O silêncio na torre era absoluto, pesado como o vácuo. Rapunzel soluçava sobre o corpo imóvel de Flynn, as lágrimas caindo como diamantes inúteis sobre a ferida negra deixada pela adaga amaldiçoada. O brilho dourado do seu cabelo tinha desaparecido; a magia parecia ter morrido junto com o coração do ladrão.

​Eu observava a cena, sentindo a vibração da Maldição de Vinculação na adaga. Ela tinha cortado o fio da vida de Flynn. A cura comum não funcionaria. Magia comum não funcionaria. Era necessário algo que transcendesse as leis deste mundo.

​Aproximei-me e coloquei a mão no ombro trêmulo de Rapunzel.

​— Satoru... — ela soluçou, olhando para mim com olhos sem esperança. — Ele se foi. Ele me salvou e eu o perdi.

​— Não — eu disse, a minha voz soando com uma autoridade que eu nunca usei antes. — Ele provou que a humanidade dele é maior que o meu poder. Agora, eu vou provar que o meu poder pode ser o servo da tua humanidade.

​Ajoelhei-me do outro lado do corpo de Flynn. Retirei a venda e deixei que os Six Eyes vissem o que ninguém mais podia ver: os fragmentos da alma de Flynn que ainda flutuavam no ambiente, prestes a dissiparem-se no nada.

​— Rapunzel, ouve-me bem — instruí, enquanto minhas mãos começavam a brilhar com uma energia azul e vermelha que se fundia em um branco ofuscante. — Você tem o dom da vida, mas a adaga destruiu a estrada por onde essa vida deveria viajar. Eu serei essa estrada. Vou usar meu Infinito para criar um canal entre a sua alma e a dele.

​— Mas Satoru... a pressão... você vai...

​— Não importa o que aconteça comigo — interrompi, sorrindo com a mesma leveza de quando comíamos bolinhos na praça. — Foca nele. Chora por ele. Ama-o com tudo o que tens. Eu cuido do resto.

​Uni as minhas mãos às dela sobre o peito de Flynn.

​— Expansão de Domínio: Vazio Ilimitado — Reversa.

​Em vez de inundar o mundo com informações, direcionei todo o fluxo de energia para dentro de mim. Eu estava a tornar-me um para-raios para a maldição da adaga. Senti a escuridão da lâmina começar a subir pelos meus braços, devorando a minha própria energia vital. A dor era inimaginável — era como se cada célula do meu corpo estivesse a ser desintegrada e reconstruída ao mesmo tempo.

​— Agora, Rapunzel! — urrei.

​Uma lágrima clara caiu do rosto dela e tocou o peito de Flynn. No momento do impacto, a minha energia serviu de ponte. O brilho solar da Rapunzel explodiu, mas desta vez não foi apenas luz; foi uma torrente de vida pura que usou o meu corpo como condutor para atravessar o abismo da morte.

​A torre inteira brilhou como se um sol tivesse nascido dentro dela. Senti o meu núcleo de energia amaldiçoada começar a rachar. O preço de trazer alguém de volta do outro lado era o sacrifício de quem abria a porta.

​Então é isto..., pensei, enquanto a minha visão começava a ficar branca. Sukuna não me matou, o destino não me matou... mas eu escolhi morrer para que o amor não morresse. Nada mal para um monstro, não é, Suguru?

​Com um último esforço, empurrei cada grama de vida que me restava para dentro de Flynn.

​— VIVE! — Gritei.

​A luz atingiu o seu ápice e depois... o silêncio.

​O Despertar

​Flynn Rider abriu os olhos, puxando o ar com força, como se estivesse a emergir de um mergulho profundo. A ferida no seu peito tinha desaparecido, deixando apenas uma cicatriz em forma de sol.

​— Loirinha? — ele sussurrou, a voz rouca.

​Rapunzel lançou-se nos seus braços, chorando de uma alegria que não cabia no quarto. Eles estavam juntos. O milagre tinha acontecido. O humano tinha voltado.

​Mas, num canto da torre, eu estava caído, encostado à parede de pedra. A minha pele estava pálida e os meus olhos, antes vibrantes como o céu de verão, estavam baços. O Infinito tinha-se dissipado. Eu era apenas um homem, exausto e vazio.

​Rapunzel e Flynn correram para o meu lado.

​— Satoru! — Rapunzel segurou a minha mão, mas desta vez, não havia barreira. Eu estava frio. — O que fizeste? Tu deste tudo...

​— Ei... — tentei sorrir, mas os meus lábios mal se mexiam. — Não fiquem com essas caras. Eu disse que te faria feliz, não disse? Eu sempre cumpro... as minhas promessas.

​— Você não pode ir — disse Flynn, a voz embargada. — Você me salvou... por quê?

​— Porque você... tinha o chão — murmurei, fechando os olhos. — E ela precisava de alguém que não a deixasse cair. Eu... eu sou o céu, Flynn. E o céu... está sempre a observar de longe.

​A minha respiração tornou-se lenta. Senti o vento suave da floresta entrar pela janela partida da torre. Pela primeira vez em duas vidas, eu não sentia o peso de ser O Mais Forte. Eu sentia apenas... paz.

​— Rapunzel... — a minha voz era um fio de fumaça. — Seja livre.

​E com essas palavras, o brilho final de Satoru Gojo apagou-se. No topo da torre onde tudo começou.