Perverso ᝰ'Satoru Gojo
9 Capítulo 09
Eu disse que iria caminhar sozinho, mas o mundo é pequeno demais para quem pode se deslocar em segundos. Eu estava sentado no topo de um arco de pedra, escondido pelas sombras das videiras que subiam pelas paredes do castelo. Abaixo de mim, em um jardim isolado onde o som da festa chegava apenas como um eco, estavam os dois.
Eu não precisava de esforço para ouvir. Meus sentidos captavam até o roçar do tecido das roupas deles.
Flynn — ou José, o homem que tentava esconder o coração atrás de um colete de couro — parecia mais nervoso do que quando estava prestes a ser enforcado. Ele chutava uma pedrinha no chão, enquanto Rapunzel observava as flores, o cabelo dourado brilhando sob a luz das lanternas distantes.
— Sabe, loirinha... — Flynn começou, a voz menos confiante que o habitual. — Eu passei a vida toda correndo atrás de coisas que brilham. Coroas, moedas, joias...
Rapunzel o olhou, um sorriso suave brincando nos lábios. — E você as encontrou?
— Eu encontrei algo melhor. — Ele parou de caminhar e ficou de frente para ela. — Eu sempre tive um plano, entende? O Destino do Flynn Rider. Mas aí você apareceu, com aquela frigideira e aquele jeito de ver o mundo como se tudo fosse um milagre... e o meu plano começou a parecer uma piada.
Lá do alto, senti um aperto estranho no peito. O tipo de aperto que nenhuma técnica de cura reversa resolve.
— Onde você quer chegar, José? — Rapunzel perguntou, a voz doce, mas carregada daquela confusão que a perseguia desde o café da manhã.
— Eu quero chegar ao ponto de dizer que... você é o meu novo sonho. — Flynn deu um passo à frente, pegando as mãos dela. — Eu não sou um deus, Rapunzel. Eu não posso te dar o infinito ou te proteger com escudos invisíveis. Mas eu posso te fazer rir todos os dias. Eu posso ser o cara que te segura quando você tropeçar, sem precisar de magia para isso.
Rapunzel desviou o olhar por um momento, e eu vi o conflito em seu rosto. Ela gostava de Flynn. Ele era o conforto, a risada, a humanidade que ela nunca teve na torre.
— José... você é incrível — ela disse, e meu coração (aquele órgão idiota que eu mal lembrava que existia) falhou uma batida. — Você me mostrou que o mundo pode ser divertido. Com você, eu sinto que posso ser apenas... eu.
— Então fica comigo — ele pediu, quase em um sussurro. — Esquece esse cara de cabelo branco. Ele pertence a outro mundo, a outra realidade. Ele é demais para qualquer um suportar, loirinha. Comigo, você tem o chão. Com ele, você só tem o abismo.
Rapunzel olhou para as próprias mãos unidas às dele. Ela parecia estar pesando duas vidas diferentes: uma vida de sorrisos simples e segurança terrena, e a vida que eu oferecia — uma vida de intensidade absoluta, de poder inimaginável e de um amor que poderia queimar as estrelas.
Eu estava pronto para descer. Eu estava pronto para interromper, para mostrar que o meu abismo era onde a verdadeira liberdade morava. Meus dedos começaram a se curvar para estalar um Azul.
Mas eu parei.
Vi a hesitação nos olhos dela. Vi que, por um segundo, ela realmente considerou o que Flynn disse. Eu era "demais". Eu era a anomalia.
Fechei os olhos e encostei a cabeça na pedra fria. Eu, Satoru Gojo, o homem que ninguém podia tocar, estava sentindo o peso da minha própria natureza. Eu era o Mais Forte, mas naquele jardim, contra o charme simples de um ladrão que oferecia apenas o chão, eu me senti terrivelmente frágil.
Não interferi. Apenas observei Flynn se inclinar, esperando um beijo que selaria o destino dela. O silêncio do jardim era ensurdecedor.
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