Arrombámos a porta do quarto no topo da torre. A cena era um pesadelo dourado: Rapunzel estava acorrentada por fios do seu próprio cabelo, que brilhavam com uma luz doentia, enquanto Gothel sugava a sua energia, rejuvenescendo a olhos vistos.

​— Parem! — gritou Rapunzel, as lágrimas brilhando. — Ela tem a faca! Satoru, cuidado!

​Gothel virou-se, o rosto belo e jovem distorcido pelo ódio. Ela não usou magia de luz ou fogo. Ela sabia que contra mim, isso seria inútil. Ela usou o que tinha de mais perigoso: a Adaga de Átropos, uma relíquia feita para cortar o destino e selar divindades.

​— Pensas que o teu Infinito te protege de tudo, feiticeiro? — Gothel riu, lançando-se num movimento impossivelmente rápido. — Esta lâmina ignora a distância. Ela corta a existência!

​Eu preparei o Vazio Roxo, mas a proximidade com a Rapunzel tornava um ataque de larga escala perigoso demais. Gothel aproveitou a minha hesitação. Num flash, ela arremessou-se contra mim, a adaga negra apontada diretamente para o meu peito, movendo-se num plano que o meu Mugen não conseguia detetar.

​Eu vi a lâmina aproximar-se. Pela primeira vez em muito tempo, senti o frio da morte.

​Mas o impacto nunca chegou.

​— NÃO! — O grito de Flynn ecoou pelas paredes de pedra.

​Num movimento de puro instinto e desespero, Flynn Rider — o homem que eu tinha chamado de medíocre e egoísta — atirou-se entre mim e a bruxa. O som da lâmina a perfurar carne humana foi abafado pelo grito de horror da Rapunzel.

​A adaga de Gothel atravessou o peito de Flynn, mesmo em cima do coração.

​— José! — Rapunzel urrou, e a força do seu desespero foi tanta que as correntes de cabelo que a prendiam estilhaçaram-se numa explosão de luz dourada.

​Gothel recuou, em choque. — Seu idiota... esta lâmina era para o deus! Você jogou a sua vida fora por nada!

​Flynn caiu de joelhos, cuspindo sangue, mas as suas mãos agarraram o pulso da bruxa com uma força sobrenatural. Ele olhou para mim, os olhos já a perderem o foco, e deu um sorriso sangrento.

​— Afinal... — ele engasgou — ... eu também consigo... ser o herói... Gojo... acaba com ela...

​O tempo pareceu parar. Vi o sangue do Flynn manchar o chão da torre. Vi a Rapunzel correr para ele, o seu cabelo brilhando com uma intensidade que cegaria qualquer um. E então, senti-a. A fúria. Não a fúria fria de um calculista, mas a fúria de um homem que acabara de ver o que é o verdadeiro valor humano.

​— Você... — a minha voz vibrou, e as janelas da torre explodiram para fora. — Você tirou o futuro de um homem que era melhor do que eu jamais serei.

​Retirei a venda. Os meus olhos brilharam com uma luz azul elétrica que parecia consumir o próprio oxigénio do quarto. Gothel tentou fugir, tentou usar as sombras, mas não havia para onde ir.

​— Técnica Imaginária... Roxo. — Não foi uma explosão maciça. Foi um raio concentrado, fino como uma agulha, que atingiu Gothel no centro do peito, desintegrando-a átomo por átomo antes que ela pudesse soltar um último grito. O seu corpo tornou-se poeira, e a poeira tornou-se nada.

​A bruxa tinha partido. Mas o silêncio que ficou era pior do que qualquer grito.

​Ajoelhei-me ao lado de Rapunzel, que segurava o corpo de Flynn, tentando desesperadamente usar o brilho do seu cabelo para curar a ferida. Mas a adaga era amaldiçoada; ela não feria apenas o corpo, ela cortava a conexão com a vida.

​— Satoru, ajuda-o! Por favor! — Rapunzel implorava, as lágrimas caindo sobre o rosto pálido de Flynn. — Tu tens poderes, tu podes fazer alguma coisa!

​Olhei para o Flynn. O Mais Forte do mundo estava ali, capaz de mover montanhas, mas impotente perante o sacrifício de um homem comum.

​— Eu sinto muito, Rapunzel — sussurrei, a minha voz falhando. — Esta ferida... não é algo que a minha técnica possa reverter.

​Flynn estendeu a mão, tocando o rosto da Rapunzel uma última vez.

— Não chores, loirinha... Você é... o meu novo sonho... — Seus olhos se fecharam, e a mão caiu pesadamente no chão.

​Rapunzel soltou um grito de agonia que pareceu abanar os alicerces da torre. Eu fiquei ali, em silêncio, sentindo o peso da coroa de Mais Forte tornar-se uma carga insuportável. Um ladrão tinha-me ensinado o que era a coragem, e a Rapunzel tinha acabado de perder o seu chão.