Perspectiva

30 Saudades


Notas iniciais
Enfim consigo postar. Sinto muito a demora, não poder escrever e postar me deixa tão triste como ficaram com minha ausência.
Espero que tenha valido a pena esperar. Boa leitura :)



PDV Rose






Permanecemos no estacionamento, ainda chocados com a
notícia. Alice era a mais abalada, ela tinha um elo especial com ele. Emmett
recorreu a sua usual praticidade e perguntou:






– Há quanto tempo Alice?






– Pouco. Eu o vi na sala decidindo se afastar da novata,
depois ele na secretaria. Mas ele não conseguiu o que queria. Agora o vejo se
afastando sem rumo. É uma visão muito vaga, ele não se decide sobre que caminho
seguir.






Emmett pensou por alguns segundos e perguntou:






– Está muito enferrujado para uma caçada Jasper? Ou esse seu
nariz empinado só sente o cheiro de sangue humano?






Jasper sorriu um pouco como que se respondendo à provocação
e disse:






– Posso achar uma agulha no palheiro. Já você, até agora só
provou ser bom em lutar com ursos. Qual o plano?






– Acho que ele só ouvirá Carlisle. As meninas vão ao
hospital e nós seguimos o rastro daqui mesmo. Quando Carlisle puder nos
acompanhar damos às coordenadas. Com sorte o acharemos e podemos convencê-lo a
reconsiderar.






Alice, no entanto, derramou um balde de água fria nos
planos:






– Acho que Carlisle já sabe e o apóia. Eu o vejo dirigindo o
Mercedes e não o Volvo.






– Então é isso? Havia o mesmo desespero do choro de Alice na
pergunta de meu marido.






Sempre ficou claro para mim que Edward era o irmão preferido
dele. Apesar dele amar profundamente Alice havia aquela camaradagem masculina
que os unia. Eu sabia que apesar da aparente “praticidade do homem da montanha”
ele também estava sofrendo muito com a notícia.






– Parece-me que sim. È melhor aceitarmos sua decisão. Tenho
certeza que ele pensará melhor. Experiência própria. Jasper disse com os olhos
tristes.






Possivelmente se referindo as inúmeras vezes em que se
afastou. Olhei-o com o olhar cúmplice, eu sabia bem o que era se sentir
deslocada, diferente do contexto de nossa família.






– Então não há mais nada para fazermos aqui. É melhor irmos
para casa. Disse.






Não queria ser
indelicada, apenas falei o óbvio. No entanto Alice me olhou magoada. Como se eu
estivesse fazendo pouco caso do distanciamento de Edward. Eu ia me defender,
mas Jasper se antecipou:






– Ela também se importa Alice, não disse como uma expressão
de alívio. Ela só quer ir para casa, Rose não gosta que a vejam quando está
sofrendo. Nem mesmo nós.






Acho que Jasper se referia às minhas crises de memória, ele
ficava perto o suficiente para que seu poder me atingisse, mas o mais longe
possível para que não me visse. Pedi isto desde a primeira vez em que ele se
ofereceu para ajudar. Eu o olhei meio
irritada, sempre lhe pedi descrição sobre o assunto e isso pareceu aos olhos
externos que estava sendo ingrata. Como se houvesse me irritado com o fato dele
me defender quando eu era perfeitamente capaz de fazê-lo. Mas ele sabia que não
era isso, que eu estava apenas chateada com o fato dele revelar algo óbvio, mas
ao mesmo tempo muito íntimo.






Não é que eu goste de sofrer só, mas a situação pela qual
passei é demasiado constrangedora. Não posso permitir que Emmett presencie a
forma brutal como fui violada. Ou que Edward saiba como foi, nem mesmo Alice.
Presenciar os momentos terríveis em que me debato, grito, em que minhas pernas
se abrem como se estivesse sendo novamente dilacerada seria terrivelmente
vergonhoso para mim. Um silêncio ensurdecedor se estabeleceu e ficamos mais uma
vez imóveis. Se apenas o anúncio de sua partida havia demandado tantas
questões. Como seria ter que conviver com sua ausência?






Emmett pôs fim a discussão segurando minha mão e andando em
direção à floresta sugerindo que também achava melhor que partíssemos. Ele
ainda conseguiu sorri para Alice e propor novamente enquanto nos dirigíamos à
orla mais afastada da floresta:






– Uma aposta até em casa?






