Notas iniciais
É aqui que começa a fic, e confesso que essa história é possivelmente um dos angsts e dramas mais pesados que já pensei e tive a coragem de escrever -q

Não acredito que tenho muito o que falar aqui, já que o que tem de mais importante está nas notas da história em si e se aplica a esse capítulo, obviamente~

Como aqui é um começo, o foco é na infância do Tadashi mesmo :3 Mas o plot já anda, então não é apenas um grande prólogo SHOAHSOHOSA

Boa leitura! ♥

Indigno

Yamaguchi Tadashi sempre acreditou que viveu em uma boa casa por um bom tempo. Sua família não era a mais rica do mundo, mas ele sempre teve o que comer, roupas para vestir e uma cama onde dormir. Além disso, ele se lembrava de ter os brinquedos que queria, mesmo que fossem poucos em comparação aos de outras crianças da sua idade.

Seu pai acabou morrendo quando ele era jovem demais para se lembrar de alguma coisa, então para Tadashi, sua família se resumia a ele e sua mãe, Yamaguchi Kamiko. Para o menino, ela sempre foi linda, e muito parecida com ele — foi dela que ele tinha herdado todas as sardas em seu corpo e o cabelo escuro. Ele se lembrava de como ela sorria ao chamá-lo pelo nome, de gostar de sua comida, de escutá-la lendo histórias para ele durante a noite, até que ele adormecesse ao som de sua voz.

Era aquela mesma mulher quem lhe dava sermões e o disciplinava, porém — e de uma maneira que ele sempre achou que era normal de todas as famílias.

Sua memória mais antiga, talvez de uma das primeiras vezes, foi de um casamento de uma das amigas de Kamiko. A festa era longa, e o garoto se lembrava de como ele e sua mãe se arrumaram com as melhores roupas que tinham, e de como o salão onde a cerimônia seria realizada estava cheia de gente — adultos, em sua grande maioria, com todos vestidos da maneira mais elegante possível.

Tadashi sempre fora bastante tímido, por isso preferiu ficar quieto em seu lugar, perto da mãe, que conversava com suas outras amizades. O menino sentia-se bastante entediado, mas sabia que aquela era uma ocasião importante — além disso, ele também tinha curiosidade em ver a cerimônia de fato, já que queria saber se era parecido com o que via nos filmes que passavam na televisão.

Sua ansiedade era tanta que ele imaginou que poderia aguentar ficar sem ir ao banheiro até o final do casamento, mesmo quando ele mal conseguia ficar parado no lugar. Em alguns momentos ele pensou em pedir para que Kamiko o levasse até lá, mas ela parecia tão entretida enquanto ele era tão tímido — e ele também não queria passar vergonha cutucando a mulher para afastá-la de seu círculo de amizades, ainda que por poucos minutos.

Aquilo foi um erro, porque ele não aguentou esperar até a troca dos votos do casal.

Antes que ele percebesse, sua calça e seus olhos ficaram molhados, e uma quantidade inexplicável de pessoas estava olhando para ele. Tadashi sentia as pernas tremendo, e ele conseguia escutar os sussurros dos outros convidados da festa, junto com algumas risadas maliciosas das outras crianças presentes. Ele sequer sabia para onde olhar, e a visão embaçada em nada o ajudava.

Kamiko se despediu rapidamente e saiu da festa guiando-lhe pelo pulso enquanto ele chorava de vergonha, mas foi apenas quando eles entraram no carro que sua mãe explodiu e Tadashi soube que tinha estragado sua noite e a da mulher.

“Por que não me pediu para ir ao banheiro antes de se mijar todo, Tadashi? Eu te falei que hoje era importante e é isso que você me faz! Estamos voltando pra casa cedo por culpa sua! Se você tivesse falado comigo antes ou se controlado melhor, isso não estaria acontecendo! Nem parece que eu te ensinei a se segurar ou algo do tipo, viu? Você já tem oito anos, não é pra estar agindo desse jeito! Sem falar que agora você está todo fedido e acabou de sujar suas roupas. Elas foram caríssimas, sabia? Não acredito que você me fez comprar elas pra acabar se mijando nelas justo hoje! Assim que a gente chegar eu te quero tomando um banho muito bem tomado, entendeu?” Quanto mais ela gritava, mais lágrimas desciam pelo rosto sardento do garoto. Não bastava ele ter se envergonhado no meio do salão, sua mãe ainda estava esfregando aquilo na cara dele. No momento, o cheiro em suas roupas e o frio desconfortável em suas pernas já bastavam para lembrá-lo de toda aquela humilhação que foi ter um acidente durante uma ocasião tão importante. Porém, as palavras de Kamiko, sua progenitora, lhe doíam mais que tudo, e para o menino, era inegável o fato de que ela estava certa.

“S-sim, mamãe… Desculpe…” Tadashi falou entre soluços, fungando e tentando ignorar o incômodo que era permanecer sentado com as roupas molhadas, assim como a vergonha que sofrera minutos atrás. Kamiko dirigia sem calma alguma, e algumas vezes o carro dava solavancos que apenas serviam para deixar o menino enjoado enquanto chorava copiosamente.

“Desculpa nada! Você está sempre se atrapalhando, Tadashi, parece que não sabe fazer nada direito! Nem para me pedir para ir usar o banheiro, o que é que custava? Se não queria me interromper, podia ter perguntado pra outra pessoa ou ter procurado sozinho, mas não, nem isso você soube fazer! Eu já tive que lidar com você se mijando muitas vezes quando era pequeno, e não quero isso se repetindo mais agora que você já devia saber se controlar, ouviu? É bom que assim você aprenda ou então você vai passar a lavar suas próprias calças agora quando isso acontecer de novo!” A mulher praticamente rosnou as palavras, e o garoto não sabia como retrucá-la — ele era apenas uma criança, afinal, e para ele, tudo que Kamiko dizia era definitivo.

Então se ela dizia que ele era atrapalhado, só podia ser verdade, assim como o fato de que ele tinha estragado a noite sendo tímido demais para se virar sozinho — já que nem para isso o garoto servia.

Tadashi tinha decepcionado sua mãe, e só de pensar naquilo, ele soluçou ainda mais alto do que antes, com o corpo tremendo e o catarro escorrendo para fora de seu nariz; naquele momento, sua aparência devia estar ridícula, mas isso combinava com o quão inútil e patético ela afirmou que ele era.

