A descida da torre foi bem diferente da subida. O peso da morte e do sacrifício tinha sido substituído por um silêncio reflexivo, apenas interrompido pelos resmungos de Flynn sobre como suas roupas estavam arruinadas. Maximus nos esperava na base da torre, batendo os cascos impacientemente. Ao me ver vivo, o cavalo inclinou a cabeça, soltando um bufo que parecia um misto de surpresa e respeito.

​— É, eu sei, Marshmallow. Eu sou difícil de matar — eu disse, dando um tapinha no pescoço dele. Desta vez, ele não tentou me morder.

​Montamos os cavalos e partimos em direção ao Reino de Corona. Rapunzel ia na frente com Flynn, mas seus olhos verdes se voltavam constantemente para trás, certificando-se de que eu ainda estava lá, flutuando preguiçosamente em cima de Maximus ou caminhando ao lado deles.

​— Satoru — Rapunzel chamou, quando as muralhas brancas do castelo começaram a surgir no horizonte. — Você está bem? Você está... silencioso.

​— Só estou processando, mademoiselle — respondi, ajustando a venda. — Pela primeira vez em muito tempo, não estou sentindo o peso de nenhuma maldição. É uma sensação estranha. É... leve.

​Flynn limpou a garganta, parecendo desconfortável.

— Olha, Gojo... sobre tudo o que aconteceu. O sacrifício, a adaga e... bem, o que a Rapunzel disse. Eu ainda acho você um cara absurdamente exibido e estranho. Mas... obrigado. Por me trazer de volta.

​— Não me agradeça, Rider. — Sorri de lado. — Eu só fiz o que fiz porque percebi que você é o único que consegue ser o chão para ela quando eu estiver ocupado demais olhando para o céu. Mas não se acostume. Se você vacilar de novo, eu te mando de volta para o aeroporto com um chute.

​Flynn riu, uma risada curta e aliviada. — Justo.

​Quando chegamos aos portões principais, o reino parecia estar em estado de choque. Os guardas nos cercaram rapidamente, mas ao verem Rapunzel — não a menina assustada de antes, mas uma mulher com um brilho solar e cabelos que pareciam fios de ouro puro — eles baixaram as armas.

​— Eu sou a princesa perdida — ela disse, a voz firme, carregada de uma autoridade que ela nem sabia que possuía. — E eu vim para casa.

​Flynn e eu ficamos um passo atrás enquanto os portões se abriam. O povo começou a se aglomerar nas ruas, sussurrando, apontando. Rapunzel caminhava com a cabeça erguida, mas sua mão procurou a minha. Eu a segurei, sentindo o calor dela, enquanto Flynn caminhava do outro lado, protegendo-a da multidão.

​Entramos no grande salão do trono. O Rei e a Rainha estavam lá, envelhecidos pela dor de dezoito anos de perda. Quando eles viram Rapunzel, o tempo pareceu parar. Não houve necessidade de testes de DNA ou perguntas. O sol no estandarte do reino era o mesmo sol que brilhava nos olhos dela.

​O abraço da família foi algo que eu apenas observei de longe, encostado em uma pilastra de mármore. Flynn estava ao meu lado, tirando o chapéu em sinal de respeito.

​— Sabe — Flynn sussurrou para mim — eu nunca imaginei que minha carreira de ladrão terminaria com um final tão... honesto.

​— É o que acontece quando você anda com as pessoas erradas, Rider — respondi, mas meu olhar estava fixo em Rapunzel.

​Ela se afastou dos pais por um momento e correu em nossa direção. Ela pegou a mão do Flynn e a minha, unindo-as.

​— Mãe, Pai — ela disse para os soberanos que se aproximavam. — Estes são os homens que me salvaram. Flynn Rider, que me mostrou o mundo. E Satoru Gojo... o homem que deu a própria vida para que eu pudesse estar aqui hoje.

​O Rei olhou para mim. Ele viu a venda, a postura inabalável e a energia que eu não conseguia (ou não queria) esconder totalmente. Ele inclinou a cabeça em um agradecimento profundo.

​Naquela noite, o reino não apenas celebrou a volta da princesa. O festival das luzes foi repetido, mas desta vez, não era um chamado de busca. Era um hino de boas-vindas.

​Eu estava no ponto mais alto da sacada do castelo, observando as lanternas subirem. Rapunzel apareceu logo atrás de mim, vestindo um traje real, mas ainda com aquele espírito indomável.

​— O que acontece agora, Satoru? — ela perguntou, apoiando-se no parapeito ao meu lado. — Você vai ficar? Ou aquele aeroporto ainda está te chamando?

​Virei-me para ela, retirando a venda e deixando que os Six Eyes captassem cada detalhe do rosto da mulher que mudou meu destino.

​— O aeroporto pode esperar, Rapunzel. — Toquei seu rosto suavemente. — Descobri que o Infinito é muito mais interessante quando compartilhado com alguém que gosta de correr por florestas e bater em pessoas com frigideiras. Eu não vou a lugar nenhum.

​Ela sorriu e me beijou, enquanto as luzes de Corona preenchiam o céu, provando que, até para o homem mais forte do mundo, o maior poder é aquele que nos faz querer ficar.