Pesadelos de Alice

3 Lagoa de lágrimas


Notas iniciais
" Como pode o crocodilo Fazer sua calda luzir, Borrifando água do Nilo Que dourada vem cair..." Aventuras de Alice no país das Maravilhas, pag 26

Sua visão estava embaçada, o corpo dolorido, contudo sem fraturas ou hematomas. Na paisagem a sua frente se erguia um jardim airoso, com grama macia por toda sua extensão, esculturas em arvores de pequeno porte com folhagem vigorosa, imitando a forma de animais variados. Cogumelos gigantescos, vermelhos com algumas manchas brancas, mais ao norte e flores de todos os tipos e cores, parecendo ter em si, rostos entalhados que demonstravam tranquilidade, harmonia e paz. Um caminho de pedras de calcário se expandia até a linha do horizonte em meio ao gramado viçoso. No âmbito, montanhas se erguiam verdes até uma camada de neve espessa pelo frio dos Alpes.

No fundo do jardim, um monumento como um labirinto parecia se erguer de arbustos altos com paredes grossas cobertas de relva feitas de heras e outros tipos de vegetação que incrustavam no concreto que deixava de ser visível. E quase sumindo de sua visão, um castelo branco e preto com torres imitando a peça bispo de um xadrez, e uma porta grande de madeira escura fechada.

Alice percebia as peculiaridades daquele mundo... Insetos eram cavalos – como os brinquedos de madeira com um suporte que o faça balançar para frente e para trás- com asas azuis com desenhos de círculos e caracóis que ela só percebeu quando chegou perto de seus olhos. Num instinto, ela recuou alguns centímetros e bateu a mão sobre o nariz onde a mosca cavalo pousou por um instante, fazendo-o coçar.

Ela se sentou e observou que já não estava mais vestida da mesma forma. Agora, ela usava um vestido azul rodado alguns centímetros acima do joelho, com as alças caídas e um avental branco partindo da cintura amarrado com um laço grande em suas costas, no cabelo havia uma fita de cor escura e uma fina corrente com um pingente de alguma pedra azul (talvez fosse uma pequena safira, mas ela não soube identificar) estava em seu pescoço. Uma meia listrada se estendia até um pouco acima do joelho e um sapato ligeiramente desconfortável – como que pertencesse a uma boneca, não a uma pessoa — calçava seus pés.

No chão a seu lado, o ursinho de pelúcia jazia remendado e sem um dos olhos, no qual um X de linha preta pendia. Ela se abaixou para pega-lo e ao se levantar, como ainda estava meio tonta, tropeçou em uma das pedras do caminho e caiu... Outra vez.

O tropeção rendeu um salto leve, as pernas de Alice se jogaram para o alto e ela apertou os olhos esperando o impacto com o chão. Mas ao invés do caminho de pedras em que tropeçara, Alice ouviu um barulho que quebrava o silêncio do jardim, num tibum. Ela se viu em uma poça de água salgada. Primeiro pensou estar em um lago, mas vendo sua extensão percebeu que era muito além, formando um oceano.

Alice observava ao seu redor com surpresa e indignação. “Como posse ter caído, do nada num oceano?” Pensava em voz alta “Como este lugar pode existir? Acho que estou sonhando”. Nesta hora, se lembrou dos pesadelos frequentes e terríveis que tinha quando criança e dos consolos do pai quando ela acordava no meio da noite, chorando. “Quando duvidar de sua realidade, se belisque. Sempre funciona!” Dizia seu pai em um tom terno.

A garota de longos cabelos loiros, e agora molhados, nadou por uma ou duas horas sem avistar nada além de mais água salgada, se cansando e quase se afogando, mas como não via a margem, continuava a nadar. De repente viu ao longe uma silhueta que pensou a principio ser um hipopótamo, mas ao chegar mais perto viu que era um enorme e grotesco rato. Em seus pensamentos veio à ideia de falar com o camundongo gigante, não sei ao certo o porquê, mas ela o fez em francês o que era estranho, pois ela nunca tinha aprendido a falar tal idioma.