“E pare de chorar, isso não vai mudar o que aconteceu.” Por mais que Tadashi soubesse que aquilo era verdade, escutá-la naquele tom de voz ríspido apenas o fez soluçar novamente, e o menino se forçou a cobrir a boca com a mão para não fazer mais tanto barulho quando chorava. Ele já tinha irritado a mulher o suficiente e não queria continuar a fazê-lo, mas era impossível para ele parar as lágrimas que teimavam em descer pelo seu rosto ou conter a agonia que queria sair de sua garganta.

Tadashi chorou até os olhos e rosto ficarem vermelhos e encharcados e também ficar com dor de cabeça. Mesmo quando ele chegou em casa, Kamiko não lhe ofereceu nem mesmo um olhar de conforto, apontando para o banheiro, que foi para onde o garoto foi imediatamente após pegar uma toalha e uma troca de roupas.

No chuveiro ele aproveitou para soluçar até ficar rouco, e ele nunca esfregou tanto as próprias pernas quanto naquela noite.

Depois disso ele apenas tomou um remédio e foi dormir, já que sua mãe negou-lhe até mesmo um abraço de conforto. E por mais que ele estivesse cansado, Tadashi acabou deixando mais algumas lágrimas molharem seu travesseiro até que ele eventualmente adormecesse.

Em sua doce imaginação regada com inocência — coisa que, na época, Tadashi tinha de sobra -, ele imaginava sua mãe pedindo desculpas por ter gritado e agido com ele daquela forma, com a voz suave e sinceridade em seu olhar, a mesma que ele tanto gostava quando ela brincava com ele, criando histórias com seus brinquedos, ou quando ela lhe fazia batata frita. No entanto, tal pedido nunca veio; nem na manhã seguinte, na semana que se passou, nos futuros meses ou mesmo anos depois do ocorrido. Na verdade, era bem provável que ela tivesse se esquecido poucos dias depois, ignorando a cicatriz que deixou no coração do próprio filho.

Era algo estúpido. Afinal, tinha sido apenas um acidente. No entanto, foi por conta desse acidente que ele percebeu o quanto podia ser considerado imperfeito — e, principalmente, o quanto ele podia ser uma decepção.

Logo Tadashi aprendeu que, como sua mãe estava sempre certa, ela nunca lhe devia desculpas mesmo depois de gritar e fazê-lo chorar copiosamente. Em contraste, se ela estava sempre certa, ele estava sempre errado, e devia pedir desculpas por tudo que ela reclamasse sobre ele.

Foi difícil no começo, mas com o tempo o garoto de sardas aprendeu a se acostumar com aquilo. Quanto mais tempo passava e mais gritos ele levava, mais ele descobria não sobre como ser feliz, mas sim como sobreviver sob a vigia e julgamento constantes de sua mãe.

Antes de falar, ele já media e planejava cada palavra que iria sair da sua boca. Era importante saber, também, controlar o tom de voz — não era bom tentar ser autoritário ou então soar zangado na frente da mulher. Além disso, ele podia se livrar de muitos problemas simplesmente concordando com tudo que ela fazia e dizia, mesmo que isso o machucasse no fundo: isso era algo que muito lhe custou aceitar, mas aos poucos, eventualmente, ele aprendeu.

Tadashi não sabia quando foi que ele começou a afirmar para si mesmo o quão idiota e patético ele era quando chorava a cada ataque de raiva da sua mãe. A cada vez que ela se irritava com ele, o garoto era forçado a reviver memórias que ele tentava, ao máximo, esconder no fundo da sua mente.

A noite do acidente no casamento foi uma delas, e era uma das favoritas de Kamiko. Mas ela também adorava fazê-lo se lembrar de outros acontecimentos: quando ele vomitou no meio de um restaurante quando estava doente e o cheiro da comida irritou seu organismo, quando ele saiu correndo na chuva no caminho de casa e sujou tudo de barro quando chegou, quando ele esqueceu o que ia falar ao apresentar-se na feira de ciências da escola e começou a chorar na ansiedade para se lembrar.

Também existiam as pequenas coisas que sempre davam nos nervos da mulher, e que ela esfregava em seu rosto quando precisava fazê-lo se sentir inútil: sua dificuldade em algumas matérias da escola, sua má pronúncia no inglês, o fato de que ele forrava a cama e deixava o lençol torto, como ele gastava papel higiênico demais, como ele era apegado demais às suas roupas e brinquedos velhos, seu jeito desastrado em lavar a louça após as refeições, até mesmo o fato de que ele mal costumava sorrir.

Ela não sabia que era o maior motivo para Tadashi não se sentir à vontade sorrindo em casa.

Por isso, quando ela falava sobre todas aquelas coisas, explicando e passando longos minutos expondo cada pequeno defeito e cada vergonha que o garoto passou em sua vida, Tadashi repetia mais para si mesmo do que para ela que ela estava certa e que ele era uma pessoa horrível.

Kamiko falava com a fúria contida de uma caçadora que sabia seu lugar, que tinha total ciência de sua superioridade no ambiente que eram as paredes da casa que habitava. Seus olhos castanhos estavam sempre alertas, vigiantes, analisando cada pequeno gesto e movimento de Tadashi, seu filho e também vítima de seus piores momentos. O menino podia sentir o coração bater mais forte a cada vez que ela o encarava, despindo-o de suas qualidades e conquistas e deixando à mostra seus medos, inseguranças e defeitos, que para ela eram óbvios e inúmeros.

Suas mãos, um dia carinhosas, lembravam-lhe da raiva contida quando ela os fechava em punhos ao brigar com ele, ainda que verbalmente, assim como da maneira que ela batia as portas com força e quase arrancava as gavetas da cozinha quando estava com raiva enquanto cozinhava. Tadashi observava a mãe cozinhando e se perguntava se algum dia ela pegaria uma colher de pau para surrá-lo no traseiro por ser um mau filho — aquela parecia uma punição adequada, ainda que perturbadora para a mente de uma criança -, ou então se ela jogaria as talheres pela pia e pela cozinha caso ele a irritasse demais.

Por medo disso tudo, Tadashi vomitava palavras de autodepreciação toda vez que chorava, escutando enquanto Kamiko gritava em concordância e dava-lhe mais motivos para que ele se sentisse inferior — porque era isso que ele era.

Antes mesmo de fazer dez anos, Yamaguchi Tadashi tinha certeza de que era uma falha como ser humano. Sua mãe dizia isso, e ela sempre estava certa — aquela era uma verdade absoluta e imutável no pequeno universo que ele fazia parte.