Dei uma rápida olhada no estacionamento e vi a lata velha
que a novata chama de carro estacionada. Com certeza estava tentando se lembrar
qual a sequência dos pés para andar. Sempre que a via ela estava prestes a
cair. Imaginei que a picape pré-histórica que usava devia ser um modelo de 1950
mais ou menos. Em carros antigos romper o cabo do freio não é tão incomum.
Talvez uma ajudinha para que isso acontecesse, pudesse nos livrar dela e do
incômodo que nos trouxe.






Não é que eu seja má, mas gosto de estar neste lugar, gosto
que minha família esteja unida e que ninguém sofra. Por isso se para ter minha
família unida e feliz eu precisasse eliminar o motivo deste sofrimento eu o
faria. Foi pensando em sofrimento que eu me lembrei de algo que havia me
escapado:






– Alice!






Chamei por ela, mas ela pareceu não acreditar em Jasper e em
seu rosto havia a clara expressão de mágoa.






– Alice, ele se despediu de Esme? Insisti.






Ela diminuiu o ritmo de sua corrida e sem me olhar disse:






– Não vi. Acho que não. Eu só o vi com o Mercedes. Mas
Carlisle foi trabalhar antes que saíssemos, então acredito que ele tenha ido ao
hospital e não para casa.






Diante da resposta de Alice nossa marcha havia reduzido,
estávamos andando em uma velocidade quase humana. Com certeza nenhum de nós
queria ser o portador desta notícia para Esme.






Todos sabíamos como ela nos via, como seus filhos. Para Esme
a mais remota menção de afastamento de qualquer um de nós (mesmo com data
marcada para acabar) era profundamente dolorosa. Imagina quando disséssemos que
ele havia partido sem rumo? Além do mais ele era seu primogênito havia algo
especial nessa relação. Apesar dele sempre dizer que ela me preferia e sempre
me defendia, ficando ao meu lado em todas as discussões, ele era especial para
ela.



Também havia a questão da preocupação maternal, eu percebi
que ela estava bastante preocupada com Edward desde que deixamos a Europa. Acho
que ela se convenceu que ele estava depressivo. Por isso se mantinha sempre
vigilante, dividindo seu tempo para que ele não se sentisse sempre sozinho. De
certa forma, em alguns momentos ele também se sentia deslocado. Era um solteiro
entre casais. Esme sempre representou a maternidade para nós, acho que de
alguma forma mesmo para Jasper. Apesar deles claramente não se relacionarem
como mãe e filho, acho que no máximo se comportam como sogra e genro.






Havíamos parado novamente. Desta vez foi a própria Alice
quem sugeriu:






– Acho que devemos falar com Carlisle. Talvez ele possa
voltar para casa e dar a notícia a ela.






Mas segundos depois ela ficou em seu estado de catatonia
“normal” e seus ombros relaxaram ao final da visão:






– Ela vai à Seattle. Só deve chegar à noite.






Voltamos a nossa marcha e logo estávamos em casa, sem
combinarmos tomamos o rumo de nossos quartos. Emmett deixou o corpo pender de
forma desarrumada sobre a cama. Eu entrei no banheiro e liguei a torneira da
banheira. Banhos sempre me dão a sensação de que as coisas podem melhorar.
Depois me deitei sobre seu corpo e beijei seus olhos, ele mirava o teto
consternado. Desabotoei sua blusa e beijei seu peito largo e forte, mas ele
continuou impassível. Passei a mão em sua cabeça, dedilhando as unhas num
cafuné suave e ele suspirou. Não havia nada de erótico naquele contato, era
apenas o nosso jeito de demonstrar solidariedade, empatia pela dor do outro.
Estávamos dizendo que entendíamos a sensação de perda e confusão que o outro
sentia.






– O banho está pronto. Vamos?