Oú est ma chatte? – Disse Alice com uma naturalidade bizarra, mas sem saber ao certo o que dizia, só que tinha algo haver com sua gata, Dinah.

O animal estremeceu de pavor e saiu ofendido em direção ao âmbito tão rapidamente que Alice não conseguiu acompanha-lo, então começou a pensar “Será que depois de tudo o que passei hoje vou morrer aqui em um lugar estranho... Afinal, como vim parar aqui? O que me aconteceu? Eu estou morta ou apenas dormindo? Será que fui trocada por alguém?”.

Alice começou a pensar em todas as garotas de sua idade que conhecia. ”Mabel não posso ser, ela tem o cabelo ruivo e bem curto. Annabelle é mais alta e mais magra. Carry é muito bonita, mas um pouco lesada...”. Alice percebeu a insanidade de seus pensamentos e balançou a cabeça na tentativa de se livrar dos mesmos.

Nesse instante um navio como aqueles da Idade Moderna pairou a seu lado. Em relação a ela, o navio era monumental. Sua proa era composta por grossas camadas de madeira se estendendo por mais ou menos uns 8 metros acima da garota de olhos verdes cinzentos. O mastro principal era esguio, com velas cor de vinho rasgadas em algumas partes e em outras partes queimadas. Na vigia, no ponto mais alto do navio, acima das velas, uma bandeira preta marcada com o símbolo de uma caveira e ossos cruzados – semblante que marca a pirataria — drapejava ao vento marítimo e mais nada era avistado do ponto onde Alice estava.

Uma escada de corda foi jogada de cima do enorme barco, Alice subiu por ela rapidamente. Ao chegar ao topo avistou um convés sujo, cheio de marinheiros com roupas que mais pareciam farrapos, na parte superior havia um homem de meia-idade com a barba comprida e o cabelo castanho claro, que estava à frente do timão e dava ordens para que amarrassem a pobre e confusa Alice junto a outro prisioneiro.

Depois de muita relutância, ela foi, enfim, capturada. Alice era bem forte para uma garota de 16 anos e não era de se submeter à vontade alheia, muito pelo contrário, ela era conhecida por sua teimosia e curiosidade. O prisioneiro a seu lado era um garoto jovem, de no máximo 20 anos, porém parecia ter uma experiência de vida eximia a de um homem dez ou até vinte anos mais velho. O rosto misterioso estava encoberto pelos cabelos negros, porém Alice conseguiu ver um pedaço de tecido preso a uma tira de couro amarrada na cabeça cobrindo-lhe apenas o olho esquerdo, como um tapa-olho. Ele estava desacordado e parecia estar ali há dias quase sem água ou comida.

Alice o observou por um ou dois minutos, até que a cabeça dele tombasse e logo em seguida ele a reerguesse com um ar ainda sonolento. Assim que seus olhos se abriram por completo, a garota observou que não era somente o rosto do rapaz que mantinha seus pensamentos em segredo. Ele recuperou totalmente a consciência e a fitou com aqueles olhos num tom de azul hipnotizante no qual Alice se viu presa.

Por alguns minutos eles se encararam. Então se ouviu um grito que ecoou pelos quatro cantos do navio. O som estridente vinha da parte mais alta do navio, onde o vigia dizia: “Terra à vista”. Quase que de imediato, os marinheiros deixaram de lado a cantoria e se posicionaram a frente da porta abaixo do convés superior. Dela ouviram-se passos rangendo na madeira mofada e então no fim dos degraus surgiu uma figura masculina, quase como o outro homem que comandava o timão, porém esse parecia mais velho, sua barba era quase toda grisalha e suas vestes eram mais enriquecidas. Ele usava um chapéu esguio de veludo com uma ou duas penas compridas juntas em um canto do adereço.

Um dos marinheiros se aproximou com o corpo curvado em sinal de respeito e logo foi repelido por um tiro no peito, ensanguentando o piso de madeira, tornando-o mais sujo. O homem jazia morto no chão enquanto o Capitão se aproximava do mastro onde Alice estava amarrada, fitando-a. Seus olhos eram negros e cruéis e a garota pode notar o brilho melancólico que tomava seu rosto, sua expressão era de uma cautelosa alegria sombria encoberta por pensamentos malignos.

