Perspectiva
17 Novas, velhas coisas.
Notas iniciais
PDV Rosálie
Jamais daria o braço a torcer, mas eu odeio a minha escola. Wesllesley tem a fama de ser a maior instituição de ensino para mulheres do mundo, mas na verdade é uma fábrica de esposas. Existem aulas para nos ensinar a receber convidados, planejar o orçamento doméstico, educar os filhos. Claro que tem matérias interessantes como: história da arte, línguas estrangeiras (aperfeiçoei muito meu francês e Italiano), biologia, física (essa eu adoro). Mas mesmo assim seu claro objetivo de educar a mulher para ser esposa não é nem um pouco disfarçado.
Emmet está se divertindo muito em Harvard (sinto um pouco de inveja), está fazendo um curso de “Engenharia de estradas e rodagens”, disse que o país irá se modernizar e que ele ganhará muito dinheiro com a ampliação das rodovias. Ele está contando com a ajuda do telepata para controlar a sede, ainda não atacou ninguém.
Meu “adorado irmão” está se dando muito bem no curso de medicina, Carlisle está muito orgulhoso, é claro. Seu filho preferido escolheu exatamente sua profissão. Mas por enquanto ele só tem que trabalhar com cadáveres, quando ele precisar estagiar é que eles verão como lidarão com a situação. Não será nada fácil ficar num ambiente tão cheio de sangue.
Esme está fazendo estudos autodidatas sobre arquitetura, Carlisle percebeu seu interesse e a cada dia vai aumentando o número de prateleiras na biblioteca sobre este assunto. Ela ficou muito enternecida com o gesto dele de perceber seus gostos e comprar livros para ela, por isso estuda avidamente tudo que encontra. Pela primeira vez ela fez uma reforma “mudando a estrutura da planta”, não sei o que isso significa, mas ela ficou radiante depois que concluiu.
Está encantada com um tal de “Le Cobusuier”, um arquiteto francês e com um outro brasileiro que se chama Niemeyer. Ela e Carlisle foram à Nova York para que ela visse o prédio que o tal brasileiro projetou para a ONU (Organização das Nações Unidas).
Eu e Emmet nos vemos todas as noites agora que nos casamos novamente. Temos uma casa separada dos outros, para ter privacidade. Acho que é por que o telepata não suporta nos ver juntos e a Esme sempre o protege. Com os novos conhecimentos de minha mãe, minha casa ficou mesmo impressionante. Eu adoro a privacidade, significa que posso utilizar meu melhor método de esquecimento sem contra indicações. Aprecio mais os dias com sol, já que não é possível estudar nessas ocasiões e eu passo mais tempo com ele.
Nosso casamento foi o modo como o Carlisle justificou nossa proximidade, era possível perceber nossos olhares a quilômetros. Eu devo admitir que adorei essa parte de me casar de novo, toda a preparação, o encantamento. Lá estava eu novamente vestida de noiva, sendo apreciada por todos (sem a menor culpa de me sentir bonita) e o que é mais importante andando ao encontro do amor de minha existência.
Esme encomendou meu vestido, e ele era absolutamente deslumbrante. De renda e cetim, bordado com muitas pedrarias e uma longa cauda. Com certeza o padre não deixaria que eu a usasse se soubesse de meu passado. Tanto o humano, com toda a desonra que Royce me causou, quanto o com Emmet, esse de livre e espontânea vontade. Desta vez me casei na igreja, numa cerimônia pequena com as meninas da Wesllesley, os colegas de Emmet e alguns amigos que Carlisle convidou do hospital.
Esta lua de mel foi bem diferente, não tive receios e pude desfrutar dos melhores momentos de minha existência ao lado dele. Assim que chegamos ao chalé que nossos pais reservaram, ele me carregou e fez questão de entrar com o pé direito. Depois que me pôs no chão, não tive tempo nem de trocar meus trajes, ele me arrebatou com um beijo intenso e demorado. Quando nos desprendemos ele me sorriu e as covinha que tanto amo se destacaram em suas feições, eu me perdi na profundidade do sentimento que me tomou, só conseguir pensar em quanto o amava. Foi o máximo que minha razão processou como pensamento, ainda não sei descrever isso que sinto. Acho que é porque nunca experimentei este sentimento como humana, não tenho como acessá-lo de forma racional.
Suas mãos percorreram meu corpo e se detiveram em meus seios, ele beijou meus olhos e a ponte de meu nariz. Depois fez uma trilha de beijos de meu queixo que se estendeu ao colo e ao vão entre eles. Assim que seus lábios os tocaram sobre o vestido, senti o tecido romper com a força de seus braços (ainda bem que não foi a Esme que o fez). Em segundos ele estava pulverizado aos meus pés, e meu corpo desnudo foi completamente acariciado por seus lábios. Apenas uma palavra se forma em minha mente e foi ela que gemi, rendida ao prazer que ele me proporcionava:
- Em-met. Emmet.
Passamos vinte dias sem sair do chalé, na verdade no fim quase não havia chalé. Então meus instintos me lembraram que apesar de mina fugaz felicidade, eu ainda era uma vampira.
Voltamos à Massachussets depois de Emmet reembolsar o dono do chalé pelos danos causados. Não sei como ele se justificou, mas creio que a quantia que ele deu, pode ter ajudado o proprietário a entender o impossível. Me adaptar a rotina da escola como a senhora Emmet Cullen, foi muito fácil. Casar é uma prática comum entre as alunas e as que alcançam o status de esposa gozam de alguns privilégios, como ter faltas justificadas. E no meu caso, isso significa não me preocupar com desculpas para os dias ensolarados.