Ele se levantou e andou como que se arrastando. Era
impossível não ouvir os soluços de Alice e os chiados graves que Jasper emitia
na tentativa de consolá-la como que se estivesse ninado-a. Assim que entramos
na banheira ele se recostou em meu peito e fechou os olhos, eu continuei a
acariciar sua cabeça e aos poucos senti que seu peito arfava como num choro
contido. Ficamos assim nesse momento de consolo mútuo por algum tempo. Minha
mente começou a exigir que eu decidisse o que Edward representava para mim. No
início eu o via como ameaça, qualquer espécime do sexo masculino era uma ameaça.
Depois o vi como meu juiz. Por ter acesso aos meus pensamentos, achava que ele
podia me julgar como merecedora daquele sofrimento. De certa forma sempre temi
que a passagem de Royce em minha vida e minha transformação tivessem sido uma
punição por algo mal que havia feito, ou algo bom que deixei de fazer. Talvez
minha futilidade, talvez minha visão limitada da vida. Por este motivo eu o
temia, imaginava sempre que o asco em sua voz ao pronunciar meu nome pela
primeira vez fosse a consciência dessa minha falha que nem mesmo eu sabia o que
era.






Então ele se transformou em meu inimigo. Talvez nossa
inimizade tenha surgido no momento em que soube que eu fora transformada para
sua companhia. Havia sido sua necessidade de possuir uma companheira que
transformara minha eternidade naquele sofrimento. E ao mesmo tempo eu sabia que
havia sido em vão. Fui
feita vampira para alguém que jamais se interessaria por mim. Acho que se
alguns dias nos casássemos podíamos nos separar por “diferenças
inconciliáveis”. Edward e eu somos opostos. Então decidi que ele era meu
cunhado, o irmão de meu marido e por um bom tempo tive paz em viver essa nova
posição em sua vida. Aprendemos a nos tolerar por amar Emmett e desejarmos a
sua felicidade. E a felicidade de meu marido incluía toda a nossa família,
inclusive Edward. Em algum momento ele passou a ser meu irmão, não sei como ou
por que. Um irmão distante, mas ainda assim meu irmão. Mesmo Jasper que jamais
se encaixou como parte realmente da dinâmica de nossa família conseguia ter uma
relação mais próxima a mim. Apesar de ser apenas uma mentira que sustentava
nosso álibi, os irmãos Hale de fato funcionavam. Me sentia irmã de Jasper.
Éramos dois seres disfuncionais e socialmente complicados. Contudo aquela
fraternidade não era o suficiente para mim e Edward.






Eu sentia um desejo inexplicável de me sentir aceita por
ele, de que ele nutrisse algum sentimento bom por mim. Não que eu quisesse que
ele pousasse de irmão perfeito, mas eu queria sentir que ele me dispensava um
pouco do afeto que tem por Alice. Acho que no fundo sinto uma mágoa por ver que
eles se entenderam tão bem em tão pouco tempo enquanto mal nos falamos mesmo convivendo
por quase um século. E ao mesmo tempo me sinto inclinada a protegê-lo,
defendê-lo tanto quanto defenderia Esme, Carlisle, Alice, Jasper e Emmett. Acho
que sentirei falta dele, até mesmo de suas implicâncias. Tenho certeza de que
sofrerei sua ausência.






Depois de um tempo sentimos que não queríamos ficar
sozinhos, a ausência de uma peça no tabuleiro dava a sensação de a qualquer
minuto perderíamos mais alguém. Alice também sentiu isso, e minutos depois se
juntou a mim e Emmett na sala. Jasper se sentou ao seu lado e acolhendo-a em
seus braços acariciava suavemente suas costas. Mas foi só olhar o piano de
cauda que se elevava no patamar do canto da sala que seu choro voltou. Carlisle
chegou antes de Esme para nosso alívio e ao ver nossos semblantes entristecidos
concluiu que a clarividência de Alice já tinha nos colocado a par do ocorrido.
Ele beijou a testa dela acalmando-a e disse:






– Ele fez seu melhor, Alice.






– Por quê? Emmett quis saber.






– Ele quase atacou a novata da escola, se não se refreasse
há tanto tempo talvez houvesse um massacre. Vocês sabem como ele é exigente
consigo mesmo. Acho que se assustou ao perceber que o seu lado predador ainda é
bastante forte e vívido.






– Entendo-o bem. Jasper disse trocando um olhar
significativo com Carlisle.






– Tenho certeza que quando ele se sentir mais forte, ele
retornará. Carlisle terminou a frase com um sorriso para nossa vidente.






