Phaeleh I
46 Capítulo Final
Notas iniciais
Rurik olhava para o livro com fascínio. Ele não sabia ler – a maioria das pessoas não sabia, principalmente quando se tratava de escravos. Era a primeira vez que lhe era permitido pegar no volume de capa de couro. Ele estava maravilhado, como se estivesse diante de um tesouro divino, e a forma como seu olhar resplandecia ao fitar as páginas de papiro era inédita. Fyren era muito paciente ao ensinar-lhe as palavras. Ele lhe mostrava as runas nórdicas e cantava sua grafia para facilitar o aprendizado.
Ele tinha de saber ler antes de tudo. Havia orações e magias a serem recitadas e ele seria incapaz de entendê-las, de estudá-las, se não soubesse decifrá-las.
A biblioteca do palácio dos elfos de luz era gigantesca e dividida em infindáveis corredores de estantes de mogno, todas preenchidas por inumeráveis livros. No centro do salão circular havia uma mesa retangular com tamboretes e cadeiras e Rurik estava, nesse instante, em uma opulenta cadeira de carvalho como um trono. O teto abobadado possuía pinturas de deuses em sua circunferência e, no cerne de tudo, o sol, símbolo de Frey, pai dos elfos. Vitrais coloridos retratando guerras do passado e divindades cultuadas cercavam o lado leste da sala, permitindo que a luz se infiltrasse no ambiente, fazendo um jogo de cores brilhantes no piso imaculadamente branco. Arandelas de prata estavam fixas nas paredes em intervalos de dois metros cada, sustentando grandes tochas de um fogo dourado que nunca se apagava.
O cérebro de Rurik parecia estar prestes a explodir pela exorbitante quantidade de informações e coisas novas com as quais entrava em contato. Fyren apenas o observava, divertido, sempre o olhando como se visse algo encantador ao seu redor. Posteriormente, veio a descobrir que o que hipnotizava o outro Oráculo era a nuance de cores de sua aura. Quando soube disso, toda a loucura que atribuiu ao seu instrutor foi substituída por timidez. Ele não sabia como reagir, o que falar, então, apenas tentava fingir que não notava os olhares de seu novo amigo.
Rurik queria gritar e chorar e pular e... Ele não sabia exatamente o quê. Em toda a sua vida, nunca havia sido tão bem tratado. Deuses, ele tinha cama! Ele tinha roupas! Não havia escravos para os elfos – o que você queria, você mesmo fazia, exceto quando se tratava de reis e Oráculos. Oh, não, eles estavam em outro patamar, em uma espécie de pedestal. O rei era descendente direto do primeiro filho de Frey, ou seja, carregava o nobre sangue do primeiro elfo gerado. E os Oráculos eram porta-voz divinos. Era como se houvessem sido postos em um pedestal. Eram admirados, cultuados. Ele nunca havia sido tratado como precioso. As pessoas não eram forçadas a agradá-lo, elas o serviam por livre e espontânea vontade. Elas queriam garantir seu bem-estar.
E isso o emocionava incomensuravelmente.
Ele tinha roupas limpas, de um tecido macio e confortável. Não era a lã que irritava sua pele. Era leve, aprazível de tocar. Consistia em uma diáfana túnica branca e transparente de mangas boca-de-sino com decote em ferradura. A calça era justa e as botas... Para quem sempre andou descalço, estranhou inicialmente ter os pés confinados.
Mas era bom.
Havia fios prateados adornando as extremidades de sua vestimenta e, como símbolo de sua pureza e relações com as divindades, Fyren pintou na lateral de seu rosto na mais bela cor índigo um intrincado padrão de arabescos que se iniciava em sua têmpora esquerda e percorria ao lado da orelha, expandindo para metade de sua maçã do rosto, descendo para o maxilar, escorrendo pela curva do pescoço e ali circundando para a nuca, onde se encerrava.
Era lindo.
Ele estava satisfeito com a pessoa que ele era agora. Enquanto Niels o esmagava como pessoa, os elfos... Os elfos ressaltavam suas qualidades e aceitavam seus defeitos. Eles apreciavam o que e quem ele era.
Niels...
