Fui uma raridade. Uma anomalia que desequilibrou as engrenagens do mundo. Nasci abençoado com a união de poderes que me renderam o título de O Mais Forte, mas títulos são apenas rótulos para a solidão. No topo, o ar é rarefeito. Quanto mais poder eu acumulava, mais as pessoas se tornavam borrões distantes. A solidão não era apenas um efeito colateral; era a própria fonte do meu poder.

​Minha compreensão da realidade já não cabia neste mundo. Essa iluminação me trouxe uma autoconfiança que muitos chamariam de arrogância — e talvez fosse. Eu era o ápice da humanidade. Desafios? Eram apenas distrações. Nem mesmo a sombra de um suserano me causava frio na barriga. O medo é um conceito que não se aplica a quem ocupa o lugar de Deus.

​Até que ele surgiu. Sukuna. Uma lenda que saltou dos livros para se tornar um desafio real. Minha reação? Deleite puro. Finalmente, alguém para preencher o vazio. Finalmente, um espelho.

​No fim daquela luta, enquanto meu corpo encontrava o chão, eu finalmente encontrei a cura. Sob um céu tingido de sangue e admiração, minha visão escureceu. A última coisa que restou foi a voz dele, ecoando como um veredito: Enquanto eu viver, Satoru Gojo, jamais me esquecerei de você.

​O som se dissipou. O silêncio se tornou absoluto.

​....

​Quando abri os olhos, não havia sangue ou o cheiro de Shinjuku. Havia o canto de pássaros e o perfume de flores que eu não reconhecia. Levantei-me, sentindo o vento balançar meus fios brancos. Onde estava o vazio?

​— Onde estou? — murmurei para o nada. — Será o céu? Cadê o Geto? Aquele idiota deve estar escondido em algum lugar, rindo da minha cara.

​Comecei a caminhar. O estalar dos galhos sob minhas botas era real demais para um sonho. Sukuna venceu, e com isso, a maldição de ser o mais forte pareceu evaporar. Olhando para trás, percebi a ironia: eu nunca quis o topo. Eu só queria alguém que fosse tão solitário quanto eu. E quem diria que o Rei das Maldições guardava uma solidão ainda mais profunda que a minha?

​Me aprofundei na floresta até que uma estrutura rompeu a linha das árvores: uma torre altíssima, sem portas ou escadas. Um sorriso de canto surgiu em meus lábios.

​— Bem familiar... — Falei sozinho. — Se o Suguru estiver lá em cima fazendo cosplay de princesa, eu vou rir por toda a eternidade.

​Escalar foi um passatempo simples. Ao saltar para dentro da janela aberta, encontrei um quarto repleto de pinturas vibrantes. No centro, uma cama. Sob as cobertas, uma silhueta. Aproximei-me, o Infinito relaxado, a curiosidade guiando meus passos. Ao puxar o lençol, não encontrei um velho amigo, mas uma cena de conto de fadas.

​— Uma donzela? — Ergui as sobrancelhas. — Definitivamente, esse lugar tem um senso de humor peculiar.

​Ela era a imagem da inocência: cabelos dourados que pareciam quilômetros de seda espalhados pelo chão e um vestido lilás.

​— Bela Adormecida, hein? — Me inclinei, o rosto a centímetros do dela. — Dizem que o protocolo aqui é um beijo...

​Antes que nossos lábios se tocassem, os olhos dela se abriram como flashes.

​— AAAHHH! QUEM É VOCÊ?!

​A donzela não era tão delicada assim. Um travesseiro me atingiu com a força de um golpe de grau quatro e, logo em seguida, fui empurrado para trás. Recuei, rindo, erguendo as mãos em sinal de paz.

​— Calma, calma, mademoiselle! — Eu disse, a voz suave. — Eu só estava tentando seguir o roteiro e te acordar.

​Ela se sentou, limpando o sono dos olhos, mas mantendo a guarda alta.

— Quem é você? E como entrou aqui?

​— Satoru Gojo. Viajante, ex-professor e, aparentemente, seu novo vizinho — respondi com uma reverência teatral. — Vi a torre e decidi checar se havia alguém precisando de ajuda. Ou de companhia.

​— Você é... estranho. Eu sou Rapunzel.

​— Prazer, Rapunzel. Mas me diga, por que morar num lugar que parece um pote de conserva gigante? Você nunca quis ver o que tem lá fora?

​O brilho que surgiu nos olhos dela foi imediato. Uma mistura de desejo e medo que eu conhecia bem.

— Sempre quis sair. Ver as luzes... Ter liberdade. Mas isso é só um sonho.

​Aproximei-me e toquei uma mecha de seu cabelo dourado. Era pesado, carregado de uma energia diferente de tudo que já vi.

— O mundo lá fora é um caos, Rapunzel. Mas é um caos lindo, cheio de aventuras e possibilidades. E você não nasceu para ser um segredo guardado em uma prateleira.

​Ela me olhou, a esperança lutando contra anos de isolamento.

— Você realmente acha que eu posso?

​— Eu não acho. Eu garanto. — Pisquei para ela. — E eu vou te ajudar. Arruma suas coisas. Vamos encontrar um lar de verdade para você.

​Ela sorriu, e por um momento, a luz do quarto pareceu dobrar de intensidade. Mas a alegria foi cortada por um grito vindo da base da torre:

​"Rapunzel, jogue seus cabelos!"

​O sangue sumiu do rosto da garota. Ela correu até mim, os dedos trêmulos agarrando meu braço.

— É a bruxa — ela sibilou, o terror absoluto em sua voz. — Ela voltou! Você precisa se esconder! Agora!

​Ela me empurrou para dentro de um guarda-roupa de madeira escura antes que eu pudesse protestar que "bruxas" não eram exatamente um problema para mim.

— Fique quieto, por favor! — Ela sussurrou, batendo as portas e me deixando na escuridão.

​Ouvi seus passos apressados se afastando. O silêncio da torre agora era pesado, carregado de uma tensão elétrica. Encostei as costas na madeira, sentindo meu coração bater num ritmo que eu não sentia há muito tempo.

​Uma bruxa, é? — pensei, um sorriso invisível cortando meu rosto no escuro. — Espero que ela seja mais divertida que o Sukuna.