Sua mente ia saindo do breve devaneio que tinha. Seus olhos fitavam Alice como nunca. Ao se aproximar ele agarrou o queixo da jovem e pressionou, apertando as bochechas dela — de um modo até que engraçado – virando a cabeça de um lado para o outro devagar para que pudesse observar bem.

Depois de um ou dois minutos pensando, chamou o homem que estava à frente do comando do navio quando Alice subiu a bordo, chamando-o de “Imediato”. Fosse o que fosse Alice e sua curiosidade queriam muito saber o que foi dito de um homem a outro, pois a cara do Imediato foi de tal surpresa que o sentimento mais comum na garota londrina fora despertado.

O Capitão e o Imediato saíram às pressas depois do murmúrio. Um dava ordens aos marujos enquanto o outro observava a terra em frente. O rapaz ao lado de Alice já estava recuperado o bastante para poder falar. Alice mal sabia o quanto se arrependeria de desejar que ele falasse, mas o desejou assim mesmo.

Depois que todos se afastaram, o jovem e Alice se entreolharam novamente, mas olhares não satisfaziam a inquietude da garota, que logo, começou a despejar frases sem sentido e questionamentos sem nexo por, mais ou menos, dez minutos.

Quando Alice parava para respirar para poder voltar a seu monólogo delirante, o garoto de olhos misteriosos com o rosto impaciente aproveitou a deixa e se dirigiu a ela:
– Você não consegue calar a boca um minutos?!

– Realmente! Quando estou nervosa falo um pouco além da conta... – Ela fora interrompida

– Um pouco?- Disse o jovem levantando as sobrancelhas para acentuar seu sarcasmo.

– Prefiro falar muito a abrir minha boca poucas vezes só pra dizer merda. – Disse Alice num tom triunfante com um leve sorriso arqueado para o lado esquerdo – Afinal, não sei onde eu estou o que farão comigo, e de certo modo ainda acho que isso é um sonho... Dimensão paralela... Talvez eu tenha morrido e vim parar em outro mundo – Alice agora se dirigia a ela mesma.

– Não se preocupe assim que atracar eu solto a gente.

– Me diz como vai fazer isso? – Indagou a garota curiosa – Esse lugar está cheio de marinheiros armados e você esta bem amarrado com duas cordas em um mastro bem visível.

– Para de se meter a esperta, você mesma disse, não conhece nada aqui, eu sim, então para de reclamar e confia em mim.

Cerca de uma ou duas horas depois eles já chegavam perto da velha e rústica doca que abrigava alguns pequenos navios, gondolas, um ou dois botes e apenas mais uma embarcação tão grande quanto a que estavam. Do convés se avistava pequenas silhuetas se mexendo rapidamente (provavelmente preparando a chegada do maior barco daquele porto).

Eles enfim atracaram no completar de três horas. Enquanto a mercadoria era desembarcada, o garoto de olhos azuis aproveitou o descuido de um dos marujos que deixou cair um canivete cego no convés sem dar falta. Rapidamente ele o arrastou até as mãos e com muito esforço soltou a mão esquerda. O resto não foi tão difícil, mas Alice estava muito bem presa e cortar as cordas sem que notassem não era fácil.

Depois de soltos continuaram ali como se nada acontecesse. Então o capitão se aproximou balbuciando o quanto sua última carga era valiosa e que a Duquesa adoraria receber a profetisa que por tanto tempo esperavam. Neste instante, os olhos calmos e misteriosos do garoto de cabelos negros se arregalaram e uma súbita expressão de surpresa lhe tomou a feição.

Alice não sabia por que, mas isso fez com que o garoto se apressasse... Muito.

