Pesadelo dos Dias Modernos
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Notas iniciais
O que a fez virar ali? Por que raios Amelia F. Jones tinha que desviar seu curso e passar naquele beco escuro e fedido? Ela já estava prontinha pra ir pra casa. A balada tinha acabado, o champanhe ainda estava fazendo efeito em seu sangue e... Ah. Sangue. Sim, foi isso que a fez virar. Seus pais eram médicos, então aquele cheiro metálico de sangue já era bem conhecido a ela. E não só isso, seus pais sendo médicos, eles sempre ensinaram sua pequenina a socorrer quando alguém estivesse em perigo. E, bem, onde tem sangue, tem perigo.
Sem nem ao menos se incomodar por estar usando um vestido azul relativamente curto e saltos altos, ela apertou o passo na direção que sentiu aquele odor forte que já lhe era tão familiar.
O salto alto fazia um barulho constante no asfalto, anunciando sua chegada. Talvez Arthur não tivesse escutado — o que é pouco provável, já que ele era uma besta — ou talvez ele simplesmente não se importasse mesmo. Afinal, uma única vítima era muito pouco para uma noite.
"Olá?" A americana exclamou, vagarosamente adentrando o beco escuro e aproximando-se cada vez mais do cheiro que entupia suas narinas.
Ninguém respondeu. Sangue e silêncio. Algo definitivamente estava errado ali. Amelia agarrou a alça de sua bolsa, por proteção e até mesmo medo ou vontade de agarrar em algo em uma esperança de se manter segura. Engoliu em seco e continuou a andar.
Apenas alguns passos adiante, ela já viu o que causava todo aquele fedor. Um corpo caído no chão. Uma mulher. Mas onde estava o sangue? Nenhuma poça nem próxima nem ao redor dela. Pela rápida olhada que Amelia deu, ela conseguiu ver dois machucados no pescoço da mulher, mas nada além disso, pois antes que ela pudesse ver o corpo melhor, seus olhos pararam sob outra sombra que havia no beco. Uma maior, mais forte e definitivamente mais bonita.
O homem que tinha diante de seus olhos era maravilhoso; loiro, alto, forte e olhos verdes que praticamente brilhavam em meio àquela escuridão. Um pequeno detalhe, porém; havia sangue escorrendo de sua boca e manchando seu queixo. Provavelmente um sangue que não era dele, já que ele estava sorrindo. Ninguém sorri ao se machucar. Ninguém normal, pelo menos.
"Você--!" Amelia estreitou os olhos e tirou de sua bolsa um canivete. Ela apertou o instrumento com força, tentando parecer intimidadora.
"Seu filho da puta..." Ela murmurou, aos poucos elevando a voz estridente. "Você não vai se safar, seu merdinha...!" A fúria tomou conta dela e deixou que sua boca cuspisse palavras que ela não estava tão acostumada a dizer.
Assim que ouviu as palavras dela, o vampiro fixou seu olhar frio e penetrante na garota. O sorriso cínico e malicioso do homem continuava estampado em seu rosto de um jeito asqueroso.
Ele olhou-a de cima a baixo, apreciando as curvas do corpo da mulher como se ela fosse um pedaço de carne. Arthur lambeu os lábios, ele precisava ter o pescoço dela em sua boca, o mais rápido possível.
Amelia, é claro, não perdeu tempo. Ela largou seus sapatos ali e saiu correndo — salto alto atrapalha uma fuga. A coitada estava perdida, já estava escuro e ainda com a bebida, todas as ruas pareciam iguais. O medo também não ajudou porque ele só gritava 'corra', mas não dava a ela uma direção. No fim, a americana terminou em outro beco sem saída. Não tendo muito o que fazer, ela se escondeu atrás das latas de lixo e começou a fazer o que qualquer um faria naquela situação: rezar.
Arthur nem se deu ao trabalho de correr atrás dela. Ele iria viver pra sempre, qual o sentido de apressar suas tarefas diárias? Ter mais tempo de descanso? Como se 200 anos não fossem o suficiente. Ao invés disso, ele simplesmente usou as costas de sua mão, até então encoberta por uma luva branca, para limpar o sangue que ainda escorria de seu queixo. A luva adquiriu um tom rosado e Kirkland sorriu ainda mais.
