Perverso ᝰ'Satoru Gojo
7 Capítulo 07
Depois que o barco atracou e as luzes se tornaram apenas pontos distantes no horizonte, Flynn — percebendo que o clima entre eu e a loira estava... diferente — decidiu que precisava urgentemente conferir se Maximus não tinha comido os estábulos reais. Ele nos deixou sozinhos em uma varanda de pedra que dava para o lago.
O silêncio não era desconfortável. Era denso, carregado de palavras que nenhum de nós sabia como dizer.
— Satoru? — Rapunzel quebrou o silêncio, enrolando uma mecha de cabelo nos dedos. — Aquilo que você disse no barco... sobre a torre de vidro. Você ainda se sente assim?
Eu me encostei no parapeito, olhando para as estrelas.
— É uma coisa de hábito, eu acho. Quando você nasce com olhos que veem tudo, acaba se distanciando de tudo também. É como se houvesse uma membrana invisível entre mim e o resto do mundo. Nada me toca se eu não permitir.
Rapunzel se aproximou. Ela não tinha medo de mim. Ela não me via como uma arma ou um mestre. Para ela, eu era apenas o cara estranho que a tirou da torre e se perdeu tentando montar um cavalo.
— E você... permitiria? — Ela perguntou, a voz mal passando de um sussurro.
Eu me virei para ela. Pela primeira vez em décadas, desativei o Mugen (o Infinito) completamente. Não havia barreira. Se uma folha caísse, ela me tocaria. Se o vento soprasse, eu sentiria o frio.
— Rapunzel, você sabe que eu sou perigoso, não sabe? — Tentei manter o tom leve, mas minha voz falhou. — Pessoas como eu... nós não costumamos ter finais felizes com donzelas em torres.
— Eu também não sou uma donzela comum — ela rebateu, com um sorriso desafiador. — Eu bato em heróis com frigideiras, lembra?
Eu ri, uma risada curta e genuína.
— É, eu lembro. Meu galo na cabeça ainda é uma prova disso.
Ela estendeu a mão. Lentamente, como se estivesse testando as leis da física. Eu não recuei. Quando os dedos dela tocaram a palma da minha mão, eu senti um choque elétrico que não vinha de nenhuma técnica amaldiçoada. Era calor. Calor humano.
— Viu? — Ela sorriu, entrelaçando seus dedos nos meus. — O mundo não acabou.
Puxei-a para mais perto, quebrando a distância que eu mantinha por puro instinto de preservação. Com a mão livre, toquei o rosto dela, afastando os fios dourados.
— No meu mundo, eu era o Mais Forte porque estava sozinho — murmurei, inclinando meu rosto para o dela. — Mas aqui, olhando para você... eu acho que ser forte é superestimado.
Rapunzel fechou os olhos e se inclinou. Quando nossos lábios se tocaram, o mundo ao redor pareceu silenciar. Não houve explosões, nem cores roxas, nem expansões de domínio. Houve apenas a sensação de que, pela primeira vez na eternidade, Satoru Gojo tinha finalmente chegado em casa.
Ela era a cura para a minha solidão, e eu era a proteção para a liberdade dela.
Quando nos separamos, ela descansou a cabeça no meu peito. Eu podia sentir o coração dela batendo rápido — um ritmo que eu queria proteger para sempre.
— Satoru — ela disse baixinho. — Promete que, não importa o que aconteça amanhã, você não vai voltar para a sua torre de vidro?
Apertei-a em meus braços, sentindo o perfume de flores de maçã do seu cabelo.
— Eu prometo. Se eu tiver que quebrar o mundo inteiro para ficar aqui fora com você... eu farei isso com um sorriso no rosto.
Ficamos ali por horas, observando o reflexo das lanternas desaparecerem na água, dois anômalos que encontraram um equilíbrio perfeito no caos. Eu não era mais o mestre, nem o herói, nem a lenda. Eu era apenas o homem que amava a garota dos cabelos de sol.
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