Phaeleh I

16 Capítulo 16 - Invasor


Notas iniciais
Miky: Olá queridos *-* Minhas sinceras desculpas pela demora em postar o capítulo... Era para eu ter feito ontem, porém estive muito ocupada com meus trabalhos da facul... Entretannnnto, espero que gostem do capítulo *-* Cheio de emoções! Boa leitura! ♥

Suas botas afundaram a lama e Alasd amaldiçoou.

A chuva diminuiu sua intensidade, e então, evitando que assim iniciasse novamente, Alasd aproveitou para levar seus homens de volta para o vilarejo. Todos encharcados, mesmo em terem conseguido algum abrigo debaixo de árvores e gigantescas folhagens, eles precisavam de um banho quente e descanso.

– O que houve aqui? — Ele ouviu alguns dos soldados se perguntarem entre si, quando chegaram à base de uma clareira muito próxima ao vilarejo. Árvores centenárias estavam tombadas em um desastre catastrófico, até mesmo suas gigantescas raízes haviam sido arrancadas da terra, provocando toda uma erosão em torno do desastre.

– Oras, será que a chuva atingiu mais essa região? — Alasd se preocupou, pois pensou imediatamente em seu vilarejo, seria essa chuva destruído sua casa e as dos outros? Seriam todos vivos e em segurança?

Ele tentou apressar-se, mas fora por demais dificultoso. O solo estava completamente enlameado, e ainda descia por entre os montes de terra toda a enxurrada de uma chuva torrencial que durou horas sem qualquer pausa.

Alasd teve de rir de alguns dos soldados escorregando e mergulhando na lama, ele quase foi junto, porém tropeçou em algo que o fez firmar-se novamente. Olhando para baixo, a enxurrada estava em suas panturrilhas. Água, lama e galhos. Mas havia algo mais ali, foi então que em surpresa, seus olhos se arregalaram e Alasd percebeu que aquilo era um corpo.

Ele gritou pelos homens, e todos passaram a fazer verificações no terreno em busca de outros corpos, se haviam mortos ou feridos. Ele salvou a criatura da lama e glorificou aos deuses por saber que o ser ainda permanecia vivo, mesmo quase afogado na lama. Ele o jogou sobre o ombro, e após ter afirmado que ninguém encontrou nada ou alguém, Alasd levou o estranho para o vilarejo. Com toda a sujeira ele estava irreconhecível.

Quando ele desceu a rampa de acesso ao vilarejo, em meio as pedras ele disse a um de seus soldados para informar o Líder ou seu irmão sobre o achado.

E foi então, depois que seu soldado correu para informar, ele reparou nas orelhas do rapaz em seus braços. Ele não era um deles. Era um elfo.

–*-*-

Svan acordou de olhos esbugalhados.

Estava pensando que tudo havia sido um sonho, até que ergueu o olhar e notou a criatura diminuta, tombada em um sono pesado sobre seu peito.

Meine parecia tão confortável. A pele dele contra a sua era tão suave, tão macia. Svan se permitiu algo que não pensava ser capaz de fazer em um longo tempo. Suas mãos deslizaram sobre os braços de Meine e sobre suas costas em uma carícia doce, alisando a pele de veludo e tomando conhecimento de suas formas, decorando. O menino resmungou algo em seu sono e teve um pequeno sorriso inconsciente do olhar de Svan que caía sobre ele.

Não tinha sido exatamente o sexo que ele queria, com todo o esquema de penetração e dor, mas… Meine havia lhe dado uma oportunidade, e tão estranho como havia sido para a mente de Svan, inflou o seu âmago com um sentimento tão profundo e quente, que o fez satisfeito, apenas pelos toques do garoto.

Era claro que ele ainda pretendia ir mais longe do que chegaram na noite passada, porém para que isso acontecesse, Svan teria de pensar em alguma solução que viesse acatar, para que não ferisse Meine. Ele teria que ter mais uma desagradável conversa com Wray.