Ele se abaixou e pegou os sapatos da donzela antes de começar a caminhar atrás dela. Sim, caminhar. Como se estivesse dando uma volta no parque.
Guiando-se pelo rastro de perfuma que ela deixava e pelo som da respiração arfada que a menina produzia, Arthur chegou facilmente até o novo esconderijo de sua vítima.
A sola de seus sapatos ecoava no estreito beco. Amelia cobriu suas boca, tentando evitar que seus soluços escapassem e denunciassem sua posição. Mas já era tarde, ele já sabia onde ela estava.
"Senhorita? Acredito que eles pertencem a você." Ele estendeu os sapatos, escondendo o riso e tentando controlar o forte impulso de pular na garganta dela e rasgá-la ao meio.
Vendo que ele já sabia de sua localização, a loira se levantou e tentou retribuir o sorriso que o outro lhe lançou. Os dois sorrisos eram falsos, um queria matar ao outro.
"Ah.. Uh... É, obrigada." Ninguém se moveu. O braço dele continuou estendido. O sorriso falso dele também logo se esgotou e deu lugar ao verdadeiro. O rosto dela empalideceu. Suor escorria por suas têmporas e ela podia sentir suas pernas tremendo.
Minutos se passaram, um apenas analisando o movimento do outro. Amelia não aguentando mais ficar ali começou a ir para trás, empurrando-se contra a parede, tentando manter-se o mais distante possível daquele... ser. Ela já se imaginava nas manchetes do dia seguinte; "Americana bêbada é encontrada morta em um beco." Imagine o pai dela lendo isso? Bom, pelo menos ela seria morta por um cara gato.
Arthur apenas abaixou o braço, mas Amelia já encarou aquilo como alguma ameaça: "Eu vou gritar. Eu vou gritar e berrar e lutar se você tentar me machucar. Sou mais forte do que aparento, seu doente." Até aí Arthur ouvia apenas sorrindo. Quanta idiotice. Até parece que ela teria alguma chance contra um ser imortal. Ela ousou mover-se para alcançar o celular dentro da bolsa, seus dedos rapidamente discaram os números 911. "Mesmo que você me mate, eu não vou deixar você se safar sem encarar as consequências." Foi aí que o sorriso de Arthur transformou-se em uma careta. Suas sobrancelhas grossas se contraíram e seus dentes rangiam em puro ódio. Por que ele demorou tanto para matá-la?
Com uma velocidade desumana ele se jogou contra ela. Uma mão estava na parede ao lado da cabeça da moça, enquanto a outra procurava pelo celular para esmagá-lo. Seus peitos estavam colados um no outro e agora que o rosto dele estava tão perto do dela ela pôde perceber o quanto seu bafo fedia a sangue.
"Não vamos criar uma confusão... Seja boazinha..." Ele sussurrava, tentando manter a compostura.
Todas suas tentativas foram em vão. Quando Amelia disse que iria lutar, ela estava falando sério. "Pare..." A loira empurrou ele com todas as forças que lhe restavam e sacou da bolsa um spray de pimenta. Sem nem pensar duas vezes, ela espirrou o líquido nos olhos do vampiro. Arthur não gritou, mas soltou um ruído que mais parecia o rugido de uma besta.
"Socorro! Alguém me ajude! Socorro!" A americana saiu correndo, deixando para trás um enorme perigo: um vampiro experiente, impiedoso, cruel, faminto e agora irado. Cego, porém irado.
Arthur nunca sentiu algo assim antes... Essa sensação de ardor, parecia que ele ia perder os olhos! Não conseguia pensar em mais nada, só queria que aquela dor terrível acabasse. Mas... E a garota? E sua vítima? E a polícia?! Droga, ele não poderia ficar ali. Mesmo com a visão ruim, ele ainda poderia depender de sua audição e de seu olfato, que eram igualmente super desenvolvidos.
Tropeçou algumas vezes no começo, mas o cheiro da garota ainda estava fresco em sua mente, então persegui-la não seria tão difícil. Além disso, becos sem saída só têm uma rota de escape, então tudo que Arthur tinha que fazer era correr em linha reta. "Você não vai fugir!" Ele alcançou-a sem dificuldades, sua velocidade era descomunal se comparada a de Amelia.
Chegando perto da loira, o homem pulou em cima dela. Um braço passou ao redor dos ombros e outro da cintura, puxando-a para perto de si e evitando que a americana se machucasse na queda. Ao caírem, o vampiro ficou por cima dela.
