Notas iniciais
E aqui estamos com o segundo capítulo! ♥ Antes de falar qualquer coisa, eu queria agradecer por todo o feedback que já recebi em tão pouco tempo. Não esperava que uma fic assim com um tema tão pesado e com romance em segundo plano iria receber tanta atenção, carinho, favoritos, comentários e acompanhamentos em pouco mais de uma semana. Vocês são leitores maravilhosos! ♥ Nada mais justo que uma atualização, não é mesmo? SOHAOHSSHOA Vocês me deixaram toda no hype pra essa fic! E eu confesso que o fato da atualização ser justamente no dia das mães foi proposital. Na verdade, eu pensei nisso no meio da semana passada e fiquei até impressionada em ver que terminei o capítulo pra ser postado justo nessa data -q ~FELIZ DIA DAS MÃES~ E boa leitura! ♥

Acorrentado

Crescer não foi uma experiência agradável para Tadashi. Por mais que ele almejasse ficar mais alto — e sentisse uma certa vitória ao saber que com o passar dos anos a diferença de altura entre ele e Kei tinha diminuído consideravelmente -, aquilo implicou em outras mudanças nada agradáveis em seu corpo, na sua casa e especialmente na sua vida.

O garoto detestava acordar com espinhas no rosto, especialmente quando elas apareciam na testa, nariz e bochechas, como pontos de iluminação que chamavam ainda mais a atenção alheia para suas sardas. Em diversos momentos ele pensou em pegar emprestado a maquiagem da mãe para disfarçar a acne e os pontos em seu rosto, mas sabia que não apenas ela não o deixaria e o daria um grande sermão como as pessoas na escola notariam na hora a ausência das sardas, que acabaram se transformando em sua marca registrada.

Quem não o conhecia sempre o usava como ponto de referência. Era mais fácil chamá-lo de “sardento” do que perguntar pelo seu nome. Mesmo os professores o chamavam assim de vez em quando, para o total desgosto do rapaz. As sardas estavam ali, sempre presentes, espalhadas por toda a sua pele independente da quantidade de sol que ele tomasse; Tadashi odiava se olhar no espelho, nu, e ver os pontos incontáveis em cada centímetro dele, escuros e redondos, que apenas o faziam se lembrar do bullying na escola e da sua mãe, que era acometida pela mesma praga.

Anos atrás, ele a achava linda e sentia orgulho de ter herdado os pontos na sua pele. Agora, porém, ele queria arrancá-los, um por um, até ficar totalmente limpo delas e sem escutar mais elogios das pessoas que falavam sobre como ele era fisicamente parecido com Kamiko.

Ele não podia parecer com ela. Ele não queria ser igual a ela.

Tadashi estourava as espinhas, e depois se arrependia quando elas se transformavam em cicatrizes que se misturavam com as sardas. No entanto, logo em seguida apareciam mais delas, e ele acabava perdendo a paciência e repetia o processo, por mais que soubesse que iria se arrepender assim que acabasse com todas elas.

A acne não era sua única irritação, todavia. Tadashi detestava como suas pernas e braços ficaram mais longos, finos e desengonçados. Ele repudiava a ideia de falar quando sua voz começou a mudar, oscilando entre a infantil e a adulta, e em tons esquisitos entre os dois extremos, que o faziam soar como um idiota ainda maior do que ele já devia parecer todo dia.

Detestava acordar cedo e precisar fazer a barba que já insistia em começar a nascer, especialmente quando ele se cortava acidentalmente e precisava colocar um ou mais curativos, que apenas serviam para chamar ainda mais atenção na escola, onde nem todos os seus colegas já sabiam como era ter pelos no rosto — que, na opinião de Tadashi, eram irritantes e dispensáveis. Da mesma forma ele se sentia com os que nasciam no resto do seu corpo, em lugares que antes estavam muito bem sem nada crescendo, coçando e acumulando suor e sujeira para ele esfregar mais ainda debaixo do chuveiro.

Ele sentia como se tivesse perdido o controle de seu próprio corpo, especialmente do que tinha entre as pernas. Tadashi não gostava nada de como as ereções involuntárias pareciam acontecer sempre nos piores momentos, e de como ele precisava procurar uma maneira de cobrir ou disfarçar o volume embaraçoso na sua calça — especialmente na escola, por mais que ele soubesse que todos os garotos da sua sala já tivessem passado por isso publicamente e já tivessem sido alvo de piadinhas por isso, incluindo Kei.

As piadinhas e as risadas eram sempre piores para ele, no entanto. Aquilo era uma regra clara e já determinada havia tempos, que nunca tinha mudado mesmo quando alunos diferentes entravam e saíam da classe. O tormento de Tadashi era constante, e quanto mais ele pudesse evitar constrangimentos, melhor.

Os piores dias, porém, eram quando ele não podia deixar de ficar excitado mesmo sem motivo e não podia fazer nada sobre isso.

Assim como era com a perseguição e exclusão na escola, as regras rígidas em sua casa também eram permanentes e absolutamente irrevogáveis, independente do motivo. Tadashi já tinha tentado explicar para Kamiko que, agora que estava passando pela puberdade, ele gostaria de ter um pouco de privacidade pelo menos para tomar banho e se trocar, mas sua mãe não apenas negou-lhe tal direito como também o questionou seriamente se ele queria esconder alguma coisa dela.

Ele jamais poderia dizer que apenas gostaria de privacidade para se masturbar e tentar ter um pouco de controle de seu corpo novamente, ao menos não sem desmaiar de vergonha logo em seguida. Por isso, ele negou e nunca mais ousou pedir isso para ela de novo.

Na verdade, apenas pensar no fato de que ela poderia pegá-lo fazendo isso era algo que o deixava extremamente apreensivo não apenas pelo fato de ser algo embaraçoso, mas principalmente porque ele sabia que Kamiko aproveitaria uma oportunidade como essa para rebaixá-lo e humilhá-lo ainda mais não apenas na hora como também por dias e semanas, sem hesitar em levar tal incidente à tona novamente caso achasse necessário.

Tadashi teve que se acostumar com o fato de que nunca teria esse tipo de privacidade durante o dia, e por isso precisava esperar que sua mãe saísse de casa ou fosse dormir para ele ter uma chance de se tocar. Ter que se submeter a essa espécie de tortura era, para o jovem, ainda mais vergonhoso do que o ato em si — que ele muitas vezes acabava fazendo com pressa, sem parar para se conhecer como deveria e sem poder gemer alto ou se mover demais ao ponto de fazer qualquer barulho suspeito que acordasse a mulher e a levasse para seu quarto.

Ele apenas enfiava a cara no travesseiro e colocava a mão dentro da calça do pijama, para minutos depois ter que ir lavá-la no banheiro do corredor — coisa que sempre o deixava estupidamente ansioso porque ele morria de medo de Kamiko vê-lo com a mão suja, denunciando o que ele estava fazendo momentos atrás.