Não! Prometera a si mesmo jamais pensar em Niels novamente! Tinha de ter um pouco de amor próprio e se poupar de tanto sofrimento infrutífero. Tinha de superar aquela fase da sua vida. Ele não era um lixo, não era... um escravo. Era um Oráculo agora. Era especial. E também podia encontrar ali um elfo gentil que o amasse, que o fizesse se esquecer do seu “eu” passado.
De Niels.
— Veja – Fyren apontou para o livro – Esta aqui é a runa da... – ele parou de falar e ergueu os olhos díspares para Rurik – Rurik? Está bem?
Rurik estava abrindo a boca para falar, entretanto, uma indesejada visão o assaltou sem sobreaviso, atingindo-o tão violentamente que ele saltou para trás, derrubando a cadeira na qual estivera empoleirado estrepitosamente. Uma mortalha negra, gradativamente, cobriu seus olhos, cegando-o para o mundo. Ele notou como tudo se distanciava, mesmo a voz de Fyren se tornou longínqua a ponto de minguar.
E a visão se revelou – ele estava sendo carregado sobre um cavalo. Seus pulsos magros estavam amarrados, assim como os tornozelos, e um aro de ferro circundava seu pescoço como uma coleira, por onde saía uma corrente de aço. Magia exalava daquele artefato – era um inibidor de poderes? A pequena criatura selada estava sendo sequestrada e a energia benigna que a habitava fora trancafiada em seu cerne para que não pudesse usá-la em seu próprio benefício. Rurik sentia uma onda de medo cercando o pequenino. Um medo gigantesco, causticante. Ao seu lado havia outro cavalo e seu cavaleiro era...
Uma imagem distorcida. Uma sombra negra que Rurik não conseguia discernir. Um par de olhos brancos naquela difusa imagem obscura se cravou nele, não necessariamente no cativo, mas... Naquele que via através de seus olhos.
Olhava para Rurik!
— Não nos acompanhe – sibilou a criatura nefasta, estendendo um tentáculo negro para ele. Um choque percorreu o corpo de Rurik – não o corpo da visão, mas seu eu verdadeiro – e ele gritou com toda a força dos pulmões a ponto de a garganta queimar. Ele sentiu ser violentamente empurrado e, quando seus olhos se arregalaram, havia caído em seu corpo terreno, sugando o ar audivelmente pela boca. O coração batia descontroladamente no peito pelo terror que o embargou.
O que havia acontecido?
Ele nunca havia sido notado como uma pessoa real em uma visão. Isso era possível?
Rurik levou ambas as mãos ao coração descompassado, arquejando. Fyren estava sentado em uma cadeira, os olhos perdidos, vidrados no nada. Ele esticou uma mão trêmula como se desejasse alcançar algo, os dedos se movendo no intuito de segurar o invisível...
— O Phaeleh foi sequestrado – sibilou em meio a uma exalação.
—*-*-
Svan estava possesso. Thrym não havia retornado com Meine e Aske e Oleg também não conseguiam rastrear o próprio maldito irmão. Ninguém na aldeia havia visto seu elfo, e agiam como se ele nunca tivesse saído de casa naquele dia. Mas Svan sabia que havia! Meine era uma criaturinha cheia de energia, que amava a terra e o sol, que precisava de contato com outras pessoas. Ele jamais se confinaria em casa. E, de acordo com o pouco que conheceu de Thrym, já havia notado que ele era responsável e cuidadoso. Era uma boa companhia, que jamais permitiria que algum dano fosse feito a Meine.
Então, que merda se passava ali?
Svan esperou por um dia. Nessas vinte e quatro horas, nem Meine, nem Thrym apareceram ou mandaram missiva relatando uma demora. Ele sabia que não estavam perdidos, pois ambos eram cientes de que estavam seguros nas cercanias da vila. Fora dela, o perigo era ainda mais agravante. Excluindo a possibilidade de terem se aventurado na floresta...
Sequestro.
Por Odin. Seria possível?
