Phaeleh I
19 Capítulo 19 - O Início da Tempestade
Notas iniciais
Rurik podia sentir a fúria de Niels irradiando em uma tempestade por toda a sala pequena que compunha o escritório de Svan. O homem estava furioso com o relatório que recebera há minutos sobre a tempestade da noite passada, que destruíra uma das principais hortas da aldeia. Os animais estavam assustados e irrequietos e todos os aldeões pareciam culpar a liderança por isso – ou seja, Niels. Era como se acusassem Niels de fazer chover.
Bom, se Niels podia fazer isso, Rurik certamente também poderia fazer o sol nascer.
Com um rosnado aborrecido, Niels apoiou os cotovelos na mesa de mogno e segurou a cabeça entre as mãos, fumegando seu ódio. Ele não suportava mais ouvir tantas queixas a respeito das chuvas malditas, menos ainda sobre a sua absurda culpa no assunto.
–- Niels – Rurik disse baixo e gentilmente – Não é culpa sua.
–- Eu sei! – Niels gritou, e Rurik pulou pelo susto.
Nunca se habituaria com os gritos de ninguém. Ele mordeu o lábio inferior, aquietando-se. Niels soltou um pesaroso suspiro e estendeu uma mão em sua direção, sem sair de sua estressada posição.
–- Venha aqui, Rurik.
Rurik relutou. Não se sentia à vontade após aquela súbita explosão de temperamento. A contragosto, arrastou os pés sobre o piso, dirigindo-se até a mão de Niels. O homem segurou sua mão e o puxou, guiando-o para o diminuto espaço entre a poltrona e a mesa, exatamente entre seus joelhos. Rurik ficou extremamente quieto, o coração acelerado no peito e o rosto quente e vermelho. Niels apenas curvou os ombros, apoiando a testa pesadamente no peito de Rurik.
–- Ni-Niels? – indagou em um sussurro hesitante.
Niels suspirou.
–- Estou cansado de toda essa merda.
Rurik não se moveu – se fizesse algo, talvez recebesse outro grito, e ele odiava gritos.
–- Niels? – sibilou.
–- Cale a boca um momento.
Niels era bastante rude nas palavras, mas seus gestos sempre estavam em discordância. As mãos na cintura de Rurik eram bastante gentis e os polegares lhe afagavam a pele nua, pois não usava camisa. Ele também não queria estar tão perto de Niels quando estava suado pelo trabalho do dia – sentia-se sujo.
Eles ficaram daquele jeito por um incontável tempo. Rurik sentia suas costas doerem por estarem pressionadas contra a beirada da mesa, mas não queria perder aquele segundo no qual Niels exibia seu cansaço. Um pouco temeroso, ergueu as mãos devagar, até as pontas dos dedos tocarem os ombros largos e musculosos de Niels. Como não houve uma reação, Rurik pousou as palmas nele, tentando lhe dizer silenciosamente que também estava ali como amigo, caso necessitasse de um.
Desejava que o tempo parasse – apenas um ínfimo congelar, só para que pudesse aproveitar aquilo um pouco mais. Niels estava tão exausto, que agora se valia de um mísero escravo como se fosse seu porto-seguro. Rurik entendia que seu amo não demonstraria tamanha vulnerabilidade em outra ocasião, senão aquela de total falta de forças.
E ele estava feliz.
Mesmo que não estivessem fazendo nada além de estar próximos, ele estava feliz.
Seu passado jamais permitiria que fizesse algo além de tocar sua paixão platônica nos ombros.
Ah, como ele gostaria que a vida fosse diferente.
Niels ergueu a cabeça devagar, como se a fatiga enferrujasse seu pescoço. Rurik desceu as mãos para o lado do corpo, encontrando, enfim, aqueles olhos tão exauridos e tão queridos.
–- Você sempre está cuidando de mim, não é? – Niels perguntou com a voz rouca e baixa. Rurik sentiu o rubor lhe esquentar as bochechas. Ele assentiu com a cabeça, incapaz de encontrar a própria voz. – Por quê?
–- Porque eu sou seu escravo – sussurrou.
Niels negou com a cabeça.
–- Meine não faz por Svan metade do que você faz por mim.
Isso era verdade. Mei não era obrigado a providenciar todas as alimentações de Svan, ou se certificar de que havia lenha para a lareira, apesar de Rurik fazê-lo solicitamente.
Ele não tinha uma resposta a dar a Niels. Na verdade, ele tinha, mas não a admitiria em voz alta – sabia o quanto Niels desprezava escravos.
Rurik se limitou a dar de ombros com dissimulada indiferença.
–- Rurik – Niels insistiu – Me responda.
–- Sou seu escravo – repetiu.
–- Eu sei o que você é.
–- Então, não há nada mais a dizer.