Para sua suposta sorte, a convivência com a mulher o tornou um mestre em andar silenciosamente pela casa durante a noite, fosse para ir ao banheiro ou para pegar um copo d’água na cozinha e matar sua sede. Ainda assim, a ansiedade que lhe acometia quando ele precisava sair do quarto de madrugada, independente do motivo, era assustadoramente real, e era em momentos como esse que o garoto procurava não hiperventilar enquanto andava, descalço, pelo chão frio e se aventurava fora do espaço relativamente seguro que era seu quarto.

Quanto mais velho ele ficava, mais difíceis as coisas se tornavam. Kamiko não parecia ser capaz de perceber o quanto machucava o próprio filho toda vez que o humilhava verbalmente, ou como suas regras estupidamente rígidas, aliadas de suas expectativas nada humanas, o deixavam extremamente ansioso e paranoico, por todos os motivos.

Mesmo que ele tivesse superado a mulher na altura, Tadashi nunca conseguiu sequer chegar perto de sua posição como pessoa superior na casa. Na verdade, ele nunca sequer conseguia ser tratado como igual.

Se antes quando ele era criança Kamiko o enchia de sermões e regras absurdas, agora ela tinha criado novas armas para manter seu filho, agora um adolescente, no controle de suas garras, incapaz de escapar de suas amarras que o mantinham perfeitamente obediente e submisso às suas vontades. Se ela o mandava fazer alguma coisa, o garoto fazia de imediato, mesmo sabendo que ela reclamaria logo em seguida sobre sua demora, aproveitando para dizer que se fosse com outra pessoa, até mesmo outro filho, ele seria mais competente.

Tadashi nunca soube fazer nada direito, afinal. Sua louça era mal lavada, seu quarto nunca estava limpo o bastante, sua pele estava sempre oleosa demais por mais que ele se lavasse constantemente. As notas, quando eram baixas, eram uma vergonha, e quando eram boas, não passavam de uma obrigação que o garoto tinha que cumprir, não sendo nada especiais.

O rapaz rangia os dentes toda vez que a mulher olhava seus boletins e apontava-lhe mil maneiras de ser um aluno decente — como se por acaso ele já não estivesse tentando, apesar do inferno que passava diariamente na escola. Sua única salvação — e a de suas notas — era Tsukishima Kei, que mantinha-lhe companhia e muitas vezes o ajudava a estudar quando notava que ele não conseguia se concentrar nas aulas e acompanhar as matérias dadas pelos professores.

Mas até mesmo Kei se transformou numa arma que Kamiko podia usar contra ele. A cada ano que eles passavam como amigos, mais a mulher soltava comentários nada amigáveis sobre o relacionamento dos dois garotos. Diversas vezes ela perguntava se ele não tinha outro amigo além do garoto de óculos, se ele não se cansava de ficar o tempo todo com a mesma pessoa e, em dias realmente ruins, ela até mesmo ousava dizer que Kei só permitia sua companhia não por gostar dele genuinamente, mas sim por pena e para se fazer de bom moço na frente das outras pessoas.

Ele nunca falava sobre isso na frente de Tsukishima, mas o rapaz loiro certamente devia notar a insegurança em seu olhar certos dias na escola.

Para sua sorte, o garoto de óculos nunca o questionou diretamente sobre isso, e Tadashi agradecia mentalmente por tal fato todas as vezes que isso acontecia, por mais que não soubesse do motivo do silêncio do amigo. Na verdade, depois de todos aqueles anos, era bom ter Kei por perto, que compreendia suas necessidades e respeitava sua privacidade, mas sem deixar de ajudá-lo no que podia.

Tadashi apreciava aquilo tudo em Kei, e por mais que muitas vezes o garoto demonstrasse que gostava de sua amizade com gestos gentis e sorrisos sinceros, que ele só dava quando eles estavam sozinhos, o rapaz de sardas se questionava constantemente sobre o que o loiro sentia por ele.

Alguns dias eram melhores, e ele acreditava que era uma apreciação verdadeira sobre quem ele era, apesar de todos os seus incontáveis defeitos. Nos piores dias, porém, sua opinião era forjada pelas palavras cruéis de Kamiko, e ele acreditava que o outro adolescente apenas permitia sua presença em sua vida por pena e para, em parte, manter uma imagem de bom moço ao ajudá-lo.

Foi por sorte que eles acabaram indo para a mesma escola no ensino médio, e Tadashi acreditava genuinamente que se eles não tivessem sido aceitos nela — e ainda por cima na mesma sala, de novo -, ele não saberia o que fazer da vida além de se lamentar.

Não era como se ele não quisesse se livrar de Kamiko. Se pudesse, o garoto já teria quebrado todas as correntes que lhe prendiam, já teria deixado suas asas se abrirem em suas costas e guiá-lo para longe. Porém, ele não tinha forças para quebrar tudo sozinho, não com sua mente fraca e seu corpo frágil, e muito menos seria capaz de sair voando quando a mulher fazia questão de podar suas asas constantemente com suas palavras e ações, que a cada segundo pareciam arrancar-lhe suas penas, uma por uma, até que sobrasse quase nada delas.

Quando ele chegava em seu limite, Kamiko parava. Ela voltava a sorrir para ele e a ser gentil, passando a mão em seu rosto cheios de sardas, cicatrizes e espinhas, e em seu cabelo bagunçado. Seus dedos amparavam as lágrimas em suas bochechas, e algumas vezes ela o puxava para um abraço, gesto esse que sempre fazia Tadashi soluçar alto enquanto ele retribuía o ato.

Por mais que ele soubesse que sua mãe foi a pessoa que mais conseguiu fazê-lo chorar em toda a sua vida, o garoto ainda não era capaz de lutar contra o próprio instinto de buscar alguma espécie de conforto, ainda que mínimo, de Kamiko. Nesses momentos de calmaria, ele se permitia molhar as roupas da mulher com suas lágrimas, tudo isso enquanto deixava ela acariciar-lhe seus cabelos e sussurrava que apenas dizia-lhe aquelas coisas porque queria o seu bem e o amava.

Sim, ela o amava. Se não amasse, não compraria-lhe roupas, o deixaria com fome e frio, não lhe daria remédios quando ele ficasse doente. Se não o amasse, ela não se importaria com suas notas ou com quem ele andava, ou com o que ele fazia dentro e fora de casa.

Se Kamiko não o amasse, ela não ficaria horas falando sobre seus defeitos para que ele melhorasse.

Em momentos assim, Tadashi imaginava que boa parte do que sentia era culpa dele: por ser fraco, por ser estupidamente emotivo, por ser sensível. O garoto sabia que, muitas vezes, seu coração disparava apenas quando seus olhos castanhos encontravam os da mãe, e de como em diversos dias bastava que ela falasse poucas palavras para fazê-lo chorar, ou então até mesmo nenhuma.

Algumas vezes, um comentário qualquer era capaz de deixar seus olhos marejados, mesmo que feito por outra pessoa. Quando ele andava na rua, no caminho de casa para a escola e da escola para casa, algumas vezes seu olhar se fixava em algo que lembrava Kamiko — e imediatamente sua mente o fazia lembrar-se das suas críticas, de seu silêncio enquanto ele pedia desculpas no meio de soluços roucos, de sua indiferença com as coisas que ele mais amava.

