas e interessadas das escravas. Algumas delas ainda insistiram em falar com ele, mas Svan simplesmente fez o seu caminho pelo corredor e para o quarto.
Depositou Meine sobre a cama macia e confortável, e passou a trabalhar em suas roupas molhadas, sentindo a pele esfriar, o que não era nada agradável agora que seu maior desejo seria deitar em sua grande cama, completamente nu, limpo e agradavelmente confortável em torno de Meine.
Ele banhou-se rápido e se manteve despido até o momento em que desabou na cama ao lado de Meine. Seu escravo, porém, apenas soltou um ronquido que ele pensou ser adorável.
Svan se colocou de lado, em uma posição confortável na cama e enrolou a cintura de Meine, trazendo-o consigo e o embalando em seus braços como a mais bela criatura que ele zelava com carinho e que nunca deixaria ir.
Algo estava martelando em seu peito, e foi então que percebeu que se tratava de seu coração. Estava agitado com um sentimento novo, que desde cedo, quando conheceu Meine, sabia que tinha. Mas esse sentimento novo o assustava, era bom, mas ao mesmo tempo terrível. Sentia como se fosse devastá-lo, ao mesmo tempo em que parecia ser o céu para ele.
Sua mente nunca antes havia sido tão confusa como agora. Svan tinha medo que isso fosse prejudicá-lo na batalha. Mas se ele pensasse direito, veria que essa batalha tinha um único propósito do qual ele não iria recuar.
Proteger Meine.
Já começava a entender o porquê… Ele não era capaz de deixar Meine ir, não com os elfos de luz ou os elfos das trevas, até mesmo com Skoll, que era para ele como um irmão de território. Meine não iria com elfos ou lobos, qualquer que seja a raça que viria para buscá-lo. Svan não o daria, porque Meine era seu, apenas seu e de mais ninguém.
Aquele pensamento anterior de dividi-lo com Niels, esse não existia mais.
Svan nunca antes tinha tido pensamentos tão possessivos em relação a alguém, e foi mais um motivo para deixá-lo assustado.
Ele olhou em Meine, que dormia tranquilamente debaixo de seus braços, um sono tão pesado, mas que parecia tão bom. O garoto estava confortável na pele de Svan, e parecia se escolher e querer manter-se apenas ali no calor humano que o agradou.
– O que está fazendo comigo, Meine? — Svan murmurou sabendo que não haveria resposta. Ele surpreendeu a si mesmo com a terna vontade de ceder um beijo no garoto, e assim o fez, em sua têmpora, gentilmente, e o enrolou em seus braços, se colocando a dormir. Afinal, amanhã seria um dia muito mais agitado, e sabe-se lá que coisas surgiriam para infligir sua mente.
–*-*-
Além da fronteira que regia o limite entre quatro territórios vizinhos, o clã de Ulfhednar trabalhava arduamente após o período de chuvas. Até noite passada, eles tiveram casas alagadas e infelizmente algumas delas perdidas.
– O que vamos fazer, Alfa?! — Perguntou um dos soldados à Skoll, o líder que estava sentado em um dos degraus da frente de sua casa, ponderando sobre o assunto com uma expressão séria.
– Acalmem-se vocês… Não é como se o mundo fosse acabar justo agora. Temos que nos empenhar em consertar o que foi arruinado com as chuvas.
Ao que parecia, as piores tempestades tinham atingido Ulfhednar, o que dificultou muito a vida dos homens lobos. Skoll tinha perdido três de seus lobos de estimação com a enchente na parte norte do clã. Os mesmos haviam sido levados pela força da correnteza, ele apenas teve sorte que ninguém tinha sido morto a não ser animais, porém seu povo estava nervoso, irritados com a catástrofe, e claro, restava ao Alfa — líder supremo da tribo — tomar as rédeas da situação, conseguindo a todos uma solução ideal.
Skoll sabia muito bem qual era a solução que eles precisavam.
– Phaeleh… — Quando disse. Os que estavam a sua volta se calaram, entreolhando-se. — Peça a Silfos para enviar um recado à Svan. Estarei encontrando-me com ele em cinco dias. — E dito isso, os guardas correram até a casa do mensageiro, que também era o conselheiro principal de Skoll.