Tão suavemente quanto podia, Svan empurrou Meine para a cama, e o cobriu com as peles de urso que usava como cobertor. Deixando-o de uma maneira confortável, com uma incrível vontade de ceder algo de carinho para o garoto, mas ele evitou, porque agora estava por demais confuso.

Svan permitiu-se vestir as calças, mas sem se preocupar com a parte do tórax, deixando-o exposto. Ele fechou a porta ao sair com um suspiro e deu de cara com seu irmão Niels, que desabou a rir.

– A noite foi boa, irmão? — Niels ergueu uma sobrancelha, muito, muito divertido com a profunda carranca de seu irmão.

– Como você…

– Você cheira a ele, ao escravo albino. Ele deve ter se esfregado muito bem para mantê-lo cheirando da forma como faz.

Svan torceu a mandíbula, mas em seguida o nariz, fungando em seus braços com esperança de encontrar o cheiro de Meine nele.

– Realmente?

– Não é como se ele cheirasse mal… Mas o seu perfume de repente ficou mais doce, Svan. — Niels voltou a rir e se esquivou de um soco que seria mega doloroso na parte esquerda de seu rosto, caso acertasse.

Grunhindo, Svan voltou para o quarto.

Não era como se ele desejasse retirar o perfume de Meine impregnado em sua pele, mas como forma de manter sua reputação, ele teria que fazer em um banho. Meine ainda dormia, e quando Svan ia ultrapassar da cama em direção ao banheiro, ele ouviu dizer.

– Van… Suvan… — Meine tinha tomado um dos travesseiros e o abraçava apertado contra o peito. Havia ainda aquela insinuação de sorriso em seus lábios, e Svan gostou disso. Qualquer que fosse o sonho que ele estava tendo naquele momento, era feliz e era sobre Svan.

Se impedindo de aproximar-se do menino, o líder dos Berserkers foi relutante para um banho, do qual ele mesmo se lavou, cuidou de si próprio, até voltar para o quarto com o coração aquecido. Ultimamente apenas de ver a figura de Meine em sua cama ou em qualquer outro lugar, forçava fisicamente Svan a um sorriso, tendo seu coração de alguma forma inchando apenas com a imagem do garoto.

Ele estava feliz, até ser cortado por batidas à porta de seu quarto. Muito melhor agora… Que maldições teria de bater em sua porta a esta hora?

Qualquer um na verdade. Mas ele ouviu a voz de Niels, clamando por ele.

– Já vou… Já vou! — Ele seguiu até a porta e quando a abriu, Niels o puxou pelo braço para fora do quarto, o recostando contra a porta. — Hei!

– Temos um problema! Um enorme deles! Do tamanho de um…

– Desembucha! — Svan apertou os ombros de seu irmão. Frente a frente, eles eram realmente parecidos, muito mais pelo porte físico.

– Nossos homens encontraram um elfo às margens da floresta. Estava desacordado, mas nós suspeitamos que seja um espião deles.

– O mesmo que encontrou ontem? — Svan não parecia tão surpreso, isso se tinha em razão que ele próprio havia se sentido ser observado. Alguém estava espionando o vilarejo desde a floresta, e embora ele não tivesse julgado que fosse tão perigoso, tinha que admitir, que se caso suspeitassem de Meine, os Berserkers eram suposto entrar em guerra.

– Não. Desta vez é um elfo de luz. Ele parece inofensivo, mas foi encontrado com uma anormalidade. Foi o que Alasd me disse. É melhor ir até ele agora e verificar isso, Svan.

– Eu sei, eu farei. — Svan lhe disse saindo para o corredor, ele quase trombou no escravo ruivo de Niels. — Rurik, mantenha um olho em Meine e não o deixe sair de casa, por nada.

Rurik assentiu com ganas e correu para o quarto onde Meine estava dormindo.

– Ele tem muita disposição. — Svan observou.

– Ele faz melhor que qualquer escravo. — Niels empinou o queixo com orgulho. Svan apenas bufou.