Ele estava tão, tão irrequieto. Havia uma inquietação exorbitante em seu coração que ele não sabia definir. Urgia-o a estar com Meine, a encontrá-lo, a abraçá-lo e garantir sua segurança. Estava mais preocupado do que conseguia admitir e, após a espera de um dia sem possibilidades de retorno, ele simplesmente decidiu que o Phaeleh imperava em questão de importância em relação aos demais do vilarejo. Ordenou a Wray que selecionasse os melhores rastreadores do clã e os dividissem em atribulações para encontrar seu pequeno elfo. Equipes de quatro guerreiros agora disparavam para cada ponto cardeal da floresta de Saranmir em busca de um rastro até então inexistente.
Era como se Meine simplesmente houvesse desaparecido.
Naquele momento, Svan estava auxiliando seu povo na mudança – com a iminente chegada do inverno, as pessoas estavam se mudando para as quentes dependências do complexo labirinto ainda inacabado, porém, seguro, que estava em andamento. As provisões já haviam sido feitas – depósitos de água e comida, catres com mantas de pele dispostos em acomodações de pedra capazes de abrigar vinte pessoas. Os escudeiros ajudavam como podiam, uma vez que a escassez de mãos estava se tornando cada vez mais problemática.
Flocos de neve rodopiavam no ar, pousando suavemente sobre o rosto de Svan. Seu cabelo já estava molhado e seu nariz parecia prestes a congelar. O frio ascenderia gradativamente conforme o inverno progredia, até chegar ao ponto no qual seria tão intenso que faria doer os ossos. E, durante esta época tão desafiadora à sobrevivência das criaturas, os Berserkers se tornariam menos enérgicos. Por conta de sua natureza bestial, eles eram suscetíveis às estações. Quando o inverno chegava, eles se tornavam mais letárgicos, menos fortes. Dormiam mais do que o habitual, buscavam refúgios cálidos e seguros. Não eram, definitivamente, bons guerreiros.
Svan não podia se acomodar em sua dependência sem antes encontrar Meine. E, enquanto a neve cobrisse o chão e as casas, ele também não poderia buscá-lo. Não havia forma de transpor a floresta durante esta época, mesmo para ele, o que significava que... Seriam três meses apenas rogando aos deuses para protegerem seu garoto.
No litoral, Niels também se preparava para partir. A galera viking de guerra estava pronta, contendo alguns braços para remar quando não houvesse vento, comidas encaixotadas para um mês e alguns barris com água. Quando ele se fosse para o além-mar, Svan estaria sozinho com Wray para lidar com a ameaça humana e seu próprio clã. Ele era capaz, mas...
Estava preocupado. Seu irmãozinho... Seu irmãozinho estava indo embora para muito longe.
Só espero ter tomado a decisão correta, Odin.
Carretas puxadas por cavalos passavam diante dele para o refúgio seguro na floresta, preenchidas por bolsas de couro, peles dobradas e mantimentos.
— Svan.
Ele se voltou ao som da voz calma de Wray, quase aliviado por algo que o distraísse de seus pensamentos.
— Sim?
— Niels está partindo.
Havia expectativa nos olhos de Wray. Ele esperava que Svan fizesse algo – como ir se despedir do irmão. Entretanto, Svan apenas manteve sua postura inabalável de mãos entrelaçadas atrás das costas, queixo altivo e cenho vincado.
— Ele voltará na primavera.
Ao menos, esperava. Niels nunca cumpria com prazos. Se dizia demorar sete dias para chegar em um lugar, ele aparecia somente após a contagem da vigésima lua. Era um bastardo irresponsável, mas ainda era seu irmão.
Uma mão familiar pousou em seu ombro – quantas vezes, desde a infância, Wray já não fizera isso? Era inexplicavelmente reconfortante.
— Não seja teimoso. Sabe o real motivo para a partida de Niels, Svan.
— O que eu sei é que ele é um imbecil.
O punho de Wray desceu sobre sua cabeça e Svan rosnou ameaçadoramente em resposta. Mas que merda havia de errado com ele? Abriu a boca para replicar, todavia, a expressão de seu amigo era firme e circunspeta.
