Phaeleh I

2 Capítulo 2 - Encurralado


Notas iniciais
Ilustríssima eu: Hey, peoples! Mais um pouco de Meine pra vocês *-* obrigada de coração pelos comentários, que em breve serão respondidos! Obrigada por acompanharem nosso bebê viking ♥

Capítulo 2 — Encurralado

Svan não estava acreditando ainda que seu irmão havia trazido para casa um elfo. Ficou indignado, pois já havia uma batalha de elfos na floresta, se estes em algum momento descobrissem que ele possuía um deles, seria uma guerra entre elfos e berserkers.

E ele não queria isso de jeito nenhum. Não é como se ele não quisesse lutar ou não fosse forte o suficiente para isso, ao contrário, ele só não queria arriscar o seu povo. Nas batalhas haviam mortes, mesmo se eles ganhassem ou perdessem, então este era um fato de que todos deviam evitar.

– Por que diabos me trouxe um elfo? O que eu vou fazer com um elfo, pelo amor de Odin! — Svan gritou contra o rosto de Niels, sacudindo seus ombros.

Niels suspirou e se afastou de seu irmão irritado.

– O que foi Svan?! Eu apenas quis te fazer algum bem! Quando foi a última vez que te dei alguma coisa? — Niels gesticulava em sua discussão. — Na verdade eu nem estava pensando nisso quando fui ao leilão, mas quando eu vi ele, eu pensei assim “ele é fodidamente perfeito para Svan”. Foi por isso que eu o comprei, você vai aceitá-lo ou não?

O lider soltou um longo suspiro e massageou suas próprias têmporas com a ponta dos dedos. — Por que um escravo?

Niels se recostou contra a bancada e cruzou os braços. — Para ser seu escravo sexual.

Os olhos de Svan se arregalaram.

– O quê?!

– Oras irmão, você esteve sozinho tanto tempo quanto nós estivemos por conta das últimas batalhas e todo o trabalho difícil a cada dia. Você é o lider, merecia todo um harém para se satisfazer, mas por enquanto acho que o albino pode cuidar um pouco disso.

Svan apertou os lábios juntos. Ele não podia contar quantos amantes tivera na vida desde garoto, sejam lá homens ou mulheres, ele nunca achou que fora algo divertido se satisfazer com qualquer um deles. Seu irmão estava pensando nele, como sempre fazia, mas dessa vez realmente lhe surpreendeu.

– Por que ele tinha que ser um elfo?

– Eu não me importei se ele era ou não um elfo, Svan, apenas olhei para ele e achei que fosse perfeito para ser sua companhia nas noites frias. Ele se comportou bem todo o trajeto até aqui, pensei que iria resmungar ou se espernear para fugir.

– Ele estava ferido, o que esperava? — Svan lhe disse de volta. — Mas… Obrigado pela consideração… Eu vou… Tomá-lo. Apenas não poderei deixar que ele se exponha, afinal se os elfos da floresta o descobrem, seria uma guerra conosco.

Niels beliscou a ponta de seu nariz, um costume que seu irmão fazia. — Eu não pensei nisso… — Svan socou o seu braço. — Ai! Que droga Svan!

–*-*-

Meine olhou com grandes olhos para o rapaz bonito que fazia algo sobre a bancada. O albino estava sentado sobre uma grande cama dossel com cortinas vermelho vinho dependuradas em cada extremidade e amarradas com cordas de bronze. Sua ferida estava doendo muito e sua vontade era de se jogar para trás da cama e dormir mais um tempo até que se curasse.

– Isso vai melhorar rápido, se está preocupado. Foi uma flechada de raspão, eu que sou um arqueiro, sei bem como funciona. — Ele se aproximou com uma vasilha e uma pinça. — Você consegue desfazer da camisa?

O garoto tentou, mas somente gemeu de dor quando o fez. Wray deixou a vasilha e a pinça sobre a cama, e tocou nas vestes de Meine o fazendo querer afastar-se dele.

– Ei, calma… Vou apenas ajudá-lo, não lhe farei mal.

Meine permitiu, não era como se ele tivesse alguma escolha, ele não queria que o machucassem. Wray trabalhou em ajudar a retirar o colete que usava, então teve de desfazer da camisa, pois esta estava rasgada e manchada com sangue.

O olhar de Wray viajou sobre Meine, mas não era algo como luxúria ou desejo, entretanto ele corou com a visão do garoto.