– Meine faz melhor do que qualquer um. Ele me satisfaz também. — Svan olhou em seu irmão com uma sobrancelha arqueada. Niels até abriu a boca a fim de dizer algo, porém voltou a fechar, desistindo. Afinal ele não tinha relações com Rurik.

Niels o levou até a casa onde funcionava uma enfermaria. Era uma espécie de centro médico atendido por um curandeiro. Svan entrou como sempre em sua carranca, havia dois de seus homens em pé de cada lado da cama, onde regia um elfo que fez Svan se lembrar de Meine. Embora ele não fosse uma criatura albina.

– Vocês. — Apontou para ambos os guerreiros que ali estavam. — Deixem-me a sós com o prisioneiro. — Como ninguém contradizia as palavras de Svan, ou duvidava de sua força para deter um prisioneiro daquele tamanho, ambos os homens saíram da clínica, permanecendo apenas Svan, Niels e o curandeiro. Um senhor idoso e um pouco surdo.

Svan olhou bem nas feições adormecidas do elfo, ele parecia sofrer por sentir dor em alguma parte do corpo.

– O que aconteceu com ele?

O curandeiro não escutou, portanto Niels tomou a frente.

– Ele foi atacado… Mas não sabemos por quem. Não foi um dos nossos, o encontramos por acaso quando um dos homens tropeçou em algo na lama. Que por coincidência era um elfo de luz. — Niels gesticulou dramaticamente. — Como maldições divinas ele foi parar em nossas terras sem nós o vermos? Muitos de nós estão espalhados nas fronteiras e em meio a floresta para fazer a segurança do vilarejo, eu não posso crer que ele chegou tão perto.

– Ele não é um qualquer. — Svan murmurou. — Você disse que ele tinha uma anormalidade.

Niels assentiu e foi até a cama, seguido por Svan. Ele ergueu o manto que cobria o jovem elfo e mostrou a Svan uma das mãos do rapaz que era completamente metálica.

– O que é isso?!

– Uma maldição… — O curandeiro disse-lhes de repente. — Os elfos praticam magia, tanto magia branca como magia negra. É óbvio que isso é obra de um pacto, que provavelmente foi feito ao nascimento.

Svan aproximou sua mão para tocar o metal da mão do elfo, quando seus instintos gritaram e ele saltou a tempo de se esquivar quando aquela mão de ferro tomou a forma de uma espada e se ergueu em sua direção tão agilmente, que pegou a todos naquele quarto, de surpresa.

– Que diabos?! — Svan gritou, desembainhando o seu punhal da cintura e colocando-se em alerta, assim como Niels fez. O curandeiro porém, apenas assistia alheio a situação.

– Vocês... — O elfo loiro disse-lhes entre ofegos. — O que vocês querem de mim Berserkers?!

Svan estava com uma carranca tão profunda que nem ao menos se lembrava como maldições um sorriso era. Suas sobrancelhas apertaram juntas quase formando apenas uma e seus lábios repuxaram para baixo.

– Diga-nos você, quem é e o que quer de nós?

O elfo grunhiu, sua ferida mais uma vez pulsando na energia negra que ainda permanecia. Embora ele havia feito o seu máximo para se purificar com a floresta e a chuva, o poder de Dain era muito forte, ter um corte profundo como aquele em seu ombro, levaria uma eternidade para se curar se ele não estivesse no reino dos elfos, onde ele tinha certeza que o curandeiro poderia curá-lo muito rápido e fácil usando magia branca.

Ele mesmo poderia fazer se não estivesse tão fraco.

Svan notou o elfo se levantar, seus olhos grandes e brilhantes estavam muito focados neles, em qualquer movimento, e mesmo cambaleando vez ou outra, ele mantinha sua mão — espada — apontada para Svan e Niels.

– Chamo-me Hayliel... Vim por Darius, conferir sobre o Phaeleh. Sei que ele está aqui, eu o vi!