– Como pode ter tanta certeza? Alice questionou com a voz
destoante beirando uma crise nervosa.






– Tenho fé filha. E a fé não se explica. É o firme
fundamento das coisas que não se vêem, mas se crêem.






– Também quero ter fé. Alice disse franzindo a testa.






E sem muita empolgação nos avisou:






– Esme vai chegar em menos de 10 minutos.






Carlisle se dirigiu a porta para esperá-la e nós continuamos
reunidos na sala. Ouvimos o carro deixar a rodovia e entrar na estradinha de
barro que dava acesso à nossa casa. Depois ouvimos Carlisle cumprimentá-la e
pedir que ela o acompanhasse em um passeio pela orla da floresta. Eles se foram
e ficamos na expectativa. Não sei se foi a nossa intrincada relação com o
tempo, mas me pareceu que eles demoraram uma eternidade para voltar.






Assim que entrou na sala podemos ver os olhos dela empoçados
pela única lágrima que jamais verteria, mas que se multiplicava em milhares de
outras invisíveis. Ela não disse nada ao se aproximar de nós, mas afetuosamente
abraçou e beijou demoradamente a todos (com exceção de Jasper com quem dividiu
um olhar cúmplice). Depois sentou-se em um dos sofás e Carlisle a acompanhou.
Logo ela se enroscou nele chorosa. Ficamos assim toda a madrugada, juntos.
Ninguém teve coragem de deixar o consolo de ter a companhia dos outros para
ajudar a superar aquela perda. Devia estar sendo muito difícil para Jasper
conviver com todos aqueles sofrimentos, mas até ele continuou conosco.






Quando o sol surgiu em rajadas ainda sonolentas e fracas,
Carlisle beijou mais uma vez a testa de Esme e olhando para Alice disse:






– Precisa se arrumar para a escola. Sei que é a que mais
demora. Ser a consultora fashion da casa cobra seu tempo.






Ela o olhou estupefata e sem cerimônias se utilizou de sua
naturalidade:






– Está maluco? Não quero mover nem o dedinho do pé. Quem
dirá ir para a escola ver as mesmas coisas que já vi milhares de vezes. Eu já
sei o valor de X na minha vida.






Carlisle manteve sua calma habitual, ele apenas sorriu da
birra de Alice. Já Emmett deu sinais que estava voltando ao normal e perguntou:






– E qual é Alice?






– Tenho dois cromossomos X o que faz de mim um ser
brilhante, cheio de criatividade e intuição, capaz de realizar várias tarefas
ao mesmo tempo, que amadurece mais rápido e controla as manipuláveis mentes
masculinas. Sou mulher.






Esme sorriu pela primeira vez desde que recebera a notícia.
Jasper fez uma cara feia e disse:






– Achei que eu manipulava meu bem. Seu talento não é prever
o futuro?






– Deve ser por esse motivo que uma frágil humana teve o
poder de botar o Edward pra correr. Eu já desconfiava que ele tivesse medo das
mulheres e por isso não pegava nenhuma. Mas correr assim depõe contra o nome da
família. Terei que ir atrás dele e fazer dele um ser mais macho.






Meu marido brincou querendo dar mais leveza ao clima da
sala. E conseguiu Alice desfez o bico da birra, Jasper sorriu e Carlisle anuiu
com a cabeça.






– Como é mocinho? Que história de “pegar” mulher é essa? É
assim que pensa sobre as mulheres? Não te ensinei nada Emmett Cullen?






Esme perguntou depois de se aprumar no sofá. E eu fiz coro
fingindo uma expressão revoltada.






– Se explica “pegador”. Alice pareceu recuperar o viço do
olhar.






– Mãe, essa coisa dele ser solteiro para sempre pega mal.
Temos um nome a zelar. Quantas vampiras ele já rejeitou? Carlisle é seu nome,
diga se não tenho razão?






Uma luzinha se acendeu em mim. Será que era isso?
Será que Emmett tinha razão? Será que ele se apaixonou pela humana e fugiu por
não saber o que fazer?






Esme fuzilou o marido com o olhar. Mas ele fingiu que nada
havia acontecido.