Quando o Imediato passou por eles, o garoto se levantou e em um piscar de olhos rendera o homem com cerca de quarenta anos. Todos ficaram em alerta se voltando para o mastro onde os dois estavam. O capitão tomou frente da pequena multidão perguntando histericamente como eles escaparam. Quando o marujo alienado que havia derrubado o canivete deu um passo à frente para assumir a culpa foi interrompido por uma bala de pistola que atravessara a sua garganta fazendo seu sangue manchar o convés, mais uma vez. Ele caiu agonizante com a mão ao redor do pescoço na tentativa inútil de estancar o sangramento, mas ninguém mais o via, a atenção voltara novamente para o imediato que era feito refém por um reles “moleque”, como dizia o capitão.

O garoto andou até a doca acompanhado de Alice e do refém, a faca estava apertada em sua garganta e arrancou-lhe apenas um filete de sangue. Assim que conseguiram sair do navio, o jovem fez com que o homem ajoelhasse e deu uma forte cotovelada na nuca do Imediato fazendo-o desmaiar, mas liberando a fúria dos outros marinheiro que já correram para atacar-lhes.

O jovem se aproximou do homem desmaiado e tirou de destro do casaco de veludo uma adaga de lâmina longa e jogou-a para Alice, e depois desembainhou a espada do Imediato se posicionando para luta.

Uma pequena multidão de cinco ou seis homens se aproximava rápido, afinal eram apenas 12 metros longe do grande navio. Em uma explosão de adrenalina, O garoto de olhar animado cortou a perna de um dos marujos que caiu de joelhos deixando seu dorso exposto, e foi ali que o jovem atacou. O segundo atacou-lhe o pescoço tentando acertar-lhe a jugular, porém o garoto se abaixou rapidamente para desviar do golpe e ao mesmo tempo cortou os tendões de um terceiro que estava de frente para Alice, mas que cometera o erro de ficar de costas para ele. O homem caiu comum urro de dor enquanto ele revidava o golpe do pirata anterior rasgando-lhe o peito desprovido de armadura. Um quarto homem vinha em sua direção com ódio — isso o fez dar golpes frenéticos, porém inofensivos, pois a raiva deixa as pessoas cegas do óbvio — ele foi logo nocauteado por um golpe também na nuca com o cabo da espada. O último homem correu para se refugiar no navio.

O capitão desembainhou a espada e matou o desertor que procurava abrigo no convés do barco, cortando seu flanco e o empurrando para o lado. Depois limpou a arma nas vestes dele e andou calmamente até os jovens com um olhar de desdém.

Ele era bem mais velho e, portanto mais experiente, foi difícil para o rapaz rende-lo. Defendendo dois e três golpes diretos em cima e embaixo, faiscando. Ate que o jovem defendeu um golpe com a ponta da espada, que escorregou e cortou seu braço. Depois virou, defendendo mais dois golpes e aproveitando uma brecha no compasso do Capitão e cortando a mão que empunhava a espada. O sangue saltava do membro arrancado, e uma expressão de assombro toou os olhos cruéis, depois padeceu sob a lamina que o garoto empunhava. A carcaça ainda quente do Capitão despencara no chão com a perfuração no peito atingindo seu coração, manchando mais uma vez o convés do grande navio.

Depois de toda confusão, ele retirou o cinto do Imediato e deu-o a Alice junto com a espada ainda suja de sangue. Pegou a pistola do capitão, sua espada e a luneta que ele carregava. Amarrou os marujos que não estavam mortos na mesma posição em que ele e a garota loira ficaram.

Desceu os degraus até a espaçosa cabine e folheou alguns cadernos, dobrou e guardou anotações, pegou uma bolsa e encheu-a com suprimentos, água e duas espadas curtas por precaução. Ao sair deixou um recado com o último dos marinheiros acordado: “Diga a Duquesa Fallen que isso foi cortesia do Valete de Espadas e que espero vê-la em breve”. Alice não sabia o que tudo aquilo queria dizer, aliás não sabia de nada que dizia respeito àquele mundo.