Niels estava abrindo a boca para replicar algo em resposta quando a porta do escritório abriu subitamente e uma moça – Rurik acreditava que seu nome era Freya – irrompeu para dentro, o rosto corado e a respiração arquejante, provavelmente por ter corrido muito. Niels instantaneamente se deixou cair contra a cadeira, apoiando as costas no respaldo, o que abriu distância entre ele e Rurik. Envergonhado pela clara rejeição, o menino se afastou a passos lentos, até circundar o assento e desaparecer atrás de Niels, como sua sombra.
–- Senhor! – Freya ofegou, o peito subindo e descendo rapidamente – Uma missiva do Chefe acabou de chegar.
–- E então?
–- Nosso senhor Svan estará retornando na lua de amanhã e pede que o capitão dos arqueiros o encontre antes do pôr-do-sol de hoje.
Rurik ouviu atentamente cada palavra e ficou tenso ante a perspectiva de que Meine ou Svan não estivessem bem.
As negociações poderiam ter falhado?
–- E Alasd? – grunhiu Niels.
–- Acaba de retornar com os outros homens. Estão levando os suprimentos para a caverna e as posses de valor para as montanhas.
Rurik podia inclusive ver Niels balançando a cabeça em concordância.
–- E onde está meu irmão?
–- Alasd disse que está em segurança com o escravo Meine na cabana perto do limite da barreira mágica.
Na casa de Alasd? Aquilo, certamente, era bastante curioso.
–- Hmm – as roldanas na cabeça de Niels pareciam estar funcionando enquanto pensava – Diga a Sky que quero falar com ele.
Rurik se atreveu a olhar pela lateral do assento de Niels para encarar a mulher cansada na entrada do escritório. Ele estava curioso e sentiu uma aguilhoada de apreensão quando a viu tombar a cabeça para o lado e franzir as muito claras sobrancelhas.
Por que ela estava confusa?
–- Skylar não voltou com eles – murmurou – Deve ter ficado com Svan.
–*-*-
Skoll enrijeceu quando a água da fonte sagrada banhou seu corpo. O rapaz que virara a terrina sobre sua cabeça caminhou em torno dele até se posicionar ao seu lado, os pés chapinhando na água rasa que os cercava. As pedras sob seus joelhos nus arranhavam sua pele, mas não era tão doloroso. O rapaz se curvou, enchendo a terrina novamente, antes de se erguer e entornar o conteúdo sobre seus cabelos.
Ele estava se preparando para partir. Deveria se encontrar com Svan dos Berserkers em alguns dias e a viagem até a fronteira de todos os clãs levaria um bom tempo. Planejava ter o Phaeleh e tinha certeza de que Svan o possuía. Até então, Skoll não teria se pronunciado pela criatura mística, mas seu clã precisava. Ele necessitava urgentemente de algo milagroso que salvasse seu povo.
A água pura e fria que o banhava não o incomodava mais – estava totalmente dormente e obstinado a desposar o Phaeleh, mesmo se ele fosse uma mulher, ou um homem, ou um cavalo ou mesmo uma árvore. Casaria com um pinheiro se assim salvasse sua família. Era seu dever como alfa.
–- Skoll, filho de Yves – disse o rapaz baixinho. Skoll baixou a cabeça, permitindo que a água escorresse por suas costas desnudas. – Os deuses o acompanharão em sua viagem. O sangue de Fenrir, o Grande Lobo, corre em suas veias, e o protegerá de todo o mal.
–- Assim espero.
O rapaz terminou de banhá-lo na água sagrada da piscina natural e se curvou em uma reverência polida. Skoll esperou que aprumasse os ombros para se erguer em toda a sua gigantesca estatura. Diante dele havia um paredão de pedras por onde deslizava uma torrente de água cristalina.
Eles estavam dentro de uma gruta, onde estalactites e estalagmites se erguiam das pedras como as presas dentro da boca de uma besta. Qualquer som ecoava grandemente e reflexos azuis das águas dançavam sobre as pedras.
Aquele era o lugar mais sagrado para o clã de Skoll, onde tinham contato com os deuses e seus ancestrais.
–- O local para o qual irá é o detentor de seu destino. – dizia o rapaz. Seus olhos perolados fitavam o nada, como se ele visse algo que ninguém mais poderia ver, mesmo em seu total estado de cegueira – Suas escolhas o levarão para o caminho previsto, onde o destino nada lhe fala, mas tudo lhe dá. A solução para a calamidade estará diante de você, e os deuses o testarão para saber até onde alcançam seus olhos. Skoll, filho de Yves, cumpra seu legado.
–- Como os deuses escolherem – anuiu solenemente com a cabeça.
Totalmente banhado na água sagrada dos deuses, Skoll deu a volta e rumou para o exterior da gruta, seguindo pelo interior do serpenteante caminho aquoso, que o levava para a floresta. Quando a luz da lua o tocou, ergueu a cabeça e uivou com toda a força de seus pulmões, sentindo a energia da mudança em seus ossos, em sua pele, em seus músculos. Primero, sua musculatura pareceu inchar, fermentando seu tamanho, ao tempo em que, mais devagar, seus ossos estalavam, adaptando-se ao novo formato de seu corpo. Pelos se eriçavam sobre a sua pele, esticando-se e retraindo-se, crescendo espasmodicamente enquanto ele era acometido por uma convulsão. Uma explosão de calor surgiu em seu interior e um rosnado gutural borbulhou do peito para sua garganta.