Quando ele pensava nisso tudo, e quando ele escutava todas aquelas declarações de afeto da mãe, Tadashi sentia-se dividido em dois. Uma parte dentro dele era uma fera selvagem, que queria morder o pescoço da mulher e rasgá-la com suas garras, que queria gritar e se revoltar contra tudo que ela dizia para ele e expor suas presas e suas armas, mostrar que também sabia lutar — e essa criatura parecia se fortalecer a cada vez que uma injustiça acontecia com ele por conta de Kamiko. Outra parte, porém, era um animal indefeso, que escutava e se submetia a cada crueldade de sua mãe com as orelhas abaixadas e o rabo entre as pernas, encolhido num canto e tremendo de medo de fazer com que a situação piorasse.

Por mais que Tadashi desejasse soltar a fera que habitava dentro dele, ele nunca teve coragem de fazê-lo. Nem mesmo Kei sabia do fogo que queimava em seu peito quando ele ficava sozinho após Kamiko abandoná-lo, deixando-o limpar suas lágrimas e lamber suas próprias feridas, no que deveria ser certamente uma visão miserável. A cada vez que ele inspirava e expirava após uma crise de choro, com dor de cabeça e os olhos vermelhos, o menino conseguia sentir os suspiros furiosos da besta, irada demais por ser enjaulada e agitada demais por ter sido ferida, e ao mesmo tempo também era atormentado pela voz de sua mãe, que ecoava em sua mente e o fazia lembrar-se de mais de mil motivos para ele ser quem era.

Tadashi era uma falha. Ele não era um bom garoto, não quando ele não conseguia manter seus pertences arrumados e quebrava a louça quando a lavava logo depois de um ataque de choro, com as mãos trêmulas de ansiedade. Ele não era um bom estudante, não com a dificuldade em matemática e o inglês com sotaque pesado, que certamente seria alvo de chacota entre falantes nativos da língua. Ele não era um bom moço, não quando chorava por qualquer coisa que sua mãe lhe falasse ou deixasse de falar, ou quando ele saia com Kei nas raras vezes que ela permitia, trocando-a pelo melhor amigo.

Por não ser bom, Tadashi buscava, ainda que da maneira mais humilhante possível, pela salvação que apenas as mãos de Kamiko, ainda que com unhas afiadas e sujas com o sangue de suas feridas emocionais — velhas e novas — podiam garantir-lhe.

Por causa disso, seus toques e suas palavras de carinho, por mais que lhe causassem repulsa, também ajudavam o adolescente a dormir um pouco melhor de noite e se sentir um pouco menos culpado por ser alguém tão incapaz de merecer Kamiko.

Quando ela o permitia chorar agarrado com ela, Tadashi se sentia em paz, ainda que ele soubesse que essa paz era temporária. Porém, junto com esses momentos seguiam-se poucos dias de paz, tempo o bastante para que suas asas se recuperassem um pouco e suas penas voltassem a crescer em suas costas.

Assim que Kamiko sentia que elas estavam crescendo rápido demais, a mulher arrancava-as de novo.

Era terrível e doloroso, mas aquela era a rotina na casa dos Yamaguchi. E para Tadashi, era aquela vida que ele merecia, já que do jeito que ele era incompetente e inútil, ele não teria lugar numa casa com um ambiente mais alegre como a da família Tsukishima.

Tadashi nunca disse nada, mas Kei sabia que ele nutria inveja da sua vida e da liberdade que ele tinha para agir de acordo com a sua idade em casa. Foi Kei quem acompanhou Tadashi nos anos finais do ensino fundamental, e foram juntos que eles entraram na puberdade — e esta parecia odiar muito mais o garoto de sardas do que o de óculos.

Ainda assim, Kei também tinha suas dificuldades crescendo. Foram juntos que eles começaram a se barbear — na verdade, foi o irmão dele quem os ensinou, ainda que Tadashi tivesse começado a ter pelos no rosto muito antes do melhor amigo -, e com o passar dos anos as mudanças ficavam cada vez mais claras entre eles.

A voz do Tsukishima estava deixando de falhar, e Tadashi gostava do tom que aparentava ser definitivo dela, tão maduro e diferente de quando ele era criança. Ao contrário dele, ele também não parecia tão desengonçado ao se movimentar com seus braços e pernas mais longos, talvez pelo fato de que praticava esporte e tinha maior controle sobre seus músculos e também seu crescimento. Além disso, ele parecia ter menos problemas com a pele, e conseguia se livrar melhor dos momentos embaraçosos do que ele.

Kei era tão calmo e composto, estudioso e focado — muito diferente dele. Quando eles estudavam juntos, as anotações do garoto loiro eram sempre limpas e bem organizadas, e mesmo sua caligrafia era mais bonita e legível que a dele. Tadashi anotava tudo na pressa, riscava as palavras que errava, fazia rabiscos aleatórios nos cantos das páginas quando estava com muito sono e não podia dormir em sala. Enquanto isso, Kei conseguia manter tudo estupidamente bem organizado e anotado, sem um risco ou mancha de tinta de caneta.

Era incrível como, apesar desse fato, ele ainda se dedicava a ajudá-lo nas matérias que não era muito bom, assim como também ficava do seu lado para afastar os bullies e como ele respeitava seus limites como amigo, ainda que fossem muitos — como o fato de que ele não podia convidá-lo para visitar sua casa ou que ele mesmo não podia sair com a frequência que desejava, ao menos não sem ouvir sua mãe chamando-o de egoísta todas as vezes que ele saía e voltava para casa, questionando-o sobre seus próprios sentimentos que já eram confusos por si só.

Kei continuou jogando vôlei no ensino médio, entrando para o clube da escola ainda no começo das aulas. Enquanto isso, Tadashi não sabia exatamente o que fazer em relação a atividades extra curriculares, simplesmente porque achava que não tinha nenhum talento em especial e porque não acreditava que faria falta em qualquer clube escolar, por mais que alguns chamassem-lhe a atenção.

Foi apenas depois das primeiras semanas de aula que Tsukishima atentou-lhe para aquele fato, enquanto eles almoçavam juntos numa mesa isolada no canto da sala de aula. Antes disso eles não estavam conversando sobre nada em particular, estando mais concentrados em começar a comer — porém, agora que estavam ligeiramente mais saciados, Kei achou que era um bom momento para iniciar uma conversa, por mais que ele não se importasse de compartilhar o silêncio com o amigo.

“Tadashi, você não está interessado em entrar para algum clube?” Depois de tanto tempo de amizade, Yamaguchi gostava de ser chamado pelo primeiro nome daquela forma, e não pelo sobrenome que compartilhava com a mãe, de “você” ou então de “sardento”. Naquela escola, a única pessoa além dos professores que o chamava de Tadashi era Kei, e ele gostava de como as sílabas do seu nome soavam em sua voz, mesmo quando ela ainda estava mudando no começo da puberdade.

