Phaeleh I
45 Capítulo 45 – A decisão de Niels
Notas iniciais
Meine se surpreendeu ao encontrar Svan e Niels sentados a mesa do espaço para o jantar naquela manhã. Antes de chegar ali, ele tinha esbarrado com uma das escravas e tido sua cota de xingamentos diários. Elas realmente o odiavam e ele não sabia por que. No entanto, encontrar Svan já a sua espera para o café da manhã, realmente lhe fez sorrir. Ele amava muito o líder Berserker, talvez ele fosse a pessoa em que Meine mais amava no mundo inteiro, de uma forma diferente do amor que ele tinha por Mona, sua avó adotiva.
— Bom dia. — Ele cumprimentou assim que se sentou. Havia pães quentinhos, algumas frutas fatiadas, suco de carambola e de amoras, geleia e mel. Meine se serviu de uma fatia de pão com um pouco de geleia de framboesa. Seu estômago roncava pela fome, e ele realmente se sentiu animado.
— Teve uma boa noite? — Svan perguntou, e Meine corou sutilmente assentindo.
— Sim. — Notou que Niels mastigava ao mesmo tempo em que lhe observava fixamente. Meine fitou-o engraçado, não entendendo o por que daquele olhar desconfiado.
— Vocês tiveram uma boa noite. — Ele murmurou, desviando o olhar e devorando um pouco mais de sua fatia de pão.
O silêncio permaneceu por um curto tempo, até que Svan encontrasse o que dizer.
— Hoje nós teremos uma reunião muito importante, Meine. Portanto, eu lhe deixarei apenas com o trio de elfos. Wray terá que vir conosco.
Meine foi atencioso em escutá-lo, mas não entendendo muito bem por que uma reunião tão sigilosa. Ele queria participar, mas não teve coragem de pedir por isso. Ele não era um Berserker, e Svan não lhe tirou o título de escravo de sua testa. Ainda era tão incômodo, Meine começava a pensar que os escravos não deveriam ser escravos. Não deveriam existir pessoas assim tão submissas. Ele queria fazer algo quanto a isso, porém ele não era capaz de nada.
— E… por que uma reunião tão importante? — Indagou, recebendo um olhar fuzilador de Niels, como se fosse a pior pergunta para se fazer em um momento como este. Contudo, Meine não entendia o que tinha de errado em perguntar isso.
Svan não teve problemas em respondê-lo, entretanto ele estava de boca cheia, o que fez Meine erguer uma sobrancelha.
— Nós… hum… — Ele engoliu com dificuldade. — Nós iremos discutir alguns problemas que necessitamos resolver com certa urgência. Não é nada para se preocupar, mas ainda não posso deixar que participe. Desculpe.
Meine assentiu veemente. Ele já sabia disso, no entanto, de certa forma o irritava ter Svan repetindo isso. Sentia-se como um inútil. Não queria ser um inútil.
Niels ainda olhava para ele com seus olhos semicerrados e analisadores. Era como se Meine tivesse cometido algum crime ou… talvez que ele estivesse escondendo algo. Mas não se lembrava de esconder qualquer coisa, qual era o motivo então para que o irmão do líder o olhasse assim?
Svan esmurrou o ombro de Niels e o fez grunhir alto.
— Ei! Por que fez isso, Svan?! — Niels gritou contra seu irmão.
Svan olhou-o duramente com suas mãos em punhos sobre a mesa.
— Maldições, Niels! Até quando vai continuar intimidando Meine? Eu já lhe disse que ele é inofensivo. Eu não permitirei que encoste um dedo sequer nele.
Meine corou diante do tom intimidatório de Svan. Ele parecia furioso com Niels novamente, e embora isso fizesse Meine um pouco feliz em saber que seu grande e forte guerreiro tinha tal apreço por ele para ser capaz de defendê-lo daquela forma, ainda sim lhe irritava ver os dois brigarem. Eles eram irmãos, e o que Meine daria para ter um irmão! Ele cresceu sozinho, e admitia, cresceu como um bobo. Sua avó e seu tio cuidavam bem dele, mas os jovens de sua idade, mais novos ou mais velhos, esses sempre zombavam dele ou faziam dele uma boneca. Meine nunca reclamou, ele nunca precisou dizer nada.
Ele nunca teve nada para se chamar de seu.
Nem sua vida era sua própria. Era de Svan.
