​A vitória sobre a maldição de Gothel trouxera uma paz ainda mais profunda ao reino, mas, passadas algumas semanas, notei que algo não estava bem com a minha rainha. Rapunzel, que normalmente acordava com a energia de um sol nascente, começou a preferir as sombras dos lençóis e o silêncio das manhãs tardias.

​Estávamos no grande salão de jantar quando o cheiro do banquete real — normalmente o momento favorito dela — pareceu atingi-la como um golpe físico.

​— Rapunzel? — perguntei, deixando cair a minha habitual pose descontraída enquanto ela levava a mão à boca, empalidecendo subitamente.

​— Eu... eu já volto — murmurou ela, saindo apressada em direção aos jardins.

​Flynn, que estava a devorar uma coxa de peru, parou a meio e olhou para mim.

— Gojo, tu notas tudo com esses teus olhos mágicos. Não vês que ela está... estranha?

​— Eu vejo o fluxo de energia dela, José — respondi, levantando-me e seguindo-a com o coração a bater num ritmo desconhecido. — Está... diferente. Mais densa. Mais brilhante.

​Encontrei-a junto à fonte de pedra, tentando recuperar o fôlego. Aproximei-me lentamente e, pela primeira vez, não usei o meu poder para flutuar ou brincar. Apenas a envolvi nos meus braços.

​— Outro enjoo? — sussurrei, retirando a venda para a olhar nos olhos com toda a clareza.

​— Satoru, eu não percebo — disse ela, encostando a cabeça no meu peito. — Sinto-me cansada, a comida não me cai bem e o meu coração parece que está a bater por dois.

​Ao ouvir aquelas palavras, parei. Foquei os meus Six Eyes não na aura geral dela, mas no seu centro. E lá, no meio daquela luz dourada que eu tanto amava, vi um pequeno ponto de energia. Era uma chama minúscula, mas tão pura e resiliente que me deixou sem ar.

​Era uma mistura perfeita da minha energia infinita com a luz solar da Rapunzel.

​— Rapunzel... — a minha voz falhou, algo que raramente acontecia. — O teu coração está a bater por dois porque... há realmente dois corações aí dentro.

​Ela afastou-se, olhando-me com os olhos arregalados. — O quê? Tu queres dizer que...

​— Tu estás grávida — disse eu, e um sorriso, o mais genuíno da minha vida, abriu-se no meu rosto. — Vamos ter um pequeno problema de cabelos brancos ou dourados a correr pelo castelo em breve.

​Rapunzel soltou um suspiro que foi metade riso, metade choro. — Um bebé... Satoru, nós vamos ser pais.

​A notícia espalhou-se pelo castelo mais rápido do que um teletransporte meu. O Rei e a Rainha ficaram radiantes, mas quem entrou em pânico total foi o Flynn.

​— Um bebé Gojo?! — exclamou ele, a meio do pátio. — Vocês têm noção do perigo? Se ele herdar a tua mania de flutuar e a força dela com a frigideira, este castelo não dura uma semana! Eu vou ter de mandar reforçar as paredes!

​— Relaxa, Rider — ri-me, enquanto via Rapunzel a escolher tecidos macios para o berço. — Eu vou ser um pai exemplar. Vou ensinar-lhe o básico: como dominar o espaço e como irritar capitães da guarda.

​— É exatamente disso que eu tenho medo! — resmungou Flynn, embora tenha sorrido logo a seguir e batido no meu ombro. — Parabéns, Satoru. De verdade.

​A gravidez da Rapunzel mudou tudo para mim. Eu, que sempre fui o escudo de Corona, agora passava horas sentado ao lado dela, com a mão sobre a sua barriga, sentindo aquela pequena energia crescer.

​À noite, enquanto ela dormia, eu ficava de guarda na varanda, olhando para as estrelas. Já não era apenas sobre proteger um reino ou uma promessa. Era sobre proteger o futuro.

​— Sabes — sussurrei para a noite, sentindo a presença de Geto algures no horizonte da minha mente — eu achava que o Vazio Ilimitado era a coisa mais vasta que eu alguma vez conheceria. Mas este pequeno ser aqui dentro... ele é muito maior.

​Rapunzel mexeu-se durante o sono e segurou a minha mão, mesmo dormindo. Eu não era apenas o Mais Forte. Eu era um pai em espera. E o mundo nunca pareceu tão bonito.