Mas o fato de ter me casado de novo não mudou em nada meus sentimentos em relação á escola. Eu a odiava tanto quanto o fato de ser uma vampira. Talvez eu a odeie exatamente por ser assim.
Olho as outras garotas que cursam a instituição comigo, vejo-as percorrendo os corredores e não posso deixar de invejá-las. Pela primeira vez posso perceber o que significa ser imutável. Elas passam cremes para retardar a velhice, usam anticoncepcional escondido dos maridos para não engravidar, assim podem estudar mais e não engordar ou perder as formas. Eu jamais envelhecerei, nunca engravidarei, sempre terei essas formas.
Quando vou para a aula de etiqueta me sinto ainda pior, a professora Woods nos ensina a receber os amigos do marido para um jantar, talvez seu chefe e a esposa. Para que estou aqui? Se um dia Emmet levar um de seus amigos para jantar, o que oferecerei? De entrada sorbet de sangue de coelhos, como prato principal ensopado de sangue de ursos pardos e de sobremesa mousse de sangue de cervos?
Para que aprender a calcular o orçamento doméstico? De que me serviria comprar um fogão de seis bocas? Ou onde aplicarei meus conhecimentos em psicologia infantil?
Passei tanto tempo treinando com minha família como parecer cada vez mais humana, mas viver aqui me mostrou como esse esforço é inútil.
As preocupações que as fazem humanas nunca serão minhas, não tenho mais medo de envelhecer ou perder as formas e ficaria muito feliz se pudesse gerar um bebê com a cara de Emmet.
Hoje refleti como de fato era uma humana fútil, meu maior sonho era ser bonita e jovem para sempre, olho para o passado e vejo o sofrimento que esse desejo me causou.
Ontem uma delas anunciou que está grávida, me imaginei na mesma situação. Contar ao Emmet sobre o bebê, depois à nossa família, a alegria de Esme ao saber que seria vovó, a preparação do quarto, a confecção do enxoval, um bebezinho em meus braços, eu o amamentando, Emmet o admirando. Mas percebi que nunca acontecerá e isso me deixou muito irritada. Conviver com toda essa vida me faz ser obrigada a admitir que não há mais vida em mim e isso é tão frustrante.
Todas elas se modificarão ao longo do tempo, não apenas o corpo, mas especialmente a mente. Elas terão preocupações diferentes, terão novos desafios. Em pouco tempo (para mim) enfrentarão a responsabilidade de criarem outros seres humanos, lidarão com o ciúme das sogras, se preocuparão com a estabilidade do emprego do marido, com a saúde da família, com um modelo de carro que comporte todos, com as festas de aniversário, com as fantasias para o Hallowen, com a forma (para continuar atraente para o marido), com a morte. E eu permanecerei para sempre imutável.
Elas morrerão, seus filhos morrerão, seus netos também e eu permanecerei assim, como uma menina de dezoito anos esperando que sua vida comece. Mas minha vida nunca começará, não estou mais viva. A eternidade é assustadora se vista sob este prisma.
Não é o romântico; “E viveram felizes para sempre”. Principalmente se isso vem acompanhado de uma sede implacável por sangue, que além de tudo o mais ainda lhe reduz ao lugar de monstro cruel e assassino.
Queria poder conversar com alguém, mas não posso. Edward passaria em minha cara que estar aqui foi só mais um capricho, passaria atestado de menina mimada.
Me afastei tanto de Esme depois da guerra, me sinto ferida e magoada por ela não ter me ajudado a voltar para casa antes que aquele homem me atacasse e Carlisle me visse durante minha sessão de lembranças. Confiei nela, e ela o deixou ver meu estado lastimável durante a memória. Sinto tanta vergonha dele, saber que ele viu como foi para mim aquele momento, me constrange. E mesmo que eu lhe conte todas essas angústias ela jamais me entenderá, ela tem filhos, ela recebe os amigos dele, ela tem uma família. Mas seremos sempre eu e Emmet.
Além do mais, fico sempre com a sensação que não sou digna de ser mãe, de ter essa vida normal. Talvez ter me tornado vampira foi um castigo por algo que nem sei o quê. Será que é porque eu era muito egoísta e agora a vida me diz que não sou boa o suficiente para cuidar de outra vida? Ou será que o fato de ser tão fútil levou o destino a me castigar com uma vida infrutífera para todo o sempre?
Nesse momento sinto muita falta de minha mãe biológica, seu abraço tinha um efeito mágico sobre mim. Era meio que sinestésico, eu não dizia nada, apenas me aproximava e ela me abraçava. Em seus braços não havia temores e nem angústias, era só a sensação de proteção e compreensão. Depois, quando me sentia segura o suficiente para ficar sozinha, ela me olhava e dizia exatamente o que eu precisava ouvir. Uma vez eu perguntei como ela fazia aquilo e ela me respondeu: “As mães sabem tudo, especialmente se tem filhas que não são boas em esconder. Deixam tudo escrito na testa.” Como eu só tinha dez anos corri para o banheiro e fiquei olhando meu reflexo no espelho, mas não havia nada. Minha mãe esqueceu-se de dizer que ela não lia palavras e sim minhas expressões.
