Notas iniciais
Ilustríssima Eu: Olá, povinho! Estreando meu primeiro yaoi hahaha espero que vocês gostem tanto quanto eu e a Mi!
Boa leitura!

Capítulo 1 — Escravo

Naquela manhã, um pressentimento cutucava a mente de Meine, atrapalhando sua concentração nas tarefas diárias. O bule encheu a xícara de chá até o ponto de transbordar sobre a mesa de madeira, o que foi uma bagunça.

- Menino, onde está com a cabeça? Trate de ter mais cuidado ao nos servir. — A velha senhora acima de seus oitenta anos ditou irritantemente. — Desperdiçando café…. Onde já se viu!

- De-Desculpe, senhora. — Meine a olhou um pouco chateado consigo mesmo por seu próprio erro. Ele colocou o bule rapidamente sobre a mesa de café, e conseguiu uma toalha para limpar a bagunça. Depois de sair da sala de descanso dos velhinhos, Meine já estava com mais tarefas “urgentes”. Para sua avó adotiva, todas as tarefas na casa dos velhinhos eram urgentes. Dessa vez ele tinha que servir a irmã de sua avó.

Nos ultimos anos, servir esta casa não estava sendo muito proveitoso. Claro, sua avó era uma mulher muito gentil, mas o numero de velhinhos rabugentos para cuidar estava aumentando, e não havia lucro ou graça naquilo que Meine fazia. Ele apenas sabia que o deus Odin provavelmente estava olhando por ele e determinaria um bom futuro. Isso esperava. Sabe-se lá o que os deuses planejavam.

- Os lençóis já foram lavados? — Urma perguntou. Esta era a irmã de sua avó adotiva. Urma costumava ser muito exigente, mas não era uma má pessoa.

- Sim, senhora. — Respondeu humildemente.

- Já os colocou ao sol para secar? — Ela contava os prendedores de roupa dentro de um cesto. Meine não entendia porque ela fazia isso… Imaginava que talvez fosse coisa da idade.

- Sim, senhora...

- Então… Uh… — Ela olhou ao redor, ponderando sobre qual seria a próxima tarefa a arranjar para o “criado” de sua irmã. Meine gostava das pessoas ao redor dele. Na verdade ele cresceu amando este lugar, mesmo com pequenos detalhes irritantes como este. Tinham sorte essas pessoas com o quão calmo e sereno o garoto era, pois do contrário, já teria se revoltado contra tudo e todos.

- Vá colher abóboras então. — Ela concluiu.

- Más nós já temos um estoque delas na despensa, senhora. — Meine a olhou engraçado. Porém o olhar que recebeu em troca fora fuzilante.

- Não importa. Sabe que teremos o festival da abóbora em apenas dois dias. Precisaremos de todas as abóboras possíveis!

Meine suspirou depois que saiu pela porta dos fundos da residência dos velhinhos. Ele decidiu que não seria tão bom menino a fim de fazer este favor justo agora, pois daria algum tempo de folga a si mesmo para visitar sua amada avó em casa.

O caminho era todo em pedriscos enquanto atravessava o pequeno vilarejo. A maioria das casas foram construídas coladas umas as outras. Poucos eram os estabelecimentos com mais de um andar, e tudo construído a base de madeira e pedra, com tetos de palha. Crianças corriam atrás das outras levantando poeira e gritando no topo de seus pulmões. Alguns pescadores exibiam as suas pescas no mercado de peixes. Alguns homens bêbados gritavam desde a taberna.

Então Meine olhou através do vilarejo para o mar. Aquele era o porto de Veruguen, talvez o vilarejo mais desconhecido de toda a Enseada do Norte. Seu povo vivia principalmente da pesca e do cultivo de vegetais. Meine gostava de viver neste lugar porque era agradável, tranquilo e, às vezes, ele se imaginava estar em um local assim com alguém. Não sua avó ou qualquer que seja do vilarejo. Mas talvez um amor.

