O Reino estava mergulhado em uma penumbra suave quando Flynn — ou José, como Rapunzel insistia em chamá-lo — nos conduziu até as docas. Maximus ficou para trás, montando guarda (e provavelmente roubando maçãs de alguma carroça), enquanto nós subíamos em um pequeno barco de madeira.

​Eu me sentei na proa, observando as águas calmas refletirem as estrelas. Rapunzel estava inquieta, as mãos trêmulas segurando a borda do barco.

​— Respira, garota — eu disse, baixando um pouco a minha venda para que meus olhos pudessem captar a luz real, sem filtros. — Você esperou dezoito anos. Não deixe o nervosismo roubar os próximos dez minutos de você.

​Flynn remou até o centro do lago, longe do barulho da multidão. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som da água batendo no casco. De repente, uma pequena luz subiu do castelo. Depois outra. E mais uma.

​Em segundos, o céu noturno foi invadido por milhares de lanternas douradas.

​— Pelos deuses... — murmurou Flynn, perdendo sua pose de durão.

​Eu olhei para cima. Meus Six Eyes geralmente processam tudo como informações técnicas: calor, massa, trajetória. Mas ali, eu me forcei a ignorar os cálculos. Eu não queria ver a combustão do pavio ou o deslocamento do ar. Eu queria ver o que a Rapunzel via.

​Era uma constelação feita por mãos humanas. Um rastro de esperança flutuando no vazio.

​— Satoru, olhe! — Rapunzel sussurrou, as lágrimas finalmente rolando. — Elas são... elas são como estrelas que podemos tocar.

​Ela pegou uma lanterna que Flynn havia preparado e me estendeu.

— Você quer ajudar?

​Eu, que já tive o poder de apagar cidades inteiras com um gesto, segurei o papel delicado com uma cautela quase cômica. Juntos, Rapunzel e eu soltamos a lanterna. Ela subiu, dançando no vento, juntando-se às suas irmãs no alto.

​— Sabe — comecei, a voz baixa, enquanto observava o brilho dourado refletido nas pupilas verdes dela. — No meu mundo, as pessoas costumam dizer que eu sou o sol. Que tudo gira em torno do meu poder. Mas eu nunca me senti brilhante. Eu me sentia... isolado. Como se eu estivesse em uma torre de vidro, onde todos podiam me ver, mas ninguém podia me alcançar.

​Rapunzel se virou para mim, a luz das lanternas pintando seu rosto de ouro.

— E agora? Como você se sente agora?

​Olhei ao redor. Para o Flynn, que parecia finalmente ter encontrado algo mais valioso que uma coroa de ouro. Para a floresta de cabelos dourados que preenchia o barco. E para as luzes que desafiavam a escuridão.

​— Agora — eu sorri, um sorriso real, sem sarcasmo. — Sinto que o vidro quebrou. Talvez eu não precise ser o sol. Talvez eu possa ser apenas mais uma dessas lanternas, flutuando com todo o resto.

​A música começou a tocar ao longe, vinda do castelo. Rapunzel e Flynn começaram a cantar baixinho, um momento de conexão que eu respeitei, mantendo-me em silêncio.

​Eu fechei os olhos por um instante. Se isso era o céu, ou um sonho, ou uma segunda chance, não importava mais. Sukuna tinha me dado o fim, mas este mundo estava me dando um propósito: proteger aquele brilho.

​— Rapunzel — eu disse, quando as últimas luzes começaram a se afastar. — A bruxa vai tentar apagar isso. Você sabe, não sabe?

​Ela assentiu, a expressão mudando de deslumbramento para uma determinação férrea.

— Eu sei. Mas eu não sou mais a menina que tem medo da sombra.

​— Ótimo. — Recoloquei minha venda, voltando à postura do feiticeiro mais forte da história. — Porque se ela tentar tocar em você ou nessas luzes... eu vou mostrar para ela o que acontece quando alguém tenta apagar o Infinito.

​Flynn nos olhou, confuso com a intensidade da conversa, mas deu de ombros e começou a remar de volta. O momento de paz estava chegando ao fim, e o cheiro de magia negra começou a surgir na brisa noturna.

​Gothel estava perto. E ela não fazia ideia do monstro que estava protegendo a sua flor.