Eu estava em casa sozinha, pois Emmet tinha ido à região dos Apalaches com Edward para caçar. Carlisle e Esme estavam em mais uma viagem para que ela conhecesse um monumento de seus estudos. O que fazia de mim temporariamente só.
Fui tomada por uma angústia repentina, eu tinha a sensação que dependia novamente do oxigênio, mas não o encontrava apesar de meus esforços em respirar. A imagem de minha mãe Violet, distorcida pela precariedade da visão humana, foi opressora então eu corri.
Quando minha razão resolveu retornar, me vi novamente em Rochester. Vi minha antiga casa, um sobrado branco com as varandas se projetando no andar superior diante dos quartos. A casa tinha um aspecto meio desbotado, e eu conclui (ironicamente) que até para os imóveis o tempo passava, menos para mim. Tudo parecia um pouco gasto, havia um remendo no cercado da varanda que abrigava o jardim de minha mãe. As cortinas pareciam as mesmas de outrora, se vistas do lado de fora.
Com meus sentidos aguçados tentei ouvir os batimentos cardíacos dentro da casa, podia afirmar que havia duas pessoas, uma delas com dificuldade para respirar.
Fiquei estancada na porta, estava sendo devorada pela vontade insana de entrar e pedir a meus pais que me deixasse deitar no meio da cama deles. Talvez esse mágico momento acalmasse essa inquietação inexplicável que sentia, esse inconformismo, essa angústia que me atormentava. Mas um lado racional e coerente de meu cérebro irritantemente insistia em me lembrar as terríveis conseqüências de se revelar a um humano, especialmente a um que te conhecia quando ainda viva como eles.
Eu respirei fundo, mesmo que isso não fizesse a menor diferença. Depois cedi ao primeiro impulso e sorrateiramente entrei. Na sala havia uma foto ampliada que foi tirada em meus quinze anos. Sob ela, em uma mesa forrada com uma toalha de renda, havia velas, um Muffin de mirtilos (meu preferido, quando ainda apreciava guloseimas humanas), um vaso com flores e minha escova de cabelos com cabo de marfim (presente de minha avó Lílian).
Eu caminhei pelos corredores conhecidos, e voltei ao quarto que me pertenceu. Um arrepio involuntário percorreu minha espinha com o que vi, parecia que não havia se passado um só dia desde que o deixei.
Tudo estava com minha memória nublada se lembrava, a caixinha de música com a bailarina de perna quebrada (Rob a quebrou e tentou esconder, eu gritei com ele naquele dia), o porta jóias de prata, o espelho, um porta treco forrado com tecido igual ao papel de parede, meu diário, tudo meticulosamente arrumado sobre a penteadeira.
Minha colcha preferida estava sobre a cama, era de metalassê floral com detalhes em sianinha. Além de meus travesseiros e da almofada (redonda e drapeada no centro), estava também minha boneca com rosto de louça. Papai a comprou quando foi à Suíça a trabalho e achou que ela era muito parecida comigo. “Como se fosse uma miniatura sua, uma mini Rose” ele disse ao me entregar.
Abri meu guarda-roupa e vi todos os meus vestidos, os sapatos dentro de sacos de algodãozinho na moderníssima “sapateira embutida” que minha mãe mandou o maceneiro fazer. O cabideiro ainda sustentava o casaco que desisti de usar no último momento antes de ir à casa de Vera, eu achei que ele não combinava com o bolero que completava meu vestido. Isso agora me pareceu tão fútil.
Minha vontade era reunir tudo e levar comigo, recuperar nesses objetos a humanidade que eu perdi. Insanamente eu sentia que se estivesse m posse deles, talvez tudo mudasse. Eu poderia ser apenas uma garota normal novamente. Enfrentaria meus pais e me casariam com Emmet (mesmo ele sendo pobre), teria uma humilde casa, talvez pudesse ser vizinha de Vera. Quando a noite chegasse, eu arrumaria meus filhos e esperaria meu marido na porta, ele me beijaria ternamente e entraria para jantar.
Ou talvez não, me casaria com um homem rico (mas com sentimentos) e assim agradaria a meus pais e a essa auto-indulgência que não consigo parar de ter. Viveria confortavelmente em uma casa no subúrbio e seria vizinha de meus pais, nunca mais me separaria deles. Teria uma faxineira semanal para me ajudar com o serviço da casa e uma babá para tomar conta de meus filhos quando fosse sair para um jantar com meu marido. Se o mundo fosse perfeito, Emmet seria rico e ocuparia o lugar de meu marido sem que eu tivesse que romper relações com meus pais.
Nunca mais caçar, nem beber sangue, nem se mudar, ou se esconder do sol. Dormir novamente, sonhar, gerar uma vida, envelhecer, morrer. Nunca mais “jovem e imortal para todo o sempre”.
Então um sopro de razão me fez perceber que era impossível, eu sou imutável. E muito possivelmente a pessoa que transformou meu quarto em um mausoléu perceberia se eu tirasse um só grão de poeira do lugar. Saí do meu quarto na esperança de que tivesse forças para partir, mas parei na porta do quarto de meus pais.
