Perverso ᝰ'Satoru Gojo
17 Capítulo 17
Acordei com a sensação de uma brisa morna no rosto. Não era o frio da torre, nem a dor lancinante do sacrifício. Abri os olhos e me vi sentado em uma cadeira de espera em um aeroporto vasto, imaculado e banhado por uma luz suave de fim de tarde.
— Você demorou, Satoru. — Uma voz familiar, carregada de um sarcasmo nostálgico, ecoou ao meu lado.
Virei o rosto e meu coração, que eu achava ter parado de bater, deu um salto. Suguru Geto estava lá, com sua túnica de monge, um sorriso de canto e aquele olhar de quem sabia exatamente o que eu estava sentindo.
— Suguru... — soltei um suspiro que pareceu carregar o peso de duas vidas. — Então eu realmente consegui. Morri de novo.
— E de um jeito bem diferente da primeira vez — Geto riu, cruzando os braços. — O Mais Forte morrendo para salvar um ladrão de cavalos e uma princesa? Se eu contasse isso para os nossos alunos em Tóquio, ninguém acreditaria. Mas... foi bonito, Satoru. Foi humano.
Ficamos em silêncio por um momento, observando o horizonte infinito do pós-vida. Era a paz que eu sempre desejei. Estar com meu melhor amigo, sem maldições, sem responsabilidades, apenas o descanso.
— É bom estar aqui — confessei. — Finalmente... o silêncio.
— É, é muito bom — Geto concordou, mas então ele se levantou e olhou para o portão de embarque às nossas costas. — Mas não é o seu lugar. Não ainda.
— O que quer dizer? — Arqueei uma sobrancelha.
— Olhe para trás, Satoru. — Geto apontou para a névoa que separava aquele mundo do anterior. — Depois que você partiu, o mundo não seguiu em frente como você planejou. Flynn está bem, sim. Mas a Rapunzel... ela finalmente entendeu. O choque de te perder quebrou a última dúvida que ela tinha. Ela percebeu que o que sentia pelo Flynn era o carinho pela liberdade que ele representava, mas o que ela sente por você... é o amor pela alma que se sacrificou pela dela.
Eu congelei. Meus Six Eyes, mesmo ali, captaram um eco de dor vindo de longe.
— Ela está te chamando, Satoru — Geto disse, colocando a mão no meu ombro e me empurrando levemente na direção oposta ao avião. — E desta vez, você não vai voltar como uma arma ou um mestre. Vai voltar como o homem que ela ama.
— Mas e você? — perguntei, olhando para meu amigo.
Geto sorriu, um sorriso largo e honesto. — Eu vou ficar bem. Eu sempre estive por aqui, não lembra? Agora vai. Alguém está chorando por você, e você sabe que odeia ver mulheres chorando.
A luz do aeroporto começou a brilhar intensamente, me cegando. A voz de Geto foi ficando distante: Não estrague tudo dessa vez, idiota!
Abri os olhos bruscamente. O cheiro de pedra e flores murchas da torre voltou com força total. Eu ainda estava no chão, mas minha pele não estava mais fria. Senti mãos trêmulas segurando meu rosto e gotas quentes caindo sobre minhas bochechas.
— Satoru... por favor... volta... — Rapunzel soluçava, abraçada ao meu corpo, com Flynn parado logo atrás, observando com um respeito solene e os olhos marejados.
Minha mão, agora quente, subiu lentamente e tocou os dedos dela.
— Você faz... muito barulho quando chora... mademoiselle.
Rapunzel paralisou. Ela se afastou o suficiente para olhar nos meus olhos — que agora brilhavam com um azul mais profundo e calmo do que nunca.
— Satoru! — Ela se jogou no meu peito, me apertando com tanta força que quase me mandou de volta para o aeroporto. — Você voltou! Eu achei que... eu achei que nunca ia poder te dizer...
— Dizer o quê? — sussurrei, acariciando o cabelo dela.
Ela se afastou um pouco, o rosto vermelho, as lágrimas ainda correndo, mas o olhar era de uma clareza absoluta.
— Que eu te amo. Não como um salvador, não como o Mais Forte. Eu te amo, Satoru Gojo. E eu não quero o chão se você não estiver voando comigo.
Olhei para Flynn. Ele deu um passo à frente, suspirou e estendeu a mão para me ajudar a levantar.
— É, Cabelos de Neve... parece que eu perdi a garota. Mas, honestamente? Se for para perder para o cara que me trouxe de volta da morte, eu aceito o prejuízo. Trate de cuidar dela, ou eu volto a usar a frigideira.
Ri, aceitando a mão do Flynn e me pondo de pé. Eu me sentia estranho. O Infinito ainda estava lá, mas ele não parecia mais uma parede. Parecia uma escolha.
Puxei Rapunzel para perto e, desta vez, não houve hesitação, nem dúvida, nem confusão. Eu a beijei sob a luz do sol que entrava pela janela da torre, selando um destino que nem as maldições, nem as bruxas, nem a própria morte poderiam desfazer.
Eu tinha sido uma raridade, uma anomalia que desequilibrou o mundo. Mas ali, segurando a mão da garota que amava o impossível, eu finalmente era apenas Satoru. E isso, pela primeira vez, era mais do que suficiente.
Fale com o autor