– Ual, sua pele é mesmo tão branca. — Um de seus dedos beliscou o peito de Meine que choramingou no toque. — De-Desculpe. — Wray se concentrou na ferida, arranjando os algodões embebidos em um liquido esverdeado que cheirava a ervas. — Depois que eu colocar o curativo, ficará mais fácil de cicatrizar. Teve sorte que não precisará ser costurado, mesmo com anestésico, dói bastante.

Meine balançou a cabeça e olhou para Wray com um pequeno sorriso triste.

– Obrigado… Você é gentil. — Disse suavemente. Ele acompanhou como Wray cuidou dele até colocar o curativo sobre o corte. Então se sentou ao seu lado inspirando profundo.

– Você conheceu Svan mais cedo. Ele é irmão de Niels, o rapaz que te comprou, e será o seu dono. Ele não costuma ser muito gentil, para você saber, mas eu tentarei dizer a ele para não machucá-lo… Se ele me ouvir.

Meine olhou para Wray assustado, então pegou o seu colete sobre a cama e o vestiu sobre seu peito nu, ao menos para proteger sua pele exposta.

O medo mais uma vez se fez presente em seu coração e Meine queria no fundo que tudo isso não bastasse de um pesadelo que em breve iria acordar. Ele perdeu tudo o que era valioso para ele, sua avó, seu tio, sua cabana velha. Não havia nada com ele além da roupa que usava agora.

Esperava que ao menos sua avó estivesse bem. Em um lugar bem longe e protegida. E que não viesse procurar por ele. Talvez esta fosse a hora de Meine correr atrás de descobrir suas origens, e de criar sua própria vida.

Wray foi gentil com ele pelo menos.

– Eu vou buscar um jantar para você, e algumas roupas limpas. Não vou amarrá-lo, porque creio que não precise disso. — Wray se levantou e afagou a cabeça de Meine. Foi um gesto gentil e amigável que fez Meine corar. — Logo Svan vai aparecer, pois este é o quarto dele. Escute… — Wray se ajoelhou na frente dele. — Ele pode ser um chato de início… Mas no fundo ele tem um grande coração. Niels não comprou você parar fazer o trabalho duro, mas sim para cuidar de Svan e mante-lo feliz. Você pode fazer isso?

Meine não se moveu. Ele não sabia na verdade se poderia cumprir o que Wray estava lhe pedindo. Porém seu novo amigo sorriu para ele brilhantemente e então saiu do quarto.

Aquela era uma casa feita de pedra. Era bonita e bem feita, mas Meine odiou as cabeças de urso dependuradas como troféus numa parede e os incensos. Lhe deixava doente sentir aquele cheiro.

Os minutos foram se passando e ele foi se sentindo esgotado. Acabou por deixar-se cair na cama e fechar os olhos para um cochilo, ele não soube quanto tempo se passou, até que som de alguém entrando no quarto o acordou.

Ele olhou para ver de quem se tratava, e no mesmo instante se encolheu na cama. Era Svan! O homem estava em toda sua altura grandiosa colocando uma bandeja sobre o criado mudo.

– Você é muito corajoso para dormir na minha cama logo quando nós acabamos de nos conhecer. — Disse ele entre os dentes, sua voz rouca e nada gentil — Você é um escravo, e onde mais um escravo dorme?

Meine não soube responder, mas ele sabia exatamente que um escravo não era autorizado a ter qualquer conforto. Então o lugar mais próximo a dormir seria o tapete.

– De-Desculpe, senhor. — Meine se arrastou com dificuldade para fora da cama, porém suas pernas falharam quando tentou se colocar de pé. Ele sentiu que iria cair, mas um par de braços fortes, muito maiores que os seus próprios, se enrolaram em torno dele, evitando sua queda. Meine olhou para cima, para ver o rosto de Svan muito perto, até mesmo podia sentir sua respiração quente em sua bochecha.

O homem colocou-o sentado na cama e se recompôs.

– Não se sente bem?

– E-Eu estou bem… Só… Cansado. — Meine suspirou, mas evitou olhar diretamente para o homem. Ele se perguntou por que seu coração batia tão forte no peito. Se era por estar perto de um homem tão bonito como Svan, ou por teme-lo por ser tão forte e capaz de matá-lo com um soco.