O rapaz estaria mentindo se afirmasse que não gostaria de entrar para um dos clubes da escola, que eram muitos e organizados pelos alunos. Aquilo implicava numa boa variedade deles, e alguns eram mais populares do que outros. Ele sabia que os de esportes e artes como o de pintura e teatro eram bastante cobiçados, e por mais que alguns lhe chamasse a atenção, tinha outro clube que Tadashi queria muito entrar e que não se encaixava nessas áreas.

“Eu não sei, Tsukki… Alguns parecem muito bons! Como o clube de literatura ou o de ciências… O de vôlei parece ser muito divertido, mas eu não acho que poderia entrar e jogar tanto quanto você, já que nunca joguei muito e não sou tão bom quanto quem deve jogar há mais tempo.” O garoto de sardas respondeu, percebendo que Kei o encarava pacientemente com seus olhos dourados. Ele nunca parecia gostar muito quando o outro adolescente falava coisas tão negativas sobre si mesmo, e Tadashi se lembrava de como, quando a oportunidade lhe permitia, ele tentava fazê-lo se sentir melhor sobre si mesmo.

Aquilo geralmente acontecia quando eles estavam sozinhos, e por mais que o rapaz costumasse repetir mais para si mesmo do que para ele que não era uma pessoa tão especial assim, Kei sempre parava para interrompê-lo e falar que aquilo não era verdade.

Algumas vezes ele entrava em detalhes, tentando fazê-lo se lembrar de suas supostas qualidades: sua gentileza com as outras pessoas, sua boa escrita, seu carinho pelos animais e outras criaturas vivas, sua paciência com crianças pequenas. Kei era capaz de arrancar a figura de Kamiko de seus pensamentos sombrios e substituí-la por lembranças mais leves e felizes, coisas boas que aconteciam de vez em quando em sua vida que o faziam sorrir.

Kei também dizia que seu sorriso era muito bonito. Nesses momentos, o rapaz se permitia fazer isso na sua frente.

“Tem um novato no clube de vôlei que mal jogou na vida dele. Não é tarde para entrar, sabe? Mas se você se sente desconfortável com isso, sei que existe um clube de animais… Sei que os membros cuidam dos animais daqui e também ajudam outros que encontram abandonados, até mesmo ajudam eles a encontrar um novo lar. Acho que te interessaria. Você quer ser veterinário, certo?” O garoto de óculos achava o apelido que o amigo tinha dado para ele — Tsukki — realmente adorável, e combinava com seu sobrenome. O que antes tinha começado como um pequeno tique infantil acabou virando costume, e do costume surgiu o que Kei podia considerar um apelido carinhoso. Apenas Tadashi chamava ele daquela forma, e o loiro não permitiria mais ninguém fazê-lo, pois sabia que nenhuma pessoa no mundo seria capaz de pronunciar aquela palavra tão simples de uma maneira tão única e especial.

Ele também percebeu o quanto o rapaz não parecia acreditar em seus próprios talentos, coisa que certamente o preocupava. Kei não gostava de ver o amigo pensando sobre si mesmo daquela forma. No entanto, ele acreditava que entrar em um clube e conhecer novas pessoas, além de se dedicar a algo que gosta, certamente o ajudaria a se sentir melhor sobre si mesmo e também a enfrentar as turbulências da adolescência.

“Querer eu quero muito, Tsukki… Sempre gostei muito de animais. Mas não sei se vou acabar sendo, não sei…” Enquanto falava, Tadashi brincava com a própria comida, sem colocá-la na boca. A menção do clube que ele mais queria entrar o deixou relativamente embaraçado — para quem o conhecia, o garoto era terrivelmente previsível. No entanto, ele não se importava tanto assim se era para ser previsível na frente do melhor amigo, que também tinha suas próprias particularidades que ele já conhecia melhor que outras pessoas.

Tsukishima percebeu o tom desanimado e indeciso da sua voz, e não achava que isso combinava com o garoto. Do jeito que ele falava, porém, era claro que alguma coisa estava atormentando seus pensamentos para fazer com que ele não ficasse tão animado assim com a ideia de participar de um clube escolar sobre algo que ele gostava tanto.

“E por que não seria? Você é muito bom com eles. Acho que se daria bem sendo veterinário, sem falar que não te faltaria trabalho.” O loiro afirmou com um sorriso, sendo completamente sincero. Ele já tinha visto como os olhos de Tadashi brilhavam quando ele passava o tempo com animais, fosse brincando ou cuidando deles. Ele era gentil e paciente, e parecia entender com facilidade o que eles precisavam. Por mais que ele ainda fosse jovem, certamente já eram sinais de uma vocação.

As bochechas do garoto de sardas ganharam um pouco mais de cor, ficando vermelhas. Kei achava aquilo adorável quando acontecia, porque o garoto parecia um morango daquele jeito. No entanto, aquela era uma observação que ele guardava apenas para si.

“Eu sei. É só que eu ainda não sei se é um sonho de infância e se é o que eu realmente quero. Nós estamos no primeiro ano, temos mais dois para nos decidir sobre o que vamos querer fazer depois…” Tadashi explicou, tentando manter afastados todo e qualquer pensamento que envolvia Kamiko, que era sua maior preocupação quanto a isso. O rapaz se lembrava de como ela era rígida com sua educação, e não fazia a menor ideia de como ela reagiria caso ele decidisse entrar em algum clube escolar — ainda mais porque ele não fazia nenhuma atividade extra na escola anterior, por medo de ser alvo de bullying e zombaria dos outros alunos.

Não que ele estivesse mentindo para Kei, no entanto. Aquelas observações também o preocupavam, ainda que menos que a reação da sua mãe com tudo isso. Na verdade, Tadashi estaria mentindo se afirmasse que não se importava com a reação da mulher para cada passo que ele dava em sua vida, pois não queria decepcioná-la — coisa que parecia acontecer com frequência.

“Que tal usar esse tempo pra se descobrir, então? Acho que entrando para o clube é uma boa oportunidade de você fazer isso.” Felizmente, Kei estava ali para tirá-lo de seus pensamentos antes que eles começassem a ficar extremamente autodestrutivos e ele começasse a ficar ansioso demais, coisa que algumas vezes acontecia quando o rapaz estava sozinho — e que ele sinceramente odiava.

Tadashi não dizia, mas ele era imensamente grato pela companhia e por toda a ajuda que o garoto de óculos lhe oferecia. E ele devia admitir que estava levando bastante a opinião do amigo em consideração. Era verdade, ele realmente devia utilizar os anos do ensino médio para se descobrir em relação ao seu futuro. Por mais que ele amasse animais e fosse bom com eles, o rapaz de sardas imaginava que sua mãe não gostaria que ele estudasse medicina veterinária — não parecia ser, na visão dela, algo digno.