Abri a porta bem devagar, meus pais dormiam na mesma cama de carvalho onde eu e meus irmãos nascemos. Me aproximei sentindo o aroma suave do sangue de mamãe, minha garganta ardeu de sede e meus pensamentos foram rapidamente se transformando no prenúncio do prazer que teria seu eu a atacasse. Eu me aproximei e podia ver claramente a pulsação de sua jugular. Então no último momento ele se remexeu na cama e seu rosto ficou a centímetros do meu. Me vi em seu rosto, éramos tão parecidas, meu pai sempre dizia que eu era a cópia fiel de mamãe. Ele brincava que só deu o toque final com a cor dos olhos, ela tinha olhos castanhos. A razão voltou e senti muito medo de mim, eu estive prestes a matar minha própria mãe. Me virei para sair em busca de um ar menos saturado do cheiro inebriante do sangue, quando ela acordou.
- Lili? Lili, é você mesmo?
Minha mãe queria me batizar com nome de sua bisavó, uma inglesa de personalidade forte. Mas meu pai queria que eu tivesse um nome de flor para combinar com o dela. Assim recebi a graça de “Rosálie Lílian” o que agradou a todos. Mas minha mãe tinha um gênio terrível (não imagino a quem puxei) e não cedeu ao sonoro e óbvio apelido que recebi “Rose”. Para reafirmar sua vontade, ela sempre me chamou de Lili. A sonoridade da palavra me fez esquecer as severas regras impostas pelos Volturi e eu me virei em sua direção. Sabia que podia saltar a janela e correr para o lado das árvores que ladeavam as casas da rua, minha mãe pensaria que estava sonhando ou delirando. Mas naquela noite eu não queria isso, queria me deitar em seu colo e voltar a ser a menina fútil e mimada de outrora, queria só um pouco de colo e compreensão.
- Mãe, tenho tantas saudades. Eu disse com minha nova voz.
Ela se levantou e tocou meu rosto como se não acreditasse no que estava acontecendo.
- Eu disse ao seu pai que você voltaria, mas ele não acreditou em mim. Eu sabia que um dia íamos nos reencontrar.
Ela se virou em direção à cama e ia acordá-lo, mas eu a detive.
- Não mãe, não faça isso, ele não pode saber que estive aqui. Aliás, a senhora não pode contar sobre isso a ninguém. Promete?
- Mas filha, ninguém vai acreditar em mim.
- Por favor, não pode contar a ninguém. Aliás, não posso demorar muito aqui. Vamos conversar em outro lugar. Pedi.
Só então notei suas expressões, apesar de terem se passado treze anos era como se ela tivesse envelhecido trinta. Ela tinha enormes olheiras, as rugas de expressão ao redor dos lábios formavam sulcos, seus cabelos estavam brancos em muitos lugares e ela parecia não ligar para isso. Ela fechou os olhos e tocou novamente em meu rosto como se quisesse memorizar minhas feições. Eu peguei em sua mão e a levei até meu antigo quarto, depois me deitei em minha cama e como se ouvisse meus pensamentos ela se deitou e me aninhou.
- Não importa, a única coisa que importa é que está aqui. Filha o que aconteceu? Te procuramos tanto, Vera disse que saiu quando já era noite, mas você não chegou. Quem te matou? Você se lembra? Te machucaram muito? Onde está seu corpo?
Foi exatamente com previ, minha família me procurou, eles se importavam comigo. Posso não ser muita coisa, mas eles me amavam. Queria tanto poder apagar todo o sofrimento dela, dar um corpo para ela enterrar. Mas não sabia como fazer.
Sei que não parecia me importar com muita coisa além de mim mesma, mas não era bem assim. Fingir que não me importava era uma forma de negar o quanto me doía, era uma forma de me proteger dessa sensação desesperadora de perda, dor e medo.
Mas havia uma idéia surgindo em minha mente e talvez fosse uma forma de compensá-la. Minha mãe achava que eu era um fantasma, então:
- Eu tive sim uma experiência de morte aquela noite mãe e eles me machucaram muito, mas já passou, não dói mais. Não precisa se preocupar.
Ela não precisava sofrer, eu não queria que isso a assombrasse mais. Pelo que pude perceber sua vida acabou junto com a minha.
- Foi Royce, não foi? Ela disse e beijou minha cabeça, como sempre fazia quando queria me encorajar a dizer algo.
- Porque diz isso? Quis saber.
- Ele chegou aqui muito certo de um roteiro de busca, eu desconfiei. Seu pai disse que eu estava ficando louca, que seu sumiço tinha mexido com meu juízo. Eu o acompanhei. Ele fez de tudo para que eu não o seguisse, mas eu insisti e meu estado de desespero fez com que seu pai concordasse. Quando chegamos ao atalho para o antigo mercado, aquele onde ficavam os antigos galpões de bebida, ele começou a conferir todos os becos e tive a impressão que ficou muito desorientado quando não achou você lá. Era como se ele soubesse onde estaria seu corpo e de repente não achasse o que esperava.
Disse ao seu pai, mas ele disse que estava histérica, até me obrigou a ir a um médico de malucos. Eles disseram que eu estava ficando paranóica ao tentar encontrar respostas. Até levantaram a hipótese de que você tivesse fugido com um namoradinho, mas eu sabia que jamais faria isso. Você não nos deixaria sem notícia, nunca ficou sem a gente, odiava dormir na casa de suas amiguinhas quando criança.
Não queria dar detalhes sobre o que aconteceu, mas percebi que ela precisava de respostas.
- Sim foi ele. Acho que ele não queria me matar, mas perdeu o controle.
- Filha? O que ele fez?
- Não importa mais mãe, já passou. Nem me lembro mais, não se preocupe comigo.
- Tudo bem. Não deve ser fácil para você, não é Lili? Foi você que o assombrou?