O líder, vendo-os tão desesperados depois que as chuvas haviam destruído e danificado suas plantações, tinha certeza que dessa vez, esses fenômenos só existiam por um motivo, e era justo aquele que o oráculo dos Elfos de Luz havia previsto. As catástrofes iriam atingir as tribos, a não ser que fosse encontrado o Phaeleh.
Agora Skoll apenas tinha um plano em mente. Caso o encontrasse, o tomaria para si em casamento, e então o sofrimento de seu povo seria extinto, permanecendo apenas a prosperidade em suas terras.
–*-*-
O tempo das chuvas passou, foi o que disse o dia seguinte, ensolarado, onde o clima estava ameno, refrescante. Os insetos zumbiam o familiar sonido da floresta, enquanto algumas meninas pequenas corriam atrás das borboletas na área de grama verde.
Meine olhou ao redor satisfeito, e de alguma forma o fez sentir-se melhor agora. Svan tinha saído cedo de casa para os habituais afazeres de um líder. Meine se perguntava quais eram, porque ele não sabia muita coisa sobre isso. Isso o fez perguntar se já não estava na hora de descobrir mais sobre ele.
Foi um sentimento completamente estranho e novo para ele a confissão que fez sobre Svan à Wray. Seu amigo havia reagido não da forma como pensou que seria. Meine pensou que ele iria repudiar seus sentimentos, lhe dizendo o quanto era errado, o quão sem chances ele seria… Mas Wray lhe contou que entendia, e em troca, sentia o mesmo.
Estava muito curioso para saber quem era o dono do coração de Wray. Meine ficou muito eufórico ao pensar nisso.
Alguém esbarrou nele por um instante e Meine quase desequilibrou e caiu, no entanto, segurou-se na grade de umas das barracas próximas. E na consequência do ato, a barraca balançou e algumas maçãs caíram rolando por todo o chão de grama da pequena feirinha.
– Ei, você! Sua escrava atrevida!
Meine ouviu um senhor mais velho, dono da barraca, gritar com seu rosto vermelho de raiva. Como ele havia se referido a Meine no feminino, demorou a perceber que o senhor estivesse falando consigo.
– N-Não sou uma mulher! — Meine lhe disse entrecortado. — Eu… Eu posso pegar as maçãs de volta para o senhor! — Ele teve a súbita ideia de recolher as maçãs caídas, mas não pensou que um cidadão próximo fosse desferir um chute tão doloroso em suas costelas.
Meine não esperava por isso, ele caiu de cara contra o chão de grama e sentiu as pedrinhas picarem pequenos arranhões em sua pele. Doía como o inferno e ele teve ânsias no desespero de ter quebrado um osso.
– Ele está roubando minhas maçãs! Chamem os guardas! — Gritou o velho, e rapidamente uma pequena multidão de pessoas se reuniram em torno de Meine que ainda resmungava pela dor. Ele se sentou, com as maçãs em mãos ainda e contorcendo o lado dolorido.
– Mas eu não as roubei… — Murmurou sua inocência, mas não foi bem assim que as pessoas o viram. Sequer tiveram pena dele. Meine se enrolou em uma bola, evitando assim que quaisquer das pessoas em torno dele lhe machucassem. Ele não acreditou em ver tanto ódio no olhar delas. Havia até mesmo escravos olhando-o como se aquela fosse uma boa ocasião.
Meine sentiu ser puxado para o alto quando um dos guardas — aquele que reconheceu sendo Alasd — lhe jogou sobre o ombro como um saco de batatas e o levou dali em meio às acusações do povo.
– Eu o quero preso e sacrificado! Esse ladrãozinho barato! — O senhor gritava e mais pessoas estavam ao seu favor.
Meine antes andava livremente pela aldeia. Ele não tinha medo ou sequer hesitava por estar próximo aos aldeões, mas eles eram diferentes daqueles que viviam em seu antigo vilarejo. Meine acreditou que eles eram pessoas más, isso o fez querer estar longe… Bem longe…
Mas Svan… Ele havia acabado de descobrir o seu amor por ele.