Era a primeira vez que pensava sobre isso, fez se sentir como um tolo.
— Por favor, parem de brigar. — Meine disse em um tom suficiente para chamar a atenção dos dois irmãos que já estavam prestes a se socarem.
— Meine… — Svan se recompôs, voltando a comer. Ele tinha sua carranca tão profunda com o ódio mortal brotando em sua pele, ainda mais Niels que arfava enquanto mastigava violentamente. Eles comiam tanto que Meine estava admirado com isso.
— Eu não gosto de vê-los brigando. Vocês são irmãos e se amam… não briguem por nada, ainda mais por minha causa. — Olhou em Svan principalmente. Seu Berserker apenas deu-lhe um olhar rápido. Ele não parecia nem um pouco feliz com suas palavras. — Eu sempre quis ter um irmão… e se eu tivesse, eu cuidaria tão bem dele e nunca brigaria com ele.
— Eu duvido que não brigaria. — Niels disse atrás de uma risada, mas depois de um bom olhar em Meine, ele concluiu. — Não, eu não duvido.
— Eu irei primeiro. — Svan se levantou após ter terminado de comer. Ele se limpou e então beijou o topo da cabeça de Meine antes de olhar para Niels. — Nos veremos na casa do ancião.
Niels balançou a cabeça, assistiu seu irmão ir e então dirigiu o mesmo olhar desconfiado para Meine. O albino teve que rir, Niels era realmente engraçado.
— Do que está rindo?
— É engraçado a forma como me olha.
— Eu não te olho engraçado. — Resmungou bebendo um longo gole de suco. — Eu não gosto de você.
Meine arregalou os olhos, impactado.
Era de se esperar não? Voltou a olhar em seu prato, quando seu coração doeu.
— Por quê? — Ousou perguntar.
Niels parecia sem paciência.
— É muito óbvio não é? Eu me arrependo de ter ferido você naquele dia, sei que não podia ter feito aquilo, mas… bem, você mereceu. — Suas mãos se fecharam em punhos sobre a mesa. — Eu convivo com você porque sou obrigado, mas eu nunca sequer cheguei a sentir qualquer simpatia por você, apenas, te respeitei porque era amigo de Rurik.
Meine não estava gostando de ouvir aquilo. Seu peito retorceu em um nó e seu apetite se foi.
— Eu não vou odiá-lo ou colocá-lo para fora, mas eu simplesmente não posso gostar de uma criatura tosca como você.
Oh não, Meine sentiu seus olhos arderem. Ele não iria chorar, seria forte e terminaria seu café da manhã.
— O que você tem contra mim? — Não queria mais continuar a conversar sobre isso, porém… as perguntas simplesmente fluíam. Ele precisava saber o que tinha feito de errado. Qual era o problema de ele estar ali.
Existia uma lista de razões.
E ele ainda se perguntava. Que tolo.
— Você é um elfo. Elfos não são nossos amigos. Você é esquisito, é tão branco e eu fico me perguntando como Svan pode gostar de você… — Niels não olhou para ele enquanto dizia.
Se Meine tivesse orelhas de cachorro, elas estariam quase coladas a cabeça.
— O que tem de mais em eu ser branco? Você também é.
— Eu não sou um fantasma! — Retrucou com irritação. No entanto, Niels pareceu se arrepender. Meine viu isso nos olhos dele através de seus próprios embaçados. — Eu…
— Você está bravo. — Meine murmurou, esfregando seus olhos com as mangas da camisa, contudo eles continuavam escorrendo lágrimas. Ele segurou os soluços, o que estava sendo complicado. — Por que Rurik se foi quando deveria ser eu.
Niels engoliu duramente. Seu rosto empalideceu enquanto sua expressão demoníaca foi tomada por olhos tristes e depressivos.
— Não se preocupe Niels… em breve eu irei, porque Van não poderá impedir. — Olhou-o fixamente, ignorando suas próprias lágrimas. — E Rurik voltará para você. Então não precisará mais se preocupar em ver minha cara por aqui. Você não terá mais pesadelos com um fantasma chamado Meine. — Levantou-se e praticamente correu em direção ao seu quarto.
Quarto de Svan.
Nada era de Meine. Nada o pertencia. Ele não tinha escolhas, não tinha vez, apenas era um tolo sendo levado por seu coração ainda mais tolo.