Eu suspirei alto e ela afagou meus cabelos. Não sei como explicar, mas mesmo sem ver seu rosto, sabia que ela estava rindo. Ela continuou a explicar:
- A família King tentou abafar, mas os empregados disseram que ele ficou maluco. Ficava dizendo: “Aquela mulher estava voltando para me pegar”. Disse a seu pai que era o atestado de culpa dele, mas ele estava bêbado demais para me ouvir. Dizem que foi por isso que ele se matou.
Então foi assim que justificaram meus atos. Espera um pouco. Papai bêbado?
- As coisas não têm sido fáceis aqui, não é?
- Bem, não muito. Ela respondeu com a voz entristecida.
- O que aconteceu?
- Eu demorei bastante para aceitar que devia estar ...
Ela hesitou em dizer que eu estava morta. E eu não estava de fato, mas no fundo (principalmente agora) eu queira estar. Teria sido tão mais fácil para ela se tivesse achado meu corpo nas buscas e eu não sentiria toda essa angústia de viver como vampira e lembrar do que aconteceu.
- Em outra dimensão. Eu completei, de certa forma a imortalidade era uma dimensão bem diferente.
- Seu pai parecia inabalável no início, acho que ele acreditava que te encontraria. Mas com o passar do tempo e sua ausência ele começou a beber. Foi um milagre os King não o demitirem, eles o suportaram até que tivesse idade suficiente para se aposentar. Então não tivemos muitas dificuldades no início.
Rick ficou muito abalado com seu sumiço, ele não aceitava o fato da polícia ter parado de te procurar e preferiu não ir à faculdade para procurar pessoalmente. Tentei argumentar, até pedi que seu pai interferisse, mas não consegui grande resultados. Depois de um tempo ele ingressou no exército e se encontro lá, fez até carreira.
Com o tempo seu pai começou a ficar um pouco violento e quase não nos falávamos mais. Cada um com sua dor.
Mas foi o Rob quem mais sofreu com isso tudo, eu acho. Passamos tanto tempo te procurando ou sofrendo sua ausência que nem percebemos quando ele se tornou um rapazinho. E até hoje não sei explicar porque acha que amamos mais você do que ele.
Seu pai começou a implicar com tudo, acho que o álcool alterou seu julgamento. Ele passou a ser bem severo com os meninos, e foi impedindo que eles fossem mais independentes. O Rick tem aquela personalidade mais tranqüila, meio sedutor e logo se casou. Mas acho que foi mais um escape para sair dessa casa. Já o Rob o contestava sempre, ele herdou esse nosso gênio. Seu pai batia tanto nele, mas ele nunca dava o braço a torcer. E eu estava me lamentando por perdê-la, por tentar te arranjar um golpe do baú e ter recebido o duro golpe de seu sumiço. Não percebi o problema, até que fosse tarde demais.
- Papai te bateu?
Estava muito aturdida com as notícias, meu pai era tão amoroso. Muito diferente dos homens de sua época, ele nos contava histórias para que dormíssemos, brincava conosco, e nos beijava antes de sair para trabalhar (mesmo que estivéssemos dormindo)
- Ele tentou uma vez, mas Rick estava nos visitando e se colocou em minha frente. Disse que se ele fizesse isso me levaria para morar com ele. Ele já era casado nessa época. Seu pai ficou com medo de ficar sozinho de vez e nunca mais nem sequer me olhou feio.
Digo ficar sozinho, porque o Rob só esperou fazer dezoito para sair de casa. Na verdade eles brigaram e o Rick também interviu, foi uma briga feia, seu pai e ele gritavam tanto. Quando seu pai levantou a mão para bater nele de novo foi preciso Rick segurá-lo, achei que ele mataria seu pai naquele dia. Nunca vi o Rob tão irado, ele tinha uma expressão de ódio e amargura. Rick o levou para a casa dele e depois ele se foi. Depois que seu pai passou a beber Rick ficou mais maduro e acabou assumindo a responsabilidade de cuidar de nós.
Quanto ao Rob, não tínhamos notícias dele, até pouco tempo quando a guerra começou.
- Ele foi à guerra? Perguntei angustiada.
- Os dois foram.
- Mãe... Eu ia perguntar o óbvio, mas ela me interrompeu.
- Os dois voltaram, não foi por isso que soubemos dele. Ele veio se despedir de nós antes de partir. A mulher dele o obrigou a fazer isso, Susie é uma mulher admirável. Muito mais inteligente e virtuosa do que eu fui.
- É a melhor mãe do mundo. Eu disse com a voz embargada, ela não imaginava o quanto senti sua falta.
- Ele e seu pai se reconciliaram, ainda que a relação deles não seja a das melhores. Mas ele traz meus netinhos para nos visitar. Você é titia, sabia?
- Mesmo? Perguntei excitada pela idéia.
- A menina do Rick se chama Rose, ela já tem sete anos. Se parece tanto com você, agora está com uma janelinha linda. Rob tem dois meninos um com cinco e um com quatro, eles são tão pintões enchem a casa de risos, eu adoro as risadas.
- Como se chamam?
- Joe e Ben. A Susie é bem religiosa, foi ela quem ajudou o Rob a se livrar da mágoa. Eles freqüentam a igreja, isso fez muito bem a ele. E a nós também, ele tem me ajudado a cuidar de seu pai, mesmo depois de todas as surras e brigas, ele ainda o ama. Joseph e Benjamin, os filhos mais amados de Jacó.