Todos tinham o direito de desejar, um dia, amar alguém.

Como era de se esperar, assim que Meine entrou na velha cabana que ele chamava de lar, um grupo inteiro de garotas o atacou. Desde as menores, às adolescentes, até algumas que estavam prestes a se casar. Elas eram mulheres muito lindas, mas Meine não as via como nada além de boas amigas.

E ele sabia… Nenhuma delas sequer olhou para ele com um interesse que não fosse o de vesti-lo com roupas femininas, brincar com seus cabelos loiros, prendendo-os com diademas bonitas, além de maquiando seu rosto pálido.

- Chega por hoje, garotas. — Sua avó Mona veio enxotando as meninas para fora de casa. Ela beijou o rosto de todas, desde as menores às mais velhas, só então para lidar com a bagunça que Meine era agora.

A senhora era rechonchuda, cabelos ruivos e cacheados, presos de cada lado da cabeça por três tiras de couro vermelha. Estava vestida com um vestido verde largo e sapatilhas de couro. Ela sempre, sempre usava um avental.

- Elas abusaram de você novamente, Meine. — Suspirou a velha mulher.

Seu nome — Meine — havia sido uma escolha dela, assim que chegou ao vilarejo quando estava em torno de seus seis anos. Sua verdadeira origem, ele não sabia. E todos da vila brincavam dizendo que Meine era filho de algum deus, por isso tinha uma aparência chamativa. Ele nunca conseguia ficar neutro. As pessoas sempre o encontrariam, porque ele chamava muito a atenção.

Isso não era bom… Mas ele havia nascido assim.

- Hei albino. — Tio Snauzer o comprimentou da janela. Era um homem viúvo que sempre vinha a lhe comprimentar na janela. — As garotas fizeram isso com você?

- Elas adoram brincar… — Meine murmurou, envergonhado pelo estado em que se encontrava. Seus cabelos estavam presos com uma variedade de fitas, sua maquiagem dos olhos borrou de um lado e os escorreu do outro. A pintura nos lábios estava somente no inferior, além de as roupas, que não foram bem ajustadas ao seu corpo, pareciam haver sido colocadas do avesso. O pior foram as sapatilhas que pertenciam a Mona. Meine mancou até o quarto que dividia com a velha senhora, e fechou a porta atrás de si.

Ele ouviu o tio Snauzer rir enquanto papeava com sua avó, e pouco a pouco, ele foi se livrando dos adornos femininos e toda a maquiagem pesada.

O tempo se passou, e veio a noite, quando ele lembrou das abóboras. Agora era tarde demais para ir colhe-las. Mesmo se utilizasse de lamparinas, não era muito aceitável ficar lá fora, vulnerável aos monstros noturnos. Mesmo que ele nunca tivesse visto algum, ele ouvia as histórias dos seres sobrenaturais que viviam nas trevas e andavam livremente na escuridão.

O seu pressentimento ficou mais forte tarde daquela noite. Meine já havia se deitado, e a velha senhora apenas se colocou frente à lareira para tricotar. A janela estava fechada, mas mesmo por entre as brechas, Meine sentia o ar frio da noite gélida circular pelo quarto. Ele se cobriu firmemente com um conjunto de cobertores feitos de pele de urso para se aquecer, e esperou pelo sono vir até ele. Mas antes mesmo de sonhar, um estrondo o fez se levantar abruptamente da cama. Ele sabia! Algo estava acontecendo. Ele nunca antes tinha tido um pressentimento como esse de hoje. Da última vez fora mais leve e, no caso, foi somente uma tempestade que fez estragos... Porém, agora, não era uma tempestade, ele estava ouvindo gritos de socorro, de desespero. Parecia uma guerra sendo travada lá fora.

- Vovó, temos que sair daqui! — Ele gritou quando tropeçou para fora do quarto. Ele vestia roupas curtas e somente um dos mantos de pele sobre seu corpo. Ele trouxe mais um manto e vestiu os ombros da velha senhora.