Amava tanto Svan… teria mesmo de deixá-lo? Ele seria mesmo levado para a terra dos elfos? Como ele poderia viver sem o seu líder Berserker?
Era simples. Aquela seria a sua morte.
Meine não seria capaz de viver com um coração vazio. De repente, seu estômago ficou tão enjoado, sua cabeça passou a girar e tudo o que Meine tinha comido no café da manhã voltou. Ele realmente sentiu-se mal, nunca antes tinha sido assim, tão doente e tão de repente.
— Eu sou mesmo um fraco. — Entrou na banheira de água quente, tentando aliviar seus músculos que passaram a doer horrivelmente. — O que está havendo comigo?
Era uma sensação estranha, doentio. Ele nunca antes havia se sentido assim. Alguém o envenenou? A comida estava estragada? Mas saboreava tão bom naquele momento…
Talvez os sentimentos dolorosos depois do que Niels lhe disse, provavelmente provocou nele o que sentia agora. Toda essa depressão e todo esse enjoo.
Mais tarde, depois que Meine cochilou e acordou muito melhor do que antes, resolveu que não ficaria trancafiado em seus sentimentos mais sombrios. Ele era uma criatura de luz. Vestiu-se com suas roupas preferidas, afinal Svan teve o carinho de dar-lhe roupas que caíram muito bem nele. Foram várias, o líder tinha tido o trabalho de encontrar um costureiro que mediu Meine perfeitamente e fez para ele as peças de vestimenta que lhe coubessem perfeitamente.
Tinha suas botas de couro marrom preferidas, com fivelas de bronze que pare Meine eram como um charme. Suas calças foram cinzas de veludo grosso, além de que Meine vestiu duas camisas e uma jaqueta grossa de pelugem para protegê-lo do frio excessivo do inverno lá fora.
Quando deixou a casa, Meine se desequilibrou e caiu um tombo quase sendo engolido pela neve.
— Uau! Nevou tanto. — Ele se levantou com dificuldade, caindo novamente no próximo passo, mas se equilibrando mais fácil em seguida. Verificou ao redor. Eram poucas as pessoas que trabalhavam naquele dia, e embora fosse quase hora para a refeição do meio do dia, fazia mais frio do que Meine pensou que faria.
Onde viveu antes, em seu antigo vilarejo de humanos, o frio era razoável, porém não havia períodos de grande calor. Já na vila dos Berserkers, o frio sempre tinha sido presente, mas suportável. Entretanto, o nariz de Meine ficou congelado. Precisava voltar ou poderia pegar um resfriado. Embora elfos não adoecessem, sua avó sempre lhe alertou mesmo assim.
Afinal, Meine só foi descobrir o era há um tempo. Afinal, Wray foi quem lhe deu a luz do que ele realmente era.
Arrependeu-se um pouco de ter saído. Além do frio e a fina camada de neve que juntou em seu cabelo, sentiu-se tão feio.
Svan dizia que ele era lindo. Meine queria acreditar que era. Ele não queria ser feio, mas… Você é esquisito, é tão branco, e eu fico me perguntando como Svan pode gostar de você…
Meine sentiu novamente seu estômago embrulhar. Ele tinha sorte que estava próximo da floresta e lá repeliu praticamente nada de seu estômago. Céus… o que estava havendo com ele?
— Phaeleh? — Thrym, um dos elfos que tinha o dever de protegerem Meine, se aproximou. Meine olhou para o rapaz magro, alto, de cabelos louros e espetados. Ele era muito bonito assim como os outros. — Você está bem? — Ele parecia claramente preocupado, sua expressão era de horror quando Meine tentou se por de pé, desde que esteve agachado vomitando bile, mas caiu para trás em seu traseiro e atolou na neve.
Thrym colocou-o de pé sem dificuldades, mas ele olhava em Meine como se visse porcos voando. Foi muito engraçado, o que fez Meine rir.
— Eu estou bem, apenas um pouco indisposto. Pode me soltar agora.
Thrym soltou-o, não tirando os olhos dele e não acreditando muito em suas palavras.
— Você precisa relatar esse mal estar ao seu líder.
— Não! — Meine acenou na frente dele. — Eu estou bem. Meu mal estar foi apenas emocional, coisas bobas.
Thrym aliviou seu olhar, como se estivesse mais calmo agora.