– O relacionamento é algo muito mais profundo e você sabe
disso filho. Se não soubesse, não estaria casado há tanto tempo. Mas isso não
tem a menor importância agora. Sei que não quer ir para a escola, entendo a
forma tediosa como deve encarar sua rotina Alice. Mas para manter a nossa vida
precisamos ser motivados pela necessidade e não pelo desejo. Sei como é
difícil.






Carlisle disse a última frase olhando para Jasper. Não sei
se pensando que ele era o mais habilitado a entender Edward, ou se pedindo
auxílio na árdua tarefa de nos convencer a ir à escola. Depois se levantou e se
aproximando de nossa pequenina vidente disse:






– Será suspeito demais todos vocês desaparecerem depois de
Edward ter pedido transferência de turma e se irritado ao não conseguir.
Principalmente se há uma novata nessa turma. E mais ainda se um aluno notou que
ele a olhava de forma suspeita. Ele me disse antes de partir que o filho dos
Newton notou que ele se sentiu desconfortável com a companhia da filha do chefe
Swan, quer dizer, a novata.












E ficaria muito mais suspeito se ela morrer de forma
repentina em um acidente de carro, ou desaparecer na floresta e Edward retornar.
Acrescentei mentalmente. Graças a Deus Edward não estava aqui para ouvir. O
paladino da justiça me reprovaria, mas se era isso o que faltava para ele
voltar e sermos de novo uma família eu não me importaria em interferir no
futuro.






Alice se deu por vencida, então ele me olhou achando que
encontraria resistência, mas eu balancei a cabeça dizendo que compreendia a
situação.






Depois de nos arrumarmos fomos à escola no Volvo mesmo. Como
Alice previra Edward levou o Mercedes quando foi falar com Carlisle no
hospital, pois havia mais gasolina nele. Ele não queria arriscar ter que parar
para abastecer estando tão descontrolado, achava que poderia se abastecer do
sangue dos frentistas. Descobrimos que não tínhamos nenhuma matéria com a
novata, nem mesmo Alice que era do mesmo ano. Mas a encontramos no refeitório,
era o único da minúscula escola.






No início ela parecia não estar preocupada com nada a não
ser sua refeição. Mas pude observar que seus olhos varriam o lugar e se
detiveram em nossa mesa por alguns segundos. Não o suficiente para reconhecer
nossos rostos, apenas como uma contagem mental. São quatro na mesa, não cinco.
Não sabia que reação ela teria, se viria perguntar por que o nosso estranho
irmão ficou com cara de louco evitando a todo visto atacá-la e depois sumiu.
Mas ela acompanhou os outros humanos até uma mesa e ficou. Mas ficou tensa,
coração acelerado, corpo ereto na cadeira, cotovelos colocados de forma rígida
na mesa, talheres mexendo na comida sem levar muitas porções à boca, e de vez
em quando um olhar em nossa direção. Jasper notou que eu a observava e querendo
me deixar a par dos fatos disse:






– Ela está tensa, com medo até. Acho que está esperando o
momento em que ele se juntará a nós.






Já perto do fim da hora do almoço seu corpo relaxou, seus
batimentos diminuíram e ela se recostou na cadeira. Depois saiu com um menino
chato que falava de cachorros. Odeio cachorros, não têm o mesmo sabor do sangue
dos lobos, mesmo os grandes. É já fiz alguns experimentos a fim de me livrar
das caçadas. Odeio caçadas, desarrumam tudo, especialmente os cabelos. Prefiro
as caçadas em que Emmett
é minha presa.






Alice nos informou no fim do dia que Edward havia se
dirigido enfim a um lugar. Segundo ela, ele estava em Denali com aqueles a quem
consideramos nossa família. Antes que ela ou Esme pudessem pegar no telefone
ele tocou. Carmem havia ficado e ligado para comunicar sua chegada. Ele foi
caçar a fim de refrear sua momentânea insanidade. Kate, Tânia e Eleazar o acompanharam.
Irina estava em uma viagem no exterior, ela é fascinada pelo xadrez como toda
boa russa e havia uma partida importante de velhos alunos de uma escola chamada
“Novos pioneiros” onde talentosos meninos são treinados para se tornarem
mestres. Irina foi ao concurso. Ela e Carlisle travavam épicas batalhas no
tabuleiro repetindo a rivalidade humana entre russos e ingleses no xadrez.