- Mas o que esta acontecendo, Meine?! — Ela gritou, o seu tremor visível e seu rosto empalideceu. Meine foi rápido o suficiente para juntar uma trouxa com as roupas de Mona e alguns poucos mantimentos guardados, e então levá-la até a porta dos fundos.

Tio Snauzer já estava esperando lá, milagrosamente com dois cavalos e sua própria trouxa de roupas.

- Eu não sei, vovó…

- São vikings! — O homem lhes disse. — Eles finalmente descobriram nosso vilarejo!

- Vikings?! — A mulher se desesperou. Meine não teve tempo a perder com conversa, então apenas ajudou sua avó adotiva a subir no cavalo e prendeu a trouxa de modo que não caísse quando ela começasse a galopar. — Meine, aonde você pensa que vai? Você irá embora conosco!

- Mas… Mas, e os velhinhos? — Ele olhava insistentemente para o caminho que levava ao lar dos velhinhos, algumas casas mais a frente da sua.

- Eles vão ficar bem, agora suba meu filho, temos que fugir antes que eles nos descubram! — Mona gritou para Meine, que fez conforme ela lhe falou. Ele subiu atrás do cavalo quandou ouviu sua casa ser invadida, e seu tio liderou o caminho pela fuga. Porém, foi tão rápido quando uma figada de dor no braço de Meine enviou-lhe uma ânsia que o fez desequilibrar e imediatamente cair do cavalo. Mona, por sua vez, continuou com Snauzer, gritando para Meine quando os Vinkings o encurralaram e fecharam sua visão para a fuga de sua avó.

Esperava que ela corresse a salvo com seu tio adotivo, que eles pudessem escapar e continuar suas vidas. Meine, porém, entregou sua alma para a hora que sua morte viesse e esta não parecia tão longe, visto que sua vista escureceu, até perder a razão, a consciência e seus sentidos.

-*-*-

Quando Meine acordou, ele estava preso dentro de uma gaiola um pouco maior que seu próprio corpo sentado. Havia um manto felpudo sobre ele que o fez suportar o frio da noite e agora a névoa da manhã.

Sua gaiola, porém, estava coberta por um manto de pele de onça, mas que, pelo clarão que enxergava através da pele, disse a ele que era dia. Havia também um murmúrio feliz de uma multidão em torno dele. Pessoas rindo, conversando animadamente e os lances de um leilão.

Espere… Um leilão?

Meine se encolheu onde estava, e gritou quando uma fisgada forte o suficiente lhe tirou o ar dos pulmões. Seu braço estava enfaixado, mas, mesmo assim, sangrava e doía muito ao movê-lo. Não soube quanto tempo ficou ali, arfando pela dor, até que, de repente, o manto sobre a gaiola foi puxado para fora e as pessoas em torno dele tiveram grandes olhos para Meine.

- O que é ele? — Uma mulher perguntou, muito interessada no garoto.

- É uma de nossas mais valiosas mercadorias. Um Elfo de luz. Está cheio de benefícios! — Um homem rechonchudo disse às madames que se aproximaram.

- Qual o valor dele? — Várias delas perguntaram ao mesmo tempo.

- Está custando cinco vezes mais que qualquer escravo neste leilão.

- Ele está ferido. — Um homem comentou em meio ao murmúrio. Meine o viu parecer um grande guerreiro, e assim que a voz dele ecoou, todos saíram de seu caminho, temendo-lhe como se fosse uma espécie de monstro. — Diga-me se isto é um benefício.

O homem gordinho ficou um pouco sem jeito ao respondê-lo.

- Ele foi ferido ao ser capturado. Mas nós mesmos o verificamos. Ele ficará bem, está livre de enfermidades… E como todos sabem, elfos são seres imortais e de extrema sorte. Transmitem muita prosperidade, e apenas um desses é suficiente a todo um clã! — O homem disse a todos como uma apresentação. — Ainda mais que ele é jovem e recentemente entrou na puberdade. Também verificamos que é um garoto virgem, e pode procriar!