Svan quase mostrou-se surpreso, mas ele escondeu isso muito bem, não permitindo demonstrar demais emoções para o desconhecido.

– Você diz que viu Phaeleh, como pode ter certeza disso? O que faz provar que esta criatura esteja em nossas terras? Somos berserkers, guerreiros milenares. Como maldições iríamos querer um ser élfico em nossas terras?

Hayliel vacilou por um momento. Svan imaginou que suas palavras o pegaram em cheio.

– Você sabe, líder dos Berserkers... Não pode esconder algo assim. Eu posso sentir, sei que Phaeleh está aqui. — Ele insistiu, porém Svan percebeu que seus olhos não estavam tão espertos e determinados do que quando o elfo se levantou.

– Está dizendo que pretende dar inicio a uma guerra sem provas? Vocês são elfos de luz, sejam razoáveis. Não há razão para nós termos o Phaeleh, que é praticamente um mito. — Svan também insistiu.

Niels assistia a discussão, e observando o elfo, ele pode perceber que alguém estava do lado de fora do quarto, alguém marcando para um ataque, ou para uma defesa. Embora não soubesse o quão esperto Hailyel era, antes que o homem às escondidas atacasse o elfo, ele se virou, mas fora um ato que não durou mais do que meio segundo para ele ser derrubado na cama, e de lá não conseguiu se levantar, amaldiçoando mil palavrões élficos que Svan ou Niels tenha reconhecido.

– Alasd. — Svan se aproximou da cama, assim como seu punhal a frente prestes a qualquer defesa. — Quero que seja o vigia deste monstrinho. Depois que ele se curar, peça minhas ordens. Verei o que fazer com ele.

Svan recebeu a afirmação do soldado e rumou para a porta, assim como ouviu os gracejos do elfo.

– Seu... Não me chama de monstro! — Ele gritou em seus pulmões. — Darius em breve saberá o que houve comigo, se prepare Berserker!

Svan ouviu bem isso também. Ele sabia que agora estavam perdidos, e a dor em seu peito era ímpar.

– Niels, estabeleça nossos irmãos para um treinamento severo. Não há tempo a perder.

– Está dizendo então que... — Começou Niels preocupado.

– Sim, estaremos prontos e dispostos, pois em breve os elfos estarão guerreando contra nós.

–*-*-

Em dois dias, Meine já estava totalmente informado sobre o tal "prisioneiro de outra raça" que fora capturado nas bordas da floresta de Saranmir.

Sua curiosidade falava tão alto. Mas ele tentou calá-la por um tempo enquanto, mais uma vez, permanecia a espera de Syn lhe dar algo de atenção. Ele tinha feito seu pedido, mas o homem sequer deu ouvidos a isso. Meine tentou enche-lo com histórias, desculpas, qualquer coisa que convencesse o homem e lhe der um arco. Não precisava ser exatamente de ferro, ao menos um simples de madeira ou velho e enferrujado. Ele só sabia que tinha de ter algo para ajudá-lo. Meine odiava a ideia de parecer um fraco, e mesmo com seu corpo magro e pequeno, ainda sim queria lutar.

Ele tinha de saber por si mesmo que era capaz de fazer o que para os outros parecia impossível. Ele tinha honra! Ele nunca foi aquele tipo do qual queria apenas ser protegido, embora ele gostava de sentir-se assim com Svan. Mas sabia, nem mesmo guerreiros tão fortes como Berserkers poderiam se livrar de todas as enrascadas.

Meine provaria a si mesmo e aos outros do que ele era capaz de fazer.

Assistiu o momento em que um dos soldados entrou na oficina. O homem olhou-o, não de forma petulante, mas sim com curiosidade sobre Meine.

– Alasd! — Syn cumprimentou o guerreiro com um aceno de cabeça.

Enquanto Alasd — nome que Meine acabou de identificar — conversava com o ferreiro, ainda olhava em Meine estranhamente.

– Diga-me Syn, como vai o processo das armas? Niels pediu-me para vir lhe perguntar.