A transformação não durava mais que um passar de segundo, entretanto, para ele parecia durar horas.
Na primeira vez na qual se transformara, a agonia fora tão imensurável, que vomitara. Sentira todo o corpo doendo por dias a fio e era incapaz de retornar para a forma humana. A cada vez que se movimentara, uma punhalada de dor o atravessou e a fatiga era insuportável, lastimosa. Agora, muito embora já estivesse acostumado, ainda lhe doía um pouco.
Olhando fixamente para o céu escuro e cheio de plúmbeas nuvens, em um contato visual inquebrável com a lua, ele sentiu sua aparência humana ser engolida pela forma do lobo, até que caiu nas quatro patas cinza-tempestades da besta.
Skoll era um lobo muito, muito grande. Era maior que todos os que conhecera, principalmente por sua linhagem – ele possuía diretamente o sangue do deus Fenrir. Era seu descendente. Fenrir teve um filho com uma humana, que também teve um filho, que teve outro filho, que teve outro filho, que teve outro filho, que teve outro filho, que teve Skoll. Isso o tornava o mais forte dentre os seus e, por séculos, os primogênitos de sua família foram sempre alfas.
Ele era alfa agora e até o dia de sua morte.
Skoll caminhou para a margem, as patas enormes e molhadas pisando as pedras. Seus ombros acompanhavam cada movimento em um andar predatório. Seus longos pelos cinzentos estavam úmidos e várias gotas de água sagrada cintilavam em toda a sua extensão.
Ele agitou a cabeçorra, estreitando os olhos para a floresta escura. Alguns membros de seu clã estavam ali para despedir-se dele, todos cobertos por mantos de pele e crânios de lobo sobre as cabeças. Seguravam tochas em suas mãos, apesar de serem capazes de se orientar na escuridão. Skoll franziu os lábios, expondo as presas em um rosnado baixo. Cada homem e mulher ali presente mostrou a jugular em sinal de respeito e submissão e logo todos uivaram para a lua. Desejavam sucesso para o alfa tanto quanto lhe pediam para voltar rápido e em segurança.
Não queria levar seus soldados. Ele não estava indo para guerrear com seu irmão de fronteira – era apenas um negócio.
Ou um sequestro.
De uma forma ou de outra, ele teria o Phaeleh e casaria com ele.
–- Alfa.
As orelhas de Skoll se moveram quando virou a cabeça para olhar um de seus soldados. Hako estava parado ao seu lado, uma única e fina trança ao lado de seu rosto em homenagem à sua herança celta, uma vez que sua mãe era uma escocesa das Highlands, há muito sequestrada e tomada como esposa de seu falecido pai, tio de Skoll. Hako era o único ser que Skoll já vira que possuía olhos de um castanho-avermelhado. O tom parecia se destacar em sua pele pálida.
Se Hako estava ali com aquela expressão resoluta, significa que logo pediria para acompanhá-lo. Skoll não queria levá-lo – não desejava companhia. Inclusive, em seu plano, entrava a probabilidade de que tudo desse errado e fosse morto ou ferido a ponto de ser incapaz liderar sua matilha. Se algo lhe ocorresse, Hako, por ser o segundo de sangue mais forte – os celtas druidas possuíam uma ligação com a natureza tão forte quanto os Berserkers de Svan, e somando isto ao fato de que ele também era herdeiro de Fenrir, Hako era o único que poderia assumir a matilha como alfa.
Confiável e muito forte, mesmo que sua forma de lobo não fosse tão corpulenta quanto a de Skoll. Na verdade, mesmo como homem, Hako não era muito alto. Sua estatura era mediana entre os homens.
Skoll rosnou para ele.
–- Eu também irei – Hako disse baixinho, atirando seu manto ao chão. Skoll bateu uma pesada pata diante do primo, arranhando as pedras sob eles e lhe exibindo seus caninos com um grunhido irritadiço como alarme. Hako negou com a cabeça – Não pode ir só, primo. Svan dos Berserkers não é tolo e você sabe que posso capturar o Phaeleh enquanto vocês conversam.
Ele não queria colocar seu primo em perigo também. Era seu familiar mais querido e Hako era o único capacitado para ser o alfa em seu lugar. Todos sabiam disso. Hako possuía firmeza em suas decisões, sabedoria, força física e muito carisma – Skoll o considerava um rival em potencial e nunca deixaria de lhe surpreender o fato de seu primo nunca o ter desafiado.
Skoll rosnou sua negação, eriçando os pelos ameaçadoramente, impondo seu poder. Viu Hako se encolher, baixando a cabeça pelo medo.
–- Não estou te desafiando, alfa. Mas precisa ter alguém que olhe por suas costas. As terras de Svan dos Berserkers não são mais seguras.
