Alguns dias após o casamento, Corona era um exemplo de prosperidade. Mas, como eu bem sabia no meu mundo original, onde há luz e felicidade intensa, as sombras das emoções humanas começam a se acumular nos cantos escuros.

​Tudo começou durante o solstício de inverno. O céu, que deveria estar limpo para as lanternas, tornou-se de um cinza doentio. O ar ficou pesado, saturado com um cheiro que eu conhecia bem demais: o cheiro de Energia Amaldiçoada.

​Eu estava no pátio treinando alguns soldados (e os humilhando levemente com minha velocidade), quando senti um calafrio na nuca. Meus Six Eyes dispararam.

​— Satoru! — Rapunzel apareceu na sacada, seu rosto preocupado. Ela também sentia. O contato constante com a minha energia e o milagre da torre despertaram nela uma sensibilidade espiritual. — O que é aquilo na floresta?

​Olhei para além das muralhas. Uma fumaça negra, densa e pulsante, estava subindo da antiga torre da Gothel. As árvores ao redor estavam murchando instantaneamente.

​— Parece que a amargura daquela bruxa deixou um resíduo — murmurei, colocando minha venda preta, que eu agora só usava para batalhas reais. — Uma Maldição de Grau Especial está se formando a partir do ódio que ela sentiu antes de desaparecer.

​Flynn — agora Capitão José — chegou correndo, montado em um Maximus que bufava de nervosismo.

​— Gojo! Os batedores dizem que as sombras estão ganhando forma! Elas têm rostos... rostos que gritam! O que fazemos?

​— José, mantenha os civis dentro do castelo. Feche os portões e reforce a guarda — ordenei, e pela primeira vez em anos, minha voz tinha o tom de comando do xamã de elite. — Rapunzel, você fica no centro do reino. Sua luz é a única coisa que pode impedir que a maldição se espalhe pelas ruas.

​— Eu vou com você, Satoru! — ela exclamou.

​— Não desta vez, amor. — Sorri, mas sem brincadeiras. — Eu preciso que você seja o farol. Se eu apagar a fonte, você limpa os resquícios. Confia em mim?

​Ela hesitou, mas assentiu, canalizando o brilho dourado que agora residia no seu próprio espírito.

​Cheguei à torre em um piscar de olhos. O lugar era agora um ninho de sombras. A maldição tinha a forma de uma Gothel gigantesca e esquelética, feita de fios de cabelo negros que chicoteavam o ar, destruindo tudo o que tocavam.

​— Vocês... me... tiraram... tudo... — a voz da maldição ecoava, distorcendo o espaço.

​— Na verdade, você se tirou tudo quando tentou possuir o que não era seu — respondi, flutuando no ar, as mãos nos bolsos. — Sabe, eu estava ficando enferrujado. Obrigado por aparecer.

​A maldição lançou mil tentáculos de sombra contra mim. O meu Infinito parou todos, criando um vácuo absoluto ao meu redor. A criatura rugiu, confusa por não conseguir me tocar.

​— Minha vez. — Tirei as mãos dos bolsos e juntei os dedos de forma específica. — Sinta a diferença entre um truque de bruxa e o ápice da feitiçaria.

​— Expansão de Domínio: Vazio Ilimitado.

​Em um segundo, a floresta escura desapareceu. A maldição se viu presa em um espaço infinito, onde toda a informação do universo era forçada em sua mente rudimentar de uma só vez. Ela congelou. O ódio, a dor e a sede de vingança da criatura foram anulados pelo excesso de percepção.

​— No meu mundo, eu era um deus solitário — eu disse, caminhando pelo vazio em direção ao centro da maldição. — Mas aqui, eu sou um marido e um amigo. E você está ameaçando o meu jardim.

​Apontei o dedo, carregando a técnica final com uma calma absoluta.

​— Técnica Imaginária: Roxo.

​A esfera de destruição de cor púrpura atravessou a maldição, apagando-a da existência de forma definitiva. Não sobraram cinzas. Não sobrou fumaça. A torre da Gothel desmoronou em pedras comuns, sem mais nenhuma gota de magia negra.

​Voltei para o castelo a tempo de ver Rapunzel no topo da torre mais alta. Ela tinha as mãos estendidas e uma onda de luz dourada estava varrendo as últimas sombras que tentavam entrar no reino. Quando ela me viu pousar suavemente ao seu lado, a luz se suavizou e ela correu para os meus braços.

​— Acabou? — ela perguntou, escondendo o rosto no meu ombro.

​— Acabou. E desta vez, a raiz foi arrancada. — Olhei para Flynn e Maximus lá embaixo, que estavam comemorando com os soldados.

​O céu começou a se abrir, e o sol de Corona brilhou mais forte do que nunca.

​— Você foi incrível, Satoru — ela sussurrou.

​— Nós fomos — corrigi. — Agora, o que acha de irmos comer aquele banquete que o José prometeu? Eu usei muita energia e estou morrendo de fome por doces.

​Ela riu, o som mais bonito que eu já ouvi em qualquer universo.

​A paz voltou para Corona. E embora eu soubesse que novas sombras poderiam surgir no futuro, eu não estava mais preocupado. O Mais Forte agora tinha um motivo para lutar que ia além do dever. Ele tinha uma vida. E em um mundo de magia, amor e coragem, o Infinito era apenas o começo.