Talvez ela gostaria que ele fizesse outro curso na faculdade. Provavelmente algo que lhe desse renome e muito dinheiro. Só de pensar na possibilidade de entrar em um curso que ele não gostasse, porém, Tadashi sentia-se ansioso. Ele não queria gastar anos da sua vida estudando para uma profissão que ele não se sentiria bem exercendo.

“É verdade. Eu vou tentar ver se consigo entrar.” Depois de tudo aquilo, Tsukishima sorriu para ele, agora com u olhar um pouco mais aliviado — e até mesmo mais orgulhoso dele. Era claro o quanto o rapaz de óculos gostava quando ele se decidia e resolvia tomar a iniciativa para cuidar de si mesmo e se ajudar — e para Tadashi, ver o olhar terno do outro garoto era uma boa fonte de motivação, e um dos motivos para o qual ele ainda tinha coragem de se levantar na cama todos os dias.

Logo em seguida eles passaram a comentar sobre o dever de casa da aula de história, o que serviu para distrair Tadashi durante o resto do almoço.

Foi apenas depois que ele chegou em casa que o garoto percebeu o quanto a ideia de falar com Kamiko sobre sua possível entrada em um clube escolar para descobrir mais sobre si mesmo o deixava estupidamente preocupado. Ele se perguntava se Kei também ficou muito nervoso quando, anos atrás, ele perguntou para seus pais se podia fazer parte do clube de vôlei.

Provavelmente não, já que Akiteru também jogava. Era muito provável que seus pais até mesmo o tivessem incentivado a entrar lá e jogar, junto com o irmão mais velho. Para Tadashi, a ideia de receber tal apoio para uma simples atividade parecia utópica e surreal, e em suas fantasias ele bem que se imaginava ouvindo palavras de apoio vindas de Kamiko para ele seguir seus sonhos.

Obviamente, isso nunca acontecia. Mas ao menos pensar em cenários onde sua vida era pelo menos um pouco melhor o fazia sentir-se um pouco menos desanimado, ainda que temporariamente — pois logo em seguida o garoto sentia raiva da própria situação e principalmente nojo de si mesmo por pensar naquelas coisas.

Ele definitivamente não merecia nada do que tinha, e agradecia por Kamiko não ser capaz de ler seus pensamentos.

Naquela noite, o jantar estava sem gosto como sempre — antigamente, o rapaz adorava a comida da mãe, mas agora eles pareciam comer basicamente as mesmas coisas, com poucas alterações, e a rotina fez com que a comida perdesse o gosto, assim como a companhia de Kamiko o deixava desconfortável para mastigar.

Ainda assim, aquele era o melhor momento para o jovem perguntar para ela se poderia entrar para o clube que queria na escola. Ela parecia estar com um humor propício para a conversa, e ele não se lembrava de ter levado um sermão já havia alguns dias. Tadashi não sabia se tentar falar sobre esse assunto seria exagero, mas então ele se lembrou da conversa que teve com Kei mais cedo — e o garoto de óculos realmente tinha razão em suas palavras.

O garoto de sardas não sabia se foi sua amizade que ele nutria pelo Tsukishima ou se foi por sua própria vontade de participar do clube, mas ele conseguiu a coragem para abrir a boca e chamar a atenção de Kamiko.

“Mãe… Posso te perguntar uma coisa?” Ele perguntou, sentindo o suor começando a brotar e a descer pela sua nuca assim que os olhos castanhos da mulher dirigiram-se para o seu rosto, parando para analisar cada detalhe dele: cada sarda e espinha, o formato do seu nariz, a maneira que ele mordiscava os lábios de nervoso, e principalmente, a ansiedade crescente em seus olhos.

“O que é? Já falei que você não vai mais poder visitar aquele seu amigo tão cedo.” As palavras saíram em poucos instantes, ríspidas, e Tadashi sabia que ele não poderia visitar Kei de novo nem naquele final de semana e nem nos seguintes; porém, ele já estava ciente daquela informação. Provavelmente a mulher achava que ele queria negociar uma saída com ela, mas aquele não era o caso — e por isso, não o faria ficar calado.

“Não é isso, é outra coisa… Eu queria saber se você me deixaria entrar num clube da escola.” O garoto falou, tímido, tomando cuidado com a maneira que se articulava diante da mãe. Ele não queria parecer autoritário perante dela — por isso, jamais diria “vou entrar”, por exemplo — e também não queria parecer esperançoso demais, já que com Kamiko era importante sempre esperar pelo pior para aliviar os momentos difíceis.

“Isso depende. No que você está pensando?” Pelo menos aquela resposta era o bastante para dar um mínimo de abertura para o rapaz falar. Naquele momento, Tadashi sabia que precisaria ter cuidado: raramente ele era capaz de ter uma conversa com a mãe que não fosse recheada de tensão e medo da sua parte, e a cada segundo que se passava o garoto sentia o coração pulando em seu peito e o ar passando com dificuldade em seus pulmões.

Debaixo da mesa, ele limpou as mãos suadas na bermuda que estava usando, rezando para que Kamiko não estranhasse o movimentar suspeito de seus braços. Por mais que ele soubesse que ela já tinha notado sua apreensão, ele não queria se expor demais — coisa que parecia ser impossível quando ele estava sob a vigilância da mulher.

“No clube de animais. Lá as pessoas cuidam deles para saber se eles estão bem, estudam sobre o assunto, resgatam animais da rua e também…” O garoto começou a explicar, dando o seu melhor para não tropeçar nas palavras que ele queria muito deixar escapar para fora da sua garganta, mas não conseguiu pois logo em seguida foi interrompido pela mãe, que bateu a mão na mesa com força o suficiente para fazer com que os pratos e copos dessem um pequeno pulo e fazendo com que Tadashi se encolhesse no lugar, encarando-a com os olhos arregalados enquanto engolia a saliva e sentia o corpo começando a tremer.

Era impressionante o quanto aquele mísero gesto já tinha sido o bastante para fazer com que a adrenalina começasse a correr pelo seu corpo — e naquele momento, o adolescente soube que tinha errado e havia acabado de começar uma tempestade.

“Nada disso, Tadashi! Eu não te criei por todos esses anos pra você querer entrar numa palhaçada dessas! Você devia crescer, sabia? Devia parar de agir igual criança que acha que bicho é melhor que gente. Você não sabe nem cuidar de você mesmo, acha mesmo que tem capacidade de cuidar de um animal que nem falar consegue? Sem falar que um clube desse nível só vai te distrair, te atrapalhar nos estudos e piorar suas notas, especialmente em matemática.” Kamiko falava as palavras com uma fúria que brotou em poucos instantes, mas que o garoto sabia que estava sendo fervida havia dias, desde a sua última crise.

Mesmo assim, Tadashi não podia deixar de se sentir culpado por fazer toda a raiva contida dentro da mulher vir à tona, ainda mais com ela sentada na sua frente na mesa do jantar. Sua expressão passou de séria para a raiva, com o cenho franzido — as rugas da idade estavam começando a ficar mais evidentes em seu rosto — e as íris praticamente fuzilando o filho, junto com as palavras que saíam de sua boca sem parar.