Com o tempo, ele aprendeu a achar natural o pavor de fazer algo errado na frente dela e ser surrado não com uma colher de pau em suas nádegas, mas com palavras e gestos recheados de uma fúria tempestuosa que ele jamais conseguiria conter, e que atravessavam sua alma como facas cortando seus músculos, mexendo com suas entranhas, bagunçando-lhe seus órgãos. Cada vez que ele sentia as mãos de dedos finos com unhas bem feitas acariciando-lhe sua pele nos momentos de calmaria, Tadashi imaginava verdadeiras garras de harpia rasgando sua pele e fazendo-o sangrar toda a dor que ele guardava dentro de si, que sempre transbordava quando ele chorava, mas que nunca o esvaziava completamente.

Toda vez que eles estavam no mesmo cômodo, Tadashi queria fugir, mas se forçava a ficar. A liberdade de poder fugir nunca fora uma opção para ele, o que apenas servia para provar-lhe o quanto ele era verdadeiramente patético, inútil e indefeso perante os ataques constantes de sua mãe, que não tinham data ou hora marcados para acontecer e que o forçavam a estar sempre preparado para escutar coisas que uma mãe jamais deveria falar para sua própria criança.

Mas quem era ele para saber que ela não deveria humilhá-lo daquela forma se ele apenas conheceu essa espécie de criação, regada por um pânico que ele chamava erroneamente de respeito?

Para evitar problemas, Tadashi tentava ser perfeito para sua mãe, por mais que soubesse que, aos olhos críticos e cruéis dela, ele sempre teria algo para melhorar e estaria errando. Porém, para o menino, pensar que ele estava se esforçando ainda servia para confortá-lo quando ele estava sozinho e começava a sentir os olhos lacrimejarem e o coração bater apertado no peito na angústia provocada aleatoriamente quando as memórias resolviam flutuar para a superfície da sua mente.

Ele tentava engolí-las como se estivesse comendo algo que não gostasse contra sua vontade, tentando não prestar atenção no sabor e no incômodo quando elas desciam pela sua garganta. Afinal, quando ele chorava, Kamiko sempre lhe dizia que ele precisava ser mais forte e menos chorão — que se continuasse daquele jeito, nunca viraria um adulto decente e jamais poderia impor respeito nas outras pessoas.

Segundo ela, era por ele ser tão frágil que os meninos na sua escola tinham ele como alvo para bullying. Ele era magricela, sardento e carregava a tristeza constantemente em seu olhar, além de ser ansioso e tímido: eram óbvios os motivos para os outros garotos da sua idade e até mesmo um pouco mais velhos implicarem com ele.

Tadashi era uma falha como filho e era uma criança esquisita que merecia ouvir palavras maldosas de seus colegas e ser alvo de pegadinhas cruéis. Para ele, porém, era melhor ser vítima na escola do que em casa — ao menos era confortante saber que no colégio aqueles que o humilhavam ainda eram, de certa forma, seus semelhantes.

Além disso, ele estava tão acostumado a escutar coisas terríveis em sua casa quase todos os dias que ver os insultos infantis dos outros alunos riscados em sua carteira que ele precisava limpar todos os dias já era não apenas rotineiro como também algo um pouco melhor do que ter que aguentar sua mãe.

Seu estômago ainda embrulhava quando seus olhos — grandes, castanhos, já com olheiras constantes e algumas vezes irritados e vermelhos por conta do choro excessivo — passavam pelos insultos que os outros escreviam em sua carteira, com símbolos tortos de um japonês ainda não refinado e a caligrafia trêmula ainda em desenvolvimento. Palavras como “burro”, “idiota” e “feio” já estavam praticamente marcadas a ferro em seu cérebro, assim como frases como “ninguém quer você aqui” e “você é um chorão que não sabe fazer nada”, que muitas vezes o lembravam da voz autoritária de Kamiko narrando cada defeito seu enquanto ele chorava, encolhido em seu lugar como um animal obediente com o rabo entre as pernas e as orelhas baixas.

Também era comum para o menino ver os seus sapatos sendo jogados na lama quando chovia, ou sendo riscados com ainda mais insultos, forçando-o a lavá-los quando ele chegasse em casa. Era normal, para ele, ver seu material escolar sendo colocado nas mochilas dos outros, ou então o contrário, assim como era ver seu caderno tendo folhas cheias de exercícios arrancadas aleatoriamente, ter bolas de papel sendo jogadas discretamente em sua direção ou receber cutucadas das lapiseiras e canetas de quem estivesse sentado logo atrás dele.

Os garotos zombavam dele, enquanto as garotas o evitavam. Seus professores apenas fingiam não ver nada, já que ele nunca foi espancado por conta daquilo — para eles, boa parte era apenas implicância natural de criança.

Tadashi estava acostumado a almoçar sozinho e sobrar nas atividades em dupla e grupos, assim como ser sempre aquele aluno que ninguém queria no time durante a educação física e o que sentava sozinho no ônibus durante os passeios educativos.

Ele ficou assim até seus dez anos de idade, quando, depois de muito tempo, um menino da sua sala que ele nem se lembrava direito da existência, resolveu ajudá-lo pela primeira vez.

Naquele dia, os outros garotos colocaram seu livro de inglês no alto do armário da sala, e mesmo se ele subisse numa cadeira, Tadashi ainda era muito baixinho e não conseguia alcançar. Só de pensar em pedir ajuda para a professora quando ela chegasse para dar aula na frente de todos os outros alunos e escutar as risadas e comentários maldosos, o menino tremia — ele realmente não precisava passar por mais uma humilhação.

Ele estava tão absorto em seus pensamentos e nas possibilidades de como aquela cena iria se desenrolar que ele demorou um tempo para perceber que não estava mais sozinho na sala de aula antes do toque e que uma pessoa tinha colocado a mão em seu ombro não para empurrá-lo ou puxar seu uniforme, mas sim para chamar-lhe a atenção.

“Quer que eu pegue pra você?” Tadashi se virou para saber quem tinha falado com ele, e quase caiu da cadeira onde estava em pé quando percebeu quem era.

Ele não costumava prestar atenção em seu colega, Tsukishima Kei, porque ele sempre costumava sentar no fundo da sala e era bastante quieto, preferindo ficar em seu canto ouvindo música e lendo sozinho, sem ser perturbado. Pelo pouquíssimo que ele sabia, Kei tirava notas boas, era um garoto exemplar, sempre usou óculos e jogava vôlei no time da escola — coisa que Tadashi até tentaria fazer, se não fosse sua falta de aptidão para esportes e o fato de que isso só o levaria a mais chances de ser zombado publicamente.

