Pertenço a você
2 Capítulo 2 - A Promessa
Notas iniciais
– Dias atuais –
Despertei dos meus pensamentos e ao olhar no relógio vi que já passavam das onze, tantos anos depois e minhas memórias ainda me traiam com essa infeliz história, mesmo que eu me dedique tanto ao trabalho, parece que sempre haverá algo que me fará pensar nesse assunto. No dia seguinte teria que estar cedo na universidade, era dia de prova dos alunos, e sempre vinham uns espertinhos antes tirar algumas dúvidas de Literatura.
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As sete e meia eu já me encontrava na sala dos professores, depois da aplicação de provas a reitora pediu que fossemos até a sala de reuniões pois teria um comunicado a fazer, o que deixara todos nós curiosos, e assim o fizemos, Regina era sempre muito direta em suas palavras.
Regina: Bom queridos, o motivo que os trouxe a essa reunião é que fui selecionada para coordenar os alunos que irão para o intercambio em nossa universidade no Canadá, ficarei fora durante um semestre e para me substituir lhes apresento a Ruby.
Ao ouvir aquele nome meu corpo congelou por completo, essa mulher poderia se chamar como quisesse, mas não aquele nome, não aquele. Respirei fundo acreditando que a tortura havia acabado ali mesmo, mas como se não fosse suficiente o frio na barriga que senti somente em ouvir tal nome, tive de suportar ver a ruiva entrar na sala, sim era a própria. Estava incrivelmente linda em uma saia tubinho preta e uma camisa de botões branca, seus cabelos longos e seu sorriso ainda eram o mesmo, por um momento me perdi em meus pensamentos refletindo sobre o que eu havia feito para a vida pra que ela me castigasse daquela forma, quis chorar, senti um nó na garganta, vontade de gritar ou correr, vontade de não está ali, vontade de acordar e ver que foi um pesadelo, pisquei com força , mas ao abrir os olhos tudo continuava perfeitamente igual. Respirei fundo e mantive minha postura forte, coisa que há muitos anos eu não precisava fazer.
Regina: Ruby tem um ótimo curriculum, formada em administração e letras por uma das melhores universidades da Espanha, foi reitora substituta de duas universidades espanhola e acaba de voltar para a cidade. Sei que fará um ótimo trabalho e conto com vocês para que ela se sinta em casa. – Regina sorria com satisfação pela escolha feita, puxou aplausos para a ruiva que agradecia de maneira tímida. –
Todos levantaram indo cumprimenta-la, aproveitei o momento e levantei-me depressa seguindo até a saída da sala como um furacão, não sei se ela me viu, esperei que não. Regina me chamou fazendo-me travar no lugar, me analisou por alguns segundos mas nada perguntou, disse algo do qual não prestei a mínima atenção, apenas acenei com a cabeça afirmando a sua pergunta e sai dali o mais rápido que minhas pernas tremulas me permitiram. Cheguei a meu apartamento e finalmente permiti-me chorar por toda a dor que voltara, onze anos depois, o que aquela mulher queria de volta a cidade? Havia tantos lugares nesse imenso mundo. Porque justo o mesmo lugar onde eu estava? Não conseguia acreditar, pensei até mesmo em pedir demissão, mas não, eu tinha que provar a mim mesma que Ruby não significava mais nada em minha vida, que toda a dor que ela me causou me fez crescer e mudar, foram onze anos que passaram, não podia ser tão ruim... ou poderia.
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Pela manhã cheguei à universidade, foram longos minutos em meu carro criando forças para encara-la pela primeira vez depois de nosso último encontro no quarto daquela festa, enfim caminhei em direção à sala dos professores, havia inúmeras provas para corrigir, o que me aliviou já que os reitores não costumam interromper correções de provas. Sentei-me na última mesa da enorme sala, de costas para todo o resto, alguns professores conversam amenidades das quais eu não ouvia, pois minha atenção estava voltada apenas as provas espalhadas a mesa e as inúmeras respostas vergonhosas dos alunos que embora devesse ser trágico, era de fato cômico.
XxX: Belle.
