Perto do Fim
7 Capítulo 7 - O Maior dos Clichês.
Notas iniciais
Descendo as escadas, vi meu pai sentando ao sofá. Havia acordado mais cedo que eu, pelo jeito. Ao ouvir meus passas, John se virou para mim. Seu rosto estava pálido e demonstrava preocupação.
– O que houve, pai? Senhor está bem? — Perguntei.
– Está, eu estou bem...é, não é nada.
– Pai, seu rosto está mais pálido que o normal. Diz logo.
– Sua mãe acabou de me ligar dizendo que iria passar o dia de amanhã aqui, que está com saudades de você.- respondeu.
– Tchau. — falei e parti para a porta. Que ótimo, tudo o que faltava era Rosaline aparecer por aqui. Como se as coisas não já estivessem uma merda o bastante. Eu sabia exatamente o que ela faria aqui. Jogaria todas as coisas que já fiz em minha cara, falaria da morte de Em, da culpa que era totalmente minha, e do quão eu transformara sua vida em um inferno. Rosaline nunca foi uma mãe para mim, não como era para Em. A maioria das vezes estava ocupada, ou saindo com caras casados e babacas. Nem mesmo quando Em era viva, ela parecia se importar com alguma coisa. E isso era o mais me irritava. Ela virou "mãe" muito tarde. Nunca precisou se preocupar porque eu estava lá para cuidar de Emily, que também sabia que a mãe não ligava muito. Isso nunca importou para mim, e não será agora que importará. O que irrita é o fato dela ter visto Em só quando ela já estava morta, só ter percebido minha existência quando saí pela porta da frente. Minha mãe me expulsara de casa pela repulsa de olhar para o menino que matou sua filha, mas sua desculpa fora que precisava passar um tempo só e que eu não via meu pai a muito e tempo e que faria um bem enorme para mim. Como se não bastasse minha culpa eterna, passando por cada nervo e parte de meu corpo, agora ainda teria de aturar a culpa de Rosaline. Minha mãe, amara Emily do jeito dela, mas era o amor mais puro que uma mãe poderia sentir por um filho, apenas não dava a atenção que uma criança merecia. Afastei todo ódio pela situação e fui andando até a escola.
Eu nunca havia ido para o colégio andando, meu sedentarismo dizia que era longe, e de fato, era. Aproximando-me da faixa de pedestre que ligava a esquina com a minha escola, pude ver de longe, Katherine, Matt, Naomi e Sam. Eles sem nem mesmo terem falado comigo, faziam meu dia quase melhor. Matt usava sua calça jeans de sempre, uma blusa surrada e tênis. Naomi usava um vestido azul e uma bota preta. Katherine, usava a mesma roupa do dia do parque, vestido creme e sapatilhas vermelhas. Sam estava com um short curto — todo rasgado e surrado-, uma camiseta do Bob Dylan e seu tênis preto. Quando me aproximei do grupo, Sam olhou fixamente para mim e veio até a minha direção, e quase automaticamente me beijara. Ela nunca fez esse tipo de coisa, nunca me beijara na frente de alguém. Suas mãos envolviam meu pescoço. Ao perceber que me beijara, Sam arregalou seus olhos e em seus lábios, formaram a palavra "desculpa". Naquela manhã, seus olhos estavam diferentes, seu beijo e ate mesmo seu cheiro. Matt e Katherine nos encaravam, menos Naomi, que estava entretida demais em seu livro para no perceber. Matt me olhava com um olhar de "seu foda, por que não me contou que estava se pegando novamente? ".Foi então que ele quebrou o silêncio, afastando Sam de perto de mim e me cumprimentando.
– E AÍ RUPS, SEU GAY! Finalmente, pensei que nem viria mais. — Disse Matt.
– Eu tive que vir andando, é....Tive uns problemas, eu explico depois. — Descifrando seu olhar de questionamento. Katherine e Naomi vieram falar comigo, e assim, o sinal tocou e entramos.
