Perverso ᝰ'Satoru Gojo
3 Capítulo 03
A primeira noite de liberdade não foi marcada por uma cama macia, mas pelo som de grilos e o cheiro de terra úmida. Rapunzel estava em um estado de euforia misturada com pânico existencial — em um minuto ela rodopiava pela grama, no outro chorava pedindo perdão à mãe.
Eu, por outro lado, estava travando minha própria batalha contra um monte de varas de metal e um pedaço de lona que o roteiro chamava de barraca.
— Escuta aqui, Rapunzel — eu disse, lutando contra o tecido que insistia em voar. — Eu já manipulei o espaço-tempo, já criei vácuos roxos que desintegram a matéria... mas quem foi o sádico que projetou esse sistema de montagem?
Rapunzel, que estava ocupada conversando com o camaleão (que descobri se chamar Pascal), olhou para mim. Eu estava literalmente enrolado na lona, com o Infinito impedindo que a sujeira me tocasse, mas não me impedindo de parecer um fantasma de camping mal-feito.
— Você quer ajuda, Satoru? — ela perguntou, escondendo um risinho.
— Ajuda? Eu sou o Mais Forte! Eu não preciso de ajuda, preciso apenas entender a lógica geométrica deste... Ah, desisti.
Com um suspiro, usei um pouco de força bruta e apenas estacionei a barraca no chão. Ela ficou meio torta, parecendo uma pirâmide que sofreu um derrame, mas servia.
Depois veio o verdadeiro desafio: o jantar. Rapunzel conseguiu colher algumas frutas e raízes, mas eu queria algo... substancial.
— Deixa comigo — anunciei, estalando os dedos. — Vou preparar algo digno de um banquete.
Tentei acender a fogueira. Em vez de usar pedras ou fósforos como uma pessoa normal, apontei o dedo para os galhos secos.
— Reversão de Técnica: Vermelho. — Murmurei, mas controlei a energia ao mínimo do mínimo, apenas uma faísca.
BOOM.
A fogueira não acendeu; ela explodiu em uma nuvem de cinzas, deixando meu rosto (geralmente impecável) com uma leve mancha de fuligem. Pascal, o camaleão, ficou da cor de carvão de susto.
— Satoru... talvez seja melhor eu cuidar do fogo? — sugeriu Rapunzel, já pegando duas pedras.
— Foi um erro de cálculo! O oxigênio deste mundo é... diferente — menti descaradamente, limpando o rosto com o dorso da mão.
Eventualmente, a fogueira estava acesa e tínhamos alguns peixes que pesquei (usando teletransporte para dentro do rio, o que quase causou um tsunami local). Eu estava tentando assá-los espetados em gravetos.
— Então — comecei, observando Rapunzel escovar o cabelo que agora ocupava metade do acampamento. — Como é a sensação? O céu não caiu na sua cabeça, viu?
Ela olhou para cima, para as estrelas, com uma pureza que me fez lembrar de dias mais simples na escola de Tóquio.
— É maior do que eu imaginava. E mais silencioso. Eu sempre achei que o mundo fosse barulhento e perigoso.
— Ah, ele é barulhento e perigoso — corrigi, dando uma mordida no peixe que, por fora, estava queimado e, por dentro, ainda parecia estar tentando nadar. — Mas é aí que mora a graça. O perigo faz você se sentir vivo. E o barulho? Bom, o barulho é só a música de quem não está sozinho.
Rapunzel sorriu. Ela pegou um pedaço de pão que trazia na bolsa e dividiu comigo. Ficamos ali, em silêncio por um tempo. O Mais Forte e a Garota da Torre, dois isolados que, por um erro do destino (ou um acerto épico), agora dividiam o mesmo oxigênio.
— Satoru? — ela chamou baixinho.
— Hum?
— Obrigada por não me deixar na torre. Mesmo você sendo... bom, você.
Dei de ombros, fingindo que o elogio não tinha aquecido algo dentro do meu peito que eu achava que tinha morrido em Shinjuku.
— Não agradeça ainda. Amanhã a gente começa a caminhada de verdade. E já aviso: se aparecer mais alguma bruxa, eu vou deixar você usar a frigideira primeiro. Eu gostei do barulho que ela faz na cabeça das pessoas.
Ela riu, uma risada clara que parecia afastar qualquer sombra da floresta. Aquela noite, dormi encostado em uma árvore, vigiando o sono da donzela. Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não era solitário. Era apenas... paz.
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