A multidão toda fez um “oh” de surpresa e em seguida vieram os murmúrios de pessoas muito surpresas ao encontrarem um ser tão raro.

O mesmo homem que havia reparado em sua ferida no braço olhava atentamente para Meine e isso o fez desconfortável. Embora ele parecesse jovem, era enorme e musculoso. Ele se aproximou, com vários outros guerreiros em seu encalço, então murmurou algo para os rapazes atrás dele e em seguida disse: — Eu vou levá-lo para nosso lider, meu irmão.

O senhor rechonchudo ficou de olhos arregalados com o pedido.

- Desculpe, senhor, mas nós temos de fazer o leilão a respeito dele e… — Disse, porém fora interrompido.

- Eu pagarei o triplo do valor que ele representa. — Disse o homem, apresentando três sacos cheios com moedas de ouro e prata. O homem hesitou, mas seus olhos brilharam com tanto dinheiro em mãos. Os guerreiros desfizeram da gaiola e puxaram Meine para fora, consequentemente o fazendo vaiar pela dor. O homem que o comprou, que parecia o líder daqueles guerreiros, fez questão de segurar Meine por seu braço bom e então tomá-lo em seu ombro como um saco de batatas.

Meine olhou ao redor, corando com a multidão olhando tão atentamente para ele e murmurando surpresos com a diferença que ele era. Talvez uma aberração para todos eles.

Quando ele foi baixado ao chão, seus pulsos foram amarrados com cordas finas, porém firmes, e o homem segurou em seu cabelo, empurrando a cabeça de Meine para trás, para olhar para cima em seus olhos.

Eles já estavam em uma área um pouco mais afastada de onde ocorria a venda de escravos.

- Olhem só isso, rapazes. Tenho certeza de que dessa vez eu acertei na compra. Imaginem só como meu irmão ficará quando vê-lo!

Os outros homens uivaram em euforia.

- Foi uma sorte tremenda encontrá-lo aqui… Mas acha certo mesmo termos pagado tão caro por ele? Era possível se comprar quase dez escravos com aquele valor. — Disse um homem de tranças ruivas.

Meine se encontrou admirando-os e ao mesmo tempo os temendo.

- Svan não saberá isso. — Disse o homem que mantinha o agarre firme em seus cabelos. — Olhem só para essas orelhas pontudas!

De fato as orelhas de Meine eram pontudas, nada grosseiro, Meine até gostava dessa pequena diferença que ele tinha.

- Ual, eu nunca vi alguém assim, Niels. — Outro rapaz disse admirado. — Até seus cílios são brancos.

Meine deduziu que o homem que o segurava sem cuidados era Niels.

- Vamos logo, ou Svan irá chutar nossos traseiros. — Um dos homens ditou, montando um dos cavalos que os esperavam amarrados naquele lugar. Meine foi mais uma vez carregado sobre o ombro de Niels, até o mesmo subir num cavalo e puxá-lo junto. Foi impossível não gemer de dor, e ele ouviu o rosnar de raiva por manchar as roupas de Niels com seu sangue. Meine simplesmente adormeceu, mas seu sonho fora cheio de interrupções, apenas pesadelos, a dor em seu braço que não passava, além da pior dor, que era em seu coração, com a perda óbvia de seu amado vilarejo, e as preocupações por aqueles que considerava como sua familia.

-*-*-

Svan resistiu ao ímpeto de dar vazão ao seu aborrecimento e rosnar como desejava fazer. Ele detestava o trabalho burocrático, mas havia certas supervisões em seu trabalho que não poderiam ser postergadas. Ele tinha de se certificar de que todo o clã teria provisões para o inverno que se aproximava.

E aquele era um serviço notoriamente odioso.