Lembrei que meu pai havia mencionado esse nome em meu primeiro casamento, quando me pediu para retirar o véu. Meu pai. Quem ocupava este lugar em minha vida agora? E minha mãe, quem seria? A que me abraçava ou Esme? Não podia retornar à minha antiga vida, mas tinha a sensação que não me encaixava na nova.
Por que será que eu fui lançada nesse prolongamento de dor. Para mim a eternidade era isso, um prolongamento da dor. Já não tinha mais tanta certeza de que estar aqui pudesse fazer qualquer bem a ela, ou a mim. Saber de todo esse sofrimento só fazia com que me odiasse mais. Me odiava porque era bonita e por isso, Royce me desejou, por ter adorado ser cortejada por ele, por ter desejado não só o amor dele, como também seu dinheiro e tudo o que ele podia proporcionar. Me odiava por se bonita e isso ter sido um fator decisivo para que Carlisle me transformasse, por ter permanecido com os Cullen (mesmo sabendo que jamais me encaixaria), por ter adorado minha beleza imortal, por ter atrelado a existência de Emmet à minha, ele é tão bom, tão melhor que eu. Estava adorando estar no colo de minha mãe, mas eu precisava sair daquele momento de devaneio inconsequente.
Mas ela suspirou e disse:
- Agora quase todo o nosso dinheiro é para comprar bebidas e remédios. Seu pai bebe tanto que está doente, mas mesmo assim não para de beber. Se não fossem seus irmãos, não sei o que seria de nós. Mas eles têm as próprias famílias e dinheiro não dá em árvore. Passei tanto tempo preocupada com meu status e com as colunas sociais e perdi as coisas mais importantes. Você, seu pai, a jovialidade de Rick. E cheguei muito perto de perder o Rob para sempre.
Percebi que eu não era a única a carregar um enorme fardo de culpa, e também me odiava por isso. Minha mãe não me ofertou a um psicopata, se ela soubesse quem ele era de fato, nunca concordaria. Apesar de sua ambição, ela me amava, sempre fez questão de deixar isso bem claro. A vida tinha sido muito cruel com ela.
Mas por um lado, eu senti um pouco de esperança. Pelo menos podia dar algum alívio a eles. Sabia que jamais poderia compensá-los pelo sofrimento, mas podia dar mais conforto a eles. Dinheiro não era um problema para nossa família, e eu podia muito bem provê-los. Como um doador anônimo, claro. Além disso haviam todos aqueles presentes que o monstro me deu enquanto me cortejava, eram jóias assinadas, havia até uma Harry Winston. Com certeza eram bem valorizadas no mercado.
Levantei da cama e abri o porta-jóias, peguei todas as quinquilharias que o demônio me deu e entreguei a ela.
- Quero que venda isso mãe.
- Não posso.
- Ele tirou muito de mim, mãe. Não quero mais nada dele nessa casa.
- Filha...
Ela ia argumentar, mas eu resolvi usar a situação ao meu favor. Sabendo que ela me considerava um fantasma disse:
- Consegui permissão para vir aqui por que tenho visto todo esse sofrimento. Não posso permitir que continue assim. Precisa seguir em frente, mãe. Todos precisam.
Venda essas jóias, vão render algum dinheiro. Compre outra casa, saia dessa prisão cheia de memórias.
- Não posso Lili. Não quero perder você de novo.
- Mãe eu não posso ficar, sabe disso. E meus pertences não me trarão de volta.
Ao ouvir aquela verdade em alto e bom som, me senti vazia e só. Não pertencia mais a esse mundo, nada me trará de volta. Coloquei as jóias em suas mãos e me deitei ao seu lado novamente.
- Como é lá? Você pode contar?
Fiquei feliz por ela ter perguntado desta forma. Não desejaria ter que inventar como era o além e não podia deixá-la imaginar que estava no inferno. Apesar de algumas vezes chegar a considerar que vivo nele.
- Não, não posso. Mas posso garantir que estou bem. Eles até me colocaram com uma família, tem uma mulher que cuida de mim. Ela é tão gentil.
As palavras saltaram de meus lábios, sem que eu racionalizasse o que havia dito. Fiquei estarrecida como dentre tantas coisas sobre a eternidade Esme foi a primeira que me veio à mente. Porque estava falando dela? Porque tinha que martirizar minha mãe com a idéia de ter seu lugar ocupado por outra pessoa?
- Eles te deram um pai e uma mãe?
Não sabia o que dizer, mas tinha a nítida certeza que mentir seria a pior saída.
- Não sei bem se eles são meus pais, não é como se eu fosse da família. Pelo menos não me sinto assim. Mas a mulher me trata como filha, até me chama assim. E o homem é uma espécie de líder para nós, como o pai de uma família. Tem um rapaz, ele...
Bem ele é ele, não somos próximos. E tem meu marido, ele é o oposto de Royce. Muito divertido e carinhoso, ele é como um filho para o casal. Então acho que eu sou como a nora, não sei dizer bem.
Me sentia mais confusa do que meu discurso desconexo. Minha mãe levantou meus olhos até que eu a encarasse e de repente foi como se o tempo voltasse. Não importava se eu era humana ou vampira, se estava morta ou viva, se era um fantasma ou um sonho. Éramos apenas eu e minha mãe, como antes.