— Elfos são criaturas muito sensíveis a natureza, mas além disso, progenitores de nossa raça, são muito emocionais. — Ele cruzou os braços sobre o peito.
— Eu não sabia. Onde estão os outros? — Ele mal sabia como pronunciar seus nomes difíceis. Seu nome era tão fácil, embora Rurik tivesse certa dificuldade as vezes.
— Svan resolveu chamar eles para participarem da reunião. Parece que as coisas certamente não estão indo bem para os Berserkers… — Suspirou enquanto coçava seu queixo. — Você não terá escolha, se não vir conosco, Phaeleh.
— Eu já disse, chame-me de Meine e não Phaeleh.
— Meine. — Ele sorriu. — Eu sempre esqueço.
Meine fez um bico, mas depois sorriu.
— O que pretende fazer agora?
Ele não sabia, Meine apenas estava dando um passeio.
— Eu não sei. O que você quer fazer?
Thrym ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Eu?
— Claro! — Meine sorriu mais uma vez, brilhantemente. Thrym também sorriu para ele, um tanto animado.
— Vamos até os estábulos! Meu cavalo está lá, sinto falta dele.
O elfo mais alto seguiu ao lado de Meine, muito atento e olhando diversas vezes em torno por quaisquer ameaças. Tudo parecia limpo, além de branco com a neve, é claro.
Meine se sentia bem melhor, seus sentimentos mais calmos depois de ter passado mal duas vezes naquela manhã. Ele já sentia fome, no entanto deixaria para comer somente no almoço.
Eles seguiram o caminho conhecido por detrás das casas com as botas afundando no gelo macio, Meine riu várias vezes em que seu novo amigo elfo tropeçava. Ele não era perfeito em tudo, ou todo elegante como Oleg, o mais velho deles, porém certamente ele era muito poderoso. Meine sentia isso de onde estava, o que certamente fez-lhe sentir seguro em sua presença.
Eles chegaram ao estábulo, com Meine muito empolgado ao ver os cavalos. Todos relinchavam certamente felizes com a presença dos elfos, principalmente do Phaeleh, que os encantava ainda mais.
— Quer alimentá-los? — Thrym deu-lhe um balde com cenouras geladas. Tudo estava congelado afinal.
— Mas não vai atrapalhar o almoço deles?
— Que nada! São apenas cenouras. — Ele riu bastante divertido com um assunto tão simples, o que fez Meine rir também. Ele era o mais fácil dos três guerreiros elfos de se lidar. Quase como um amigo.
Ele pegou o balde com as cenouras e foi para o outro lado da baia, começando pelos cavalos que pareciam mais famintos. Ele não tinha como saber quais deles sentiam mais fome, mas de certa forma ele simplesmente soube.
— Ei Meine! — Thrym chamou do outro lado.
— Sim?
— Onde você morava antes de vir para cá? Aske me contou que você vivia com humanos.
Meine deixou o balde no chão enquanto oferecia uma cenoura a um cavalo.
— Eu vivi no além-mar, em uma aldeia de humanos. — Meine respondeu com um sorriso, na lembrança de seu trabalho com os velhinhos resmungões. Todavia, em seguida a tristeza o abateu, pois não sabia se essas pessoas sobreviveram… o que tinha acontecido com vovó Mona ou tio Snauzer?
— Uau. Faz muito tempo que não me aproximo de humanos. Eles nem mesmo conseguem se aproximar do território dos elfos por causa do bloqueio mágico. — Comentou. De onde estava, ele não podia ver Meine, e muito menos o albino o via. Em seguida Thrym notou os cavalos eufóricos, inquietos, o que lhe fez estranhar a reação dos animais.
— Meine? — Ele deixou o que fazia, largando o feno de lado e correu para a baia aonde Meine estava. O elfo simplesmente tinha desmaiado sobre o feno macio e o cavalo o cutucava com o focinho, estranhando. — Meine! — Ele gritou prestes a socorrê-lo, entretanto foi então que um par de flechas veio em sua direção e em menos de um segundo ele agarrou as duas flechas antes de atingi-lo, repartindo ambas em seus punhos. Seus olhos outrora gentis, se tornaram ameaçadores.
— Droga. — Resmungou ao olhar para cima da baia frontal. — Asgard.
— Thrym. — Eles não eram amigos, mas conhecidos de longa data. E fazia realmente tempo desde que se viram.