Fora isso tudo, ele era considerado legal pelos outros meninos e muito bonito pelas garotas. Ele já era bastante alto para a idade, tinha os cabelos loiros cortados curtos, com pequenas pontas onduladas, e por trás das lentes do óculos que usava, seus olhos tinham um belo tom de dourado que combinava com seu cabelo — Tadashi gostaria de ter olhos de uma cor exótica também, ao invés do castanho normal e sem graça tão típico do povo japonês.

A única coisa que ele não se lembrava sobre o outro menino foi de ter sido zombado por ele, até que Tadashi percebeu que Kei nunca fez isso, preferindo manter-se isolado e calado durante as provocações e piadinhas sem graça que o atormentavam.

Ele não ajudava os outros alunos a perseguí-lo, mas também não fazia nada para ajudá-lo — ao menos, nunca tinha feito até aquele exato momento. Tadashi não tinha a menor ideia do que poderia ter feito Tsukishima, um dos pouquíssimos alunos que não fazia bullying com ele e que era considerado tão legal pelos outros, tinha visto nele.

Provavelmente ele apenas estava com pena e sem paciência de vê-lo tentando pegar seu livro sem cair de bunda no chão e se machucar todo.

No entanto, Kei não parecia irritado e muito menos prestes a soltar alguma espécie de comentário capaz de deixá-lo para baixo. Os dedos que tocaram seu ombro tinham se afastado, timidamente encolhidos ao seu lado, e sua boca mantinha-se fechada na espera de uma resposta sua.

“B-bem, se você não se importa... Mas você não precisa pegar se não quiser, eu falo com a professora…” O menino de sardas respondeu, tentando conter a tremedeira em suas pernas e na sua voz, ainda um tanto fina — ele queria que ela começasse a engrossar logo, mas sabia que por enquanto aquilo não iria acontecer com ele ou com seus colegas de classe. Tsukishima piscou, voltando a colocar a mão em seu ombro, e Tadashi teve que se conter para não pular para fora da cadeira num movimento instintivo para se proteger; afinal, ele sabia que o outro menino não estava ali querendo lhe fazer mal.

Mesmo assim, era fácil pensar em seus olhar indo da preocupação para o escárnio em míseros segundos e na sua boca proferindo palavras sujas e cheias de nojo, já que ele estava acostumado a ser tratado daquela maneira.

“Não, eu pego pra você. É melhor que esperar a professora e pedir pra ela no meio da aula.” Aquelas palavras surpreenderam Tadashi, que não entendia porque Kei insistiu em ajudá-lo mesmo sabendo que não tinha a menor obrigação de se preocupar com ele.

Em silêncio, o menino sardento apenas afirmou com a cabeça, descendo da cadeira para que Tsukishima pudesse subir nela, ficando ainda mais alto do que antes com a ajuda da altura extra fornecida por ela — e em instantes, seus braços longos alcançaram o livro escondido, e ele o pegou para então devolvê-lo diretamente nas mãos de Tadashi, pequenas e cheias de pintinhas, igual ao resto da sua pele.

“Obrigado… Tsukishima.” O sobrenome do outro jovem saiu quase que num sussurro, mas Kei conseguiu escutá-lo e demonstrou um leve sinal de gratidão acenando positivamente com a cabeça enquanto descia da cadeira, colocando-a em seu lugar novamente. O menino de óculos observou como Yamaguchi segurava o livro de inglês — um tanto amassado e com as páginas amareladas — forte contra seu peito, como se estivesse protegendo-o de alguém que estava prestes a tentar arrancá-lo de seus dedos.

“De nada, Yamaguchi. Se precisar de ajuda com alguma coisa, pode me chamar, se quiser. Não precisa ser pra pegar coisas em lugares altos, aliás.” O menino de óculos explicou, sem deixar de notar o quanto Tadashi apenas pareceu ter ficado mais nervoso com aquilo, agarrando-se mais com o livro e olhando para os lados em ansiedade antes de falar — pelo jeito, ele não queria que outras pessoas chegassem e os vissem conversando.

“N-não, não precisa! Eu não quero te incomodar!” Ele definitivamente não queria incomodar um dos garotos mais populares de sua sala. Além disso, Tadashi imaginava que, se seus bullies o vissem com Kei, ele poderia acabar virando mais um alvo de suas terríveis provocações — mesmo sabendo que ele era alto, praticava um esporte e era bonito, inteligente e calmo, ao contrário dele.

Geralmente, quando outros colegas de sua turma falavam com ele, eles não trocavam mais do que poucas palavras — e por muito tempo ele não teve uma conversa que parecia querer se aproximar do que poderia se transformar numa possível amizade.

“Você não estaria me incomodando, se é isso que te preocupa. E eu também não me importo com o que os outros iriam pensar se eu começasse a andar com você. O que eles fazem com você… É realmente patético.” Yamaguchi não esperava que Tsukishima chamasse o bullying que faziam com ele de patético, e o loiro até mesmo desviou um pouco o olhar para falar aquela última palavra, sem esconder o asco quando as sílabas saíram de sua boca.

No entanto, quando ele voltou a olhar para Tadashi, não havia repúdio em seu olhar, e sim o brilho que o menino sardento podia interpretar como sendo uma vontade genuína de ajudá-lo, misturada com a curiosidade em querer conhecê-lo.

Ele nunca se achou uma pessoa interessante, mas não podia negar que gostaria de ter alguém ao seu lado e que não se importaria com seus defeitos e sua grande inutilidade.

“Então você quer… Ser meu amigo?” O garoto perguntou, ainda tímido, mas dando poucos passos para a frente, num sinal de coragem que ele sequer soube de onde tinha arranjado. Kei era muito mais alto que ele, e isso o forçava a ter que olhar para cima para poder saber para onde o outro menino estava olhando, e também se planejava falar — isso fazia Tadashi se perguntar se um dia ele cresceria tanto quanto o loiro.

Aquele gesto pareceu ter pego o outro de surpresa, a considerar como ele corou repentinamente e colocou as mãos nos bolsos da calça do uniforme escolar antes de respondê-lo.

“Apenas se você quiser que eu seja.” Aquilo certamente foi um convite para ter sua amizade. Yamaguchi não se achava digno dele, ainda mais considerando todas as diferenças que deveriam separá-los: o status social de ambos, suas aparências praticamente opostas, a elegância de Tsukishima que contrastava com o jeito claramente ansioso e desajeitado de Tadashi.

Nada no mundo parecia dizer para eles que eles deveriam ser amigos. No entanto, ali estavam os dois garotos, sozinhos na sala de aula antes do toque, tendo uma conversa quase normal e com uma semente de amizade plantada entre eles.

Restava a Tadashi escolher se ele iria regá-la ou não.

