Perverso ᝰ'Satoru Gojo
2 Capítulo 02
Pela fenda do armário, observei a cena como quem assiste a uma peça de teatro mal escrita. Rapunzel lançou as tranças e, segundos depois, uma mulher de cachos escuros e olhar predatório saltou para dentro. O abraço que ela deu na menina não transmitia calor; era o abraço de um dono conferindo sua propriedade.
— Minha querida, como tens passado? Já deixou de lado essa ideia tola de ir lá fora?
Rapunzel tremia. Eu podia sentir a flutuação da sua energia vital — o medo era um ruído estático no ar. De repente, o olhar da bruxa cortou o quarto e parou exatamente no guarda-roupa. Meu sangue não gelou por medo, mas por antecipação. Recuei entre os vestidos, ocultando minha presença.
Ouvi o som. Unhas raspando a madeira. Um arranhão persistente, como o de um animal faminto.
— Sinto cheiro de rato aqui dentro — Gothel murmurou, a voz destilando uma doçura falsa que me deu náuseas. — Um ratinho curioso que não deveria ter entrado.
Ela abriu a porta. A luz invadiu meu esconderijo, mas eu me mantive imóvel, controlando cada batida do coração. Eu poderia obliterar aquela mulher com um estalar de dedos, mas o olhar desesperado de Rapunzel me deteve.
— Gothel, no armário não tem rato nenhum! — Rapunzel interveio, puxando a bruxa pelo braço com uma coragem que ela claramente não sentia.
— Se você diz... — a bruxa sorriu, mas seus olhos continuavam vasculhando as sombras.
Ela agarrou o braço de Rapunzel com força excessiva.
— Você vai me pagar caro se estiver escondendo alguém.
— Não estou escondendo ninguém! — Rapunzel exclamou, as palavras saindo atropeladas. — Eu andei pensando... e não quero mais sair. Você me criou bem aqui. Seria ingratidão ir embora.
O teatro funcionou. O rosto da bruxa relaxou em uma máscara de satisfação. Ela sentou Rapunzel na cama e começou a escovar os fios dourados enquanto entoava um cântico rítmico.
"Brilha, linda flor..."
Meus olhos, os Six Eyes, captaram tudo. Não era apenas música. Era uma técnica de reversão de fluxo vital. O cabelo de Rapunzel começou a emitir uma luminescência dourada, uma energia pura que fluía diretamente para a bruxa. As rugas de Gothel desapareceram, a pele esticou, a juventude foi roubada da luz daquela garota.
Que diabo de maldição é essa?, pensei. Era um contrato parasitário. Aquela mulher não era uma mãe; era uma maldição em forma humana, alimentando-se da fonte de juventude que Rapunzel carregava sem saber.
— Agora você está segura — Gothel disse, após Rapunzel cair em um estado letárgico, quase hipnótico. — Descanse.
Antes de dormir totalmente, a menina plantou a semente da fuga: pediu tintas feitas de conchas raras. Uma jornada de três dias. Perfeito. Assim que a bruxa desceu pelos cabelos e sumiu na floresta, eu saí do armário.
— Mademoiselle, o despertador tocou. Hora de ir! — cutuquei as bochechas dela. Ela acordou assustada, mas o brilho de determinação voltou aos seus olhos.
A noite caiu, pintando o céu com estrelas que pareciam diamantes lançados sobre um veludo azul. Olhei para aquele horizonte desconhecido. Onde estão todos? Geto? Sukuna? As perguntas eram como correntes, mas eu as quebrei. O agora era Rapunzel.
Ela se preparou para jogar os cabelos pela janela para descermos, mas eu soltei uma risadinha e a peguei no colo, estilo noiva.
— O que você está fazendo? — ela arregalou os olhos.
— Cortando caminho. Segura firme!
Pulei. O vento açoitou nossos rostos, e o cabelo dourado dela flutuou como uma nebulosa atrás de nós. Aterrissei suavemente — o Infinito amortecendo o impacto — e a coloquei no chão. No segundo seguinte, ela saiu em disparada, correndo como se a própria morte estivesse em seus calcanhares.
— Ei! Espera aí! — gritei, achando graça.
Ela era rápida para uma civil, mas eu? Eu sou o homem que redefine a velocidade. Em um flash, as folhas das árvores nem tiveram tempo de cair antes que eu estivesse ao lado dela, rindo. O sentimento era inebriante. Eu me sentia... vivo. Não como o Mais Forte, mas como alguém que apenas corre porque quer chegar a algum lugar.
Tentei pegá-la nos braços novamente para brincar, mas o destino — e uma frigideira de ferro fundido — tinha outros planos.
CLANG!
O som metálico ecoou pela floresta. Senti um galo subir na minha cabeça. Fiquei estático, piscando, enquanto ela recuava com as bochechas vermelhas.
— Me coloque no chão! Sem toques! — ela exclamou, brandindo a arma de cozinha.
Massageei o local da pancada, genuinamente surpreso.
— O que foi isso? Uma nova técnica amaldiçoada?
— Você me tocou sem permissão! — ela baixou a cabeça, envergonhada, mas firme. — Eu... eu não gosto de ser tocada.
Fiquei em silêncio por um momento. Entendi. Anos de isolamento e os toques possessivos da bruxa haviam deixado marcas que o Infinito não podia proteger.
— Sinto muito — eu disse, meu tom perdendo a ironia e ganhando sinceridade. — Não queria te assustar.
— Tudo bem... — ela murmurou. — É que você é muito estranho. Eu não queria te ferir.
Soltei uma gargalhada que espantou os pássaros das árvores próximas.
— Ferir? Aquilo foi um carinho perto do que eu já aguentei! Agora, me sinto pronto para o segundo round! Tchau, tchau!
Comecei a correr novamente, mas desta vez, mantendo a distância respeitosa. Ouvi os protestos dela lá atrás, rindo e tentando me alcançar, enquanto um pequeno camaleão verde se segurava no ombro dela para não voar com o vento.
Naquele momento, sob a luz da lua, fiz uma promessa silenciosa. Eu não sabia se aquele mundo era real ou se minha alma estava apenas pregando uma peça final em mim. Mas, enquanto eu respirasse, Rapunzel conheceria a liberdade. Eu a faria feliz, mesmo que eu tivesse que quebrar as leis de todos os mundos para isso.
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