Uma risada suave o fez erguer os olhos ameaçadoramente semicerrados para a figura recostada na entrada. A pele de urso que servia de porta fora afastada para um lado e Wray se revelava com uma expressão discretamente divertida. O cabelo longo e louro-branco escorria pelos ombros até a cintura. Svan rosnou entre dentes, mas não o repreendeu – naquela manhã, Wray estava ainda mais pálido que de costume.

- O que foi agora? – grunhiu.

Wray se limitou a avançar um passo, deixando a pele se fechar atrás de si, dando privacidade para que conversassem.

- Niels retorna hoje – disse em um tom suave.

- E daí?

- Mais problemas para você chegarão.

Svan passou uma mão pelo seu cabelo cor de trigo. Wray tinha razão: sempre que Niels saía em expedições, retornava com mais problemas que lucros.

- Niels precisa de uma boa sova no traseiro – resmungou.

Wray caminhou adiante e se sentou na cadeira diante da mesa, olhando para Svan.

- Niels precisa de trabalhos educativos.

Svan poderia ter rida da sugestão se não estivesse tão mal-humorado naquela manhã.

- Fala como se meu irmão fosse uma criança.

Wray sorriu.

- E não é?

Ele, Wray e Niels se conhecem desde provavelmente antes do nascimento. Eram inseparáveis como uma única entidade e, mesmo o próprio Svan não compreendia como Wray era tão paciente com seu temperamento e a personalidade deturpada de Niels. Acreditava que Wray era o elo de serenidade entre eles. Muitas vezes Svan pensou em estrangular seu irmãozinho por tamanha displicência.

Svan se levantou, arrastando a cadeira no chão.

- Diga para mim que ele não foi a leilões desta vez.

Wray não se levantou.

- Apesar do que você pensa, não sou a babá de Niels. Não sei aonde ele foi.

O cenho de Svan se franziu. Sabia que os saques na Inglaterra eram bastante proveitosos, mas já fazia um mês desde que Niels reuniu um punhado de guerreiros e partiu. Em suas contas, seu irmão deveria estar de volta ontem. A preocupação se mesclou à afobação quando se deu conta de que não havia milagre no mundo que o faria saber onde se enfiara o caçula antes de pisar de volta na aldeia.

- Acha que ele me trará mais prejuízos?

Wray deu de ombros com indiferença.

- Não intencionalmente.

Ele já esperava por aquela resposta.

Há três dias receberam uma missiva através do falcão de Niels com a mensagem de seu regresso para hoje. Seu irmão irresponsável garantia que tinha muitas boas notícias do além-mar – e Svan ficava ainda mais apreensivo, pois a última vez que ouviu aquilo teve de pagar uma compensação a outro chefe de clã por um mal-entendido.

Pressionou a ponte do nariz entre o indicador e o polegar.

- Wray – grunhiu – Há mais algum infeliz assunto que deseja tratar comigo?

A expressão de Wray se tornou mais circunspeta, o que lhe serviu de sobreaviso sobre a seriedade do tema que abordariam para não pensar ainda mais em Niels.

- Os monstros estão inquietos na floresta – falou em tom baixo – Algo ruim está acontecendo, Svan.

- O que acha que é?

- São eles outra vez, não tenho dúvidas.

Por eles, Svan sabia que Wray se referia aos elfos das trevas. Os malditos seres eram uma constante dor de cabeça e manter seu território inviolável estava se tornando uma tarefa ainda mais árdua. Nunca permitiria que as criaturas ruins sequer pisassem em suas terras, mas isso não significava que a natureza não reagisse de forma inquietamente. Ele mesmo vinha sentindo a frieza no ar desde que a inimizade entre os elfos da luz e os elfos das trevas se tornou mais agressiva, abrangendo todas as bestas sobrenaturais.

Não lhe importavam os motivos para as duas raças guerrearem, apenas não desejava que ferissem seu clã. Se a batalha se voltasse para ele, oh, sim, ele faria um grande, muito grande estrago.