Syn sorriu de boca fechada e continuou a bater o martelo sobre um dos metais que modelava sobre a bancada de pedra.

– Diga a ele para ter paciência. Não é tão rápido como ele imagina. — Disse ríspido.

Meine apenas ficou observando. Ele pegou o olhar de Alasd curioso sobre ele um par de vezes. Foi então que o homem finalmente resolveu dizer algo em sua direção.

– Eu ainda não o tinha visto direito. Você realmente é branco como eles dizem.

Meine não gostou do comentário, embora fosse verdade.

– Encontramos alguém como você... Quer dizer... Não! Não é isso o que eu quis dizer. — O homem acenou com as mãos a frente dele. — Olhe Syn, realmente devo ir. Volto em outro momento.

Meine observou de olhos bem arregalados quando o homem simplesmente fugiu da oficina, quase em pânico. Ele tinha dito algo como "alguém como você", o que quer dizer que...

– Um elfo! — Ele pulou de onde estava sentado, e claro, Syn não ouviu nada enquanto se concentrava no martelar de ferro quente.

Realmente um elfo? Por isso todos diziam " prisioneiro de outra raça". Será que estavam escondendo isso dele? Svan não havia deixado que ninguém mais soubesse sobre aquele que mantinha aprisionado. Meine agora sentiu seu coração inflamar com a necessidade de conhecer alguém que era igual a ele. Tinha ganas de descobrir sobre quem ele era realmente, o que ele era. E esta seria a oportunidade perfeita.

– Eu vou sair, mas eu volto Syn! — Ele gritou para o homem que sequer lhe deu importância.

Meine sentia uma ânsia inexplicável – a ansiedade crescia em seu peito por causa do desejo de comprovar se o prisioneiro era, de fato, um elfo. E ele desejava com todas as forças que fosse, pois queria... Ele queria... Não sabia exatamente o que queria, na verdade. Mas precisava vê-lo. Fazer-lhe perguntas, saber até onde eram parecidos...

Por que Svan estava escondendo isso dele? Talvez Svan não considerasse importante manter um prisioneiro de outra raça. Talvez o prisioneiro fosse perigoso demais. Ou talvez ele não visse necessidade em lhe revelar. Fosse qual fosse o motivo, fazia o coração de Meine bater mais rápido.

Ele esperava que fosse um elfo.

Correu com todas as forças das pernas, costurando por entre as pessoas do clã, até avistar ao longe a choupana do curandeiro. Havia dois Berserkers na porta, montando vigia, o que dificultava seu trabalho. Ele precisava ver o homem, mas como faria com os guerreiros ali?

Meine diminuiu gradativamente sua corrida à medida em que se aproximava da habitação. Estava inseguro do que poderia fazer para se aproximar do prisioneiro e sabia que não havia nada viável que pudesse inventar para conseguir seu intento sem ser percebido pelos guerreiros. Eles o ouviriam. Ou sentiriam seu cheiro. Eram muito perceptivos.

Meine agora arrastava os pés, totalmente desiludido. Não havia forma no mundo de que pudesse burlar a vigia dos Berserkers. Soltou um suspiro derrotado.

O que fazer?

Uma mão pousou em seu ombro. Ele pulou pelo susto, voltando-se rapidamente para a pessoa que o tocava e não pode conter sua surpresa ao ver Wray. Seu amigo vestia um gibão de peles e botas de couro que chegavam até pouco abaixo dos joelhos. Trazia um arco longo em uma mão e possuía uma aljava cheia de flechas nas costas. Meine não se lembrava de já ter visto Wray armado, menos ainda com seus cabelos longos recolhidos em um rabo-de-cavalo alto. Wray sempre o usava solto. E nunca estava vestido como... Como um soldado. Aquela era uma bela transformação.

–- Wray – disse surpreso. Um lento e diminuto sorriso repuxou os lábios de seu amigo.

–- Nunca me viu pronto para lutar, não é?

Meine assentiu efusivamente com a cabeça.