Svan olhou para ele com uma expressão diferente, como se estivesse estudando-o. — Eu vou deixá-lo dormir na cama, somente esta noite. — Ele decretou e algo dentro de Meine aqueceu. Ele apenas permaneceu sentado, seus pés descalços balançando, enquanto observava Svan remexer em algo sobre o criado mudo. Imediatamente as narinas de Meine captaram o cheiro maravilhoso e ele mordeu os lábios para não gemer na vontade. No entanto, seu estômago rosnou e o próprio Svan olhou para ele surpreso.

– Há quanto tempo não come?

– Não mais que dois dias. — Declarou.

– Wray cozinhou hoje. São costelas de carneiro… — Svan entregou-lhe um prato com o ensopado de carne e alguns legumes. Meine tomou a colher e comeu com cuidado para não sujar nada, evitando assim que Svan ficasse bravo com ele.

– E quanto a você?

– Tive minha refeição junto aos outros. Só lhe trouxe o jantar por um favor a Wray. — E ele não parecia feliz com isso.

Mas Meine quase deixou o prato cair quando Svan retirou a jaqueta de pele e então a camisa que usava por baixo, deixando assim seu torço nu e musculoso à mostra. Em seguida para desabotoar os botões da calça.

– O-O que está fazendo?! — Meine olhou para o seu prato, corando incrivelmente seu rosto até as orelhas pontudas.

– Eu estou em meu quarto, não vou me trocar no banheiro só porque você está aqui. — E ainda acrescentou em um murmúrio. — Além do mais, você será meu escravo sexual, é bom se acostumar com isso.

Ao ouvir essas palavras, o terror brotou em Meine e ele deixou o prato cair sobre o tapete e rachar, se levantando muito rápido e correndo para alcançar a porta. Svan se virou para detê-lo, ainda com as calças enganchadas em suas pernas, porém seu irmão apareceu na porta e impediu Meine de fugir, novamente o colocando sobre o ombro como um saco de batatas.

Desta vez Meine se debateu, chutou o ar e socou as costas de Niels para fugir, gritando por socorro, o que enviou uma porção de guerreiros até o quarto de Svan para saber o que estava acontecendo.

– Ei… Ei! — Niels gritou por Meine, mas este lutava para fugir. — Ei, fique quieto!

Svan tinha colocado suas calças de volta, e bateu as mãos à testa com os guerreiros na porta de seu quarto curiosos com o escândalo de Meine.

– Meine! — Wray entrou desesperado no recinto, e imediatamente Meine parou com o escarcéu, porém seus olhos se encheram com lágrimas e seu lábio inferior começou a tremer.

– Wray…

O arqueiro se aproximou de Meine e o deslizou fora de Niels com um olhar ameaçador para o segundo no comando que apenas ergueu as mãos em inocência.

Wray olhou temeroso para Svan que estava vermelho de fúria.

– Saiam todos do meu quarto! — Ele gritou, despachando os demais. — Agora!

Até mesmo Niels correu para fora do quarto, evitando enfrentar a fúria de seu irmão. Wray apenas sussurrou algumas palavras reconfortantes para Meine, mas também teve de sair antes que Svan chutasse o seu traseiro.

– Vamos lá… Eu não vou fazer nada a você hoje. Estou cansado demais para ter que aguentar um garoto birrento. — Svan apontou para cama. — Vá deitar e aquiete-se!

Meine correu para obedecê-lo, seriamente medroso de que Svan fosse bater nele. Seu corpo inteiro se tornou trêmulo e ele mal segurava seus dentes de bater.

Svan pareceu perceber. Ele terminou de se despir, mas conseguiu uma calça de algodão para dormir. E subiu na cama, que era realmente grande para caber dois dele. Seu tamanho certamente fazia uma boa diferença com Meine.

Meine sentiu quando a cama afundou, então seu corpo inteiro endureceu com o medo se apoderando dele. No entanto, o tempo se passou, e o corpo de Meine relaxou. Ele olhou para trás receosamente, percebendo que Svan estava virado para o lado oposto, e a julgar por sua respiração, já dormia há tempos. Foi então que suspirou, enfim poderia descansar um pouco agora. Seus pensamentos ainda o confundiram todo. Era para isso que ele havia sido comprado? Isso era o que seu amigo Wray lhe falou para fazer? Simplesmente ceder a um humem que não conhecia?

–*-*-


Os burburinhos se iniciaram antes mesmo que ele saísse do quarto.

Meine tentou fazer ouvidos surdos aos cochichos ao seu respeito, mas, pelo amor de Frey, sério que aquelas pessoas achavam que estavam sendo discretas?