E sempre que pensava em abandonar este lugar, a lembrança do sorriso dos seus amigos lhe enchia a mente e o coração.
Meine não faria isso, mas doía tão malditamente o peito, que ele chorou enquanto Alasd o levava para sabe lá aonde.
Os gritos e as vaias sumiram ao longe e quando abriu os olhos novamente eles tinham adentrado a floresta.
– Ei… Ei! Onde está me levando? — Disse Meine entre soluços.
– Fique quieto. — Alasd lhe respondeu tão friamente quanto aparentava ser.
Meine não estava vendo exatamente por onde andava, pela posição em que se encontrava — sobre o ombro de Alasd — não podia se orientar de modo certo. Imaginando que tinha estado dentro da floresta, enganou-se quando foi levado para frente de uma pequena cabana velha.
– Que lugar é este? — Meine perguntou curioso.
– É minha casa.
Meine fez uma careta de dor quando foi posto em seus pés, já em frente aos degraus da porta principal da cabana.
– Por que me trouxe aqui?
Alasd olhou-o daquele modo mecânico. Meine até achou engraçado, Alasd parecia ser tão chato quanto Svan lhe pareceu no início, mas pelo menos ele não havia lhe feito qualquer mal ou lhe xingado de escravo.
– Svan está trabalhando... Os aldeões estão nervosos depois do que houve na feira. Acha mesmo que será fácil apenas voltar para casa?
Meine torceu as sobrancelhas e fez um bico, incomodado com aquela situação.
– Eu não roubei as frutas... Eu...
– Eu sei que não as roubou. Eu estava lá e assisti tudo. — Alasd se virou e subiu os degraus até a porta. — Inclusive sei quem foi o infeliz que lhe deu o chute. Não se preocupe quanto a isso, Svan vai adorar saber disso. — Disse em cinismo.
Os olhos do albino se arregalaram.
– Está falando sério? Você não vai me acusar também?
Alasd se virou no hall de entrada, e olhou diretamente nos olhos de Meine. Ele hesitou algumas vezes. Meine percebeu o quão estranho lhe pareceu sua reação.
– Eu não acusaria sem provas. Além do mais, eu disse a você, estava lá e vi tudo. Não seria tão desonesto a este ponto.
Meine mordeu o lábio inferior. Alasd podia não ser um homem gentil ou sequer sorrir para ele, mas ao menos demonstrou ser de confiança. Apenas entrou, deixando a porta entreaberta, caso fosse necessário uma fuga, embora seu lado ferido estivesse doendo tão ruim a ponto de fazê-lo encurvar.
Alasd sumiu por algum tempo dentro da cabana. Meine se sentou em um banco velho de madeira próximo a região da lareira apagada. A casa estava fria, e tudo dentro dela era praticamente madeira, como moveis, as próprias paredes e o assoalho. Havia porções de máscaras indígenas pregadas nas paredes, cabeças de alce e veados dependuradas como troféus, e sobre a lareira, Meine reparou em algumas esculturas pequenas em madeira.
Ele se levantou e resolveu verificá-las. A que mais gostou foi à escultura do tamanho de uma palma, de um urso selvagem com as patas para cima em posição de ataque. Notou cada traço perfeito, os detalhes polidos e bem desenhados. Impossível de não admirar.
– Você gostou? — Alasd perguntou quando apareceu de volta a sala da estar da cabana. Ele tinha um copo com algo fumegante, e o cheiro não agradou muito a Meine.
– O que é isso? — Perguntou o garoto ao receber a xícara de barro em mãos.
– São ervas damasco, podem não cheirar bem, mas o gosto é ótimo. Experimente. — Disse simplesmente em um tom monótono.
Meine olhou para o líquido amarronzado, e tomando certa coragem, bebeu um gole. Tal foi sua surpresa saber que era doce e saboroso.
– Uau! — Ele tomou mais alguns goles antes de prosseguir. Alasd tinha se sentado em uma poltrona velha e degastada. — Você que faz estas esculturas? Eu gostei delas.
– Eu faço carpintaria em minhas horas livres.
– Oh. — Disse simplesmente. — Você faz bem. Tem muito talento para ser apenas um guerreiro.