Os dois andaram por um longo tempo sem sair da praia até escurecer. O céu naquele lugar tinha mescla de azul com faixas roxas e rosadas como uma aurora boreal, mas em toda sua extensão. As estrelas literalmente passeavam pelo céu colorido. Alguns vagalumes cambaleavam entre a entrada da negra floresta e o comecinho da praia. Uma brisa fria e salgada deixava os longos cabelos loiros de Alice se emaranharem ao vento.

O tal “Valete” acendia uma fogueira para mantê-los aquecidos, enquanto Alice devorava as frutas que eles haviam pegado no navio. O clima entre os dois era tenso até que a garota muito curiosa com o nome do rapaz decidiu se manifestar. Afinal quem tem nome de carta de baralho? Mas nesse mundo tudo era possível.

– Sabe o que os piratas fariam comigo?

– Hum? – Ele fingiu não entender a pergunta, mas na verdade buscava uma resposta que não a apavorasse. — Ah eles... não sei.

– E porque você deixou aquele recado com o marujo restante? Seu nome é mesmo Valete?

– Vai começar a falar sem para de novo? – Valete interrompeu a tentativa de aumentar o fogo e olhou para Alice levantando novamente as sobrancelhas e sorrindo sarcasticamente, representando sua impaciência.

– Só me responde isso.

– Por quê? Você não tem nada a ver com a minha vida que eu saiba.

– Te aconselho a me responder por que quando minha curiosidade ataca eu fico muito chata.

– Você percebeu que é curiosa o tempo inteiro? Sempre fazendo um milhão de perguntas.

– Qual é o seu problema?! É só responder.

– Não. Aí você vem com mais perguntas e eu não tenho muita paciência.

– Jura?! Nem deu pra notar.

– Cala a boca e dorme amanha temos um dia cheio pela frente.

– E você acha que eu vou a algum lugar com um garoto idiota que tem nome ridículo e um tapa-olho. Como perdeu o olho?

– Viu sua maluca. Fica aí fazendo mais perguntas.

– Que saco! Já cansei de você me julgando. Eu não preciso de você e não vou com você a lugar algum.

– Quem falou que você tem opção?

Alice riu em um tom de desprezo tentando esconder a insegurança que tinha de estar sozinha naquele mundo de loucos.

– Não entendi a risada. Você vai se meter em confusão de novo e eu vou ter que te salvar mais uma vez.

– E por que se importa? – Um silêncio incomodo se seguiu. — Você é muito convencido. – Prosseguiu Alice, cruzando os braços como uma criança contrariada.

– Não me importo, mas eu...

Nesse instante Alice se levantou e foi em direção ao outro lado da praia perto de um coqueiro alto, em que as folhas grandes se espalhavam pelo topo do tronco, conforme o dia escurecia, as folhas se iluminavam como se inúmeros vagalumes tomassem sua forma. Alice se sentou em um tronco perto do mar deixando o garoto de olhos azuis cinzentos falando sozinho.

Dez ou doze minutos depois ele fora em direção ao coqueiro buscando Alice e ao chegar perto ouviu o que parecia ser alguém choramingando e ao se aproximar ainda mais da garota loira percebeu uma lagrima cair de seus olhos verdes mostrando um borrão de maquiagem no rosto pálido iluminado pela lua.

– Foi assim que esse oceano foi feito. – Disse o garoto.

– Ahn? – Perguntou Alice surpresa. Fitando-o com o olhar melancólico. O brilho pálido do astro celeste acima, acentuava sua beleza lívida, os traços finos do rosto, os lábios bem desenhados num tom rubro, o cabelo longo e louro caindo sobre a cintura, e os olhos verdes cinzentos — tão imprevisíveis quanto seu humor -, agora cintilantes pelas lágrimas que guardava.

– Com lágrimas. O oceano foi feito com lágrimas. No começo era somente uma poça, mas uma garotinha que veio parar aqui acabou comendo muito de um bolo que lhe faz crescer e suas lágrimas continham litros e mais litros começando tudo. Isso à séculos. Depois mais delas vieram e foram derramando mais lágrimas formando esse enorme oceano.

– É uma bela lenda.

– Não é uma lenda, mas... Enfim é Peter.

– O que?

– Meu nome é Peter, Peter Crawford. Valete é... Um apelido.