"E você vai voltar pra casa fedendo a bicho, vai chegar tarde praticamente todo dia… Vai me deixar só por causa de um bando de bicho, Tadashi? Será que você não tem vergonha? Já me bastam todas as vezes que você insiste em sair com aquele seu amigo de óculos, agora vai trocar a sua mãe por uns animais na rua? Se prefere eles, que tal pegar suas coisas e ir dormir lá fora com eles?” Naquele momento, a mulher apontou para a porta da cozinha, e o rapaz sentiu as primeiras lágrimas começando a escorrer pelo seu rosto. Ele se detestava por chorar tão fácil, ainda mais quando isso acontecia toda vez que Kamiko começava a ser mais severa com ele, mas para seu corpo e sua mente aquela reação já era praticamente automática.

Ele sabia que ela sempre iria machucá-lo, de qualquer forma. Era melhor que ele começasse a sangrar o quanto antes e se deixar sofrer ao invés de deixar tudo escondido dentro de si — por mais que ele ainda choramingasse depois, sozinho em seu quarto ou no chuveiro, na calada da noite, sem ter com quem pedir apoio.

“M-mãe, não estou te trocando, não vou fazer isso…” Ele tentou responder, soluçando logo em seguida. Em momento algum ele imaginava que receberia uma resposta daquelas, mas já devia acreditar que Kamiko o acusaria de estar tentando fugir dela — coisa que, em parte, era verdade. Todavia, Tadashi jamais teria a coragem de fugir de casa de verdade, pois provavelmente seria pego ou teria que voltar para a mulher, e quando ele voltasse, sabia que sua punição seria mil vezes pior que qualquer coisa que ele já tivesse experimentado.

Mesmo assim, aquilo não pareceu ter sido o suficiente para convencer sua mãe, que estava cada vez mais inclinada para perto dele na mesa, praticamente gritando no seu rosto.

“Mas é claro que você não vai! Afinal, sou eu quem te dá tudo! Se não fosse por mim, você estaria andando por aí pelado, sujo, doente e com fome! Na verdade eu até duvido que você estaria vivo, já que não sabe fazer nada direito sozinho e morre de medo das outras pessoas. Não duraria nem um final de semana fora de casa, tenho certeza. E ainda vem me dizer, na minha frente, que prefere entrar num clube pra cuidar de bicho.” Tadashi queria se levantar e ir embora, mas não encontrava forças em lugar algum de seu corpo para se mover. Kamiko nem sequer tinha ameaçado fazer alguma coisa com ele além do terrorismo psicológico — porém, aquilo já bastava para deixá-lo completamente exposto e vulnerável a tudo que a mulher quisesse falar para ele, fosse na forma de sermões, mentiras ou qualquer outro jogo psicológico que ela já tinha desenvolvido e apenas aperfeiçoava com o passar dos anos.

Era doentio e errado, mas o garoto não tinha como escapar daquilo. Ele era forçado a aturar todas as regras insanas impostas por sua mãe, e precisava se adaptar à elas — mesmo quando elas mudavam sem hora e sem motivo.

Ao mesmo tempo que ele chorava, sua mente tomava nota de todas as coisas horríveis que Kamiko dizia: sobre ele ser ridículo e inútil, sobre ele ser incapaz de dar dois passos sozinho sem passar vergonha e dificuldades, como ele era totalmente dependente dela.

Sim, se não fosse por sua mãe, Tadashi já estaria morto. Ele não teria a capacidade de sobreviver sozinho, não encontraria ninguém que estaria atrás de tê-lo como um filho; afinal, quem gostaria de um garoto feio, magricela, inútil e sem talento como ele, a antítese de tudo que um pai desejaria para sua criança?

“Que ridículo, Tadashi. Por acaso você acha que vai ser mesmo veterinário? Olha, eu achava bonitinho quando você era criança, mas chega. Acabou. Basta dessa história. Você está mais alto, mas sua cabeça continua na infância, não é? Só quer brincar e nada de pensar no futuro. E ainda continua um chorão! Não aguenta nem mesmo um sermão pequeno e bobo como esse, e acha que é incrivelmente capaz de entrar num clube assim pra ajudar os outros na escola, manter as notas e ainda por cima não me abandonar como um monte de garotos da sua idade fazem com suas mães. Mas que ingratidão!” Se tinha uma coisa que Tadashi detestava, era ser chamado de ingrato e egoísta: e era justamente por saber disso que Kamiko o acusava tanto desse tipo de coisa.

Ela sabia todas as suas fraquezas, que eram maiores que suas forças. Se pudesse, ela podia paralisá-lo facilmente com o olhar, como ela já havia feito tantas vezes. E naquele momento, a mulher estava atacando-o com cada uma de suas palavras, que saiam com uma força cruel e afiada de sua boca, atingindo-lhe diretamente no peito e quebrando toda e qualquer força presente no corpo e mente do adolescente.

Nem mesmo a coragem para desviar o olhar de sua maior fonte de tormento ele tinha.

“D-desculpe, mãe! Eu sinto muito… Eu não queria deixar você zangada… E-eu sou muito grato pelas coisas que você faz por mim…” Ele era grato — devia ser, para sobreviver a todo aquele inferno que chamava de sua casa. Afinal, se não fosse por Kamiko, era bem provável que ele estivesse numa situação pior.

Mesmo assim, uma voz no fundo de sua mente fazia o garoto se questionar se, na verdade, o contrário não aconteceria: se, por algum motivo, Kamiko não existisse ou não fosse daquele jeito, e sua vida seria melhor e mais feliz.

Tadashi tentava calar aquela voz e seria um absurdo ele deixá-la sair de sua cabeça, especialmente na frente da mulher.

“Sei. Se fosse grato mesmo, já teria aprendido a engolir esse choro faz tempo. Na verdade, estaria era me agradecendo, porque tem um monte de criança louca atrás de uma mãe atenciosa e que pensa tão na frente do futuro dos seus filhos como eu. Mas não, basta eu ir uma vez contra seus gostos, basta eu dizer um não que você fica aí choramingando como se ainda tivesse cinco anos. Você é egoísta, isso sim. Só pensa no seu próprio umbigo que nem limpa direito, igual suas cuecas. Ou você acha que eu não percebo quando você lava elas de manhã quando elas estão sujas e as deixa secando no chuveiro?” A rispidez e o desgosto estavam claramente presentes na voz de Kamiko. Tadashi tentava controlar os soluços, mas não pode evitar de soltar um mais alto com aquela última frase, que não apenas o pegou de surpresa como também o deixou extremamente envergonhado — para o garoto, já bastava de humilhação, e ele certamente não queria escutar sua mãe reclamando sobre seus outros hábitos naquele momento.

Como que cansada daquele seu comportamento patético, Kamiko se levantou, irritada, fazendo a cadeira arrastar com força no chão de uma maneira que fez os ouvidos do adolescente doerem. No entanto, foi o bastante para deixá-lo ainda mais alerta, e fazê-lo se achar ainda mais inferior que a mulher, que parecia encará-lo de um lugar extremamente alto e impossível de alcançar.

