​O silêncio na clareira era pesado, apenas quebrado pelo som distante de Maximus relinchando. Aproximei-me de Flynn, que continuava estatelado contra o tronco da árvore. A fúria ainda fervilhava nas minhas veias, mas os meus Six Eyes analisavam a barreira que Gothel deixara para trás. Era uma Maldição de Vinculação de nível altíssimo: a torre agora estava selada por um contrato que rejeitava qualquer energia não-humana ou divina.

​Para entrar, eu precisava de um Coração Humano — não um órgão, mas a intenção pura e mortal de alguém que pertence a este mundo. Eu era demasiado para aquela fechadura. Eu precisava do Rider.

​Aproximei-me dele e dei-lhe um pontapé leve na bota.

— Acorda, Romeu. O teatro acabou e a tua namorada foi sequestrada.

​Flynn gemeu, levando a mão à cabeça. Abriu os olhos e, ao ver-me, a memória do confronto voltou num flash. Ele tentou levantar-se, cambaleando.

— Rapunzel... Onde está ela? O que é que você fez?!

​— O que é que nós fizemos — corrigi, a minha voz fria como o gelo. — Ficámos a medir forças e a bruxa levou-a. Ela está na torre. E eu não consigo entrar sozinho.

​Flynn soltou uma gargalhada amarga. — O grande Satoru Gojo, o deus entre os homens, está a pedir ajuda a um ladrãozinho de beira de estrada?

​— Não estou pedindo ajuda, estou fazendo um contrato — respondi, segurando-o pelo colarinho e colocando-o de pé. — A barreira da Gothel exige um coração puramente humano para ser aberta. Alguém que sangre, que erra e que tenha algo a perder neste mundo. Você é esse alguém, Flynn. Se quer salvar a Rapunzel, vai ter de ser a minha chave.

​Flynn olhou para a minha mão no seu casaco e depois para os meus olhos ocultos. Ele viu que eu não estava a brincar. A arrogância tinha desaparecido; restava apenas a intenção assassina.

​— Eu te odeio — disse ele, entre dentes. — Você destruiu tudo o que eu tentei construir com ela..

​— O sentimento é mútuo — retorqui. — Mas ela está a sofrer. Quer continuar a discutir o teu ego ferido ou quer ir buscar a Rapunzel?

​Flynn respirou fundo, limpando o sangue do lábio.

— Vamos. Mas se sairmos disto vivos... eu vou dar-te um soco na cara sem essa tua barreira invisível.

​— Estarei ansioso por isso.

​...

​Chegámos à base da torre em minutos. O ar ao redor da construção de pedra estava distorcido, como uma miragem num deserto. Era uma barreira de sacrifício.

​— Ouve bem — instruí, enquanto Maximus nos observava com um olhar de aprovação severa. — Eu vou sobrecarregar a estrutura externa com o meu Azul. Isso vai criar uma fenda, mas a barreira só vai ceder se tu colocares a mão no centro e desejares a liberdade dela mais do que a tua própria vida. Consegues fazer isso, ou o teu amor é só conversa de taverna?

​Flynn não respondeu com palavras. Ele caminhou até à parede de energia negra que fumegava. O calor era insuportável para um humano comum, mas ele não recuou.

​— Agora! — gritei.

​— Lapso de Técnica: Azul! — Foquei a compressão espacial num único ponto. A realidade começou a ranger. A barreira resistia, sugando a minha energia, mas no momento em que Flynn pressionou a palma da mão contra a fenda, o efeito foi imediato.

​A energia negra começou a ser purificada por uma luz branca. Flynn gritou de dor, o seu braço estava a ser queimado pela tensão mágica, mas ele não largou.

​— Rapunzel! — ele urrou. — Eu não vou deixar que ela te leve de novo!

​A barreira estilhaçou-se como vidro. O impacto lançou-nos para trás, mas a entrada estava aberta.

​— Nada mal, Rider — comentei, ajudando-o a levantar-se enquanto ele segurava o braço ferido. — Parece que você tem um coração, afinal.

​— Guarda os elogios para quando ela estiver segura — ele resmungou, sacando da faca que tinha na bota. — Agora vamos acabar com aquela bruxa.

​Entrámos na torre em sintonia. Eu era a tempestade que destruía os guardas de sombra de Gothel, e Flynn era a agilidade que navegava pelas armadilhas físicas que a bruxa tinha espalhado. Éramos o impossível e o real, trabalhando juntos por um único propósito.

​No topo da escada, a voz de Gothel ecoava, cantando o cântico de rejuvenescimento, mas desta vez a canção soava como um lamento.

​Estávamos à porta. O momento da verdade tinha chegado.