"Socorr--!" Ela tentou soltar um último grito de desespero, mas Arthur cobriu a boca dela com sua própria mão. "Fique quieta!" Finalmente ele elevou o tom de voz. O sorriso cínico não estava mais em seu rosto, nem mesmo sua expressão de psicopata. Suas sobrancelhas estavam franzidas em preocupação, não ódio. Ele estava preocupado com a polícia. Ela ligou para eles e berrou que nem uma condenada, alguém com certeza a ouviu.
Dito e feito. Segundos após esse pensamento passar por sua mente, sirenes de polícia foram ouvidas. E não muito longe dali, aliás, muito perto.
Rangindo os dentes, Arthur agarrou sua vítima e jogou-a por cima do ombro, disparando para longe dali. Seus olhos ainda estavam doloridos, mas ele ao menos agora era capaz de enxergar vultos e distinguir cores, coisa que antes parecia impossível.
Não demorou muito e a menina começou a protestar. Ela esperneou e voltou a gritar. "Me solta! Me larga!" De saco cheio, o inglês ouviu o que a mulher disse pela primeira vez e parou, colocando-a no chão, mas não largando de seus ombros.
Para infelicidade dele, quando ele olhou novamente para o rosto da jovem, ele estava vermelho, inchado e coberto de lágrimas. Ela cedeu e não tinha mais forças para se manter em pé, dependendo completamente das mãos do homem. Nem parecia a mesma garota que o desafiou há apenas poucos minutos atrás.
Arthur podia ser um vampiro, mas ainda era homem. Nem ele resistia às lágrimas de uma garota. Pela primeira vez naquela noite — não, na vida — ele se sentiu culpado. Ele devia ter matado-a logo de cara e poupar esse sofrimento de ambos. Nenhum deles estava feliz com a situação...
Ele desviou o olhar e engoliu em seco. "Eu não vou te machucar." Ele finalmente disse em um tom quase inaudível. O pior é que era verdade. Ele não pensava mais em chupar o sangue dela, só em tirá-los dali. Obviamente ele não podia deixar a garota ir embora, ela com certeza contaria para polícia o que aconteceu e eles iriam atrás de Arthur. Então ele seria preso e aí teria que matar todos os polícias daquela cidade e fugir para outra cidade. E na outra cidade já iam começar os rumores estranhos sobre ele e tudo ia se repetir... Seria um saco.
"Só fique quieta." A menina ainda soluçava. "Se ficar calada, tudo vai ficar bem... Pelo menos pra você."
"Você acha que eu sou idiota?" Mesmo chorosa a menina ainda tinha forças para peitar um vampiro. Arthur Kirkland realmente escolheu uma péssima vítima. "Por que eu iria acreditar em você?" Ele suspirou. De repente toda pena que ele sentiu dela sumiu. "Pense bem." Ele disse, ainda apertando os ombros da menina. "Se eu te matar ou mesmo machucar, a polícia ainda viria atrás de mim. Caso não tenha percebido, não há outra casa por aqui a não ser a minha. Quem você acha que seria o culpado número um?" Ótimo, ela voltou a chorar. Só ficava murmurando 'Por favor, só me deixe ir embora...', mas era óbvio que Arthur não iria fazer isso. Não tinha nem motivos para deixá-la ir.
O barulho da sirene apareceu de novo e o corpo dos dois estremeceu. Um de medo e a outra de alívio. Sem mover um músculo do rosto, Arthur rosnou: "Calada." Amelia respondeu em um suspirou, finalmente obedecendo o loiro. "S...Se eu ficar quieta, é melhor me deixar ir embora..." Os ombros dela já formigavam devido à força com que Arthur apertava-a. Provavelmente ela ia ficar cheia de hematomas.
Mas ele não podia deixá-la ir embora. Eles teriam que ficar juntos até que Arthur pensasse em algo melhor para fazer com ela. Ah, que erro fatal, Kirkland... Mantendo uma humana viva! Que tipo de vampiro é você? ...Exato. Vampiro. Algo que ele não queria ser mais. Ali a sua frente estava uma possível salvação para isso.
Os olhos verdes do vampiro procuraram pelos azuis da humana.
"Tenho outra proposta pra você."
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