- Você pertence a uma família lá. Esse rapaz é seu irmão, mesmo que não se dêem bem. Você e Rick costumavam brigar muito, lembra? O líder de vocês é seu pai, respeite-o e obedeça-o, espero que ele seja mais perceptivo que seu pai e te proteja do mal.
Ela disse com tanta convicção, como se fosse minha consciência tentando por ordem em meus pensamentos. Pela primeira vez aquilo pareceu ser uma verdade, sabia que eles me consideram como parte de sua família (ao menos Esme), mas não sabia como me sentia em relação aos outros. Em alguns momentos sentia como se Carlisle fosse meu pai, mas às vezes como se fosse o líder de nosso clã, e em outras (menos benéficas) como o algoz que me condenou a essa prolongação do sofrimento.
Edward há algum tempo deixou de ser um rival, mas eu não diria que o considerava um irmão. É como se não houvesse conexão alguma entre nós.
Não pude deixar de perceber a culpa na forma como ela falou de Carlisle ser capaz de me proteger, por isso tratei demover essa idéia de que o que me ocorreu estivesse relacionado a eles, ou suas ações.
- Mãe, você não podia imaginar, nem papai. Vocês me deram tudo o que eu precisava. Foram os melhores pais do mundo. Eu amo tanto vocês.
- Mesmo assim, não acabou bem. Para nenhum de nós. Ela disse e sorriu.
- Você tem um marido?
- Sim, ele é um homem maravilhoso.
- Pensei que não pudesse haver casamento lá. Fico muito feliz que pelo menos tenha sido recompensada com isto. Tenho esperanças que ele possa reparar o mal que te fizemos. E como é essa mulher? Ela perguntou parecendo despreocupada.
- Ela me compreende, me aconselha e acredita mais em mim do que mereço. Me chama de filha e me abraça quando sinto medo.
- Tenho que confessar que fiquei com um pouco de ciúmes, mas entendo que não pode mais ficar comigo. E se você existe em outra dimensão, quero que seja muito feliz filha. Por isso devo dizer que essa mulher é sua mãe, espero que ela tenha aprendido o que realmente é essencial e te oriente melhor do que eu. Fico feliz que tenha encontrado lá o que não pude te oferecer aqui. Mas quero que se lembre que sou sua mãe, sempre serei em meu coração. E que eu te amo, e isso é mais forte até que a morte.
Mesmo que ela falasse com uma imensa segurança, não gostei da sensação de ter ferido seus sentimentos. Me lembrei dos momentos que antecederam meu casamento, quando me senti filha de Esme pela primeira vez, quando chamei Carlisle de pai, quando pensei que não seria tão absurdo ter Edward como uma espécie de irmão. Me senti uma enorme traidora, como se tivesse me esquecido deles, tivesse os substituído em minha vida e coração. Tentei me livrar desse sentimento de traição e disse mais para mim mesma que para Ela.
- Ela não ocupa seu lugar mãe.
- Ela é sua mãe. Não complique as coisas Lili. Eu te conheço bem, sei como gosta de complicar as coisas quando não quer admitir a verdade.
Minha mãe realmente me conhecia muito.
- Então não fica chateada comigo? Eu não te traí, não me esqueci da senhora. Sinto saudades mãe, tanta saudade.
- Claro que não, você está em outro plano, lá as coisas funcionam de forma diferente. Ter outra mãe não é uma traição. Pode amar as duas ao mesmo tempo, tenho três filhos e os amo de forma igual. Pelo menos agora sei disso. Ela disse com uma voz triste e envelhecida.
Só então me dei conta de como o sofrimento havia mudado minha mãe. Como ela estava mais segura e sábia, e muito menos imperativa. Não havia a sombra da mulher altiva e geniosa que ela era em minha vida humana. Percebi que a vida de que me lembrava também era um passado remoto e distinto para ela também.
- Que tal um acordo? Sou sua mãe aqui, ela é sua mãe lá.
Eu sorri, essa era uma idéia brilhante. Ao ouvi-la falar em minha presumida eternidade no céu me lembrei que não pertença mais aquele lugar. Infelizmente, dolorosamente aquele não era mais meu quarto, aquela não era minha casa, essa não era minha púnica mãe, aquela já não era mais minha vida.Senti um enorme aperto em meu peito ao me dar conta de que não podia continuar em seus braços. Logo o dia raiaria e eu precisava sair imediatamente sair dali. Levei minha mãe novamente ara seu quarto e esperei que ela dormisse. Antes de pegar no sono ela confidenciou:
- Tenho medo que tenha sido só um sonho. Queria tanto que ficasse Lili, que eu pudesse te mostrar a seu pai e seus irmãos, eles também sentem muito sua falta.
- Eu também mãe, mas não posso. Vou mandar dinheiro todo mês para a conta de vocês. Então saberá que não foi um sonho.
- Como? Não é mais humana, como pode ter dinheiro?
- Não se preocupe com isso, apenas aceite.
Ela franziu o cenho, mas depois suspirou vencida. Relutantemente fechou os olhos sonolentamente e bocejou. Quando ia sair, me lembrei de que no dia em que fui a casa de Vera, pedi ajuda a minha mãe para desenrolar a corrente do camafeu que ganhei quando fiz quinze anos. Ela me devolveu e eu o coloquei no bolso do casaco porque estava apressada para sair, como troquei o casaco certamente ele estava lá. Voltei ao meu quarto, refiz a cama e (como imaginei) recuperei ao menos uma memória palpável da minha antiga vida. Uma vida que sabia ser impossível de recuperar.