–- Você está muito bonito.

Wray colocou a mão livre no alto de sua cabeça e afagou seus cabelos.

–- Obrigado – disse gentilmente – Agora, o que o senhor fazia indo à choupana do curandeiro?

–- Eu... Eu... – ele poderia lhe dizer que queria ver o prisioneiro? Wray era de confiança, mas... Ainda devia obediência a Svan. Negou com a cabeça – Queria apenas lhe perguntar sobre umas coisas.

Wray arqueou uma sobrancelha, desconfiado. Nada lhe perguntou, entretanto.

–- Eu gostaria de falar com você, Meine.

–- Não está ocupado?

Wray negou com a cabeça.

–- Será rápido. – e se curvou em sua direção para lhe sussurrar ao ouvido: -- Pedi a Sky que me cobrisse.

–*-*-

Hayliel sabia com cada entranha de seu ser que precisava fugir dali antes de Svan torturá-lo.

Ou antes do Berserker sentado em uma estranha e intrigante cadeira de balanço deixá-lo louco. O homem o olhava fixamente sem sequer piscar. Se lhe traziam comida, o homem comia encarando-o. Se Hayliel coçasse a cabeça, o homem o estava encarando. Aquilo era enervante – aqueles olhos lupinos pareciam atravessá-lo. Hayliel nunca se sentiu tão pequeno em sua vida como naquele momento.

Ele se moveu e o Berserker franziu o nariz e os lábios, expondo os dentes em um rosnado baixo. Hayliel se acomodou na cama, imóvel. A dor em seu corpo o estava destruindo e ele era incapaz de se curar. Era como se fogo devorasse seu interior, enfraquecendo-o mais e mais. Mesmo que o curandeiro Berserker tentasse curá-lo, não conseguiria – a magia escura não era algo que se podia combater com ervas e um banho de sol.

Enquanto sustentava o olhar duro do guerreiro de Svan, Hayliel sentiu um calafrio lhe descer pela linha da coluna – algo intenso e... Deuses. Hayliel sentiu uma luz de calor em seu peito, uma espécie de esperança com calmaria.

–- Phaeleh – ofegou, movendo a cabeça para todos os lados, mesmo que sua visão não pudesse atravessar as paredes da choupana – Phaeleh está aqui.

–- Está delirando, homem – o Berserker grunhiu. – Aquiete-se antes que eu o faça.

–- Não tente me enganar! – Hayliel esbravejou – Eu posso senti-lo! Está tão perto... – ele segurou seu rosto nas mãos, cobrindo-o. Sentiu-se chorar por dentro por uma onda de esperança que o embargou – Ele esteve aqui o tempo todo...

–- Está delirando, homem – o Berserker repetiu.

Não, não estava. Ele sabia que estava certo – os elfos eram sensíveis à presença do Phaeleh. Aquilo era algo que ninguém poderia fingir: eles eram atraídos para o Phaeleh.

O Berserker cruzou os braços sobre o amplo peito musculoso e arqueou uma sobrancelha para ele, como se o desafiasse a contradizê-lo.

Hayliel tinha de reportar a Darius. Seu senhor precisava saber o quanto antes da presença do Phaeleh naquela aldeia de Odin. Era imprescindível que se inteirasse de suas descobertas – Hayliel só esperava que sua mensagem a Darius já houvesse chegado. Quando seu senhor soubesse, iria pessoalmente às terras de Svan e Hayliel seria salvo e tratado.

Ah, ele estava tão enfraquecido, tão destruído. Seu corpo doía a cada movimento e estava terrivelmente sensível. Procurou se manter quieto na cama para arrefecer parte de seu tormento. Não se sentia capaz de lidar sequer com uma criança.

A porta se abriu de repente e Hayliel estremeceu. O curandeiro entrou, arrastando seus pés, as costas encurvadas. Ele tremia visivelmente a cada passo, como se seus ossos estivessem prestes a se desencaixar e ele fosse desabar em um monte de pele. O Berserker rapidamente se levantou, cedendo seu lugar ao ancião.