Esme ficou decepcionada ao perceber que não falaria com ele,
havia se convencido que ele escutaria seus apelos para voltar para casa. Alice
e Jasper a ladearam.






– Já sabemos, onde ele está mãe. Alice a consolou.






– Além do mais é melhor lhe dar um pouco de espaço. Forçá-lo
a voltar agora pode apenas aumentar sua angústia. Jasper tentou ajudar Alice.






– Sei. É que sinto uma angústia também. Só queria ouvir sua
voz para ter certeza de que ele está bem. São coisas de mãe, não sei se podem
entender. E obrigado por usar seu talento por tanto tempo em mim. Deve ser exaustivo.






– É uma dor muito grande, acho que deve estar se lembrando
de quando perdeu seu filho humano. Não é? Jasper perguntou.






– Sim. Eu só queria abraçá-lo mais uma vez. Me desespera
pensar que posso não vê-lo mais. Esme falou com os olhos embotados de lágrimas.






– No entanto, é da mesma forma um amor muito grande. Não é
tão desgastante assim. Jasper lhe sorriu.






Ela se dirigiu ao ateliê e eu fui atrás. Ela deslizou um
papel sobre o cavalete onde costumava trabalhar e pegou um pedaço de carvão.
Depois com os olhos ainda mareados começou a rabiscar. Depois de quase vinte
movimentos as feições de Edward estava começando a despontar e em menos de uma
hora seu rosto estava vividamente retratado. Eu não sabia se ela havia
percebido que eu a observava, mas ao perceber sua imobilidade diante do papel
me aproximei.






Eu a abracei e retirei o carvão de sua mão, depois a conduzi
ao divã que ela mesma colocou no canto da sala e a sentei. Fui à cozinha e
peguei uma vasilha com água e um pano. Voltei à sala e comecei a limpar suas
mãos, braços e o rosto (que havia se sujado quando ela apoiava as mãos nele
para ver o que faltava). Ela não disse nada, apenas suspirou alto. Depois de
deixar a vasilha e o pano de volta na cozinha, voltei ao ateliê. Ela estava
deitada no divã olhado o que havia desenhado, eu me aproximei e sentei. Peguei
uma de suas mãos e segurei bem forte. Depois de algum tempo ela se levantou,
beijou meus olhos e bochechas, me deu um abraço bem apertado e sussurrou um
agradecimento em meus ouvidos. Depois me agradeceu pelo apoio e por amá-la e
pediu que fosse discreta quanto ao seu surto, ela não queria que Carlisle se
preocupasse. Depois de anos demonstrando amor incondicional por mim e relevando
minhas piores crises de irritação, o que eu fiz não significava nada. Esme já
mostrou muito mais amor, apoio e compreensão do que eu jamais poderei
retribuir. Eu disse que não era nada e ela se recolheu em seu quarto.









Me doía profundamente assistir ao sofrimento de Esme, era
tão injusto. Também havia Alice, que apesar de querer confortá-la estava
sofrendo tanto quanto nossa mãe. Ela havia perdido seu entusiasmo e nem sequer
desenhava suas coleções. Jasper sentia o que todos sentíamos, é claro, mas ele
também tinha seu sofrimento. Edward era seu confidente, eles conversavam por
horas. Carlisle se mostrava confiante, mas seu olhar se retorcia toda vez que
cruzava com o piano ou com a porta do quarto dele. E até mesmo Emmett estava
profundamente mudado, não havia mais a leveza de ver a vida de forma prática. A
dor não é nada prática. E havia o silêncio, não havia mais música em nossa
casa. E o pior era que até eu sentia sua falta.






Nos dias seguintes continuamos a manter a rotina indo à
escola todos os dias. Nossas noites se dividiam entre ficarmos juntos
conversando sobre besteiras ou em nossos quartos nos consolando com amor físico
e carinho. A novata estava mais relaxada. Ela entrava no refeitório tensa, mas
ao perceber que éramos apenas quatro seu corpo se descontraia.






Quando a tarde do sábado morria em um crepúsculo alaranjado
Alice sorriu discretamente. Jasper segurou seu braço como que para contê-la e
disse de forma quase inaudível:






– É só uma insinuação.