Com os ombros encolhidos, ele rumou pela sala ampla onde havia uma retangular mesa de carvalho com tamboretes e uma lareira de pedras cinzentas a um lado. Mulheres com aros de ferro em torno das gargantas iam de lado a outro com bandejas, recolhendo canecos e pratos da mesa. Elas lançaram um olhar depreciativo para ele enquanto se ocupavam de seus afazeres.

Naquela manhã, havia acordado sozinho na cama, e agradeceu profundamente aos deuses por isso – seu rosto esquentava apenas com a lembrança de Svan nu. Não tinha realmente olhado para ele com atenção, pois assim que as calças desceram, o sobressalto se apoderou de seu pequeno ser e, em um rompante de terror, tentara fugir. Tivera certeza de que seria devorado pelo guerreiro assustador.

Se ele me evitou noite passada porque estava cansado, então...

Pelos cabelos do pé de Loki, o homem com certeza o devoraria naquela noite! Assim que o sol caísse no horizonte, ele estaria à mercê de Svan.

Meine desabou no tamborete mais próximo e enterrou a face na mesa. Queria desesperadamente sua avó para lhe garantir algum conforto, alguma segurança de que aquele pesadelo findasse.

Ele havia feito algo para desagradar aos deuses? Por certo, não. Sempre respeitou os mais velhos e fora paciente até com o mais desagradável deles. Nunca destratou ninguém ou qualquer criatura viva. Então, por que estava sendo castigado ao ser feito escravo sexual de um homem feroz como Svan? Hostilidade irradiava daquele homem em ondas profanas.

–- Ei, garoto – uma voz de mulher lhe chamou a atenção e ele ergueu o rosto devagar até se deparar com os olhos castanhos mais esnobes que já vira. A mulher o encarava de cima como se visse uma larvinha asquerosa que merecesse ser pisoteada.

Meine não gostou de ser a larvinha.

–- Olá – inconscientemente, tentou forçar um sorriso. Ele amava sorrir, fazia com que se sentisse bem, todavia, aquele não era o momento para tal e não havia se dado conta de que o estava fazendo até o medo o corroer pela força como a mulher o olhava.

–- Você não é especial. É tão escravo quanto qualquer um de nós, então levante essa bunda magra e venha nos ajudar nos trabalhos. – ela estreitou os olhos para ele – Ou espera que eu o sirva?

Ele molhou os lábios, incerto sobre o que dizer. O medo se apossou dele outra vez – medo por estar em terras estranhas e rodeado por gigantescos desconhecidos, medo por ser escravo, medo por sua avó, medo por seu clã, medo pelo que lhe seria feito... Então, eclodindo em seu peito como uma pequena chama de fugaz coragem desesperada, ele se levantou do tamborete e partiu correndo da sala, empurrando a manta de pele a um lado e sendo bem recebido por mornos raios de sol. Ergueu uma mão para proteger os olhos, que ardiam pela súbita luminosidade, olhando ao redor – estranhos, muitos estranhos. Resfolegar de cavalos, conversas, o tinir do aço contra o aço, o som de uma forja, um cão latindo, as árvores ao redor farfalhando, o vento uivando...

E incontáveis olhos de rostos estranhos se fixando gradativamente nele.

Meine sentiu que o sangue lhe esvaia. Todas as pessoas que o cercavam naquele clã eram gigantescas – homens fortes, que exalavam poder e perigo por cada parte do corpo. Mulheres tenebrosas e altas. Era uma terra de gigantes. E, por ser escravo, ele estava vulnerável nas mãos daquelas bestas.

Um corpo incomensurável, então, barrou-lhe a visão do sol. Ele engoliu em seco como se tragasse espinhos, lentamente erguendo os olhos de um desnudo peito musculoso, subindo por ombros largos, um pescoço elegante, um queixo levemente quadrado e... Os olhos. Intensos e vibrantes olhos verde-acinzentados. Sombras dançavam naquela face que tanto o assustava, pois representava o castigo que lhe viria mais tarde.

Meine não costumava ser medroso – na verdade, ele se orgulhava de enfrentar o que faria muitas pessoas fugirem. Mas, naquele momento, tudo que lhe passou pela cabeça foi que sentia uma hostilidade descomunal vindo de todos os lados em direção a ele mesmo – por algum inexplicável motivo, ele era totalmente repudiado.