Ao ouvir aquela voz tão única senti um arrepio na espinha que quase me deixara paralisada, imediatamente senti que o sorriso leve em meu rosto havia se desmanchado, naquele momento apenas busquei toda a força das personagens mais incríveis que lia em meus livros, e ali comecei meu melhor personagem.
Belle: Pois não?! – Levantei-me em sinal de respeito à nova reitora. Ela estava ainda mais linda que no dia anterior, nossos olhos se encontraram, entretanto tratei de desviar os meus, seu sorriso era enorme, o mais lindo sorriso que eu já vira desde que a conheci. –
Ruby: Regina disse que havia lhe comunicado sobre você me mostrar toda a universidade hoje. Podemos começar? Pelo que pude notar temos muito para ver e conversar. – A ruiva parecia animada, enquanto minha expressão era a mais surpresa possível. Droga! Era isso que Regina havia me perguntando quando eu assenti que sim, mas não fazia ideia e não podia imaginar a hipótese de passar uma manhã toda com aquela mulher. –
Belle: Desculpe. – me esforcei pra não demonstrar o quão nervosa eu estava. – Tenho inúmeras provas para corrigir e não faço a mínima ideia de quando terminarei reitora. Mas posso pedir ao Graham que a leve, ele fará isso com todo prazer, tenho certeza. – Tentei ao máximo trata-la com todo o respeito que tenho por qualquer reitor da universidade, mas sem olha-la nos olhos. –
Ruby: O prazo para entrega de provas é um pouco longo senhorita Belle, não fará essa desfeita com a reitora substituta fará? – a ruiva inclinou-se aproximando seu rosto de mim me causando arrepios que me deixaram completamente desconcertada. –
Belle: ahh. Sim. Quer dizer. Não. – não havia mais desculpas, quando notei já havia cedido. – Tudo bem, vamos!
Juntei todas as provas e fui guarda-las em meu armário, os olhos de Ruby me seguiam o tempo inteiro, o que me deixara completamente sem jeito a ponto de derrubar todas as pastas, o barulho fez os poucos professores presentes me mirarem e logo voltarem ao que faziam.
Ruby: Oh deixe-me ajuda-la. – Ruby rapidamente caminhou até onde eu estava –
Belle: não tem necessidade reitora. – disse quase em um notável desespero enquanto baixava pra juntar as pastas querendo evitar que aquela mulher se aproximasse de mim. –
Ruby: Eu faço questão. – a ruiva disse já se abaixando a minha frente segurando algumas das pastas, sua mão tocou a minha, a retirei com tanta pressa que Ruby acabou ficando sem graça e levantou-se. – A proposito, me chame apenas de Ruby. – assenti que sim com a cabeça baixa e guardei as pastas com toda a rapidez que pude. –
Caminhamos até o corredor, e passei a guiar aquele torturante passeio, mantive meus olhos durante todo o trajeto voltados a minha frente, Ruby me fazia várias perguntas sobre o lugar e eu educadamente tratava de responder tudo, entretanto sempre mirando o que estava a minha frente. Alguns alunos me paravam para abraçar ou falar de notas, era bom ser uma professora querida até mesmo por alunos mais velhos que eu.
A mostrei os principais lugares da universidade, ainda havia muitas outras coisas para ver, mas o principal ela já sabia, a levei na biblioteca, o lugar mais lindo de toda a universidade.
Ruby: Esse é definitivamente seu lugar favorito, estou certa? – A ruiva saltou a minha frente com aquele mesmo sorriso que me confundia toda acabei olhando em seus olhos no susto, mas antes de sentir vontade de saltar em seu pescoço e enforca-la desviei para o corredor ao lado com toda pressa fazendo a ruiva me seguir. –
Belle: Sim. Passei praticamente toda minha graduação e pós lendo nesse lugar, e dizia a mim mesma que trabalharia aqui pra sempre ficar perto desses milhares de livros. – acariciei com a ponta dos dedos os livros organizados nas prateleiras e sorri feliz ao lembrar que esse era um sonho que pude realizar: trabalhar no lugar que me formei e ficar sempre perto da biblioteca mais completa da cidade, era enorme e se dividia em três andares de infinitos livros sobre todos os assuntos. –
Chegamos ao último andar da biblioteca onde não havia praticamente ninguém, era menor que os dois andares anteriores e os corredores bem mais apertados, caminhamos até as grades que nos davam a linda visão de todas as prateleiras, e os andares debaixo, eu estava encurralada pelas grades a minha frente, as enormes estantes ao meu lado e Ruby que estava atrás de mim.