Horas depois ela esboçou seu melhor sorriso e disse aos
pulos:






– Ele está voltando!!!!






Esme sorriu e me abraçou. Esperamos sua chegada com
entusiasmo, principalmente Alice que mal se continha em um lugar. Ele chegou
pouco depois de meia noite com o semblante culpado e logo se dirigiu a Esme.
Ela o abraçou com força e encostou seu rosto no peito dele em completo
silêncio. Não haviam palavras, apenas o som de seu choro sem lágrimas. Mas
podíamos prever o conteúdo da conversa. Com certeza ela estava dizendo o quanto
sentiu sua falta, como sofreu com sua ausência e pedindo para que jamais
repetisse o gesto que lhe causou tanto sofrimento.






Ele não nos deu muitas explicações sobre o que aconteceu, ou
o que o levou a tomar a decisão de voltar, apenas nos alegramos por sua volta.
Alice distribuiu beijos em suas bochechas, enquanto ele se esquivava. Emmett
lhe dispensou um de seus abraços de urso e disse:






– Temos que conversar sobre essa sua viadagem.






Jasper o abraçou e completou:






– Ainda bem que voltou, já estava morrendo de depressão. Não
imagina o que é sofrer a sua ausência por mais cinco pessoas.






Carlisle e ele tiveram uma rápida conversa mental, depois de
um abraço caloroso. Então chegou a minha vez. Ele me sorriu e se aproximou
quando percebeu que mesmo eu senti sua falta.






– Admita. Ordenou ainda sorrindo.






Eu fiz birra, e não disse.






– Tem certeza? Pode sentir sua alma mais leve se confessar.
Brincou.






Acho que posso contar nas mãos às vezes em que fomos tão
leves, tão carinhosos um com o outro. Então pensei:






– Vou fazer, mas não
para todo mundo ouvir. Não quero ter testemunhas para que depois me torture.






– Tudo bem. Estou esperando. Ele falou ainda com traços de
diversão.






Deixei que ele visse um pouco o quanto sofremos. Quando digo
sofremos, mostrei até mesmo a falta que ele me fez e a casa silenciosa. Então
com os olhos marejados pensei com doçura:






– Senti sua falta,
fico feliz que tenha voltado.





Depois reassumi o controle de meus pensamentos e completei:






– Mas em hipótese
alguma ouse revelar isto. Eu te caço e arranco cada pedaço de seu corpo,
jogando-os na chama mais próxima que achar.






Ele sorriu e disse:






– Preciso caçar.






Carlisle tentou lhe dar alento:






– Podemos dizer na escola que está doente e contrataremos um
professor particular.






– Não, preciso vencer o monstro Carlisle. E só posso fazer
isso voltando a minha rotina. Não permitirei que uma menina tire de nós a vida
que levou tantos anos construindo. E a tanto custo, de todos nós.






Os meninos o acompanharam na caçada, eu e Alice não quisemos
ir. A noite foi diferente. Com Edward em casa, Emmett pareceu reencontrar sua
jovialidade e me amou com ferocidade madrugada adentro. Quando nos levantamos
para retomar a rotina de colegiais, nevava. Assim que Alice desceu as escadas
sorrindo, Edward a encarou:






– Disse que vou retomar a normalidade Alice, não me tornar
seu amigo. Não criamos laços, lembra?






– Eu vi, seremos muito amigas. Você não pode interferir.






– Posso e vou. Não se aproxime Alice. Não me leve a uma
situação extrema.






Voltamos à rotina de nos espremermos no Volvo. Havia um
clima belicoso e leve ao mesmo tempo na escola. Guerras de neve se espalhavam
por todos os cantos em rostos corados e sorridentes. A primeira parte da manhã
passou sem surpresas ou perigos, mas eu sabia que a hora do almoço era a hora
da verdade.






Ela entrou descontraída falando com uma garota e como de
costume já na fila para pegar a refeição olhou nossa mesa. Na hora em que sua
contagem mental deu cinco sentimos as mudanças da descoberta. Ouvimos seu
coração acelerar e pudemos ver seu corpo se ajeitar em uma rigidez
desconfortável.






– O que eu mais temia me aconteceu. Jasper citou um
versículo da bíblia para descrever o que ela sentia.