— Ele não é um imbecil, e você sabe disso. Muitas vezes, Niels é estúpido, mas porque acredita fielmente em seus próprios valores. Assim como nós amamos Meine, há quem não gosta. Você não pode esperar que o mundo o ame, Svan. Há aqueles que gostam de mim tanto quanto há aqueles que não se agradam comigo. Isso sempre vai existir, então, pare de forçar suas expectativas nas pessoas.
— Mas Meine é inocente! – protestou.
Wray revirou os olhos e bufou, soprando a franja.
— Eu sei – disse pacientemente – Apenas veja pelo lado do seu irmão, sim? Enquanto você está feliz com Meine, ele está sozinho. – Wray apertou seu ombro e abriu um diminuto sorriso complacente – Niels está passando por uma fase difícil. Ele está em uma batalha interna entre o que ele quer e o que ele foi levado a acreditar que era certo. Seus desejos contra seus valores. Você não acha que é difícil?
Vendo por esse ângulo... Niels parecia vítima, não vilão. Svan estreitou os olhos.
— Como sabe de tudo isso, Wray? Como sempre aparece nos momentos em que mais precisamos de você?
Wray permanecia com aquele sábio e discreto sorriso no rosto. Svan nunca entendeu por que Wray parecia sempre tão mais velho do que sua idade. Desde pequeno, era um ótimo conselheiro e sabia apaziguar as feras com facilidade, como se lhe fosse algo extremamente natural.
— Talvez os deuses me tenham mandado a vocês para que pudesse surrá-los até que se encaminhassem para o trajeto correto. – e deu de ombros – O que importa?
Ah, importava. Svan acreditava que Wray era muito mais do que aquilo que pensava. Talvez algo de uma vida passada – ele realmente não era adepto daquela fé, mas já conversara com um mercador estrangeiro que era fiel às crenças de reencarnação e sabedoria espiritual.
Nós viemos de muitas vidas em busca de maturidade, dinamarquês. Alguns espíritos já estão em sua terceira encarnação. Alguns muito mais. Há aqueles que encarnaram apenas agora e possuem um espírito jovem e infantil, que precisa aprender e conhecer. Outros, que já passaram por tamanhas experiências em outras vidas, que, agora, já nasceram muito mais sábios, trazendo consigo um conhecimento passado do qual não se recorda, mas reconhece.
Svan desdenhara. Ainda desdenhava. Era ridículo e absurdo. Quando se morria, os mais bravos partiam para Valhala, guiado pelas valquírias de Odin. Não havia encarnações e reencarnações em um ciclo infindável de busca por conhecimentos e maturidade espiritual. Tudo isso era fantasioso demais. Absurdo. Entretanto... A cada vez que olhava para Wray, as palavras daquele homem qualquer ressoavam em seu crânio, ecoando em seus ouvidos. Se fosse verdade, Wray já deveria ter tido cinquenta vidas passadas.
— Wray, você...
Wray negou com a cabeça.
— Vá falar com seu irmão, Svan. Depois, ficará ruminando seu arrependimento por algo que deveria ter feito, e não fez.
Svan cruzou os braços sobre o peito, carrancudo.
— Não. Ele tem de aprender que não deve destratar Meine como o faz.
Wray suspirou.
— Meine quer que vocês se entendam também. Ele é seu irmão, Svan. Acima de tudo e de todos, ele é sua família. Você nunca deve brigar por um amor com a pessoa que mais te ama, que é sangue do seu sangue. E também não deve forçar seus sentimentos em Niels.
— Então, o que sugere que eu faça? – grunhiu, exasperado.
— Dê tempo a ele e mostre que Meine te faz feliz. Apenas isso.
Não podia ser tão simples. Todos os seus problemas com Niels seriam resolvidos daquela forma, com paciência e carinho?
Não, não, não. Aquilo estava errado. Mesmo Wray podia errar em seus conselhos, tinha certeza.
—*-*-
As ondas rebentavam com um chiado familiar, salpicando gotas salgadas por todos os lados. Gaivotas voavam ao longe, sobrevoando a linha costeira em busca de pequenos pescados. Sua galera estava pronta para partir. Os homens já se encontravam posicionados no drakkar, conversando animadamente sobre as bestas misteriosas que cruzariam seu caminho. Havia cornos com hidromel e outros com cerveja em suas cinturas. Niels era o único que ainda não embarcara, isto porque dera a desculpa de estar rezando aos deuses que lhe fornecessem uma boa viagem. Na verdade, e era ciente disto, estava esperando Svan. Falara com Wray horas atrás e ambos se despediram adequadamente. Wray já lhe havia dito para ser cauteloso e responsável, pois, quando retornasse, talvez Rurik já estivesse de volta.