“Acho que seria legal.” Ele finalmente respondeu, e pela primeira vez naqueles singelos minutos, o menino notou os cantos dos lábios de Kei se curvando para cima de maneira quase imperceptível, mas que definitivamente podia ser interpretada como um sorriso.

“Sim, seria.” Assim que o menino de óculos falou aquelas duas palavras, o sinal ecoou pelas paredes da escola, anunciando que as aulas estavam fadadas a recomeçar. Os dois garotos andaram até suas respectivas carteiras, sentando-se nelas, e eles apenas trocaram um último olhar meio cúmplice e meio ansioso antes dos outros alunos chegarem na sala de aula junto com a professora de inglês.

Apenas eles souberam do que tinha acontecido durante o intervalo, e era bom assim. Tadashi passou o resto do dia tentando ignorar as cutucadas de caneta em sua nuca e costas, que certamente deixaram sua pele e uniforme manchados de tinta, já que precisava se concentrar na aula.

Mesmo assim, a única coisa que se passava na mente do garoto foi o fato de que Tsukishima Kei o ajudou, oferecendo-lhe uma pequena dose de gentileza que ele não estava acostumado a receber, e queria ser seu amigo. O garoto de sardas se perguntava quais desenhos ele gostava de assistir, se ele tinha algum videogame em casa, se poderia visitá-lo depois e passar o dia brincando com ele. Ele queria saber como deveria ser seu quarto, se ele tinha algum animal de estimação, com quais brinquedos ele costumava brincar mais.

Amizade era, certamente, um conceito novo e desconhecido para Yamaguchi Tadashi.

Quando ele chegou em casa, teve que se conter para não deixar o sorriso em seu rosto se mostrar para Kamiko. Ele não entendia direito, mas só de pensar na mulher vendo-o feliz por ter conseguido um possível novo amigo, o menino ficava bastante desconfortável. Ele imaginava as perguntas que ela faria para ele, sobre como eles começaram a conversar e como era Tsukishima — se ele tinha boas notas, se era bem comportado, se eles já tinham feito alguma atividade em sala antes.

Isso ou, então, ela não daria a menor atenção ao fato: ser ignorado em seus assuntos era algo que Tadashi notou que estava acontecendo com cada vez mais frequência em sua casa, e quando ele começava a se empolgar ao falar sobre o que gostava — fosse sobre um filme que assistiu, algo de bom que ocorreu na escola ou até mesmo se ele viu algum animal adorável na rua -, Kamiko o calava e o fazia ter que escutá-la falando sobre sua rotina, seu trabalho e seus gostos, mesmo que eles fossem incompatíveis com os de um garotinho de dez anos.

Ela podia falar sem parar sobre as roupas que via nas lojas, sobre bolsas, sapatos e maquiagem, por mais que Tadashi, particularmente, não entendesse muito sobre esses assuntos. Muitas vezes isso acontecia durante as refeições, onde ele sentava-se calado e forçava-se a engolir a comida colocada em seu prato mesmo depois de seu estômago se encher — deixar sobrar nunca era uma boa opção, considerando o quanto sua mãe ficava irritada e levava aquilo ao nível de ofensa pessoal -, assim como escutar a mulher monologando sem parar sobre coisas que a ele não faziam muita diferença ou sentido.

Por isso, quando ele chegou em casa, ele apenas jantou no mesmo silêncio de sempre, escutou sua mãe falando sobre boatos de seu trabalho e logo após se despediu para ficar em seu quarto, onde ele fez seu dever de casa e fez alguns desenhos bobos em seu caderno antes de ir dormir.

No dia seguinte, ele e o menino de óculos se sentaram juntos para almoçar, e conversaram sobre estrelas e dinossauros.

Kei não se importou quando ele disse que já estava cheio depois de ter comido o suficiente, mesmo tendo deixado parte da comida sobrar. E ele também lhe deu ouvidos quando ele falou que viu um cãozinho caminhando com sua dona na rua e ela o deixou fazer carinho nele.

Aquilo virou rotina para os dois garotos. Aos poucos, eles foram ficando mais próximos, no que Tadashi finalmente podia chamar de primeira amizade. Para ele, era bom poder esquecer dos problemas que enfrentava diariamente nos minutos que passava conversando com Kei, que o tratava com respeito e o via não como um inútil, mas como uma criança, igual a ele.

Tsukishima não entendia direito porque Yamaguchi era tão recluso o tempo inteiro, ou porque ele parecia ser tão inseguro mesmo para coisas simples — no entanto, ele sabia que o menino de sardas era perseguido pelos outros alunos, então isso deveria afetá-lo. Talvez, se não fosse por isso, ele seria mais confiante em si mesmo, mas isso era algo que, na sua visão, era algo que fugia de seu controle.

Mesmo assim, era bom conversar e saber mais sobre Tadashi: seu amor por animais de todas as espécies, o fato de que ele assistia Pokémon semanalmente, seu interesse por livros de fantasia. Por trás da vítima de bullying, ele era apenas um menino com seus gostos e sonhos, que se pudesse comeria batata frita todo dia e visitaria o zoológico todo final de semana para olhar os animais, além de levar suas pelúcias para dormir agarrado com elas em sua cama.

Além disso, Kei devia admitir que por mais que fosse popular, ele não tinha amigos de verdade — todos os outros alunos pareciam estar atrás dele porque ele era talentoso nos estudos, esportes ou pela sua aparência, e o garoto não apreciava esse tipo de atitude. Ele queria ter alguém com quem conversar e que não se importasse com seu status ao ponto de vê-lo apenas como uma pequena celebridade, e Yamaguchi, por mais que tivesse ciência da diferença social entre eles, não tentava bajulá-lo e era completamente honesto em suas ações e opiniões, ainda que tímidas.

Era isso que Tsukishima valorizava numa amizade, e foi isso que ele encontrou no menino tímido de sardas que precisava limpar sua carteira todo dia antes da aula e que lidava com provocações cruéis das outras crianças.

Por causa daquela estranha combinação de opostos, os dois acabaram virando amigos íntimos mais rápido do que esperavam, numa reviravolta imprevisível do destino.

Foi apenas depois de alguns meses de amizade que Kei convidou Tadashi para passar o domingo em sua casa, como amigos. Ele o convidou na sexta-feira, durante o almoço, e naquela tarde depois da aula, o garoto de sardas voltou para sua casa tremendo de medo, pensando em como iria pedir permissão para sua mãe para que ela o deixasse e buscasse na casa de seu mais novo — e único — amigo.

