Perverso ᝰ'Satoru Gojo
1 Capítulo 01
Fui uma raridade. Uma anomalia que desequilibrou as engrenagens do mundo. Nasci abençoado com a união de poderes que me renderam o título de O Mais Forte, mas títulos são apenas rótulos para a solidão. No topo, o ar é rarefeito. Quanto mais poder eu acumulava, mais as pessoas se tornavam borrões distantes. A solidão não era apenas um efeito colateral; era a própria fonte do meu poder.
Minha compreensão da realidade já não cabia neste mundo. Essa iluminação me trouxe uma autoconfiança que muitos chamariam de arrogância — e talvez fosse. Eu era o ápice da humanidade. Desafios? Eram apenas distrações. Nem mesmo a sombra de um suserano me causava frio na barriga. O medo é um conceito que não se aplica a quem ocupa o lugar de Deus.
Até que ele surgiu. Sukuna. Uma lenda que saltou dos livros para se tornar um desafio real. Minha reação? Deleite puro. Finalmente, alguém para preencher o vazio. Finalmente, um espelho.
No fim daquela luta, enquanto meu corpo encontrava o chão, eu finalmente encontrei a cura. Sob um céu tingido de sangue e admiração, minha visão escureceu. A última coisa que restou foi a voz dele, ecoando como um veredito: Enquanto eu viver, Satoru Gojo, jamais me esquecerei de você.
O som se dissipou. O silêncio se tornou absoluto.
....
Quando abri os olhos, não havia sangue ou o cheiro de Shinjuku. Havia o canto de pássaros e o perfume de flores que eu não reconhecia. Levantei-me, sentindo o vento balançar meus fios brancos. Onde estava o vazio?
— Onde estou? — murmurei para o nada. — Será o céu? Cadê o Geto? Aquele idiota deve estar escondido em algum lugar, rindo da minha cara.
Comecei a caminhar. O estalar dos galhos sob minhas botas era real demais para um sonho. Sukuna venceu, e com isso, a maldição de ser o mais forte pareceu evaporar. Olhando para trás, percebi a ironia: eu nunca quis o topo. Eu só queria alguém que fosse tão solitário quanto eu. E quem diria que o Rei das Maldições guardava uma solidão ainda mais profunda que a minha?
Me aprofundei na floresta até que uma estrutura rompeu a linha das árvores: uma torre altíssima, sem portas ou escadas. Um sorriso de canto surgiu em meus lábios.
— Bem familiar... — Falei sozinho. — Se o Suguru estiver lá em cima fazendo cosplay de princesa, eu vou rir por toda a eternidade.
Escalar foi um passatempo simples. Ao saltar para dentro da janela aberta, encontrei um quarto repleto de pinturas vibrantes. No centro, uma cama. Sob as cobertas, uma silhueta. Aproximei-me, o Infinito relaxado, a curiosidade guiando meus passos. Ao puxar o lençol, não encontrei um velho amigo, mas uma cena de conto de fadas.
— Uma donzela? — Ergui as sobrancelhas. — Definitivamente, esse lugar tem um senso de humor peculiar.
Ela era a imagem da inocência: cabelos dourados que pareciam quilômetros de seda espalhados pelo chão e um vestido lilás.
— Bela Adormecida, hein? — Me inclinei, o rosto a centímetros do dela. — Dizem que o protocolo aqui é um beijo...
Antes que nossos lábios se tocassem, os olhos dela se abriram como flashes.
— AAAHHH! QUEM É VOCÊ?!
A donzela não era tão delicada assim. Um travesseiro me atingiu com a força de um golpe de grau quatro e, logo em seguida, fui empurrado para trás. Recuei, rindo, erguendo as mãos em sinal de paz.
— Calma, calma, mademoiselle! — Eu disse, a voz suave. — Eu só estava tentando seguir o roteiro e te acordar.
Ela se sentou, limpando o sono dos olhos, mas mantendo a guarda alta.
— Quem é você? E como entrou aqui?
— Satoru Gojo. Viajante, ex-professor e, aparentemente, seu novo vizinho — respondi com uma reverência teatral. — Vi a torre e decidi checar se havia alguém precisando de ajuda. Ou de companhia.
— Você é... estranho. Eu sou Rapunzel.
— Prazer, Rapunzel. Mas me diga, por que morar num lugar que parece um pote de conserva gigante? Você nunca quis ver o que tem lá fora?
O brilho que surgiu nos olhos dela foi imediato. Uma mistura de desejo e medo que eu conhecia bem.
— Sempre quis sair. Ver as luzes... Ter liberdade. Mas isso é só um sonho.
Aproximei-me e toquei uma mecha de seu cabelo dourado. Era pesado, carregado de uma energia diferente de tudo que já vi.
— O mundo lá fora é um caos, Rapunzel. Mas é um caos lindo, cheio de aventuras e possibilidades. E você não nasceu para ser um segredo guardado em uma prateleira.
Ela me olhou, a esperança lutando contra anos de isolamento.
— Você realmente acha que eu posso?
— Eu não acho. Eu garanto. — Pisquei para ela. — E eu vou te ajudar. Arruma suas coisas. Vamos encontrar um lar de verdade para você.
Ela sorriu, e por um momento, a luz do quarto pareceu dobrar de intensidade. Mas a alegria foi cortada por um grito vindo da base da torre:
"Rapunzel, jogue seus cabelos!"
O sangue sumiu do rosto da garota. Ela correu até mim, os dedos trêmulos agarrando meu braço.
— É a bruxa — ela sibilou, o terror absoluto em sua voz. — Ela voltou! Você precisa se esconder! Agora!
Ela me empurrou para dentro de um guarda-roupa de madeira escura antes que eu pudesse protestar que "bruxas" não eram exatamente um problema para mim.
— Fique quieto, por favor! — Ela sussurrou, batendo as portas e me deixando na escuridão.
Ouvi seus passos apressados se afastando. O silêncio da torre agora era pesado, carregado de uma tensão elétrica. Encostei as costas na madeira, sentindo meu coração bater num ritmo que eu não sentia há muito tempo.
Uma bruxa, é? — pensei, um sorriso invisível cortando meu rosto no escuro. — Espero que ela seja mais divertida que o Sukuna.
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