– Apelido mais estranho. — Alice limpou as lágrimas e o filete escuro do lápis de olho que as acompanhara, então se voltou novamente para Peter e lhe disse. – Também é uma forma estranha de se apresentar, do nada.

– Concordo. – Ele sorriu

– Meu nome é Alice Collins, de Londres...

– Eu sei quem você é.

– C-como sabe quem eu sou?

Peter sorriu e revirou os olhos como se estivesse reclamando de mais uma pergunta.

– Todos aqui sabem quem você é e é por isso que vai morrer assim que pisar naquela floresta.

– Dá pra explicar melhor? – Dizia Alice em tom brando, para disfarçar mais uma pergunta.

– Na verdade não. Não sei de toda sua história, mas meu tio sabe. Ele mora em um bar num vilarejo perto daqui e pode nos ajudar.

– Acho melhor irmos dormir então.

Os dois voltaram em direção ao pequeno acampamento improvisado, em um silencio cômodo. Depois se sentando em volta da fogueira, para se aquecer da noite fria que a brisa do mar trazia para praia..

– A propósito, obrigada. – disse Alice, o olhando com gratidão, o mesmo brilho singular em seus olhos.

– Obrigado, por quê? – Disse Peter, não que não soubesse, mas queria ouvi-la baixar a guarda por um instante.

– Por salvar minha vida.

– Não foi nada. Tenho um fetiche por garotas bonitas em perigo. – Ele sorriu com certa satisfação estampada nos lábios, junto a um toque de autoconfiança exacerbada.

– O que? – De súbito, a expressão de Alice mudara de serena e grata, a indignada e com raiva.

– Que foi? Está surpresa por eu te achar bonita? – Disse Valete com desafiou em sua voz grave, como se o que dissera lhe fosse comum.

– Não, por você me achar uma garotinha ingênua que não sabe se defender.

– E não é verdade?

– Você é muito ridículo, machista, um idiota completo.

– Por dizer a verdade?

– Não, por ser assim.

Alice virou de lado deixando Peter com cara de indignação virado sozinho para a fogueira, resmungando da troca instantânea de sentimentos de Alice. Depois de alguns minutos pensando no quanto queria estar em casa com sua gata e seus fones de ouvido, Alice adormeceu.

***

– Ei dorminhoca, não acha que vai se atrasar pra aula? – Disse Emily a balançando em meio às cobertas.

Alice abriu os olhos devagar e se espreguiçou. Viu sua irmã mais velha sentada no canto de sua cama e Andy caminhando apressada pelo quarto, enfiando alguns objetos aleatórios em uma bolsa grande.

– Não quer uma carona pra escola? – Perguntou Emily.

– Quero sim. – Disse Alice esfregando os olhos num tom calmo.

– Então vai se arrumar, pega suas coisas que eu deixo você e a Andy no colégio, depois vou pro trabalho. – As duas foram interrompidas pelas trapalhadas de Andy.

– Vocês viram meu relógio de bolso. – Perguntava enquanto vasculhava o quarto.

– Pra que quer um relógio de bolso Andrea? – Perguntou Emily levantando as mãos com as palmas para cima.

– Talvez porque a viagem que ela fará ao século IX não tenha bateria no celular. – Disse em deboche Alice, se levantando da cama.

– Engraçadinha. – Disse Andy com sarcasmo e intolerância, pegando um objeto prateado e circular com uma corda fina, no qual o desenho de uma lua se mostrava altiva sobre três estrelas.

Alice se pós em frente ao espelho com moldura dourada, o espelho em que caíra no sonho da noite anterior. Então pensou na confusão de seus pensamentos, das memórias e visões em sua noite de tormentas. Ela mal sabia que seus sonhos eram lembranças, e que sua maldição estava mais perto que nunca de se concretizar.

– Liz. – Andy chamou sua atenção para o colar que trazia no pescoço. – Onde conseguiu isto? – Ela apontou para a pequena joia azul.

– Eu-eu não sei. – Respondeu Alice. – Apenas vi num sonho.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.