Aquilo era algo novo, e mudanças assustavam o garoto, pois eram sinônimo de imprevisibilidade no comportamento de Kamiko. Quando eles viviam uma rotina, era mais fácil para Tadashi saber quais frases falar, o que fazer para não irritar a mulher e como desviar de cada possível provocação dela. Porém, quando o inesperado chegava, a única coisa que o menino podia fazer era esperar pelo melhor.

Felizmente, ela estava de bom humor naquela noite, e aceitou que ele passasse o dia na casa de Tsukishima — não sem antes, claro, fazer um comentário maldoso sobre como ele finalmente conseguiu um amigo como um menino normal.

Yamaguchi apenas terminou de mastigar e engoliu o resto de seu jantar, pois já sabia que não valia a pena tentar retrucar e perder o privilégio que havia acabado de conquistar. Afinal, agora que ela tinha lhe dado aquela permissão, o garoto se agarraria a ela com força e faria tudo o que lhe era possível para que a mulher não a revogasse — aquilo já tinha acontecido antes e ele sabia que só estaria seguro quando pisasse dentro da casa de seu amigo.

Ele passou o sábado inteiro sendo o mais perfeito possível perto de Kamiko, não querendo arriscar uma proibição. O menino acordou cedo e se arrumou sozinho para a escola, voltando de prontidão assim que a aula terminou e ele se despediu de Kei, que deu-lhe um sorriso quando soube que ele poderia visitá-lo no dia seguinte. Ao chegar em casa, forçou-se a comer todo o almoço, incluindo as verduras que ele menos gostava, num silêncio sepulcral enquanto escutava a mãe tagarelando sobre o que fosse unicamente de seu interesse.

Durante a tarde, ele fez o dever de casa e passou o resto do dia quieto em seu quarto, que ficava com a porta sempre aberta. Aquela era uma das regras mais importantes da residência dos Yamaguchi — durante o dia, a única porta que podia ser fechada era a do banheiro. Os quartos só podiam ser fechados de noite, na hora de dormir, e Tadashi não tinha o privilégio de se trancar.

Como resultado, o menino de sardas nunca teve muita privacidade. Mesmo quando ele precisava trocar de roupa depois de tomar, ele o fazia com a porta aberta e agarrado com a toalha, temendo qualquer punição e ameaça de estar escondendo algo de Kamiko, que muitas vezes passava pelo corredor para espiar o que ele estava fazendo — e em troca, Tadashi adquiriu o costume de olhar furtivamente para o corredor sempre que escutava seus passos ecoando pela casa.

Ele sabia que estava sendo vigiado e que nenhuma ação sua escaparia da visão feroz e cruel da mulher.

Por sorte, sua leitura constante não pareceu incomodar sua mãe, mesmo depois deles jantarem juntos e ele ter comido uma porção enorme de sopa determinada pela mulher, que era demais para seu corpo, mas que ele engoliu enquanto pensava no quanto valeria a pena no dia seguinte.

Na manhã de domingo, eles se sentaram no carro e ficaram em silêncio até Kamiko deixá-lo na casa da família Tsukishima, apenas parando para lembrá-lo de comer direito e não dar trabalho para os seus anfitriões.

O menino só se permitiu respirar aliviado quando o carro dela virou a esquina.

A residência dos Tsukishima era bastante diferente da dele: para começar, ela era grande e espaçosa, e eles tinham não apenas um belo jardim cheio de insetos — Tadashi viu uma joaninha pousando numa flor assim que olhou para as plantas verdes e bem cuidadas — como também um quintal, com árvores frondosas e um belo espaço para ficar ao ar livre. Além disso, ela também tinha um primeiro andar, o que era, para a mente infantil de Yamaguchi, um sinônimo de boa vida.

Ele sabia que Kei tinha acesso a coisas boas, mas ele ficou bastante impressionado com o tamanho e beleza de sua casa vista do lado de fora, e se impressionou mais ainda quando viu o quanto era bem mobiliada e organizada no lado de dentro, quando a mãe de Kei — uma mulher com cabelos curtos puxados para o castanho e um sorriso simpático — deixou-o entrar.

Tsukishima estava esperando por ele na sala, e assim que o viu entrando o menino se levantou do sofá para poder falar com ele.

“Ele estava te esperando desde que acordou, sabia? Pode não parecer, mas é a primeira vez que ele convida um amigo para visitar.” A senhora Tsukishima comentou com um risinho, fazendo o filho corar de vergonha. Tadashi não pode evitar e acabou rindo baixinho também, achando graça no embaraço do amigo.

“M-mãe, não diga isso…” Kei respondeu, chegando mais perto do garoto de sardas, ainda sem saber direito o que fazer. De fato, aquela era a primeira vez que ele estava recebendo alguém em sua casa, e como ele não era de visitar os outros também, não era como se ele tivesse muita ideia de como prosseguir.

“Então… Vamos pro meu quarto?” O garoto loiro perguntou, e Tadashi respondeu com um aceno positivo de cabeça para então começar a seguir o amigo, dando licença para a mãe dele — se tinha uma coisa que ele queria mostrar era que era bem educado. A mulher apenas sorriu, soltando um breve “divirtam-se” e logo em seguida um “vou chamar quando o almoço ficar pronto” enquanto eles subiam as escadas de madeira que levavam até o primeiro andar.

O quarto de Kei não era muito grande, mas também não era minúsculo, e tinha espaço o suficiente não apenas para o essencial como também para outras coisas que deixavam o cômodo bem mais pessoal. Tadashi não pode deixar de prestar atenção nos dinossauros de brinquedo que ficavam na estante, junto com livros e quadrinhos e algumas fotografias: algumas dele sozinho, outras com o irmão mais velho, Akiteru — que ele sabia que também jogava vôlei e que era uma boa pessoa, considerando o que Kei contava dele — e algumas com a mãe e o pai, que no momento estava viajando a negócios.

Eles pareciam genuinamente felizes naquelas fotos, que envolviam desde os irmãos juntos fazendo travessuras de criança até a família inteira reunida em passeios na praia. Yamaguchi também tinha fotos em sua casa, mas em muitas delas seu sorriso era forçado e ele estava encarando sua mãe com a câmera, ou então sendo tocado por ela, duas coisas que o deixavam claramente desconfortável.

Outra coisa que ele não pode deixar de perceber foi que Kei fechou a porta do quarto quando eles entraram.

“Não tem problema você fechar a porta?” O garoto de sardas logo perguntou, sem deixar de soar um tanto apreensivo. Se ele fechasse a porta do quarto por um instante em sua casa, Kamiko certamente a abriria de novo e invadiria o aposento, muito provavelmente para reclamar dele e revirar seus pertences em busca de qualquer coisa que poderia incriminá-lo de estar fazendo algo errado ao mesmo tempo.