Alasd não se mostrou muito emocionado pelos seus elogios, mas Meine captou certo brilho em seu olhar de satisfação. Será que ninguém jamais apreciou sua arte? Ele achava particularmente, cada estátua incrível. A precisão dos detalhes era descomunal.
– Obrigado. – Alasd disse sem emoção, assentindo com a cabeça – Não há muitas pessoas que sabem sobre isso.
As sobrancelhas de Meine se arquearam e seus olhos se abriram pela surpresa que o embargou.
– Por quê?
Alasd parecia um pouco incomodado por conversar – talvez ele não possuísse costume de dialogar?
– Guerreiros devem lutar, e nada mais.
Ele compreendeu a mensagem. Os homens eram, de fato, muito obstinados com a questão bélica de suas vidas. O tio de Meine costumava lhe dizer que um homem só precisava viver de guerras e sexo – apesar de ele ter se referido ao sexo com uma mulher, não com alguém do mesmo gênero. Meine não se incomodava por suas preferências, mas a parte dele que desejava apresentar Svan para Mona temia que ela não aceitasse.
Isto é, se um dia ele reencontrasse a avó.
Talvez se falasse com Svan...
Meine olhou novamente para as esculturas de Alasd.
– Já pensou em vender suas esculturas?
Meine só soube que o homem se irritara porque um ricto aborrecido vincou no canto de sua boca. Alasd não se mostrava conversador, tampouco solícito a ser sociável.
– É apenas um passatempo.
– Mas nunca vi alguém com tanta habilidade manual! Você faz coisas com as mãos, que ninguém faz!
Naquele momento, a porta da habitação se abriu com um pouco de brutalidade, batendo audivelmente contra a parede. Meine pulou de susto, erguendo-se de seu assento, já preparado para fugir caso fossem os aldeões novamente. Alasd sequer se alterou, como se já soubesse de quem se tratava.
Tal qual foi à surpresa de Meine a encontrar Svan com o cenho franzido no marco da porta – sua expressão era tão hostil, que parecia estar enfrentando todos os seus inimigos dentro do pequeno cômodo.
Ainda assim, Meine não se amedrontou. Deixou sua caneca sobre o banco e disparou a correr na direção do Berserker, enlaçando sua cintura com os braços e enterrando o rosto no peito de Svan, inalando seu aroma natural. Ele achava o cheiro de Svan totalmente irresistível. As mãos de Svan o tocaram quase que imediatamente, uma indo para suas costas e a outra lhe afagando os cabelos. Meine suspirou prazenteiramente ante o carinho, erguendo o rosto para mostrar seu sorriso a Svan.
– Chefe! – Alasd disse em tom respeitoso, erguendo-se e baixando a cabeça em um cumprimento subserviente.
– Estamos voltando para casa – Svan rosnou.
Alasd fechou os olhos por um momento antes de abri-los novamente.
– Receio que ainda não – Murmurou.
Meine sentiu o peito de Svan vibrar quando ele rosnou.
– Por quê?
Ele afagou o peito de Svan na tentativa de serená-lo.
– Os aldeões estão aborrecidos comigo – Meine murmurou.
– Estão acusando Meine de roubo, – Grunhiu Alasd – Foi uma jogada bastante idiota, na verdade.
Svan uniu suas sobrancelhas.
– Sabe quem o acusou?
– Sim! Um tolo o machucou.
– Traga-os para mim. – Svan rosnou, e o som soou tão animalesco, que Meine estremeceu. Então, como se se desse conta de que Meine poderia se assustar com sua agressividade, Svan reduziu o rosnado a um grunhir ameaçador, deixando claro seu descontentamento. Apertou Meine contra si de forma protetora – Vamos conversar.
A última coisa que Svan faria seria conversar.
Ele havia ido com Alasd e um punhado de homens para a aldeia de humanos além da barreira mágica que isolava as criaturas de Saranmir daquela raça para negociar peles de ovelhas, alguns grãos e tecidos que saqueara em sua última excursão. Conseguira boas moedas de ouro e usara uma parte para comprar provisões para a guerra. Também vendera um boi por seu peso em ouro, o que valera muito. Era um animal de boa raça, bem alimentado e saudável.
