Pesadelos de Alice
2 Pela toca do coelho
Notas iniciais
Uns dizem que palavras não têm poder algum, outros que é a chave para todos os segredos. Mas por apenas palavras perdidas de uma profecia maldita, gerações e gerações de Collins padeceram por serem amotinados pela lua, mas a décima geração era marcada, e a profetisa amaldiçoada era o símbolo da profecia.
***
Na última noite, Alice acordou ofegante, sentindo um desespero e uma agonia que jamais sentira. De repente, em plenos 16 anos, os monstros de baixo da cama voltaram a assustá-la, seu quarto se tornava mais escuro, sombras tamborilavam entre a luz fraca de seu abajur, e o caminho até a cômoda onde estava o controle da televisão, lhe pareceu um abismo. Era como se o quarto diminuísse e a cama das irmãs bem ao lado, não existissem mais.
Ela agarrou os fones de ouvido no criado-mudo, colocou-os com um volume ensurdecedor ouvindo uma de suas bandas favoritas para que não pudesse ouvir nem os próprios pensamentos e voltou a se deitar. Cobriu a cabeça como quando era criança para se esconder do bicho-papão e adormeceu sem pensar em mais nada.
Desta vez acordou em um cômodo mal limpo, com as paredes de madeira apodrecendo e se viu em uma camisola branca comprida, seu cabelo, totalmente preso por uma fita branca e um ursinho de pelúcia em mãos. O cubículo em que ela estava tinha sombras estranhas que pareciam se mexer. Alice abraçou o bicho de pelúcia na esperança de que ele a trouxesse conforto e fizesse aquele maldito presságio, ir embora.
Uma silhueta escura e apavorante se aproximou devagar. A garota de olhos assustados correu passando pela porta do cômodo e indo parar em um corredor muito longo. Apesar de ter inúmeras portas ao longo do corredor nenhuma delas se abria e no fim dele havia um espelho de corpo inteiro que fugia do tom fúnebre do resto do casebre. Trazia a moldura com desenhos e linhas retorcidas num tom vivo de ouro, no qual a visão se repetia a do longo corredor com as sombras se aproximando, mas algo fugia do reflexo, trazendo uma toca de coelho no chão do outro lado do espelho.
O medo surgiu ainda mais forte quando ouviu a criatura ainda desconhecida se aproximar atrás dela. Foi tempo suficiente para que ela fechasse os olhos. Um ruído indecifrável pairou por um ou dois segundos e ela despencou junto ao ursinho, porém ao invés do chão ela caiu através espelho, pela toca prostrada no canto.
E foi caindo, caindo, caindo em um buraco escuro. Era como se não tivesse um fim. Em meio às sombras, algumas luzes solitárias pendiam em cantos remotos, iluminando — de vez em quando – algumas prateleiras e cristaleiras, com louças decoradas e geleias. Ora ou outra encontrava estantes cheias de livros antigos e empoeirados que pareciam pairar no ar enquanto ela apenas caia.
De uma das prateleiras, Alice recolheu um pote de vidro escuro, cujo rótulo trazia em letras de grafia fina: Geleia de laranja. Então virou a tampa e com um dos dedos, roubou um pouco do doce. Depois o tampou novamente e empurrou em outra prateleira mais abaixo que encontrou.
Caindo, caindo, caindo. Alice encontrou em sua jornada vertical, objetos incomuns e estranhamente familiares. Viu um piano se tocar sozinho, uma cama entalhada de madeira de um carvalho, um armário antigo que ela e a mãe compraram numa venda de garagem e restauraram junto as suas duas irmãs, Emily – a mais velha – e Andy – a do meio.
Quando se deu conta da semelhança bizarra, Alice – que tinha o costume de falar consigo – percebeu que seus lábios estavam selados, e que seus olhos perdiam seu brilho, que sua a pele empalidecia além do tom translúcido que lhe era comum. Seu desespero crescia a cada compassada da queda, um sentimento que não se pode desejar a ninguém em tamanha proporção.
Mesmo com a dor que ia aumentando, conseguiu contar 25 segundos de queda, que por seus cálculos dariam uns 60 metros. Quando lhe faltou ar subitamente, seus olhos já não fitavam mais além de um escuro inebriante que ela sempre temeu.
Um buraco se abriu em meio as suas costelas parecendo perfurar o pulmão, com uma lamina oculta nas sombras daquele buraco. O sangue se esvaia da carcaça moribunda em que a garota que tinha uma vida pela frente estava se tornando.
Alice fechou os olhos e pensou na morte. Esta por sua vez acolheu-a de bom grado.
Depois disso, Alice não sentira mais nada, porém – em contradição a tudo que pensava a morte não lhe fora voraz e cruel – e ela mexeu os braços levemente coo se despertasse. Então seu cadáver ignorou a ideia de escuridão eterna. E Alice despertou.
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