Só de pensar nisso o menino sentiu o pulsar de seu coração acelerar, mas então ele se lembrou que aquela não era sua casa e sua mãe não estava ali para fiscalizá-lo o tempo inteiro.

“Não. Se mamãe ou Akiteru precisarem vir aqui, eles vão bater na porta e pedir permissão pra entrar. É assim que a gente faz aqui em casa.” Tadashi gostaria de ter esse tipo de respeito e privacidade em seu lar. Para ele era bastante invasivo e extremamente embaraçoso, ainda mais quando algumas vezes nem mesmo a suposta privacidade que ele devia ter no banheiro era respeitada quando Kamiko entrava aleatoriamente sem nem mesmo bater ou avisar quando ele estava tomando banho ou fazendo suas necessidades.

Mas quando era Kamiko quem usava o banheiro, ela podia se trancar.

“É que na minha casa as portas tem que ficar abertas o dia todo…” O menino explicou timidamente, sem querer entrar em detalhes sobre o assunto. Ele não planejava convidar Kei para sua casa, considerando como era sua mãe e como ela era cheia de regras rígidas que ele só aprendeu a seguir com base na tentativa e muitos erros.

O loiro estranhou um pouco aquela atitude de Tadashi — por um segundo ele podia jurar que o menino pareceu até ter ficado assustado com aquele simples ato -, mas decidiu que era melhor não pressioná-lo a falar nada que o deixasse desconfortável. Além disso, era sua primeira vez visitando um amigo, ele apenas devia ter estranhado aquilo por não ser algo que estava acostumado.

“Acho que é porque casas diferentes tem regras diferentes. Mas tudo bem. Você, hmn… Quer jogar videogame? Eu tenho Mario Kart e outros jogos aqui…” O garoto de óculos achou melhor mudar de assunto e tentar buscar alguma coisa para eles fazerem juntos, já que aquela era a ideia da visita, em primeiro lugar.

“Sim! Mario Kart!” Pelo menos a menção de jogar alguma coisa com Tsukishima fez com que Tadashi se animasse, permitindo-se sorrir verdadeiramente e até mesmo dar um pulinho de animação. Kei gostava do sorriso sincero do amigo, e se sentia bem quando conseguia deixá-lo animado daquela forma, já que ele passava por dificuldades.

Tsukishima era estupidamente bom no Mario Kart, mas isso não impediu Yamaguchi de se divertir mesmo depois de perder boa parte das corridas contra ele no videogame. Quando eles se cansaram, ele deixou que o garoto de óculos lhe mostrasse mais dos seus dinossauros, e logo eles se viram conversando por um bom tempo sobre aquelas criaturas gigantes e extintas até serem chamados para o almoço.

Quando chegaram na cozinha, a mesa já estava posta e nela estava uma boa variedade de comida, que cheirava e aparentava ser bastante apetitosa. Akiteru também estava lá, e assim que ele viu Tadashi, o irmão mais velho de Kei cumprimentou-o com um aceno e um sorriso.

“Vamos, Yamaguchi, sente-se! Pode fazer o seu prato e pegar o que quiser comer. Se quiser repetir, pode ficar à vontade. Mamãe vai ficar feliz se você gostar da comida dela!” O Tsukishima mais velho disse, sentando-se na mesa junto com os outros dois meninos e a mãe, e o garoto de sardas estava surpreso com o que Akiteru tinha dito.

Ele podia fazer seu prato do jeito e com a quantidade de comida que quisesse. Nem em seus sonhos sua mãe o deixaria fazer isso.

Por mais que ele tivesse o hábito de comer pouco, Tadashi adorou a comida da senhora Tsukishima e acabou repetindo, para a alegria da mulher. Depois de todos aqueles anos comendo as mesmas coisas para o almoço e jantar era delicioso variar, e o menino decidiu que devia aproveitar a liberdade para comer o quanto entendesse sem precisar se sentir culpado depois.

Por mais que fosse diferente, ele estava adorando passar o tempo na casa da família Tsukishima. Ali, ele não se sentia constantemente vigiado, e por mais que não conhecesse direito a mãe de Kei ou Akiteru, Tadashi se sentia à vontade com eles. A senhora Tsukishima era bastante agradável e não ficava fiscalizando o que os outros comiam, preferindo conversar e rir sobre coisas mundanas, permitindo quem quisesse falar sobre qualquer assunto.

De certa forma, aquela integração apenas deixava a comida mais saborosa, e tornava o momento mais especial também. Em sua casa, Tadashi comia para sobreviver, mas naquela mesa, estava se alimentando com um prazer que raramente tinha a chance de experimentar.

“Ei, vocês querem ir brincar no quintal depois? Nós podemos te ensinar a jogar vôlei se você quiser, Yamaguchi!” Akiteru ofereceu de bom grado logo depois de terminar sua refeição, encarando-o com seus olhos amarelos — da mesma cor que os de Kei — brilhantes de animação.

Tadashi não sabia jogar vôlei muito bem, e na verdade não achava que tinha aptidão para qualquer esporte. Porém, ele estaria mentindo caso falasse que não tinha interesse, ainda mais quando seu melhor amigo jogava e algumas vezes já lhe falou sobre como eram os treinos e algumas regras do esporte, que parecia ser divertido. Além disso, ele estaria jogando fora da escola, e não seria alvo de zombaria e nem piadas maldosas caso se atrapalhasse em algum momento.

No final, ele acabou aceitando a proposta, e assim que os três garotos terminaram de almoçar, eles foram para o quintal da casa dos Tsukishima. Ali eles passaram um bom tempo praticando saques e recepções, e quando se cansaram, deitaram na grama e ficaram procurando figuras de objetos e animais nas nuvens que passavam pelo céu.

Naquele momento, Tadashi percebeu que nunca tinha se divertido tanto em um único dia. Em sua casa ele não podia fazer tanto barulho, mas com Kei e Akiteru o garoto se permitia gargalhar dos comentários absurdos que eles faziam sobre as nuvens e seus possíveis formatos estranhos. Eles também não se importavam em ficar sujos com a grama que pinicava os braços expostos ou suas pernas, e Yamaguchi podia passar toda uma eternidade naquela casa que nunca iria se cansar.

Infelizmente, aquele dia não podia durar para sempre, e Kamiko chegou para buscá-lo no final da tarde, pouco antes do sol se por. Tadashi queria insistir para ficar, passar a noite na casa do amigo, mas sabia que aquilo já era exagerar e abusar da raríssima boa vontade da mulher, que estava sendo totalmente bondosa e carinhosa na frente da mãe de Kei.