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As aulas daquele colégio estavam cada dia mais insuportáveis, mal acredito que só ficaria mais esse ano e depois poderia fazer o que eu realmente gostava. O sinal para sairmos bateu, e eu fui o primeiro a sair. Encostei no corrimão e esperei meus amigos. Amanhã minha mãe estaria ali e eu só queria gritar em protesto. Isso estava me matando. Eu não queria Sam, não queria festas, não queria conversar com ninguém além do Matt. Ficar deitado o dia todo, comendo e jogando video-game. Eu precisava disso, e ele sabia muito bem como tirar todas as coisas que me matavam de perto de mim. Foi quando Matt e Sam se aproximaram de mim.
– Então, para onde vamos? — Perguntou Sam.
– Eu estava pensando em ir para casa do Matt, temos trabalho de história para fazer, e estou precisando muito da nota...Sério. — Menti. Olhei fixamente para o Matt, tentando fazer ele entender que eu precisava conversar com ele a sós.
– Sim, e esse trabalho de geo...História, vale muito ponto. É enorme.
– Você está brincando né, Rupert? Eu tenho ideias bem mais divertidas do que fazer um trabalho de história, tipo, minha casa vazia, uma pilha de filmes velhos e um sofá. — Disse Sam. Puta merda, puta merda, meu deus. Por que Sam sempre fazia esse tipo de coisa? Eu tentei de todas as formas possíveis dizer "não" e inventar outra desculpa, mas simplesmente não saiu nada de minha boca. Mas eu precisava disso, e até mesmo uma proposta como essa, tinha de ser negada. Bem, isso até Katherine chegar e agarrar Matt, e dizer que ele ficaria com ela a tarde toda. Desta forma, Sam me puxou escada a baixo e fomos andando até sua casa. No caminho, me contara que seu pai estava viajando por uma série de problemas, mas que logo voltava. Ficaria pelo menos três dias fora de casa. Me contara como foi seu dia, e me perguntava se eu estava bem a cada dois segundos. Sam estava muito estranha, seu humor estava completamente estranho e ela estava super carinhosa. Fomos para a casa dela de mão dadas, coisa que nunca nem havia acontecido. Chegando lá, Sam destrancou a porta e pediu para que eu sentasse em seu sofá que faria pipoca. Pera, isso estava mesmo acontecendo? Isso vai soar meio pervertido mas eu não achei que nós, de fato, viríamos filmes e comeríamos pipoca no sofá. Não fazia o estilo de Sam. Não questionei, qualquer coisa me faria bem naquela situação e me distrairia. Ela voltou com um pote enorme de pipoca amanteigada e com uma grande barra de chocolate, e pediu para eu ajudá-la a trazer o suco. Sentamos no sofá e Sam espalhou seus dvds, para que nós pudéssemos escolher. Ela tinha milhares, "Clube dos Cinco", "Laranja Mecânica", " Os desajustados", "Um dia" e vários outros milhares de filmes bons, mas ela escolhera "Lado a Lado", o que era uma merda porque eu chorava igual a um marica quando via. Tentei de toda forma falar para assistirmos outro mas ela já estava decidida.
O filme estava acontecendo e algumas vezes, Sam me beijava e deitava em meu peito. Até que chegara na parte que a personagem, mãe das duas crianças anunciava que estava com câncer. Quando olhei para o lado, Sam estava gemendo e soluçando de tanto chorar, suas mãos foram até seu rosto e parecia tentar não chorar, limpando suas lágrimas, disse:
– Desculpe, eu estou meio emotiva...é melhor você ir embora. — Ela já estava chorando novamente. — Eu estraguei tudo né? Fui tentar ser romântica e normal e olha no que deu...- Deu um breve sorriso em meio seus suspiros.
– Não vou te deixar nesse estado de jeito algum. Você está bem? Não é pelo filme que está chorando, é? — No estante que as palavras saíram de minha boca, Sam chorou mais ainda. Eu abracei-a forte, tentando consolá-la.