Ele sabia. Sabia que os elfos escuros estavam atentos, apenas esperando qualquer deslize de Svan para declarar abertamente guerra, assim como os elfos de luz estavam mobilizando suas tropas.
Os líderes não eram tolos. Cada um tinha um espião de olho no outro, de forma que, quando a merda caísse em suas cabeças, não fossem surpreendidos. Não muito.
Skoll se ergueu nas patas traseiras e, cravando as garras nos ombros de Hako, empurrou-o para o chão com força em um ataque surpresa. O primo grunhiu, expondo os caninos alongados quando franziu os lábios em irritação. Skoll abriu e fechou a bocarra cheia de dentes diante de seu rosto com força, em uma clara ameaça. Hako estremeceu, encolhido. Se estivesse em sua forma de lobo, suas orelhas estariam apontadas para baixo.
Skoll rosnou guturalmente, aproximando o focinho do nariz de seu primo, olhando dentro de seus olhos até força-lo a desviar o olhar. Quando sentiu a submissão de Hako, grunhiu uma vez mais e saiu de cima dele, recuando. Olhou ao redor, esquadrinhando o ambiente enquanto as narinas dilatavam ao farejar o ar.
Em breve, choveria novamente.
Quando Skoll partiu em um galope veloz por entre as árvores, ouviu os uivos de sua tribo – todos lhe davam forças e esperavam que retornasse bem. De preferência, com o Phaeleh.
–*-*-
Meine estava impaciente. Muito, muito impaciente.
Chovia intensamente fora da cabana de madeira de Alasd e toda a estrutura parecia tremer como se fosse desabar a cada trovão que rugia no céu. As poucas janelas estavam fechadas por cordões grossos e se convulsionavam pelo forte vento uivante que as açoitava. A lareira estava acesa e, ainda assim, não era o bastante para lhe prover calor o suficiente.
Svan andava de lado a outro pela sala há muito tempo, resmungando consigo mesmo e passando a mão pelo cabelo nervosamente. Seus passos eram duros e barulhentos e Meine acreditava que ele faria um buraco no piso a qualquer momento. Ouvia-o grunhir e estreitar os olhos, unindo as sobrancelhas.
E Wray ainda não havia chegado.
–- Van – chamou baixinho. Svan parou bruscamente no centro da sala e se voltou para ele, que estava sentado sobre um banco largo de madeira no canto da sala, próximo a lareira.
–- O que foi? – Svan grunhiu.
–- Estou com frio – ele se encolheu, afastando para o lado – Senta comigo.
Svan era grande e seu corpo era muito quente. Meine desejava sua proximidade, mas não era apenas por aquilo que o chamara – Svan estava tenso e muito preocupado por Wray. Meine estava ainda mais, por isso precisava de seu carinho. Ele sabia que Wray era doente e que sair naquela tempestade poderia matar seu amigo.
Preferia mil vezes ter de se entregar aos inimigos de Svan do que ver Wray morrer por sua causa. Aquele frio intenso não faria bem a Wray.
–- Não consigo ficar quieto, Meine.
E mesmo dizendo isto, os pés de Svan se moveram em sua direção, como se movidos por alguma mágica inexplicável. Svan caminhou para ele devagar, cada passo fazendo a madeira do assoalho gemer. Então, quando parou diante dele, Meine viu que se abaixava, apoiando um joelho no chão e dobrando o outro.
–- Wray virá logo – Meine sorriu, tentando tranquilizá-lo.
E acalmar a si mesmo.
Seu coração batia desenfreado contra o peito pelo temor de algo acontecer ao seu amigo. Buscando o conforto dos braços de Svan, Meine se esticou para frente, envolvendo os braços em torno de seu pescoço e enterrando a face em seus cabelos. Sentiu Svan tremer quando seu nariz gelado o tocou atrás da orelha. Meine riu.
–- Está mesmo gelado, Meine – Svan grunhiu carinhosamente, espalmando as mãos em suas costas e as esfregando para cima e para baixo para esquentá-lo – Por que não me disse antes que estava congelando?
–- Também estou preocupado com Wray.
Porque Wray estava muito, muito doente e, ao que parecia, não havia cura.
Svan beijou seu ombro, como se quisesse serená-lo.
Fazia um dia desde que Alasd partiu com os outros e Svan lhe dissera que já era hora de Wray chegar. Isso foi há duas horas. Meine temia que algo lhe tivesse ocorrido durante o trajeto para a cabana.
Ele também não entendia por que ele e Svan tinham de ficar tão longe de casa. Queria voltar o quanto antes para aquele lugar familiar, longe dos humanos aborrecidos que o desprezavam. Queria Rurik e Wray para conversar e pedir conselhos também. Mas a situação era ruim demais para que se arriscassem e ele buscava entender que Svan estava apenas querendo protegê-lo.
Meine sentia que Svan lhe escondia algo, mas não o pressionava a respeito – acreditava que ele lhe diria quando o momento oportuno chegasse. Era algo importante, não tinha dúvidas, ou Svan não teria passado tanto tempo tenso e irrequieto. Aquilo era um tanto quanto frustrante e aborrecedor, mas não reclamaria.
