​A caminhada com Maximus estava sendo... interessante. O cavalo ainda tentava pisar no meu pé a cada dez minutos, o que era inútil graças ao meu Infinito, mas eu admirava a persistência dele. Foi então que, perto de um desfiladeiro escondido, ouvimos um barulho de arbustos sendo esmagados.

​— Maximus, pare! — Rapunzel sussurrou.

​De trás de uma rocha, um homem saltou, segurando uma bolsa de couro contra o peito como se fosse um tesouro sagrado. Ele tinha um cavanhaque aparado e um olhar de quem estava prestes a se dar muito bem ou muito mal. Quando ele nos viu — um cara de cabelo branco e venda, uma garota com uma floresta na cabeça e um cavalo militar — ele congelou.

​— Ah... olá? — O homem disse, recuperando a postura e forçando um sorriso charmoso. — Belos... cabelos? E belos... olhos cobertos? Eu sou Flynn Rider. Vocês devem ter ouvido falar de mim.

​Rapunzel piscou, confusa. Eu apenas cruzei os braços, analisando o fluxo de energia dele. Nada de magia, apenas um excesso de autoconfiança e um estoque perigoso de gel de cabelo.

​— Nunca ouvi falar — respondi, com um sorriso brincalhão. — Você é algum tipo de bobo da corte que se perdeu?

​Flynn pareceu atingido fisicamente pelo meu comentário.

— Bobo da corte? Eu sou o ladrão mais procurado do reino! Minha foto está em todos os cartazes! — Ele parou e olhou para o Maximus, que começou a relinchar de ódio. — Oh, não. O cavalo com consciência social voltou.

​Maximus avançou como um tanque de guerra. Flynn começou a correr em círculos, gritando, enquanto Rapunzel tentava entender quem era o intruso.

​— Satoru, faça alguma coisa! O Maximus vai comê-lo! — Rapunzel exclamou.

​— Relaxa, é educativo — eu ri, mas antes que o cavalo o atropelasse, eu apareci na frente do Flynn em um piscar de olhos (literalmente). O impacto do cavalo parou na minha barreira invisível. — Certo, Marshmallow, chega de bullying. Vamos ouvir o que o famoso Flynn tem a dizer.

​Flynn caiu sentado, arquejando. Ele olhou para mim de baixo para cima.

— Como você fez isso? Você se mexeu como um... borrão de luz. E por que eu não consigo encostar em você?

​— É o meu charme natural — respondi. — Agora, o que tem nessa bolsa que faz um cavalo real querer te chutar até o próximo reino?

​Após Flynn tentar (e falhar miseravelmente) usar o Biquinho para nos convencer a deixá-lo ir, Rapunzel — que agora tinha o Flynn como seu "guia" oficial — o convenceu a nos levar até a cidade para ver as luzes flutuantes.

​Conforme nos aproximávamos do Reino, o meu sarcasmo habitual começou a dar lugar a algo que eu não sentia há muito tempo: curiosidade pura.

​Ao cruzarmos a ponte para a ilha principal, o festival estava em pleno vigor. Para mim, que vivia cercado por maldições grotescas, prédios de concreto e a pressão constante de salvar o Japão, aquele lugar parecia um delírio de cores.

​— Olha só isso... — murmurei, parando diante de uma barraca que vendia espetinhos de maçã caramelizada. — Eles não têm eletricidade, mas têm... alegria? Que conceito estranho.

​— Satoru, olhe as cores! — Rapunzel estava em transe, observando as bandeiras e os murais.

​Flynn, percebendo que eu estava distraído, tentou se afastar de fininho, mas eu segurei o colarinho dele sem nem olhar para trás.

— Nem pense nisso, Rider. Você vai ser o nosso guia turístico oficial. Quero experimentar tudo. O que é aquela coisa redonda e frita ali?

​— É um... bolinho, cara. Você nunca viu um bolinho? — Flynn perguntou, incrédulo.

​— No meu mundo, as coisas são mais... complicadas. Isso aqui é simples. É honesto.

​Passei a tarde agindo como uma criança em uma loja de doces. Comprei flores para Rapunzel (e uma para o Maximus, que a comeu e depois tentou morder minha mão), participei de uma dança na praça que quase resultou na destruição de uma fonte (meu teletransporte não combina bem com passos de polca) e fiquei fascinado com um simples brinquedo de madeira que girava.

​Flynn me olhava como se eu fosse um lunático perigoso, mas rico.

— Você é o cara mais esquisito que eu já conheci, e olha que eu conheço muita gente esquisita.

​— Obrigado, Flynn. Eu recebo muito esse elogio — respondi, observando o sol começar a se pôr.

​O céu estava ficando roxo, a cor da minha técnica mais poderosa, mas dessa vez não havia destruição. Havia expectativa. Milhares de pessoas estavam se preparando para o momento das lanternas.

​— Rapunzel — chamei, vendo-a olhar para o castelo com as mãos entrelaçadas. — Aquilo que você viu da janela da torre por dezoito anos... está prestes a acontecer. E dessa vez, você não está assistindo. Você faz parte disso.

​Ela me olhou, os olhos brilhando com lágrimas de felicidade pura. Eu, o homem que carregava o peso do infinito, me senti subitamente leve. Talvez o céu não fosse um lugar para onde você vai depois de morrer. Talvez o céu fosse apenas isso: um momento simples, com amigos estranhos, esperando as luzes subirem.