Seu corpo tremeu involuntariamente quando os olhos de Svan se tornaram fendas ameaçadoras e as sobrancelhas se franziram tanto que quase se uniram. Ah, aquela expressão feroz era aterradora.

–- Então acordou – a voz grave e poderosa mais se assemelhava a um rugido e a forma como o disse mais parecia possuir um tom acusatório, como se Meine não devesse ter acordado.

– Garoto!

Ele não se virou nem mesmo quando a mulher se fez presente no marco da porta. A figura tenebrosa de Svan o paralisara.

– Oh, chefe – a voz da mulher se tornou um ronrono de deleite. Surpreso pela drástica mudança, Meine girou o corpo parcialmente, de forma que pudesse olhar ambos e lançar um olhar jocoso para a mulher de muitas faces – Bom dia.

Ela pestanejava os cílios grossos, pavoneando-se em torno de Svan como se lhe quisesse chamar a atenção para os seus atrativos.

Uma enorme e calejada mão talhada por antigas cicatrizes se fechou em torno do braço de Meine, fazendo-o pular pelo susto. Ele rapidamente fitou Svan, que o segurava e o olhava fixamente como se pudesse atravessa-lo com o olhar, ignorando completamente a mulher.

– Venha.

Foi tudo o que disse antes de puxar Meine para o interior da casa, empurrando a mulher de lado. Meine tropeçava, tentando acompanhar as largas passadas, os olhos aumentando de tamanho ao ver que se dirigiam para o quarto. Quando estiveram dentro e Svan o soltou, afastou-se o mais discretamente possível. Seus joelhos tremiam quando se forçou a sustentar o olhar de Svan, que parecia muito capaz de derrubar uma fortaleza apenas com o olhar.

– Aonde ia? – grunhiu.

– Não sei – admitiu. Sua própria voz denotava mais força do que a que sentia realmente.

– Ia fugir, verdade?

Meine inspirou fundo. Seria surrado por sua insubordinação?

Negou enfaticamente com a cabeça, mas, se pensasse sobre o assunto, era provável que estivesse indo fugir.

– Fugiria – Svan cruzou os braços sobre o peito – E aonde iria? – desafiou – Se sair daqui, será comido.

Se ficar, também serei.

Mas não ousaria dizê-lo.

Meine cerrou os punhos ao lado do corpo, frustrado com sua própria situação.

Para sua consternação, Svan suspirou e passou a mão pelo cabelo cor de trigo levemente ondulado.

– Ouça, coisinha – grunhiu – Seu trabalho aqui é me esquentar a cama, então, não se preocupe com outros afazeres.

Svan deu a volta para sair.

– N-Não! – gaguejou, tremendo dos pés a cabeça, mas lutando interiormente para não se mostrar tão assustado como se sentia. Svan se voltou ante a sua negação, franzindo perigosamente o cenho.

– Não?

Ele parecia incrédulo e aborrecido.

– Não – Meine repetiu em tom baixo.

Svan ergueu orgulhosamente o queixo.

– Não?

E mais uma vez, o olhar de Svan pareceu derrubar todas as suas defesas internas, como um aríete destruindo as portas de um castelo.

– Não.

– Não? – Meine negou com a cabeça em resposta – Está me negando, diminuto?

Meine assentiu veementemente.

– Não – disse outra vez.

Svan deu um passo lento e calculado em sua direção. Talvez fosse o medo, mas Meine jurou ter sentido o chão tremer.

– Não a quê? – rosnou.

Meine tropeçou meio passo para trás, tombando a cabeça sobre os ombros a fim de ver o imponente guerreiro que se avultava diante de si como uma muralha. Com uma trêmula mão, apontou para Svan, gesticulando desde os pés até a cabeça.

– A isso – murmurou.

Svan estreitou ainda mais os olhos.

– Está me negando?

Meine anuiu.

– Sim – retrucou.

Tinha certeza de que seria morto no momento em que o peito de Svan vibrou com um rosnado baixo.

– Ouça bem, diminuto – a voz baixa e comedida era ameaçadora – Eu sou o chefe. Minha ordem é lei. Se eu disser que você voa e tem um rabo, você voa e tem um rabo. Estamos entendidos? – Meine apenas concordou com a cabeça – Agora, você vai lá fora, vai comer e vai esperar Wray chegar. Entendeu?

– S-sim.

Svan balançou a cabeça, satisfeito.

– Muito bem.