Os amigos lhe perguntaram se estava sentindo algo, foi
quando notei que ela sequer comeria de tanto nervoso.






– Medo? Perguntei.






– Não. Constrangimento e ansiedade. Jasper respondeu.






Quando ela se sentou voltamos a encenação de nossa
“refeição” que permanecia intocável. Tudo permanecia normal. Me pareceu que
Alice articulou o que se seguiu. Ela disse a Emmett:






– Não acredito que seja tão infantil a ponto de ainda fazer
guerra de neve Emm. Ah! Isso é um pecado, acaba com as roupas que levei tanto
tempo escolhendo. E ainda por cima desfaz o resto do look. Não se atreva a me
atirar uma bolinha sequer. Não acredito que ainda se dê ao trabalho de querer
me surpreender se eu sempre antevejo que vai me acertar.






Dito isto ele balançou a cabeça espalhando respingos de água
por todo lado enquanto eu e Alice tentávamos nos esquivar. Edward e Jasper
sorriam com ele de nossa expressão de raiva e descrença ante sua infantilidade.
E então, todos sorrimos. Bem no momento em que ela levantava os olhos em nossa
direção. Ficou a impressão de que Alice planejou o momento para que ela
percebesse que éramos normais, como qualquer adolescente colegial aproveitando
um dia de neve para se divertir. Então os olhos de Edward lampejaram na direção
de sua mesa como que se chamassem seu nome. Era amiga e ela agora avisava que
ele devolveu o olhar. Fiquei ainda mais cismada, ela parecia de certa forma
mover algo dentro dele que não era só a sede.






– Não sei o que é, mas
vou descobrir.
Ele disse respondendo ao meu pensamento.






– O que pretende fazer?
Perguntei, mesmo sem os outros entenderem.






– Falar com ela. Vou conversar na aula de biologia. Preciso
desfazer a primeira impressão se desejar que ela esqueça o ocorrido.






No final da aula o estacionamento estava mais cheio que o usual.
Choveu e a água derreteu a neve, deixando o asfalto escorregadio. Os motoristas
estavam sendo mais cautelosos. Ela passou em direção ao seu carro e ele ficou
hipnotizado até que ela chegasse lá. Talvez com medo de que ela caísse, todos
diziam que ela era meio desastrada.






Então sem que eu tivesse a menor participação nisso, o
destino resolveu nos ajudar. Um desavisado qualquer acelerou mais do que devia
e perdeu o controle. Pela direção que o carro descrevia a novata seria atingida
em cheio, meu cérebro fez o cálculo de forma muito natural. Todos os nossos
problemas seriam resolvidos e a crise que estava se apresentado acabaria antes
mesmo de começar. Era questão de segundos até que tudo voltasse ao normal. Sem
fugas repentinas, ameaças de massacres, Esme sofrendo, Carlisle se consumindo
em seu silêncio, não mais o silêncio da música muda de sua ausência.






Mas tudo mudou, um raio passou por mim ao mesmo tempo em que
os pneus produziam o inconfundível som da freada brusca. E ele estava lá.
Edward estava lá entre a menina e o carro. Inumanamente estava lá, abrindo
caminho entre as latarias para mantê-la viva, para interromper o fluxo do
destino. Brincando de Deus, interferindo no futuro, na segurança de nosso
futuro sob os olhos de dezenas de humanos.






Volturi. Foi a única palavra que veio à minha mente. Ele
arriscou nossas vidas pela dela. Onde será que ele estava com a cabeça? Como
ele pode fazer isto?






Depois da confusão ele posou de herói, mas não teve coragem
de nos olhar. Obviamente podia ouvir todos os impropérios que estávamos
pensando. Então os olhos inumanamente calmos dela cruzaram com os meus.






Agora era pessoal, eu não ia permitir que uma humana
destruísse minha família. Qualquer que seja o nome dela, ela iria morrer, seus
dias estavam contados.





Notas finais
Muito obrigado pela extrema paciência. Espero que alguém ainda esteja disposta a ler depois de tanto tempo.
Dizer que a carga de trabalho é demasiadamente pesada e às vezes isso me impede de escrever já é normal. Mas é verdade, acreditem.
E então? Ainda mereço comentários?
Beijos :)