– Lembra quando eu disse que tive de viajar por que minha mãe estava doente? — Assenti com a cabeça, com medo do que viria. — Bem, ela não estava só doente. Ela tem, tinha, câncer e quando eu fui já estava em fase terminal. Minha mãe saiu de casa para não dar "trabalho" a ninguém, foi viver com minha tia e meu pai de tempos em tempos ia para lá visitá-la. Na minha viagem até ela, quase não se levantava da cama, mas fora isso, parecia tão bem. Lemos livros juntas e cantamos, foi tudo tão maravilhoso. — a lembrança fez a estremecer, tentando conter o choro. — Meu pai recebeu a notícia de que ela estava morrendo e eu, eu não pude ir porque o fato de pensar que ela está morrendo, definitivamente, eu...- Ela se jogou em meus braços, aos prantos.
– Eu estou aqui, Sam..Sinto muito, eu...- Ela me interrompeu, saindo de meus abraços.
– Desculpe por ter sido tão idiota nessas ultimas semanas, ou melhor, desde que nós dois nos conhecemos. É que, desde que minha mãe se foi, ela levou tudo de mim e só deixou a saudade. Eu saí com tantos caras idiotas, fiz todas as coisas erradas que poderia fazer. Eu fiz de tudo para sentir qualquer outra coisa, além da falta dela. Qualquer coisa. E você foi um alvo tão fácil. Eu só precisava me distrair...E quanto mais você estava ali, mais eram meus esforços para fazer com que tudo fosse só por diversão e distração, e apesar de todas as minhas tentativas de afastar você de mim, aqui está você. E por mais clichê que seja, você me fez sentir outra vez. De todas as coisas erradas que já fiz, me apaixonar por você de longe, é a melhor delas. E eu sou eternamente grata por isso. Sendo assim, Rupert Collins, obrigada por ser tão insistente. E desculpe por ter demorado tanto tempo para dizer isso a você. — Sam, se derramou em lágrimas, e suas palavras me atingiram como estilhaço de vidro, e em meu peito ecoaram. Sam havia dormido em meus braços, suas lágrimas escorriam de seus olhos até o tecido de minha blusa.
Eu estava completamente imóvel, meus músculos haviam congelado e meus sentidos desligados. Apenas fiquei ali, observando-a dormir em meus braços. Sentindo o calor de seu corpo contra o meu. E naquele instante, eu jurei que jamais sairia de perto dela, até que ficasse bem. Sam era mais destrutiva que eu, ainda mais frágil do jeito que estava. Ela tentaria fazer alguma besteira, mas eu estaria ali para cuidar dela. Suas palavras voltavam em meus ouvidos, eu poderia morar naquele momento o resto de minha vida. Olhando para Sam, seus olhos estavam inchados e boca trêmula. Em alguns momentos, ela se mexia e em um deles, fez com que eu deitasse para que ela dormisse sobre mim.
Mandei uma mensagem para meu pai, mentindo que dormiria na casa do Matt, e me desculpei pela grosseria de mais cedo e larguei o celular de lado. Tudo o que eu precisava estavam bem aqui. A tarde já estava quase acabando e eu não sentia vontade nenhuma de dormir, eu apenas queria que aquilo durasse por um bom tempo. Mal podia acreditar que aquilo, de fato, ocorrera. Meus ouvidos oscilavam ao ouvir suas palavras em minha cabeça, " de todas as coisas erradas que já fiz, me apaixonar por você de longe, é a melhor delas." Fechei os meus olhos e tentei pensar em mil motivos para não amar Samantha Miller, não achei nenhum. Aproximei meu rosto de seus ouvidos, mesmo que dormindo, sussurrei:
– Eu te amo, e sei disso, desde a primeira vez em que lhe vi. E se pudesse mudar cada coisa que fiz, deixaria do mesmo jeito. Eu amo você, Samantha Miller.
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