Antes que pensasse mais no assunto, uma balbúrdia no exterior de sua casa chamou sua atenção. Ouviu as vozes animadas, as risadas. Wray se levantou, relaxando um pouco os ombros.

- Parece que Niels chegou.

- Vamos.

Ele e Wray saíram da casa caminhando lado a lado. Era final de tarde e tochas sustentadas por arandelas diante das outras construções já estavam acesas, aguardando o anoitecer. A casa de Svan era a maior da tribo por ser o chefe tribal, e pertencera a seu pai antes de ele morrer e deixar a liderança para seu filho mais velho.

Um círculo de pessoas se fechava em torno do centro aberto onde se encontravam seu irmão e um pequeno contingente de homens. Skylar, o mais tagarela do grupo, narrava uma história com bastante bom-humor, divertindo seus espectadores e os fazendo rir, enquanto três guerreiros reuniam os cavalos para leva-los para serem tratados após a exaustiva viagem.

As sobrancelhas de Svan estavam tão franzidas que poderiam ter formado um V bastante hostil. Ele encarou fixamente seu irmão até Niels resolver se voltar para ele com uma expressão solene.

- Niels – vociferou entre dentes.

Ele tinha um bom discurso a fazer a Niels após soca-lo algumas vezes.

Quando seu irmão aprenderia a ser mais responsável?

As pessoas abriam passagem para o chefe como um mar cujas águas se dividiam para passagem divina. Entretanto, antes que pudesse repreender o irmão, a mão de Wray pousou em seu ombro. O movimento suave foi o bastante para que interrompesse sua marcha e olhasse para o homem ao seu lado. As sobrancelhas muito claras de Wray estavam arqueadas, os olhos se ampliando e os lábios entreabrindo.

O que havia de errado com ele?

- Veja – retrucou Wray.

Confuso e ainda mais aborrecido, seguiu a direção do olhar de Wray, até pousar sua atenção em...

Maldição.

Era a coisinha mais linda e aterradora que já havia visto – aterradora porque era um elfo. As delicadas orelhas pontudas eram um sinal gritante das origens da pequena criatura que Niels trazia amarrada por uma corda pelos pulsos. Incríveis olhos azul-marinho fitavam a tudo rapidamente e Svan podia farejar o medo e a curiosidade que emanavam dele. Eram intensos. Ele estava aterrorizado. O cabelo alvo como a neve era liso e bonito como as pérolas do oriente e a franja cortada reta realçava os traços suaves do rosto. A criatura era pequena e parecia quebradiça – não deveria ser capaz de sobreviver por dois minutos entre os de sua espécie.

Vestia uma calça de couro branca, uma camisa de linho suja pela viagem e um colete branco de pele de lobo. Calçava botas de pele no mesmo tom. E era pela alvura de seus trajes que Svan notou que estava ferido.

Com um suspiro, estreitou agora os olhos para Niels.

- Eu o trouxe como presente a você, chefe.

Wray foi o primeiro a reagir, adiantando-se com passos cautelosos quando a pequena criatura estremeceu, agora oscilando o olhar entre Wray e Svan. Ele viu Wray abrir um sorriso quase terno para o menino.

- Olá – Wray disse em tom baixo.

Niels puxou a corda, fazendo o menino tropeçar para frente. Segurou os ombros magros e o exibiu para Svan.

Ele já podia matar seu irmão, certo?

- Ele é um escravo do norte – disse Niels – Eu o comprei como desculpas por minha demora, irmão.

Svan passou a mão no cabelo novamente.

- Svan – Wray disse. Havia preocupação em sua voz habitualmente tranquila – Ele está ferido.

Continua...

Notas finais
Miky-san: Olá queridos *--*
Espero que tenham gostado... É apenas o primeiro capítulo, no entanto esperem por ver, essa história realmente promete muito :3
Muito Obrigada por ler, espero que possam acompanhar! Pretendemos postar todos os domingos o/
Boa semana!