Perverso ᝰ'Satoru Gojo
10 Capítulo 10
Lá do alto, o tempo pareceu congelar para mim. Meus Six Eyes processavam cada detalhe com uma crueldade matemática: a dilatação das pupilas de Flynn, o tremor nas mãos de Rapunzel e o modo como ela fechou os olhos, como se estivesse tentando se convencer de que aquele era o porto seguro que ela tanto buscava.
Flynn se inclinou e, finalmente, seus lábios tocaram os dela.
Foi um beijo suave, carregado de promessas de uma vida normal, de pés no chão e risadas simples. Para quem observasse de longe, era o final perfeito de um conto de fadas. Mas eu não estava longe o suficiente. Eu podia sentir a energia de Rapunzel — estava turva, oscilante. Ela aceitou o beijo, seus braços rodearam o pescoço de Flynn, mas o brilho que ela emanava quando corríamos pela floresta não estava lá. Era um beijo de aceitação, não de entrega.
Atrás da minha venda, meus olhos arderam.
Eu sempre achei que a solidão era o meu maior poder, mas vê-la nos braços de outro, escolhendo o comum em vez do infinito, foi o primeiro golpe que atravessou minha barreira sem que eu permitisse.
— Então é isso... — sussurrei para o vento, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia.
Eu poderia ter descido lá. Poderia ter destruído o jardim, levado Flynn para o outro lado do oceano com um gesto e exigido que ela me olhasse. Mas, pela primeira vez na vida, a arrogância de Satoru Gojo falhou. Se ela queria o chão, quem era eu para oferecer o céu? Eu era uma anomalia, um fantasma de outro mundo que só sabia lutar e destruir. Flynn era o que ela conhecia. Flynn era seguro.
Lá embaixo, eles se separaram. Flynn sorria como se tivesse conquistado o maior tesouro do mundo. Rapunzel sorriu de volta, mas foi um sorriso pequeno, contido. Ela olhou ao redor, por um breve segundo, direcionando os olhos exatamente para onde eu estava escondido, como se sua alma estivesse procurando por algo que o coração ainda não tinha coragem de admitir.
Eu não esperei que ela me visse.
Com um movimento imperceptível, eu me teletransportei. Não para longe, mas para o ponto mais alto da torre do castelo, onde o vento soprava tão forte que abafava qualquer som de felicidade lá embaixo.
Sentei-me na borda fria da pedra, soltando um suspiro longo. Meus dedos tremiam levemente.
— Parabéns, Rider — murmurei, olhando para as próprias mãos. — Você venceu o feiticeiro mais forte da história usando apenas um sorriso e um pouco de bom senso.
A sensação de vazio era absoluta. Eu tinha morrido nas mãos de Sukuna e achei que aquele era o fim. Mas ver Rapunzel escolher o conforto da normalidade em vez da intensidade do meu mundo doía de uma forma que nenhum corte de maldição jamais conseguiria.
Abaixo de mim, a festa continuava. As luzes ainda brilhavam. Mas para mim, a cor de Corona tinha acabado de desbotar. Eu ainda era o protetor dela, ainda cumpriria minha promessa de mantê-la livre da bruxa, mas agora eu sabia: eu seria apenas a sombra que garantiria que ela pudesse brilhar nos braços de outro.
No fundo daquela torre, Rapunzel tocava os próprios lábios, sentindo o gosto do beijo de Flynn, mas com a mente perdida na imensidão de um par de olhos azuis que ela achava que nunca conseguiria alcançar.
A dúvida estava plantada. E em um mundo de magia e destino, a dúvida é a fenda por onde o verdadeiro caos entra.
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