Não importa. Meus sentimentos por um escravo desaparecerão durante esta incursão, pois não são verdadeiros. O que eu sinto é desejo por conhecer como é estar com outro homem, nada mais.
Ele não podia mais perder tempo naquela praia. A divisão de árvores da floresta de Saranmir se estendia atrás dele, silenciosa, sem quaisquer indícios de que Svan apareceria. Seu irmão estava mesmo furioso.
Ele não enxerga a maldade naquela criatura dissimulada. Ele não acredita em mim.
Eles sempre tiveram uma relação sólida e muito unida. Niels sempre confiou em Svan, tão cega e tolamente que seria capaz de entregar a ele sua vida sem temor. Svan era seu irmão e seu melhor amigo. Era a família que lhe restara. Desde a morte dos pais, eles se tornaram ainda mais unidos, mais companheiros e confidentes um do outro. Apesar de Svan ser intratável e Niels, irresponsável e cabeça-dura... Eles nunca estiveram tão distantes como estavam agora. Seu irmão estava tão obcecado com Meine...
Niels não sabia mais o que fazer. Desde que o presenteara com o escravo albino, a relação deles foi... Desfazendo-se, desgastando-se progressivamente, até eles se tornarem estranhos um para o outro. Havia uma lacuna entre eles que se expandia mais e mais, como um abismo sem fim.
Niels desistiu de esperar. Não valia a pena perder tempo com isso. Ele suspirou e entrou na água, sentindo-a molhar sua calça até os joelhos. Ele segurou o parapeito da embarcação e se impulsionou para o alto, subindo para o interior da galera de guerra. Os vikings costumavam usar cota de malha e armaduras, com elmos cônicos e armamento pesado, entretanto, os Berserkers não utilizavam isso. Eles usavam apenas a camisa por sobre a calça e carregavam suas armas – uma clava, adagas, espadas, variava de guerreiro para guerreiro. Niels carregava uma adaga embainhada na horizontal na altura da base da coluna, chamada Canino Branco, e uma espada nas costas. Um punhal estava escondido em cada uma de suas botas.
— Remar! – ordenou.
As conversações se encerraram e os homens começaram a remar, tirando a galera das águas rasas, distanciando-se das terras que a eles eram consideradas o lar.
Como poderiam lidar com o Jarl humano, que buscava expulsá-los dali sob o pretexto de que já não possuíam crianças e ferro para pagar pelo território?
Niels buscaria negociar com estrangeiros a lã que carregava em sua embarcação. Svan lhe fornecera isso mais ovelhas, alguns grãos e um punhado de moedas. Com isso, ele teria de lucrar o bastante para reerguer infimamente seu clã. Enquanto realizava as transações, buscaria terras novas e pacificas para a morada dos Berserkers apenas para o caso de Darius não cumprir com sua palavra. Ou, simplesmente pelo fato de o exército do Jarl ser mais numeroso e subjugá-los em poderio bélico.
O clã estava se desfazendo. Muitas famílias partiram para terras distantes visando melhor qualidade de vida, e Niels não os culpava. Muitos morreram na tempestade – durante ela ou por alguma infecção ocasionada pelas feridas remanescentes. A promessa de guerra constante também não garantia um bom futuro. Com tudo o que estava acontecendo, mais a posse do estúpido Phaeleh...
Eles estavam ruindo.
— Niels!
Ele se voltou, esperançoso, o coração se acelerando no peito.
Se Svan vier, vou tentar aceitar Meine. Se Svan quiser fazer as pazes, eu não brigarei mais.
Ele se virou, carregado de expectativas...
Wray estava ali, a água ondulando até a ponta de suas botas. Seu cabelo longo e pálido esvoaçava ao vento, recolhido em um rabo-de-cavalo que ressaltava seu rosto hipnotizante. Ele acenava e sorria como se lhe dissesse boa viagem.
