A primeira noite de liberdade não foi marcada por uma cama macia, mas pelo som de grilos e o cheiro de terra úmida. Rapunzel estava em um estado de euforia misturada com pânico existencial — em um minuto ela rodopiava pela grama, no outro chorava pedindo perdão à mãe.

​Eu, por outro lado, estava travando minha própria batalha contra um monte de varas de metal e um pedaço de lona que o roteiro chamava de barraca.

​— Escuta aqui, Rapunzel — eu disse, lutando contra o tecido que insistia em voar. — Eu já manipulei o espaço-tempo, já criei vácuos roxos que desintegram a matéria... mas quem foi o sádico que projetou esse sistema de montagem?

​Rapunzel, que estava ocupada conversando com o camaleão (que descobri se chamar Pascal), olhou para mim. Eu estava literalmente enrolado na lona, com o Infinito impedindo que a sujeira me tocasse, mas não me impedindo de parecer um fantasma de camping mal-feito.

​— Você quer ajuda, Satoru? — ela perguntou, escondendo um risinho.

​— Ajuda? Eu sou o Mais Forte! Eu não preciso de ajuda, preciso apenas entender a lógica geométrica deste... Ah, desisti.

​Com um suspiro, usei um pouco de força bruta e apenas estacionei a barraca no chão. Ela ficou meio torta, parecendo uma pirâmide que sofreu um derrame, mas servia.

​Depois veio o verdadeiro desafio: o jantar. Rapunzel conseguiu colher algumas frutas e raízes, mas eu queria algo... substancial.

​— Deixa comigo — anunciei, estalando os dedos. — Vou preparar algo digno de um banquete.

​Tentei acender a fogueira. Em vez de usar pedras ou fósforos como uma pessoa normal, apontei o dedo para os galhos secos.

​— Reversão de Técnica: Vermelho. — Murmurei, mas controlei a energia ao mínimo do mínimo, apenas uma faísca.

​BOOM.

​A fogueira não acendeu; ela explodiu em uma nuvem de cinzas, deixando meu rosto (geralmente impecável) com uma leve mancha de fuligem. Pascal, o camaleão, ficou da cor de carvão de susto.

​— Satoru... talvez seja melhor eu cuidar do fogo? — sugeriu Rapunzel, já pegando duas pedras.

​— Foi um erro de cálculo! O oxigênio deste mundo é... diferente — menti descaradamente, limpando o rosto com o dorso da mão.

​Eventualmente, a fogueira estava acesa e tínhamos alguns peixes que pesquei (usando teletransporte para dentro do rio, o que quase causou um tsunami local). Eu estava tentando assá-los espetados em gravetos.

​— Então — comecei, observando Rapunzel escovar o cabelo que agora ocupava metade do acampamento. — Como é a sensação? O céu não caiu na sua cabeça, viu?

​Ela olhou para cima, para as estrelas, com uma pureza que me fez lembrar de dias mais simples na escola de Tóquio.

— É maior do que eu imaginava. E mais silencioso. Eu sempre achei que o mundo fosse barulhento e perigoso.

​— Ah, ele é barulhento e perigoso — corrigi, dando uma mordida no peixe que, por fora, estava queimado e, por dentro, ainda parecia estar tentando nadar. — Mas é aí que mora a graça. O perigo faz você se sentir vivo. E o barulho? Bom, o barulho é só a música de quem não está sozinho.

​Rapunzel sorriu. Ela pegou um pedaço de pão que trazia na bolsa e dividiu comigo. Ficamos ali, em silêncio por um tempo. O Mais Forte e a Garota da Torre, dois isolados que, por um erro do destino (ou um acerto épico), agora dividiam o mesmo oxigênio.

​— Satoru? — ela chamou baixinho.

​— Hum?

​— Obrigada por não me deixar na torre. Mesmo você sendo... bom, você.

​Dei de ombros, fingindo que o elogio não tinha aquecido algo dentro do meu peito que eu achava que tinha morrido em Shinjuku.

— Não agradeça ainda. Amanhã a gente começa a caminhada de verdade. E já aviso: se aparecer mais alguma bruxa, eu vou deixar você usar a frigideira primeiro. Eu gostei do barulho que ela faz na cabeça das pessoas.

​Ela riu, uma risada clara que parecia afastar qualquer sombra da floresta. Aquela noite, dormi encostado em uma árvore, vigiando o sono da donzela. Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não era solitário. Era apenas... paz.