Durante o trabalho, um mensageiro lhe entregara uma missiva no nome de Skoll – Svan nunca pensou que fosse se irritar tanto com a ousadia do outro líder. Não porque teriam de se encontrar, mas porque ele sentia que aquilo tudo era sobre o Phaeleh – sobre Meine. Era uma questão de tempo, até descobrirem seu pequeno escravo.
Svan podia imaginar inúmeros motivos para aquela reunião, mas ele sabia – seu instinto lhe gritava um alerta para esconder Meine o quanto antes. Era muito arriscado deixa-lo livre, quando qualquer um poderia descobri-lo.
Svan afagou a bochecha de Meine e o pequeno elfo lhe dedicou um sorriso afetuoso.
Não podia perder Meine. Não importava o que acontecesse, ele o manteria.
– Devo trazê-los agora? – Alasd perguntou, despertando-o de seus devaneios.
Inclusive se esquecera de que Alasd estava ali, em sua própria casa.
– Não – Grunhiu. – Resolvo depois. Alasd.
– Sim?
Svan lhe lançou um olhar raivoso que poderia dizer mais que mil palavras – estava enviando expressivamente ao outro a mensagem de que o cerco estava se fechando em torno deles. Quando a merda inteira caísse sobre suas cabeças...
– Escolte a carreta com os homens para a montanha e fique de olho no nosso espião infiltrado.
Alasd assentiu com a cabeça.
– Algo a mais?
– Diga a Wray que preciso dele aqui. Mande Niels preparar uma galera para mim.
Alasd fez uma careta, como se fosse contestar algo, contudo, desistiu rapidamente e apenas assentiu com a cabeça.
– Como desejar.
Ele viu Alasd sair de sua própria casa e apenas relaxou os ombros tensos quando a porta se fechou atrás de si. Agora, finalmente sozinho com Meine, olhou dentro daqueles belos olhos escuros.
– Preciso conversar com você.
Meine ficou tenso por um momento. Então, respirou fundo e sorriu – um sorriso que não lhe chegou verdadeiramente aos olhos.
– Bom! – Murmurou. – Conversemos.
Ele se afastou como se precisasse de espaço para si mesmo.
Svan não sabia como iniciar o assunto – seu sangue estava fervendo de raiva pelo que fizeram a Meine. Queria estraçalhar os desgraçados que se atreveram a tocá-lo e seria muito capaz de passar a se alimentar de humanos a partir daquele segundo. Ele desejava vingar seu... Seu Meine. Mas sabia que aquele assunto era de imprescindível importância e não poderia ser postergado.
Ele e Meine precisavam discutir algumas coisas – Svan apenas não fazia ideia de como abordar.
Ele não era muito bom com diálogos.
– Van?
Meine tombou a cabeça levemente para o lado, a expressão confusa. Svan limpou a garganta.
– Você já deve ter ouvido que estamos sob ameaça de guerra.
Meine assentiu com a cabeça. Certo. Ele tinha de continuar.
– Sim! – Meine disse como se reforçasse sua resposta – Van... – Ele estendeu a mão.
Svan engoliu o nó em sua garganta e tomou a palma de Meine na sua, puxando-o novamente para seus braços. Era estranho sentir aquela imperiosa necessidade de contato. Ele nunca foi assim.
– Meine... – Svan o apertou com força. – Não sei como as coisas ficarão.
– Eu... Quero ficar com você.
Svan também o queria junto.
– Quero que não saia de perto de Wray quando eu não estiver com você.
– Está bem!
Ele podia sentir o medo de Meine – uma apreensão que igualmente o percorria. Era tão intensa que se tornara palpável no ar. Svan se afastou do pequeno elfo apenas o bastante para que pudesse se abaixar diante dele, apoiando um joelho no piso e dobrando o outro. Segurou o rosto de seu escravo entre as mãos, olhando-o nos olhos.
Nunca seria capaz de lhe explicar sua real importância naquela guerra. Svan não conseguia reunir as palavras na cabeça para explicar a Meine que ele não apenas era um elfo, mas o consagrado Phaeleh. Que ele era a criatura mais importante dentre as criaturas, algo superior a um rei. Sua garganta se obstruía sempre que tentava lhe dizer que ele era especial e que a magia que o acompanhava era disputada por todos os clãs, por todas as bestas.