Mas estava só.
Niels sentiu que seu mundo desabava a seus pés. O peito apertou em uma contração dolorosa que quase o fez ofegar e um nó se agigantou em sua garganta. Mágoa. Svan não foi vê-lo, não foi se despedir. Era como se... Não. Não havia “como se”, porque era exatamente isso: estava lhe mostrando que a ele pouco importava se Niels partia ou se ficava, que talvez fosse até melhor que se fosse. Que desaparecesse.
Ele forçou um sorriso a Wray, mas sabia – Wray sentiu, mesmo de longe, a sua tristeza, a sua decepção. Acenou de volta a Wray.
— Volte logo! – Wray gritou, a voz abafada e longínqua, tanto pela distância quanto pelo uivar selvagem do vento.
—*-*-
Estava escuro. Seus pulsos doíam pelas amarras que o prendiam às rédeas de sua montaria, rédeas estas que estavam em posse de seu algoz. Ele nunca estivera sobre um cavalo por tanto tempo, entretanto, nada podia fazer. O estranho de cabelos negros usara uma magia de imobilização e outra para cegá-lo, de forma que não fosse capaz de ver o trajeto que percorriam tanto quanto o tornava incapaz de tentar fugir.
Meine estava assustado. Seu coração trovejava no peito pelo terror do que poderia lhe acontecer. Não tinha uma real noção do passar do tempo e a dor horrenda em seu corpo jamais poderia ser externada por sua atual inaptidão em falar. Ele era apenas uma casca vazia sendo transportada para terras distantes.
Ele não via. Ele não falava. Não se movia. E isso estava se mostrando uma provação insuportável, como uma tortura.
Há quanto tempo estavam em marcha?
Quem era aquele rapaz que o raptara sob o olhar atento de Thrym?
Por que lhe queriam tanto mal? O Phaeleh não era uma criatura pacífica que traria prosperidade ao mundo? Então, qual o objetivo de lhe fazer dano?
— Levaremos três dias para chegar ao nosso destino – disse a voz do desconhecido – Um já foi.
Isso não era apaziguador. Ele queria perguntar por que lhe havia sido fornecida tal informação se não poderia fazer uso dela. Ele estava paralisado, impotente, sendo levado para terras desconhecidas por uma pessoa ainda mais desconhecida. Queria saber se Thrym estava bem e... Se Svan sentira sua falta. Se o estava procurando.
Se um dia naquela viagem excruciante já o estava deixando desesperado, pior ainda seria suportar mais dois.
Aonde iam?
Ele não queria ir. Queria voltar para Svan, para seus braços quentes e seguros. Aquele mundo escuro no qual fora imerso o estava sufocando. Para onde quer que olhasse, havia uma espécie de mortalha negra cobrindo sua cabeça, abafando sons e lhe privando da visão.
Negro. Negro. Era só o que existia.
Ele sentia entre as pernas a ondulação muscular do cavalo ao se mover – contrai, relaxa, contrai, relaxa. Seu corpo balançava suavemente em resposta, como se seguisse o ritmo do trote lento.
Phaeleh? Uma voz sussurrou em sua mente. Era seu pensamento ou uma alucinação? A criatura que o sequestrara estava tentando enlouquecê-lo ao brincar com sua mente? Phaeleh, responda. Era um tom suave. Não se assemelhava ao que ele já ouvira seu acompanhante dizer.
Quem era?
Ah, deuses, estava ficando louco!
Rurik ainda não é capaz de enviar mensagens telepáticas. Ele diz que está em perigo.
Rurik? Quem conhecia seu amigo?
Quem é... você? Ele estava hesitante. Claro que estava. E se fosse o seu captor tentando lhe arrancar respostas?
Um aliado, foi tudo o que a voz disse.
Não acredito.
— Você está falando com outra pessoa? – Meine se sobressaltou ante a voz de seu captor, mas nada pôde fazer. Sentiu uma mão fria pousar no alto de sua cabeça e todos os pensamentos se esvaíram de sua mente, deixando apenas um vão branco de nada. Um silêncio que zumbia nos ouvidos, que desesperava. A voz de antes se silenciou e, inclusive sua própria voz interior emudeceu. – Aonde vamos você não precisará de companhia, Phaeleh.
