​O ar ainda vibrava com as palavras que eu tinha lançado contra o Flynn. Rapunzel estava estática, olhando para o chão, dividida entre o choque da minha frieza e a mágoa das palavras dele. Estávamos todos tão imersos no nosso próprio caos que o mundo ao redor se tornou um borrão.

​E foi exatamente esse o erro.

​De repente, a temperatura da floresta caiu. O cheiro de flores de maçã foi substituído pelo odor acre de fumaça e magia estagnada. Uma fumaça roxa e densa começou a serpentear pelos meus pés, e meus Six Eyes dispararam um alerta tarde demais.

​— Ah, que cena comovente... — A voz de Gothel surgiu das sombras, gotejando veneno. — Um ladrão ciumento e um deus arrogante disputando um brinquedo que nem lhes pertence.

​Rapunzel soltou um grito sufocado.

— Mãe?!

​— Não a chame assim! — Flynn desembainhou a sua espada, mas antes que pudesse dar um passo, correntes de sombra brotaram do chão e o arremessaram contra uma árvore. Ele caiu desacordado, a espada tilintando inutilmente nas pedras.

​Gothel apareceu atrás de Rapunzel, as garras cravadas nos ombros da menina.

— Minha flor, eu avisei. O mundo lá fora é cruel. Eles não te amam; eles só querem o que você podes dar. Um quer o teu brilho para se sentir herói, o outro quer o teu destino para preencher o vazio dele.

​— Solta-a. Agora. — Eu não gritei. A minha voz era um sussurro carregado de energia amaldiçoada que fez as folhas das árvores murcharem instantaneamente.

​— Ou o quê, Satoru Gojo? — Gothel sorriu, e eu vi que ela tinha algo na mão: uma faca encantada banhada em um líquido negro que brilhava com uma maldição de confinamento. — Você é forte, eu sei. Mas você é físico. A minha magia é de contrato. Se você der um passo, eu corto o fio que prende a alma dela a este corpo.

​Eu parei. Pela primeira vez, o Infinito não podia proteger alguém que estava dentro do alcance de outra pessoa.

​— Rapunzel, olha para mim — eu disse, tentando manter a calma. — Não ouças o que ela diz.

​— Ela tem razão, não tem? — Rapunzel sussurrou, as lágrimas escorrendo. — Vocês estavam a brigar por mim como se eu fosse um objeto! Eu só queria ser livre... e agora sinto que a torre me seguiu até aqui.

​— Exatamente, minha querida — Gothel sibilou no ouvido dela. — Só eu te conheço. Só eu te mantenho segura.

​Gothel bateu com o cajado no chão. Uma explosão de energia negra obscureceu a minha visão. Avancei com a velocidade da luz, a mão estendida para agarrar a Rapunzel, mas os meus dedos atravessaram apenas fumaça.

​— Lapso de Técnica: Azul! — Tentei comprimir o espaço para forçar a aparição delas, mas Gothel tinha usado um portal de fuga ligado ao sangue da Rapunzel. Elas tinham ido para o único lugar onde eu não poderia entrar sem destruir tudo: a torre original, agora protegida por uma barreira de sacrifício.

​O silêncio voltou à floresta. Flynn estava caído, Maximus relinchava de pavor ao longe, e eu estava sozinho.

​Olhei para as minhas mãos vazias. A fúria que começou a subir pelo meu peito era algo que eu não sentia desde a morte de Riko Amanai. O céu acima de mim começou a escurecer, não por causa das nuvens, mas porque a minha própria energia estava a devorar a luz ao redor.

​— Você cometeu um erro, bruxa — eu disse para o vazio, a minha voz ecoando como um trovão. — Você tirou-lhe a liberdade. Tirou-me a única coisa que me fazia querer ser humano.

​Apontei o dedo para o horizonte, na direção da torre.

— Eu não vou apenas resgatá-la. Eu vou apagar a tua existência da história deste mundo.

​Desta vez, não haveria máscara. Não haveria Gojo feliz. A bruxa ia conhecer o homem que desequilibrou o mundo. E Deus ajudasse qualquer um que ficasse no meu caminho.