Ainda não.
–- Meine – Svan murmurou, apertando-o no abraço.
–- Sim, Van?
–- Nós... entraremos em guerra contra os elfos e o povo de Ulfhednar. – Meine notou a apreensão quase imperceptível em seu tom de voz.
–- Por quê?
Svan negou com a cabeça.
–- Não importa o que aconteça, você é meu.
Meine se afastou um pouco, tombando levemente a cabeça para o lado para fitar o Berserker. Quando seus olhares se encontraram, Meine sentiu que havia um abismo de segredos entre eles e isso o deixou exorbitantemente desconfortável. Svan lhe era muito precioso para que pensasse na perspectiva de perdê-lo.
Meine estendeu a mão e tocou o rosto de Svan, sorrindo minimamente enquanto o afagava na bochecha. A barba de dois dias por fazer espetava sua palma e arranhava, mas não era realmente uma sensação ruim. Meine queria ter o máximo de proximidade com Svan, a ponto de desejar estar sob sua pele, mesmo sabendo o quão impossível isso era. Ele sentia, lá no fundo do coração, que seriam separados. Doía-lhe pensar que poderia ser arrancado do seu Berserker, fosse qual fosse o motivo.
Durante o tempo que passaram juntos, aprendera a conhecer suas qualidades sob os defeitos tão gritantes e, a cada vez que Svan mostrava que estava verdadeiramente empenhado em obter seu perdão e seu afeto, mais aquele amor tão doloroso crescia em seu peito.
Meine agarrou sua camisa, sobre o coração, como se assim pudesse arrancar de si aquela emoção que o dominava.
–- Eu... – ele não sabia o que dizer. Não queria ser sincero naquele momento. Então, para desviar os pensamentos de Svan de sua resposta, ele se esticou para frente e pousou os lábios nos de Svan. Svan suspirou e moveu uma mão das costas de Meine para sua nuca, embrenhando os dedos em seu cabelo e puxando-o para mais perto, movendo a boca sobre a sua com fome e volúpia.
Meine nunca imaginou que pudesse existir um beijo que lhe fizesse tremer os joelhos de fraqueza pelo desejo ascendente que o escaldava. Ele gemeu quando Svan sugou seu lábio inferior entre os lábios e derreteu em total entrega, descendo as mãos pelo pescoço do Berserker, acariciando seus ombros rígidos, apertando os músculos tensos.
Acostumara-se ao corpo maior. Sabia onde Svan amava ser tocado, onde era mais sensível, o que o fazia gemer e grunhir de prazer. Com esse conhecimento tão enraizado em sua memória a ponto de seu próprio corpo já saber como excitar seu parceiro sem que necessitasse de um pensamento consciente, deslizou os dedos suavemente pelo peito amplo, até tocar os mamilos túrgidos por sobre a fina camisa de linho. As protuberâncias já estavam duras pelo desejo e Meine as esfregou com os dedos, girando-as no polegar.
Algo pareceu despertar dentro de Svan. Ele grunhiu fundo – um som que vibrava seu corpo, que excitava Meine. Foi quando a língua de Svan penetrou por entre seus lábios, tocando a sua como se o saqueasse. Era quente e ondulava para a sua, enroscando-se e provocando, como se exigisse dele uma resposta ávida. Bom, não haveria muito esforço quanto a isso, pois Meine já estava tomado por aquele familiar estado febril. Ele devorou a boca de Svan em igual selvageria, sugando sua língua como se dali retirasse alguma forma de sustento.
E, ah, Svan beijava muito, muito bem.
Meine beliscou seus mamilos, logo usando os polegares para girá-los rapidamente, enquanto Svan apertava seus cabelos e tombava sua cabeça para trás a fim de aprofundar o beijo, ganhando um ângulo melhor para penetrar sua boca com a hábil língua.
Meine sentia a pressão em seu baixo-ventre – aquela combinação de fogo e dor, de ânsia e desenfreio, de desespero por tocar e ser tocado. Sentia todo o calor de seu corpo se converter em lava e se concentrar no ventre, descendo em ondas escaldantes para lhe encher o sexo, deixando-o ereto. Sabia que Svan sentia o mesmo – era impossível não sentir.
Svan interrompeu o beijo e lhe lambeu os lábios, como se quisesse voltar a beija-lo, todavia, apoiou a testa na sua, segurando seu rosto entre as mãos e lhe afagando as bochechas. Estavam corados e ofegantes, o peito subindo e descendo rapidamente.
Meine queria mais. Não havia sido o suficiente.
–- Van – ronronou.
Svan colocou uma mecha pálida de cabelo atrás da sua orelha pontuda, para logo acaricia-la, arrancando-lhe um gemido de prazer.
–- Você está pronto para ir até o fim hoje, Meine?
Meine lambeu os lábios. Não estava assustado – mas quando o membro de Svan o tocasse intimamente outra vez, ele se assustaria?