“Me poupe desse seu choro. Já te vi e te escutei berrando demais pro meu gosto. Tá na hora de você crescer, mas enquanto você estiver nessa casa, minha palavra é a final. E você não vai entrar pra esse clube ridículo, e nem pra mais nenhum outro que esteja pensando e que exista nessa sua escola. Ouviu bem?” Sim, Tadashi tinha entendido tudo de uma maneira perfeitamente clara. Além disso, não era como se ele fosse ter a coragem de buscar outro clube depois de ter tido seus sentimentos pisoteados pela mãe, especialmente daquela maneira.

“Sim, mãe…” Ele afirmou com a cabeça baixa, fungando e se segurando para não limpar o nariz no próprio braço, que ele já sentia escorrer insistentemente e que só o tornava ainda mais patético.

Tadashi odiava chorar, pois ele sempre ficava todo sujo e ridículo, além de bastar poucos minutos de choro para ficar com dor de cabeça depois. Porém, o que ele mais detestava naquele ato era como ele era, em sua grande maioria das vezes, feito em resposta aos atos de Kamiko.

“E é bom que não me desobedeça. Não quero saber de você se metendo em nada do tipo. Sabe o que eu quero? Notas melhores que as do ano passado! Aliás, lave a louça. E não quebre nada hoje.” Diante daquelas ordens, tudo que o adolescente pode fazer foi afirmar com a cabeça, e logo em seguida a mulher deixou a cozinha sem falar mais nada e sem ao menos passar a mão na sua cabeça.

Para Tadashi, aquele silêncio brutal doía tanto quanto as palavras que ela proferia. Assim que ela saiu do cômodo, ele pegou um dos lenços que ficavam na mesa e afundou seu rosto nele, limpando as lágrimas que pareciam nunca parar de sair de seus olhos junto com o catarro de seu nariz, soluçando e tremendo no lugar.

Depois de alguns minutos, o garoto de sardas se acalmou e conseguiu limpar o rosto de uma maneira decente. Ele olhou para o próprio prato do jantar, e logo concluiu que, por mais que ainda tivesse comida nele, ele não sentia um pingo de fome — e já que Kamiko tinha deixado-o só, ele podia jogar a comida fora dessa vez, junto com o resto do lixo.

Tadashi se levantou com as pernas trêmulas e o corpo fraco, como se fosse um animal ferido. Porém, em seu coração, a mágoa e a raiva se misturavam, deixando-o enojado com tudo: com sua casa, com Kamiko, com a maneira que ele se aproximou daquele assunto com a mulher e, principalmente, consigo mesmo.

Kei não podia saber do que tinha acontecido naquela cozinha.

Enquanto ele lavava os pratos, segurando-os com força em seus dedos finos de unhas roídas pela ansiedade, Tadashi apenas escutava sua mãe assistindo o noticiário na sala de estar, sem ligar para os soluços acidentais ocasionais que seu filho soltava.

No dia seguinte, Kei percebeu que o amigo não tinha dormido direito — suas olheiras estavam mais visíveis que o normal, e ele estava definitivamente desanimado. No entanto, foi apenas na hora do almoço, quando os dois garotos resolveram comer fora da sala numa zona mais isolada da escola, que ele achou mais prudente falar sobre isso.

“Teve uma noite ruim ontem?” O garoto de óculos perguntou, tentando não questioná-lo diretamente sobre o que tinha acontecido para que ele ficasse naquele estado. Tadashi era uma pessoa bastante emotiva, mas ao mesmo tempo era um garoto muito reservado quando se tratava de assuntos pessoais, especialmente sobre o que acontecia em sua própria casa.

Por isso, Kei aprendeu que era melhor deixá-lo optar sobre o que contaria para ele ou não, e aos poucos o rapaz de sardas conseguia se abrir mais com ele sobre seus problemas pessoais.

“Tive. Minha mãe brigou comigo quando eu perguntei se podia entrar para um clube. Ela disse que iria atrapalhar meus estudos e… Bem, ela me proibiu de entrar em qualquer clube escolar. E eu não sei por quanto tempo. Talvez até eu terminar o ano, ou então o ensino médio…” Tadashi não podia contar todos os detalhes da verdadeira tragédia que aconteceu na sua casa na noite anterior, mas também não podia mentir e falar que nada tinha acontecido. Além disso, o assunto dos clubes era algo que, eventualmente, voltaria a ser discutido entre os dois garotos, e era melhor que ele falasse logo que não podia entrar em nenhum ao invés de ficar mentindo e enrolando, ainda por cima para seu melhor e único amigo.

Kei percebeu a tristeza e a decepção na voz e também no olhar do outro garoto, que estava completamente desanimado e mal comia direito, botando pedaços pequenos na boca e demorando para engolí-los. Outra coisa que ele notou foi que Tadashi preferia não manter contato visual com ele em momentos assim, especialmente quando ia contar sobre problemas em casa — coisa que, agora que ele estava mais velho, o rapaz considerava no mínimo suspeito.

A convivência com Tadashi, aliada com a sua crescente maturidade, fez Kei perceber que o que ele tinha ia além da timidez habitual. Ele não sabia se era tudo culpa do bullying que o garoto de sardas sofreu com força quando era mais novo, mas era fato de que ele não tinha uma autoestima boa, além de uma dose de ansiedade maior que a costumeira mesmo para adolescentes.

Obviamente, ele não era nenhum psicólogo. Porém, ele considerava demais a amizade que tinha com Tadashi para simplesmente abandoná-lo, por mais que alguns dias ele não estivesse muito bem. Seja lá o que acontecesse na casa do rapaz de sardas e sua mãe, porém, não parecia ser bom, e Kei se perguntava constantemente o que devia se passar entre eles.

Talvez eles tivessem dificuldades financeiras, considerando que Tadashi comia coisas simples e raramente trocava seus tênis escolares, sem falar de como ele aproveitava as roupas ao máximo mesmo quando ele crescia e elas ficavam apertadas ou curtas para ele. Talvez os problemas não fossem com eles de fato, mas sim com um outro parente e isso podia ser fonte de algum estresse.

Se não fosse nada disso, aquilo significava que, na pior das hipóteses, Tadashi não tinha um bom relacionamento com a mãe. Pensar nisso deixava Tsukishima desolado — ele vinha de uma boa família, com pais e um irmão que o amavam muito e genuinamente, que nunca deixaram de apoiá-lo. Para ele, era cruel pensar na possibilidade de que o seu melhor amigo não tinha esse mesmo tipo de experiência com a mãe, que era a única pessoa que morava junto com ele, considerando que seu pai já era falecido.

Em grande parte, isso poderia explicar muita coisa sobre o comportamento e as atitudes do rapaz de sardas, especialmente a maneira que ele se enxergava e era extremamente desconfiado do mundo e das outras pessoas.