— O que você fez com o Phaeleh? — Perguntou acusatoriamente.
— Eu? — Ele se equilibrou sobre a baia e então saltou para o chão, pousando elegantemente. Seu olhar era o mesmo de sempre, indiferente. Ele não parecia exatamente ser uma ameaça, mas neste momento, ele certamente era.
E Thrym sabia muito bem que Asgard era o mais temível dos elfos das trevas, porém raramente saía em batalha, por que de alguma forma, Yusuf não permitia. O que ele estava fazendo aqui então? Ele tinha vindo por conta própria?
— Eu vim para buscar o Phaeleh. — Disse em um tom monótomo. Ele não tinha uma expressão de ódio, parecia tão indefeso, porém Thrym não se enganaria. Ele não se esquecia do dia em que Yusuf permitiu a Asgard batalhar sozinho contra cem elfos de luz logo que os dois reinos se separaram. O elfo das trevas tinha o poder de controlar as mentes, ele era um oráculo, e não era como Fyren que ainda era tão jovem e puro, esse era muito mais misterioso e ninguém sabia a forma como ele tinha aprendido a controlar seus próprios poderes.
Os elfos das trevas sempre seriam vistos como criaturas más. Eles viviam das trevas e não eram como os elfos de luz que viviam de pureza e amor.
— Você não encostará nele. Eu não permitirei. — Retirou a espada da bainha, apontando a folha prateada em direção ao oráculo. Por uma fração de segundo, os olhos de Asgard dançaram. Thrym deixou a espada cair quando faltou-lhe o ar. Simplesmente seus pulmões se trancaram e ele sentiu uma estranha e torturadora sensação no peito.
— Estou manipulando seus órgãos internos, apenas com um simples toque em seu cérebro. Não é interessante? — O elfo se aproximou lentamente, suas botas sujas de neve e ele se cobria com um enorme manto de pele negra, seus cabelos escuros, longos e soltos eram como um manto sobre os ombros enquanto seus olhos brancos brilharam apenas um pouco ao olhar para o Phaeleh caído pelo chão.
— Você… não… pode… — A voz de Thrym saiu rouca e baixa enquanto sua face pálida ganhava uma tonalidade arroxeada. — Me liberte… eu não posso respirar! — Implorou.
— Eu levarei o Phaeleh. Dê o recado a Svan, líder dos Berserkers. — Disse imponentemente. — Yusuf o terá e ninguém será capaz de resgatá-lo. — Asgard caminhou até Meine e o pegou delicadamente em seus braços, cuidando para que a cabeça do albino pousasse em seu peito. Ele olhou em Thrym que retornava um olhar implorador para ele, desde que estava morrendo pouco a pouco pela falta de oxigênio nos pulmões, tremendo horrivelmente no chão de terra.
Asgard deixou o galpão em dois passos e Thrym teve sua respiração de volta em um segundo. Lutou para voltar a respirar, suspirando difícil, seu corpo inteiro latejava com o baque, mas se forçou em seu máximo para ir até a entrada.
Não havia mais nada.
Nada de Meine ou Asgard. Nem cheiros ou quaisquer rastros visíveis.
Ele ponderou em desespero se iria atrás deles ou se tinha que avisar os outros.
— Eu estou tão ferrado! — Suas mãos foram para a cabeça, desesperado e repuxando seus cabelos. — Oh merda, Svan vai arrancar minha cabeça.
—*-*-
Se fosse possível optar, Niels estaria longe de toda aquela merda de reunião.
A mesa era redonda, de forma que todos os presentes pudessem olhar uns para os outros. Niels e Wray sentavam um a cada lado de Svan. A seu lado estava Aske, com uma postura que não admitia que se aproximassem dele além do necessário. Baldr, o ancião que realizava as pinturas de guerra nos guerreiros, já estava ali, ao lado do curandeiro e de Ragnar, o porta-voz dos humanos. Além deles, estava Freya, neta de Baldr. Ou era sua filha. Niels realmente não se incomodava em saber. Com todos em suas respectivas posições, aguardaram que a reunião se iniciasse.
Havia Svan, o chefe tribal. Wray, seu braço direito e conselheiro. O próprio Niels, que era o chefe de armas. O represente dos humanos. O representante dos elfos guardiões do estúpido Phaeleh. E o mestre de cerimônias. Não que o posto de Baldr fosse muito importante, mas... ele os vira crescer e cuidara deles como um pai como podia. Ele era tão idoso quanto Ragnar, e os dois eram respeitadíssimos na aldeia como deuses.