Ele queria pensar. Queria reagir. Queria ter força para poder falar, para poder lutar por si mesmo. Oleg lhe ensinara algumas coisas sobre defesa pessoal e, mesmo que não fosse o bastante para torná-lo um guerreiro, ainda aumentavam a probabilidade de que fosse capaz de não se mostrar inútil. Meine odiava ser tão indefeso, tão dependente da boa vontade das pessoas em protegê-lo.
Ele queria poder fazer algo. Lutar ao lado de Svan como Wray, Skylar e Niels faziam. Poder mostrar que ele podia cuidar de si mesmo. Estava começando a se sentir uma donzela em perigo, aguardando com apreensão e anseio a chegada de seu cavaleiro. E isso o frustrava! Claro, amava ser cuidado e amado por Svan. Mas, naquela situação? Queria se salvar sozinho, o que era totalmente impossível a julgar por sua carência de percepção.
Quanto tempo havia se passado?
Onde estavam? Era frio, quente? Era bom, ruim? Impossível dizer.
Subitamente, o cavalo parou de se mover e seu coração pareceu subir a bater na garganta. Sua audição adormeceu para que ouvisse sua própria pulsação cardíaca e a respiração acelerada.
— Chegamos, Phaeleh.
Tinha certeza, seria morto.
—*-*-
Svan não sabia mais o que fazer.
Segurou a cabeça entre as mãos, as mechas claras de cabelo entre os dedos. Fixou o olhar na mesa, sobre a papelada que tentara organizar. Ele estava tão, tão preocupado. Sky estava desaparecido e a equipe de busca que enviara ainda não havia retornado – isso foi há uma semana. A procura poderia demorar um mês, inclusive mais. E os grupos selecionados por Wray para rastrearem Meine retornavam ao final do dia sem resultados. Seu amigo e seu amor estavam desaparecidos, seu irmão o abandonara e Wray estava irritado com sua displicência e infantilidade— suas palavras. Se não bastasse tudo isso, Thrym também não acordava, o que significava que não podia perguntar ao elfo quem levara Meine.
Não importava o quanto tentasse ser melhor, o cerco se fechava em torno dele. Sentia que a corda da forca já roçava em seu pescoço muito antes de a mortalha verdadeiramente ser posta sobre seu corpo. Todas as pessoas estavam indo embora, escapando por entre seus dedos. Seu clã estava se desfazendo gradativamente, as famílias se fragmentando e partindo. Seus entes queridos, ou estavam desaparecidos, ou o tinham abandonado.
Como ele podia suportar tudo aquilo sozinho?
Impossível.
Pela primeira vez desde que era um fedelho, ele quis chorar. Quis chorar e espernear e gritar e... Ser abraçado por alguém. A única pessoa disponível para serenar seu espírito – e a mais capaz exceto Meine – era Wray – um Wray que não queria lhe dirigir a palavra além do que era cordial, pois queria expressar quão desgostoso ficara por ele ter ignorado a partida de Niels.
Seu irmão está sofrendo. Ele sabe que você concordou em dar Rurik ao rei Darius para evitar a partida de Meine. Ele não quer admitir seus sentimentos por um escravo, assim como você foi teimoso em relação a Meine. Ele precisa de você, Svan. Precisa do irmão que foi seu melhor amigo por toda a vida.
Era mentira. Niels não era assim tão carente. Svan sabia do ódio que o irmão nutria por Meine e não toleraria mais suas infantis hostilidades. Era óbvio que se magoaria com as atitudes de Niels. Por que merda seu irmão não gostava de vê-lo feliz?
Sky, onde está? Meine... Meine, está bem? Está com frio? Comeu algo?
Ele não sabia, não tinha como saber. Seu grande amigo simplesmente evaporara do mundo como se nunca tivesse existo, seu amor fora arrancado de suas mãos sem que soubesse, as pessoas que jurara proteger desde que assumira o lugar de seu pai na chefia do clã o estavam deixando por sua ineficiência como líder...