No entanto, Kei queria pensar que estava exagerando quando imaginava esse tipo de coisa. Ele não desejaria tamanho sofrimento nem mesmo para o seu pior inimigo, e Tadashi certamente merecia apoio, respeito e compreensão. Além disso, ele não se achava no direito de se meter na intimidade de ninguém, ainda mais considerando que ele era apenas um adolescente e não tinha qualquer tipo de autoridade.

Por causa disso tudo, ele respeitava seu silêncio e sua hesitação, e esperava que um dia, quando o garoto se sentisse confortável, ele lhe contasse suas razões para agir daquela forma.

Até lá, ele procuraria ajudá-lo da melhor maneira possível.

“Bem, sua mãe te proibiu de entrar pra um clube, mas isso não te impede de chegar mais cedo e sair da escola mais tarde por fazer outras coisas, certo? Muitos alunos chegam antes e ficam mais um tempo depois das aulas se dedicando a outras coisas.” O garoto de óculos teve a ideia depois de alguns segundos de contemplação, e aquela proposta pegou Tadashi de surpresa — tanto que ele quase derrubou sua comida no colo.

Mesmo depois de tantos anos de convivência, Kei ainda era capaz de surpreendê-lo quando falava de vez em quando.

“Mas o que eu poderia fazer, Tsukki? Eu não tenho nenhum talento ou hobbie, e já estudo tanto em casa…” Kei não gostava de escutá-lo falando que não tinha talento algum, já que aquilo definitivamente era mentira. Porém, considerando a baixa autoestima do garoto, aquilo já era algo que ele tinha o costume de dizer, e mais ainda de acreditar.

Talvez, se ele aceitasse aquela ideia, eles poderiam trabalhar para fazê-lo melhorar em relação a esse tipo de coisa.

“Você pode ficar comigo. Podemos conversar e talvez tentar fazer algumas coisas juntos. Sei que não é muita coisa, mas se você quiser, eu estou disposto a chegar mais cedo e ficar com você antes de precisar ir pro treino matinal do clube de vôlei, e um pouco antes do treino da tarde também. Mas isso só se você estiver disposto, é claro. Não quero te colocar em problemas.” O rapaz achou melhor deixar as ideias de possíveis atividades em aberto, até mesmo porque ele não sabia o que exatamente eles iriam fazer com o tempo livre — e porque, certamente, as coisas iriam variar de acordo com o passar dos dias.

Tadashi não sabia direito o que pensar sobre aquilo, ao menos não imediatamente. O que Kei falou era, de fato, verdade — muitos alunos se dedicavam a outras atividades fora do horário normal de aula sem fazer parte de um clube, e se eles podiam fazer isso, em regra, o garoto de sardas podia também.

Além disso, Kamiko não precisaria saber. Na verdade, ela jamais iria saber. Ele podia muito bem falar que passava o tempo estudando ou fazendo algum dever de casa, talvez lendo um livro na biblioteca da escola. Não era como se isso valesse como entrar em um clube, então não iria contra a sua proibição.

Ele devia admitir que aquilo era algo muito esperto, e também estupidamente tentador.

“Eu… Acho que isso pode funcionar, Tsukki. É realmente melhor que nada, e já é alguma coisa para eu fazer. Obrigado por lidar comigo, mesmo eu sendo tão problemático…” Naquele mesmo instante, Kei aproveitou para segurar seu pulso levemente, apertando-o e fazendo-o olhar para os olhos dourados do melhor amigo. Porém, aquele ato não o deixou ansioso — na verdade, era algo que o rapaz de óculos tinha criado o hábito de fazer para chamar sua atenção, e ele sempre o olhava com calma antes de falar o que queria.

“Você não é problemático. É só uma situação chata. Mas já encontramos um meio de contorná-la, não encontramos? Nesse caso, está tudo bem.” Assim que ele terminou de dizer o que queria, os dedos longos de Tsukishima soltaram o seu pulso, de forma que ele pudesse voltar a comer em paz. No entanto, o toque deles por cima da manga de seu uniforme ainda estava presente, e suas palavras eram, certamente, confortantes para o garoto sardento.

“Sim, você tá certo. Obrigado, Tsukki. De verdade.” Tadashi agradeceu, aproveitando para sorrir para ele. Kei, aproveitando o momento, sorriu de volta, e terminou de comer para então esperar o amigo fazer o mesmo, já que antes ele estava praticamente beliscando a comida e só agora parecia estar com apetite novamente.

Minutos depois, quando Tadashi se deu conta do silêncio confortável entre eles e de como Kei observava a maneira que ele comia, que ele resolveu voltar a falar apenas para não deixá-lo completamente sem o que fazer — por mais que ele não parecesse incomodado em olhar a maneira que ele levava cada pedaço de seu almoço para a boca, mastigava e engolia.

“Podemos começar amanhã?” O garoto perguntou, fazendo com que Kei sorrisse suavemente mais uma vez, além de assentir com a cabeça logo antes de dar sua resposta verbal.

“Seu desejo é uma ordem.” Tais palavras fizeram Tadashi deixar a comida de lado para abraçar o melhor amigo, que retribuiu o gesto sem medo, já que eles estavam sozinhos. O abraço de Kei era confortável e forte, muito provavelmente por causa do treinamento de vôlei praticamente diário, e o jovem de sardas apreciava como aquele ato o fazia sentir-se mais seguro e feliz do que quando Kamiko o abraçava no meio de suas crises de choro.

Se pudesse, ele escolheria ter a paz e tranquilidade que era estar no abraço de Kei para sempre. No momento, porém, aquilo era apropriado, e encheu a mente de Tadashi de esperanças que antes ele não imaginava que iriam florescer depois dos acontecimentos da noite passada.

Aquela ideia tinha que dar certo, pois era definitivamente sua salvação. Apenas assim ele poderia lidar com as turbulências de crescer sem achar sua adolescência e sua vida terrivelmente insuportáveis.

Notas finais
Esse lance de clubes em escolas japonesas é bem comum, e o legal é que os alunos podem criar seus clubes e tal, pra não ficar preso nos padrões de esporte, ciências, artes e tal, essas coisinhas mais comuns. Então é possível a existência de um clube como esse aí que o Tadashi é louco pra entrar e não pode, coitadinho ;w; Escrever o sermão e a manipulação da Kamiko em cima dele cortou meu coração em mil pedaços. POBRE CRIANÇA. Acho que se fosse eu no lugar dele, certamente teria começado a chorar junto ;-; VEMK, TADASHI. EU VOU SER SUA MÃE AGORA. VOU TE DAR AMOR E ABRAÇOS ♥ ♥ ♥ Ainda bem que Kei Tsukishima existe, porque esse menino tá sendo um verdadeiro anjo. Bless Tsukki 2k16 -q Acho que a próxima atualização vai demorar mais porque eu vou estar mais ocupada semana que vem e tals SOHSOAHOHSA Mas farei o possível pra postar direitinho o quanto antes, até porque de acordo com os meus planos essa fic vai ter mais 3 capítulos o3o Nos vemos no próximo capítulo! ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.