–*-*-

Svan se encontrava bastante sereno enquanto coordenava a supervisão dos mantimentos para o inverno. Ele não apenas se certificara de que seu escravo estava já desperto, como também o tranquilizara a respeito de seus temores. Era quase risível a forma como a diminuta coisinha tremia de terror ante ele e, ainda assim, tentava se impor suavemente.

Wray lhe pedira para ser gentil com a coisinha – ao que parecia, seu amigo sentia que o moço era frágil e inocente o bastante para ser tratado como uma flor. Wray era um bom julgador de caráter, e notara de primeira mão que o escravo estava aterrorizado demais para ser um problema.

Svan não confiava. Sequer simpatizava com a coisinha, mas sabia o que era sentir terror do desconhecido e, apenas pelo pedido de Wray, decidira que poderia ser simpático em um único momento.

Mesmo sendo escravo, a coisinha era agora um membro de seu clã e, como tal, era responsabilidade de Svan. Faria com que comesse e arranjasse um trabalho menos agressivo que o da casa grande.

– Svan.

Ele se voltou ante o som da voz de Wray, encarando o amigo até que este lhe dedicou um sutil sorriso.

– O que foi?

– Você me chamou?

Sim, ele o tinha feito.

– Quero que vá ver minha dor na bunda.

Por um momento, as pálidas sobrancelhas de Wray se uniram, para logo em seguida ele jogar a cabeça para trás com uma gargalhada.

– É assim que chama seu presente?

A carranca de Svan era uma marca sua, mas estava cada vez mais aprofundada.

– A pequena coisa não pode ficar só.

– Acha que ele pode fugir?

Ponderou sobre a afirmativa. Quando fora para casa acordar a coisa minúscula, inquietara-se ao vê-lo fugindo de Hilda. Em geral, Hilda não era problemática – inclusive, já passara por sua cama há muitos anos, porém, isto foi antes de que notasse sua predileção por homens. Tinha ordenado a ela que provesse o desjejum do minúsculo e o instruísse sobre o que deveria fazer. Não acreditava que o elfo fosse versado nas artes do amor, tampouco esperava que o fosse.

Svan não era um amigo dos elfos. Se pudesse evita-los, melhor passaria. Mas seu irmãozinho lhe fizera o desgraçado favor de lhe conceder uma coisinha de luz com olhinhos assustados – definitivamente, o diminuto não sobreviveria naquele mundo se permanecesse tão frágil.

Argh! Svan deveria prestar atenção nisso. A coisinha era apenas mais uma responsabilidade, mais uma dor de cabeça.

– Acredito que tente fugir – murmurou – Mas não agora. Hilda o assustou.

A expressão de Wray era preocupada.

– Devo dizer o que penso dela?

– Declino sua opinião – grunhiu. Wray anuiu singelamente com a cabeça, pensativo – Arranje alguma tarefa suave para a coisinha.

– Algo que não o deixe exausto para as diversões noturnas? – alfinetou Wray em tom baixo.

Svan suspirou.

– Ele parece do tipo que vai chorar e gritar quando... – parou o que ia dizer quando Wray arqueou uma sobrancelha, então desistiu, deixando subentendido – De qualquer forma, não quero ouvir ladainhas irritantes.

– Quer dizer que, ao invés de usá-lo, prefere lhe dar um trabalho?

Svan lhe lançou um agudo olhar pelo canto do olho.

– Prefiro um parceiro disposto a um parceiro escandaloso.

Porque a coisinha, definitivamente, era uma dor na bunda.

Wray aquiesceu com um aceno de cabeça.

– Verei o que posso fazer – murmurou – Mas, Svan, não o deixe muito perto de Hilda. Sabe que as mulheres ainda brigam pela sua atenção e ele agora é, teoricamente, seu escravo sexual.

Ele tinha total ciência disso. Por isso, ao invés de deixá-lo sozinho no quarto o dia inteiro, pedira a Wray para lhe arranjar uma ocupação interessante.

– Deixe que se vire – grunhiu, em total discrepância com o que pensava – Ele precisa se fortalecer se quiser sobreviver aqui.

Continua...

Notas finais
Miky san: Olá queridos *--* Espero muito que tenham gostado do capítulo! Fizemos com muito carinho, espero que tenham ignorado qualquer errinho, apenas levem em conta a história em si :3 Eu amo Meine, espero que ele conquiste vocês também! Muitos beijinhooos!! o/ até o próximo domingo !