Perto do Fim
8 Capítulo 8 - Vida cuspindo em mim.
Notas iniciais
No meio da madrugada, levei Sam até seu quarto e dormimos por lá. Quer dizer, ela dormiu. Eu só fiquei pensando na quase morte de sua mãe, em como ela estaria se sentindo e da visita de Rosaline a mim. Eu odiava toda aquela merda. Queria chorar e ficar em posição fetal até o fim. Porém não podia me dar ao luxo, Sam precisava de mim e eu tinha que aguentar tudo até ser perdoado. Minha cabeça latejava de dor e minhas mãos gelavam. Olhei no relógio de cabeceira de Sam e marcavam 12h59. Sim, "nós" passamos o dia dormindo, Sam parecia precisar de muito mais do que uma manhã inteira de descanso, merecia um dia inteiro. Eu tinha que ir para a casa logo, mas não podia acordar Sam e nem deixá-la sozinha. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para Katherine:
" Kath, por favor venha até a casa de Sam e fique com ela. Preciso ir para casa e ela não pode ficar sozinha. Aconteceu umas merdas, só venha para cá. Obrigado. Rupert."
Levantei e me vesti, observei Sam dormir e levei minha boca até sua testa, dando-lhe um beijo de despedida. Ao sair do quarto, tentei ao máximo não fazer barulho ao fechá-la. Desci as escadas e parti para a porta. O clima de Wells estava totalmente nublado e tudo estava gélido. Andei o mais lento que poderia. Quanto mais tempo eu demorasse, menos seria o tempo que teria de aguentar " minha mãe". A ideia fez com que minha cabeça doesse. Ao caminhar, senti a vontade incontrolável de fumar. Isso nunca acontecia. Droga, Sam. Lembrar dela, me fez sorrir. Tudo aquilo ontem a noite foi loucura, mas não conseguia me sentir tão mal assim. Era egoísta, eu sei. Porém, eu sentia tanto pela mãe dela...Fechei os olhos e afastei a lembrança. Andei até minha vizinhança. Ao avistar minha casa, senti meu coração acelerar. Eu estava com medo do que poderia acontecer. Na porta de minha casa, respirei fundo. Fechei os olhos ao abrir a porta. Ao abrir, minha mãe já estava sentava em nosso sofá com uma xícara de café, presumo. Ela deu um sorriso tão falso que quase dei meia-volta e fui embora. Meu pai estava em pé conversando com ela. Ele se virou e veio até mim, me abraçando. Em seu abraço quase pude ouvir um "socorro, essa mulher está me matando". Desde que me lembro, meu pai não suportava ficar um segundo com ela. Minha mãe sempre falava alguma coisa incrivelmente grosseira e/ou apontava algum defeito a respeito dele.
– Rupert, querido. — Rosaline se levantou, deixou sua xícara repousando na mesa entre os sofás e veio até mim. Me abraçando — Eu estava com tanta...saudade. — Meu pai me olhou, e saiu de fininho até a cozinha. Droga.
– Oi. — respondi.
– Que cheiro é esse? Meu Deus, Rupert! Tome um banho. — Obrigado, mãe. Grato. — Como vai a escola? Tem se dado bem? Não arrumou nenhum problema, não é mesmo? Não tem...bebido, tem? — Puta merda, começou. Meio segundo de conversa e ela já queria tocar no assunto do acidente, ou de Emily, ou de Sophie.
– É. Vai bem, não tem nada de diferente. Não arrumei. Não importa, se bebi ou não. — Respondi, friamente.
– Eu já disse que NÃO quero que você beba! — Ela quase havia gritado, quando percebeu diminuiu seu tom. — Eu...Você precisa ficar bem, fique bem e volte a morar comigo, meu menino.
– Voltar a morar com você? Você praticamente criou uma lei para que eu não entrasse novamente em SUA casa, e agora quer que eu volte?
– Eu expliquei que...eu expliquei que só queria que você visse seu pai, fazia tanto tempo já. Eu jamais o expulsaria de casa. — Enquanto ela terminava a frase, gargalhei.