Ao descer as escadas, me deparei novamente com o altar particular reservado para mim naquela casa e percebi que existir não havia sido em vão. Fui a cozinha e peguei algumas balas de alcaçuz, modelei-as de forma que parecesse um R e pus sobre o muffin, exatamente como minha mãe fazia para mim quando era criança. Assim ela teria certeza que não foi um sonho.
Mas ao fazê-lo meus olhos se detiveram na escova de cabo de marfim e cerdas macias que ganhei de minha avó materna quando criança. Eu sabia o motivo dela estar ali. Ela fazia parte do meu momento especial com mamãe, todos os dias antes de dormir ela escovavam meus cabelos enquanto conversávamos sobre o dia. É minha última lembrança dela, a mais via em minha memória, a noite anterior a minha morte. Eu avistava seu reflexo no espelho sentada no banco em frente à penteadeira, ela estava com uma camisola pêssego e o robe amarrado frouxamente sobre ela, usava seu tamanco de pompom (como Rob descrevia), então pouco antes de acabar a escovação ela disse:
- O tempo está esfriando, se continuar assim teremos que transferir o casamento para a área interna da mansão. Gostaria tanto que fosse nos jardins, a Sra. King me garantiu que mandará trazer rosas da Pomerânia.
Ela me olhou longamente e depois suspirou, então encostou seu rosto no topo de minha cabeça e olhando diretamente em meus olhos através do espelho disse:
-Minha menina cresceu, logo será uma senhora casada e mãe de família.
- Não irei sumir mãe. Estarei na mesma cidade, só que morarei em outra casa, quer dizer em uma mansão. Sorri.
- Promete?
- Sim. Sempre estarei por aqui, não vou sumir.
Ela enxugou uma lágrima solitária e disse:
- Melhor assim, porque não deixarei de ser sua mãe só porque irá morar em sua mansão. Ser mãe é para sempre. Não importa quantos anos tiver, sempre será minha Lili.
- E sempre será minha mamãe.
Peguei a escova e saí correndo da casa em direção ao nada. Minha vontade era sumir, diminuir e sumir. Porque eu me sentia pequena e só. Essa noite me fez sentir coisas incompreensíveis para mim, eu adorei vivê-la, mas Adrià tudo para que nunca tivesse existido. Nem sei colocar em palavras a felicidade de estar novamente no colo de minha mãe, mas sentia um imenso remorso em desfrutá-lo. Pus em risco minha vida como vampira, pus em risco minha nova família, que ao contrário dos Hale nunca findaria.
Estranhamente meus pés me levaram para a casa de Esme e Carlisle, eu entrei e me sentei no sofá, fiquei apurando o ar para sentir o aroma dos dois, mas como haviam partido há alguns dias não havia mais nada. Então fui a área de serviço e peguei um bolero de Esme, inspirei o olor até que a memória do conforto de seu abraço abrandasse a enorme angústia que sentia.
Depois que estava mais calma, fui para minha casa com Emmet, entrei em meu quarto e me sentei em frente ao espelho. Peguei a escova e comecei a pentear meus cabelos, olhos castanhos e dourados bailavam em minha visão distorcida pela solitária lágrima que eu sabia jamais verter. Vampiros não choram com lágrimas.
Fiquei tão absorta em meu dilema pessoal sobre amor e fidelidade e a quem deveria rendê-los (se aos Cullen ou aos Hale) que não senti a aproximação de ninguém.
Quando dei por mim o rosto de Esme pendeu sobre o topo de minha cabeça e ela me encarou pelo espelho sorridente.
- Você sempre está linda Rose. Chegamos hoje, como não encontramos Edward achei melhor vir te ver. Ele e Emmet foram caçar. Não é mesmo? Nossa viagem foi ótima.
O fato de ter me chamado assim, provou que não era uma projeção de minha mente, ela realmente estava ali. Se fosse um devaneio ela teria me chamado como minha mãe biológica. Fui tomada pelo alívio de sua presença, o que me fez muito mais confusa. Não sabia o que desejava, se ela ou Violet no reflexo.
Ela beijou minha cabeça, aproveitando a vulnerabilidade do momento. Não costumávamos estar tão próximas desde a Polônia. Então começou
- Seu pai tinha razão, a Itália é o sonho de qualquer arquiteto. A torre de Piza é impressionante. Os Volturi souberam que estávamos na cidade e pediram que fossêmos vê-los. O castelo é impressionante, completamente pré-rafaelista. Os mármores verdes e as colunas em estilo romano são divinos.
A menção do nome me fez tremer. Será que pus todos em risco assim? Como eles souberam tão rápido? Impossível, foi apenas ontem à noite, ou a algumas noites. Não sei quanto tempo fiquei aqui perdida em pensamentos.
Esme me olhou, agora, preocupada e perguntou:
- Aconteceu alguma coisa Rose? Está tudo bem?
Eu me virei e a abracei com toda força que tinha. Ela retribui como todo carinho que sempre me dedicou. Depois suspendeu me olhar e disse:
- O que aconteceu filha?
- Saudades. Respondi com verdade.
Notas finais
Aproveitando o clima de dia das mães, um capítulo sobre as duas de Rose. Sempre quis dar a ela a oprotunidade de rever Violet e se perdoar com e por ela. Prestem atenção nos souvenires que ela levou serão muito importanrtes. Bjs :)
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