–- Me toque – Meine disse. Não tinha certeza se soara como um pedido ou como uma ordem.
–- Diga meu nome – Svan ordenou.
Meine riu.
–- Sabe que não consigo fazê-lo.
–- Tente.
Meine respirou fundo.
–- S... Suvan.
–- Não, Meine. Svan.
Meine abriu a boca, mas não se sentia capaz de dizer corretamente o nome. Também não teve tempo o bastante para tal, pois Svan desceu a cabeça para o seu pescoço, mordendo a pele delicada e a sugando em sua boca, chupando-a. Meine gemeu e estremeceu. Svan acariciou seu rosto, deslizando os dedos para suas orelhas pontudas. Meine gemeu quando foi acariciado ali. Svan dedicou uma trilha de mordidas e lambidas pela curva de seu pescoço, subindo languidamente, até lamber atrás de uma orelha.
–- Van – ronronou.
–- Quero você, Meine.
Oh, ele também o queria.
Svan tomou a ponta de sua orelha entre os lábios, então abriu a boca apenas o bastante para que sua língua saísse e percorresse a área sensível e pontuda. Meine estremeceu, sentindo a mistura de umidade e calor. Svan desceu uma mão por seu corpo, ignorando os mamilos sensíveis e carentes de atenção de Meine, afagando seu ventre e, ao invés de seguir para o membro ereto, acariciou sua virilha, partindo então para a coxa.
–- Van...!
–- Shh – Svan percorreu sua orelha com a língua em um lento U – Me permita te tocar hoje.
Meine assentiu com a cabeça, um pouco incerto se ainda possuía alguma voz. A mão grande de Svan afagou sua coxa para cima e para baixo. Meine respirou fundo quando viu os dedos grandes desfazendo o nó de sua calça. O próprio Meine se levantou do banco, fazendo Svan recuar apenas o necessário para que pudesse lhe descer a peça junto da cueca de algodão que lhe cobria até a metade da coxa.
Svan viu o rosto de Meine ficar escarlate, a coloração subindo pelo pescoço até a raiz dos cabelos muito claros. Ele desceu os olhos pelo corpo pálido diante dele com gula, como se o devorasse com as pupilas. Deuses, Meine era lindo. Cada centímetro de pele imaculada e acetinada, os mamilos eriçados e rosados, as coxas torneadas e as nádegas macias e firmes. Então, fitou o membro ereto diante de seus olhos, oscilando levemente pela luxúria que o esquentava.
Svan tocou seu próprio membro, gemendo quando a dor se misturou à ânsia de ter um orgasmo.
–- Van.
–- Sente-se, Meine.
Meine o obedeceu. Estava envergonhado e desejoso ao mesmo tempo e aquela mistura o instigava a continuar com seu plano. Quando teve Meine sentado sobre o banco de Alasd, voltou a lhe acariciar a coxa. Curvou-se para morder a tenra carne que seus dedos tocaram, logo traçou um caminho de beijos molhados até sua virilha. Svan apertou seu pênis em sua calça, enlouquecido para encontrar o ápice de seu prazer. Desfez os cordões da calça e, uma vez que não usava roupa íntima naquele dia, tomou diretamente seu próprio sexo na mão, apertando-o e gemendo.
Ele sabia que os olhos de Meine estavam escuros e brilhantes de desejo antes mesmo de olha-lo.
–- Quer que eu te dê prazer, Meine?
–- Si-Sim – gaguejou, lambendo os suculentos lábios.
Deuses, aquele menino era sua perdição.
Svan abriu a boca e deixou sua língua sair, tocando com a ponta a pequena fenda no pênis de Meine, pressionando, sentido o gosto do pré-sêmen.
–- Quer que te lamba aqui, Meine?
–- Van – Meine gemeu.
–- Quer?
–- Sim!
Svan segurou a parte interna do joelho de Meine e a encaixou sobre seu ombro. Então, segurou a outra perna e a colocou aberta e esticada sobre o banco. Meine era mais flexível do que havia imaginado. Tendo-o tão aberto e exposto aos seus olhos, sua fome cresceu. Desceu a mão por dentro de sua calça, apertando e puxando suas bolas, enquanto usava apenas os lábios para acariciar a cabeça do membro de Meine.
Os sons prazenteiros de Meine eram como um afrodisíaco. Faziam com que o mundo se apagasse em torno de Svan e tudo o que houvesse era Meine e ele, e todos os sons eram seus gemidos e as respirações descompassadas. Svan queria deixa-lo louco e gritando pela felicidade carnal que lhe daria. Ele nunca se ajoelhava para ninguém e não era famoso por dar aquele tipo de prazer a seus amantes.
Ele chupou o topo do pênis de Meine, sentindo seu quadril empurrando para frente como se quisesse mais. Usou a língua para circular a glande lisa e úmida, para logo golpear a sensível fenda rapidamente. Meine ofegou e se contorceu, agarrando as beiradas do banco e se curvando, tombando a cabeça para trás quando um gemido alto lhe escapou.