Hayliel bufou. Não lhe importava a educação de seu carcereiro, isso não o tornava menos cruel.

–- Obrigado, jovem – o ancião murmurou, sentando-se dificultosamente na cadeira. Os olhos leitosos e quase cegos estavam fixos nele – O clã está bastante movimentado hoje.

–- Hmm – o Berserker grunhiu sua concordância.

–- Você, jovem elfo – o ancião ergueu um trêmulo dedo para Hayliel, que abriu os olhos gradativamente conforme a surpresa se assentava em seu ser – Está morrendo por conta das energias malignas, não é?

–- Como... Como sabe?

O ancião riu uma risada enferrujada.

–- Sou um curandeiro.

Mas era um Berserker. Hayliel não sabia até que ponto aquele homem sabia sobre o que acontecia com ele, mas lhe incomodava que fosse tão observador com aqueles olhos aparentemente quase cegos.

–- Ele não pode morrer – disse o soldado com rispidez – Há algo que se possa fazer para mantê-lo vivo?

Hayliel encarou o curandeiro, aguardando sua resposta. O ancião ficou em silêncio por um longo momento e a tensão pairou no ar.

Poderia aquele homem conhecer os segredos dos elfos?

O curandeiro tombou sua cabeça levemente para o lado.

–- O quê? – guinchou.

O jovem guerreiro pressionou a ponte do nariz entre o polegar e o indicador e Hayliel não foi capaz de conter a gargalhada que borbulhou em seu interior. Ele riu alto pelo conjunto das expressões do ancião com as do soldado, e não sabia por que aquilo lhe pareceu tão divertido – provavelmente era a histeria ocasionada pelo medo. Mas ele riu a ponto de seu estômago doer, mesmo quando o jovem Berserker o olhava como se lhe tivessem crescido chifres.

O ancião sorriu.

–- Aí está – murmurou arrastadamente – Esse é um bom sentimento, jovem.

O guerreiro Berserker franziu o cenho.

–- Do que fala?

–- Elfos se fortalecem com boas energias – dizia. O humor de Hayliel findou e o pavor o deixou lívido – Eles precisam das energias naturais, da luz da vida.

–- Está me dizendo para leva-lo para passear?

O velho riu.

–- Isto vai contra as ordens de Svan, não, jovem?

–- Sim.

–- Então, ele não deve sair.

–- E se morrer?

O velho deu de ombros.

–- Morreu.

Hayliel oscilava o olhar entre os homens, um tanto quanto chocado com a discussão. Não sabia se o ancião o estava ajudando ou apenas se divertindo com a infeliz situação. Ele empinou o queixo, resoluto.

–- Não importa o meu destino, não revelarei nada a vocês – disse com firmeza.

Uma onda de dor o atravessou e ele se encolheu sobre a cama, gemendo e grunhindo. As trevas o estavam consumindo.

Alasd olhou bem para o pequeno elfo se contorcendo sobre a cama. Veias negras se destacavam em seu corpo pálido, inchadas e horrendas, como um conjunto bizarro de heras escuras envolvendo seu ser por inteiro. Ele via a criatura sofrer e agonizar e, mesmo se tratando de um inimigo, incomodava-lhe ver algo tão atroz.

O elfo não podia morrer, não antes de lhes fornecer as informações das quais careciam.

–- Ele precisa da luz de Frey. – disse o ancião.

–- O que isso quer dizer?

–- Ele precisa estar no reino dos elfos para se curar. Da luz de Frey e das boas energias das pedras divinas. Na atual situação, um banho nas águas puras do nosso templo talvez ajude.

Alasd assentiu com a cabeça.

–- Falarei com Svan – disse solenemente.

–- É bom que se apresse, jovem. O rapaz está piorando.

–*-*-

Svan sentia um rosnado se precipitando em sua garganta.

