Depois que o barco atracou e as luzes se tornaram apenas pontos distantes no horizonte, Flynn — percebendo que o clima entre eu e a loira estava... diferente — decidiu que precisava urgentemente conferir se Maximus não tinha comido os estábulos reais. Ele nos deixou sozinhos em uma varanda de pedra que dava para o lago.

​O silêncio não era desconfortável. Era denso, carregado de palavras que nenhum de nós sabia como dizer.

​— Satoru? — Rapunzel quebrou o silêncio, enrolando uma mecha de cabelo nos dedos. — Aquilo que você disse no barco... sobre a torre de vidro. Você ainda se sente assim?

​Eu me encostei no parapeito, olhando para as estrelas.

— É uma coisa de hábito, eu acho. Quando você nasce com olhos que veem tudo, acaba se distanciando de tudo também. É como se houvesse uma membrana invisível entre mim e o resto do mundo. Nada me toca se eu não permitir.

​Rapunzel se aproximou. Ela não tinha medo de mim. Ela não me via como uma arma ou um mestre. Para ela, eu era apenas o cara estranho que a tirou da torre e se perdeu tentando montar um cavalo.

​— E você... permitiria? — Ela perguntou, a voz mal passando de um sussurro.

​Eu me virei para ela. Pela primeira vez em décadas, desativei o Mugen (o Infinito) completamente. Não havia barreira. Se uma folha caísse, ela me tocaria. Se o vento soprasse, eu sentiria o frio.

​— Rapunzel, você sabe que eu sou perigoso, não sabe? — Tentei manter o tom leve, mas minha voz falhou. — Pessoas como eu... nós não costumamos ter finais felizes com donzelas em torres.

​— Eu também não sou uma donzela comum — ela rebateu, com um sorriso desafiador. — Eu bato em heróis com frigideiras, lembra?

​Eu ri, uma risada curta e genuína.

— É, eu lembro. Meu galo na cabeça ainda é uma prova disso.

​Ela estendeu a mão. Lentamente, como se estivesse testando as leis da física. Eu não recuei. Quando os dedos dela tocaram a palma da minha mão, eu senti um choque elétrico que não vinha de nenhuma técnica amaldiçoada. Era calor. Calor humano.

​— Viu? — Ela sorriu, entrelaçando seus dedos nos meus. — O mundo não acabou.

​Puxei-a para mais perto, quebrando a distância que eu mantinha por puro instinto de preservação. Com a mão livre, toquei o rosto dela, afastando os fios dourados.

​— No meu mundo, eu era o Mais Forte porque estava sozinho — murmurei, inclinando meu rosto para o dela. — Mas aqui, olhando para você... eu acho que ser forte é superestimado.

​Rapunzel fechou os olhos e se inclinou. Quando nossos lábios se tocaram, o mundo ao redor pareceu silenciar. Não houve explosões, nem cores roxas, nem expansões de domínio. Houve apenas a sensação de que, pela primeira vez na eternidade, Satoru Gojo tinha finalmente chegado em casa.

​Ela era a cura para a minha solidão, e eu era a proteção para a liberdade dela.

​Quando nos separamos, ela descansou a cabeça no meu peito. Eu podia sentir o coração dela batendo rápido — um ritmo que eu queria proteger para sempre.

​— Satoru — ela disse baixinho. — Promete que, não importa o que aconteça amanhã, você não vai voltar para a sua torre de vidro?

​Apertei-a em meus braços, sentindo o perfume de flores de maçã do seu cabelo.

— Eu prometo. Se eu tiver que quebrar o mundo inteiro para ficar aqui fora com você... eu farei isso com um sorriso no rosto.

​Ficamos ali por horas, observando o reflexo das lanternas desaparecerem na água, dois anômalos que encontraram um equilíbrio perfeito no caos. Eu não era mais o mestre, nem o herói, nem a lenda. Eu era apenas o homem que amava a garota dos cabelos de sol.