Svan o tomou na boca até a garganta, sentindo-o pulsar, quente e macio. Uma mão de Meine se embrenhou em seus cabelos quando ele o chupou fortemente até a cabeça outra vez, lambendo-a e sugando-a com os lábios, usando a língua para golpear rapidamente a parte mais sensível de seu sexo.
Enquanto o abocanhava impiedosamente, Svan acariciava as próprias bolas, subindo para a base de seu pênis e rapidamente indo até a cabeça, para então descer e subir novamente. A esta altura, encontrava-se ajoelhado sobre o piso e seus quadris bombeavam freneticamente para frente e para trás. Seu prazer aumentava enlouquecidamente, o calor deslizando como lava para encher seu pênis, deixando-o duro como uma rocha.
Svan rosnou, usando a palma para se acariciar circularmente. Já não possuía controle sobre seus movimentos e sua mente se apagara, focando-se unicamente no prazer desenfreado. Sentia-o crescer exponencialmente, o orgasmo muito perto...
Ele se acariciou com mais força, com mais velocidade, enquanto chupava a cabeça do membro de Meine intensamente. Quando ergueu os olhos enevoados pelo desejo para Meie, sua excitação pareceu explodir em frenesi selvagem, pois seu elfo usava a mão que não estava em seu cabelo para brincar com o próprio mamilo, buscando seu prazer.
Svan poderia ter ronronado de satisfação com aquilo.
Ele pegou o pênis de Meine em sua longitude, fechando a mão em torno dele e o manejando, subindo e descendo o toque por todo o comprimento enquanto sua língua e seus lábios trabalhavam na ponta túrgida. Sentia-o pulsar e esquentar em sua palma. Quando Meine se arqueou e gemeu alto, a explosão de sêmen em sua boca quase o fez engasgar. O elfo empurrou em sua garganta, buscando sua total liberação, ao tempo em que Svan penetrava a própria mão, estocando rapidamente, sentindo a pressão e o calor aumentando, até que, enfim, seu prazer chegou ao ápice, desafazendo-se por entre seus dedos em algo quente e pegajoso. Ele urrou prazenteiramente, chupando Meine com ainda mais força, até engolir até a última gota de gozo.
Naquele momento, a porta se abriu violentamente, batendo contra a parede. Uma torrente de chuva adentrou com um vento gélido e uivante, fazendo-os estremecer. Svan ainda estava gozando quando teve consciência de que alguém lhes invadira o espaço. Ele rugiu, voltando-se para o intruso com os lábios franzidos expondo os dentes e os olhos semicerrados. Meine arfava, lânguido, como se estivesse incapaz de se mover e Svan tratou de escondê-lo atrás de si.
Foi quando seus olhos pousaram na magra figura ensopada de Wray, que tremia em roupas que aderiam ao seu corpo como uma segunda pele. O que o preocupou foi que os olhos de Wray dançavam pelo aposento como se não visse nada com exatidão, sem se focar realmente em algo. Ele cambaleou, os joelhos fraquejando.
A fúria de Svan se aplacou quando o temor por seu amigo o encheu. Ele rapidamente tratou de colocar a calça no lugar, usando-a para limpar a mão cheia de gozo. Lambeu a boca e se ergueu.
Wray, de repente, desabou bruscamente sobre o soalho, e de lá não saiu. O baque ecoou por toda a cabana como o grito de um gigante.
–- Vista-se – sussurrou para Meine, que pestanejava, aturdido entre o prazer que tivera e a súbita aparição de seu amigo. Ele assentiu com a cabeça, tratando de se recompor, o que deu a Svan o tempo que precisava para atravessar a habitação. Ele empurrou a porta para fecha-la ao tempo em que se ajoelhava ao lado de Wray.
Teria ficado em vergonhado por ter sido flagrado ajoelhado entre as pernas de Meine, mas Wray realmente não estava muito consciente.
–- Wray – Svan chamou, olhando atentamente cada parte de seu corpo. Wray não parecia visivelmente ferido. O corpo pálido convulsionou e Wray tossiu uma tosse estalada e molhada.
–- Wray! – Meine gritou. Antes que Svan notasse, seu pequeno homem se ajoelhou do outro lado de Wray, pondo as mãos sobre as costas, que se elevavam e desciam rapidamente, como se buscasse desesperadamente ar e não conseguisse o suficiente – Wray – as lágrimas encheram os olhos de Meine e Svan franziu o cenho, perguntando-se se Meine já o vira naquele estado tão vulnerável e débil – Wray, por favor... por favor...
Wray tossiu novamente e sangue escorreu pelo canto de sua boca.
–- Merda! – Svan grunhiu – Wray, abra a porra dos olhos!
Wray tremeu violentamente em outra onda de tosse. Seu cabelo longo estava grudado em suas costas, as roupas pesando de tão encharcadas. Svan o segurou o mais gentilmente possível e o virou, para que pudesse respirar melhor. Meine agiu mais rápido que ele, tirando a blusa de Wray cuidadosamente. Arremessou o pano encharcado no chão. Svan tratou de se desvencilhar das calças enquanto Meine corria para buscar uma manta para esquenta-lo. Eles enrolaram Wray e pousaram sua cabeça molhada sobre as coxas do elfo.