– Claro, mamãe. Você não me expulsou de casa por ter matado – a essa altura, eu já estava chorando, todo o acidente passava em minha cabeça. Eu sou um idiota.- sua filha. Você não quis nunca mais olhar para meu rosto pois mal conseguia lidar com o fato. Você não cochichou ao telefone com meu pai, falando que tentava voltar a vida normal mas não conseguia pois eu estava lá! Você acha que eu não sinto muito? Você acha que eu não queria que fosse eu e não ela? Eu daria minha vida por Emily e Sophie. VOCÊ SABE DISSO! Eu me culpei desde o primeiro segundo que acordei e percebi que estava vivo, e ela não. Não entendo o por quê de vir até aqui jogar tudo isso na minha cara. Eu já tenho culpa suficiente, não queira jogar a culpa que você sente em mim. Já tenho a minha, cuide da sua. Eu sei que a culpa é toda minha, mas também sei que você sente uma parcela. Sabe por quê? Você nunca foi uma mãe para nós dois. NUNCA. Você só saía com aqueles idiotas, bebia e pegava eles. Se aproveitavam disso, e VOCÊ deixava, mãe. A senhora deixava. Perdeu várias e várias datas importantes por conta do seu egoísmo. Dói perceber que é mãe quando se é tarde demais, não é? — As palavras simplesmente saíram de minha boca. Rosaline se aproximou e deu um tapa em meu rosto. Meu corpo quase foi para trás.
– EU SOU SUA MÃE. NÃO OUSE. Minha culpa? NÃO FUI QUEM SAIU BÊBADO IGUAL UM PORCO! A culpa é sua, Rupert! A culpa é sua, sempre foi sua. Você...você...- meu pai surgiu na sala, gritando e dizendo:
– SE VOCÊ VEIO PARA IMPORTUNÁ-LO SAÍA DE MINHA CASA JÁ, ROSALINE! — Atacou John. Os dois estavam gritando. Meu Deus, essa mulher viajou quilômetros e quilômetros para me culpar e jogar tudo o que eu já sei? Se um dia me senti mal, agora, eu estava me sentindo uma merda completa. Toda a aquela discussão novamente. A voz de Em surgia, "Rups, Rups, façam parar! Eles precisam parar de brigar.". Eu não abri minha boca. Só chorei. Fiquei parado olhando os dois baterem boca. Minha mãe se ajoelhou e chorou, meu pai chorava e a mandava parar de chorar. Que coisa terrível. Por que isso aconteceu? Por que ela foi até lá? Fechei os olhos. Parem. MEU DEUS, PAREM DE BRIGAR. Eu estou bem aqui. As palavras latejavam em minha cabeça, estava imóvel. Não conseguia falar. Sentei no chão e agarrei minha perna. Chorei mais um pouco. Que merda gigante que minha estava, hein? Puta merda. Meu celular vibrou em meu bolso. Graças á Deus. Por favor, seja o Matt, seja o Matt. Por favor...Olhei a tela para a tela o celular. Minhas mãos tremiam. Era o Matt.
" Rupert, cara. Vem pra minha casa, a Keth tá na casa da Sam e não me explicou o por quê. Preciso de alguém, ou seja venir sur."
Levantei sem hesitar, meus pais ainda discutiam e choravam. Saí pela porta sem me importar, eu não conseguia com aquilo. Desculpem, eu não consigo. Ao lado da porta, a chave do carro brilhava. Amém.
– Rupert! NÃO OUSE ME DEIXAR AQUI! — Minha mãe gritava e vinha até mim. Saí correndo em direção ao carro. De longe, pude ouvir meu pai dizendo " Deixe-o!".
