Na manhã seguinte, eu era a personificação da perfeição. Quando nos encontramos no mercado para os últimos preparativos antes de seguirmos viagem, eu estava encostado em uma banca de flores, jogando uma moeda para o alto e assobiando uma melodia qualquer.

​— Bom dia, pombinhos! — exclamei, assim que vi Flynn e Rapunzel se aproximando. Meu sorriso era largo, radiante, exatamente o que eles esperavam de Satoru Gojo.

​Flynn estava com o braço possessivamente passado pelos ombros dela, um brilho de vitória no olhar. Rapunzel, por outro lado, parecia ter passado a noite em claro. Ela me olhou com cautela, procurando qualquer sinal de que eu soubesse o que aconteceu no jardim.

​— Satoru! — ela disse, soando um pouco aliviada. — Você sumiu ontem à noite.

​— Ah, sabe como é. Muitas luzes, muitas pessoas... decidi fazer um tour gastronômico noturno. — Dei um tapinha amigável no ombro de Flynn, ignorando a careta dele. — Parabéns, Rider. Você parece mais... satisfeito do que o normal. Ganhou na loteria?

​— Algo assim — ele respondeu, apertando Rapunzel contra si.

​Eu mantive a máscara. Ri das piadas dele, carreguei as sacolas e caminhei alguns passos atrás deles como o guarda-costas perfeito. Mas, por trás da venda, meus Six Eyes não paravam de analisar a energia de Rapunzel. Ela estava encolhida. A energia dela, que costumava se expandir como o sol, agora parecia estar tentando caber dentro do molde que Flynn esperava dela.

​Horas depois, quando acampamos nos limites da floresta, a normalidade começou a cobrar seu preço. Flynn estava ocupado contando histórias de suas proezas para um Maximus entediado, tentando fazer Rapunzel rir. Mas ela estava quieta. Ela olhava para as mãos, depois para a floresta, e finalmente seus olhos pousaram em mim, que estava flutuando a alguns centímetros do chão, observando o infinito.

​Ela se levantou e caminhou em minha direção.

— Satoru... podemos conversar? Longe do fogo?

​Eu desci lentamente até tocar o solo. — Claro, mademoiselle. Algum problema com o menu do jantar?

​Caminhamos até a beira de um riacho próximo. O som da água era a única coisa que nos separava do acampamento. Ela parou, as mãos abraçando o próprio corpo.

​— Eu aceitei — ela disse, do nada. — Ontem à noite. Eu aceitei o beijo do José.

​— Eu sei — respondi, abandonando o tom brincalhão por um segundo, mas logo recuperando a máscara. — Ele é um bom partido para uma princesa em fuga, não acha? Estável, humano... normal.

​Rapunzel se virou para mim, os olhos cheios de uma angústia que me fez querer destruir o mundo.

— Esse é o problema! Ele é normal. Ele quer que eu seja normal. Ele fala sobre termos uma casa, uma vida tranquila, sem perigos... Ele quer que eu troque uma torre de pedra por uma torre de rotina.

​Ela deu um passo para dentro do meu espaço pessoal, onde o ar vibrava com a minha técnica.

— Quando ele me beijou... eu esperava sentir o que sinto quando corro com você ou quando nos beijamos pela primeira vez. Eu esperava sentir o chão sumindo e o mundo pegando fogo. Mas eu só senti... segurança. E Satoru, eu não fugi daquela torre para me sentir segura. Eu fugi para me sentir viva.

​Senti meu coração martelar contra as costelas. Mantive as mãos nos bolsos para que ela não visse o tremor.

​— O beijo não foi o que eu esperava — ela confessou, a voz quebrada. — Foi como se faltasse algo. Faltava o impossível. Faltava você.

​Eu a encarei por trás da venda. A máscara de Gojo feliz estava rachando.

— Rapunzel, eu sou o abismo, lembra? O Flynn te oferece o chão. Eu ofereço a queda livre. Você tem certeza de que quer trocar o certo pelo incerto?

​Ela não respondeu com palavras. Ela simplesmente estendeu a mão e tocou o meu rosto, exatamente onde a venda terminava.

— O chão é para quem tem medo de cair. Eu quero o infinito, Satoru. Mesmo que ele me assuste.

​Naquele momento, eu percebi que não importava o quanto eu tentasse fingir que estava feliz por ela estar com o Flynn. A verdade era que, naquele mundo ou em qualquer outro, nossas almas estavam amarradas por algo que nem mesmo o Rei das Maldições poderia cortar.

​— Então para de tentar caber na caixa dele — sussurrei, inclinando-me até que nossas testas se tocassem. — Porque eu não pretendo te soltar de novo.