É ali estava Meine, reduzido a um ridículo escravo sexual, forçado a obedecer a Svan. O mesmo Svan que o violara impiedosamente após receber sua confiança.
Svan estava lutando para reconquistá-lo e, a cada noite na qual se submetia a exploração de Meine, mais a lacuna colossal entre eles diminuía. E ele tinha um medo inexplicável de que, se revelasse a Meine que a guerra era pelo Phaeleh, Meine jamais confiaria nele outra vez.
Wray já lhe havia dito para ser sincero, mas Svan não conseguia forçar as palavras a saírem. Ele não conseguia dizer a Meine que Svan não tinha direito algum de ser seu proprietário e que Meine era uma entidade a ser louvada e preservada.
Svan não podia lhe dizer a verdade.
Aquela impotência o corroía.
– Ninguém mais vai te machucar como hoje, Meine – Svan rosnou baixinho – Ninguém toca no que é meu.
– Está tudo bem, Van.
Meine cobriu suas mãos com as suas muito menores.
– Você achou algo na feira que quisesse?
Os olhos de Meine brilharam animadamente e seu sorriso foi adoravelmente doce.
– Havia tantas coisas, Van! – Estalou alegremente, gesticulando enquanto falava tão apressadamente, que Svan suspeitou de que ele precisava disparar todas as informações em um único segundo, pois elas não lhe cabiam no corpo por mais tempo. – Nunca vi tanta coisa junta!
Svan sentiu certa satisfação por isso.
– O que você viu?
– Havia vasos, colares, comida, tecidos, animais...
Enquanto Meine falava, Svan apenas se concentrou no som de sua voz, no timbre suave. Havia certa paz dentro de Svan enquanto o escutava discursar. Meine falou do que vira, do que o desagradara e do que o encantara, para logo então narrar o infeliz e desgraçado episódio da acusação de roubo.
Svan estava bastante convicto de que forçaria os humanos malditos a se desculparem com seu escravo, e esse instinto protetor que queimava em seu cerne apenas solidou sua decisão de que, não importava o que acontecesse, Skoll jamais se aproximaria de Meine.
–*-*-
A taverna era bastante barulhenta quando Skylar adentrou. Havia todos os tipos estranhos de pessoas ali – humanos em meio a Berserkers, a elfos desgarrados, a kelpies sombrios, a faes exilados... Mas ele não se importava.
Só havia um motivo para que tivesse pisado naquele lugar – um estabelecimento maldito fundado por um humano desprezível nas terras do Jarl. Estava aproveitando que Svan e os outros tinham se retirado e posto o comando do clã nas mãos de Niels para dar um tempo a si mesmo.
Dias. Dolorosos dias sem seu Wray.
Aquilo o corroía. Estava cozendo suas entranhas lentamente.
Não viu Wray depois de sua lamentável rejeição, mesmo de longe. Era como se Wray, ou não tivesse mais saído de casa, ou simplesmente o conhecesse bem o bastante para ser capaz de evita-lo totalmente com sucesso. E ele sabia que Wray ainda trabalhava – Niels constantemente o dizia que achava que Wray estava doente.
Então, Sky se consumia em preocupação e temor, mas também de dor.
Aquilo não era apenas uma dor na bunda – era uma fodida desgraça.
Ele caminhou por entre as mesas redondas ocupadas por desconhecidos. Muitos pares de olhos pousaram em sua pessoa, tanto de mulheres quanto de homens. Uma mulher carregando uma bandeja de madeira passou por ele e lhe piscou um olho, adquirindo um andar sinuoso onde os quadris largos balançavam sedutoramente. Ele se forçou a olhar para o decote de seu vestido, para os seios fartos que ameaçavam saltar do corpete para fora.
Não era que Skylar gostasse de homens. Ele simplesmente gostava de Wray. Não olhava para outros homens, nunca olhou. Também não olhava com devida atenção para as mulheres, apesar de lhes jogar charme quando se mostravam interessantes.