Svan estava apavorado e não sabia o que fazer. Suas mãos tremiam e sua mente estava enevoada, como se ele estivesse ausente de seu próprio corpo.
–- Wray – Meine disse ternamente, afastando mechas quase brancas de cabelo do rosto de Wray – Abra os olhos para nós, Wray.
Svan não pode evitar ficar maravilhado com o que via – o carinho de Meine, a ligação forte entre eles, a forma como Wray parecia ficar menos tenso ao ouvir a voz do elfo. Svan deveria se sentir enciumado, mas... Ele estava agradecido. Wray lhe era tão importante quanto Niels e lhe era extremamente precioso. Ver que o seu Meine era capaz de fazê-lo sofrer menos enchia seu coração de paz e ele, inclusive, desejou deitar a cabeça nas pernas de Meine também. Sua voz serena o acalmava como um bálsamo.
–- Wray – ele disse – Reaja a nós, Wray.
Wray apenas tremeu e tossiu, fechando os olhos com força como se algo lhe doesse.
–- Svan – disse a um fio de voz, tão rouca e profunda que era quase inaudível, como saísse rasgando sua garganta seca. As pálpebras claras tremularam momentos antes de se erguerem muito lentamente. Ele tossiu violentamente, convulsionando-se nas pernas de Meine. Sangue espirrou sobre seu peito quando se dobrou sobre si mesmo. Svan sentia seu coração se apertando pelo medo de que seu amigo fosse se quebrar a qualquer momento. – Svan...
–- Van – Meine falou firmemente, e ele ergueu os olhos para o elfo – Por favor, deixe-nos a sós.
–- O quê? – Svan grunhiu.
Ele não sairia do lado deles nem se Darius, Yusuf e Skoll aparecessem ali.
–- Por favor – havia uma sombra estranha no olhar de Meine. Ela escurecia suas feições e Svan pensou que seus olhos agora pareciam negros. Os lábios eram pressionados firmemente e... Pela primeira vez, Svan não soube definir que tipo de expressão era aquela – Por favor, preciso falar com ele em particular.
–- Eu não...
–- Van – Meine o interrompeu, a voz suave e firme ao mesmo tempo – Wray precisa disso.
Svan parecia debater o que era certo ou errado para se fazer naquele momento. Ele não queria partir, mas Meine notou em seu olhar que tentava buscar compreensão para o pedido. Meine só queria que não visse Wray tão destruído – porque Wray escondia sua doença a sete chaves. Svan não sabia, mas Meine sentia que Wray estava com febre. Sua pele queimava suas mãos e ele precisava cuidar do amigo antes que piorasse.
A doença de Wray o estava matando. Ele tossia sangue como se seus pulmões estivessem rasgados e a tosse destruísse sua garganta. Sua respiração era dificultosa e ele queimava em uma febre infernal.
–- Van – chamou suavemente, engolindo seus medos e sua dor. – Pode trazer água fria e alguns panos? Por favor?
Svan rosnou, mas se ergueu e rumou para outro cômodo da cabana com grunhidos e passos bruscos. Aproveitando sua solidão, Meine acariciou os cabelos de seu amigo, afagando sua bochecha. Os olhos de Wray pareciam dourados naquele momento. Meine, olhando-o de tão perto, notou o quanto o rosto do arqueiro era belo. Wray possuía traços que misturavam delicadeza e virilidade, de forma que não se parecesse com uma menina. Era infimamente andrógeno. E estava tão magro, tão pálido...
Ele se curvou e plantou um beijo na testa de Wray.
–- Meine – a voz dele mal era perceptível – Svan...
–- Pedi que saísse – Meine disse baixinho.
Wray tossiu.
–- Eu tinha de chegar aqui o quanto antes...
–- E para isso tinha de se sacrificar? – as lágrimas eclodiram de seus olhos, escorrendo por suas bochechas copiosamente – Por que não se refugiou da chuva?
–- Nenhum guerreiro declinaria sua missão em prol de si mesmo, Meine.
–- Por isso enfrentou a chuva e um dia inteiro em cima de um cavalo? Por causa de algo tão estúpido?
Sua voz se quebrou, tremulando pelo choro desenfreado. Meine estremecia, fungando e chorando.
–- Não é estúpido – Wray disse gentilmente, porém, com uma força de aço que desmentia seu atual estado – Eu sou um guerreiro. É minha obrigação.
–- Tudo pela maldita honra?
Wray riu, porém a tosse o interrompeu.
–- Está falando como Svan, Meine.
–- Nada vale mais que a sua vida, Wray – Meine chorou, cobrindo o rosto com as mãos enquanto soluçava. Sentiu um toque suave em seus cabelos.
–- Obrigado, pequenino. – Wray acariciou suas mechas.
Continua...
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