Niels não se importava. Ele apenas queria que encerrassem as discussões para que fizesse a revelação de sua decisão. Após sua conversa com Wray no arroio, ele pensara muito, sopesando os pós e contras de sua escolha.
Svan não se incomodaria, afinal, tudo o que estava em sua mente era o insuportável escravo albino. Meine podia ser um doce aos outros, mas Niels via de forma diferente. Para ele, a coisa albina era… retardada. Estava sempre sendo alvo, ou de muito amor, ou de muito ódio. Era o causador de todas as calamidades – seu clã e sua família estavam ruindo por causa daquela criatura maldita. Rurik… Rurik foi embora porque Svan não quis ceder a coisa. Eles estavam em uma época terrível de escassez.
Meine devia ter algum problema mental. Caía e tropeçava demais, gaguejava com facilidade, olhava para todo mundo como se o mundo fosse belo e perfeito enquanto trazia uma onda de merda sobre eles. Se ouvia um comentário negativo, já se desfazia em lágrimas, sempre se fazendo de vítima, sempre querendo atrair atenção e pena para si mesmo.
Por que ninguém via isso? Por que ninguém notava quão dissimulada era aquela coisa pálida?
Que tipo de homem chora por tudo? Que tipo de homem é tão forçosamente inocente a ponto de ser ludibriado?
Niels queria que se fosse. Queria os tempos de paz de volta, quando as pessoas não tiritavam de frio e não enfraqueciam pela fome. A fartura dos Berserkers se perdera há muito nas linhas tortuosas do tempo desde que Meine pisou naquelas terras.
— Vamos começar — anunciou Baldr, levantando-se de seu assento e erguendo o cálice de estanho com vinho que lhe pertencia. Todos os outros repetiram a saudação. Baldr deu o primeiro gole, então foi imitado. Voltaram a se sentar, olhando uns para os outros. Aquilo era muito tedioso. — Estamos reunidos aqui para discutir a situação do clã e a posse do Phaeleh. Que nosso chefe tribal dê a primeira palavra.
Silêncio.
— A comida acabou. — Svan grunhiu sem mais delongas e as feições dos presentes se contorceram em caretas de preocupação e desgosto. — As plantações estão murchando e, por conta da mudança de temperatura, os peixes estão migrando.
Ele pausou. Baldr suspirou e Ragnar balançou a cabeça de lado a outro.
— E a caça? — Perguntou o representante dos humanos.
Aske empertigou os ombros.
— A época de caça se encerrou. — Respondeu com aspereza na voz. — Agora são tempos neutros para a natureza repor o que vocês tiraram.
Não havia a necessidade daquele lembrete, entretanto, era de conhecimento comum aquele tratado. Como criaturas com muita afinidade com a natureza, os Berserkers sabiam quando deviam e não deviam caçar. Ainda assim, os elfos buscaram formalizar aquele período de neutralidade em um tratado para evitar o desequilíbrio natural. Aske estava apenas expondo uma cláusula já existente, muito embora todos os presentes estivessem cientes dela. Niels não aprovou seu tom de voz perante Svan, mas nada disse. Aske estava em seu direito, uma vez que também era um habitante de Saranmir.
Os anciões assentiram com um aceno de cabeça.
— Nós sabemos, jovem. — Baldr murmurou, agora olhando para Svan. — E os depósitos?
— Quase zerados. As plantações não germinam. Apodrecem rapidamente e… creio que não haverá colheita antes do período mais rigoroso do inverno. — Svan respondeu em um tom obscuro. — A carne está acabando também. O que eu tenho para negociar com mercadores é ínfimo demais para render nosso sustento.
— Não há nada no qual possamos investir? — Ragnar indagou, vincando as sobrancelhas.
Svan negou com a cabeça.
Niels pensou em sugerir vender o Phaeleh, mas… não. Ninguém o ouviria, afinal, estavam todos hipnotizados pela criatura maligna e dissimulada.
— Sem pescados, sem caças, sem colheitas… — Svan grunhiu, cruzando os braços sobre o amplo peito. — Se a água nos faltar, morreremos ainda mais rapidamente.
— O inverno acabará conosco. — Ragnar suspirou, os ombros caindo em desilusão.