Mas Wray... Não, Wray era sua preferência. Wray não fazia seu tipo... Seu tipo que era unicamente Wray. Ele não tinha como evitar, o homem ocupava totalmente seus pensamentos.
Ele apoiou os cotovelos no balcão.
– O que vai querer? – O dono do estabelecimento perguntou, servindo uma caneca de cerveja para um rapaz ao seu lado.
Ele havia ido ali por um único motivo e não planejava voltar atrás.
– Cerveja – Murmurou e baixou a voz: — E mulheres! Se tiver como me arranjar.
O homem lhe arqueou uma sobrancelha.
– Tem dinheiro?
Ele desamarrou a bolsa de lã em seu cinto e a colocou sobre o balcão, ouvindo o musical tilintar das moedas. O homem lhe sorriu.
– E então?
– Seren e Liv estão livres. – Ele ergueu as mãos, – Seren! Liv!
Duas mulheres rapidamente se aproximaram. Liv era uma morena de seios pequenos e curvas bastante definidas. Os olhos castanhos luziram interesse quando o viram. Seren, por sua vez, era a ruiva de seios fartos que passara por ele quando chegara. As duas eram muito bonitas – mas nenhuma era Wray.
Elas pestanejaram sedutoramente, aproximando-se dele com sorrisos lascivos. Espremeram os seios em seu peito e ele envolveu ambas com os braços pela cintura, puxando-as para si.
– Olá, bonitão. – Seren ronronou.
Ele precisava de prazer. Ele precisava superar Wray.
Desceu uma mão pelas costas de Liv, até lhe tomar uma nádega na palma em concha, apertando a carne macia. Ninguém saberia e ele se recusava a ceder a isso, mas sua mente deformou o que acontecia para uma visão de Wray pressionado contra ele.
Aquelas eram as nádegas de Wray. E ele as acariciou com luxúria, sentindo o corpo reagindo imediatamente quando a imagem de Wray amando seu tato se impregnou em cada célula sua. Sua consciência simplesmente se apagou para sua imaginação.
Seren pegou a caneca de cerveja que o homem lhe entregou e fez Skylar beber. Ele entornou tudo de uma vez, sorvendo com gula como se fosse água, sentindo a familiar queimação que lhe esquentou o corpo.
Tinha de ficar ébrio. Precisava ter um momento de paz.
Quando o conteúdo se esvaziou, Seren riu e logo lhe arranjou mais. Ela se esfregava contra ele, enquanto Liv acariciava seu peito por sobre a camisa fina, passando as palmas repetidas vezes sobre seus mamilos.
Não, não eram Seren e Liv. Eram Wray. Ele sorriu enquanto sentia o coração acelerado no peito, um rubor lhe cobrindo as bochechas. Seu membro inchava pela necessidade de se enterrar fundo em Wray. O mesmo Wray que agora o abraçava duplamente, beijando seu pescoço, seu queixo. Sky se perdeu naquele paraíso.
Wray me ama. Wray me quer.
E aquilo era tudo para ele.
Aquele era um mundo no qual poderia ter aquele homem. Um mundo no qual Wray não o destruíra, e ele não o havia ferido profundamente.
Aquela era a sua utopia maravilhosa, e ele não queria acordar nunca mais.
– Levem-no para o quarto. – Alguém riu.
Ele bebeu mais cerveja.
– Aquele não é um dos guerreiros pessoais de Svan? – Uma pessoa qualquer disse longinquamente.
– Sim.
Não importava. Ele tinha seu Wray agora.
– Vamos pegá-lo. Talvez ele saiba sobre o Phaeleh.
– Mas ele é muito forte!
Sky segurou o quadril de seu Wray imaginário e o puxou bruscamente contra o seu, esfregando o membro rígido contra as nádegas macias. Wray gemeu, pressionando-se contra ele.
– Está bêbado demais para oferecer resistência.
– E muito entretido com as moças.
Ah, tudo o que ele queria era enterrar fundo seu pênis em Wray, fazê-lo gemer de prazer, conhecer cada lugar de seu corpo...
– Vamos. Não temos o que temer.
E foi quando o inferno eclodiu em sua cabeça.
Continua...
Fale com o autor