Respirei fundo e dei partida ao carro. Liguei o rádio para me distrair. Caralho, só tocava música ruim. Isso estava me estressando tanto, meu Deus. Por que tava tudo uma bosta? Acelerei. Eu estava à uns 100km por hora, mas não me importava. A rua estava vazia, a cidade parada. Cheguei na casa do Matt em segundos quase. Olhei no relógio e já marcavam 14h. Dia acabe logo, Matt, tenha uma festa para nós hoje. Eu preciso beber. Desci do carro, bati fortemente na porta. Matt me atendeu, ele estava com o cabelo bagunçado, pijama listrado e olhos cansados. Eu nem o cumprimentei, só o abracei ali mesmo. Me segurei ao máximo para não chorar. Matt me abraçou o mais forte que pôde, mesmo parecendo assustado com minha reação.
– WOW, o que foi isso? Você está tipo....bem? Rups, aconteceu algo? — Matt disse em um tom sensível.
– Está...é só que é bom te ver, parceiro.
– Diz logo, seu gay. — Matt brincou.
– Minha mãe está lá na minha casa, e se ela e meu pai ainda não se mataram será um milagre. Rosaline jogou tudo e mais na minha cara. Estou me sentindo um lixo humano, meus olhos não aguentam mais chorar e eu sou culpado. Eu matei minha irmã e minha namorada. Eu sou uma merda. E a Samantha precisa de mim bem, eu prometi cuidar dela. E eu tô aqui. Matt, eu preciso chorar e gritar. — Disse. Matt me olhou perplexo. Seus olhos se arregalaram e senti seu corpo se contrair.
– Cara, eu...Entra, vamos beber um pouco e conversar. Estou aqui, parceiro.
– Eu te amo por isso, e isso vai soar gay pra caralho. — Respondi. Dane-se, era verdade.
– Viadagem. Eu te amo também, pra sempre, cara. Só não comenta essa merda com ninguém, obrigado. — Matt sorriu e me abraçou. Conversamos durantes horas e horas. Abrimos um Wisky velho do pai dele. Seus pais estavam no supermercado e sabiam que bebíamos, não tinha problema. Matt subiu para seu quarto e me chamou. Lá, acendemos um cigarro e ficamos bebendo, e brincando com a fumaça. Ao som de Beirut, deitamos no chão do quarto e ficamos xingando. As horas passaram tão rápidas que mal notei. Eu adorava isso em nossa amizade. Me perdia em nossas conversas idiotas. Tudo ficava bem durante algum tempo. O tempo que eu passava com Matt, geralmente isso era "ficar bem". Ele é um babaca sem noção e é isso que eu mais admiro. Ele não se importa com nada, e nem eu. É uma mentira, mas gostamos de pensar assim, nos sentimos bad boys sexys de filmes britânicos. Éramos galãs de nossas próprias histórias. Tudo estava bem demais, até que eu e Matt recebemos uma mensagem ao mesmo tempo. Ambas eram da Sam e diziam:
" Festa às 19h, tragam o que vão beber. xoxo"
Nós nos encaramos. Isso só pode ser b-r-i-n-c-a-d-e-i-r-a. A Sam tá uma droga, por que ela faria isso? Cadê a Kath? A preocupação me subiu a cabeça. Matt discou o número de Katherine e perguntou o que estava acontecendo, e por que diabos Sam queria uma festa. Após desligar seu celular, Matt me contou que Kath deixou Sam sozinha por um tempo pois foi buscar umas roupas para ela na própria casa, e que quando estava no caminho de volta, recebeu a mensagem. E ela parecia muito bem quando Kath a deixou só. A essa altura, eu já estava desesperado. Sam estava fazendo merda. Eu não pensei nem duas vezes, peguei um casaco xadrez do Matt, ele se vestiu e fomos o mais rápido que pudemos. Dirigi tão rápido e desesperadamente que mal consegui acompanhar a paisagem, já eram quase 19h e eu só estava imaginando o que estava rolando na casa de Sam. Chuviscava e isso dificultava muito pois dirigir rápido em estrada molhada é sempre uma coisa complicada. Eu suava muito. Não deveria me preocupar tanto mas se tratava de Samantha Miller, a pessoa mais destrutiva e compulsiva que alguém um dia pode conhecer. Chegamos na casa de Sam, e luzes brilhavam pela janela. Alguns carros estacionados a frente da casa. No andar de cima, pude ver pessoas dançando. A janela do andar de baixo quase estava completamente lotada pela visão de adolescentes chapados dançando. Foquei na janela do quarto de Sam, estava apagada e não parecia ter movimento algum. A música abafada ultrapassava as propriedades na casa. Respirei fundo e imaginei a melhor coisa que poderia estar acontecendo. Ela só precisava de distração, isso é uma distração. Sam está bem, por quê diabos não estaria? Estou me preocupando à toa. Eu olhei para Matt. Ele entendeu. Estacionamos na esquina e partimos para casa. Saí meio desesperado do carro, Matt me acompanhou. Chegando a porta, Sex Pistols tocava. Abri a porta, e aí eu vi toda a merda. Havia pelo menos umas cem pessoas na minúscula sala da residência dos Miller. Eu nunca tinha visto essas pessoas antes, sabia que algumas eram de cidades próximas pelas roupas e de como agiam. Havia fileiras de copos de plástico em cima da bancada, pessoas vestidas de preto e assustadoras. Como sempre, pessoas aleatórias se beijando loucamente. Avistei Naomi logo de longe, ela parecia assustada. Algumas pessoas do colégio estavam ali. Fui direto até Naomi.