Ele estava liderando a patrulha em suas terras e poucos momentos atrás ouvira os uivos dos lobos nas montanhas. Não era apenas o elfo de luz que se escondera em seu território, mas um elfo escuro também. Os lobos estavam mais agressivos que o habitual e todos os animais estavam agitados. Mesmo sobre seu cavalo, ele podia sentir a vibração inquietante da natureza – as árvores não gostavam do que estava acontecendo.

Niels e Skylar seguiam logo atrás dele, cada um em sua respectiva montaria.

Ele havia dispersado esquadrões de três a quatro guerreiros para patrulharem as fronteiras e a aldeia. Os mais jovens e menos experientes treinavam na campina a leste, preparando-se para o que viria. Svan não planejava usa-los como linha de frente, mas mantê-los com os aldeões para protege-los. Era dever dos mais velhos como ele não permitir que inimigo algum se aproximasse dos mais jovens, das mulheres e dos incapacitados.

Seu plano era, caso fossem atacados, evacuar todas as pessoas nos barcos para a Irlanda, onde as outras criaturas mágicas daquelas terras poderiam acolhê-los. Seu único temor era o parentesco entre os elfos e as fadas – o povo fae poderia muito bem decidir ajudar Darius, mas ele duvidava. A Rainha Seelie não gostava de tomar partido em batalhas, assim como o Rei da Corte Unseelie preferia se manter incólume.

Ele estava apostando nessa neutralidade. Até que suas terras se tornassem seguras novamente, seu povo deveria se manter longe.

O cerco estava se fechando e ele ainda não encontrara o outro espião. Seu Meine corria perigo até que detivesse o elfo escuro. Sua única tranquilidade era saber que Wray estava com ele agora.

–- Svan – Niels chamou.

–- O que é? – rosnou.

–- Mandei Rurik ficar com Meine e Wray.

Svan assentiu com a cabeça.

–- Melhor assim.

Svan queria saber quando seu irmão se daria conta de que estava se apegando ao seu escravo ruivo e arrepiado. A pequena coisa vermelha já lhe era tão preciosa que, às vezes, quem os via juntos não sabia se quem cuidava um do outro era Niels de Rurik ou Rurik de Niels. Enquanto Rurik se ocupava das necessidades de Niels, Niels estava sempre protegendo o garoto, observando cada movimento seu para se certificar de que estava bem. Inclusive lhe impedia de ver outros homens despidos.

Svan compreendia bem o sentimento. Incomodava-lhe ainda um pouco a proximidade demasiada entre Meine e Wray.

–- Quero fazer uma pergunta – Niels disse.

Svan resmungou.

–- Faça.

Seu irmão pausou por um momento, como se estivesse incerto de como prosseguir.

–- Vocês acham que Wray está mais pálido que de costume? – perguntou. Isso fez um calafrio descer pela coluna de Svan e ele semicerrou os olhos, fitando seu irmão por sobre o ombro.

–- O que quer dizer?

–- Quero dizer que estou notando que Wray está tossindo cada vez mais e se ausentando constantemente de suas obrigações.

Estranhamente, o sempre falador e piadista Skylar estava silencioso, com os olhos dobrados de tamanho e nenhuma cor em seu rosto.

–- Acha que ele está doente? Talvez algum resfriado? – Svan indagou, a preocupação por seu amigo se instalando em seu peito.

Niels ponderou.

–- Não sei o que ele tem. Mas o vejo cada dia mais magro. Não notaram isso?

Skylar parecia que, ou ia desmaiar, ou ia vomitar. Svan achou sua reação bastante intrigante.

–- Imaginei que estivesse com algum resfriado. Falarei com ele depois.

–- Svan – a voz de Skylar soou extremamente fraca a seus ouvidos – Acha que é algo sério?

Svan sinceramente não sabia.

–- Wray é provavelmente o mais forte de nós quatro. Não deve ser nada grave.

Ou assim ele esperava que fosse.

Continua...

Notas finais
Miky: Espero que tenham gostado! *-* O próximo capítulo promete muito mais! Obrigada por ler ♥