Eles estavam, gradativamente, definhando.
— E, no tratado acordado com meu senhor e rei, foi-lhe prometido cem espadas. — Salientou Aske.
Svan rosnou, expondo os dentes ao franzir os lábios.
— E ele terá. — Bradou. — Não preciso de você como bloco de notas.
Aske estreitou os olhos ameaçadoramente.
— Acalmem-se. — Baldr disse em um tom ameno e pacificador. — Não há necessidade de discussões que não nos ajudarão.
Naquele momento, Niels afastou a cadeira na qual estava acomodado e se levantou. Ele olhou fixamente nos rostos de cada um, exalando convicção e autoridade.
— Niels? — Wray disse baixinho.
— Eu tenho uma ideia.
— Ainda temos o problema do Jarl. — Grunhiu Svan, erguendo os olhos verdes para o irmão, taciturno. — O humano quer as terras de volta ou o Phaeleh. Você tem uma ideia para isso, irmão?
Niels assentiu com a cabeça.
— Estou pensando nisso há um tempo… — Murmurou, espalmando as mãos na superfície da mesa. — Quero uma galera preparada para antes do final dessa semana. — Ele olhou para Svan. — E tudo o que você possuir para negociar com mercadores dentro dela. Precisarei de seis homens apenas.
Svan franziu ainda mais o cenho, criando um V profundo sobre os olhos.
— O que planeja, Niels?
— Vou partir para o além-mar.
Antes que falasse mais, Svan se levantou abruptamente, derrubando a cadeira atrás de si com um estrepitoso baque, batendo os punhos na mesa e rosnando para o irmão.
— Uma merda que vai!
— Irmão... — Niels disse o mais calmamente possível. Wray também se levantou, pondo a mão delicadamente no ombro de Svan para serená-lo. — Pense bem. Não há mais futuro para nós aqui.
— Você não vai embora!
— Eu vou negociar com outros povos! — Niels rugiu em retaliação. — Eu vou lutar pela nossa sobrevivência! Você escolheu manter aquele escravo e nos jogou de cabeça em uma guerra infeliz! Não temos comida, não temos casa, não temos guerreiros! Nossas terras ainda serão tiradas de nós porque não temos soldados para enviar ao Jarl, e tudo porque você é estúpido o bastante para querer a coisa pálida como se ele fosse um tesouro!
Niels recuou quando Svan avançou, desferindo um soco que atingiu o ar por sua esquiva rápida. Wray rapidamente reagiu, segurando os ombros do chefe e o puxando para trás.
— Svan! — Wray repreendeu em um tom firme, porém, não combativo.
Svan apontou o indicador para o irmão.
— Não fale de Meine como se ele fosse culpado!
Ele era. E Niels estava cansado de repetir isso.
— Eu não estou dizendo que vou fugir, irmão. Estou dizendo que vou negociar nas terras distantes. Precisamos de dinheiro, de comida, de peles, de grãos… de tudo. E enquanto consigo algo para nós, posso procurar por terras desabitadas para morarmos.
— O Jarl não vai nos tirar daqui.
— E que escolhas temos? — Wray disse, massageando a nuca de Svan em uma tentativa de pacificá-lo. — Não temos poder bélico para lutar contra ele.
— Darius me prometeu ajuda.
— Ele também está em guerra contra os elfos das trevas. — Acrescentou Wray, apertando o músculo tenso na nuca de Svan. — Ele é poderoso, certamente, mas não deve depender unicamente dele, Svan. Temos de ter alternativas.
— Mas…
— Shh. — Wray puxou Svan para seus braços, acariciando seu cabelo. — Confie em Niels. Se tudo der errado, teremos aonde ir. Deixe-o procurar nossa Vinland.
Svan segurou a cintura de Wray com força, cravando os dedos dolorosamente em sua pálida carne. Wray sequer fez uma careta. Quando Svan relaxou e suspirou, derrotado, os braços de Wray o deixaram e ele lhe afagou a face com um singelo e cálido sorriso que visava lhe infundir força e segurança. Svan assentiu com a cabeça em resposta e se virou ao seu irmão com um olhar mordaz.
— Volte, Niels.
Niels ainda se encontrava tenso, entretanto, agora possuía mais confiança em seu interior. Ele sabia que sua ideia foi boa.
— Estarei de volta após o final do inverno.
Continua…
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