Ele estava tão perdido. Tão inseguro de si mesmo.
— Svan?
Ele ergueu o rosto abruptamente ante a voz de Freya. Ela sempre ajudava Baldr a pintar os guerreiros. Apesar de sua aparência delicada, ela lutava como um homem. Era a única mulher do clã capaz de se transformar em urso – e isso ela fazia desde os cinco anos. Ele sempre a considerou muito bonita. O cabelo louro-platinado estava recolhido em uma trança, preso por um laço azul. Ela tinha uma pele alva, bonita, e luminosos e expressivos olhos azuis-esverdeados. Era alta e curvilínea, como se a deusa a qual seu nome homenageava houvesse estado inspirada em sua criação. Ela mal completara seus vinte verões. Quase todos os homens do clã competiam por sua atenção, desejando um casamento, entretanto, seu pai recusou a todos em seu nome. Ela estava ficando velha para ser desposada e, ainda assim, era absurdamente disputada.
Anos atrás, o pai de Svan quis que se casasse com ela. Ele entendia. Ela tinha os quadris largos e arredondados adequados para bons partos e seios que cabiam perfeitamente na palma da mão de um homem.
O que, de fato, surpreendeu-a foi ela ter ido procurá-lo. Ele gesticulou para que ela entrasse e ela o fez, fechando a porta atrás de si.
— O que se passa? – ele perguntou em um rosnado.
Freya se aproximou, ficando de pé diante de sua mesa. Ela parecia pálida e abalada com algo.
Deuses, que Baldr não tenha decidido partir com sua família.
Ele não sabia mais o que fazer.
— Eu... Preciso conversar. – ela murmurou – Você pode me ouvir?
Ele não podia. Estava muito ocupado.
— Sim.
Mas, durante horas nada fizera atrás daquela mesa, então, perder alguns minutos ajudando uma moça de seu clã não lhe atrapalharia em nada.
Freya se sentou no tamborete diante de sua mesa, unindo as mãos sore o colo e respirando fundo, como se o assunto a deixasse temerosa e enervada.
O que seria?
— Sei que não tenho uma posição hierárquica no clã além de auxiliar nas pinturas de guerra e nas cerimônias em homenagem aos deuses, mas... – ela mordeu o lábio inferior. – Eu quero ajudar, de alguma forma.
Ele franziu o cenho.
— O que quer dizer, mulher?
Ela inalou fundo. Seus olhos demonstravam bravura e firmeza – admirável, ele admitia.
— Eu vejo o que se passa em nosso clã, senhor. Estamos caindo. Se o Jarl atacar como foi prometido, não sobreviveremos, mesmo que os elfos nos ajudem. É um pensamento pessimista, mas é o nosso fim.
Ele pesava a mesma coisa.
— E então? – quis saber. Estava tenso.
O que se passava na cabeça de Freya?
— O clã precisa se reerguer – ela prosseguiu – Urgentemente.
— Eu já sei. Seja objetiva.
— Você sabe... – as bochechas dela ficaram rosadas e ela desviou o olhar, envergonhada. O quê? O que ela estava querendo dizer? Ele não acompanhava seu pensamento – Eu sou muito bonita.
Ela não parecia tão convicta daquela alegação.
— Sim – ele aquiesceu.
Aonde aquilo chegaria?
— Sou a mulher mais desejada do clã e meu avô já me disse que você já recebeu propostas de outras tribos para que eu me casasse com algum deles.
Ele se recostou em sua cadeira, cruzando os braços diante do peito e arqueando uma sobrancelha.
— Veio aqui exaltar seus dotes, mulher?
Ela negou veementemente com a cabeça e algumas mechas levemente encaracoladas se desprenderam da trança, caindo em torno de seu rosto como se assim quisessem emoldurar a beleza de seus traços faciais.
— Não, eu... – ela ergueu os olhos para ele com determinação, enrubescida – Eu não vim fazer isso.
— Então, o que está querendo dizer? – ele esbravejou, impaciente.
Ela suspirou.
— Estou na época de casar, Svan. E eu tenho uma proposta a você.
Continua na próxima temporada...
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