– Naomis! Onde...Cadê a Sam? — Eu mal podia ouvir minha voz, a música estava muito alta.
– O quê? — respondeu Naomi, aos gritos.
– SAMANTHA!
– Eu não a encontrei, estou preocupada. — Que notícia maravilhosa. Tudo o que precisava ouvir. Eu saí correndo gritando o nome de Sam em todos os cômodos da parte de baixo. Eu não a encontrava em lugar algum. Subi as escadas rapidamente e o único cômodo que pensei foi o quarto dela. Tentei abrir a porta e estava trancada. Joguei todo o meu corpo para a porta, fazendo-a abrir. O quarto estava vazio e então ouvi um soluço. Um soluço de choro. E veio de baixo. Eu me agachei e depois fiz com que meu corpo colasse com o chão. Então eu a vi. Sam estava deitada embaixo de sua cama, com os joelhos colados aos seios. Chorando. Naquele momento, ela parecia uma criança, tão frágil. Ela me viu, e deu um quase sorriso. Meu coração se acalmou e então eu disse:
– Sam? O que faz aí? Você está cheirando a bebida.
–Que bobagem, não cheiro bebida, eu bebo. Acho que não quero essas pessoas aqui. Queria me distrair e não pensar em minha mãe e meu pai. Mas eu não consegui. E então apareceram todas essas pessoas estranhas, estou com medo. Rupert, fique aqui comigo. Preciso de você. — Eu me arrastei até ela, e deitei ao seu lado agarrando-a para mim.
– Vai ficar tudo bem, ok? Lembra do que eu te disse? Sempre irei cuidar de você. Sam, você só precisa me chamar. Não pense nem por um segundo que não pode me chamar. Mas não se entregue a tristeza. Não vou deixar você se entregar assim, ok? Eu...te. Eu não vou deixar. Não vou te deixar.
–Eu acho que preciso ver minha mãe.
– Eu também, e ajudarei você com isso. — Ao dizer isso, eu a beijei e tirei-a dali. Em meu colo, deixei-a em sua cama. Fiquei lá até ela dormir.
Depois, parti para fora do quarto. Havia sim, uma festa acontecendo. Achei Matt, Kath e Naomi, juntos, expulsamos todos. Só Matt ficou para limpar a bagunça toda. Limpamos o chão, tiramos o cheiro de maconha e outras coisas que não identifiquei. Limpamos suas cortinas. Tirar as pichações nas paredes do banheiro. Tiramos os copos da cozinha. Limpamos tudo. E até as coisas não quebraram tanto, alguns vasos meio que desapareceram, fora isso, estava tudo quase completo. Me despedi de Matt, e novamente fui dormir nos braços de Sam. Ao deitar, quando fechei os olhos. Todo o meu dia passou por minha cabeça. Que grande merda. Por favor, melhore. Então dormi.
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