Se apenas eles soubessem como era ter que ficar a sós com ela na casa deles.

Assim que eles entraram no carro, o estômago de Tadashi embrulhou e ele decidiu que era melhor não contar muito sobre como ele se divertiu na casa de Kei: nada de falar sobre as corridas no Mario Kart, ou sobre o almoço delicioso onde ele podia escolher o quanto iria comer, muito menos sobre as técnicas de vôlei que lhe foram ensinadas pelo irmão mais velho do amigo e nem de como os três ficaram gargalhando jovialmente enquanto observavam o céu.

“Você se divertiu?” Kamiko perguntou assim que ligou o carro, e o menino de sardas apenas olhou para as suas mãos pequenas em seu colo, com os dedos entrelaçados, antes de responder.

“Sim. Foi bom.” Mais que aquilo já era pedir para ele entrar em detalhes, coisa que não queria fazer. Se Kamiko soubesse sobre o mundo incrível que era a casa dos Tsukishima, um onde ele podia fechar portas, comer o que bem entendesse, não fosse vigiado o tempo inteiro e, principalmente, pudesse ser criança, ela muito provavelmente o afastaria de Kei e nunca mais o deixaria visitá-lo.

Para ela, viver num ambiente assim devia ser completamente inadmissível. Tadashi conseguiu experimentar um pouco daquilo e amou mais do que tudo — era ótimo poder ser considerado importante, querido e respeitado, e ser tratado com dignidade -, mas em sua casa, onde Kamiko reinava com toda a força, ele jamais teria aquele tipo de tratamento.

Durante o jantar, Tadashi se alimentou mesmo sem fome, apenas para satisfazer a necessidade de atenção constante da mãe. Na mesa da cozinha, com a televisão ligada no noticiário local, ele prestou mais atenção nas palavras do jornalista do que nas da mulher enquanto mastigava sem vontade, para então ir para o quarto.

Por um instante ele sentiu a necessidade de tocar na maçaneta e fechar a porta, mas não se arriscou a fazê-lo. Bastou ir embora da casa de Kei para ele começar a se sentir exausto, como de costume, assim como receoso e alerta, que eram duas coisas que ele já tinha aprendido a fazer automaticamente assim que seu cérebro processava a presença de Kamiko por perto.

Ele não estava seguro naquela casa, ao menos não das feridas em seu coração. Ele também não era totalmente querido, por mais que algumas vezes sua mãe lhe desse brinquedos bonitos de presente e o paparicasse vez ou outra fazendo alguma comida que ele gostasse.

Mas isso não bastava para compensar todas as incontáveis lágrimas que ela já o fez derramar na sua frente.

Quando Tadashi foi se deitar, Kamiko entrou em seu quarto para cobrí-lo e dar-lhe um beijo de boa noite na bochecha antes de desligar as luzes e fechar a porta. Assim que ela saiu, o menino passou os dedos onde ele ainda podia sentir o calor dos lábios da mulher, esfregando-os, achando aquilo sujo e nojento.

Dela, ele se sentia desconfortável recebendo carinho, por mais que soubesse que aquilo deveria ser algo natural e bom entre uma mãe e seu filho. Porém, toda vez que ela fazia algum gesto suave e gentil, Tadashi não podia deixar de pensar que, na próxima vez, ela poderia quebrar toda a imagem de boa progenitora que ela mantinha tão bem quando eles estavam em público.

Ele sabia que, eventualmente, ela acabaria explodindo e descontando tudo nele, seu filho inútil, mais uma vez. Podia ser no dia seguinte, daqui a uma semana, ou então duas — mas era inevitável, e Tadashi sabia que nunca estaria preparado para isso por mais que seu coração já batesse rápido e ele mal conseguisse respirar tamanha a ansiedade.

Foi então que ele pensou na casa de Kei, no quanto a senhora Tsukishima não parecia querer machucá-lo em momento algum com seus gestos e palavras, no quanto Akiteru buscava animar a todos e principalmente no quanto Kei tinha uma casa boa e confortável com uma família alegre.

Ele certamente não devia ter nojo dos beijos de boa noite de sua mãe. Tadashi, ao menos, não sentiria se fosse filho dela em seu lugar.

Nesse momento, o garoto de sardas percebeu que estava com inveja da vida do amigo, e queria tê-la mais do que tudo no mundo. No entanto, logo em seguida as lembranças das palavras rudes e grosseiras de Kamiko chegaram para lhe atormentar no silêncio e solidão da noite, e o menino não pode deixar de concordar com elas.

Sim, ele era uma vergonha. Um garoto invejoso e terrível que não sabia apreciar os sacrifícios que sua mãe fazia por ele todos os dias, alguém que não sabia fazer nada direito e que só queria ser feliz por puro egoísmo, que não merecia nem mesmo metade do que ele tinha e que morreria sozinho caso Kamiko o abandonasse — e se já era ruim com ela, pior ainda se fosse sem ela.

Yamaguchi Tadashi não merecia viver uma vida alegre como Tsukishima Kei. Na verdade, ele sequer merecia a atenção e a amizade do menino de óculos.

Em poucos instantes ele já estava chorando em silêncio, deixando o travesseiro pegar todas as suas lágrimas que ele sabia que formariam mais uma pequena poça na manhã seguinte. Porém, ele merecia chorar — era só aquilo que ele sabia fazer, afinal, e era uma das poucas coisas em que ele era bom, além de estragar tudo e nunca fazer nada direito.

Tadashi adormeceu com a certeza de que merecia sofrer.

Notas finais
Eu tenho TANTA PENA do Tadashi nessa fic. Ainda mais nesse capítulo, onde ele é criancinha e já tem esses pensamentos horríveis sobre si mesmo.

Cara, eu sou a autora e eu quero dar UM SOCÃO na Kamiko por fazer essas coisas com ele. YAMAGUCHI TADASHI É UM MENINO PURO E INOCENTE QUE MERECE SER PROTEGIDO SDAKLHKLHDSAKLDH

Eu JURO que amo ele, gente, mas a sofrência é pelo bem do plot. Fazer o que, né? ;w;

Espero que esse capítulo tenha servido pra todo mundo odiar a mãe dele, porque eu garanto que ela é a pessoa mais detestável que eu já escrevi na minha vida KDSLHKJSDH Nossa, juro que tentei botar uma qualidade nela, mas NÃO DÁ. Ela é uma abusadora emocional nojenta e é pra sentir ódio dela mesmo. É pra xingar essa infeliz sim -q

Nos vemos no próximo capítulo!