Ruby: Vai mesmo continuar fingindo que não me conhece Belle? Eu sei que está me evitando, e sei que tem motivos pra isso mas... nem se quer olhou em meus olhos desde que nos vimos na sala de professores. E se tem uma coisa que sei sobre você, é que sempre olha nos olhos.
As palavras da ruiva soaram como um soco no estômago, continuei de costas buscando uma resposta adequada, eu precisava ser madura, Ruby estava agindo normalmente, e era assim que eu deveria agir, como se ela tivesse sido apenas uma parte de um passado morto que continuaria morto enquanto falar com ela fosse algo apenas do meu ambiente profissional.
Belle: Não estou fingindo nada Ruby. O que quer que eu diga? Que é um prazer vê-la novamente depois de tantos anos e como reitora da universidade em que trabalho? – virei de frente para ruiva e pela primeira vez olhei em seus olhos, nos encaramos por longos segundos que me congelou a alma, parecíamos tentar nos decifrar embora minha mente fosse apenas um turbilhão de tudo, ou nada. –
Ruby: Não, quero que diga que sentiu minha falta. – seu sorriso foi doce me fazendo desviar para um ponto qualquer ao lado. – E já entendi que não está nada feliz em me ver aqui, entretanto, minha presença a incomodará por longos seis meses. – a mulher gesticulava bastante, mas não saia do lugar que estava. –
Belle: Por favor, Ruby. – forcei um riso irônico – Sua presença não me incomoda, mas sua ausência seria de fato muito mais satisfatória. – falei de forma calma voltando a encara-la, Ruby entortou a boca como quem quisesse dizer que não tinha muito que ser feito para mudar aquela realidade. –
Ruby: Você está linda! – A ruiva disse em meio a um tímido sorriso, claramente ignorando o que eu acabara de dizer. – Deve está casada, certo? Com um homem de muita sorte, diga-se de passagem. – sua expressão fora de malicia. –
Belle: Obrigada! E não, não estou. Relacionamentos tiram meu foco, e se tem uma coisa que eu não gosto, é de perder meu foco. – dei pequenos passos a frente caminhando na direção da ruiva que estava parada no único espaço que havia para sair do lugar, parei a sua frente esperando que ela desse passagem. –
Ruby: Hm interessante. Não acha que temos que conversar? – a ruiva sussurrou quase em minha orelha pela pouca distância entre nós, senti minha pele arrepiar. –
Belle: Não. – encarei-a respondendo rapidamente. – E bom, já mostrei tudo que precisava saber do lugar, logo você acostuma, as pessoas aqui irão recebê-la muito bem. Com licença reitora. – Fiz com que Ruby abrisse um pouco de espaço, que não fora suficiente, fazendo assim nossos corpos se “encontrarem” rapidamente. – E a propósito, você também está linda! – deixei escapar enquanto me condenava mentalmente por ter dito. –
Ruby: Fiquei imaginando se aqueles que dizem que “é melhor ter amado e perder do que nunca ter chegado a amar” perderam aqueles que amaram. – Parei ao ouvir a ruiva dizer aquilo, maldita, eu conhecia muito bem aquele trecho, fora de um dos últimos livros que lemos juntas... A Promessa, Richard Paul Evans, disse em pensamento. Respirei fundo. –
Caminhei sem olhar para trás, mas tinha certeza que Ruby não havia me seguido, minhas mãos soavam, aquilo seria mais difícil do que eu poderia imaginar, aquela mulher estava maravilhosa, diferente, e a forma como me olhou foi praticamente igual ao jeito que me olhava quando acordávamos na mesma cama. Mas não, não podia me deixar levar. Provavelmente ela devia está namorando ou ate mesmo casada com um cara qualquer, e mesmo que não estivesse isso não era da minha conta. Seriam apenas seis meses... Longos seis meses...
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